Nós nam temos Istoricos Latinos que escrevesem, os seus costumes

patrios: sam os Gregos de quem recebemos, o que oje sabemos: porque

como os Gregos escreviam, para os seus Gregos, aos quais nam eram

notos, os estilos Romanos; tinham cuidado de lhe-advertir, tudo

o que era necesario, para a inteligencia da-Istoria. _Polibio_

deixou-nos uma particular descrisam, da-_Diciplina militar_,

dos-_Costumes domesticos_, das-_Leis publicas_ dos-Romanos. _Dionizio

de Halicarnasso_, dos-_Sacrificios_, _Magistrados_, e toda a politica

da-Religiam, e do-Estado. _Plutarco_ tambem nos-ensina muita coiza.

Mas como nem todos sam capazes, de lerem estes autores, por-iso será

bom recorrer, aos Compendios. _Joam Rossino_ fez uma boa colesam

das-Antiguidades Romanas, em Latim: que oje se-acha acrecentada

por-_Dempsterus_. Estima-se pola brevidade, a Republica Romana

do-_Cantelio_: mas eu intendo que é melhor o _Neuport_=_Rituum qui olim

apud Romanos_ &c. Quem quizer maiores noticias pode-as ler, no-_Corpus

Antiquitatum Romanarum do-Grevio_, em 12. tomos fol. que compreende

todos, os que escrevèram nesta materia: e onde pode consultar-se alguma

dificuldade, que ocorrer.

Tambem é bom, ter alguma noticia das-Religioens diversas dos-Antigos:

e para isto pode servir, _Alexander Sardi_ = _de Moribus_, _& Ritibus

Gentium_. 12.^o ou _Joannes Bohemus Aubanus_ de _eodem_ 16.^o ou

_Van-Dalen_ = _de Oraculis Ethnicorum_. 4.^o o mesmo _de Idolatria_

4.^o obra moderna: ou _o Barclai_ = _Icon Animorum_; para os costumes

das-Nasoens: ou o P._Pomei_ = _Pantheon Mythicum_. Nam aponto outros

livros, porque sam em linguas vulgares estrangeiras: aindaque estes,

talvez sejam os melhores, porque expoem tudo com clareza, e brevidade.

O mesmo digo da-Fabula, a que aludem todos os momentos, os Antigos.

É necesario saber, esta mitologia dos-Antigos, para os-intender; e

buscar autores que a-expliquem, sem a qual noticia, falarám muito, e

nam saberám nada. Dos-Modernos é melhor, o _Jovet_ = _Istoria de todas

as Religioens do-Mundo_ = 3. tomos de 4ᵒ que se-acha em Francez, ou

Italiano.

Esta noticia é necesaria, senam aos rapazes, que se-divertem com outras

coizas, ao menos aos mestres, que explicam os ditos autores: e, se

a-nam-tiverem, por-forsa ám-de dizer muito des-propozito: e mostrarám

ensinar, o que nam chegáram a intender. Ja sei, que chegando V.P. a

este emportante ponto, me-proguntará, qual mestre conheso eu, que

tenha toda esta erudisam: ou se me-persuado, que um rapaz, que saie

das-escolas, e que nam tem no-corpo mais, que quatro anos de Filozofia,

asim ou asado, quando entra a ensinar nas escolas baixas; seja capaz

desta doutrina tam necesaria, para fazer bem a sua obrigasam? A isto

respondo, que quanto à capacidade, ninguem lha-pode negar: pois este

pezo nam é maior, que as suas forsas. Bastaria que o-obrigasem, e

ensinasem a estudar isto que digo, mostrando-lhe a necesidade que á de

o-intender, para poder fazer a sua obrigasam; que ele faria tudo, o

que era necesario. E se acazo introduzisem, este metodo nas escolas,

e o-protegese quem pode fazèlo, continuarseîa, damesma sorte que

se-conserva, o metodo ordinario. Reconheso, que serîa alguma coiza

dificultozo, persuadir a muitos omens mosos, que, aindaque ensinem o

Latim, nam só tem pouca noticia dele, mas nem menos tem noticia, do-que

é necesario, para o-saber: o que serîa facil provar-lhe, fazendo-lhe

uma exata lista dos-requizitos; e proguntando-lhe, se os-posuiam.

Mas emfim tudo se-vence, tratando-se com pesoas de juizo, piedade,

e docilidade: e as razoens que apontamos, poderiam obrar muito, se

tivesem a paciencia, de as-quererem ler, e intender.

Suponho pois que o estudante, tem alguma noticia, do-que asima

apontamos, ou que polo menos a-tem o mestre, que seja capaz de

lhe-explicar em poucas palavras; e apontar-lhe os livros, onde se-podem

beber estas noticias: (as quais podem-se ir aprendendo no-mesmo

tempo, que se-explicam os autores, explicando uma ora cada menham,

alguma parte delas) Apontarei agora o modo, com que se-deve regular,

no-estudo da-Latinidade. Em primeiro lugar, deve somente procurar de

saber, a propriedade dos-vocabulos: para o que deve buscar autores,

que falasem mui naturalmente, e com estilo familiar. Para isto nam á

melhores autores que _Plauto_, e _Terencio_: porque ainda-que em alguns

lugares sejam, ou paresam oscuros; falam porem com estilo familiar, e

com fraze naturalisima, e longe de ornamentos: que é toda a dificuldade

na inteligencia da-lingua. Certamente _Terencio_ é um autor, que nam

tem preso, pola pureza da-lingua: e tambem é certo, que estes Comicos

parecem mais Prozadores, que Poetas. Onde nam poso asás rir-me, quando

ouso a alguns mestres responder, que _Terencio_ nam é para rapazes,

porque é oscuro. Os que asim falam, nam leram _Terencio_, nem sabem

Latim. Proguntára-lhe eu, se é mais oscuro _Terencio_, que _Oracio_: ou

se prezumem eles, que este, e _Virgilio_ sejam mais claros, e proprios

para rapazes, doque um Comico. Se bem considerasem estes, quanto é

necesario para dizer, que intendem _Oracio_, e a _Eneide_; certamente

julgariam diferentemente. Mas com estes omens nam falamos. O certo

é, que _Cicero_ julgou,[25] que a poezia Comica, nam se-distinguia

da-Proza, senam em ser escrita como verso: mas nam na dificuldade. e

tambem ninguem duvîda, que a Proza é mais facil, que qualquer Poema.

Em todo o cazo devem-se ler estes autores, com os Comentarios: e o

mestre deve suprir com a explicasam; nam traduzindo muito; mas ese

pouco com tal clareza, que nam fique dificuldade alguma ao rapaz. Quem

nam souber explicar bem _Terencio_, pode contentar-se com _Fedro_.

Este autor tratou argumentos simplezes, que sam certas fabulas, com

uma disam pura e natural: e, aindaque Poeta, parece Prozador; e para

principiantes é famozo. É estimada a edisam, que o douto _Gronovio_

nos-deu, de _Plauto_. Sobre _Terencio_ muitos tem escrito, mas nem

todos bem. Com razam se-dise, que _Farnabio_, _e-Minelio_, afetando

brevidade, deixáram mil coizas emportantes. _Madame le Fevre_ publicou

a mais bela tradusam, e notas sobre Terencio, que até o seu tempo

tinha aparecido: mas é em Francez, lingua que nem todos intendem:

como tambem _Monsieur le Fevre_ seu Pai, tinha ilustrado eruditamente

_Fedro_. No-estado prezente servirmeîa da-edisam de qualquer deles, _ad

usum Delphini_, &c. que parece ser a mais toleravel, das-modernas.

Estes primeiros autores nam se-devem ler correndo, como muitos fazem;

mas devem-se ler, e reler atentisimamente. v.g. lendo _Fedro_ deve o

mestre, nam deixar de explicar coiza alguma, que seja necesaria, para

intender a lingua. Onde deve notar e explicar, todas as dificuldades

de Sintaxe: porque aindaque na Gramatica se-expliquem, somente lendo

os autores se-intendem bem. E terá cuidado, de reduzir a construisam

embarasada e figurada, ao modo de falar natural: explicando a Figura,

em que se-funda. Despois, notará a propriedade das-palavras. E

quando encontrar algumas, que paresam sinonimas, deve ensinar, se

verdadeiramente o-sam, ou que coiza acrecentam. Em terceiro lugar

deve ensinar-lhe, a pronunciar bem o Latim: que é o que comumente

nam sabem em Portugal: pois ainda os mesmos mestres, pronunciam as

palavras corrutamente. v. g. Em _Omnis_ nam proferem o _m_: os _tt_

finais pronunciam como _dd_: o _m_ final pronunciam como _n_: e entre

_e_, e _a_ sempre pronunciam superfluamente um _i_. v. g. _Meam_,

_Deam_ &c. os _ss_ finais como _x_. O que sem duvida é grande defeito

da-pronuncia: deixando por-agora outros erros, que se-podem notar. Alem

diso oferecendo-se-lhe algum termo, do-Latim antigo, deve ensinar,

o modo antigo de pronunciar. v.g. _Maxumus_, _Militiai_ &c. Estas

noticias dam muita erudisam, a quem estuda o Latim: e como muitos nam

fazem cazo delas, por-iso ignoram, o que é Latim, e todos os momentos

encontram, dificuldades novas. Isto que digo de _Fedro_, deve-se

intender de qualquer outro autor: Mas isto é o que muitos nam intendem:

antes querem ler muito, intendendo poco; doque saber bem a lingua, com

um só livro. De que vem, que a Mocidade nam aprende nada, com o seu

metodo: pasam-se os anos nas escolas baixas, que se-deviam empregar, em

coizas mais utis: pois na verdade quem nam reflete, como deve, no-que

le, tanto emporta que leia _Cicero_, como os atos de _Maria Parda_.

O que emporta muito no-principio é, nam dar aos rapazes livros, que

tenham periodos longos: mas breves, e com fraze natural. Por-esta razam

alguns Italianos doutos, e despois deles os Francezes, aconselham, que

no-principio devem-se fugir, as istorias difuzas, os Oradores, e coizas

semelhantes: especialmente os Poetas Eroicos &c. e que é melhor, tirar

de Cicero, e outros autores elegantes e claros; tirar, digo, alguns

paragrafos melhores: indireitar as frazes, e transpozisoens dos-Verbos:

e polas na ordem natural. Sendo breves, e elegantes, podem os rapazes

intendè-las, e tirar daî grande utilidade. A experiencia mostrou-me,

que diziam bem: pois vendo eu, que alguns rapazes nam intendiam, os

discursos compridos, e as figuras da-orasam; feita esta experiencia,

intendèram tudo facilmente.

Mas isto que a estes aconselho, acha-se feito ja por-omens doutos: os

quais escolhèram entre os autores, as coizas mais facis, e melhores,

e reduziram-nas a capitulos diferentes: v. g. às quatro virtudes

principais: para que os rapazes, nam só aprendam a lingua, mas tambem

o moral das-asoens. A maior parte sam de Cicero: mas tambem se-acham

de outros autores. Sam trez livrinhos pequeninos, impresos em Pariz:

e tambem se imprimîram em Italia na Cidade de Pezaro, em 1740. Estes

livros valem um mundo, e tem aproveitado a infinitas pesoas: e quem

ajudáse com eles os seus dicipulos, conheceria a verdade do-que

dizemos. E por-esta mesma razam digo, que a leitura dos-Comicos,

é infinitamente util aos rapazes: v. g. a de _Terencio_. todos os

periodos sam breves: rarisima vez se-acha transpozisam mui oscura: e

os modos de falar, sam tirados do-estilo comum: motivo polo qual, sem

trabalho se-intendem. _Plauto_ tambem serîa bom: mas como tem bastantes

palavras antigas, ou escritas no-antigo modo, nam é tam proprio, para

principiantes. _Oracio_ nam o-aconselho: nem outros semelhantes,

que pedem maior erudisam. Em lugar de _Oracio_ nestes principios,

aconselharia _Catúlo_, que é nam só purisimo Latinista, mas mui

natural, e com infinitas grasas. Devem-se separar, os poemas impudicos,

e explicar os outros, com todo o cuidado, e diligencia.

Mas, supondo que o mestre, nam tem os ditos livros, direi o que

deve fazer, despois da-leitura de _Fedro_, e _Terencio_. Deverá

pois explicar em outra clase, as cartas de _Cicero_, a que chamam

Familiares, com os comentários de _Manucio_, ou _ad usum Delphini_,

que sam otimas: nam todas juntas, mas saltiadas. Onde deverá preferir,

as que escreve a sua molher _Terencia_, e a seu liberto _Tiro_: como

tambem as de recemendasam. Estas sam as mais naturais, breves, e

claras: desorteque nam enfadam o estudante: porque sam compostas

naquele estilo familiar, que todos intendem. Vi nam á muito tempo uma

pequena colesam, destas mais facis epistolas de Cicero, cuido que

impresas em Padova; que eram otimas, para estes principios. Despois,

na mesma clase pode ler, os Istoricos mais facis: como sam _Caio

Cezar_, _Cornelio Nepote_, _Veleio Paterculo_. Estes trez escrevèram

no-seculo da-mais pura Latinidade, e sam incomparaveis: principalmente

os dois primeiros, que sam sumamente naturais, e claros. Mas estes

autores nam se-devem ler seguidos: sim interrompidos, e tirando deles

os lugares mais singulares. Se o estudante, tiver feito aproveitamento

no-_Terencio_, e tiver ja lido alguns extratos, reduzidos à ordem

natural; basta explicar-lhe estes autores, sem mudar a ordem

das-palavras: paraque pouco a pouco das-coizas facis, vá intrando nas

dificultozas. E terá o mestre a advertencia, de nam obrigar sempre os

rapazes, a que traduzam de repente: mas em dias alternados. E comumente

deve ordenar-lhe, que escrevam em caza a sua tradusam: e quando vierem

à escola, fará que dem a razam, de tudo o que traduzîram. Este modo

de ensinar, aproveita muito, e imprime as coizas na memoria. polo

contrario o metodo comum, de dizer de cór, é falar como papagaio,

e exposto a mil enganos. Onde deverá o mestre cuidar muito, em que

escrevam as suas tradusoens; pois com o tempo serve isto, para ensinar

a traduzir bem: que é o que muitos nam sabem.

Quando o estudante chega a este estado, pode-lhe ordenar, que componha

alguma coiza: mas sempre asumtos breves: pola maior parte tirados

das-obras, que traduz: o que pode fazer trez vezes na semana. Eu

comecaria polas cartas: que é um modo de compor facil. Uma ou duas

vezes darlheîa as partes: tendo cuidado de escrever primeiro, uma

carta Portugueza pequena, e com ordem natural. Ou traduzir uma pequena

de Cicero, que serîa o mais acertado: obrigando-os a que compuzesem

outra semelhante, sem porem se-servir em tudo, das-mesmas palavras,

e fraze. Despois, daria outra carta facil, sem partes: obrigando-o a

que as-buscáse: e ensinando-lhe o modo. Em 3.^o lugar daria uma carta

mais elegante, sem a ordem natural: porque se acazo se-acostumam, a

escrever o Latim conrespondente ao Vulgar, nunca saberám fazer outra

coiza. Despois diso, pasaria a outro asumto mais dificultozo, e sempre

breve. v.g. a discrisam, ou carater, de uma pesoa determinada: no-que

é singular _Velleio Paterculo_. ou obrigalosîa a referir, algum pequeno

suceso: dando-lhe primeiro o Portuguez; e deixando-lhe a incumbencia,

de pòr o Latim. Isto é quanto pode fazer um rapaz, no-dito tempo: e se

o-chega a fazer, nam faz pouco. Com o tempo, e quando for lendo outros

autores mais dificultozos, é que lhe-podem dar outros asumtos: porque

o rapaz, em quanto estiver na Latinidade, deve fazer duas coizas,

compor, e traduzir. Deve porem o mestre fugir, de lhe-dar pensamentos e

sentensas oscuras, por-tema; porque as-nam-intendem: e neste tempo nada

mais se-procura, que ensinar-lhe que coiza é, pura Latinidade. Quando o

mestre ler as compozisoens, deve emendálas, e dar-lhe a razam, de tudo

o que faz. Ao principio somente cuidar, na propriedade: com o tempo

ensinar-lhe tambem, o que é elegancia, e particular idiotismo da-lingua

Latina: mostrando-lhe como se-deve traduzir, tanto de Latim em

Portuguez, como de Portuguez em Latim. Serîa bom que o mestre algumas

vezes, traduzise ele mesmo, algum paso de _Cicero_ &c. e o-propuzese

ao estudante por-tema: nam lhe-deixando ver o original, senam despois

de feita a compozisam: paraque asim reconhecese o moso a diversidade,

entre o que tinha feito, e devia fazer. Mas isto somente se-pode

fazer, nas clases altas, e quando ja o rapaz tem noticia bastante,

da-Latinidade: porque desta sorte, é que se-aprende, qual é o estilo

dos-bons autores.

Pode, despois dos-ditos autores, explicar os Istoricos mais

dificultozos: que sam _Tito Livio_, _Salustio_, ou tambem _Quinto

Curcio_. O qual _Curcio_, aindaque se-suponha ter escrito, no-reinado

de Vespaziano, que era a idade de prata; ou, como diz Scioppio, o

principio da-idade de bronze da-lingua Latina; contudo, é escrito com

a mais pura Latinidade do-seculo de Augusto: e o estilo é belisimo.

_Livio_ é mais copiozo, e magestozo, e digno da-grandeza do-Imperio

Romano. Quanto a _Salustio_, convem todos, que as suas frequentes

Ellipsis, e o demaziado laconismo, fazem-no duro, e oscuro: mas é

escritor de sumo pezo, e singular eloquencia. Nam me-parece porem,

proprio para rapazes, polas muitas e mui fortes metaforas, e bastante

oscuridade. Onde o meu parecer serîa, que dos-dois primeiros,

se-tirasem alguns lugares escolhidos, para se-explicarem aos

principiantes. Na mesma ultima clase podem-se explicar, alguns extratos

das-orasoens de _Cicero_, principalmente das-mais facis, que sam: _Pro

Archia Poeta: Pro lege Manilia: Pro Marcello_: e as _Catilinarias_.

Mas obrigar um rapaz, a que as-vá traduzindo seguidamente, e

inteiramente, como costumam muitos, é intender mal o negocio. Nenhum

omem pode ler com gosto, uma inteira orasam de Cicero, se nam é um

grande Latino, e Retorico: e á orasoens de Cicero tam longas, v.g. as

_Verrinas_, que ainda um omem douto, nam as-le, sem se-cansar. Ler uma

pagina oje, e no-seguinte dia outra; é ainda pior: porque se-perde o

sentido, e nam se-intende o que se-explica: de que nace o enfado, nam

só nos-rapazes, mas nos-grandes. Onde o melhor é, procurar alguns pasos

breves, e escolhidos: uma descrisam: um inteiro argumento: um inteiro

periodo do-exordio. O mesmo digo, daqueles que explicam, o _Somnium

Scipionis_, o livro _de Senectute_, _Amicitia_, &c. quem faz isto, nam

intende o que faz. Os ditos livros nam se-podem intender, sem saber a

istoria: da-antiga Filozofia: o que nam deve, nem pode um rapaz. Eu,

tendo lido algumas vezes Cicero inteiramente, só o-cheguei a intender,

(se é que o-intendo) quando li em _Laercio_, e _Plutarco_, a istoria

das-setas dos-Filozofos. Os que introduziram o estilo comum, e que

achamos no-livro a que chamam, _Selecta_, certamente ou nam refletîram,

ou nam intendiam isto: porque dam aos rapazes, livros muito diferentes,

e que só sam para omens adiantados. _Salustio_ nam é para rapazes.

Ouvîram dizer, que os livros pequenos de Cicero, eram perfeitisimos

no-seu genero; e sem mais reflexam os-traduzem. Mas polo mesmo

principio deviam explicar, os livros de _Oratore ad Q. Fratrem: Orator

ad M. Brutum_: e os trez _de Officiis_: que sam a melhor coiza que ele

fez, neste genero. Acho porem outras razoens, que se-devem atender,

quando se-fala com principiantes.

Quando o rapaz traduz estes autores mais dificultozos, com a mesma

ordem que se-acha neles, entam é precizo, que escreva a sua tradusam.

A razam é, porque estes autores uzam de muitas transpozisoens, frazes,

e figuras, as quais nem sempre se-podem traduzir literalmente: e asim

querer que um rapaz, de repente ache o verbo, ou perifraze propria,

é loucura: e vale o mesmo que ignorar, que coiza seja tradusam. Os

mestres ao seu bofete, muitas vezes nam acham, a palavra propria,

para a boa tradusam: como mostra bem o famozo Monsieur _Huet_, no-seu

livro==_de Claris Interpretibus_==: em que, aponta os defeitos, em

que caîram os omens grandes: E se isto sucede aos doutos; como é

posivel, que o-fasa derepente um principiante? O que suposto, deve

o mestre dar-lhe tempo, para escrever em caza a sua tradusam: ou ao

menos na escola. E despois ensinar-lhe, como se-deve traduzir bem de

Latim em Portuguez: porque intendido isto bem, conhece-se como se-devem

converter as mesmas frazes Portuguezas, em outras Latinas: ao que

chamamos, boa Latinidade. Por-esta razam digo, que o que fez aquele

livro, a que chamam, _Pai Velho_; que poem a tradusam de Virgilio, ou

o que quer que é, palavra por-palavra; merecia ser asoitado polas ruas

publicas: e tambem os mestres, que se-servem dele: e o livro, queimado

em prasa publica. Nam á coiza mais prejudicial para a Mocidade, que

semelhantes livros: pois mostrando ensinar a traduzir, sam a cauza,

de que se-nam-saiba. O pior é, que os mestres praticam o mesmo, que

diz o livro, nas suas tradusoens. Cujo metodo é tal, que ou os rapazes

estejam dez, ou vinte anos nas escolas, nunca intenderám Latim: como

na-verdade sucede: pois traduzindo todos Virgilio, nenhum o-intende.

Achei-me em certa parte, emque um celebre mestre traduzia, o principio

do-quarto livro da-Eneida: _At Regina gravi jamdudum saucia curæ_ &c.

palavra por-palavra: e tam pago de si mesmo, como se fose, o melhor

interprete do-mundo. Dise eu a um-discipulo, que escrevese a tradusam

do-seu mestre, e despois lha-mostráse, proguntando-lhe, se era boa

aquela tradusam. Asim o fez: e o mestre, cuidando que era coiza

do-dicipulo, foi o primeiro que dise, que nam prestava para nada. Pois

esta, replicou o discipulo, é a que V.P. ontem dise. Envergonhado o

mestre, quiz saber, quem lhe-dera o conselho, e respondeo: Que uma

coiza era, compor na banca, e outra, explicar na escola. Que parvoice!

esta propozisam vale o mesmo que dizer: _Que na banca se-deve compor

bem: e na escola explicar mal._ A falar a verdade quem explica a

rapazes o dito livro, ou coiza semelhante, sabe mui pouco: porque pola

maior parte aquelas palavras, nam se-devem tomar no-proprio sentido,

mas metaforicamente: e explicálas segundo o sentido do-Poeta. E

por-este motivo torno a dizer, que os Poetas, principalmente Eroicos,

nam sam para rapazes, que estudam Latim. Confeso a V.P. que ainda

nam ouvi um mestre, que na escola disese: _Esta palavra, nam se-pode

traduzir bem: é necesario explicála asim._ mas todos seguem o comum

estilo, que é muito mao. Onde a minha regra geral é esta: Quando ouso

um mestre, que, explicando livros eloquentes, traduz asim: _Petrus_

Pedro: _Amat_, ama: _Joannem_, a Joam: sem mais outro exame asento,

que nam sabe Latim. Deve o mestre praticar outro estilo, se quer que

aproveite aos estudantes: e o melhor é, o que aponto. Isto basta

por-agora, sobre a tradusam.

Quando digo, que se-devem ler estes livros, nam quero dizer, que

se-leiam todos: mas um, ou outro dos-que aponto; que sam os melhores,

e mais proporcionados ao noso cazo. Mas tambem é certo, que, lendo-os

como digo, quazi se-podem ler todos. O principal ponto está, em seguir

a ordem que insinuo: porque sem ela, nacerá confuzam e impedimento,

como todos os dias observamos no-metodo vulgar: sendo certo, que

primeiro se-devem ler, os que faláram a lingua naturalmente, doque os

que abundam muito de metaforas, e mil outros ornamentos dificultozos.

Mas nem menos isto basta, se o mestre nam explicar o que deve. Onde

o ponto de toda a consideram consiste, no-modo da-explicasam. Quando

pois o estudante estiver adiantado, deve o mestre, alem das-coizas que

asima apontei, explicar outras. v.g. a sintaxe dificultoza: a forsa

das-palavras: o modo de pronunciar antigo: e notar outras coizas, que

se-encontrarem. Porque os rapazes das-escolas maiores devem saber,

nam só o que é Latim puro, mas tambem as outras particularidades, que

constituem a elegancia. Acham-se autores, que se-servem de palavras

Latinas, e contudo nam tem aquela particular grasa, a que chamam os

inteligentes, boa Latinidade. Consiste esta às vezes, em uma fraze

inteira: tambem em um diminutivo, ou frequentativo &c. coizas que

dam infinita grasa ao estilo Latino; e frequentemente se-acham,

nos-melhores autores Latinos, como _Terencio_, _Cicero_ &c. Onde,

este deve ser o cuidado do-mestre: mostrálas quando ocorrem: e notar

a particular grasa que tem, naquele lugar. Deve tambem notar o modo,

com que os bons autores comesam, ou acabam o discurso, ou os unem

entre si, quando compoem uma orasam inteira. Esta uniam consiste às

vezes, em uma conjunsam: às vezes, em outra particula. E este é o

particular estilo da-boa Latinidade: que necesariamente se-deve ensinar

aos rapazes, paraque o-executem, quando compoem. Alem disto, quando

encontrar alguma expresam oscura, ou porque é fundada em uma fabula, ou

coiza semelhante, deve explicála. Desta sorte se-intenderám os autores,

e se-poderá tirar proveito da-sua leitura. E isto é o que um mestre

douto faz, com muito gosto, porque conhece a utilidade, que daqui

rezulta: e só entam pode repreender com justisa os rapazes, quando

da-sua parte faz tudo o que deve, para os-ensinar.

Verdadeiro metodo de estudar (Vol. I) · 第 10 / 32 段