á um grande abuzo: avendo escritores que a-escrevem, em mil coizas
desnecesarias: o que ofende a vista. E asim, nam avendo razam
forsoza, deve-se escrever letra pequena, que é mais natural. As
regras que nisto dam, os omens mais advertidos, se-reduzem a estas.
Poem-se letra grande. I. quando se-comesa o discurso. II. nos-nomes
proprios, e sobrenomes tanto de Pesoas, como Provincias, Cidades,
Ilhas, Montes, Mares, Rios, Ventos, e Animais. III. nos-nomes de
dignidade, ou abstratos, como _Bispado_, _Papado_ &c. ou concretos,
como _Papa_, _Rei_, _Abade_, _Conego_, _Senador_ &c. mas nam se-poem
nos-de oficios inferiores, como _soldado_, _pintor_, _sapateiro_. IV.
nos-nomes apelativos, quando se-tomam por-alguma coiza particular.
v. g. _O Orador Romano_, por-Cicero: o _Doutor Angelico_, por-S.
Tomaz: _Religiam_, pola vida Religioza &c. V. nos-nomes do-genero, ou
especie, quando significam todo o genero, ou especie. v. g. _A Terra é
redonda.Os Rios correm para o mar._ porque significando um individuo
particular da-dita especie; v.g. _um bocado de terra_ &c. basta letra
pequena. VI. as coizas inanimadas tomadas como pesoas, ou polo genero.
v. g. _A Ira é uma grande paixam. O Amor cega os mais doutos_ &c. VII.
os Adjetivos tomados como Sustantivos. v.g. _O Amigo, é outro eu. O
Forte, aumenta o animo nos-perigos._ VIII. os nomes que significam
multidam. v.g. _Senado_, _Republica_, _Cabido_, _Turcos_, _Inglezes_
&c. IX. os nomes da-materia, de que principalmente se-trata. v.g. _A
Incarnasam_, a _Simonia_. ou tambem os nomes das-principais partes, em
que se-divide um todo. v.g. _Neste cazo pecam alguns, por-Ignorancia,
ou por-Malicia. Por-Ignorancia, pecam aqueles &c._ X. quando
no-discurso se-introduz alguma pesoa, que fala. v.g. _Voltando-se
entam para o ceo S. Paulo, dise, Senhor, que quereis que eu fasa?_ mas
se o discurso que se introduz, fose mui longo, serîa mais acertado,
separalo com um ponto sinal. E a palavra que se-segue, despois do-ponto
interrogativo, nam deve ter letra grande; porque nam comesa um sentido
novo.
Estas sam as regras, establecidas polo melhor uzo. Contudo á alguns,
que ainda às vezes as-limitam, quando intendem, que nam sam necesarias.
v. g. Vindo juntos dois nomes, um generico, e outro particular, como
_Seita Turquesca_, _Igreja Catolica_, _Senador Romano_, _Academia
Real_, _Concilio Toletano_, _Concilio Geral_, _&c._ deitam fóra a
letra grande dos-primeiros, e somente a-conservam nos-segundos,
que distinguem os primeiros. Porque ainda-que em outras ocazioens,
achando-se somente a palavra, _Igreja, oncilio_, _&c._ tenha letra
grande; neste cazo porem, parece ser escuzada: o que eu aprovo.
Outros ainda fazem mais, que, achando muitas destas ultimas palavras,
que aponto, como _Senador_, _Consul_, _&c._ escrevem-nas com letra
pequena: principalmente se está unida a algum sustantivo Proprio. v.
gr. _Joannes rex. Cicero consul._ E isto achamos mui praticado, em
antigos manuscritos; e belisimas edisoens de livros modernos, emendadas
por-omens mui doutos. Onde nam se-deve condenar, se algum o-praticar em
alguma conjuntura, para evitar tanta letra grande.
Outros ainda limitam, o que se-diz nos-numeros V, e IX. porque
intendem, que nem sempre é necesaria, a dita letra grande. E em tal
cazo, ou escrevem letra grande, só na primeira vez: ou poem uma risca
por-baixo, escrevendo; o-que na imprensa convertem em letra cursiva: ou
nam a-poem: Nam parecendo muito bem um papel, em que repetidas vezes
se-encontram as mesmas palavras, com letra grande: o que ofende a vista.
Tornando pois aos _pontos_: algumas vezes o periodo inteiro, é
acompanhado de admirasam, ou interrogasam: e em tal cazo o ponto
se-acompanha, com o final proporcionado. A _admirasam_, nota-se
asim, (!) v.g. _Morreo, cazo admiravel! dezesperado._ ou em qualquer
outra parte, em que entre a admirasam, ou simplez exclamasam. A
_interrogasam_, ou progunta, distingue-se com este final, (?) v.g. _E
porque nam poderei eu fazer isto? qual de vos outros mo-pode impedir?_
Muitas vezes sucede, que a înterrogasam é acompanhada de exclamasam.
v. g. _Ó que grandes consequencias, seám-de seguir de um tal fato!_
ou tambem: _E como é posivel, que te-occorrese fazer isto?_ e nestes
cazos, é licito pòr um, ou outro final, como melhor lhe-parecer.
É porem de advertir, que quando a progunta é mui comprida, e que
na longueza, perde a forsa de progunta; os omens mais doutos, nam
costumam pòr-lhe no-fim, o final de interrogasam: mas se lho-poem, é
no-principio, ou no-fim do-primeiro periodo, ou nam lho-poem. V.g.
_Julgas tu, que á omens de tam pouca considerasam, que siguam um tal
estilo, nem fasam cazo da-palavra, nem procurem ileza a sua onra, nem
tenham diante dos-olhos estas circunstancias: as quais se eu nam tivese
executado, totalmente me-faltaria aquela benevolencia, que certamente
me-mostram, os que examinam as minhas asoens =._ Neste periodo, ou
se-deve pòr ponto de interrogasam, despois de _tu_: ou, despois de
_circunstancias_: ou, em nenhuma parte: vistoque o contexto mostra
bem, em que sentido se-fala.
Finalmente deve-se advertir, que á outra separasam de periodo, a que
chamam _Paragrafo_: o qual se-comesa, quando a materia que se-trata,
se-acabou; e se-pasa a outra materia. Muitas vezes se-comesa paragrafo,
quando o discurso tem sido comprido, e, por-nam-fazer confuzam, é
necesario varialo. o que sucede, quando sobre a mesma coiza, alego
muitas razoens, e cada uma ocupa uma meia pagina. Em tal cazo, para
evitar a confuzam, e dar mais gosto, e repoizo a quem le; é justo
comesar paragrafo. O que porem se-deve regular, pola prudencia de quem
escreve: pois tam enfadonho é, comesar paragrafo, despois de trez
folhas, como despois de trez ou quatro regras. Caiem no-primeiro destes
defeitos, alguns prezados de doutos: que, ouvindo dizer, que os Antigos
nam uzavam das-separasoens de capitulos; sem mais outra reflexam, fazem
um longuisimo discurso, sem divizam de paragrafos: em modo tal, que
se-perde a respirasam lendo-os. No-segundo, caiem muitos Escolasticos,
que de cada texto fazem um paragrafo. Uma, e outra coiza se-deve evitar.
Alem das-ditas pontuasoens; inventáram os escritores, principalmente
modernos, outra, a que chamam, _ponto e virgula_. e isto para variar a
pontuasam, e para evitar pòr tantas virgulas seguidas, antes dos-dois
pontos, nos-periodos longos. Este _ponto e virgula_, é uma pauza,
maior que a virgula, e menor que os dois pontos. Poem-se, quando a
orasam ja faz algum sentido; mas nam o que basta para se-intender,
de que se-fala: e ainda a primeira propozisam, espera pola segunda,
para se-poder intender. v. g. _Aindaque eu nam tenha, todo o dinheiro
necesario, para a compra; farei o posivel, polo alcansar: para concluir
de uma vez, este negocio._ No-qual periodo, quando chegamos à palavra,
compra; ja temos algum sentido: e quer dizer, _que nam tem dinheiro
para a compra_. mas fica o sentido imperfeito, por-cauza da-palavra
_ainda_: a qual faz que eu espere, pola seguinte propozisam até
_alcansar_, onde faz suficiente sentido.
Daqui fica claro, que _ponto e virgula_ tem o seu proprio lugar,
despois das-prepozisoens, que comesam por-_como_, _qual_, _quanto_,
_se_, _aindaque &c._ as quais introduzem aquela dependencia, que digo.
Finalmente despois de qualquer prepozisam, em que aja palavras, que
unam com as palavras seguintes. Especialmente se-poem, quando se-fala
de coizas opostas: ou quando se-faz enumerasam de muitas partes, e
se-especificam todas. v. g. _Destruia cazas, e templos; o sagrado, e
profano; o seu, e o alheio, &c._ Adverte-se porem, que os periodos,
os quais, sendo longos, podem receber ponto e virgula; em cazo que
sejam curtos, basta que tenham virgula: por-nam fazer tam enfadonha
a repetisam dos-_pontos e virgulas_. v. g. _Neste particular à duas
opinioens: uma é de Cujacio; a outra seguem Joam André, e Ostiense._
parecerá a muitos, que em _Cujacio_, basta uma virgula, o que eu nam
dezaprovo: outros quererám ponto e virgula. e asim é livre a cada um,
fazer o que lhe-agradar. Polo contrario, se os periodos fosem mui
compridos, se-deveria pòr ponto. v. g. se eu disese: _Prova-se isto
com duas razoens. A primeira é, porque &c._ neste cazo se a explicasam
desta primeira razam, se-estendèse até metade da-folha, ou ainda mais;
no-fim, deve-se pòr ponto somente: e muitas vezes pode ser necesario,
comesar a segunda razam, nam só com letra grande, mas ainda em novo
paragrafo. Tambem quando se-tem posto algumas vezes, ponto e virgula;
costumam os omens doutos, escrever dois pontos; aindaque o sentido nam
seja completo quanto ao fato: para mostrar, que se-deve fazer maior
interrusam; e descansar quem le, e quem ouve.
Isto é, o que me-ocorre advertir, neste particular da-_pontuasam_.
Devo porem declarar a V. P. que esta materia, nam é ponto matematico,
que nam admite mais, ou menos: antes, polo contrario, depende muito,
da-vontade de quem escreve. Porque aindaque todos convenham, na-razam
das-regras; quando porem decemos aos cazos particulares, e a examinar,
se neste, ou naquele cazo, deve entrar virgula, ou ponto e virgula &c.
acha-se muitas vezes diversidade, ainda entre os omens doutos. Eu neste
particular, propuz o que vejo praticar, aos que melhor escrevem; e que
se estriba, na razam das-regras: mas nam condenarei, quem se-afastar
alguma vez destas advertencias, comtantoque nam se-desvie em modo,
que fasa despropozitos. Eu mesmo sou o primeiro, que as-nam-sigo
escrupulozamente: antes muitas vezes, em lugar de _ponto e virgula_,
escrevo _virgula_: em vez de _dois pontos_, ponho _virgula e ponto_:
e quando os periodos sam curtos, nam tenho às vezes dificuldade, de
escrever _virgula_, em lugar de _ponto_: ou outra semelhante mudansa.
O que faso quando me-parece, que com estes sinais, fica bastantemente
separado o discurso, e livre de confuzam: e porque vejo, que muitos
escrevem damesma sorte, e me-intenderám tambem. Esta é a principal
regra, em materia de pontuasam: evitar as confuzoens, e procurar que
os outros intendam, tudo quanto eu quero dizer. Devo porem dizer a V.
P. que vejo muitos autores Portuguezes bem modernos, que fazem gala,
de as-desprezar: e publicam obras, nas quais em uma pagina tudo sam
virgulas, e apenas se-acha um ponto. Especialmente * * * e outros
que V. P. bem conhece. O Conde da-Ericeira D. Francisco Xavier de
Menezes tambem seguia esta doutrina: pois em algumas suas aprovasoens
de livros, que tenho visto, tudo sam virgulas: desorteque ninguem
o-pode ler seguidamente, porque cansa a respirasam. E se isto pode ser
louvavel, eu o-deixo julgar aos dezapaixonados inteligentes.
Muitas outras miudezas, se-podiam advertir, tanto na materia
de Pontuasam, como de Ortografia: mas estas ou se-acham, nas
instrusoens impresas a este intento; ou, se nam se-acham, como na
verdade as-nam-vemos; aprendem-se com o uzo: e quem percebe bem,
as advertencias que temos dado, escreverá sem embaraso algum com
perfeisam: e poderá rezolver, qualquer das-que ocorrerem. Eu nam
determinei, escrever um tratado completo: mas unicamente, sugerir
a V. P. o que se-acha mais bem notado, nesta materia: e o que deve
ensinar um mestre, ao dicipulo, a quem explica a lingua Portugueza.
Para V. P. é isto superfluo: e para os ignorantes, é ainda muito.
mas eu tomo a liberdade de falar com V. P. como com um principiante,
porque asim mo-tem ordenado. Somente acrecento, que isto que dise
da-Pontuasam, se-deve intender, nam só no-Portuguez, mas no-Latim; e
nas-mais linguas, que desta nacèram.
Concluirei esta carta lembrando a V. P., que, para facilitar este
estudo à Mocidade, seria necesario, que algum omem douto, abreviáse
o Dicionario do-P. Bluteau, e o-reduzise à grandeza, de um tomo em
folha, ou dois em 4.^o Ninguem pode olhar para a obra do-P. Bluteau,
sem ficar esmurecido, pola quantitade de volumes. Este Religiozo era
douto, e infatigavel: e fez à nasam Portugueza um grande serviso;
compondo um Dicionario, que ela nam tinha: e quem diser mal dele
neste particular, é invejozo, ou ignorante. Mas tem alguns defeitos,
que serîa necesario emendar: Era mui medrozo: e nam tinha metodo. O
medo, reconhece-se em cada pagina das-suas obras. Fora maltratado
por-alguns Portuguezes injustamente; e a cada paso se-queixa, e dá uma
satisfasam. Os Prologos, tanto na primeira Obra, como no-Suplemento,
sam insoportaveis: e apostarei, que se-nam-acha omem, de tanta
paciencia, e tam mao gosto, que os-posa ler todos seguidamente: porque
a cada momento, repete as mesmas coizas. E o pior é, que com dizer
tanto, nam explica o que deve: pois querendo um leitor saber, o que
ele faz no-Dicionario, e que razam dá da-obra; nam sabe por-onde á-de
comesar. Com um só titulo dirigido ao leitor * * * compreendia todos,
os que ele poem no-seu Prologo: e com um Prologo mui breve, dava razam
de toda a obra. Os omens doutos, intendem mui bem as coizas: e sabem
desculpar um autor, que escreve uma voluminoza obra: especialmente um
que escreva um Dicionario, que seja o primeiro que aparece naquela
lingua. Nam á pior trabalho que este: e nam á algum que menos paresa
grande, a quem o-nam-provou, doque este. Desorteque chegou a dizer o
douto Escaligero[13], que era pior este trabalho, que ser condenado
às minas, como faziam os Romanos. Comque a estes, bastam poucas
palavras: a os ignorantes, nam se-devem dar satisfasoens, ou digam
bem, ou mal. Nem menos me-agrada o titulo da-obra, que é mui afetado,
e cheio de superfluidades. Ja se-sabe que um Dicionario, compreende
todas as palavras, com que se-explicam na dita lingua, todas as coizas
imaginaveis. E o exemplo que ele traz de Furetiere, Moreri, Hofman, que
enchèram o titulo, de semelhantes coizas, nam desculpa os seus erros:
porque se-caza muito bem, que errem dois omens de diferentes Nasoens,
na mesma materia.
Avulta tambem muito a obra, porque as explicasoens sam longas, e o
carater é mui grande. O que tudo se-podia reduzir, a menor extensam:
bastando um exemplo de um bom autor, e deitando fora tantos Latins,
e citasoens superfluas. E asim, todo aquele grande Vocabulario,
se-pode reduzir nas segundas-impresoens, a trez ou quatro volumes,
se lhe-tirasem o que tem de superfluo: e serîa tambem mais barato, e
mais util à Republica. Mas, ainda despois de tudo iso, serîa necesario,
fazer um Compendio, para uzo dos-rapazes. Que é o que os Nosos tem
feito, compendiando o _Vocabulario da-Crusca_, quero dizer, da-lingua
Toscana, (sam trez ou quatro volumes) em dois tomos de 4^o. Mas neste
Dicionario, se-deveria acautelar outra coiza, em que caio o P. Bluteau;
que foi, nam distinguir as palavras boas, de algumas plebeias, e
antigas. Ele ajuntou tudo: e ainda muitas palavras Latinas, que muitos
Portuguezes modernos afetadamente aportuguezáram. E este é o maior
defeito que eu acho, naquele Dicionario. porque nam ensina a falar
bem Portuguez; como o da-nosa Crusca, que nam tem, senam o que é puro
Toscano; e nota às vezes o que é _antigo_, ou _poetico &c._ Sei, que
alguma diversidade se-acha: porque os nosos autores, que fazem texto,
sam os que escrevèram, em um seculo determinado: e asim tudo o que
é moderno, entre nós é barbaro. Polo contrario a lingua Portugueza,
como á pouco tempo que comesou a aperfeisoar-se, nam pode excluir,
tudo o que é moderno. Contudo, deveria o P. Bluteau, nam abrasar
senam os autores, que faláram melhor. v. g. desde o fim do-seculo
pasado para cá: ou encurtar mais o tempo. E ainda neses, que talvez
nam seram iguais em tudo, escolher, o que é mais racionavel: e nam
tudo o que aportuguezáram alguns destes, prezados de eruditos; que,
por-forsa, querem introduzir, uma mixtura de Portuguez, com Latim.
Temos o exemplo da-Academia Franceza, a qual no-seu Dicionario, nam
poz as vozes plebeias, e antigas; mas as puras, e que oje falam os
omens cultos. Aindaque, como diz o Senhor de Furetiere,[14] é justo, que
se fasa um Dicionario à parte, das-vozes antigas, e baixas: paraque,
por-meio dele, posamos intender, os antigos documentos. Isto fizeram
muitos na lingua Latina, compondo somente Vocabularios da-inferior
Latinidade, como _Vossio_, _Izidoro_, _Spelman_, _Du Cange_: o qual
ultimo fez tambem outro, para o Grego inferior. E isto mesmo deveria
ter feito Bluteau: pondo em um volume, as palavras boas; no-outro, as
antigas &c. O certo é, que os Nosos no-Compendio da-Crusca, somente
puzeram as puras: e advertîram as que sam _poeticas_, e nam tem lugar
na proza. O mesmo Bluteau em certa parte[15], reconhece a necesidade
deste distinto livro; e deu uma ideia dele, nos-Catalogos que traz,
no-Suplemento. Mas se o dito P. o-nam-fez, porque quiz compreender,
tudo o que se-acha em Portuguez, ou por-outro motivo; no-Compendio
porem do-dito Dicionario, nam se-deviam escrever, senam palavras
puras e boas, e segundo a pronuncia mais suave. E.g. nam escrever
_Devaçam_, porque o dise o Vieira: mostrando a analogia, que se-deve
dizer _Devosam_: muito mais, porque asim o-pronunciam os doutos, e é
mais agradavel. O mesmo digo, de _Outo &c._ porque escrevendo muitos
omens doutos comumente, _Oitenta_; nam acho que tenham boa disparidade,
para, no-mesmo livro, escreverem, _Outo_: como V. P. verá em muitos
livros modernos. E asim a pronuncia melhor, sendo apadrinhada por-omens
doutos, deve ser preferida. Tambem se-devia no-dito cazo, emendar
a Ortografia do-Bluteau, que é variante: e establecer uma certa, e
sempre a melhor. Este Compendio seria mui necesario. os que quizesem
majores noticias, podiam procurálas no-Vocabulario grande. Isto é o que
me-ocorre. V. P. conserve-me a sua benevolencia, e rogue a Deus por-mim
nos-seus sacrificios. Deus Guarde &c.
[Illustração]
NOTAS DE RODAPÉ:
[3] _Sueton. de Cl. Rhet. C. I._
[4] _Auditis oratoribus Græcis, cognitisque eorum litteris,
adhibitisque doctoribus, incredibili quodam nostri homines dicendi
studio flagraverunt. Cicero l. I. de Orat. num. XIV._
[5] _A. Gel. l. I. c. x._
[6] _O Bluteau no-Prologo do-Suplemento, falando com o leitor
Pseudo-critico, confesa, que muitos omens doutos, nam dobram as letras
no-Portuguez: aindaque condena, que muitos nam observem, a analogia e
derivasam do-Latim, e Grego. que é a costumada cantilena dos-Velhos.
Reconhece porem, que seria necesario, reformar a Ortografia Portugueza.
Mas, conhecendo isto, adotou no-seu Dicionario, todas as variasoens
de Ortografia dos-autores; como confesa no-Prologo do-Suplemento. O
que nam tem desculpa em um omem, que estudou trinta anos, o argumento
do-seu livro._
[7] _S. Aug. l. I. confess. C. XVIII._ Catullus Carm. 85.
[8] _No livro, Orator ad. M. Brutum._
[9] _Na 6. conferencia literaria aos 18 de Maio de &c. em caza do-Conde
da-Ericeira_.
[10] _Impetratum est a consuetudine, ut peccare suavitatis caussa
liceret._ & pomeridianas quadrigas, _quam_ postmeridianas, _libentius
dixerim_: & mehercule, _quam_ mehercules. Non scire _quidem_, _barbarum
jam videtur_: nescire _dulcius_. _Ipsum_ meridiem _cur non_ medidiem?
_Credo, quod erat insuavius. Cicero. Orator. ad M. B. num. 47._ Et
infra == _Consule veritatem, reprehendet: refer ad aures, probabunt.
quære, cur? ita se dicent juvari. voluptati autem aurium morigerari
debet oratio._
[11] _Quintil. l. I.c.I. Varro de lingua L. l.6. & alii._
[12] _Marius Victorinus Aff. de Ortographia._
[13]
_Si quem dira manet sententia Judicis olim
Damnatum aerumnis, suppliciisque caput:
Hunc neque fabrili lassent ergastula massa,
Nec rigidas vexent fossa metalla manus._
Lexica _contexat, nam cetera quid morer? omnes
Pœnarum facies hic labor unus habet._ Sylvarum Carm. 39.
[14] _Pref. du Dicionaire Universel._
[15] _Prozas Academic. fol. 26._
[Illustração]
CARTA SEGUNDA.
SUMARIO.
_Danos que resultam da-Gramatica Latina, que comumente se-ensina.
Motivos porque nas-escolas de Portugal, nam se-melhora de metodo. Nova
ideia de uma Gramatica Latina facilisima, com que, em um ano, se-pode
aprender fundamentalmente Gramatica &c._
Despois do-estudo da-Gramatica Vulgar, segue-se o da-Latina. e desta
direi a V.P. o meu parecer, na prezente carta. Quando entrei neste
Reino, e vi a quantidade de Cartapacios, e Artes, que eram necesarias,
para estudar somente a Gramatica; fiquei pasmado. Falando com V. P.
algumas vezes, me-lembro, que lhe-toquei este ponto: e que nam lhe
dezagradáram as minhas reflexoens, sobre esta materia. Sei, que em
outras partes, onde se-explica a Gramatica de Manoel Alvares, tambem
lhe-acrecentam algum livrinho: mas tantos como em Portugal, nunca vi.
As declinasoens dos-_Nomes_, _e Verbos_ estudam, pola Gramatica Latina.
a esta se-segue um Cartapacio Portuguez, de _Rudimentos_. despois
outro, para _Generos_, _e Preteritos_, muito bem comprido. a este um
de _Sintaxe_, bem grande. despois um livro, a que chamam _Chorro_: e
outro, a que chamam _Promtuario_: polo qual se-aprendem os escolios
de Nomes e Verbos. e nam sei que mais livro á. E parece-lhe a V. P.
pouca materia de admirasam, quando tudo aquilo se-pode compreender,
em um livrinho em 12.^o e nam mui grande? Despois diso ouvi dizer,
que ocupavam seis, e sete anos estudando Gramatica: e que a maior
parte destes dicipulos, despois de todo ese tempo, nam era capaz de
explicar por-si só, as mais facis cartas de Cicero. Confeso a V. P. que
nam intendi isto, nem donde proviese o dano. Alguns sugeitos, bem
inteligentes de politica, me-deram algumas razoens, que nam pareciam
inverosimeis. Mas eu, sem aprovar, ou reprovar alguma delas, e tambem
sem me-demorar com esta materia; discorrerei sobre o merecimento
da-Gramatica Latina; e sobre o modo, com que se-deve aprender.
Ora convem todos os omens de bom juizo, e que tem visto paizes
Estrangeiros, e lido sobre isto alguma coiza; convem, digo, que
qualquer Gramatica de uma lingua, que nam é nacional, se-deve explicar
na lingua, que um omem sabe. Se V.P. quizese aprender Grego, e para
este efeito lhe-desem uma Gramatica toda Grega, e um mestre que somente
faláse Grego; poderia, à forsa de acenos, vir a intender alguma
palavra; mas nam serîa posivel, que aprendese Grego: o mesmo sucederia,
em qualquer outra lingua estrangeira. e se algum ateimase, que somente
daquela sorte, se-podia aprender Grego, diriamos, que era louco.
Pois suponha V.P. que estamos no-cazo. É coiza digna de admirasam,
que muitos omens deste Reino, queiram aprender Francez, Tudesco,
Italiano, de uma sorte, e o Latim de outra muito diferente. Aprendem
aquelas linguas com um mestre, que as-fala ambas, e explica a lingua
incognita, por-meio daquela que eles conhecem e falam: e com uma só
Gramatica se-poem em estado, de intenderem os autores bem, e, junto com
o exercicio, de falarem Francez correntemente. E tomára que me-disesem,
porque nam se-deve praticar o mesmo, no-Latim: e porque razam se-aja
de carregar, a memoria dos-pobres estudantes, com uma infinidade de
versos Latinos, e outras coizas, que nam servem para nada neste mundo?
Chega este prejuizo a tal extremo, que o P. Bento Pereira, escreveo uma
Ortografia Portugueza, em Latim. Desorteque quem nam intende Latim,
segundo o dito P., nam pode escrever corretamente Portuguez.
Os defensores deste metodo, nam alegam outra razam mais, que serem
os versos, mais facis de se-conservarem na memoria: e que em todo o
tempo, a eles se-pode recorrer, para ter prezentes as regras. Mas esta
razam, é pueril, e ridicula. Primeiramente se alguma coiza valèse,
deveria praticar-se com versos Portuguezes: porque só eses intendem
os estudantes. E qual é o estudante que intende, os versos Latinos
das-regras, principalmente sendo tam embrulhados, como os do-P. Manoel
Alvares? O certo é, que proguntando eu a alguns rapazes, a explicasam
deles, nenhum ma-soube dar. E eisaqui temos, que para os rapazes, nam
servem os tais versos. Se pois falamos dos-omens adiantados, estes
sabem Latim, polo exercicio de ler, escrever, e falar: comque nam tem
necesidade, de recorrer a semelhantes regras. E se querem examinar,
alguma dificuldade de Gramatica, vam consultar os Criticos, que as
explicam: nam as simplezes Gramaticas, que nem menos as-tocam: e talvez
establecem principios, contrarios à mesma solusam.
Finalmente a Gramatica Latina para os Portuguezes, deve ser em
Portuguez. E isto parece quiz dizer o P. Manoel Alvares, na advertencia
que faz aos mestres, no-fim das-declinasoens dos-Verbos[16]. aindaque
ele praticase o contrario, do-que aconselha: pois deveria, nam ter
dado o exemplo, introduzindo uma Gramatica puramente Latina. A outra
coiza que se-deve reprovar é, que obriguem os rapazes, a aprender trez
sortes de regras: em verso, em proza Latina, e em proza Vulgar: como
adverte bem o dito Padre. Isto, quando nam lhe-queiramos dar outro
nome, é perder tempo, sem utilidade, e com prejuizo grande: sem aver
outra razam, que seguir um costume envelhecido, aindaque prejudicial.
Mas o que mais me-admirou neste particular, e claramente me-mostrou,
quanto pode nos-Omens a preoccupasam dos-primeiros estudos, foi, ver
que o Sargentomór Manoel Coelho, que parecia ser mais alumiado nestas
materias, pertendendo distinguir-se do-Comum, dando aos principiantes,
uma facil explicasam das-_oito partes da-orasam_; ainda asim caie na
simplicidade, de pòr primeiro a regra em Latim para um rapaz, que ainda
nam tem noticia da-dita lingua; mas que aprende os primeiros elementos.
Tal é a forsa de um mao costume, que cega ainda aqueles, que querem
dezembrulhar-se dele! Esta reflexam é sustancial: mas ainda á outras de
maior momento. Entremos bem dentro na Gramatica.