escolas: porque nem todos os mestres, tem a erudisam que aponto; e nem
todos os estudantes, sam capazes desa doutrina: E eu respondo, que nam
á coiza mais facil de se-executar. Ponha-me V. P. nas escolas outra
Arte: um bom Calepino dos-modernos, reduzidos à grandeza do-Dicionario
do-P. Pereira; que tudo se-remedeia. Estas duas coizas sam sumamente
necesarias. A Arte comua, ensina muita coiza má: e a Prozodia, tem
muito erro. Nam distingue as idades dos-vocabulos: mas com uma simplez
estrelinha quer, que nós suspeitemos mal, de tudo o que dezagradou ao
corretor: o qual às vezes erra, como ouvi queixar os mesmos Jezuitas.
Alem diso, desterra da-Latinidade muitos nomes, que sam Latinos; e
introduz outros, puramente barbaros. Nam explica a forsa das-vozes:
nem mostra com exemplos, os significados proprios, e figurados de
cada palavra: alem de muitas outras coizas, que se-podem notar. E
asim serîa necesario, compor um Dicionario pequeno para os rapazes;
ou servir-se de algum estrangeiro. v.g. o de Danet, ou ainda melhor,
o que ultimamente se-compoz em Turin, por-ordem d’El-Rei de Sardanha,
para uzo das-escolas: que sam dois tomos in 4^o. Italiano e Latim,
Latim e Italiano: e traduzir as palavras Italianas em bom Portuguez.
Establecido isto, conheso eu entre os doutisimos Jezuitas, mosos de
toda a erudisam, e capacidade, proprios para executarem dignamente,
este emprego. Comque, tire V.P. das-escolas, os que sabem pouco; e
em seu lugar ponha estoutros: prescreva-lhe o metodo apontado: fasa
com que o executem sem epikeas, (como fez ultimamente o dito Duque de
Saboia aos seus suditos, determinando-lhe o metodo, de ensinar Latim, e
Leis &c.) e verá, com que facilidade se-reformam as escolas. Todos os
estudantes, asim como sam capazes de sofrerem, aquele mao metodo, com
mais razam receberám outro, que seja mais claro e facil, e seguiloám
com mais boa vontade. O dano desta era consiste em quererem, que um
estudante, que sabe pouco, e a quem nam ensinam a saber mais, mostre
que sabe muito; e, para o-mostrar, componha muito. Eu nam peso tanto.
Suponho que tem ja, um bom ano de Gramatica, e que tem pasado parte
do segundo ano, traduzindo de Latim em Portuguez: onde nam me parece
que peso muito, se quero que no-resto do-ano, se-empreguem em compor
Latim, polo metodo que asima digo. Este tal estudante nam è noviso,
mas adiantado; e pode com fruto aplicar-se a este estudo. Falando-lhe
em Portuguez, e compondo polo metodo que aponto; muda-se de sistema.
Nas escolas comuas sabe-se pouco, quando os-obrigam a compor: v.g. na
quarta, e terceira, em que comesam a traduzir de Latim, em Portuguez;
nesa mesma clase, e no-mesmo tempo comesam a fazer tema. E isto nam
pode produzir bom efeito. Mas neste sistema, quando se-compoem, ja o
negocio está adiantado: e vai-se adiantando mais, com a dita compozisam.
Acha-se tambem outro inconveniente bem grande, nestas escolas,
sobre isto da-compozisam; que é, obrigar os estudantes a fazerem,
ou indireitarem versos rotos: e castigálos rigorozamente, se
os-nam-fazem. desorteque ou sejam, ou nam aptos para a Poezia, todos
ám-de fazer, o mesmo numero de versos. Mostra pouco intender de
versos, quem pratîca isto: porque nam é facil, obrigar o entuziasmo
a que venha, quando quer o mestre. Mas o que mais é para rir é, que
fasam isto omens, que prezumem muito de ser Poetas, e matam gente
com as suas poezias. Falando com alguns mestres neste particular,
responderam-me que o-faziam, para que os estudantes tivesem alguma
erudisam, dos-Poetas Latinos. Proguntei-lhe, que necesidade avia
desa noticia: responderam-me: Que era necesaria, para a inteligencia
da-lingua Latina. Poisque, continuei eu, quando V.V.P.P. intendesem
bem _Cicero_, _Cezar_, _Cornelio Nepote_, _Livio_, _Paterculo_ &c.,
e pudesem explicálos com facilidade, e escrever como eles; tinham
medo de nam saber Latim; ou serîa necesario, recorrer a eses Poetas?
Aqui nam souberam que responder mais, doque recorrer ao costume,
das-Universidades da-Europa. Mas eu, que nam queria deixar fugir a
preza, pedi-lhe, que me-provasem, que nesas Universidades, emque
se-sabe ensinar, (avemos de concordar, que á algumas que seguem, o
estilo de Portugal, aindaque mais moderado) explicavam os Poetas, só
para intender a lingua: ou que obrigavam os estudantes, a que fizesem
versos como eles. Aqui ficáram calados. E, na verdade, era dificil
coiza, que quem nunca saîra de Portugal, ou nam tinha examinado com
grande atensam, os estudos estrangeiros, discorrese fundadamente sobre
eles.
Mas a verdade é, que nam á coiza mais contraria à boa razam, que
esta pratica de fazer versos. Os omens nam tem capacidade igual; e
nem todos sam capazes de tudo: antes às vezes acham-se mosos tam
rudes, que dificultozamente podem intender o Latim. E como ám-de
estes compor versos elegantes? Asentamos, que, para a inteligencia
da-lingua Latina, é loucura, obrigar a fazer versos. O mais que podem
fazer, e que eu nam reprovo, é, quando o estudante sabe bem a lingua
Latina, mandar-lhe traduzir, alguns dos-Poetas antigos melhores, como
_Lucrecio_, _Virgilio_, _Ovidio_, _Oracio_, _Catûlo_, e algum outro:
mas raro; porque nisto se-compreende o melhor. E isto para mostrar, as
frazes particulares dos-Poetas, e tambem o bom gosto da-lingua. sendo
certo que alguns destes escrevèram, com purisima Latinidade, como
_Virgilio_ nas Georgicas, e Eglogas: _Oracio_ nas Epistolas, e Satiras:
_Ovidio_ nas Epistolas às Damas ilustres.
Quanto ao Verso, é querer perder tempo, obrigar os omens a fazèlos:
e serîa melhor, empregar aquele tempo, em coiza mais util. Ouveram
omens doutisimos, e os-á prezentemente, que nam sabiam fazer versos.
No-tempo de _Cicero_ avia omens, que faziam versos, com grande
facilidade, e insignes na dita profisam: e contudoiso estavam mui
longe, do-merecimento de _Cicero_. Este grande omem nam ignorava, o
como se-faziam os versos: e com efeito alguns fez, cujos fragmentos
ainda oje existem: mas o seu talento, e a sua maior propensam era,
para a Retorica. Nam que eu julgue, que os versos de _Cicero_ sejam
maos; como muitos ignorantes, e que querem falar do-que nam intendem,
se-persuadem. Os versos de _Cicero_, principalmente os _Fenomenos de
Arato_, sam tam elegantes e tam belos, como os de _Lucrecio_: nem eu
acho diversidade sensivel entre uns, e outros: e igualmente admiro
ambos, principalmente olhando para a materia, sobre que compuzeram.
Pois se todos admiram em _Lucrecio_, explicar com tanta naturalidade,
coizas tam dificultozas, conservando a elegancia, e o espirito de
Poeta; o mesmo louvor, e polas mesmas razoens, compete a _Cicero_: o
qual com a frequencia de ler, e emendar _Lucrecio_, tinha aquistado a
mesma facilidade, e estilo. Para conhecer o que nisto podia _Cicero_,
basta lelo nas partes, em que nam é violentado, pola esterilidade
da-materia. Nam sei se se-podem achar na Antiguidade, versos mais
armoniozos, que os que ainda oje lemos, do-livro segundo do-seu
Consulado. Este bocado somente mostra bem, na minha estimasam, o que
_Cicero_ podia. Nem obsta, que _Marcial_, _Juvenal_, _Quintiliano_,
zombasem de um certo verso de Cicero: isto, como nota bem o doutisimo
_Turnebo_[21], nada prova. O que nam agradava a estes, agradava
no-tempo de Augusto: e muitos omens grandes, (como advertio um grande
critico daqueles tempos) estimavam mais os Antigos, que outros
bem nomiados[22]. Se em muitas partes, _Cicero_ nam se-asemelha a
_Virgilio_, nem por-iso perde nada do-seu merecimento. Nem menos
é semelhante _Oracio_ nas suas Satiras, e Epistolas: nem em tudo
_Lucrecio_; e com tudo sam famozos Poetas: e a naturalidade com
que se-explicam, e acomodam o verso exametro, a tudo o que querem,
é mais estimada, entre os criticos de bom gosto, doque a elevasam
de _Virgilio_. O estilo daquele tempo pedia, grande naturalidade
nas-compozisoens. E nam falta quem censure _Virgilio_, em ser tam
elevado e artificiozo nos-versos: no-que alguma coiza se-desvia de
_Omero_. Contudo ninguem nega, que, se na Eneide, e Georgica observou
bem o decoro; e sustentou a dignidade do-argumento; nas Eglogas pecou
muito, porque nam observa a simplicidade natural no-estilo pastoril:
mas procura que falem os pastores, com toda a civilidade, e arrogancia
de cidadoens: o que nam é verosimel. Mas, tornando a _Cicero_, ficaria
prejudicada a Republica de tam grande talento, se, pola Poezia, deixáse
a Oratoria. Conheceo aquele grande omem o seu talento: cultivou-o: e
saio aquele oraculo, que entam venerou Roma, e oje admira o mundo.
Esta, é uma grande lisam para os Modernos, consultar o talento; e
nunca violentar a natureza. Onde neste particular, deve-se consultar,
a inclinasam dos-rapazes: e avendo-a, explicar-lhe brevemente, as
diferentes sortes de compozisoens metricas: nam os-ocupando senam
em asumtos brevisimos: deixando-lhe toda a liberdade no-compor: mas
emendando-os, e dando-lhe distintamente, a razam da-emenda.
Até aqui tenho falado a V.P. em alguns abuzos, das-escolas deste Reino,
que impedem saber a lingua Latina. Agora falarei nos-requizitos, para
a inteligencia da-dita lingua: a falta dos-quais, nam se-deve contar,
entre os menores abuzos: e tambem apontarei o modo, comque se-deve
regular, o estudo do Latim; e a eleisam de livros, para o-conseguir
com brevidade. Parecerá um paradoxo, se eu diser a V.P. que, ainda
observando tudo quanto asima digo, nam se-pode saber Latim, (nam
digo com toda a perfeisam; porque uma lingua morta, nam se-chega a
saber bem: mas sabèlo no-melhor modo posivel) sem alguma noticia
da-Geografia, e Cronologia, e das-Antiguidades, em que entram os
Costumes, a Fabula &c. e contudo, nam á coiza mais verdadeira doque
esta. Eu nam quero sair do-livro mais uzual, que nas escolas se
explica, que é _Quinto Curcio_. Nele ocorrem todos os momentos nomes,
de Gentes, de Povos, Regioens, Cidades &c. fala-se de guerras entre
Nasoens e Nasoens. E que conceito á-de formar do-escritor, aquele que
o-explica, se ele nam sabe, se diz bem, ou mal? porque, ignorando a
Geografia, nam sabe, nem chega a compreender, em que parte do-mundo,
estejam as tais Gentes, se vizinhas, ou distantes. Como á-de o leitor
intender, as conquistas de Alexandre, se ele nam sabe por-onde foi,
que Nasoens venceo, que dificuldades superou? Alem diso, sucede muitas
vezes, que ese escritor, que o estudante le, se-enganáse nos-lugares:
e isto entam é erro sobre erro, que o leitor nam poderá decifrar. Nam
è isto cazo metafizico, mas engano bem comum em muitos escritores. _Q.
Curcio_ enganou-se muitas vezes, por-ignorancia da Geografia: _Plinio_,
e alguns outros: como admiravelmente mostra o douto Jozé Escaligero,
nos-Prolegomenos de Manilio. O mesmo _Manilio_, _Virgilio_, _Lucano_,
_Floro_ erráram algumas vezes na Geografia, e podem cauzar o mesmo erro
no-juizo, de quem for ignorante dela.
Dirmeá V. P. que este conhecimento, parece ser mais necesario, para
nam se-enganar na leitura dos-autores, doque para intender a lingua:
para a Critica, e nam para a Latinidade. Confeso, que para a Critica,
é de indispensavel necesidade: mas o que digo é, que nam pode o
estudante, intender com facilidade um autor, que trata a istoria de
um conquistador, sem a noticia dos-paîzes de que fala: e nem menos
o-poderá intender com gosto. Polo contrario, se é informado, aindaque
superficialmente, desta noticia, percebe maravilhozamente o fato:
facilita-se a inteligencia do-autor: e por-este meio a da-dita lingua.
Um moso, que ignora totalmente a Geografia, toma limpamente um nome
de Cidade, polo de um Reino, e polo de uma Pesoa: e outros destes
enganos, que vam acompanhados, da-ignorancia da-lingua. Quem nam souber
v.g. que Napoles, é nome de uma Cidade, e de um Reino juntamente; nam
só confundirá os termos, mas tambem as coizas, que a ambas se-aplicam.
E isto nam é somente dano da-Istoria, mas tambem impedimento, para
a inteligencia da-lingua Latina. Acham-se alem diso muitas Cidades
do-mesmo nome, em Regioens bem distantes. v. g. a antiga Geografia
mostra-nos na Azia muitas, com o nome de Alexandria, de Seleucia, de
Ecbatana, e bem longe umas de outras. O que quem nam sabe, persuade-se,
que se-fala somente de uma: e nam intende a materia de que se-fala.
E destes exemplos, de que abunda muito a Istoria antiga, se-colhe a
necesidade da Geografia, ainda para a lingua. Serîa coiza ridicula,
que um omem lese _Q. Curcio_, para intender as palavras, e nam para
o sentido da-Istoria: ou que, sem a inteligencia desta, prezumise
que poderia alcansar, a propriedade das-palavras. Muito mais sendo
certo, que com o socorro da-Istoria, se-intendem muitas coizas, que
sem ela é imposivel intender; e a inteligencia do-contexto abre a
porta, para se-intenderem muitos nomes. É bem vulgar aquele lugar de
Lucano,[23] em que, falando dos-Arabios, que sairam do-seu païz, diz =
_Umbras mirati nemorum non ire sinistras_ =: o que, sem Geografia, é
imposivel intender. Virgilio diz lá em certa parte[24]: _Gens inimica
mihi Tyrrhenum navigat æquor_ =: Como se-pode saber sem Geografia, que
coiza é aquele mar _Tirreno_? quem a-ignora, pode-o tomar polo mar
_Baltico_, ou _Etiopico_, ou _Pacifico_. De que vimos a concluir, que,
alem do-sentido istorico, a mesma propriedade das-palavras Latinas, nam
se-alcansa em varias ocazioens, sem Geografia.
Parece-me pois, que uma breve noticia da-Geografia, deve ser o
preludio, da-lisam dos-autores. A observasam das-principais Cidades,
de que fala o autor, que se-á-de ler: das-viagens, que fizeram os
conquistadores: os fins e limites dos-seus imperios: isto deve primeiro
observar-se. Mas porque esta noticia serîa de-minuta, se a-nam-unisem
com a noticia, da-Geografia de toda a terra; deve-se aprender esta
noticia brevemente em um Mapamundo: ajuntando-lhe a noticia da-Esfera
_Armilar_: das-divizoens do-Ceo, e da-Terra &c. O que com grande
facilidade se-pode fazer: pois, como diz um omem douto, este estudo nam
pede mais, doque olhos, e alguma memoria. Na Esfera Armilar conhece-se,
a dispozisam do-Ceo, respetivamente à Terra: no-Globo, a dos-Reinos:
e em uma carta particular, a da-Provincia, ou Reino de que se-trata.
Advertindo, que quando se-falar em alguma Cidade, deve-se notar, de
quais delas se-mudáram os nomes antigos, em alguns modernos. Acham-se
cartas, que apontam os antigos nomes, das-Cidades da-Grecia, e Italia:
e estas sam, as que principalmente se-deverám notar, para intender
os escritores antigos, que faláram destas Regioens. _Sophianus_
descreveo bem, a antiga Grecia: e _Cluverius_, a antiga Italia. E isto
é precizo saber, comparando os nomes daquelas antigas Cidades, com os
das-modernas; e procurando nas cartas modernas, os sitios das-antigas
Cidades, muitas das-quais ja nam existem. _Celario_ publicou um
belisimo Compendio da-antiga Geografia, em 2. volumes de 4.^o Tambem
compuzeram Introdusoens Latinas _Cluverio_, principalmente para a
antiga; e _Luitz_. Quem quizese maiores noticias deveria ler, o _Petrus
Bertius_==_Theatrum Geographiæ Veteris_. fol. &c. e este mesmo autor
compoz: _Veteris Geographiæ Tabulæ._ fol. &c. Este autor, que escreveo
nos-principios do-seculo pasado, é famozo. Oje á muitos modernos que
escrevèram bem, em Francez, ou Italiano. _Duplessis_, e _Buffier_
escrevèram bons Compendios; que temos oje nas ditas duas linguas.
_Jacobo Ode_ fez tambem um belo compendio Latino: e é mais moderno. Os
Senhores _Sanson_, e de _l’Isle_ compuzeram cartas Geograficas, nam só
de todas as partes do-mundo, mas especialmente, das-antigas divizoens
do-Imperio Grego, e Romano &c. E isto é o que deve fazer o mestre, e
ensinálo quando é necesario: porque desta sorte, acostumando os rapazes
a buscar na carta, que deve ter na escola, a dita Cidade; imprime-se a
Geografia na memoria, como quem brinca.
Em segundo lugar entra logo a Cronologia, que nam é menos necesaria,
para intender os autores, e fugir os _anacronismos_, ou confuzam de
tempos. Nam é necesario nestes principios entrar, nas disputas que á,
sobre os principios dos-Reinos &c. isto é negocio, que pede grande
estudo, e doutrina, e se-rezerva para outra idade. Basta apegar-se ao
calculo mais recebido e comum, que poem a vinda de Cristo no-ano 4000.
da-criasam do-Mundo: a que chamam o calculo de _Usserius_ por-ser
este autor, o que o explicou melhor. Aqui pois é necesario ler, em
um breve compendio, a serie dos-tempos, desde o principio do-Mundo,
até agora: notando os maiores sucesos, em que ano acontecèram: v.g.
Diluvio de Noé, Vocasam de Abram, Saida dos-Ebreos do-Egito, Destruisam
do-primeiro Templo de Jeruzalem, Vinda de Cristo, Paz da-Igreja
&c. Especialmente deve notar o que emporta, para a inteligencia
dos-autores, que quer explicar: e sempre que mudar de autor, deve
notar, em que tempo escreveo, e de que tempo escreveo. para o que nam
servem pouco, os Dicionarios Istoricos de _Hofman_, e _Moreri_ &c.
Quanto aos Compendios de Istoria á tantos, que é superfluo, que eu
aponte nenhum. Neste principio deve-se buscar, o mais breve. Por-iso
me-parece, que o _Petavio_ é mui longo. o _Celario_ é bom, mas tambem
nam é curto. _Turselino_, e alguns outros escrevem bem; mas em
Latim. o _Bossuet_ parece-me melhor para o principio; e acha-se em
Italiano, ou Francez. Tambem o _Valemont_, no-primeiro tomo, traz uma
carta Cronologica geral, que pode bastar para o intento. E como este
volume está traduzido em Portuguez, parece-me, que por-ele deve ler o
estudante: e o mestre pode servir-se, de quaisquer dos-apontados asima,
que sam dos-melhores. Em quanto nam aparece alguma istoria Portugueza,
proporcionada aos rapazes, que estudam nas escolas: aos quais basta
dizer, o que é somente precizo, sem tantos rodeios: o que me dizem está
atualmente fazendo, um omem douto meu conhecido.
É superfluo que eu mostre, a confuzam que nace, no juizo dos-pobres
principiantes, por-falta de alguma noticia de Cronologia: e quanto
podem errar, se derem credito a tudo, o que dizem os antigos
escritores. Eles erráram em muitas partes, por-nam terem noticia
dos-tempos: e para nós nam cairmos nos-mesmos erros, é que julgam
todos os omens doutos, que sam necesarios, estes requizitos. Um
omem que ouve falar em Alexandre Macedonio, e nam sabe, em que
tempo ele floreceo; confundiloá com muita facilidade, com Alexandre
Severo Imperador dos-Romanos. Filipe Macedonio, e Filipe Romano nam
se-distinguem polo nome, mas polo diverso tempo em que florecèram. os
dois Romanos tambem foram Reis de Macedonia: e a diversidade está, em
que foram juntamente, Imperadores Romanos, e florecèram alguns seculos
despois dos-primeiros. Esta confuzam se-aumenta, quando se-fala de
omens do-mesmo nome, da-mesma Nasam, e talvez do-mesmo tempo. Ouveram
alguns _Marcos Catoens_, _Marcos Antonios_, _Marcos Brutos_, _Marcos
Valerios_, _Marcos Ciceros_, _Apios Claudios_ &c. todos Romanos, e
alguns contemporaneos. E quem nam distingue isto, nam pode formar
conceito das-coizas. Isto suposto, alguma tintura de Cronologia é
necesaria, para intender a Istoria, e, sem a inteligencia desta, nam
se-pode intender o Latim, dos-que escrevèram nesta lingua.
Para facilitar este estudo é grande segredo, ter em caza uma carta
Cronologica, de que se-tem feito algumas Latinas, em duas folhas
grandes de papel. Acham-se umas tiradas das-obras do-P. _Petavio_,
Latinas: estas, com a diferensa de poucos anos antes de Cristo,
uniformam-se com as de _Usserius_. O _Delfini_ fez umas em Roma,
segundo a Cronologia do-_Usserius_, em 4 folhas grandes, que eu tenho,
e sam boas. _Lanceloti_ fez outras em Pariz, segundo a Vulgata, quero
dizer, segundo o _Usserius_: e sam otimas, principalmente despois de
Cristo. O P. _Pedro de S.Catarina_ Religiozo Bernardo, fez outras
em Fransa, seguindo o _Usserius_: sam boas, aindaque alguma coiza
extensas. O _Musanzio_ Jezuita Italiano fez umas, em quatro folhas
grandes, se me-nam-engano, porque averá anos que as-vi; em que segue
a Cronologia do-_Labbé_ Jezuita, que poem a vinda de Cristo no-ano
4053. do-Mundo: mas nam sam más. Outro Jezuita, que é o P. _Cassini_,
acrecentou-as por-ordem de Benedito XIII. O _Sanson_, e _Perizonio_ &c.
compendiáram tambem taboas boas. As do-Senhor _Langloit_ sam otimas,
mas cuido que nam sam para rapazes; porque unem os trez calculos Grego,
Ebraico, Samaritano: o que carrega muito a memoria. O ponto está
que o estudante abráse, uma Cronologia certa: e nam mude de cartas
todos os dias; mas meta umas na memoria. Toda a diversidade está,
antes da-vinda de Cristo: porque despois dele todos concordam, e é
rarisima a disensam. Se algum curiozo traduzise, umas destas melhores
taboas, em Portuguez, para uzo da-Mocidade, emendando-as em alguma
parte, e acomodando-as à necesidade do-Reino; faria grande serviso
à Republica. Eu comecei á tempos este trabalho, e tinha ideiado uma
carta mui facil: mas impedido com outras ocupasoens, nam pude acabála.
se V. P. tiver gosto, porlheei a ultima mam. Feito isto, deve-se ler
um compendio de Istoria. Neste principio basta o _Valemont_, que já
se-acha em Portuguez: e o mestre no-emtanto pode ler um compendio
da-Istoria universal: v. g. o que fez o _Cluverio_ em 4.^o que é bom:
e principalmente o que se-impremio em 1672. que é mais correto: E
preparar-se para saber explicar, estas noticias aos dicipulos, quando
falam na Cronologia. Mas disto falaremos em outra ocaziam.
Quanto pois às antiguidades Gregas, e Romanas, ou aos Uzos, e Costumes
destas Nasoens; sam indispensaveis para perceber, os autores antigos.
Um destes escritores nam escrevia para nós, mas para os seus: aos quais
eram notorios os costumes, nam só publicos, mas tambem privados da-sua
Nasam. onde aludindo aos ditos, nam se-cansa em os-explicar. Entam
intendiam-no todos: mas oje nam. e é necesario para o-intender-mos, que
procuremos esta noticia naqueles, que as-recolhèram. Um Istorico que
na prezente era, contando as virtudes de um servo de Deus, disèse, que
celebrava _Misa_ todos os dias, tinha _Extazis_ &c. como falava com
gente, que o-intendia, nam tinha necesidade, de se-explicar. Se pudese
suceder, que daqui a mil anos nam ouvese _Misa_, ou aquele livro caise
em maons de outra Nasam, que nam tivese noticia de _Misa_; é certo,
que nam intenderia, o que se-dizia; ainda que intendese a lingua: e
serîa necesario, que primeiro intendèse, que coiza era _Misa_, e outros
destes nomes; para dizer, que intendia bem a istoria, em que se-achavam
estas expresoens.
Os antigos escritores em quazi todas as paginas, aludem aos seus
costumes civis, e ecleziasticos. Falam de _Flamines_, _Augures_,
_Paterpatratos_, _Sacrificios_, _Apoteozes_, _Vestais_ &c. Encontram-se
mil nomes pertencentes à guerra, _Tribunus Militum_, _Tribunus Plebis_,
_Centurio_, _Quinquagenarius_, _Decanus_, _Triarius_, _Primipilus_ &c.
como tambem de machinas, e aparelhos belicos de muitas especies. A
cada paso se-tropesa com o nome, de _Consul_, _Proconsul_, _Prætor_,
_Proprætor_, _Quæstor_, _Legatus_, _Edilis_ &c. cada emprego dos-quais
tinha seu particular exercicio; sem a noticia do-qual, nam é posivel
intender, a forsa da-expresam que o-significa. Quem nam sabe, que
os Consules, que prezidiam aquele ano no-Senado, eram os mesmos
aquem se-distribuîam as Provincias, onde se-fazia a guerra; e a quem
se-entregava o governo do-exercito; nam poderá intender, como uma
dignidade, que parece civil, se-introduza nas-materias militares.
Quem nam sabe, que no-tempo dos-Consules, ouveram Tribunos Militares,
os quais governáram a Republica em lugar dos-Consules, com imperio
consular; e continuáram muitos anos com suas interrusoens; intenderá,
que _Tribunus Militaris_ nam era magistrado; mas valia o mesmo, que
_Tribunus Militum_: que conrespondia aos Coroneis dos-nosos Regimentos.
Quem nam tem lido, que no-mesmo ano se-elegiam muitos Consules, e
Proconsules, ou muitos Tribunos Militares, para abrangerem a todas as
necesidades da-Republica; justamente se-persuadirá, que, em se-falando
de Consul, discorre-se damesma e unica pesoa. Quem nam souber, que os
Pretores mandavam-se para as provincias pequenas, com imperio consular;
intenderá, que se-fala somente do-Pretor Urbano, ou Peregrino, que
administravam a justisa em Roma. Finalmente só os ignorantes, é que
podem negar esta necesidade: os doutos todos a-reconhecem.