ano mais Gramatica, doque nam sabem muitos, que a ensinam trinta anos,
ou pasáram nela toda a sua vida. É erro persuadir-se, que um omem ou
deva, ou posa ter prezentes todas as regras, que se-acham na Gramatica
do-P.Alvares. A experiencia deveria dezenganar, os que estudáram por
ela; e mostrar-lhe, que aquele estudo morre com a escola. Um estudante,
despois de seis ou sete anos de Manoel Alvares, se acazo nam le os
antigos Latinos, e procura intendèlos; ou nam pasa para a Filozofia,
onde a necesidade o-obriga a intendèlos, e falar a tal lingua; fica
toda a sua vida ignorante de Latim, com toda a sua Gramatica. Porem
se acazo segue o exercicio do-Latim, de tal sorte se-familiariza com
a lingua, como se fora nacional; e comesa a falar por-uzo. Aqui nam é
necesario mais prova, que proguntálo a eses mesmos leitores. apenas
conservam umas ideias gerais, das-regras de Gramatica. Onde fica claro,
que tudo aquilo é superfluo. O metodo porem que aponto, é mais facil de
se-conservar na memoria, porque é natural: e chega à origem das-coizas.
Mas em um e outro sistema é verdade, que preceitos sem uzo, nada valem.
Onde deve o estudante, nam só aprender a Gramatica, mas exercitar esas
regras no-discurso, na leitura, e na composizam: descobrindo em toda a
leitura as regras, que na Gramatica lhe-insinuam: no-que deve ter igual
cuidado o mestre, que o estudante. No-primeiro ano, deve ensinarlhe
Gramatica: o que se-pode fazer com muita facilidade. No-segundo,
traduzir os autores mais facis: como algumas Cartas de Cicero, as
Fabulas de Fedro, Terencio, Cornelio Nepote. procurando que o estudante
asine a regencia das-partes, e descubra neses livros, os principios
que estudou: e intendendo as outras particularidades mais reconditas
da-Gramatica: as quais nam sam para o primeiro ano.
Mas, para proceder nisto com utilidade, deve o mestre ordenar ao
estudante, que ja vio uma vez a Sintaxe, que escreva em Portuguez,
polas palavras que melhor lhe-parecer, mas sempre diferentes daquelas,
que estam na regra, a razam de alguma regra; apontando um exemplo, e
explicando as partes todas dese exemplo. Pode tambem o mestre tomar,
um periodo de duas regras, em algum autor claro; e dalo ao rapaz,
paraque o-explique em uma folha de papel: pondo nela toda a regencia
gramatical, sem deixar nem menos uma virgula, por-explicar. E quando o
rapaz aprezenta a sua carta, examinálo de tudo, o que nela se-contem;
para ver se verdadeiramente o-intende. E isto mesmo se-pode praticar
ao principio, quando traduzem os autores. Este modo de estudar, nam
enfada os principiantes, visto darem-lhe tempo para considerar, o que
ám-de escrever. Ao principio, deve ser em caza: quando sam adiantados,
na escola. Alem diso o estudante, para escrever a sua explicasam, é
necesario que leia, e intenda bem a regra: que busque no-Dicionario, o
significado das-palavras: e desta sorte é que a-imprime bem na memoria.
Quando o estudante for adiantado, entam é que se pode obrigar, a
repetilo de memoria: mas nem sempre: pois algumas vezes é bom, dar-lhe
o periodo, paraque fasa a explicasam por-papel: Com a diferensa porem,
que se o periodo avia ser de quatro regras, seja de seis, ou oito.
Explicando isto por-escrito, é incrivel, quanto se-intende melhor:
principalmente se o mestre, quanto lhe-tomar conta, fizer as proguntas
necesarias; emendar os erros, e explicar tudo como deve.
Mas esta carta ja é mais comprida, doque eu queria fazé-la: porem poso
segurar a V. P. que ainda me-fica muito que dizer. Contudo do-que tenho
escrito, fica bem claro, o que eu intendo: e para V. P. é mais que
bastante. Fico às ordens de V. P. como seu criado.
[Illustração]
NOTAS DE RODAPÉ:
[16] _Patrio sermone tantum declaranda Rudimenta, Genera,
Declinationes, Anomala, Præterita, Supina: ne simul & ligata & soluta
oratione præcepta memoriter recitare cogantur. Quod etiam in Syntaxi,
quando ea primum explicatur, observandum est._
[17] _Veja-se a sua Gramatica da-edisam de Scavenio, na Prefasam._
[18] _In Ver. act. 3._
[19] _2. Agrar._
[20] _Terent. in Andria._
[Illustração]
CARTA TERCEIRA.
SUMARIO.
_Abuzos que se-introduzîram em Portugal, no-ensinar a lingua Latina.
Mao modo que os mestres tem, para instruir a Mocidade. Propoem-se o
metodo, que se-deve observar, para saber com fundamento, e facilidade
o que é pura Latinidade. Necesidade da-Geografia, Cronologia, e
Istoria, para poder intender os livros Latinos. Apontam-se os autores,
de que os mestres se-devem servir na Latinidade: e como devem
servir-se deles; e explicálos com utilidade: e as melhores edisoens.
Aponta-se o modo de cultivar a Memoria, e exercitar o Latim nas
escolas._
Meu amigo e senhor, Tardei em escrever a V.P. porque tive legitimas
ocupasoens. Continuando pois o fio das-minhas reflexoens, da-Gramatica
paso para a Latinidade: porque me-persuado, que este mesmo caminho deve
seguir o estudante, que quer ter perfeita noticia, da-lingua Latina.
Esta noticia certamente nam se-consegue, com a pura Gramatica: mas com
a continua lisam de bons autores, e reflexam sobre as suas melhores
obras. _Aliud est grammatice, aliud latine loqui_: advertio ja no-seu
tempo Quintiliano. e com muita razam: porque a escrupuloza sugeisam
às regras da-Gramatica impede, saber falar a lingua. A Gramatica é a
porta, pola qual se-entra na Latinidade: e quem pára no-vestibulo,
nam pode ver as singularidades do-Palacio. Quantos omens acha V. P.
que, com terem sido mestres de Gramatica muitos anos, saibam pegar na
pena, e escrever uma pagina em bom Latim? responder a uma carta com
facilidade? e fazer qualquer outra coiza, em que seja necesario, uzar
da-lingua Latina? Eu conheso infinitos sugeitos, que pasáram a sua vida
neste exercicio, e quando ám-de escrever Latim, servem-se de expresoens
em tudo barbaras, e indignas do-seu exercicio. Outros, aindaque tenham
eleisam de palavras, nam se-despem dos-idiotismos da-sua lingua:
que é o mesmo que falar Portuguez, com palavras Latinas. Uma vez que
observam, aquela regencia gramatical que estudáram, parece-lhe que
fazem a sua obrigasam. Os que se-querem apartar deste uzo, declinam
para outro extremo viciozo, que é a afetasam: e nam buscam, senam
palavras grandes e sonoras, _sesquipedalia verba_, com as quais atroem
os ouvintes, ou leitores. E daqui entam nace, aquele estilo ridiculo,
que tanto dominou nos-seculos da-ignorancia; e oje em Italia chamamos,
_estilo do-seculo XVI_.
A estes ultimos chama o comum dos-Gramaticos, grandes Latinos. É um
louvar a Deus, ver a prezunsam de uns, e a ignorancia de outros.
Achei-me prezente em algumas orasoens Latinas, que se-recitáram sobre
diversos asumtos; e nam podia asás admirar, a afetasam, e estilo
dezigual, que reinava em toda a orasam. Despois diso, li muitas
compozisoens, feitas por-eses mesmos: li muitas postilas de diversos
leitores, que tinham pasado com louvor, por-aqueles bancos: e em
tudo notei o mesmo defeito. E tudo isto provèm, de se-contentarem
com a erudisam de quatro temas, que lhe-mandam compor: e de nam
se-internarem na lisam dos-bons autores, e que escrevèram no-tempo
da-mais pura Latinidade. É coiza imposivel, que um omem que tenha
tomado o gosto, à verdadeira Latinidade, com facilidade o-perca.
Ainda quando trata asumtos umildes, e argumentos em que è obrigado
servir-se, de expresoens barbaras, v.g. na Filozofia, ou Teologia
Peripatetica; ou ainda quando despreza o falar elegante; la mostra
sempre, o conhecimento que posûe daquela lingua. Nos-seus escritos
conhecem muito bem os omens inteligentes, o que ele podia fazer.
caiem-lhe da-pena palavras proprias. um estilo facil e natural é o
carater das-suas obras. Mostra a experiencia o que digo: e convem
nisto os omens de alguma doutrina. Daqui vem, que os que querem fazer
progreso na Latinidade, procuram logo um autor facil e elegante, como
qualquer dos-que na minha ultima apontei; e desorte se-familiarizam com
ele, que tomam e imitam a sua fraze, e modo de falar. Quem quer falar
uma lingua, deve conversar com os omens que a-falam bem. ora os que oje
falam bem Latim, sam eses quatro livros, que nos-deixou a Antiguidade:
e com eles é necesario conversar tanto, que aprendamos o que se-pode
aprender.
Pode tambem aver perigo, na lisam deses mesmos bons livros: e pode
suceder, que com bons livros, se-saiba mal Latim: Digo isto, polo
que tenho observado, em grande parte deste Reino. Omens á, que lem
indiferentemente, todos os livros antigos; e pola vaidade de quererem
saber tudo, nam sabem nada. Formam um estilo dezigual, que nam é de
seculo algum: e com grande trabalho, nam conseguem o fim que queriam.
Neste defeito, nam só caiem os pouco doutos; mas chegáram a cair, omens
de grande doutrina. Erasmo, que foi um omem tam douto como V.P. sabe, é
censurado neste ponto. A grande lisam que tinha, dos-antigos autores, e
Padres, impedio-lhe formar um estilo determinado. Contudo iso, nam sei
se achará V.P. muitos no-seu Reino, que escrevam como ele. O certo é,
que Erasmo nam lia os Antigos por-vaidade, mas por-necesidade dos-seus
estudos: mas estes de quem eu falo, nam se-livram deste pecado. Outros,
furtam indiferentemente, de todos os autores que lem; para poderem
encher as suas compozisoens: servido-se imprudentemente, destes
livros de Fraseologia: sem advertirem, que sempre á-de ser capa de
romendos: e que os diversos mantimentos primeiro se-ám-de digirir, para
se-converterem em uma sustancia, que seja uniforme e simplez.
A outra razam que á, para que se-posam enganar, é a diversidade de
estilo, e merecimento deses mesmos Antigos. Quanto ao estilo, é
certo que os querem ser Istoricos, faram mal em ler as Filipicas
de Cicero, as Comedias de Terencio, os Epigramas de Catúlo, e
outras semelhantes compozisoens: porque nam conduzem ao seu fim;
aindaque sejam escritas, no-seculo da-bela Latinidade. omesino digo
das-outras proporcionadamente. Podem-se ler estes autores: mas cada
um deve aplicar-se ao que é insigne, na materia que ele trata. Se
bem ouso dizer, que Terencio serve-se das-expresoens, no-seu proprio
significado: que Cezar falou melhor, que nenhum dos-Romanos: nem
por-iso ei-de logo meter Cezar, e Terencio em toda a parte. para
o conhecimento da-lingua, todos me-podem servir: nam asim para o
exercicio particular, que eu quero. Quanto ao merecimento é certo, que
nem todos os Antigos sam iguais. antes muitos que escrevèram no-seculo
de Augusto, e em tempo de Tiberio, fizeram-no com tal negligencia, que
mal tem lugar, na idade de _prata_ da-lingua Latina: e sem injuria
se-podem colocar, na idade de _bronze_.
Esta advertencia é mais necesaria em Portugal, que em outros Reinos:
porque os mestres aqui, tem pouca noticia destas coizas. Nas escolas
da-Latinidade, verá V.P. traduzir livros, de merecimento mui dezigual:
e pasar de um para outro sem eleisam, nem advertencia, somente para
encher tempo, e completar o ano. Na 3. e 4. em que os rapazes comesam
a traduzir, explicam pola menhan, as Filipicas de _Cicero_ &c. e
de tarde, a Eneide, ou _Ovidio_ de Trist. Na 2. e 3. pola menhan,
_Suetonio_; de tarde _Oracio_. Mas eu vi mais: vi um mestre que
explicava aos dicipulos, as Orasoens de _Cicero_, _Marcial_, _e o
Thesaurus Poeticus_. E que coiza boa pode sair daqui? Nam ensinam
aos estudantes, qual é o merecimento de cada autor, que lhe-mandam
traduzir: e como pode o estudante advinhálo? Alem diso, aquilo de
explicar no-mesmo tempo, _proza_, e _verso_, e isto a principiantes,
nam pode menos, que produzir monstruozidades. O pobre estudante, com a
memoria cheia de tam diferentes especies, nam pode distinguir o branco,
do-negro: nem chegar a conhecer bem, qual é o estilo da-proza, e qual
o do-verso. Muito pior ainda é, comesar por-tais livros: porque as
Filipicas, e Eneide, nam é Latim para rapazes, mas para omens feitos.
por-estes livros devem acabar o estudo, e nam principiálo. Tambem o
_Suetonio_, nam é livro proprio da-Escola, porque nam escreve com a
pureza dos-outros da-idade de oiro. era melhor _Livio_, _Nepote_ &c.
que, alem da-pureza de lingua, sam perfeitos modelos de eloquencia.
Outros mandam traduzir lisoens do-Breviario, ou Concilio de Trento:
dizendo que sam necesarias, para quem á-de seguir a Igreja. E isto
tambem é uma solenisima loucura. Cada lisam do-Breviario é de seu
autor, e de estilo diferente. Ainda das-que se-tiram da-Escritura,
se-deve dizer o mesmo: umas sam oscuras, que sam as dos-livros
profeticos; outras mais claras, que sam as dos-istoricos: e o Latim
delas nam é bom, porque a fraze é barbara. E querer, que um estudante
traduza isto, é querer, que nam saiba Latim. Tambem o Concilio nam é
próprio, para dar boa doutrina: porque se-serve de um estilo Forense
proprio de Roma, que nam é Latino. Se o-fazem para intender estes
livros, é superfluo explicálos. Nam á omem nenhum tam decepado, que,
se intende bem Latim, nam intenda as Bulas; aindaque nunca as-tenha
lido. Estar o verbo vizinho ou distante, nam muda, ou dificulta o
sentido, a quem le todo o periodo: e quem tem alguma pratica delas,
intende-as maravilhozamente, aindaque seja mao Latino, como vi muitas
vezes em Roma. O que suposto, é muito mao emprego, obrigar o estudante
a traduzir Bulas, ou Constituisoens: e principalmente a traduzilas
palavra por-palavra, como fazem estes mestres. O Ecleziastico, nam é
necesario que traduza; basta que as-intenda. Antes é muito mal feito,
obrigálos a traduzir asim: porque o tal Latim nam se-deve traduzir _ad
verbum_, mas _ad sensum_. O que bastava que o mestre advertise, quando
quizese dar-lhe alguma noticia diso: pois em tal cazo bastaria, que
mandáse ler alguns periodos, e explicar o sentido. Isto basta: o mais é
perder tempo.
Contudo iso sam poucos os que conhecem, que com isto se-perde o tempo:
antes blazonam, quando procuram embrulhar os rapazes, com coizas
oscuras. Achava-me eu em uma parte, em que certo M. de Filozofia, para
examinar um rapaz, mandou-lhe traduzir aquelas palavras de S. Paulo ad
Cor. _Aemulor enim vos Dei æmulatione_ &c. que era o capitulo da-Ora,
que estava rezando. O rapaz, que nam era mao estudante, traduzio
literalmente: mas como nam fazia bom sentido, o mestre dito deu
grandes rizadas, e fez escarneo do-rapaz. Eu calei-me por-prudencia:
mas tive meus impetos de lhe-dizer, V.P. ri-se de um pobre rapaz, que
nam é obrigado a saber, o sentido da-Escritura, nem os _ebraismos_,
que se-acham na Vulgata: e eu apostarei, que V.P. é o primeiro que
nam intende, o que nisto diz S. Paulo. Com efeito se eu apertava os
negalhos, estava certo, que serîa mui mao interprete, da-dita Epistola.
O certo é, que nam á maior parvoice, que mandar traduzir palavras
oscuras: e que esta _pedanteria_ se-devia desterrar de lugares, onde
se-sabe falar. Alem disto, é obrigado o estudante, a compor varios
periodos, a que chamam _orasoens_: repetir uma quantidade de regras
Latinas, e Portuguezas: e se o pobre rapaz nam pode responder a tudo,
em vez de lhe-aliviar o pezo, e mostrar-lhe a estrada, e animálo a
proseguila; dam-lhe muita palmatoada; e obrigam-no a odiar, todo
o genero de estudos. De que nace, aquela grande ignorancia, que
se-observa nestes paizes.
Daqui fica claro, que com tal metodo, pouco se-pode saber de Latim.
É lastima que os Profesores, nam cheguem a conhecer por-uma vez,
o ridiculo deste costume. Todos os primeiros estudos naturalmente
dezagradam, porque sam cansados: e paraque avemos enfastiar mais os
pobres rapazes? Um omem consumado nos-estudos, quando estuda uma
lingua estrangeira, v.g. Grego, Ebraico, ou Caldaico, nam pode menos
que enfastiar-se, daqueles primeiros elementos. Tem grande dezejo
de sabèla: conhece o metodo de aprender a dita lingua: reconhece a
necesidade que tem dela, para intender as Escrituras Santas: contudo
iso quando se-aplica a ela, mil vezes deita fóra os mesmos livros:
e nam-se-acha com rezolusam, de tornar a servir-se deles. Falo pola
experiencia propria, e pola de alguns amigos, que se-aplicáram às
linguas estrangeiras. E nam acha V.P. que é uma crueldade, castigar
rigorozamente um rapaz, porque nam intende logo a lingua Latina? que
de si mesmo é dificultoza, e ainda o-parece mais, na confuzam comque
lha-explicam. Isto é o mesmo, que meter um omem, em uma caza sem luz, e
dar-lhe pancadas, porque nam acerta com a porta.
V. P. está em uma Universidade, onde é facil dezenganar-se com os seus
olhos. Entre no-Colegio das-Artes, corra as escolas baixas; e verá
as muitas palmatoadas, que se-mandam dar aos pobres principiantes.
Penetre porem com a considerasam, o interior das-escolas: examine se o
mestre lhe-ensina, o que deve ensinar: se lhe-facilita o caminho, para
intendèla: se nam lhe-carrega a memoria, com coizas desnecesariisimas:
e achará tudo o contrario. O que suposto, todo este pezo está fóra,
da-esfera de um principiante. Ora nam á lei que obrigue um omem, a
fazer mais do-que pode: e que castigue os defeitos, que se-nam-podem
evitar. Nam nego, que deve aver castigo: mas deve ser proporcionado. Um
estudante que impede, que os outros estudem: que faz rapaziadas pezadas
&c. é justo que seja castigado: e, avendo reincidencia, que seja
despedido. Serîa bom, que nesa sua Universidade, se-dese um rigorozo
castigo, ainda de morte, aos que injustamente acometem os _Novatos_;
e fazem outras insolencias. A brandura comque se-tem procedido neste
particular, talvez foi cauza, do-que ao despois se-fez, e ainda
se-faz. Nese particular serîa eu inexoravel: porque a paz publica,
que o Principe promete, aos que concorrem para tais exercicios,
pede-o asim: e em outros Reinos, executam-no com todo o rigor. Falo
somente do-castigo que se dá, por-cauza de nam acertar com os estudos.
a emulasam, a repreensam, e algum outro castigo deste genero faz
mais, que os que se-praticam. É necesario ter muita paciencia com os
rapazes, e ensinálos bem: nam seguindo a opiniam daquele Bispo de
Vizeo D. Ricardo Rosel, que em um exame reprovou XVI. estudantes afio,
porque pronunciáram _Idolum_, com a segunda breve. Isto só faz, quem
nam conhece o que deve. Um omem pode ignorar, a quantidade de muitas
silabas, e ser um grande Latino. Todos os dias se-oferecem duvidas na
quantidade delas, aos omens doutos: principalmente naquelas palavras,
que tem origem Grega: na qual lingua o _O_, e _E_ sam de duas sortes,
breves, e longos. Este rigor é censuravel. deve-se praticar outro
estilo.
Acho ainda mais outro inconveniente, para saber Latim, praticado nas
escolas: que é, compor muito naquela materia, que intendem mui pouco.
Um pobre estudante ainda nam intende Latim, e ja lhe-dam varios temas,
que sam certas orasoens vulgares, para traduzir na lingua Latina. ou
dam a orasam Portugueza, com partes Latinas; ou uma sentensa Latina,
para eles a-dilatarem, e provarem. Mas um e outro metodo, é um erro
masicho. Que coiza boa á-de fazer um rapaz, que ainda nam sabe Latim?
Dar as partes conrespondentes ao Portuguez, e obrigar o estudante,
a que se-sirva delas em uma orasam longa; é o mesmo que querer, que
ele siga os despropozitos do-seu mestre. Ainda quando o estudante
acertáse com tudo, nam acertaria com os idiotismos, isto é, com os
modos de falar, que sam proprios da-lingua Latina: e falaria Portuguez,
com palavras Latinas. Pode-se permetir o dar as partes, em uma breve
orasam; e isto a um rapaz que comesa: mas nam se-deve obrigar outro
mais adiantado, a seguir tal metodo.
Devia o mestre ensinar ao dicipulo, compor bem uma orasam Portugueza
breve, uma carta, um comprimento, ou coiza semelhante. Para isto tem
o estudante, toda a facilidade posivel, porque o-faz em uma lingua
que sabe; e na qual o mestre pode claramente mostrar-lhe os erros.
Quando o estudante soubése fazer isto bem, entam lhe-aconselharia, que
a-convertèse em Latim, deixando-lhe toda a liberdade da-compozisam.
Emendados os erros de Gramatica, se os-ouvèse, emendaria os erros
da-lingua: e lhe-mostraria, a diferensa que á, entre estas duas
linguas: e a diversidade que aparece, entre escrever segundo as
regras de Gramatica, e segundo o estilo da-boa Latinidade. Mas nisto
procederia com advertencia. Primeiro, nam procuraria que escrevesem,
senam em estilo familiar e facil. despois, segundo o adiantamento
que tivesem, pasaria aos argumentes ou asumtos mais dificultozos; os
quais explicaria muito bem. Desta sorte, acompanhando a tradusam com
a compozisam, facilitaria muito o estudo, e conseguiria promtamente o
intento.
Deste estilo rezultariam muitas utilidades. Primeiramente, sairiam os
omens da-escola, nam só sabendo a lingua Latina, mas tambem a sua. É
lastima, que omens que pasáram tantos anos, nas escolas pequenas, e
grandes; omens que estam oje ensinando a outros, e ocupam cargos de
Letras, e Politica; nam saibam escrever uma carta! Pois isto é coiza,
que sucede todos os dias. Eu me lembro, que V.P. se-queixou ja disto:
e me-dise, que achava muitos Religiozos, que tinham o mesmo defeito:
e reconheceo comigo, que a origem destes danos era, a que aponto.
Cometem-se mil erros de Gramatica, na propria lingua, e infinitos de
Ortografia. Preparam-se muitos para escrever uma carta, como para fazer
um ato publico. Procuram palavras bem dezuzadas, ou estrangeiras; e
verbos que nam á no mundo. E com isto compoem uma carta, sumamente
afetada, e de um estilo, que é mais declamatorio, que epistolar.
Estes sam os que sabem mais: e os que sabem menos, pedem a estes, que
lhas-componham. E tudo isto provèm, de nam terem uzo de compor na sua
lingua: e de nam terem quem lhe-ensine, qual é o estilo de Carta, qual
o de Orasam: e nam aver uma alma cristan, que lhe-persuada, que a
afetasam deve-se evitar, em todos os generos de eloquencia, mas muito
principalmente, no-estilo familiar.
A segunda utilidade é, sobre a inteligencia da-lingua Latina. Um rapaz
que de sua cabesa escreve uma carta, ou comprimento, ou oferecimento
Portuguez, com palavras proprias; ja sabe, o que á-de dizer em Latim:
só lhe-falta, ter as palavras Latinas, para as-colocar. A isto pois
deve suprir o mestre. Suponho, que lhe-tem ja ensinado a Gramatica:
e tambem a traduzir de Latim, em Portuguez, para intender os termos:
e supondo estes principios, facilmente o rapaz intenderá, quais sam
as palavras, de que á-de uzar: ou ao menos será facil ao mestre,
mostrar-lhas. Eu no principio seguiria esta regra. Comporia diante
dele em Latim, parte da-dita carta, ou toda: e lhe-daria a razam
do-que fazia: explicando-lhe, porque uzo daquele verbo, e nam de
outro: porque uzo daquela fraze, mais doque outra. Capacitando-o, que
a todas as palavras Portuguezas, nam pode conresponder uma Latina: mas
é necesario uzar de _perifraze_, ou rodeio de palavras, para as-poder
explicar. Este é o defeito que nós achamos, no-metodo de dar as
partes: porque nam conrespondendo elas sempre umas a outras, por-forsa
á-de sair uma embrulhada. Sabido tudo isto, darlheîa a incumbencia,
de escrever a dita carta em Latim, sem lhe-mostrar, a que eu tinha
composto: e pedirlheia a razam, de tudo o que tinha feito.
Alem disto, com este metodo aprende-se o que significa, escrever Latim
com propriedade. Um mestre que se-contenta, com a Arte do-P.Alvares,
e com a noticia do-Dicionario do-P.Bento Pereira, nam sabe distinguir
entre muitos sinonimos, qual é o proprio, para o que quer explicar.
Figuro um exemplo. Tenho necesidade de uzar, do-Verbo _Pedir_: para
isto ocorrem logo mil Verbos: _Postulo_, _Posco_, _Peto_, _Flagito_,
_Efflagito_, _Oro_, _Rogo_, _Precor_, _Obsecro_, e alguns outros.
Quem sabe pouco, intende que sam rigorozos sinonimos; e nam tem
dificuldade, de servir-de indiferentemente de todos: mas quem sabe
mais, conhece que nem todos o-sam: porem que alguns daqueles Verbos,
significam mais, ou menos. v.g. _Postulo_ significa pedir aquilo, que
se-me-deve: _postulare jure_. _Flagito_ significa pedir com instancia,
e injuriozamente. _Efflagito_ pedir com grande instancia; e acrecenta
sobre _Flagito_, alguma coiza. O mesmo dos-outros com sua proporsam.
Do-que fica claro, que querendo eu explicar, que peso com instancia;
direi muito mal: _Vehementer postulo. cum clamore & magna instantia
obsecro._ basta que diga, _Flagito_. O mesmo digo, em diversas outras
materias. Isto nam ensina o Alvares, nem o Pereira: mas isto deve
ensinar o mestre, mostrando ao estudante, quais sam os vocabulos
proprios, para explicar o que quer. Desta sorte acostuma-se o rapaz
desde o principio, a servir-se de termos proprios, e frazes naturais à
Lingua: E com isto insensivelmente toma o gosto da-boa Latinidade, e
da-sua mesma lingua: e aprende as leis da-Tradusam, mui necesarias a
quem á-de ler, e servir-se de autores estrangeiros.