Serîa mui util, que os omens doutos introduzisem uma terminasam certa,

em todos os _Patronimicos_ de Provincias &c. no-que falta muito a

lingua Portugueza. A um omem das-Provincias, chamam _Algarvio_, a outro

_Alemtejam_, a outro _Minhoto_, _Beiram &c._ E ainda estes nomes nam

sam geralmente, e benignamente recebidos; porque se-reputam injuria.

Mas o pior é, quando pasamos aos Patronimicos de Cidades; comumente

nam se-acham: mas dizem: _Um omem d’Evora: Um d’Elvas &c._ Neste cazo

parece licito, fazer nomes novos, e dizer, _Evorense_, ou _Eborense_,

_Coimbrense_, _Portuense &c._ E o mesmo dos-outros antecedentes: os

quais podem terminar-se em duas maneiras: v.g. _Algarviense_, ou, com

outra dezinencia Romana, _Algarviano_: _Alemtejense_, _Alentejano_:

_Beirense_, _Beirano &c._ Nos-nomes de Provincias Ultramarinas, deve-se

observar o mesmo. v. g. _Brazileense &c. Insolense_, _Indiano &c._

Em todo o cazo porem, tanto na introdusam de nomes novos, como na

pronuncia dos-antigos, sempre se-deve cuidar, em adosar a pronuncia, e

fazela, quanto mais puder ser, facil. Nisto pois á muito que condenar

em Portugal, principalmente nestes modernos eruditos; que, querendo

parecer elegantes, e mui versados na sua lingua, e origens dela; dizem

coizas, que é uma piedade ouvilos. V.g. Escrevem, _Volumozo_: sendo

_Voluminozo_ muito mais suave, e mais chegado à analogia Latina.

Dizem, _Exceptas_: sendo mais natural _Excetuadas_, que vem do-Verbo

_Excetuar_, que é mui _Portuguez_: quando polo contrario nam acho

nela, o verbo _Exceptar_. Dizem, _Eregia_: que ofende os ouvidos com

a pronuncia: sendo melhor _Erezia_, que é mais doce e nem por-iso

menos conforme ao Latim. Dizem, _Pesoa comum_: que é uma verdadeira

ridicularia: porque aindaque a palavra _comum_, signifique coiza de

muitos; deve ter as suas duas terminasoens em Portuguez, asimcomo tem

no-Latim, em que explica diferentemente o _Neutro_: e o superlativo

_Communissimus_, tem trez mui redondas. Onde deve dizer-se, _Coiza_,

_ou pesoa comua &c._ Finalmente, (deixando por-agora outras reformas

destes escrupulozos) nóto que escrevem _Pai_, _Mai_, ou com _y_, ou

com _i_. Quanto ao primeiro concordamos: mas nam no-segundo: porque na

pronuncia ouve-se um _e_, e _n_ mui redondo: e asim deve escrever-se

_Maen_, porque asim pronunciam os omens de melhor doutrina. Nem vale

o dizer, que com isto se-conformam mais, com outras semelhantes

palavras Portuguezas: porque, como ja dise, o uzo, fundado sobre a

pronuncia mais doce, faz lei neste particular[10]. Tambem eles dizem

_Catam_, _Varram &c._ e no-mesmo tempo dizem _Cicero_, _Pollio &c._ e

nam _Ciceram_, _Polliam &c._ sendo a mesma razam. No-mesmo Latim, ou

Italiano vemos, que uma palavra se-pronuncîa de um modo, e outra, que

vem damesma origem, diferentemente. o que V. P. pode ver nos-livros de

Cicero, que apontei asima, que traz exemplos de tudo: por-nam citar

agora exemplos vulgares, que sam muitos. Asim asento, que, com esta

regra diante dos-olhos, é que se-deve emendar e reformar a lingua.

Mas o que me-dá mais vontade de rir é, ver as cautelas que praticam,

para dizerem, _Porco_. Uns dizem, o _Gado mais asqueroso_: outros

dizem, _Carne suina_: e louvam muito isto em alguns antigos escritores.

Tudo puerilidades. _Porco_ nam é palavra obcena: dizem-na os Latinos,

e os nosos Italianos diante do-Papa. Antes creio que _asquerozo_, traz

a memoria nam só coiza _suja_, como o _porco_, mas coiza que volta o

estomago. Estas delicadas orelhas pronunciam, _sugidade_, _escremento_,

_lesmas_, _ratos_, _persevejos_, _piolhos_, _pulgas_, e outras coizas

imundisimas sem dificuldade: e acham-na grande em pronunciar, _Porco_.

Que lhe-parce a V. P. a esquipasam?

Finalmente devo advertir a V. P. que estes seus nacionais, ainda

falando, pronunciam mal muitas letras no-meio; mas principalmente

nos-fins das-disoens. V.g. _e_ final, pronunciam como _i_: como

em _De-me_, _Pos-me &c._ todo o _o_ final, acabam em _u_: v.g.

em _Tempo_, _Como_, _Buxo &c._ cujos nomes quem quer pronunciar à

Portugueza, deve acabar em _u_. todo o _m_ final, e no-meio, como n.

todo o _e_ antes de _a_ no-meio da-disam, pronunciam como se-fose

um tritongo. v.g. _Cea_, _Vea_: que pronunciam _Ceia_, _Veia_:

namobstanteque na escritura, comumente nam ponham o _i_. E nisto

merecem rizo alguns Portuguezes, que nas suas Ortografias impresas

ensinam, que na lingua Portugueza se-devem pronunciar algumas letras,

aindaque nam estejam escritas: e que umas letras devem pronunciar-se

por-outras; v.g. achando-se _Outo Dous &c._ se-deve pronunciar o _u_,

como _i_. Isto, como digo, é querer confirmar os rapazes, nos-seus

erros. Deveriam polo contrario dizer, que, pronunciando-se o _i_

em _Cea_, se-deva escrever tambem com _i_, para se-conformar com a

pronuncia: Muito mais porque eles escrevem _Meio_, _Veio_, _Correio_

com _i_, e a mesma razam milita, nos-que apontamos, e semelhantes.

Damesma sorte achando-se escrito _Outo_ com _u_, deveriam ensinar aos

rapazes, a conformar-se com a escritura, se intendem que é arrezoada:

se porem intendem, como na verdade é, que parece aspera e dura; deviam

dizer, que se-escrevèse com _i_; e nam enganar os rapazes na pronuncia.

E na verdade nam poso intender, por-que razam, pronunciando os omens

doutos nos-seus discursos, _Dois_, _Oito_, _Oitenta_, _Toiros_, _Coizas

&c._ devam na escritura mudalo em _u_; se nam é por-se-conformar com

quatro velhos impertinentes, que intendem e julgam mal das-coizas. Este

é o mesmo cazo de _Optumus_, _Maxumus_, _Dividundo_, _Faciundo_, e

outros semelhantes dos-Latinos. Cicero, Cezar, Nepote, e outros omens

cultos, nam puderam sofrer aquela pronuncia; e convertèram aquele _u_

em _i_, para fazer suave a lingua: Salustio, que nos-ultimos tempos

o-quiz conservar, foi criticado: e nem menos agradou _Varram_, que era

o protetor das-antiguidades. Onde deve isto tambem ser permetido na

lingua Portugueza, que filha damesma maen, tem as mesmas qualidades.

Parece coiza galante, que estes omens, em vez de facilitar aos

Estrangeiros, a pronuncia da-sua lingua; só busquem meios de aumentar,

a aspereza dela. Certamente que o Camoens no-XVI. seculo, apurou muito

a sua lingua, servindo-se da-Italiana &c. e isto devemos nós tambem

fazer, emendando os erros de Camoens, nam só no-que digo; mas em outras

coizas, em que ele pecou, e eu podia advertir. Concluo dizendo, que

na lingua Portugueza, nam só se-devem tirar as letras superfluas, onde

nam se-pronunciam; mas escrever outras, que se-pronunciam, e até aqui

se-deixavam. Onde, todas as vezes que se-pronuncîa o _i_ entre _e_,

e _a_; deve-se escrever. V.g. _Cadeia_, _Ideia_, _Ceia_, _Veia &c._

vistoque os Portuguezes escrevem comumente, _Meia de calsar_, _meia

duzia &c._ e a razam é a mesma em ambas as partes. Por-esta mesma

razam se-deve escrever em todos os Verbos, como _Leia_, _Paseia &c._

porque se os-pronunciasem como _Ceo_, _Plebeo_, _Chapeo &c._ neste

cazo era justo que lho-tirasem: mas levando o _i_ na-pronuncia, tambem

o-deve ter na escritura. Desta sorte somente, se-poderá introduzir uma

Ortografia certa, e geral, que nam necesite dar diversas razoens em

todas as palavras. Repare V. P. que eles escrevem _Aia_, _Maia &c._ com

_i_, porque o som desta vogal é claro: e porque nam faram o mesmo com

outros nomes, que sam puros Portuguezes?

Acho alem disto omens, que aconselham, se-tire de _Arrecadar_,

_Arrematar &c._ o _arre_; e se-diga, _recadar_, _rematar_. Sam deste

parecer o Bluteau, e algum outro. Mas estas orelhas tam delicadas e

escrupulozas, que se-ofendem com tais minucias; nam tem dificuldade,

de se-servirem em todas as paginas destes termos, _Com noticia_; _&c._

o que abunda no-Bluteau: ou, como diz o Vieira, _Por razam_, e outras

tais. Parece-me, que estas cacafonias menos sofriveis, se-deveriam

evitar; deixando as outras que nada ofendem. Este metodo de reformar a

Ortografia, era melhor que se-nam-impremise.

Ora deste dano de pronunciar mal o Portuguez, de que até aqui fizemos

mensam; rezulta outro, de conservar no-Latim os mesmos erros. onde

serîa mui util, que se-emendasem quanto pudesem. Sei, que isto tem sua

dificuldade, porque os ignorantes sam muitos, e pronunciam mal: mas

Roma nam se-fez em um dia. Seja V. P. um dos-primeiros a dar exemplo:

persuada isto mesmo aos seus amigos: que os outros os-imitarám. Deste

modo introduzirám em Portugal uma Ortografia, quanto mais poder ser,

constante; o que até aqui nam tem avido: e asim será mais bela, e facil

a pronuncia; e mais armoniozos os versos Portuguezes.

Isto me-parece basta advertir, sobre a Ortografia Portugueza, visto nam

fazer tratado dela. muito mais, porque com estas poucas regras, se-pode

responder, às outras dificuldades que ocorrerám. Algumas observasoens

de menor momento, podem-se ver, nas Ortografias Portuguezas: tendo

a advertencia, de nam se-deixar enganar, das-regras que dam, porque

comumente sam mui más. O P. Bento Pereira, que cuido foi dos-primeiros

que escrevèram nesta materia, dá muito más regras; e só proprias para

destruir, o que cada um sabe. O Barreto, o Leam, o Vera, tem algumas

coizas boas, entre outras muito más. Na mesma clase ponho, o que diz

o P. Argote, nas suas Regras Portuguezas; e algum outro. Tais autores

copiaram-se fielmente uns a outros, sem examinarem a materia.

Sei que alguns, dam em razam do-que escrevem, acharem-no asim escrito,

nos-antigos Portuguezes. Mas esta razam, é de caboesquadra. Porque

tratando-se de linguas vivas, que nam estavam purgadas polo pasado,

mas que na nosa idade, se-vam reduzindo à perfeisam; e desta, da-qual

no-noso tempo, apareceo o primeiro Vocabulario; nam devemos estar, polo

que diseram os Velhos: mas examinar, se á razam, para se-dizer asim.

Observe V. P. que os que asim respondem, contrareiam-se na pratica:

porque nam uzam daquelas palavras toscas, que ainda lemos nas leis

antigas, nos-testamentos, doasoens, e outros documentos, que deixáram

os Antigos. Serîa uma ignorancia manifesta, e afetasam indesculpavel,

falar oje com muitas palavras, de que uzáram os antigos Portuguezes. E

isto, nam por-outra razam, senam porque a lingua se-foi purgando, e os

omens mais capazes intendèram, que se-devia falar de outra maneira. E

se isto se-pratîca, com inteiras palavras, porque o-nam-praticaremos,

com melhor pronuncia?

Alem disto, é ja coiza muito antiga, que o uzo e juizo dos-omens

doutos, e de boa eleisam, decida neste particular. E como ajam muitos

Portuguezes inteligentes, que escrevem polo contrario; e asinam boa

razam do-que dizem; nam tem lugar nisto, uma prescrisam sem fundamento.

No-tempo de Cicero, a lingua Romana tinha de idade, polo menos, uns

setecentos anos; (contando somente da-fundasam de Roma: porque sabemos,

que a lingua do-Latio é muito mais antiga) e contudo ele, e outros

omens doutos, a-purgáram muito bem. Observe V. P. os fragmentos que

temos, de _Livio Andronico_, _Enio_, _Estacio Cecilio_, _Pacuvio_

&c. e as obras de _Catam_ o velho, de _Plauto_; e achará, palavras

dezuzadas, e mui toscas; e, em algumas obras, uma compozisam languida,

e sem grasa. Prosiga mais para baixo, examine as obras de _Terencio_,

_Lucrecio_, _Varram_, _Catúlo_, _Salustio_ &c. achará neles a lingua

mais mudada, e palavras mais polidas. Desa finalmente à ultima fineza

da-idade de oiro da-Latinidade, quero dizer, aos que melhor faláram,

no-seculo de Augusto; e sempre lhe-crecerá a admirasam, porque crece

a mudansa. _Pacuvio_, e _Estacio_ tem tanta semelhansa com _Cicero_,

_Cezar_, _Cornelio Nepote_, _Virgilio_, _Oracio_ &c. como o dia com a

noite. naqueles, tudo é inculto: e nestes, tudo é polido, palavras,

fraze, e metodo. E mais todos entram na idade de oiro! O mesmo Cicero,

em alguns seus tratados, adverte, quanto trabalhára neste particular,

para apurar a lingua. Oracio tambem adverte, que o bom uzo, é o que

emenda as linguas. Finalmente advertiram os Gramaticos, e Oradores

de melhor nome, que a Ortografia, está sugeita ao costume[11]: e um

douto Latino, deixou escrito nesta materia: _Antiquitatem posterior

consuetudo vicit_[12]. E nem somente encontrará V. P. palavras mudadas,

mas novas. Os Romanos nam tinham palavras para tudo: e asim foi

necesario tomalas prestadas: principalmente em materias de Ciencias, e

Artes: as quais adotáram como Latinas. Este é o privilegio das linguas

vivas. Mas certamente nam conhece este privilegio, quem se-escandaliza,

como vi alguns, de que se-recebam palavras estrangeiras em Portugal. Se

os Portuguezes as-nam-tem, que mal fazem, em pedilas aos outros? Nam

aprovo porem, o que muitos fazem, servir-se sem tom nem som, de vozes

estrangeiras, e palavras puramente Latinas, tendo outras Portuguezas

tam boas. O que observo em muitos, que prezumem de Criticos, e Poetas:

especialmente no-dito Inacio Garcez Ferreira. O que digo é, que nam

se-achando proprias, nam é delito, procuralas em outras linguas; ou

fazelas novas: e que, quando as proprias sam asperas, se-devem adosar.

Este mesmo uzo, de purgar as linguas, melhorando na boa pronuncia, e

enriquecelas com palavras novas, quando á necesidade; está geralmente

introduzido. Achei livros, ainda impresos, Inglezes, Francezes,

Espanhoes, e Italianos, com infinitas palavras, que ja oje nam estam

em uzo, e com um estilo de fraze pouco uzada. e lembro-me agora, ter

visto á anos, um livro de Genealogias de Flandres, escrito polos

anos de Cristo 1400., em um Francez tam embrulhado, que o-tinham

imprimido, com a versam de Francez moderno a lado: sem o qual socorro,

nam era facil intendelo. Os nosos antigos Poetas tem palavras, que

oje se-nam-recebem. Em _Dante_, e _Petrarca_, acham-se coizas nam

mui finas; e tambem em outros. Os Modernos de todas estas Nasoens,

melhoráram sobre os Antigos, e serviram-se do-seu direito, para emendar

a lingua. os mesmos Portuguezes o-fizeram. Finalmente isto é tam

claro, que me-envergonho de o-provar. E com efeito, a estes que asim

respondem, ou asim argumentam, seria mais acertado, nam-lhe-responder.

É fazer-lhe muito favor mostrar, que tais argumentos tem resposta.

Mas eu o-faso aqui, porque a amizade de V.P. me-obriga a obedecelo: e

escrevo isto, mais para satisfazer ò seu dezejo, doque à materia.

A outra razam, que outros afinam, para se-desculparem dos-seus erros

é, que umas vezes dobram as letras, para mostrarem donde se derivam:

outras, para a significasam, quero dizer, os diversos tempos: E asim

escrevem _Escritto_ com dois _tt_, para mostrar, que vem de _Scriptus_:

e _Amasse_ com dois _ss_, para o-distinguir do-prezente _Ama-se_.

Esta razam achará V. P. em alguns livros impresos. Mas, com todo o

respeito que devo, a quem uza dela, digo, que nada vale. A maior parte

das-palavras Portuguezas, tem origem Latina: o que até as criansas

sabem: quizera pois que me-disesem, porque se-devem dobrar em vinte,

ou trinta palavras, e nam nas mais? Alem diso se V. P. observa, muitas

palavras Portuguezas, achará, que nam só tem origem, mas sam puras

Latinas. V.g. _Aplaudo_, _Aplico &c._ e nestas será tambem necesario

dobrar os _pp_, e escrever trez consoantes seguidas, como no-Latim.

Será tambem necesario pòr o _s_, antes de _Ciencia_. e finalmente

comesar muitas disoens, por-duas consoantes, _mn_, _pn_, _sp_, _ps_:

porque tudo isto á no Latim. O _c_ antes de _t_, tambem se-deve pòr, em

muitas palavras, como em _Benedicto_, _Doctor_, &c. E nam sei, se, os

que seguem o dito parecer, admitirám todos estes acrecimos: o que nem

menos o Italiano, que se-preza de filho primogenito do-Latim, admite

em tudo. Crece o argumento se observamos, que o Portuguez tem palavras

Arabias, Goticas, Inglezas, Tudescas &c. o que suposto, será necesario

em cadauma, pòr a sua diferensa original: ou ao menos nas Latinas, para

as-nam-confundir com as outras. Finalmente se a tal razam valese, nam

deveria quem uza dela; pòr _h_, em _é_ verbo, e outros destes: porque

na sua origem nam o-tem.

Mas, deixando outras observasoens, com que podia provar, a

insufisiencia das-ditas razoens; darei só uma, que prova por-todas:

e esta especialmente serve, contra aqueles Portuguezes que dizem,

que se-devem dobrar muitas letras, porque se-pronunciam dobradas; e

expresamente se-ouvem os dois _mm_, em _comum_, e outras semelhantes.

Digo, que para responder a estes, basta citar-lhe o exemplo, da-lingua

Italiana. Nam vi ainda Portuguez algum (nam falo dos-que pasáram

a Italia até a idade de 7 ou 8 anos: porque estes perdèram a sua

lîngua, e falam o Italiano, como lingua propria) por-mais estudiozo,

e diligente que fose, que aprendèse a pronuncia, principalmente

Toscana, ou Romana: em que expresamente se-pronunciam as duas letras

consoantes: todos as-pronunciam como una simplez. V. g. Distinguem os

nosos _Capello_, que significa _Cabelo_, de _Cappello_, que significa

_Chapeo_; com pronunciar dois _pp_, e dois _ll_ no-2. Nenhum Portuguez

o-chega a distinguir: e por-iso sam logo conhecidos, por-Estrangeiros.

O mesmo digo em todas as outras dobradas: O mais que vi foi, pronunciar

os dois _zz_, v.g. em _Palazzo_, _Ragazzo_: mas isto com muito esforso,

e pola razam, de que se-pronunciam diferentemente: quero dizer, que os

dois _zz_, pronunciam-se como _ds_: que, se tivesem soido igual, nam

os-pronunciariam. Esta experiencia constante mostra, que é falso dizer,

que os Portuguezes, na-sua pronuncia natural, e sem fazer um grande

esforso, pronunciem as dobradas. Do-que se-segue, que sam inutis as

tais letras. E em tal cazo entra a minha regra, que as letras inutis,

se-devem desterrar, da-lingua Portugueza.

Sobre a pontuasam, tenho pouco que advertir a V. P. É claro, que a

_Virgula_ foi inventada, para denotar a interrusam que se-faz, quando

se-toma a respirasam: e para dar alguma distinsam ao discurso, e impedir

a equivocasam nele. Tem seu proprio lugar, quando se fazem distinsoens

de Nomes, ou de outras palavras, que dependem do-mesmo Verbo, e

se-unem em uma propozisam. v. g. _Pedro foi soldado, capitam, coronel,

e chegou a ser general_. Uza-se tambem dela, antes da-Conjunsam

copulativa, e adversativa. v.g. _Pedro, e Paulo partîram: Nem Pedro,

nem Paulo partio_. Mas nam se deve uzar, quando a conjunsam está

entre sinonimos: v. g. _Antonio tem eloquencia e facundia. Pedro tem

grande animo e valor._ Porem muito bem se-uza entre propozisoens,

que signifiquem o mesmo; a que podemos chamar sinonimas. v.g. _Cezar

subjogou todo o imperio Romano, e com a serie das-suas vitorias

conseguio, que os Governadores, o-reconhecesem soberano._ aindaque

entre estas, sendo longas, podese escrever ponto e virgula, ou dois

pontos.

Utilmente se-uza da-virgula, para distinguir e fazer mais claro o

discurso: o que se-faz em trez cazos. I. separando as propozisoens,

regidas pola mesma pesoa, ou coiza. v.g. _Umas vezes ri, outras

chora. Tomou uma lansa, e lhe-atravesou o peito._ II. interrompendo o

sentido, com outras palavras. v. g. _Deus, autor do-mundo, é pai de

mizericordia; e tem providencia das-criaturas_; mas quando a interrusam

é comprida, é melhor pór-lhe ponto e virgula; como abaixo diremos. III.

separando aquelas propozisoens, emque a segunda, é objeto da-primeira.

v.g. _Dezejo ver, como sucederá o negocio. Quererá Deus, que iso nam

se-verifique._

Finalmente se às vezes nam se-poem virgula, pode nacer confuzam

no-discurso. v. g. _Cuidando na minha aflisam, e ocupado neste

pensamento, confuzo saî de caza._ se nam ouvése virgula, em

_pensamento_, podia unir-se com _confuzo_, e cauzar nova confuzam. Mas

nisto das-virgulas, é necesario ter muito cuidado, de nam ser excesivo:

como fazem alguns, prezados de doutos, que em cada palavra poem

virgula. o exceso, e a falta igualmente se-devem evitar.

Tambem a _parentezis_, é especie de virgula: e consiste neste sinal,

() com o qual se-compreendem algumas palavras. Escreve-se, quando

dentro de uma propozisam, se-inclue outra, separada do-sentido; ou para

excesam, ou declarasam de alguma coiza. v.g. _Deixo de dizer (aindaque

poderia com razam) as atrocidades que cometeo. O Amor, (como achamos

escrito na Sagrada escritura) é tam forte como a morte._ Porem, se a

interrusam é breve, bastam duas virgulas. v.g _O Amor, como ja dise, é

uma grande paixam._

Despois da-virgula, seguem-se os _dois pontos_. Estes se-poem, quando

o sentido da-orasam é completo, quanto à sustancia; mas nam em quanto

ao fato: quero dizer, quando o que se-escreveo, faz por si só sentido

perfeito; desorteque podia-se terminar com um só ponto: mas quem

escreve, ainda tem alguma coiza que acrecentar, para melhor declarar

a coiza, ou expremir alguma circunstancia, com a qual se-acabe de

todo o periodo. v.g. _Recebi o doutisimo livro que v.m. me-mandou:

para me-obrigar com isto ainda mais, doque estava._ Neste periodo,

despois de _mandou_, escrevem-se dois pontos: porque o sentido, ja está

completo; mas ainda á que acrecentar. E estes dois pontos se-podem

replicar, em um longuisimo discurso, tantas vezes, quantas o sentido

da-orasam for suficientemente completo. Mas a melhor regra que nisto

se-pode observar, é esta: Se a propozisam que se-segue, nam é muito

independente da-antecedente, deve-se pòr dois pontos. v. g. _Estudar

varias ciencias, no mesmo tempo, antes confunde, que doutrina: como

tambem o comer no-mesmo tempo comeres diferentes, tanto nam engorda,

que ofende._ Mas se eu comesáse a segunda, por-palavras menos

dependentes, deveria pòr um ponto. v. g. _Estudar varias ciencias,

no-mesmo dia, antes confunde, que ensina. Damesma sorte, como dizem

os Medicos, mui diferentes comeres no-estomago, impedem a digestam._

neste cazo ponho ponto, porque o sentido é mais separado. Porem se

as propozisoens sam breves, intendo mais acertado, separalas com uma

virgula. v. g. _O estudar muito junto faz confusam, como tambem o comer

muito._

O _ponto_, costuma-se pòr, no-fim do-periodo, e quando o sentido é

totalmente completo. Neste particular observo, que muitos em Portugal

ensinam, que despois de ponto, sempre se-poem letra grande. O que é

um engano manifesto; e contra a pratica dos-que melhor escrevem: que

dizem, que quando os periodos sam breves, e em certo modo dependem uns

dos-outros; basta despois de ponto, pòr letra pequena: e quando isto

sucede no-fim do-verso, poem-se dois pontos: vistoque o verso seguinte

deve sempre comesar, por-letra grande. Onde os omens doutos advertem,

que nam só se-pode escrever letra pequena, despois de ponto final; mas

tambem algumas vezes, despois de dois pontos, letra grande: quando o

periodo é comprido, e se-tem posto muitas vezes dois pontos: ou tambem

quando se-introduz alguma pesoa que fala, ou coiza semelhante.

Verdadeiro metodo de estudar (Vol. I) · 第 5 / 32 段