Portuguezes, que quazi abuzam dele: e acham-se livros, em que sam
mais os _yy_, que os _ii_: especialmente o Curvo na sua _Atalaia
da-Vida_, e alguns outros. O Bluteau, seguindo a Bento Pereira, diz,
que se-deve admetir nas palavras, para mostrar a origem remota delas,
principalmente do-Grego &c. Como se sem esta noticia, nam pudesemos
saber Portuguez! Tomára porem que me-disese, se _Meio_, _Cuidado_,
_Saia_ _&c._ em que poem o tal _y_, tem alguma analogia com a origem.
Outros dam outras razoens, que nam merecem reflexam, nem resposta:
O certo é, que esta vogal antigamente valia o mesmo, que o _u_, ou
tinha um soido mais semelhante a _u_, que a _i_. onde se a-quizer-mos
tomar, no-seu antigo vigor, faremos uma voz desemelhante, à que
queremos pronunciar: e se acazo deve valer um _i_ simplez, tomára que
me-disesem, por-qual razam a-poem, onde nam é necesaria. Daqui vem, que
é erro escrever, _Meyo_, _Ley_, _Hey_, _Rey_ _&c._ tudo isto se-deve
escrever sem y, porque nam sam nomes Gregos, mas puros Portuguezes.
Onde nam só os Portuguezes, mas os mesmos nomes Gregos, quando estam
bem aportuguezados, como _Idropezia_, _Ulizes_ _&c._ se-devem escrever
sem y. Confeso, que nam pude sofrer o Bluteau, o qual, seguindo ao
Pereira, quer, que a vogal _i_ nam seja suficiente, para fazer ditongo
com _a_, dizendo, _Pai_, _Dai_, _&c._ mas que seja de necesidade pòr
o _y_, para o ditongo. Este parecer nam necesita de confutasam: pois
quemquer conhece, que com _ai_, se-pronuncîa, da-mesma sorte que _ay_:
onde o uzo serve de resposta; e nam temos necesidade do-_y_, para fazer
o mesmo, que fazemos com o _i_.
Paso daqui ao Z, aquela letra desgrasada, que teve a infelicidade de
dezagradar, à maior parte dos-escritores Portuguezes deste seculo: os
quais nam só a-desprezáram, para introduzir em seu lugar o _s_; mas
alguns deles com decreto asentáram, que se-devia desterrar do-meio
das-disoens, e prover o seu lugar no-_s_. Estes Senhores escrevem
quazi tudo com _s_. Achará V. P. em alguns dos-bem modernos * * *
_Cezar_, _Fazer_, _Quizeram_, _Miudeza_, _Reduzir_, _Fazenda_ &c. tudo
escrito com _s_. Entre eles achei um, de mui boa fama, que em uma
orasam * * escreve, _Alteza_, _Solenizado_ com _z_: e pouco abaixo,
_Usurpáram_, _Lisonja_ com _s_. poem _Riqueza_, e logo _Luminoso_,
_Profusam_. poem _Fazem_, e logo _Religioso_. Emfim a maior parte
destes modernos doutisimos escrevem, _Alteza_, _Luzes_, e outras
poucas palavras com _z_: e tudo o restante, em que devia entrar o
_z_, vai com _s_. O Vieira, e outros, que nam admitem tantos _ss_,
contudo em algumas disoens seguem o mesmo, e escrevem vg. _Brazil_,
com _z_, e _Reside_, com _s_. Mas eu creio, que é necesaria mui pouca
meditasam para conhecer, que todos estes erram. Os Portuguezes tem
a pronuncia do-_z_ asperisima: que creio lhe-ficou, da-comunicasam
com os Moiros, e Arabios, que abundam muito diso: e eu acho em
Portugual, muitos vocabulos destas Nasoens. Onde tendo o _s_, e _z_,
diferentisimas pronuncias, é erro sem desculpa, pòr o _s_, em lugar
do-_z_, quando este deve ter toda a sua forsa, como no-principio, ou
meio das-disoens. Dezafio todos os Portuguezes, paraque pronunciem
estas palavras diferentemente, vg. _Luzes_, _e Lizonja_; _Abrazado_,
e _Plauzivel_; _Riqueza_ e _Religiozo_. nam averá algum que se-atreva
a dizer, que nas primeiras se-ouve _z_, e nas segundas _s_: mas em
ambas as partes se-ouve um _z_ mui grande, e gordo. Sendo pois esta
pronuncia particular na lingua Portugueza, acha V. P. que se-pode
sofrer, desterrar todos os _zz_, para introduzir uma letra, que
soa diferentemente? a isto chamo eu destruir, nam emendar, a boa
Ortografia. Alem diso, eu acho em Portugal motivo, para dizer o
contrario. ponhamos exemplo nestas duas palavras, _Azeite_, e _Aceite_;
ou tambem, _Razam_, e _Raçam_. Ninguem dirá, que estas duas palavras
soam da-mesma sorte: porque em tal cazo nam averia motivo, para
as-distinguir na pronuncia. todos tambem conhecem, que o _c_, com
cedilha _ç_, antes de vogal, pronuncia-se como _s_; e que por esta
razam muitisimos Portuguezes indiferentemente uzam delas. Daqui pois
segue-se, que se _z_, se-deve pronunciar como _s_, os ditos pares de
vocabulos devem pronunciar-se da-mesma sorte. Mas sem eu perguntar
isto a omens doutos, mas somente ao leigo da-cozinha de V. P. sei que
me-responderá, que _Razam_, e _Raçam_, sam coizas mui diferentes:
_Azeite_, e _Aceite_, nam menos: E asim nam tenho lugar de duvidar,
que, pronunciando-se diferentemente, devem tambem escrever-se, com
letras diferentes. Se concedem, que o _z_ se-deve conservar, em algumas
vozes, como todos concedem; que razam á, para o-nam-conservar nas
outras? Se dizem, que o dito _s_ se-deve pronunciar como _z_, merecem
rizo quando querem pòr aquele por-este. ou deitem fóra esta letra
do-alfabeto; ou escrevam-na onde deve entrar. Fazer o contrario, é
destruir a pronuncia da-lingua, ou batizar de novo as letras.
Somente porei _z_ em lugar de _s_, no-fim de algumas disoens, de
que se-formam outras, como asima dise: porque o uzo introduzio esta
pronuncia do-_z_, semelhante ao _s_. o que suspeito que provèm de uma
_Apocope_, que se-acha nas tais palavras: e que antigamente despois
do-_z_ se-punha uma vogal: como á exemplo em muitas linguas, e também
na Portugueza.
Lendo eu a este intento o Bluteau nos-opusculos,[9] fiquei confirmado,
que poucos omens pensam bem, ainda dos-que tem bom nome. Confesa, que
muitos eram de parecer, que s’escrevese _Filozofia_, sem _ph_: e que
sempre se-avia de seguir a pronuncia, pois era esta a maior excelencia
do-Portuguez; no-qual as letras dobradas eram inutis. Que desta opiniam
era Duarte Nules de Leam, & Joam de Barros, nas suas Ortografias; e
outros muitos autores, que escrevèram da-lingua. Contudo diz, que na
Academia do-Ericeira se-asentára, que nem sempre se-devia escrever como
a pronuncia: Mas aqueles nomes que conhecidamente encerravam origens
sem corrusam, s’escrevesem como na sua etimologia, quando as letras
nam fosem como a pronuncia: e asim _Coro_, e nam _Choro_: _Monarquia_,
e nam _Monarchia_: E que os _zz_ s’evitasem muitas vezes, servindo-se
do-_s_. Confeso a V.P. que nam pude ler isto sem rizo. Eu nunca li as
obras do-_Leam_, ou _Barros_, nem me-cansei em buscalas: mas agora fico
formando melhor conceito deles. Polo contrario nam sei, quais eram
os votantes na dita conferencia: porem olhando para o que asentáram,
formo mao conceito do-seu juizo: pois conhecendo a razam, e tendo bons
autores, que os-apadrinhasem; ainda asim quizeram seguir os prejuizos e
preocupasoens que mamáram, somente por-serem antigas. Isto certamente
nam é emendar a Ortografia. O pior é, que o Bluteau conhecendo isto
mesmo, como em algumas partes confesa, deixa-se guiar da-corrente.
Asima mostrei, que _Monarchia_, deve-se escrever com _ch_, vistoque
asim escrevem _Archanjo_ os contrarios &c. e nam tem divesa razam, sem
cairem em uma superfluidade. Devendo pois desterrar o _ch_, é melhor
servir-se de _k_; mas nunca de _q_. O mais tambem ja fica advertido.
Certamente que o dizer o Bluteau, que nos-nomes se-deve observar, a
Ortografia da-derivasam, como em _Philosophia_ &c. porque de outra
sorte nam se-saberám buscar nos-Dicionarios; é reflexam que merece
rizo: porquanto as derivasoens, só as-procuram os doutos: e estes bem
as-sabem. os ignorantes, nem asbuscam, nem necesitam de buscalas,
aindaque queiram falar, e escrever puramente.
Até aqui tenho feito algumas reflexoens, principalmente sobre as
coizas, que se-devem deixar: agora farei outras, sobre as que se-devem
acrecentar. Nam cuide V. P. que estas sam de menor momento nesta
materia: antes muitas vezes delas depende o aumento, a pureza, e
elegancia da-lingua. Ponho em primeiro lugar os _Acentos_: que creio,
sam indispensavelmente necesarios, para distinguir muitas palavras. Nam
podemos sem eles saber, se _Amara_, é preterito, ou futuro: e damesma
sorte em outras muitas palavras. Tambem para distinguir os _Nomes_,
dos-_Verbos_, vg. _Pronuncia_ nome, de _Pronuncîa_ verbo. Asimque este
deve ser todo o cuidado dos-mestres: que devem advertir aos discipulos,
em que partes se-devem pòr, para bater com mais, ou menos forsa as
vogais, e distinguir os tempos, e as vozes: vistoque os Portuguezes nam
tem letras dobradas, que antigamente serviam a outros, para mostrar
as diferentes pronuncias. Porque eles com as dobradas, pronunciavam
diferentemente: e os Portuguezes, tirando em pouquisimas palavras,
pronunciam como se estivese uma simplez letra.
Nam ignora V.P. que as _virgulas_, _pontos_, e _dois pontos_, foram
inventados, para distinguir melhor o discurso. Este é um dos-defeitos
da-antiga escritura, que tinha poucos sinais destes: e por-iso é às
vezes bem embrulhada. Muitas vezes verá V.P. um ponto, despois de
cada palavra: o que faz grandisima confuzam. Outras vezes, o lugar em
que punham o ponto, mostrava a diversidade da-pontuasam: quero dizer,
que o polo na cabesa, ou no-corpo, ou no-pé da-letra, mostrava que
era _virgola_, _dois pontos_, e _ ponto_. E como nam temos documentos
bem claros, ainda oje vareiam muito os Gramaticos no-determinar,
quando era ponto, e quando virgula &c. Com efeito eu vi uma lapide
antiga, na qual os pontos todos estavam em um mesmo sitio, no-corpo
das-letras: o que aumentava a confuzam. Os Modernos mais advertidos
inventáram estes diversos sinais, para nam nos-enganar-mos nas pauzas,
e no-sentido do-discurso. Mas ainda nisto procedèram devagar: e eu vi
livros impresos nos-primeiros tempos, quero dizer, nos-fins do-seculo
XV. e principios do-XVI. nos-quais nam avia mais que virgulas, e
todas damesma figura: o que aumentava sensivelmente o embaraso:
sendo necesario um grandisimo estudo, para distinguir os sentidos. E
isto se-pratîca ainda oje nos-originais das-Bulas Romanas, escritos
sem virgulas, nem pontos: os quais quem nam é pratico dos-estilos
da-Dataria, nam pode ler; nam só polo carater Gotico, mas pola
Pontuasam. Os Modernos evitáram isto, com a diferensa de figuras. Onde
sendo os Acentos, os que tiram a confuzam à pronuncia, e ensinam,
como se-devem distinguir as partes do-discurso; valem infinito preso,
e devem praticar-se com cuidado. Nam digo, que escrupulozamente
pratiquemos as trez sortes de acentos: pois nem os mesmos Romanos
se-serviam muito do-_circumflexo_, que com o tempo perdèram. basta
uzar do-_agudo_, que se-escreve asim (´) para bater mais as silabas:
do-_grave_ neste modo (`) para as particulas, que se-tocam menos: em
algum cazo quem quizese podia pòr o _circumflexo_ sobre o î, para dar
lugar ao ponto desima. Ifto é o que basta.
Aos acentos seguem-se as _linhas_, que se-escrevem entre as disoens,
para as-juntar, ou dividir na pronuncia. Os Ebreos tambem tinham
estas linhas, e alguns Povos Europeos. Algum Portuguez a-uza. mas
serîa justo que a-uzasem mais, e com regras determinadas: pois ajuda
muito a pronuncia, e distingue muito as disoens, principalmente as
compostas. Julgo, que se-deve uzar naquelas, que compoem duas palavras
perfeitas, que costumam estar às vezes separadas. v.g. _Fazemos-lhe_,
_lhes-fazem_, _nos-dizem_, _dizem-no_ &c. Com isto se-mostra, quando
os Pronomes unem com os Verbos, nam só no-sentido, mas na pronuncia:
e finalmente, quando muitas disoens na pronuncia compoem uma. Deve-se
tambem pòr entre a Particula _se_, quando é Pronome, e o Verbo. v.g.
_Se se-fizer_. o primeiro _se_, é Conjunsam condicional: o segundo, é
Pronome, e une com o Verbo. Onde a dita linha é de grande utilidade,
para mostrar as palavras, que devem pronunciar-se unidas. v.g. o _Nos_,
algumas vezes é Nominativo, _Nós fazemos_; e pronuncia-se separado,
e com acento forte: outras vezes é Cazo, v.g. _nos-fazem_: o que
se-distingue mui bem com a dita linha. Tambem às vezes serve, para
distinguir os tempos. v.g. _Amáse_ preterito, e _Ama-se_ prezente, com
esta linha se-distinguem: porque esta separasam de vozes mostra, que,
quando chegamos ao _a_, deve correr a pronuncia, para apanhar o _se_:
que é o mesmo que dizer, deve nam parar no-_a_, nem carregalo: no-que
se-distingue o tempo. Sei, que com os acentos se-podem distinguir
estas coizas, digo, este ultimo cazo; e por iso digo, que ou uma,
ou outra coiza se-deve praticar: aindaque eu, por-intender que sam
necesarias, pratîco ambas.
Quanto ao _se_, nam só deve ter linha, quando se-une imediatamente ao
Verbo, mas tambem quando s’interrompe com a Particula negativa. v. g.
_se-nam-faz_, quando vale o mesmo que, _nam se-faz_. porque aindaque a
Particula paresa que separa; contudo no-dito cazo a negasam é unida ao
Verbo, e faz com ele um só corpo, e sentido: damesma sorte que entre os
Latinos, a particula _in_ unida aos Verbos. Onde a separasam, é somente
quanto à vista: e as duas linhas ensinam, que se-deve pronunciar tudo,
como uma só palavra. Serve às vezes a dita linha nam só para unir as
palavras, que ese é o seu principal fim; mas para evitar os equivocos.
E asim poem-se na Particula _Por_, quando significa _cauza_ &c. para
distinguila do-Verbo _Pôr_. tambem nas Particulas _no_, _do_, _da_,
para as-distinguir dos-Sustantivos _nó_, e _dó_, e do-Verbo _dá_, ou
_dás_. Em todas estas, e outras semelhantes, milita a mesma razam. nas
quais porem será justo pòr acento, quando deve ser.
Em outras partes tenho visto uzar estas linhas, que nam me-parecem de
tanta necesidade. v.g. _Fazemos_: que algum douto escreve: _Faze-mos_:
ou tambem quando uma consoante se-converte n’outra, para evitar o
concurso de muitas vogais: v.g. _Fazé-la_, _Amá-la_, que vale o mesmo
que, _Fazer-a_, _Amar-a_. Mas nestas primeiras pesoas do-plural parece
escuzada, porque se-intendem muito bem, e estam muito em uzo. E o mesmo
julgo, dos-segundos exemplos: muito mais porque nestas em que vai _La_,
muitas nam se-acham separadas às vezes, v.g. _Quere-la_ &c. Mas quem
nestes segundos exemplos ateimáse a praticala, nam faria erro. O que
porem me-parece afetasam é, querer separar esta voz _Mente_, dos-nomes
com que faz Adverbio: _Pia-mente_, _Antiga-mente_ _&c._ Na pronuncia
destas disoens, nam pode aver engano: e quem as-separa, intende mal as
coizas.
Podem opor-me uma dificuldade, vem aser, quando se-dividem as palavras
no-fim das-regras, como á-de conhecer quem copeia, se na seguinte regra
deve pòr a palavra inteira, ou com a dita linha. Mas a isto respondo,
que se-conhece muito bem deste modo: se as palavras se-dividem
por-necesidade da-regra, poem-se no-fim duas linhas asim =: quando
se-dividem na divizam da-linha, basta pòr uma só linha. Primeiro
exemplo asim: _Fa_=_zia_: segundo exemplo: _Faz-me._ Se no-fim da-regra
se-acha o _Fa_= com duas linhas, é sinal que na imprensa, ou copia deve
ser inteira a disam: se tem só uma linha, sucedendo ficar toda a disam
na seguinte regra, deve ter tambem a linha: e isto é facil de praticar.
Creio que será mui justo, introduzir na lingua Portugueza, os
_Apostrofes_: que sam umas virgulas, que se-escrevem no-alto de
uma consoante antes da-vogal seguinte; para mostrar, que falta uma
vogal, e que a consoante se-deve unir na pronuncia, com a vogal
da-seguinte disam. Digo na proza, porque no-verso o Camoens, e outros
ja os-introduzîram. Os nosos Italianos introduzîram os _Apostrofes_,
para abreviarem as disoens: vistoque, comendo-se as ditas vogais
na-pronuncia, é superfluo escrevelas: bastando ali pòr o sinal, de
que deveriam estar. O mesmo fazem os Francezes: e cuido que, sem
alguma censura, o-podem introduzir os Portuguezes. Onde será permetido
escrever, _Amor d’ Antonio_: _Cam d’agua &c._ A razam disto é, porque
ou na proza, ou no-verso nam se-faz cazo daquela primeira vogal: e
asim podemo-nos dispensar de a-escrever. Em 2. lugar, porque nam
se-perde com isto o sentido, nem se-faz equivoco. Em 3. porque faz
a pronuncia mais doce. o que principalmente se-conhece, quando as
vogais sam semelhantes: no-qual cazo pronunciar dois _ee_, ou dois
_aa_, é aspero, e cansa. Asim cuido, que neste cazo, é necesario;
nos-outros, mui agradavel o _Apostrofe_. Nem isto é tam novo em
Portugal, que nam se-achem vestigios desta uniam na pronuncia: antes
nam á coiza mais frequente. Considere V.P. estas palavras, _Deste_,
_Daquele_, _Damesma_, e outras semelhantes; e verá nelas o que digo.
Antigamente escrevia-se, _De este_, _De aquela_, _De a mesma &c._ o que
facilmente alcansa quem considera, o que vale aquele _d_, e com que
motivo se-introduzio. Mostrou a esperiencia, que, pronunciando estas
particulas separadas, ficava aspera a pronuncia: e asim deitaram-nas
fóra até da escritura. O que suposto, o que eu aconselho é, que
pratiquem com as outras disoens, que se-unem na pronuncia, o mesmo que
tem praticado com estas: e que em ambas as partes ponham o _Apostrofe_,
para mostrar a vogal que falta; e com isto ensinar melhor a compozisam
das-disoens, sabelas conhecer, e buscar. Apostarei eu, que de dezmil
omens Portuguezes, a um só nam veio nunca à imaginasam, que _Deste_
_&c._ é composta de _De_, e _Este_. Proguntei isto a alguns, e nam
me-souberam responder: e contudo serviam-se indiferentemente destes
termos. Eu teria uzado mais amiudo dos-_Apostrofes_: mas como ainda nam
estam bem introduzidos, temo que me-nam-intendam. pouco a pouco devemos
acostumalos a isto.
Outra coiza tenho que repreender, na maior parte dos-Portuguezes, e
vem aser, que dividem muitas disoens, que deviam estar juntas. Vg.
escrevem, _Ainda que_, _Para que_, _Com que_, _Por que_, e outras
conjunsoens semelhantes. Mas erram, porque aquelas palavras quando
se-seguem umas a outras, devem estar unidas, e fazem uma só palavra:
e até isto pode ser necesario, para fugir de equivocasoens. Se eu
diser: _Para que omem me-manda! Com que razam me-persuade!_ neste
cazo o _que_, é Relativo. e deve estar separado. Mas quando significa
o mesmo, que _etsi_, _ut_, _igitur_, _quia_, como nas quatro asima
apontadas; deve estar junto: o que servirá muito, para os-distinguir
ambos. Isto mesmo praticáram os Romanos. _Attamen_, _Etenim_, sam
compostos de _At_, _tamen_; _Et_, _enim_. _Quamobrem_ é composto de
trez disoens, nenhuma das-quais é Adverbio: e contudo juntas fazem de
muitos nomes um. E isto mesmo devem fazer os Portuguezes nestas disoens
indeclinaveis: e ainda algumas vezes nas declinaveis, que se-unem com
o Articulo &c. o que o uzo ensinará; e a pratica dos-omens doutos
confirmará.
Tambem sobre os _Plurais_ serîa necesario, establecer um uzo constante.
O P. Bento Pereira diz, que o plural de _al_, é _ais_, e nam _aes_.
e parece que tem razam; porque a pronuncia mostra um _i_, e nam um
_e_. Mas nisto á tanta variedade, que uns escrevem _ais_, outros
_aes_: e o pior é, que o mesmo escritor serve-se às vezes, d’ambas
as terminasoens. Um destes é o Bluteau: que, tendo aprovado na Proza
Gramatonomica a opiniam do-Pereira, contudo escreve _Misaes_, e outros
plurais semelhantes. Mas ja adverti, que o Bluteau é inconstante
na Ortografia. Mais controversos sam, os que acabam em _er_, como
_Chanceler_, cujo plural querem muitos que seja _Chancereis_: e nisto
tropesa muita gente boa. Cuido, que é mais proprio, e mais chegado
à analogia, _Chanceleres_: e asim todos os mais. Damesma sorte
_Almiscar_, deve fazer, _Almiscares_. Tambem é mui duvidozo o plural
de _Simplez_, como tambem _Feliz_. Muitos escrevem o primeiro com
_x_, em ambos os numeros: o que aumenta a confuzam. Outros escrevem
no-singular, _Simplice_: que parece afetasam vergonhoza. Ou acabe em
_s_, ou _z_ no-singular, o plural deve acrecentar somente um _es_:
v.g. _Simpleses_, ou _Simplezes_. O mesmo digo, dos-que afetam dizer
no-singular, _Felice_, e plural _Felices_. Digo, que no-singular
deve-se dizer _Feliz_, ou com _s_, ou _z_; e no-plural _Felizes_: e
asim dos-mais. as palavras _Indice_, e _Index_, ja oje se-recebem
indiferentemente em Portugal. Que _Brazil_, fasa _Brazis_, está muito
bem: mas que _Malsim_, _Beleguim_, fasam _Malsis_, _Beleguis_, como
querem alguns; é contra a pronuncia boa, que mostra um _n_ mui claro.
E asim estes em _im_, devem acabar em _ins_, _Malsins_. Os outros
plurais em _aons_, _aens_, e _oens_, é facil determinalos; advertindo
as anomalias que se-acham nas tais regras, que nam sam poucas.
Mas nam pára a qui a reforma: deve-se dar um paso mais adiante, e
acrecentar muita coiza, em que é defeitoza a lingua Portugueza.
Consiste a primeira, em adotar algumas palavras Estrangeiras, para
explicar melhor o que queremos. Nam acho em Portugal palavra, que
explique a idea que formam os nosos Italianos, (e ainda os Francezes)
quando proferem esta palavra, _Penso_: dizendo, _Um omem que pensa bem:
Que pensa mal &c._ Dizer, _Ajuizar_, nam explica: porque ajuizar é uma
especie de _Pensar_; mas nam compreende tudo quanto diz, _Pensar_. Nem
menos serve, _Considerar_: porque considerar é o mesmo que _Meditar_,
_Examinar_ uma materia; e _Pensar_ diz mais. Um meu amigo, para dezatar
este nó, servio-se de _Pensamentear_: mas parece afetado. É mais
proprio e natural, servir-se do-Verbo _Pensar_, que compreende todas
as operasoens do-intendimento. Onde, diremos que um omem _Pensa bem_,
quando se-serve de todas as qualidades da-mente ou intendimento, como
deve ser.
A mesma dificuldade pode nacer em outras palavras. Aqui confundem
_Iuizo_, e _Intendimento_: sendo coizas muito diferentes. porque
cada nome destes distingue uma particular faculdade da-alma, esta de
intender, aquela de julgar. A estas duas unem outras duas, _Ingenho_,
e _Talento_: as quais nam só sam diferentes das-ditas, mas entre
si. _Ingenho_, somente explica a facilidade que temos, para unir
diferentes ideias, de um modo que eleve. _Talento_, significa a
capacidade tanto de intender, como de julgar, e discorrer. Serîa bom,
que se-distinguisem estes significados, e se-explicasem aos rapazes,
para nam confundir as palavras. Parece-me, que para explicar aquilo,
a que os Latinos chamam, _Mens_, _Intelligentia_, e algumas vezes
_Intellectus_, se-podia adotar em Portugal a palavra _Mente_, como
fazem os nosos: a qual explica melhor tudo. O uzo tem introduzido, que
_Intendimento_ seja sinonimo de _Mente_.
A estas se-podiam ajuntar outras muitas palavras Estrangeiras, que
explicam melhor o que se-quer dizer; principalmente quando se-trata de
Artes e Ciencias: cujos termos é necesario uzar, mas com cautela. Nam
digo, que se-devam adotar cem mil termos Latinos, que no-Portuguez sam
inutis: antes condeno isto muito em bastantes Portuguezes, que enchem
os seus escritos, de mil palavras Latinas sem tom nem som, somente para
parecerem eruditos. Este é aquele vicio dos-pedantes ou ignorantes, a
que os nosos chamam, _Pedanteria_. O que digo é, que nam avendo termo
proprio em Portuguez, se-pode, e deve buscar fóra: e muitas vezes
pode-se buscar fóra, nam tanto por-preciza necesidade, quanto para
maior ornato da-lingua: aqual é justo que nam seja tam pobre, que nam
tenha algumas ocazioens dois ou trez sinonimos, para explicar as mesmas
coizas: outras vezes para adosar a pronuncia aspera de algumas vozes
antiquadas: e fazer seja mais bela, e mais suave a lingua materna. Mas
aqui é que está o juízo, em sabelos adotar sem afetasam. Porei um,
ou dois exemplos. Em Portugal nam á nome proprio, para nomiar aquele
criado de libré, que acompanha seu amo a pé vizinho à carruagem, ou
cavalo. Os nosos Italianos explicam isto com uma palavra, _Staffiere_,
ou _Palafreniere_. Porque nam uzaremos destes termos em Portugal?
Chamamos aqui _Letrado_, ao que advoga nas cauzas: chamamos aos
omens doutos, _Letrados_. Mas isto é uma impropriedade. _Letrado_,
_Douto_, _Erudito_, _Sabio_, sam sinonimos, mas de significasam mui
generica. Aos que advogam, deviam chamar _Advogados_: que é o seu nome
proprio, ainda na lingua Latina, como diz Quintiliano, e Asconio:
_Advocatus_, i. e. _Patronus_, _Caussidicus_. Adotáram os Portuguezes
estas palavras, _Berlinda_, _Paquebote_, _Estufa_, _Sege &c._ para
distinguir as diferentes sortes de carruagens de que uzam: mas podiam
adotar muitas mais: avendo aqui outras carruagens, que nam tem nome
proprio, que em outras partes o-tem. As artes Liberais, Ciencias &c.
tratando-se em Portuguez, devem ter os seus nomes Estrangeiros, mas
aportuguezados. Finalmente, se eu ouvese de escrever tudo, o que
me-ocorre nesta materia, faria um groso volume: e asim contento-me, de
apontar estes exemplos. O que encomendo muito é, que com este pretexto,
nam nos-encham a lingua de Latinismos, Francezismos, e Italianismos,
como entre outros fez Inacio Garcez, nas Notas ao Camoens.