Quanto aos nomes, que ainda nam estam em uzo por-todos, mas que somente

uzam, ou para melhor dizer, algumas vezes se-servem deles os literatos;

deve-se praticar outra regra. Se sam nomes (falo dos-Latinos, Gregos,

Ebreos &c.) de coizas pertencentes a Artes, ou Ciencias, parece-me que

se-devem escrever, com as suas letras originais. Vg. se quizer-mos

explicar, ou escrever os nomes pertencentes à Anatomia, que sam todos

Gregos, segundo o estilo do-Portuguez; escreveremos palavras, que

se-nam-intenderám: e asim é melhor, seguir a derivasam Grega. O mesmo

digo, de algumas partes da-Medicina, da-Filozofia &c. Muitos destes

nomes ou nam se-podem escrever de outra maneira, v.g. _Pneumatologia_

&c. ou, aindaque se-posam escrever, nam estam geralmente recebidos, nem

ainda polos mesmos eruditos: e asim nam gozam, do-privilegio Portuguez.

Se sam nomes Proprios, entra a mesma regra: ou sam pouco uzados; e em

tal cazo é obrigasam escrevelos, com as suas proprias letras. Onde nam

condeno quem escreve, _Homero_, _Herodoto_, _Herodes_ &c. aindaque

estes trez, e outros semelhantes que estam ja muito em uzo, podem mui

bem escrever-se sem _h_: o que ate os nosos Italianos ja fazem: Mas

sempre é mais desculpavel, se em semelhantes nomes se-uzam letras

da-origem. Quanto porem aos outros, que servem de diferenciar as pesoas

Portuguezas, e já estam totalmente naturalizados; devem-se vestir, com

o traje de Portugal. E este uzo acho praticado, em todas as Nasoens de

melhor doutrina. Quazi todos os nomes da-Sagrada escritura, se-acham

mudados na nosa Vulgata. Vg. nós dizemos, o _Mesias_: e se ouvesemos

pronunciar como está no-texto Ebreo, deveria-mos dizer, _Maxiaggh_ com

pronuncia forte, e gutural no-g. o que fizeram os Latinos, para adosar

a pronuncia forte, e aspera dos-Ebreos. Traduzindo os Gregos este nome,

escreveram, _Christos_: os Latinos, _Christus_: de que nós tomámos a

palavra, _Cristo_. Podia apontar mil exemplos, que deixo por-brevidade.

Os Gregos quando pronunciavam os nomes Latinos, faziam-no com

o dialeto Grego. e por-iso nós achamos, que nas medalhas Gregas

dos-Consules, e Imperadores Romanos, os nomes estam transformados.

Vg. este nome, _Marcus Tullius Cicero_, os Gregos escreveram-no

nas medalhas, _Markos Tyllios Kikeron_, que tem bastante diferensa

do-Latino. Os Latinos, como ja disemos, davam a terminasam Latina, aos

nomes Gregos: e muitas vezes deitavam-lhe fóra algumas letras. basta

abrir os Dicionarios, para reconhecer esta verdade. Os nosos Italianos

italianizam todos os nomes Estrangeiros, que lhe-chegam às maons,

quando eles sam tais, que se-podem pronunciar à Italiana: e, seguindo a

pronuncia Franceza, desterram da-escritura, os ditongos, e tritongos;

pondo somente a letra que conresponde ao tal ditongo. outras Nasoens

fazem o mesmo. Se pois em todos os tempos ouve esta liberdade; tambem

se-deve praticar em Portugal. E asim parece-me escrupulo ridiculo,

querer conservar em _Ieronimo_, o _h_, e _y_: e em _Iozé_, o _ph_ &c.

tudo isto se-deve evitar, escrevendo os nomes com as letras, com que-se

pronunciam em Portugal.

Emfim a regra é geral, que todos os nomes de origem antiga &c. ou sejam

Proprios, ou Apelativos, que estam naturalizados, e sam frequentemente

uzurpados, ou por-todos os omens, como _Ieronimo_, _Triumfo_, &c.

ou polo comum dos-doutos, como _Filozofia_, _Teologia_, _Fizica_,

_Metafizica_, e mil outros; devem-se escrever como se-pronunciam.

Os nomes ditos que nam sam geralmente uzados, v.g. _Themistio_,

_Theopompo_ &c. por-nam escandalizar os ouvintes, ou confundir os

ignorantes, é melhor escrevelos com as letras originais. Os nomes,

em que entra duvida se sam, ou nam uzados, podem-se escrever, com

as letras da-sua derivasam; pois a duvida mostra, que nam é uzual.

Isto digo dos-nomes, que sam puramente antigos, ou que se-derivam de

linguas mortas, como a Latina, Grega, Ebraica, Caldaica &c. Quanto

pois aos nomes de linguas vivas, principalmente das-linguas do-Norte,

em que se-acham muitas consoantes seguidas &c. acho que é melhor, e

às vezes preciza necesidade, escrevelos com todas as suas letras:

porque sem isto, nam se-poderám distinguir e reconhecer, os Autores,

as Cidades &c. e nacerá grande confuzam. Aquelas consoantes que a

nós parecem superfluas, nam o-sam para eles, porque as-pronunciam,

supondo-lhe vogais: onde tirando-as, nem os-intenderemos pronunciar,

nem os-saberemos procurar nos-livros.

Esta doutrina que atè aqui establecemos, deve-se aplicar, a todos os

outros cazos que ocorrerem, de quaisquer letras que se-nam-pronunciam:

E asim nam é necesario repetila especialmente, em todas as palavras:

pois qualquer por-simesmo pode aplicála. Onde, seguindo a ordem

do-Alfabeto, deve-se desterrar o _G_. de _Madalena_ &c. Polo contrario

deve conservar-se em _Significar_, _Magnifico_ &c. porque na pronuncia

s’exprime.

A mesma razam persuade, que nenhum Portuguez deve servir-se do-_H_,

senam quando tem diferente pronuncia. v.g. despois de _c_, como em

_Chave_, despois de _n_, como em _Minha_ &c., nunca porem quando

se-diz, _He_, _Hei_ &c. Desta opiniam foram alguns antigos Portuguezes,

como Joam Franco Barreto na sua Ortografia; que quer se escrevam, sem

_h_: e o P. Bento Pereira na sua _Grammatica Linguæ Lusitanæ_, que

concede, que em algumas partes se-pode deixar. Muitos Portuguezes que

atualmente vivem, e de mui boa doutrina, defendem fortemente, que

se-exclua o _h_. e achei um, que somente o-admitia, quando distinguia

uma disam da-outra. v.g. _Ouve_ pode significar, _teve_, e também,

_está ouvindo_: onde no-significado de _teve_, punha-lhe o _h_, para

nam cauzar confuzam. Conheso, que o contexto mostra bem, em que sentido

se-toma: e sei que no-Latim, á infinitas palavras, que tem terminasoens

equivocas, cujo verdadeiro significado se-alcansa, polo contexto.

E ainda no-Portuguez _Amára_, e _Amará_, se acazo nam tem acento,

somente se-distinguem polo contexto. da-mesma sorte _Cria_ verbo que

significa, _Tirar do-nada: cria_ verbo que significa, _Produzir a

terra: cria_ verbo que significa, Dar _leite ás criansas_: e _cria_,

imperfeito do-verbo _crer_: nam se-distinguem senam polo contexto: o

que tambem sucede em muitos outros. Digo somente, que nam condenaria,

quem o-escrevese nestes cazos: aindaque eu pratique comumente o

contrario. Fóra daqui, julgo que nam se-deve escrever, em nenhuma outra

disam; porque todas se-distinguem mui bem, sem ese sinal de aspirasam.

O Bluteau, que no-Dicionario diz, que em algumas partes se-podia

deixar de pòr o _h_ no-principio; em outros lugares porem defende, a

introdusam do-_h_, querendose desculpar, com a lingua Italiana. Mas

erra manifestamente no-que diz. porque nam só os omens mais doutos na

lingua Italiana desterráram o _h_ do-principio, e de muitas partes

do-meio das-disoens, deixando-o somente despois de _c_, e g, como em

_Bianche_, _Vaghe_; porque aqui é verdadeiramente aspirasam forte,

e tem seu particular soido: mas tambem a mesma Academia da-Crusca

no-seu _Vocabulario Compendiado e Correto_, declara, que somente uza

do-_h_, para evitar algum equivoco. v.g. _Hanno_, Verbo que quer

dizer, _tem_; de _Anno_, nome que significa, o _ano_. Como tambem em,

_Ho_, _Hai_, _Ha_, inflexoens do-mesmo Verbo; para as-distinguir de

algumas Particulas, que tem a mesma terminasam. aindaque neste cazo

nam condenam, quem deixa o _h_. Quando muito admitem o _h_, em _Hui_,

_Hoi_, exclamasam de quem se-queixa, ou outro semelhante monosilabo:

declarando porem, que aqui, e em quatro vozes que apontam, s’introduzio

por-erro antigo dos-impresores, e nam por-alguma fundada razam. O que

é muito de notar: sendoque os Toscanos aspiram fortemente todos os

monosilabos, semque por-iso escrevam _h_. Fóra destas circunstancias,

nenhum Italiano douto escreve _h_: onde falsamente se-serve o Bluteau

do-seu exemplo.

Mas, deixando o que fazem os outros, e pasando ao que devem fazer os

Portuguezes, digo, que nam devem escrever _h_ senam, quando cauza

diferente pronuncia, como em _Minha_, _Diz-lhe_ &c. O _é_ quando _é_

Verbo, muito bem se-distingue do-_e_ Conjunsam, pondo-lhe emsima um

acento. Nem eu poso intender porque razam _é_ Verbo, deva escrever-se

com _h_, e _era_, _eram_ &c. que sam inflexoens do-mesmo Verbo,

sem ele. Também o _ás_, _á_, Verbos que significam _ter_, mui bem

se-distinguem de _às_, _à_ Particulas, com a diversidade do-acento

grave. Tudo isto asim distinguem os nosos Italianos, que participam

mais que ninguem da-lingua Latina, e que sam mui advertidos nestas

pronuncias. Onde é erro dizer, _Huma_, _Humilde_ &c. mas deve-se

escrever, _Uma_, _Umilde_ &c. Nem é obscura a razam: basta olhar para

à pronuncia, para saber, que é erro, pòr o _h_. Antigamente o _h_ era

sinal de uma forte aspirasam[7]. (intendo por esta palavra _aspirasam_,

deitar para fóra o ar que se-recebeo, para refrescar o interior, e

ajudar a circulasam do-sangue: o que advirto, porque me-parece, que

entre muitos Portuguezes, nam é bem certa a significasam desta palavra,

_aspirasam_) Deste final pois somente se-serviam, para suprir as letras

aspiradas dos-Gregos. Onde somente s’escrevia antes das-vogais, cuja

pronuncia era bem aspirada, e gutural, como adverte Cicero[8]. e talvez

antes desas nam se-punha. Mas no-tempo da-pureza da-lingua Latina,

nunca os omens doutos escreveram _h_ despois de consoante: mas somente

no-principio da-disam, e antes de vogal: e nam escreviam _Pulcher_,

mas _Pulcer_: nam _Charitas_, mas _Caritas_ &c. o que ainda oje vemos,

nos-melhores manuscritos, e inscrisoens lapidares. Mas se alguma vez

a-punham despois de consoante, somente o-faziam nas palavras Gregas, ou

que de lá traziam origem. De que fica claro, que na lingua Portugueza,

em que nam á aspirasam alguma nem forte, nem branda; nam se-deve pòr

aquele sinal, que só serve de avizar o Leitor, que aquela letra deve

ser aspirada. Somente do-_U_ duvidei por-algum tempo, se admitia antes

de si _h_: porque, a falar verdade, parece-me ser aquela letra, que em

Portugal se-pronuncia, com alguma aspirasam; porque a mesma natureza

da-letra o-permite. mas dezenganáram-me os meus Italianos, que, sendo

tam escrupulozos observadores da-pronuncia, nam poem _h_ antes de disam

alguma, que comece por-u: falo dos-que escrevem com a ultima perfeisam.

Onde nem menos os Portuguezes devem ter escrupulo, de os-escrever sem

_h_.

Sobre as diferentes especies de _II._ é incrivel a bulha que alguns

fazem, especialmente para determinar, quando se-deve pòr j rasgado, ao

principio das-disoens. Cuido que esta grande bulha, se-pode reduzir a

duas palavras. Distinguir o _i vogal_ do-_consoante_, é mui necesario,

para saber quando fere, ou nam fere a vogal. chamamos _rasgado_, ao

consoante; _pequeno_, ao vogal; e distinguem-se pola figura. Quanto

ao escrevelos ao principio, pouca dificuldade pode nacer, em quem

escreve em Portuguez; vistoque rarisima palavra Portugueza comesa

por-_i_ vogal, antes de outra vogal. Onde tirando, _îa_ Verbo, ou

alguma outra rarisima, que agora nam me-ocorre; em todas as

palavras Portuguezas, que comesam por-_i_ antes de vogal, a dita

letra é consoante, e deve-se escrever rasgada; ou de forma pequena,

ou maiuscula, segundo a necesidade. Alguma dificuldade pode nacer,

no-principio das-palavras impresas. Neste cazo nam dezaprovo, que o

_i_ de _Joannes_ v.g. e outros semelhantes seja rasgado, para evitar

alguma confuzam. Mas isto intende-se nos-nomes de fórma pequena: porque

nos-de fórma grande, que é a maiuscula Romana, pouca necesidade temos

de escrever _i_ rasgado no-principio: pois com o outro, igualmente

se-pronuncia bem. Quem porem em ambas as partes quizese pòr _i_

rasgado, nam o-condenaria: principalmente se comesasem por-alguma

das-duas Portuguezas, que asima aponto.

A maior dificuldade consiste em determinar, quando se-poem _G_, quando

_I_, antes de _e_, ou _i_, nas palavras Portuguezas. v.g. _Gente_

escreve-se com _g: Ereje_ uns o-escrevem com _g_, outros com _i_,

_Ieronimo_ com _i: Giro_ escreve-se com _g_: E outras vezes antes

do-_e_ &c. poem-se um _j_ consoante. Para dar razam destas variasoens,

tem alguns escrito longas paginas: mas nenhuma Regra das-que li, deixa

de ter suas excesoens. Dizem, que em _Gente_, _Giro_ &c. a derivasam

aponta o _g._ concedo: mas que derivasam aponta a letra, que devemos

escrever em _Ereje_, e outros semelhantes, que nam tem analogia

alguma, com as letras da-sua derivasam? O meu parecer é este: Que os

doutos, sigam a derivasam Latina, especialmente no-principio; e tanto

nos-Apelativos, como Proprios, que sempre comesam por-_i_: tirando

quando despois se-segue outro _i_, que entam é melhor, converter o

primeiro em _g_, como _Ginja_. Que no-meio, uzem mais do-_g_, que

do-_i_: vistoque nisto tambem á diversidade, ainda nos-que derivam

do-mesmo Latim. Mas, nam se-lembrando da-derivasam, &c. posam servir-se

indiferentemente de ambas. Os ignorantes sigam o costume e a pràtica,

dos-que melhor escrevem. Nem devemos admirar-nos, se em alguma letra

nem todos concordem: nam sendo posivel, que convenham todos, em materia

tam duvidoza e arbitraria.

Tambem sobre as terminasoens, _am_, e _aõ_, fazem alguns longuisimas

disputas, e mui superfluamente. Confesa o Bluteau na sua Proza

Apologetica, que ja saîram livros inteiros, para deitar fóra o _aõ_: e

que outros lhe respondèram dizendo, que o _til_ nam era _letra_, mas

_risco_. O Bluteau protege a pose do-_aõ_. mas declara, que o _til_

supre a letra _n_: e defende constantemente, que nam se-deve tirar o

_til_, porque a terminasam _aõ_, segundo ele diz, é mais engrasada, que

o _am_; e por-este motivo deve-se conservar: muito mais porque seria

necesario tambem, desnaturalizar as palavras, _Birimbao_, _Catimbao_,

_Pao_, &c. Mas o Bluteau nesta materia, deixou-se guiar por-alguns

prejuizos. Dizer, que o _til_ é _risco_, e nam _letra_, é o mesmo, que

nam dizer nada. O certo _é_, que este risco faz, que eu pronuncie um

_n_ demais, que as letras que ali vejo: onde, chamem-lhe como quizerem,

é um verdadeiro _n_. Dizer, que a terminasam _am_, é diferente na

pronuncia, de _aõ_, é outro engano: pois em qualquer disam Portugueza,

que se-ache a terminasam _am_, todos a-pronunciam como _aõ_: e

Portuguezes mui doutos servem-se indiferentemente de ambas: e cuido que

com muita razam; se è que a segunda se-deva tolerar.

Os que contrareiam isto, nam intendem bem a materia; nem d’onde

naceo, esta particular pronuncia em _aõ_. Quem bem considera o ponto,

reconhece facilmente, que aquele _til_, é um rigorozo _m_ final: e

deveria escrever-se, _Falaom_: porque escrevendo-se desta sorte, e

pronunciando-se depresa, faz o mesmo soido, que _Falaõ_. Daqui naceo,

aquela particular terminasam em _aõ_ dos-Portuguezes: porque com a

presa de pronunciarem, tocam tam de pasagem o _o_; que nam se-ouve

mais, que o _m_: o qual, em vez de o-pronunciarem com os beisos

fechados, que é a sua propria pronuncia; pronunciam com um soido

fanhozo do-nariz: que é o estilo prezente de pronunciar todo o _m_

final, em Portugal: nam avendo aqui _m_, que se-pronuncie como deve

ser. Alemdeque bastava alguma reflexam, para conhecer isto; acha-se

manifesta razam, para o-persuadir. A _plica_ ou _til_, deve significar

alguma letra: de outra sorte seria superflua, e nam produziria algum

efeito. Esta letra só pode ser _m_, ou _n_, e ambos finais: porque de

outra sorte sería, _Falamo_, ou _Falano_: o-que nam pode ser. Onde fica

claro, que _Falam_, é uma sincope de _Falaom_: e que tanto se-pode

escrever um, como outro. Reconhece-se isto melhor nos-plurais. v.g.

_Maõ_, faz _maons_: _Varaõ_, _varoens_: nos-quais declaradamente se-ve

o _m_, ou _n_, segundo a pronuncia. E eu creio, que antigamente nestes

plurais, em vez de _n_, punham _m_; e que a dificuldade de pronunciar

o _m_ junto com o _s_; ou o som do-nariz, que pouco a pouco se-foi

introduzindo no-_m_, o-converteo em _n_ nestas terminasoens: pois ainda

oje escrevendo-se com um _m_ final, a pronuncia o-faz parecer, como

_n_. O que, como dise, é um idiotismo particular dos-Portuguezes.

E esta é a razam, porque os Estrangeiros, nam podem pronunciar bem

estas dezinencias; que na verdade sam feias, e asperas terrivelmente:

porque nam á quem lhe-explique, que o _til_ de _aõ_, é um _m_, que

os Portuguezes, por-corrusam, pronunciam como um _n_; nam só no-fim,

mas ainda no-meio das-palavras. Reconheci isto por-experiencia: pois

tantoque dei esta explicasam a alguns, e mostrei o vicio da-linguagem;

pronunciáram melhor, que os outros. Daqui concluo, que as ditas

terminasoens, _aõ_, e _am_, podem-se uzar indiferentemente; vistoque

uma é sincope da-outra: tendo introduzido o uzo, nam pronunciar na

segunda, o _o_. Onde dise um erro Inacio Garcez Ferreira, e alguns

outros, quando quizeram defender, que estas dezinencias eram diferentes

no-soido: e quando ele lhe-chamou, sincopes das-Castelhanas. E nam sei,

se confirma tambem o que ate aqui dise, ver, que na Provincia de Entre

Doiro, e Minho, ainda oje se-pronuncîa, em muitas destas palavras, o

_o_; pois dizem, _Tabaliom_, _Escrivom_ &c.

Mas eu digo mais, e asento, que aindaque uma seja abreviatura da-outra,

emportava muito à lingua Portugueza, que se-deitase fóra o _til_, e

a terminasam _aõ_, escrevendo-se tudo extensamente: e uma de duas,

ou que se-escrevese _Falaom_; ou, abreviando, _Falam_. Introduzir a

primeira escritura, serîa mais dificultozo; porque estes amigos nam

querem reformas utis: e asim será melhor, preferir a segunda _am_,

que ja está recebida em Portugal. Certo é, que quando os Portuguezes

escrevem, a dita terminasam _am_, pronunciam _aõ_: e tambem é certo,

que muitos omens doutos servem-se da-primeira terminasam. Este modo de

escrever, encostava-se mais para a pronuncia: e com ele se-evitavam

confuzoens. serîa também a lingua mais facil de ler, e pronunciar,

aos Estrangeiros: pois bastava advertir-lhe, que entre, o _a_ e _m_,

deve-se pòr um _o_, e pronuncialo depresa. Advertimos porem, que

aindaque os Portuguezes tenham, esta pesima pronuncia na sua lingua;

quando porem pronunciam a dita terminasam _am_, no-Latim; devem

pronunciala com os beisos fechados, como em seu lugar advertiremos:

poisque a lingua Latina nam está sugeita, às suas leis.

Querem alguns, que em _Tempo_, e outras palavras, em lugar do-_m_,

se-ponha _n_, porque asim soa. Cuido, que dizem mal: porque aindaque

alguns pronunciem o dito _m_, como _n_, pronunciam muito mal; pois

nesta voz muito bem se-ouve o _m_, e em outras tambem. E aindaque em

outras partes, nam seja tam sensivel o _m_, deve conservar-se: pois se

ouvesemos de tirar todos os _mm_, que nam se-explicam bem, poucos _mm_

ficariam em Portugal. Em _Contigo_, _Consigo_ &c. podem tiralo. Contudo

quem o-quizese tirar em todas as outras, nem por-iso o-condenaria como

erro.

A terminasam _an_, tambem cauza duvidas, a muitos Portuguezes: e eu

julgo, que nam deve ter nenhuma. Acham-se omens que asentam, que nam

á tal terminasam no-Portuguez, e defendem isto, com muita forsa. Se

disesem, que a terminasam _an_, antigamente era _am_, nam diriam

mal: mas querer defender, que oje nam á tal terminasam, é dizer um

erro. Distinguem-se oje os nomes Femininos, dos-Masculinos, com esta

terminasam. Vg. _Vam_, e _Van_: _Irmam_, e _Irman_. Nem me-digam,

que o _til_ é risco, e nam letra: pois ja asima mostrei, que o _til_

é uma letra; e que a pronuncia ensina, que á-de ser _n_. Por-esta

razam concluo, que será necesario, pòr o dito _n_ expreso, deitando

fóra o _til_. Muitos Portuguezes doutos seguem esta opiniam: os quais

rim-se de Duarte Nunes, que queria se-dobrasem os _aa_, dizendo _Vaã_,

_Menhaã_.

Sobre o P, ja asima dise, que nam se deve escrever _ph_ por-_f_: Agora

digo, que nem menos se-pode sofrer, o que muitos fazem, pòr _p_, antes

de _t_, em muitas disoens. vg. _Prompto_ &c. Esta é uma afetasam pouco

toleravel: vistoque a pronuncia Portugueza, tem ja desterrado este _p_.

Onde nam é a mesma razam do-_b_, ou do-_g_, ou do-_d_, que se-conservam

nas palavras, _Obscuro_, _Significo_, _Adverte_: porque este, ouve-se

mui bem: e o _p_, nam se-ouve sem afetasam. E nam falta quem diga, que

nas duas primeiras palavras tem ja introduzido o uzo, deixar aquelas

letras na pronuncia: o que eu nam condeno: como nem menos condeno, quem

as-pronuncîa. Pode ser que com o tempo, se-deixem totalmente.

_Quimera_ por-_Chimera_, defende Bluteau, e alguns outros: eu julgo,

que sem razam alguma; sendoque o _qui_, tem mui diferente pronuncia,

doque a que se-ouve na palavra, _Chimera_. Ja asima dise, que a quem

nam agrada, escrever estas palavras, por-_ch_, é melhor, uzar o _k_

dos-Gregos, doque o _qui_; que tem em Portugal diferente pronuncia,

na qual expresamente se-ouve o _u_.

Introduzio o uzo em Portugal, dobrar os _rr_, quando tem pronuncia

forte: e parece-me que este uzo se-deve observar, nam fazendo cazo,

do-que aconselham alguns, que um só _r_ bastava.

Nam poso sofrer, que o Bluteau na sua _Proza Gramatonomica_, queira

introduzir, no-principio das-palavras Portuguezas, o _s_ antes de

consoante: e escrever, _Squeleto_, _Spasmo_, _Scena_, _Sciencia_ &c.

Esta corresam é tam fora do-escolio, que nenhum Portuguez, que nam

seja Latino, saberá pronunciar aquele _s_, no-tal lugar: e o que souber

Latim, será necesario, que pronuncie um _e_ mui redondo. A razam disto

_é_, porque o _s_ Portuguez, que nam é final, é um verdadeiro sibilo ou

letra sibilante, que faz ouvir a vogal ou antecedente, ou consequente.

e asim, querer escrevela sem vogal, é mudar a pronuncia da-letra, e é

fazer uma ridicularia, fundada unicamente em querer mostrar, que sabe

a derivasam daquelas palavras. Abrasáram algumas pesoas cegamente, a

opiniam do-Bluteau: mas nem por-iso dam razam, ou fazem autoridade

nesta materia. Onde, antes de consoante, nunca se-deve escrever _s_

simplez.

Deve-se com cuidado distinguir o _u_ vogal, do-consoante v, ou _v_,

para nam originar duvidas. O que muitos nam fazem, ainda prezados de

doutos: pois vejo escrituras deles, que merecem compaixam. Isto porem

nam só no-Portuguez, mas ainda no-Latim é necesario: Pois aindaque

antigamente, (que os Romanos escreviam com letras maiusculas) todos os

_vv_ tinham a mesma figura: oje que, com muita razam, se-introduzio

esta necesidade, devemos, no-carater pequeno, distinguir na figura

estas duas letras, asimcomo as-distinguimos na pronuncia. E fazem mui

bem os Alemaens, que, ainda nas letras maiusculas, distinguem o vogal,

do-consoante, nos-livros impresos.

Diz Alvaro Ferreira Vera, que nenhuma disam Portugueza, deve acabar

em _x_. Muitos porem acabam em _x_ algumas palavras, e entre elas,

_Felix_, _Simplex_ _&c._ O que eu sei é, que a pronuncia Portugueza

acaba em _x_, todas as palavras que acabam em _s_: quero dizer, que

todo o _s_ final pronunciam como _x_. de que nam quero outra prova

mais, que cada um observe, como pronuncia o _s_ final; e que diferensa

tem do-_s_, que pronunciam no-meio das-disoens. O que suposto, se

seja mais util, acabar em _x_, o que se-pronuncia como _x_, ou

pronunciar diferentemente os _ss_ finais; eu o-deixo considerar a V.

P. Mas deixemos o _s_, na sua pose: observo, que nam só o _s_ final

se-pronuncîa como _x_, mas também o _z_ final: o que V. P. pode ver em,

_Diz_, _Luiz_, _Fiz_ _&c._ E daqui cuido que naceo a facilidade, de pòr

o _z_, em lugar de _s_ final, naquelas vozes de que se-formam outras:

como, _Diz_, _dizes_; _Faz_, _fazes_; para por-este meio fazer os

plurais, somente com acrecentar _es_. O que eu nam condeno, mas antes

aprovo, e pratîco com o exemplo, e com a razam: e cuido asim se-deve

fazer. Nesta letra é digno de atensam, o demaziado escrupulo de alguns,

que magistralmente decidem, que o _x_ tem diferente pronuncia do-_ch_,

antes de _e_, ou _i_: e que _é_ erro dizer, _Xapeo_; mas que se-deve

pronunciar, _Chapeo_, carregando muito no-_ch_, para o-distinguir do

_x_: e advertem, que é erro da-pronuncia da-Estremadura, pronunciar o

_ch_, como _x_. Mas, sem fazer cazo da-decizam destes Senhores, julgo,

que devemos continuar, na pronuncia da-Estremadura. Nam digo, que na

escritura convertamos o _ch_, em _x_: deixo as coizas como se-acham: só

digo, que na pronuncia, nam á diferensa entre uma, e outra letra. Em

materia de pronuncia, sempre se-devem preferir, os que sam mais cultos

e falam bem na Estremadura, que todos os das-outras Provincias juntas.

Ora é certo, que os ditos pronunciam docemente como um _x_: e nem só

eles, mas muitisimos de outras Provincias, tem a mesma pronuncia.

Somente alguma diversidade achei nos-Beirenses, que batem mais o dito

_c_, encostando-se à pronuncia Romana do-_c_. Mas seja como for, estas

nam sam razoens, para persuadir um omem, a que pronuncie o dito _ch_,

diferentemente do-_x_: quando a pronuncia comua está a seu favor:

a qual por-iso mesmo que é mais suave, deve ser preferida à outra.

E saiba V. P. que notei outra coiza, e vem aser, que os que querem

pronunciar o _ch_, nam como _x_, esforsam-se desorte, que, na violencia

comque pronunciam, mostram bem, que nam é esa a sua pronuncia. O dizer,

que se-devem distinguir na pronuncia, nem menos persuade: porque eles

mesmos admitem que _s_, e _c_, antes de _e_, e _i_, pronunciam-se

da-mesma sorte: onde nam tem que se-escandalizar. E asim o dizerem

eles, _é erro_, nam faz forsa: devemos responder-lhe, que eles sam

os que erram. Advirto porem, que no-meio das-disoens introduzio o

uzo, nam pronunciar o _x_, como no-principio; mas segundo o estilo

Latino, como se fose um cs brando, tocando ligeiramente o _c_: v. g.

em _Reflexam_, _Conexam_ _&c._ porque asim é mais suave. mas _Paixam_,

ainda se-conserva em toda a sua forsa; e nam sei qual outro.

Verdadeiro metodo de estudar (Vol. I) · 第 3 / 32 段