Toda a Gramatica Latina se-reduz a explicar, a natureza, e acidentes

das-oito vozes, que podem entrar na orasam ou discurso: e o modo

de as-unir, e compor os periodos. E isto deve-se fazer com a maior

clareza, e mais breves regras, que se puderem excogitar. O que

certamente nam se-consegue com a Gramatica uzual: porque nam á coiza

mais confuza, nem mais cheia de excesoens, que a dita Gramatica, como

todos vem.

O mundo estava mui falto de noticias, e de metodo, antes do-seculo

pasado. Desde o restablecimento das-letras Umanas na Europa, direi

melhor, no-Ocidente, que podemos fixar nos-principios do-seculo XV.

melhor direi, desde a invensam da-Imprensa no-meio do-dito seculo;

até o fim do-XVI. nam tiveram os omens tempo de cuidar, em dar metodo

proprio às Letras, e Ciencias. Nam fizeram pouco aqueles primeiros

doutos, em procurar manuscritos, e impremir os antigos autores, mais

corretamente que pudese ser. Achamos alguns, no-fim do-XV. e no-XVI.

seculo, que foram letrados à forsa de estudo, mas nam de metodo. Temos

tambem alguns omens, que souberam bem Latim nese seculo, porque liam

muito polos bons autores: nam porque tivesem achado a chave, de ir para

diante com facilidade, e explanar as dificuldades de Gramatica, aos

estudantes. Finalmente esa gloria estava rezervada, para o seculo XVII.

Os pasados seguiam uns a outros, sem mais eleisam, que o costume. viam,

e estudavam com os olhos, e juizo alheio. Mas no-principio do-seculo

XVII. aparecèram alguns, que quizeram servir-se do-proprio: e foi-lhes

facil, conhecer os erros dos-antecedentes, porque eram grandes. Asim

se-abrîram os olhos ao mundo, em todo o sentido. um conhecimento

facilitou outro. e eisaqui aberta a porta ao metodo. De-me V. P. omens,

que queiram examinar as materias com razam; que nam inculquem um autor,

porque seus mestres lho-diseram, mas porque é digno de seguir-se;

que eu lhe-prometo, adiantamento nas Ciencias todas. A seu tempo

discorrerei das-outras: agora continuemos com a Gramatica.

Tinha no-tempo do-Concilio de Trento o douto _Julio Cezar Escaligero_,

comesado a examinar a Latinidade, seguindo o exemplo, e lumes do-famozo

_Agostinho Saturnio_; o qual tinha ja notado varios erros, nos-outros

Gramaticos. _Escaligero_, dando um paso adiante, publicou um livro,

com o titulo = _De Caussis Linguæ Latinæ_: em que doutisimamente

expoem o seu sentimento, sobre os elementos da-Gramatica: mas nam toca

a construisam das-Partes. A leitura deste livro, abrio os olhos a

_Francisco Sanches_, que era um profesor celebre de letras Umanas, na

Universidade de Salamanca. Este douto empreendeu no-seguinte seculo,

com o mesmo titulo, a explicasam da-construisam das-partes daorasam: e

com tanta felicidade, que descobrio as verdadeiras cauzas, até àquele

tempo ignoradas. Este livro incontrou em Salamanca, e trouxe para

Roma,[17] nos-principios do-seculo pasado, o famozo Gaspar Scioppio,

Conde de Claravale, de nasam Tudesca: aquele grande omem em letras

Sagradas e Profanas; e que empregou toda a sua vida, em estudos

gramaticos. O livro de Sanchez fez todo o efeito, que podia esperar-se.

Scioppio (que nam costumava dizer bem, daquilo que o-nam-merecia;

antes, polos seus inimigos, é tachado, como censor dezumano) cedendo à

evidencia das-razoens, proseguio o mesmo metodo de Sanches: ilustrou,

e reformou a sua doutrina: e compoz a primeira Gramatica, que apareceo

segundo os tais principios. No-mesmo tempo o famozo Gerardo Joam Vossio

em Olanda, tam benemerito das-letras Umanas, e Sagradas, explicou ainda

melhor o dito metodo; seguindo em tudo Sanches, e Scioppio; os quais ou

copeia, ou ilustra.

Esta é, e será sempre, a Epoca famoza da-Latinidade, e Gramatica. A

estes trez grandes omens, seguîram em tudo e por-tudo os melhores

Gramaticos, que despois ouveram: e devem seguir, os que tem juizo

para conhecer, como se deve estudar a Latinidade. Por-Fransa,

Alemanha, Olanda, Italia, e outras partes se-dilatou este metodo: e

alguns escrevèram belisimas Gramaticas, segundo os tais principios.

A razam porque nam se-propagou mais é, porque pola maior parte os

estudos da-Mocidade, sam dirigidos por-alguns Religiozos, que seguem

outras opinioens. Os doutisimos Jezuitas, ensinam grande parte

da-Mocidade, em varias partes da-Europa: e nam querendo apartar-se,

do-seu Manoel Alvares, rejeitáram todas as novas Gramaticas. Alguns

destes Religiozos, que trato familiarmente, e estimo muito pola sua

doutrina, e piedade; me-diseram claramente, que bem viam, que o Alvares

era confuzo, e difuzo; e que as outras eram melhores: nem se-podia

negar, que os principios de Scioppio fosem claros, e certos: mas que

o P. Geral nam queria, se-apartasem do-P. Alvares, por-ser Religiozo

da-Companhia. Este é o motivo, porque o P. Alvares se-conservou, nas

escolas dos-tais Religiozos: e esta tambem a origem da-tenacidade,

comque muitos seguem, aquilo mesmo que condenam.

Os outros Religiozos, aindaque nam sejam Jezuitas, tem as mesmas

obrigasoens, e opinioens. A maior parte, cuida pouco niso: e vam

vivendo, como seus mestres lhe-ensináram. Nam tem noticia dos-melhores

autores, que á na materia: cuidam, que no-mundo nam á outra Gramatica,

fóra que a do-P. Alvares. E todos estes, contentando-se de intender, um

pouco de Latim bom, ou mao, nam cuidam em saber Gramatica. Os mestres

Seculares, pola maior parte, sam ignorantisimos, e puros _pedantes_.

e desta sorte de gente nunca esperou aumento, a republica Literaria.

É necesario porem confesar, que fóra de Portugal, aindaque perzistam

algumas destas razoens, muitisimos Religiozos, e Seculares ensinam,

segundo os verdadeiros principios. Comque, considerado bem tudo isto,

nam tem que se-maravilhar V. P. de que um metodo, que louvam tanto os

omens doutos, tenha tido tam mao recebimento, em varias partes. Mas

estas Gramaticas que tem saido, aindaque sigam os mesmos principios,

nem todas se explicam com igual clareza. Eu direi o que achei nas

melhores, e o como se-pode ordenar uma Gramatica, util para a Mocidade.

A Gramatica deve-se dividir, em dois volumes. No-primeiro, devem-se

tratar aquelas coizas, que indispensavelmente devem estudar os

principiantes. no-segundo, aquelas reflexoens, que sam mais proprias

para os adiantados, e para os mestres: como sam as dificuldades de

Gramatica, e as razoens daquelas regras, que parecem menos comuas.

Explico agora a primeira parte. Esta primeira parte (podemos-lhe chamar

pura Gramatica: porque a segunda, sam comentos sobre ela) divide-se

naturalmente, em quatro partes: _Etimologia_, _Sintaxe_, _Ortografia_,

e _Prozodia_. a primeira trata das-Vozes: a segunda da-Uniam delas: a

terceira das-Letras: a quarta da-Quantidade das-silabas.

_ETIMOLOGIA_.

Na primeira parte, trata-se da-origem e diferensa das-vozes Latinas,

que podem entrar na orasam, por-sua ordem. Primeiro, explica-se o

_Nome_, e suas especies. O _Nome_, tem trez acidentes, que sam,

_Genero_, _Cazo_, _Terminasam_. Os _Generos_, que tanta bulha fazem

nas escolas, explicam-se com toda a brevidade. á regras gerais

da-_significasam_, e particulares da-_terminasam_. Na primeira regra,

poem-se todos os que pertencem ao Masculino. v.g. _Sam do-Masculino,

os nomes de Omens_ &c. 2. _Sam do-Feminino, os nomes de Molheres,

Naos_ &c. 3. _Sam do-Neutro, os nomes de Letras, Frutas_ &c. Tambem as

particulares, se-reduzem a trez. v. g. _Sam do-Masculino os nomes em

O, como Sermo: em il, como Mugil_ &c. Acabado isto, poem-se um escolio

que diga: _Nomes que sam do-Masculino, por-excesam das-outras regras._

v.g. _Cometa_, _Adria_, _Harpago_, _Splen_ &c. O mesmo metodo se-pode

praticar no-Feminino, e Neutro. E com seis regras, se-explicam todos

os Generos: e se-acaba esta grande barafunda de Cartapacios. Se pois o

estudante quizer saber a razam, porque alguns nomes, que pareciam de um

genero, se-atribuem a outro; pode ir ver, a segunda parte da-Gramatica.

Segue-se explicar, quantos _Cazos_ tem o Nome. e em 3.^o lugar _a

Declinasam_: mostrando quantas á: e em cada uma delas, quais sam a

Latinas, quais as Gregas. Tudo isto se-pode dizer, com muita clareza e

brevidade; bastando alegar um exemplo, em cada especie de terminasoens,

que podem entrar em cada declinasam. Com este metodo, em uma vista de

olhos, percebe o estudante os nomes, que pertencem a cada declinasam.

Despois, podem-se explicar os Nomes Compostos, os Anomalos de genero,

de numero, de cazo, e de declinasam. A segunda especie de Nome, é o

Adjetivo. E aqui tem lugar explicar, as diversas especies de Adjetivos:

Pozitivos, Comparativos &c. as suas declinasoens, e anomalîas.

O _Pronome_, tem seu lugar despois do-Nome: porque tambem é, uma

especie de Adjetivo. Onde deve explicar-se logo, a sua diversidade: e

as declinasoens dos-Simplezes, e Compostos.

O _Verbo_, é a mais dificultoza parte, nas Gramaticas vulgares: e

por-iso pede grande atensam. Explicadas as divizoens dos-Verbos; e

apontado, que á quatro Declinasoens ou Conjugasoens: segue-se logo,

explicar os Preteritos. v. g. A primeira, tem no-infinito _a_ longo

antes de _re_: no-Preterito faz, _avi_: no-Supino _atum_: ut _amo_,

_amavi_, _amatum_, _amâre_. Tiram-se os Verbos em _bo_, ut _Cubo_:

em _co_, ut _Mico_ &c. E isto se-observará em todas as Conjugasoens.

Desta sorte conclue-se em poucas palavras, toda aquela grande arenga

de Preteritos, que nam tem fim nas escolas de Portugal. Se pois o

estudante nam quer aprender, toda aquela enfiada de Verbos, nam

emporta: basta que aprenda um exemplo, e saiba buscar os outros: porque

a pratica ensina o demais.

Seguem-se as _Declinasoens_ dos-Verbos, a que vulgarmente chamam,

_Linguagens_. E aqui achamos bastantes erros, nas Gramaticas comuas,

e tambem confuzoens: porque mandam aprender aos rapazes, coizas

totalmente superfluas; e nam explicam as necesarias. Quanto ao

Indicativo, concordamos com Manoel Alvares: só dizemos, que aquele

_Preterito plus quam perfeito_, é uma arenga, que nenhum estudante

intende; nem os mestres explicam. Deve-se explicar asim: _Amavi_,

é _Preterito perfeito proximo_; que afirma uma coiza, simplezmente

pasada: _Amaveram_, é _Preterito perfeito remoto_, que nam só

se-intende de uma coiza pasada; mas que ja era pasada, antes de outra,

de que eu falo como pasada. Dizemos mais, que aquele _Futuro perfeito_,

nam o-á no mundo: pois esta voz, é o mesmo Futuro segundo, que ele poem

no-Conjuntivo.

Alem dos-primeiros tempos do-Indicativo, tem o Verbo, segundo Prezente,

que é _Amem_: segundo Imperfeito, que é _Amarem_: segundo Perfeito,

que é _Amaverim_: segundo Preterito remoto, que é _Amavissem_: segundo

Futuro, que é _Amavero_. Mas isto pode-se explicar em Portuguez,

com diversas palavras. A estas segundas vozes, ou segundo modo,

podemos chamar _Conjuntivo_: porque pola maior parte, une-se com

outras partes. Daqui vem, que é erro, pòr nas Gramaticas: _Modo

Optativo_, _Conjuntivo_, _Potencial_, _Permisivo_: porque por-este

estilo, podem-se acrecentar muitos outros Modos: sendo certo, que,

ajuntando-lhe novas particulas, nacem diferentes modos de se-explicar.

Basta advertir ao estudante, que aquele _Amem_, pode-se tomar, em

diversos sentidos: o que se-conhece, polo contexto da-orasam. tudo o

mais é tempo perdido, e é ensinar uma falsidade: pois nam á tais modos

separados: sendo que a linguagem, ou a voz sempre é a mesma. _Amem_,

quando significa _posibilidade_, e quando significa _permisam_, nam

se-distingue mais, que polo contexto. E isto bastava que brevemente

se-advertise, apontando um exemplo: porque o mais ensina a lisam, e

reflexam sobre os bons autores.

O terceiro Modo é o Imperativo: a que podemos chamar, por-distinsam,

_Prezente terceiro_: _Ama_. Futuro terceiro: _Amato_.

O Infinito, é aquele; a que verdadeiramente devemos chamar, _Impesoal_:

pois nam tem determinado numero, ou pesoa, ou tempo &c. Este tem

uma voz: a que, aindaque impropriamente, podemos chamar, Prezente,

e Imperfeito: que é _Amare_. a qual tem todas as significasoens

do-Prezente, e Imperfeito primeiros. Para os outros Preteritos

serve, _Amavisse_. Tem Futuro, que é _Amaturum esse_: e outro Futuro

remoto, que é _Amaturum fuisse_. Gerundios, Supinos, e Participios.

Isto posto, deve-se explicar, como se-formam os tempos. E nisto

se-compreende, a primeira parte das-Linguagens.

Seguem-se os Verbos Anomalos, quero dizer, os que nam tem analogia,

com as quatro Conjugasoens: sam _Volo_, _Nolo_, _Malo_, _Fero_, _Eo_,

_Edo_, _Fio_, _Memini_ &c. _Aio_, _Inquam_, _Forem_. E nisto se-encerra

tudo, o que se-diz do-Verbo.

Os Gramaticos fazem aqui uma barafunda de explicasoens, e divizoens,

em _Neutros_, _Comuns_, _Depoentes_, _Diminutivos_, _Frequentativos_,

_Denominativos_, _Imitativos_ &c. mas tudo isto é superfluo. Todos os

Verbos, tirando dois, sam Ativos, ou Pasivos: porque ou significam

asám, ou paixam: e a estas especies se-reduzem os apontados. Basta

advertir, o que significam estas palavras, e a que conjugasam pertencem

os ditos verbos: apontando um exemplo de cada um. o que porem melhor

se-faz, no-exercicio da-leitura, e tradusam.

Ao Verbo, segue-se o _Participio_: que aqui se-deve explicar com as

suas divizoens. notando quais sam os Verbos que os-tem: quais os em que

faltam: quais deles formam Comparativos, e Superlativos.

No-_Adverbio_, deve-se explicar e apontar, os que sam de proguntar,

os que significam tempo, lugar; e outras diferentes especies deles.

Despois, a _Prepozisam_: mostrando as que sam separaveis, e as que

se-nam-separam. Como tambem advertir, que coiza acrecentam ao Nome, e

Verbo, estas Prepozisoens. Sobre a Interjeisam, deve mostrar, quais

sam as que significam, os diferentes afetos do-animo, para o estudante

poder servir-se na ocaziam. A _Conjunsam_, tambem tem suas especies:

que sam _Conjuntiva_, e _Disjuntiva_, _Condicional_, _Concesiva_ &c. e

estas todas devemos apontar: alegando exemplos em cada uma.

Despois da-Etimologia das-vozes, tem lugar explicar o _Metaplasmo_: que

vale o mesmo que dizer, certas figuras, polas quais se-acrecentam, ou

diminuem as letras das-disoens: v. g. _Gnavus_ pro _Navus_ &c. Noticia

é esta sumamente util para intender, as diferentes vozes Latinas. E

nisto se-compreende, tudo o que deve saber-se sobre a Etimologia, com a

maior clareza, e brevidade imaginavel.

_SINTAXE._

Despois, segue-se a _Sintaxe_. E a qui é maior a dificuldade: porque

se a Etimologia, nas Gramaticas ordinarias, é confuza; a Sintaxe delas

é a mesma confuzam. é necesario variar muito do-comum, para ensinar

verdadeira Sintaxe. Nam tenho tempo para provar o que digo: mas seguro

a V. P. que o que escrevo, é ja provado evidentemente, polos autores

que aponto, e outros que os-comentáram: e que, se a necesidade o

pedise, com pouco trabalho mostraria tudo: porque tenho visto o que

basta. E asim apontarei somente, as rezolusoens.

A Sintaxe ensina a unir as vozes, para fazer a orasam: e, por-meio

desta, formar um bem regulado discurso. A construisam ou uniam

ou é _Regular_, que segue as regras da-Arte: ou _Figurada_, que

se-desvia delas, mas funda-se na autoridade dos-bons escritores. A

construisam Regular funda-se na _Concordancia_, ou na _Regencia_. Chamo

Concordancia, quando as partes concordam, em alguma coiza comua. v.g.

o Sustantivo concorda com outro Sustantivo em _cazo_, que é comum a

ambos. Nas Concordancias achamos alguns erros comuns, que em breve

apontaremos.

Nam se-devem admetir mais concordancias, (nam falo daquela entre dois

Sustantivos) que de _Sustantivo com Adjetivo_: _Verbo com o Nome_.

O Adjetivo concorda com o Sustantivo em _numero_, e _cazo_, que sam

comuns a ambos: nam em _genero_, porque o Adjetivo nam tem genero,

mas somente o Sustantivo: poem-se porem o Adjetivo em uma terminasam,

conrespondente ao _genero_ do-Sustantivo. Alem disto o Adjetivo, nam

concorda com o Sustantivo proprio, v.g. _Petrus_: mas com o Sustantivo

comum, v.g. _Homo_: e vale o mesmo dizer: _Petrus est bonus_: que se

disese-mos: _Petrus est homo bonus: vel artifex, vel magister bonus_

&c. Quando nam á nome comum, recorre-se aos nomes, _Res_, _Factum_,

_Opus_, _Negotium_, e outros semelhantes, que antigamente tinham,

significasam mais extensa, que a que oje lhe-dam. Damesma sorte quando

Ovidio dise: _Nox, & Amor, & Vinum nil moderabile suadent_; deve-se

intender asim: _non suadent factum, vel opus, vel negotium moderabile_.

Virgilio umas vezes dise: _Præneste altum_: intendendo _Oppidum_.

outras vezes: _Præneste sub ipsa_: intendendo _sub ipsa Civitate_.

podia tambem dizer: _Præneste altus_: intendendo _Locus_. Terencio

dise: _Eunuchum suam_; intendendo _Comoediam_, ou _Fabulam_; porque

_Eunuchus_ é masculino. Deixo outros exemplos, com que se-mostra, que a

concordancia sempre é com o Sustantivo comum.

Á infinitos exemplos que provam, que o Relativo concorda com o

_susequente_ expreso, ou supreso, em _numero_, _cazo_, e terminasam

conrespondente ao _genero_: damesma sorte que outro Adjetivo. Temos

exemplo bem claro em Cicero, do-expreso: _Ego tibi illam Aciliam

legem restituo, qua lege simul accusasti_[18]: e em outra parte[19]:

_Sequitur enim caput, quo capite non permisit._ Cezar abunda muito

destes modos de falar, porque afetava clareza. Acham-se exemplos

do-supreso: _Populo ut placerent, quas fecisset fabulas_[20]: i. e.

_Populo ut placerent fabulæ, quas fabulas fecisset_. Do-que fica

claro, que o Relativo concorda, em genero, numero, e cazo, como dizem

comumente, com o seu susequente; que é o mesmo antecedente-repetido.

Isto basta por-agora.

A segunda concordancia, é do-Verbo com o Nome: os quais concordam em

_numero_, que é comum a ambos: nam em _pesoa_, porque esta é somente

do-Verbo: mas poem-se o Verbo em uma terminasam, conrespondente à

pesoa, que o Nome significa. Devem-se porem advertir algumas coizas.

I. A primeira, e segunda pesoa do-Verbo, raras vezes se-construe com

o Nome expreso, senam por-distinsam, ou emfaze. II. A terceira pesoa

do-Verbo, construe-se tambem com um Verbo infinito. v.g. _Scire tuum

nihil est_: pro, _scientia tua_. Tambem algumas vezes sem nome expreso:

v.g. _Aiunt_, supple, _homines_. _Tonat_, sup. _Deus_. outras vezes com

o Nominativo: _Saxa pluunt._ Tambem se-uza do-Nome, sem Verbo expreso:

_Rari quippe boni._ i. e. _sunt_. III. No-Verbo com o Nome, tem lugar

a Figura _Sintesis_, que parece, que discorda do-Nome expreso: mas

a verdade é que concorda, com o sinonimo oculto. v. g. _Pars epulis

onerant mensas_: onde o Verbo concorda, com o sinonimo oculto,

_Plurimi_. Tem tambem lugar a figura _Zeugma_, em que o Verbo concorda,

com o mais vizinho: _Tu quid ego, & populus mecum desideret, audi._ Tem

tambem lugar a _Silepsi_, emque o Verbo concorda, com o mais digno: _Si

tu, & Tullia lux nostra valetis, ego, & suavissimus Cicero valemus._

IV. Porque o Adjetivo significa acidente, nam pode estar só sem

sustantivo, que signifique a sustancia. o mesmo digo das-terminasoens

do-Verbo que significa, movimento de alguma coiza: e asim sempre

se-subintende a dita coiza. Nam á Orasam sem Verbo, e Nome. se o Verbo

é finito, o suposto é Nominativo: se é infinito, é Acuzativo. A Letra,

Silaba, Voz, e Orasam, pode ser suposto do-Verbo, e do-Adjetivo. V.

Do-sobredito se-inferem varias coizas. É falso, que os Nomes de numero,

come _tres_, _& decem_, concordem entre si. É falso, que os Adverbios,

e Conjunsoens concordem com o Indicativo, Optativo &c. deve-se dizer,

que se-construe um com outro. E nisto com pouca diferensa se-comprende,

tudo o que se-diz da-Sintaxe de concordar.

A Regencia, é a que mostra o seu efeito, em outra coiza que rege.

Quatro sam as vozes que regem outras: Nome, Verbo, Participio, e

Prepozisam. É falso, o que se-ensina comumente, que o Adverbio,

Conjunsam, Interjeisam, Verbo pasivo, Participio pasivo, Gerundio, Nome

adjetivo, reja, e pesa cazo: porque o cazo que se-acha com eles, é

regido de uma parte supresa, pola figura _Ellipsis_.

A regencia ou é Gramatical, que segue as regras da-arte: ou Figurada,

que se-desvia delas. E porque a regencia se-exercita nos-Cazos do-Nome,

daqui vem, que toda a Sintaxe de Regencia se reduz, à explicasam deses

seis Cazos. v.g. no-Nominativo aponta-se, quando entra na orasam.

despois, quais sam as partes da-orasam, que se-construem com ele,

ou simplez, ou dobrado. O mesmo digo de todos os outros Cazos: na

explicasam dos-quais deve-se muito advertir, de mostrar quais sam as

partes, que verdadeiramente os-regem: e nam enganar os estudantes, com

as doutrinas das-Gramaticas vulgares. V.g. o Genitivo é cazo somente

regido, por-um Sustantivo expreso, ou supreso: ou por-uma parte, que

esteja em lugar de Sustantivo. É pois necesario mostrar-lhe, que

se-enganam os outros, que atribuem o tal Genitivo, a outras partes

da-orasam. Com este metodo, explica-se mui brevemente a Sintaxe, e

mui solidamente: porque se-reduzem todas as construisoens figuradas,

ao modo de falar regular: e se-descobrem os verdadeiros principios

da-Regencia: postos os quais, dezaparecem todos aqueles Apendices, e

Limitasoens da-Gramatica uzual: as quais nam de outra coiza nacem,

senam de establecer principios falsos. Despois, explica-se a Gramatica

Figurada: e se-aponta o fundamento da-Figura, e como se-pode reduzir à

construisam natural. porque sem esta inteligencia, nam se-pode ir para

diante na Gramatica.

_ORTOGRAFIA, E PROZODIA._

As outras duas partes da-Gramatica sam mais facis, porque menos

contrariadas. A noticia das-Letras, e _Ortografia_, é sumamente

necesaria, para escrever bem, e ler correntemente nam só a moderna, mas

tambem a antiga escritura: em que vareiam muito as letras. O mesmo digo

da-_Prozodia_, ou quantidade das-silabas. Tambem nisto é necesario,

uzar melhor metodo, que o da-Gramatica comua: e conheso eu muito bem,

que se podem dizer, com mais clareza.

Eisaqui tem V.P. uma idea do-que sinto, sobre a Gramatica. Parece-me

bastante o que dise, paraque veja V. P. quanto trabalho encurtaria uma

Gramatica, concebida nestes termos: e uns principios tam claros, como

os em que se-funda. Nam poso dilatar-me mais nesta materia, porque

serîa compor Gramatica; e o meu argumento nam é ese. Eu sei, quem tem

composto uma Gramatica, pouco diferente da-ideia que propuzemos: e

tem composto outro particular escrito, com que se-aprende Gramatica

mais facilmente, e em menos tempo: os quais podia publicar, para

utilidade deste Reino. Dois nosos amigos lhe-pediram instantemente,

que a-impremise: mas ele desculpa-se sempre com dizer, que é mais

facil, conquistar um novo mundo; doque despersuadir os Velhos,

da-antiga Gramatica. Cita alguns exemplos com que mostra, que a paixam

obra nestes particulares mais, que o juizo: e lamenta-se muito, que

se-tenham reprovado tantas coizas, sem as-lerem, nem intenderem.

Verdadeiro metodo de estudar (Vol. I) · 第 7 / 32 段