Sam estas duas linguas em Portugal, totalmente desconhecidas, ainda

nas-Universidades: o que é mui observavel: porque Universidade deve

compreender, todo o genero de estudos. Os Espanhoes conhecèram muito

bem, esta necesidade: e vemos que nas principais das-suas Universidades

ensinam, nam só estas, mas outras Orientais. Mas em Portugal observo,

que nam á noticia delas. Nese colegio das-Artes, dizem que á uma

cadeira de Grego: mas como se a-nam-ouvese, porque nam tem exercicio.

Os Seculares, que algumas vezes entram na aula, é para se-divertirem.

Os Jezuitas mosos, sam na verdade obrigados, a frequentar por-algum

tempo, a dita escola; e nos-dias santos le-se um capitulo de _S.

Joam Crizostomo_, ou coiza que o valha: mas como todos estes mosos,

estam na opiniam, que aquilo para nada serve; nenhum se-aplica a ela.

Despois de quatro anos de estudo, me-dise um, que nam sabia mais,

que esta palavra: ό δεος. Achei outro, que sabia o Padre noso, e Ave

Maria: e destes acham-se alguns: mas nenhum o sabia escrever derepente.

Finalmente nam achei algum, que soubèse explicar, quatro regras de

Grego, nam digo eu de algum Poeta, ou coiza dificultoza; mas nem

menos do-Testamento Novo, ou algum S. Padre facil. E isto observei

ainda naqueles, que tinham sido mestres de Grego: (nam por-falta de

capacidade: mas de aplicasam) e fasa V. P. a experiencia, que achará,

que nam minto. Os outros todos, ou sejam Regulares, ou Seculares,

nam tem mais noticia do-Grego, que do-_Kyrie Eleison_: e do-Ebreo,

só conhecem a palavra _Aleluia_, _Amen_, e alguns nomes proprios de

omens, ou Cidades, que se acham na Vulgata, ainda-que transfigurados: e

contentam-se com esta noticia: Antes rim-se muito, se acazo lhe-dizem,

que é um estudo necesario. Mas a verdade é, que aos Teologos é

indispensavelmente necesario, sabèlo; senam a todos, ao menos aos que

se-internam na Teologia, e a-ensinam. Senam diga-me V. P. se nacèse

uma dificuldade, sobre a inteligencia do-texto Ebreo, ou Grego, ou de

algum S. Padre; como muitas vezes sucede, conversando com os Erejes,

ou disputando entre os Catolicos; a quem se-á-de proguntar? será

necesario escrever, a Fransa, Roma, Veneza, Napoles &c. para saber a

resposta? que coiza mais vergonhoza! E que diriam aqueles Teologos, se

ouvisem, que aqui nam avia, quem os-intendèse? Mas disto falaremos, em

outra parte. Por-agora só digo, que asim como ao Teologo é necesario,

intender Latim, para ler a Vulgata Latina; asim tambem é necesario,

intender os textos Originais, de que esa Vulgata se-tirou.

Persuadem-se muitos, e alguns mo-confesáram, que só a Vulgata merece

autoridade. isto é, porque nam estudáram a materia. Convem todos os

Teologos de boa doutrina, que o Concilio Tridentino, quando declarou

_Autentica_, a nosa Vulgata; só a-preferio, às outras Vulgatas

Latinas: mas nam a-preferio, nem a-comparou com as Fontes, Grega, e

Ebraica. De que vem, que estas conservam oje, toda a sua autoridade: e

por-elas se-emendou a Vulgata, no-tempo de Sixto V., e Clemente VIII.

e ainda oje se-pode emendar, em varias coizas, que nela advertem os

omens doutos. E por-este principio fica claro, que pode aver grande

utilidade, e necesidade, em consultar as ditas Fontes.

Alem da-Escritura, temos os SS.Padres da-Igreja Grega, que escrevèram

na sua lingua. O Teologo todos os instantes tem necesidade, de

consultar estes Originais: porque as Versoens nem sempre sam fieis.

Muito mais porque nam se-ignoram as controversias, que todos os

dias nacem, nas escolas Catolicas, sobre as palavras dos-Padres, e

dos-Concilios. Alem diso, o Jurista tem necesidade do-Grego, para

alcansar o verdadeiro sentido, de muitas constituisoens Imperiais;

que foram escritas em Grego. O Canonista o mesmo: vistoque deve

procurar, as fontes da-Diciplina Ecleziastica: a qual pola maior parte,

determinou-se nos-Concilios: muitos dos-quais celebráram-se no-Oriente:

e ainda algum no-Ocidente, em Grego; como o Florentino no-tempo de

Eugenio IV. Tambem para intender, o Decreto de Graciano, que se-funda

todo, sobre a antiga Diciplina: e os mesmos PP. Gregos. O Medico tem

necesidade do-Grego, para intender as obras, de Ipocrates: para ver o

que dise Galeno, e Areteo de Capadocia; que, despois de Ipocrates, foi

o melhor Medico dos-seus tempos: e alguns outros. É tambem necesaria

ao Medico, para intender a Anatomia, e suas partes, cujos nomes sam

Gregos: nam avendo Ciencia, em que se-encontrem mais nomes Gregos: como

tambem para intender os nomes, de muitas infermidades. Nisto cuido

que convirám sem dificuldade, os mesmos Peripateticos, se quizerem

examinar o cazo. Mas eu paso adiante, e digo, que as Letras Umanas, e

ainda a mesma Latinidade, nam se-pode intender bem, sem alguma noticia

do-Grego. Os Romanos adotáram infinitos termos Gregos: cuja propria

significasam nam se-alcansa, sem saber o Grego. As mesmas declinasoens,

a dezinencia de muitos Verbos, pedem alguma erudisam Grega. mas isto só

o-intende, quem se-familiariza com o Latim.

Quanto pois ao estudo do-Grego, e Ebraico, nam é ele tam embarasado,

como o-pintam. Os Mestres podiam brevemente dar, alguma noticia

do-Grego: nam se-cansando em explicar, todos os preceitos de Gramatica

(este é o defeito de muitos Profesores). Basta ao principio saber, as

declinasoens, e conjugasoens, sem falar nos-dialetos. as anomalias

podem-se deixar; e basta que com o tempo se-observem, quando se-vai

lendo. As outras partes da-Gramatica basta velas uma vez, para

as-saber procurar, quando será necesario. Despois, toma-se um autor,

que tenha junto a versam Latina: e em cada voz se-deve observar, se é

raiz, ou nam: e, quando duvidar, procurálo no-Dicionario. Em um mez,

ou dois, pode conseguir, bastante noticia destes principios. Despois,

com o socorro do-Dicionario, e da-versam, deve comesar a explicasam,

de algum autor facil. Os Istoricos, e Prozadores devem ser preferidos,

aos Poetas; como mais dificultozos. Um omem douto ensina, que se-deve

seguir este metodo. 1.ᵒ Ler os Estratagemas de _Polyeno_, que sam mui

claros: os Dialogos de _Luciano_, e principalmente os Characteres

Ethici, de _Teofrasto_; que é elegantisimo. 2.ᵒ os dois famozos

Istoricos, _Xenofonte_, e _Erodoto_: que encerram as delicadezas,

e grasa, da-lingua Atica. 3.ᵒ a estes podem seguir-se _Tucidides_

Istorico; _Isocrates_, e _Demostenes_ Oradores; e _Platam_, Filozofo

o mais eloquente, e culto da-Antiguidade. Quem chegar a intender

bem estes, tenha a consolasam, que sabe bem Grego. Pode-se aprender

alguma noticia, dos-costumes Gregos, nas obras de _Ubbo Emmius_, e

_Joannes Meursius_, que sam os que melhor explicáram, as antiguidades

Gregas. Outros querem, que se-comece polo _Evangelho de S. Lucas_, e

_Atos dos-Apostolos_; ou polas fabulas _de Esopo_: despois _Luciano_,

_Erodoto_, _Xenofonte_, _Isocrates_: e no-fim _Omero_, e _Plutarco_,

e alguma coiza de _Demostenes_. Um, e outro destes metodos se-pode

seguir: mas agrada-me mais o primeiro. O principal ponto está, que

nestes principios, quando se-acham lugares dificultozos, deve-se pasar

adiante: e ler os autores saltiados, por-nam enfastiar os rapazes.

Sobre os Poetas, nam me-canso em dizer muito: porque quem tem noticia

da-lingua, tem ja bastante luz para ver, como se-á-de regular, na sua

lisam. Concordam os omens da-profisam, que o melhor Poeta, e mais claro

é, _Aristofanes_: mas é bastantemente obceno. Onde, quem nam souber ler

tais coizas, sem perigo; deverá pasar a _Omero_, e _Esiodo_, que sam

os mais facis entre os Eroicos, e que se-servem de expresoens, mais

claras. Verdade é, que nestes Poetas, á uma dificuldade nam pequena,

que consiste, na variedade de dialetos, e inflexoens, e mudansas de

palavras, proprias-dos Poetas: mas a isto se-supre com o Dicionario,

que explica distintamente, estas palavras. Aconselham os doutos, que,

antes de ler Omero, leia-se o _Everhardo Feithio_==_Antiquitates

Homericæ_: no-qual ele descreve a istoria, dos-tempos Eroicos, de que

trata _Omero_. Dos-Poetas Eroicos pode-se pasar, aos Bucolicos, que sam

_Moscho_, _Bion_, _Theocrito_; para aprender o dialeto Dorico, em que

escrevem: servindo-se do-pequeno Dicionario, de _Schrevelius_. A melhor

edisam destes autores é, a de _Daniel Heinsio_: em que, alem das-deste,

se-acham tambem as notas, de _Scaligero_, e _Casaubon_. Despois pode

ler, os Poetas Tragicos: entre os quais os mais facis, e judiciozos

sam, _Euripides_, _e Sophocles_: porque os outros, só os-podem

intender, os que sam bem praticos da-lingua. E como suponho, que o

estudante neste tempo, (isto nam se-faz nas primeiras escolas: mas

quando um é ja adiantado no-Latim) terá ja noticia, das-leis da-Poezia;

pode, lendo estes autores, ir descobrindo, e bebendo na sua fonte pura,

as grasas da-Poezia, em todos os generos.

Uma coiza porem é necesario advertir, nam só aos dicipulos, mas tambem

aos mestres, porque neste defeito caiem muitos profesores publicos:

e vem aser, que nam se-cansem em mandar compor, aos pobres rapazes:

porque esta lingua, que oje é morta, nam é necesario falála, basta

intendèla com facilidade. Encontram-se muitos, que explicam aos

rapazes, trez, ou quatro regras de Grego, e obrigam-nos a compor,

paginas inteiras. Onde vem a cair no-mesmo defeito, que em outra carta

ja dise, (falando da lingua Latina) de quererem, que os rapazes sejam

mestres, naquela materia, na qual nam chegáram ainda aser, dicipulos.

Em uma palavra: a experiencia ensina, que é absolutamente necesario,

intender Grego: e que é inutil, o escrevèlo; quando um omem nam está

empregado em coizas, que o-pesam.

Sobre as Gramaticas, á oje tantas, que é superfluo, que eu diga coiza

alguma. Muitos sam apaixonados, pola de _Clenardo_, com as notas

de _Antesignan_: porque nela se-acha com facilidade, o que só com

grande trabalho se-busca, em outros livros: e tambem ensina o uzo

da-Gramatica, reduzindo-a aos preceitos gerais: o que ilustra muito

o intendimento. Mas oje asentam todos, que a de _Lanceloto_, a que

chamam de _Porto real_, é a mais facil, e as reflexoens mais solidas.

mas é em Francez, ou Italiano, e nam é para o cazo. Alem destas, á

infinitas mais modernas, que sam mui boas, e Latinas. Um amigo noso

compoz a Gramatica Grega, e Ebraica, cada uma em duas folhas de papel

grande, com uma clareza inimitavel, para um principiante. Procuro

que a-imprima, para utilidade dos-Portuguezes. é sem duvida a mais

facil, que tenho visto nesta materia. No-cazo que o estudante nam

tenha, quem o-aconselhe, na eleisam de livros; deve sempre apegar-se

a uma Gramatica, das-mais modernas, e mais breves: principalmente

compostas por-alguns seculares, Inglezes, Olandezes, Alemaens, e alguns

Francezes. Porque como estes nam seguem as leis, que obrigam alguns

Regulares, a nam se-desviarem, dos-seus antigos metodos; procuram

sempre, melhorar no-metodo, e na inteligencia: como a experiencia

me-tem mostrado. E nestas letras Umanas é sem duvida, que os Seculares

excedem muito, aos Regulares.

Sobre o Dicionario, parece-me que o estudante deve servir-se,

do-_Scapula_, que costuma reduzir todos os _derivados_, à sua _raiz_.

Isto ao principio cauza dificuldade, porque se-ignora, que coiza

os _derivados_ acrecentam, sobre _a raiz_; para os-poder separar,

e procurar no-seu lugar. Mas neste cazo basta procurar, no-fim

do-Lexicon, a voz como se-acha; que ali se-ensina, de que raiz vem, e

aonde se-deve procurar. E desta sorte aprende um omem, o verdadeiro

modo de separar os _derivados_ das-suas _raizes_: e fica com a

inteligencia, de uma quantidade de termos: coiza que vale infinitamente

nesta lingua. Se o estudante pouco a pouco aprendèse de memoria, as

_raizes_; facilitaria muito este estudo, e intenderia mais depresa os

_derivados_. O ponto todo está em nam deixar totalmente este estudo,

por-todo o decurso da Latinidade, e Retorica: porque aindaque sò

expliquem, duas regras cada dia, no-cabo de um ano, adianta-se muito.

A Gramatica Ebraica é muito mais facil, que a Grega. Antigamente

escreviam os Ebreos, sem vogais: e o verdadeiro modo de pronunciar,

pasava de pais a filhos, por-tradisam: e ainda oje a Biblia, que

se-conserva nas suas sinagogas ou escolas, costuma escrever-se sem

vogais, como eu vi muitas vezes. Mas despoisque os Ebreos, tornáram

do-cativeiro de Babilonia, e, com permisam de _Artaxerxes Longimano_,

restablecèram, a Igreja Judaica, e todos os ritos da-sua antiga

religiam: entam, segundo se-prezume, se-inventáram os ditos pontos,

ou vogais. Certa coiza é, que nese tempo os Ebreos, tinham perdido

a sua lingua, e só intendiam a Caldeia. Onde nas sinagogas, que

entam se-introduzîram, era necesario, que um interprete explicáse em

Caldeo, as palavras da-Biblia, que outro proferia e lia em Ebreo.

E como uma lingua morta, nam se-pode aprender, nem ensinar, sem

vogais; fica claro, que os doutores, que com Esdras publicáram, uma

edisam correta da-lei, os-inventáram, para poderem ensinála, aos que

ignoravam a lingua. É porem provavel, que entam somente inventasem, as

cinco vogais: e nam tantas, como ao despois se-uzáram. Esta noticia

conservou-se, nas escolas dos-Gramaticos, ou escolas de ler: (entre os

Ebreos avia escolas de Gramatica; e outras de Teologia) mas nam nas

escolas de Teologia: porque os omens doutos, que ja sabiam a lingua,

nam necesitavam diso. Mas despois da-ultima destruisam de Jerusalem,

no-ano 70. de Cristo, tendo-se espalhado os Ebreos, por-todo o imperio

Romano; e muito principalmente, despois da-dispersam que tiveram,

no-tempo de Adriano; acrecentando-se todos os dias as _tradisoens_,

foi necesario escrevèlas, para se-poderem conservar na memoria, e

chegarem a todos. Isto fizeram eles, polos anos de Cristo 150.: cujo

libro chamam _Misná_; que é um corpo de toda a doutrina dos-Ebreos,

ritos, ceremonias, e religiam. A esta fizeram dois comentarios: um em

Babilonia, polos anos de Cristo 300.: outro em Jeruzalem 200. anos

quazi despois. E deste Comento, e da-_Misnà_, se-compoem os dois

_Talmudes_, que ainda oje temos.

Isto suposto, vendo os doutores, que os _pontos_ dos-Gramaticos eram

utis, para conservar a antiga maneira de ler; adotáram os ditos

_pontos_, e comesáram a servir-se deles, pouco mais ou menos, no-seculo

quinto de Cristo. Muitos suspeitam, que se-deve isto aos doutores,

da-escola de _Tiberiades_. Seja como for, o que sabemos de certo é,

que desde ese tempo, comesáram a escrever certos sinais, debaixo, e

desima das-consoantes; paraque todos os Ebreos, pronunciasem as vozes

Ebraicas, segundo a antiga tradisam. De entam para cá é, que á noticia

expresa, das-vogais[29]. Mas como os Ebreos sempre foram misteriozos;

para ocultar o verdadeiro sentido do-texto Ebreo, inventáram tanta

vogal que nam se-le, entre outras que se-lem; que esta é oje a maior

dificuldade, desta lingua. Umas vezes a mesma vogal le-se: outras, nam

se-lé: umas vezes converte-se em outra; e talvez nam se-converte: e

isto embarasa muito os principiantes.

Intendido isto, o metodo de aprender o Ebraico é, a prender a

conhecer, e unir as letras, e proferir as disoens: porque a pronuncia

diligente somente é necesaria, aos que querem falar, nam aos que

somente a-querem intender. Deixando ao principio, aquela infinidade

de excesoens, sobre a mudansa de pontos, &c. deixados os infinitos

acentos, que para nada servem: basta ter noticia, das-regras gerais,

para saber ler, e pronunciar facilmente. Daqui pasa-se às declinasoens

dos-Nomes, e seus diversos estados. A maior dificuldade está,

nos-Verbos: porque tem terminasam masculina, e feminina, o que ao

principio parece imbarasado: aindaque com o tempo, ajude muito para

intender, com quem, e de quem se-fala; se com omem, ou com molher.

Deve pois saber distintamente, quais sam os verbos _quiescentes_, e

_defetivos_. As anomalias deles podem-se deixar, porque se-aprendem com

o uzo. Esta lingua nam tem sintaxe particular: e todos os idiotismos

aprendem-se em meia ora. Daqui deve pasar a ler a Biblia, tendo

sempre prezente um Dicionario, v.g. o Compendio Hebraico Chaldaico de

_Buxtorfio_. É utilisimo servirse do-texto Ebreo, com a versam literal

de _Pagnino_, correta por-_Montano_: porque alem-de que se-aprende,

a propria significasam dos-vocabulos, tem à margem, boas notas de

Gramatica, e aponta as _raizes_. O que ajuda muito um principiante,

principalmente se a-quer buscar, no-Lexicon: e é muito necesario saber,

quais sam as raizes, para ter suficiente noticia, da-lingua. Com o

tempo observa-se a Sintaxe da-lingua, e os idiotismos, ou maneiras

proprias de se-explicar, diferentemente das-outras linguas: o que

se-reduz a poucos pontos, e se-aprende do-contexto.

Os livros que primeiro se-devem ler, sam os mais facis, como o

Pentateuco, os livros dos-Juizes, e Reis, Paralipomenon. Os Profeticos,

e Sapienciais podem rezervar-se, para outro tempo, por-serem mais

oscuros. Mas para intender estes livros, é necesario preparar-se com

a lisam, das-antiguidades Ebraicas. O Senhor de _Fleury_ publicou

um tratadinho, dos-costumes dos-Israelitas, em Francez, que tambem

se-acha em Italiano: que me-parece proporcionado, para um principiante:

e é escrito com grande atensam. Podem tambem servir, a _Politia

Judaica_==_de Bertramo_: _Respublica Hebræorum_==_de Sigonio_, _ou de

Cuneo_; que sam muito boas. Nam aponto livros de maior erudisam, porque

nam servem, para estes principios. Se a isto que dizemos, ajuntar cada

dia, a lisam de um capitulo da-Escritura, e consultar nas coizas em

que duvidar, a versam Grega dos-LXX.; ou as Concordancias de _Conrado

Kirker_; poderá conseguir facilmente, bastante noticia da-lingua

Ebraica. Isto digo, para um principiante: porque para os Teologos de

profisam, a seu tempo direi, que mais é necesario, nesta materia. Este

estudo, como tambem o da-lingua Grega, uma vez que se-intendeo, pode

continuar-se em dias alternados, por-todo o tempo dos-outros estudos,

sem perturbasam alguma: porque a estas linguas basta consagrar, as oras

menos preciozas do-dia.

Isto é, o que muita gente nam intende, ou nam quer intender, nestes

paîzes: porque quando nam tem, outra razam que dar, alegam a

dificuldade da-dita lingua, e a pouca utilidade, que dela se-tira:

aqual nam basta, para compensar o trabalho, que se experimenta em

aprendèla. Seguro a V. P. que com grande admirasam minha, ouvi

isto a alguns, de quem formára bom conceito; e que totalmente

se-desvaneceo, com este discurso. Nam acho que falasem asim, alguns

antigos-Portuguezes, que cuido sabiam um pouco mais, do-que estes, que

agora respondem asim: antes polo contrario acho, que alguns Religiozos

antigos, aplicáram-se a estas linguas com cuidado, e por-iso sam mais

conhecidos, no-mundo literario, do-que estes, com quem prezentemente

conversamos. Eu atribûo isto, à maior comunicasam que entam avia,

com os doutos das-Nasoens estrangeiras: pois só acho vestigios de

maior erudisam, quando a este Reino vinham ensinar, os Estrangeiros:

ou quando os Portuguezes îam aprender, e ensinar, fóra dele. Polo

contrario despoisque se-deixou, este comercio literario, vejo as coizas

mui mudadas.

Nam podem ser ocultos a V. P. os nomes de alguns deles: O _P. Jeronimo

Oleastro_, Dominicano Lisboense, que cuido se-chamáse _Jeronimo

da-Zambuja_, compoz um comentario Ebraico ao Pentateuco, e cuido que

a outros livros mais, se-nam me-engano; poisque averá anos, que vi

esta obra. Acho tambem citado um certo _D.Pedro_, Conego Regular, e

um Fr._Eitor Pinto_, Jeronimiano, ambos Portuguezes, por-omens mui

versados, na lingua Ebraica: ainda-que eu nam poso, formar juizo

das-tais obras, porque as-nam-vi. Mas tenho motivo para suspeitar,

que fosem omens doutos, vistoque aprendiam as linguas originais, para

comentarem a Escritura. Tambem achei um Religiozo meu, quero dizer

Observante, chamado Fr._Francisco de S.Luiz_, Lisboense, posterior

aos ditos; que floreceo no-tempo do-Concilio de Trento, e alguns

anos despois. Este tal compoz em Italia, uma Gramatica Ebreia, com o

titulo = _Globus Canonum & Arcanorum Linguæ Sanctæ, & Sacræ Scripturæ_

=: que é um livro bem voluminozo em 4.ᵒ e que dedicou ao Cardial de

Medici, impreso em Roma 1586. Este tal autor, (que, segundo diz, fora

no-seculo leitor de Leis em Coimbra, e Salamanca; e se-metèra Frade em

Espanha) dá a intender, que compuzera o livro em Italia: declarando,

que de cincoenta anos aprendèra o Ebraico, que ao despois foram as

suas delicias. Onde persuade com muitas palavras, a necesidade da-dita

lingua; e se-enfastia, contra os que a-regeitam. Com efeito o omem

parece bem informado, da-dita lingua: aindaque caise no-defeito,

dos-Gramaticos do-seu tempo; quero dizer, em fazer uma confuzisima

e mui enfadonha Gramatica; na qual quiz epilogar, quanto achou em

_Elias Levita_, e outros Rabinos: como tambem em vários autores, que o

precedèram. Mas este era defeito daquele tempo, em que nam sabiam, que

coiza era bom metodo. Contudo é verdade, que o dito P. fez um grande

progreso, na dita lingua, em uma idade maior; naqual tambem estudou

Teologia: e entre ocupasoens de predicas, e outras semelhantes, segundo

diz, nunca deixou, este estudo tam util.

Esta noticia que dou do-tal autor, é porque ignoro, se V. P. tem

noticia dele, visto escrever longe de Portugal. Acrecento a este,

o _P. Macedo_, Portuguez, e da-mesma Religiam: omem de prodigioza

memoria, (aindaque nam de igual juizo) segundo mostrou nas suas famozas

concluzoens, que defendeo em Veneza, de que V. P. tem boa noticia: que

sabia a lingua Grega, segundo me-diseram alguns dos-seus Religiozos,

da-mesma Provincia.

Do-Grego tambem no-seculo 16.ᵒ avia mais noticia, que nam á oje, neste

Reino. Polos tempos do-Concilio de Trento, um tal _Joam Vaz_, que

foi mestre de Umanidades em Salamanca, sabia bem Latim, e Grego: e

no-mesmo tempo _Fernando Soares_, (que compoz uma Gramatica Latina,

para uzo do-Duque de Bragansa, impresa em Evora no-ano 1572.) era

suficientemente informado, do-Grego. Ajunto a estes, o Bispo _Jeronimo

Ozorio_, o qual nam só aprendeo fóra de Portugal Latim bem, mas teve

bastante noticia do-Grego, e Ebreo: e podia nomiar alguns outros, que

agora nam me-ocorrem. Doque se-segue, que naqueles tempos, os mestres

Portuguezes, nam seguiam o parecer, que agora vejo tam comum, deque

estas linguas Orientais devam desprezar-se. Onde, com estes exemplos,

podiam muitos aplicar-se, a coizas mais utis à Republica. Eu apontei

algum exemplo: pode ser que ajam muitos mais, e de linguas peregrinas:

porque eu nam escrevo esta istoria.

Serîa tambem justo, que o estudante com o tempo, aprendèse Francez,

ou Italiano, para poder ler as maravilhozas obras, que nestas linguas

se-tem composto, em todas as Ciencias; de que nam temos, tradusoens

Latinas. Antigamente intendiam os doutos, que era necesario saber

Latim, para saber as Ciencias: mas no-seculo pasado, e neste prezente,

dezenganou-se o mundo, e se-persuadio, que as Ciencias se-podem tratar,

em todas as linguas. Parece-me que com muita razam: porque a maior

dificuldade das-Ciencias consiste, em serem escritas em Latim, lingua

que os rapazes nam intendem bem. Onde nam só sabem mal a materia,

mas o tempo que deviam empregar, em a-estudar, ocupam em perceber

a lingua. Com esta advertencia, os Inglezes, Olandezes, Francezes,

Alemaens &c. comesáram a tratar todas as Ciencias, em Vulgar. Esta oje

é a moda. Os melhores livros acham-se escritos, em Vulgar: e qualquer

omem que saiba ler, pode intender na prezente era, todas as Ciencias.

Nam que isto seja totalmente, ideia nova: porque me-lembro, ter lido

uma carta de _Paulo Manucio_, escrita a _Diogo Hurtado de Mendonsa_

Embaixador Cezareo, dedicando-lhe os livros Filozoficos de Cicero;

emque se-diz, que o maior impedimento das-Ciencias é, serem tratadas

em linguas estrangeiras, digo, Latina &c. O que o dito _Manucio_, com

toda a paixam que tinha à lingua Latina, nam dezaprova. Desorteque

ja no-seculo 16.ᵒ, emque o mundo comesou a abrir os olhos, em muitas

coizas, pensavam asim: o que porem somente se-executou, nestes ultimos

tempos. De certo tempo a esta parte, os nosos Italianos comesáram

a seguir, o método dos-Transmontanos. Comesou isto, traduzindo os

livros Inglezes, e Francezes: despois, pasáram a compor originalmente.

Desorteque quem oje quer ter, muitas noticias boas com facilidade,

deve intender Francez, ou Italiano. Este estudo nam pede grande tempo,

podendo servir-se dos-livros Latinos, que tem a tradusam literal

Franceza; como sam o _Terencio_, e _Oracio_, de Madame _D’Acier_, e

de um Jezuita &c. E estes mesmos autores Latinos, se-acham traduzidos

em verso Italiano, defronte do-Latim, por-dois omens mui doutos

de-Italia. O Italiano é mais facil. Mas nam intenda V. P. que eu sou

tam inexoravel, que queira carregar os pobres rapazes, com tanto pezo.

nada aponto, que nam vise executar a muitos rapazes: e poso afirmar a

V. P. que estes estudos, nam sam dificultozos em si mesmo: o mao metodo

os-pinta dificultozos. Contudo nam obrigo: aponto somente a utilidade.

Quando o estudante nam se-ache, com este dispozisam, pode rezerválo

para tempo mais descansado. Fico às ordens de V. P. como seu criado &c.

[Illustração]

NOTAS DE RODAPÉ:

[29] _Veja-se Ludovicus Cappellus in Arcano punctuationis, contra J.

Buxtorf. Filium._

[Illustração]

CARTA QUINTA.

SUMARIO.

_Discorre-se da-utilidade, e necesidade da-Retorica. Mao metodo com

que se-trata em Portugal. Vicios dos-Pregadores: que sam totalmente

ignorantes de Retorica. Que absolutamente deve deixar o antigo estilo,

quem quer saber Retorica._

Verdadeiro metodo de estudar (Vol. I) · 第 12 / 32 段