Mas antes de concluir isto, quero dizer alguma coiza, sobre as edisoens

deses mesmos autores, que tambem é noticia util. Em todo o cazo

devem-se procurar, as melhores edisoens destas obras, as mais corretas,

e com boas notas. Todos os livros comentados _ad usum Delphini_,

aindaque uns sejam melhores que outros, comumente, e principalmente

para o noso cazo, sam bons. mas devem ser da-edisam de Pariz, ou de

Olanda: porque as de Italia modernas, nam prestam para nada. Emporta

muito ter o texto correto, para se-nam-enganar, neste particular. Os

Olandezes sam famozos. As edisoens de Grevio, e Gronovio, e outros

omens doutos, aindaque nam tenham notas, (mas quazi todas as-tem) sam

corretisimas. a edisam de Cicero por-_Verburgio_, _cum notis variorum_,

em Olanda é exatisima. Em Inglaterra tambem fizeram algumas boas:

e a imprensa de Inglaterra, e Pariz é mais negra, que a de Olanda:

e por-iso agrada mais. Isto que digo das-edisoens, se-intenda, nam

só dos-Prozadores, mas dos-Poetas. O que porem encomendo muito ao

estudante é, que, nestes principios, se quer saber Latim, leia poucos

livros: mas eses que escolher, leia-os tantas vezes, e com tanta

atensam, como se ouvesem de ser eles, o seu unico estudo. na segunda

vez achará menores dificuldades: e asim nas outras. Isto basta, para

ser um grande Latino. Nem aconselharei a rapaz algum, que leia os

Poetas. Para saber Latim, é escuzado, e serve de impedimento: na

Retorica é melhor que se-leiam: mas é melhor quando sam grandes. Porem

por-nam deixar de dar metodo, na leitura dos-autores, direi brevemente

o modo: e servirá, para os que se-quizerem aplicar totalmente a isto.

Digo pois, que os que quizerem aplicar-se à leitura dos-Poetas, podem

fazèlo, despois de ter feito estas preparasoens: procurando somente,

os mais estimados polos doutos. Para intender estes é necesario, ler

algum tratado, que explique a Mitologia dos Antigos: e que nos-de

uma noticia breve das-fabulas, à que eles todos os momentos aludem.

Isto posto, deve-se ler _Ovidio_ nas _Metamorfozes_, e _Fastos_, em

que explica toda a Mitologia: despois as _Eroidas_, que sam as suas

melhores obras, e as mais facis. as outras podem-se rezervar para

outro tempo. Despoîs, ler _Virgilio_ todo atentisimamente: ao qual deve

seguir _Oracio_, nas suas _Odes_; melhor direi, todo, porque é um autor

inimitavel. Querem muitos, que com este se-leia, _Gracio Falisco_,

_Olimpio_, _e Nemesiano_, Poetas Bucolicos: aindaque na verdade sejam

muito inferiores, a _Oracio_. E finalmente, _Estacio_, e _Lucano_.

Isto basta para ter, uma grande noticia de Poetas: principalmente

lendo-se, com a devida atensam. E quem tiver bem estudado os ditos,

pode, sem mais mestre, ler qualquer dos-outros, que se-oferecer: mas

apontarei alguns. Quem pois quizer ler amores, veja _Ovidio_, _de

Arte amandi_, _Catûlo_, _Tibûlo_, _Propercio_: que sam todos no-seu

genero famozos. Os melhores satiricos sam, despois de _Oracio_, que é

o mestre; _Juvenal_, e _Persio_. _Marcial_ é um autor, que entre mil

coizas insulsas, tem algumas boas. agradam mais aos omens inteligentes

de Poezia, e Latinidade os Epigramas de _Catûlo_. Quanto a _Lucrecio_,

e _Manilio_, sam juntamente Filozofos, e Poetas: e o primeiro sempre

teve, e ainda conserva, muitos admiradores; e é um puro Latinista.

Nisto se compreende, o melhor da-Antiguidade.

Sobre as edifoens á pouco que dizer. Todos estes autores foram

comentados, para uzo do-Delfim de Fransa, por-ordem de Luiz XIV.

Estas edisoens sam melhores que as antecedentes: e as concordancias

que se-fizeram, de cada um destes autores, valem infinito, para a

inteligencia dos-vocabulos da-lingua: pois mostram os diferentes

uzos, e a forsa das-expresoens. Alem das-Delfinas, á outras

edisoens anteriores, que tem seu merecimento. Por-pouco que um omem

se-familiarize com os livros, e consulte os Bibliotecarios impresos,

e trate os omens que sam verdadeiramente doutos; conseguirá todas as

noticias necesarias, para se-regular na eleisam dos-livros, e edisoens.

Mas quem quizer ler estes autores, advirto-lhe, que os-nam-leia

seguidos, sim interrompidos: pois nem tudo neles é igualmente bom.

Onde, devem-se colher as coizas melhores: porque esta sorte de leitura

agrada: uma longa leitura enfastia, e só serve para um omem, que

nam fasa outra coiza. Nam aconselho, que se-expliquem Poetas nestas

escolas: mas que aja uma ou duas separadas, em que somente se-trate

esta materia.

E ja che falamos de livros, necesarios para a inteligencia do-Latim,

deve tambem o estudante saber, de quais se-deve servir, para compor

&c. Nisto á muito abuzo; porque comumente alguns aconselham livros,

que nam prestam. O _Cardial Adriano_ = de _Sermone Latino_; _Huberto

Gifanio_, nas suas Observasoens, _Tomaz Linacer_, sam autores famozos,

para ensinar o modo, de escrever bem: principalmente o ultimo.

_Enrique Estevam_, e o _Vossio_, escrevèram bem sobre as palavras,

que nam sam Latinas, ou que o-parecem. O _Ducange_ fez um belo

Dicionario, _de Infima Latinitate_: que oje se-acha mui acrecentado,

polos Beneditinos de S. Mauro, e cuido que sam, alguns seis tomos de

folha. O Dicionario Etimologico de _Vossio_, pode dar grande e fundada

noticia, da-Latinidade. _Nizolio_, e _Carlos Estevam_, compoz cadaum

seu Dicionario, para as vozes que se-acham em Cicero: mas o ultimo é

melhor, que o primeiro. Para ter noticia de toda a Latinidade, e ver o

uzo dos-vocabulos, é necesario consultar, o Tezoiro da-Lingua Latina,

de _Roberto Estevam_. 4. tom. para os rapazes, pode servir o _Calepino_

de Facciolati, que é mais breve. Para ver as diferensas das-palavras,

é utilisimo _Anzonio Popma_, e o P. _Vavassor_ Jezuita, e tambem o

_Borrichio_. Para saber o uzo, e forsa das-Particulas da-Latinidade,

é famozo o _Stevvechio_, e despois dele o P. _Turselino_, da-edisam

do-_Facciolati_. Os mestres podem ler o _Tomasio_, e _Schvvartio_,

que sam amplisimos. As Fraseologias nam as-aconselho a ninguem: mas

das-melhores, é a de _Manucio_, que compendiou as de Terencio, e

Tullio: e melhor que este, o _Pareo_, que acrecentou as de Plauto: e

fez mais outras obras utis, para a Latinidade. Acham-se mais alguns

autores, como o _Schorus_, _Cellarius_ &c. que escrevèram nestas

materias: mas estes que apontamos, sam os melhores. E estas noticias

bastam ao principiante: as outras aprenderá com o tempo.

Tenho dito o meu parecer, sobre o modo facil de aprender, a boa

Latinidade. Mas antes que acabe, direi a V.P., que para conseguir

este fim, e saber compor com facilidade, conduz muito, ter a

memoria cheia de muitas especies. Sem ela nada vale a aplicasam:

vistoque a nosa ciencia nada mais é, que a simplez memoria, do-que

temos estudado. Ninguem duvîda, que a memoria com o exercicio

se-aperfeisoa, principalmente nos-rapazes: e que todo o trabalho,

que nisto se-poem na mocidade, serve muito, para quem á-de seguir

os estudos. Mas a dificuldade está, em saber cultivar a memoria.

Quem obriga os rapazes, a aprender muito verso, e muita arenga;

faz-lhe mal, cuidando fazer-lhe bem. Eu comparo a memoria, cheia de

semelhantes ideias, a uma livraria grande, cujos livros nam estam nas

estantes, mas amontoados no-meio, e polos cantos: quem nela procura

um livro determinado, nam o-encontra: mas ofrecem-se-lhe cem mil,

que nada fazem ao cazo. Damesma sorte a memoria mal regulada: quando

lhe-pedem uma ideia, ofrece tantas, e tam fóra do-propozito; que é

o retrato da-confuzam: de que nace, que nunca se-aprendem bem, as

outras Ciencias. Isto suposto, deve cuidar o mestre, em exercitar

a memoria dos-principiantes, em algumas determinadas materias.

Primeiro, acostumálos a dizerem em breves palavras a lisam, que ám-de

explicar. Despois, explicará aos ditos, alguns pasos seletos de

autores, principalmente Poetas: v.g. alguma das-fabulas de _Fedro_,

ou _Ovidio_: mas curtas, e sempre agradaveis; pois só asim entram.

Nestas, os rapazes devem dizer primeiro, o que contem: despois,

poco a pouco ir repetindo, todas as palavras: com o tempo pode-se

aumentar, o numero dos-versos. E este exercicio pode-se fazer dois,

ou trez dias da-semana. Quando o rapaz tem algum exercicio; entam tem

lugar, servir-se de metodo, nas coizas que decora. Onde tera cuidado

de lhe-ensinar, algumas descrisoens, algumas exortasoens, ou-breves

orasoens &c. mas primeiro explicar-lhas bem: pois sem iso é querer, que

pronunciem como papagaios. Nisto nam devem molestar os rapazes, com

pancadas: mas animálos com premios, a que decorem bem algumas coizas:

remunerando ou louvando, os-que o-fazem melhor: sempre coizas utis, e

que posam servir com o tempo. Mas deve cuidar muito o mestre, de nam

permetir aos rapazes, a leitura destes livros de _Fraseologia_, antes

banilos, como coiza mui prejudicial. Sam càpas de romendos, cadaum de

sua cor, que nam podem fazer coiza boa. cauzam preguisa aos estudantes:

e arruinam o bom gosto da-Latinidade. Devem-se escolher as descrisoens

&c. nos-mesmos livros que estudam: e mandar-lhe aprender as frazes,

nos-mesmos autores que traduzem. O mais é madrasaria, e ignorancia.

Tenho ainda outra reflexam que fazer: é esta, sobre o falar Latim nas

escolas. Nisto á dois vicios: alguns falam sempre a sua lingua: de que

vem, que saiem das-escolas, sem saber dizer, um comprimento Latino: e

este é o defeito, que reina em Portugal. Outros, que pola maior parte

sam Polacos, Ungaros, Alemaens, obrigam a falar sempre Latim: ainda

antes de intenderem bem Latim. Tambem isto é um grande defeito: pois

se os que sabemos bem Latim, nam podemos falar com dezembaraso; que

fará um rapaz, que ainda o-nam-sabe! Esta é a razam, por-que vemos

muitos destes Estrangeiros, (e eu vi tambem molheres) que falam Latim

corrente. mas que Latim? um Latim tal, que é melhor nam intendèlo.

Para falar Latim depresa, servem-se de frazes barbaras, e termos

vulgares: e enchem a cabesa com aquilo, em modo tal, que em nenhum

tempo podem deixar, o dito estilo. Nam sei que grasa tem cansar-se,

para escrever Latim bem, e cansar-se tambem, para falar Latim mal: nem

menos intendo, que necesidade aja, de falar semelhante Latim. Quem á-de

fazer jornadas, por-paizes Estrangeiros, se sabe bem Latim, nunca tem

dificuldade em se-explicar, se acazo tem algum uzo. que o-fale mais ou

menos depresa, iso nada emporta. Nem menos aprovo, aquela afetasam de

alguns Portuguezes, que, querendo falar Latim com algum Estrangeiro,

estam meia ora a considerar, um periodo Ciceroniano: e desprezam as

vozes vulgares. Este tambem é outro defeito consideravel. Se os que

falam Portuguez afetado, nam se-podem suportar; que faram os que falam

com afetasam, o Latim? O Latim das-conversasoens deve ser, o mais

natural de todos. o ponto está ter palavras puras: a sintaxe delas

deve ser natural, e clara. V.P. nam verá afetasoens em _Terencio_, ou

_Plauto_, ou _Fedro_, porque falavam com estilo familiar. A lingua

Latina tem isto de bom, que se-caza com a elevasam, e naturalidade.

Onde, devemos saber aplicar o estilo, à materia; para conseguir o fim,

de falar com muita naturalidade, e nam falar mal.

Isto supposto, parece-me que deve aver nas escolas, algum exercicio de

Latim: mas requerem-se algumas cautelas. Primeiro, nam se-deve falar

Latim, senam na ultima escola da-Latinidade, ou da-Retorica: quando ja

os rapazes, intendem bem o Latim. Em segundo lugar, nam devem falar

Latim sempre, mas em dias determinados. Primeiro, podem ensinar-lhe

a dizer, alguns comprimentos de uma, e outra parte: despois, pode-se

introduzir algum Dialogo, sobre a materia que se-estuda: em que de uma

parte, um rapaz progunte alguma coiza: da-outra, responda outro, sempre

em Latim. Mas primeiro deve o mestre explicar, como isto se-deve fazer:

e ser ele o primeiro, a dar exemplo. E nam deve obrigar todos, a que

falem no-mesmo dia: mas comesar polos melhores: despois por-turno os

outros, em dias determinados: avizando-os primeiro, para que venham

preparados. Desorteque cada estudante ousa falar muitas vezes, os

outros: e asim vá aprendendo, para quando lhe-chegar a sua vez. Pode o

mestre falar a miudo, algumas coizas Latinas, com algum dos-estudantes,

que forem mais capazes, ainda fóra dos-dias asinados: tendo cuidado, de

falar bem; e ensinar-lhe sempre, o como se-deve falar. Desta sorte pode

ajudar muito, os estudantes: principalmente se souber excitar entre

eles, a emulasam, louvando muito os que o-fazem bem, e remunerando-os.

Este é o verdadeiro metodo, de ensinar a falar Latim. Comesando desta

sorte, mais facilmente o falarám, nas escolas da-Filozofia: e deste

modo aquistarám aquela facilidade, que é necesaria, a quem á-de seguir

as letras.

Isto é o que me-ocorre dizer, sobre o estudo da-lingua Latina: poderia

acrecentar muita coiza; mas estas bastam, para o que se-quer. Prouvera

a Deus, que estas se-puzesem em execusam; entam me-diria V.P. se

me-enganava eu no-meu conceito. Deixando para a vista outras razoens,

com que podia persuadir, o que digo; insinuarei uma bem clara. Entre

tantos que se-aplicam, ao estudo da-Lingua Latina, mostre-me V.P.

quantos sam capazes de se-apontarem, como exemplo de boa Latinidade.

Examine V.P. quantos autores tem cá, nos seus paîzes, que componham

Latim, como milhares, que eu poso apontar, nos-Reinos estrangeiros; e

ainda alguns em Espanha, que escrevéram asombrozamente. Se me-mostrar

um ou dois, que nam ignoro que aja, asente que o-nam-trouxeram

das-escolas; mas custou-lhe boas fadigas em caza: ou talvez porque

saîram fóra do-Reino, e tratáram, com quem lhe-abrise os olhos, como

o Bispo Ozorio &c. Quazi todos os outros falam Latim das-escolas. E

tantas testemunhas, que todos os dias saiem das-escolas, provam bem,

que esta ignorancia, é influencia do-mao metodo.

Disto podia eu citar muitos, e muitos exemplos, se mo-nam-impedise

a modestia. * * * porque aindaque tenham doutrina, e talento, o

mao metodo que bebéram na mocidade, impede o aproveitamento. Certo

Religiozo douto, devendo dar conta de si, em um congreso erudito,

queixando-se de lhe-nam-terem dado, certos papeis, concluia asim:

_Quæ ad nostram faciunt historiam monumenta omnia: sive scripta,

sive transcripta, sive præscripta; sive congesta, sive digesta, sive

indigesta; peto, expeto, repeto: posco exposco, reposco: quæro,

exquiro, requiro: flagito, efflagito: oro, peroro._ Todo o corpo

do-discurso era semelhante. Nam sei se se-pode fazer, coiza pior:

e apostarei eu, que os seus Religiozos doutos, seram os primeiros,

a condenar este Latim. O pior é, que afetando tanto, saber a forsa

dos-Verbos, enganou-se em alguns. Porque o _flagito_, e _efflagito_,

nam só significam, pedir com istancia, mas pedir com injuria[26], e com

pouca vergonha: o que suponho, ele nam quiz dizer. Tambem o _peroro_,

nunca ouvi, nem achei em autor Latino, que significáse _pedir_. tambem

_Orare monumenta_, é fraze que nunca achei nos-Latinos. Os primeiros

trez nomes significam a mesma coiza, no-noso cazo: pois ele nam pedia

cazas, nem estatuas; mas coizas escritas: e asim o _sive_, parece mal

inserido. Damesma sorte o _congesta_, nam se-opoem, a _digesta_, e

_indigesta_; pois a cadaum destes se-pode aplicar: sendoque é generica.

As outras examinará V.P. com mais vagar, que eu nam tenho. E nam

somente os que se aplicam, a diferentes materias, mas aqueles mesmos,

que se-empregam na Latinidade, muitas vezes nam sam iguais. v. g.

_Antonio Rodriguez da-Costa_, Conselheiro do-Vltramar, que escrevia

Latim com muita facilidade, esquecido ás vezes de simesmo, escreve

algumas cartas Latinas, fóra do-estilo familiar, que paresem orasoens

academicas. Mas pior que este, o Marquez _Manoel Teles da-Silva_, e

o _Conde de Vilarmaior_, os quais ambos tropesam terrivelmente nesta

materia, de elevasam afetada. O primeiro, na carta com que aprova, os

Epigramas do-P. Reis, que comesa _Cum nullum_ &c. uza de um estilo, que

ainda nam vi coiza mais impropria: O segundo, nas cartas que escreve,

a _Antonio Roïz da-Costa_, é afetado por-um novo modo; e inclina

muito para a declamasam, demora-se muito com os lugares comuns, e nam

observa, o verdadeiro estilo epistolar &c. Confeso a V.P. que lendo, e

examinando Cicero, nam achei nele nem orasoens, nem cartas afetadas.

Somente na idade de prata é, que comeso a ver, a afetasam, porque ja

degenerava a eloquencia. De que concluo, que os que lem bem polos

Antigos, e sabem imitálos, escrevem com muita naturalidade, e no-mesmo

tempo sublimidade. Quando porem nam se-lem os Antigos, ou, lendo-se,

nam se-faz como se-deve; nam se-pode fazer coiza boa. o que, como asima

dizia, nace do-mao metodo, de quem ensina.

Quando em um paîz, florecem com grande aplicasam as Artes, é coiza

observavel, que saiem muitos excelentes. No-tempo de _Cicero_, nam

só ele falava bem Latim; mas avia uma infinidade que o-falavam, com

a mesma pureza, e grasa; e muitos Oradores, de grande merecimento.

Se V.P. tira das-cartas de _Cicero_, os nomes de muitos, que

lhas-escrevèram; entre elas, e as de _Cicero_, nam achará diferensa

alguma. O bom gosto naquele tempo, era tam rafinado, que _Cezar_, e

_Atico_, repreendèram alguma palavra de _Cicero_: e o modo de orar

deste ultimo, nam agradava a _Bruto_, a _Calvo_, e _Pollio_, que

eram omens doutisimos. Toda a magestade, e pureza da-lingua de _Tito

Livio_, nam o-livrou, de ser censurado em Roma, por-aqueles delicados

criticos. O grande _Asinio Pollio_ achou neste escritor, certas

palavras, e estilo do-paîz em que nacèra; que os omens cultos de Roma,

nam lhe-queriam perdoar. tal era o delicado gosto daqueles Senadores,

e Cortezoens! Os mesmos Romanos, tinham um demaziado escrupulo, neste

ponto. Um Comico, que no-teatro errava uma silaba, e um acento, levava

grandisimas surriadas[27]. tal era a fineza do-juizo daquela Republica!

Se damos um paso mais atraz, e entramos em Atenas, onde as Artes,

e Ciencias tanto florecèram, que dali se-espalháram, polo resto

da-Europa; acharemos, que nesta grande escola, até a gente plebeia,

polo costume de ouvir orar, e falar bem em publico, aqueles grandes

Oradores; tinha aquistado, um tam exquizito gosto da-lingua, que

quando os Oradores subiam à tribuna, temiam ofender, com alguma menos

boa expresam, orelhas tam delicadas. Avia muitos anos, que o Filozofo

_Teofrastro_ abitava em Atenas, e tinha feito um particularisimo

estudo, de falar a sua lingua, segundo o dialeto de Atenas: comtudo

iso diz a Istoria, que da-pronuncia de uma palavra, conheceo que era

estrangeiro uma molher, que vendia legumes em Atenas[28]. Achamos na

istoria Grega, mil outros exemplos, que confirmam, quam geral era,

o bom gosto da-eloquencia, entre os Gregos. Nas asembleias publicas

da-Grecia, em que se-recitavam Poemas, e Istorias ao Povo; sabemos, que

muitas vezes regeitáram algumas, por-nam chegarem, à fineza de outras.

_Dionizio_ o velho, Rei de Saragosa nam era mao Poeta: vistoque com uma

das-suas compozisoens, alcansou o premio, nos-jogos da-Grecia, digo,

nos-jogos Olimpicos: mas porque mandára primeiro duas, que nam chegavam

ao merecimento, da-terceira, foi escarnecido por toda a asembleia.

Deixo outros Antigos.

E, se decemos a estes ultimos seculos, e ao prezente, poso mostrar a

V. P. com toda a evidencia, que em Londres, Amsterdam, Leiden, Pariz,

Roma, Napoles, Padoa, Bolonha, Piza, e outras muitas partes, onde

se-cultivam os bons estudos; os que neles sam instruidos, por-pouco que

saibam, aquistam um particular gosto, em todo o genero: e que neses

mesmos empregos de Ciencias, e Artes, á infinitos omens excelentes.

Do-que manifestamente se-prova, que onde se-ensina bem, sempre á omens

grandes: e que onde os-nam-á, é uma prova manifesta, do-mao metodo, de

quem ensina.

Tenho dito a V. P., quanto a brevidade de uma carta permite, o que

me-parece deve fazer, quem quer saber Latim. Poderia acrecentar outras

coizas; mas esas sam somente necesarias, aos que querem ser insignes,

nas letras umanas. Para V. P. que é tam versado nelas, o que digo,

parece ainda superfluo: e para os-outros, muito mais: vistoque nam

acho muitos, que queiram esta gloria, e queiram conseguila, com estes

meios. Comque páro aqui: E dezejando a V. P. felicisimas festas, e boas

intradas de anos; com todo o corasam me-asino &c.

[Illustração]

NOTAS DE RODAPÉ:

[21] _Adversar. l. 7. c. 19._

[22] As palavras de Furio Albino citado por-Macrobio, sam estas. _Nemo

debet antiquiores Poetas ea ratione viliores putare, quod eorum versus

nobis scabri videntur. Ille enim stilus maxime, tunc placebat: diuque

laboravit ætas secuta, ut magis huic molliori stilo acquiesceret.

Itaque minime defuerunt, imperantibus etiam Vespasianis, qui Lucretium

pro Virgilio, & Lucilium pro Horatio legerent._ Petrus Crinitus, de

Poetis Latinis.

[23] _L.3. v. 248._

[24] _Aeneid. I. v. 67._

[25] _Itaque video visum esse nonnullis, Platonis, & Democriti

locutionem, etsi absit a versu, tamen, quod incitatius feratur, &

clarissimis verborum luminibus utatur, potius poema putandum, quam

comicorum poetarum: apud quos, nisi quod versiculi sunt, nihil est

aliud quotidiani dissimile sermonis._ Cicer. de Orat. ad M.B. num.20.

[26] _Expectatione promissi tui moveor, ut admoneam te, non ut

flagitem: misi autem ad te quatuor admonitores, non nimis verecundos:

qui metuo, ne te forte flagitent: ego autem mandavi, ut rogarent._

Cicero Epist. famil. _l._9. _ep._ 8.

Quintil.--_Efflagitasti quotidiano convitio, ut libros jam emittere

inciperem &c._

[27] _At in his (numeris) si paullum modo offensum est, ut aut

contractione brevius fieret, aut productione longius; theatra tota

reclamant._ Cicero _l.3. de Oratore n.50_.

[28] Cicero, _de Claris Orator. n.46_.

[Illustração]

CARTA QUARTA.

SUMARIO.

_Necesidade das-linguas Orientais, principalmente Grega, e Ebraica,

para intender as letras Umanas: mas muito principalmente, para a

Teologia. Modo de as-aprender. Utilidade da-lingua Franceza, e

Italiana, para ser erudito com facilidade, e sem despeza._

Meu amigo e senhor, Talvez esperava V. P. que eu nesta carta, pasáse

direitamente à Retorica; e comesáse a discorrer sobre aquela materia,

que nos-ocupou bastante tempo; e nos-deu ocaziam, para fazer muitas,

e mui utis reflexoens. Tambem esa era a minha intensam; se me-nam

ocorrese outra coiza, que julgo ser igualmente necesaria: e que

nam nos-ocupará, senam uma carta, e nam mui longa. Falo do-estudo

das-linguas Orientais: que muitos desprezam, porque nam tem juizo, para

conhecer o bom, rezolusam para o-emprender, e metodo para o-conseguir.

Eu nam falarei de todas: mas das-duas mais principais, e que todos

os omens doutos reputam, que sam sumamente necesarias: e como tais

se-ensinam, em quazi todos os estudos, da-Europa culta: tais sam a

Grega, e Ebraica.

Verdadeiro metodo de estudar (Vol. I) · 第 11 / 32 段