E talvez fosse por isso que o velho tomou tanto amor à sua condição. A

melhor condição seria a primeira e a mais proxima para que o destino o

lançára. Porque se deixou induzir na tentação de descobrir onde mora a

riqueza e onde se nos entrega, foi duas vezes a Lisboa, a pé, por êsses

caminhos fóra, vendo terras e homens, transpondo descuidadamente as

sessenta leguas que tinha a calcar da aldeia até à cidade. Mas em

nenhuma dessas aventuras encontrou cousa que o prendesse, deleite que o

seduzisse, luxo que o deslumbrasse ou salario que o convencesse. E

depressa voltou à enxada e à escravidão do amo a quem cavava as terras,

e que em troca lhe dava o pão. A experiência do mundo, quando o via de

perto, inflamava-lhe logo um obstinado desejo e contentamento da

pobreza.

Maior aventura que as duas jornadas a Lisboa foi o casamento. Porque

tambêm se casou; tambêm um dia foi à egreja «maila a sua açucena», como

diz, rememorando com uma pitoresca ironia e sorridente indulgência êsses

malfadados passos.

Deu-se mal. Era de prevêr. Não sei o que seria a mulher; não creio muito

que primasse pela doçura. E, como êle pelo seu lado não personificava a

brandura nem a flexibilidade, o conflicto era certo e o apartamento a

sua conseqùência.

Pesava-lhe pouco êsse apartamento em que rehavia a independência,

dando-a tambêm à mulher e aos filhos. Porque, como sôbre os bens não

havia questão, como, prescindindo dos poucos que possuia, se conformava

maravilhosamente com as suas propensões, o divórcio tornava-se, e de

facto se tornou, em extremo simples. Não precisava de juiz nem escrivão.

Era deixar à mulher e aos filhos a casa, o lar, o campo, e mais toda a

poesia, graças e confortos que lá não encontrou, e mais todas as

inquietações que lá o mortificaram, e ir-se êle embora, a cavar nas

terras de alguem que lhe desse o pão e o socêgo. E foi o que êle fez,

serenamente, tranquilamente, em uma tranquilidade de vencedor.

Deixou-lhes tudo, sem mesmo reservar algumas moedas que herdára de um

fidalgo a quem serviu por muitos anos e que, consciente da sua condição

e da bondade a que ela obriga, contemplou no testamento todos os seus

criados e servidores.

Separou-se da mulher e mais dos haveres o cavador rebelde. A felicidade

e a paz, pagava-as com a isenção; não as pressentia nas cobiças, por

elas não se afreimava.

Cavar e servir, eis a suprema felicidade à qual obedecia. Não se detinha

a verificá-lo, nem o confessava, nem o apregoava, nem talvez o pensava

claramente. Mas demonstrava-o em seu sangue e exemplo, o que seria a

mais penetrante arte de persuadir.

Cavar, servir... e tambêm amar. Servir com um tão arrebatado

desprendimento já significaria muito amor, mas êsse amôr, que lhe andava

no ânimo, tinha traducção ampla e ardente em um outro modo. Morria pelos

animais. Afagava-os, beijava-os, cuidava-os carinhosamente, com um zêlo

terrivel. Por êles se afligia, irritava-se e praguejava, se o pasto era

escasso ou se a avareza do amo ou do feitor não alargava as rações até

onde era mister para uma ostentosa prosperidade do estábulo. Algum anjo

ou demónio lhe mandaria guardar para aqueles seres mudos e pacíficos a

afeição e a dedicação que os homens pagavam mal; advinhava-lhes

superioridades na inconsciência, e com ternura as reconhecia.

Entretanto, acrescentava em seu espírito e lembrança o compêndio dos

ensinamentos da vida, e, pobre de bens porque os outros lhos tinham

levado, não era indigente de opiniões. Tinha a sua filosofia,

consistente, sólida, de largos e singelos alicerces, e de resto

rematadamente singular. Assim, entre as lições que lhe ouvi, aprendi que

no casamento a questão de idade só importa ao homem. A mulher a todo o

tempo póde casar; o homem é que precisa de ser novo.

--«Porque?»

--«Porque?!... Ora essa! Porque o homem é que tem de _o_ ganhar, precisa

de ter fôrças para isso. A mulher é só para o governar e gastar».

E trabalhava, trabalhava continuamente, e sempre que póde ainda

trabalha, com uma tenacidade indomável. Não é para se enriquecer nem

para enriquecer o amo; as riquezas e o amo confunde-os na mesma

indiferença. É por trabalhar; é o trabalho pelo trabalho, impulso

essencial, significação única da vida, única razão de ser da existência

na terra. Cria como as rosas florescem. E no seu sistema moral e

económico trabalhar é usar dos braços para criar o pão. Não concebe

outra cousa.

Austeridade, ascetismo, de todo os ignora, como ignora ou despreza a

poupança e a previdência. Onde é que êle viu isso nas plantas que semeia

e nos animais que estremece? Não póde, evidentemente, caber na sua

lógica o que não coube na lógica da natureza. Por isso a dissipação da

taberna e do alcool, exaltando-lhe os nervos e extasiando-o, lhe

parecerão um facto tão natural e legítimo como as correrias dos potros

na pastagem.

Quanto tem é para beber, e a sua mágua é que eu lhe dê muito pouco para

êsse fim. Se lhe dizem que é um vicio e a causa da sua miséria, recebe

com um desdem altivo a advertência. No seu conceito, a embriaguez é

apenas uma alegria, abençoada como todas as alegrias.

Quem sabe?!... Talvez na rudeza da sua ingenuidade, inflamada pelas

provações do mundo, tivesse fechado a abóbada de uma grande filosofia. A

vida seria uma obrigação e uma orgia, uma disciplina e uma liberdade,

uma sujeição de toda a nossa actividade ao esfôrço de criar o pão e uma

independência de todos os instinctos na suma vibração das suas

energias--uma religião em que o mesmo amor, e por igual, servia a Deus e

aos homens, à terra e aos céus, porque a terra e os céus eram as duas

grandes verdades iniciais, duas emanações sublimes de um só espírito

misterioso.

Ora eu gosto de ouvir êsse homem. Sendo maior do que eu, tendo feito

aquilo que eu não fui capaz de fazer, tendo vivido na intensidade de

vida que eu não fui capaz de atingir, indubitávelmente há-de saber o que

eu não sou capaz de saber.

Perguntei-lhe pela guerra. Que me dizia desta loucura de matar que cobre

de sangue o mundo?

--«A guerra», respondeu-me, «é por causa dos que querem comer sem

trabalhar. Olhe, quando eu vou à cidade e vejo por lá os soldados, bem

agasalhados, bem mantidos, bem engraixados, escovados e a luzir, digo

comigo que é essa gente que faz a guerra. Porque quer andar assim, de

costa direita, quer comer sem trabalhar».

Ai está uma opinião! Opinião de um cavador, que o é, honestamente, há

mais de sessenta anos; mas, sem embargo, uma opinião. E como tem seus

apóstolos, como há-de ser prégada na taberna, entre os cavadores,

_caveant consules_! tomem nota os generais e os seus imperadores,

andam-lhes inimigos na fortaleza.

Disse-me Tolstoi, quando o visitei, que da Russia emigram familias

inteiras, e em uma simples carroça levam todos os seus bens, e vão muito

longe, à Sibéria, quasi à China, a fazerem as colheitas. Depois por lá

ficam, por lá engenham suas cabanas, criam uma lavoura nos desertos

incultos, e «são felizes até que os governos as descobrem para lhes

pedir impostos e os filhos para a guerra».

Dar-se hia o caso que o cavador, em toda a sua obscura ingenuidade, e o

génio, em todo o seu resplendor de glória, soletrassem ambos as mesmas

palavras nas mesmas acções? Foi o cavador que falou pela bôca do profeta

ou foi o profeta que incarnou no cavador? E, se se juntaram e

identificaram, que mundo novo prometem a sua conformidade e

consubstanciação em uma única visão?!...

Aparições

Mazzini

É condição ingénita dos homens sofrer para conhecer. A experiência e o

que ela ensina não passa sem máguas. A dôr ilumina e revela o caminho da

salvação. Porventura tanto nos elevamos e robustecemos, no entendimento

e no caracter, pelos desenganos dos erros e pelas atribulações que eles

importam como nos cegamos, desvairamos e enfraquecemos pelos bafejos de

uma fortuna fácil e prolongada.

Se benefícios teve a guerra, o mais alto seria acordar, até às suas mais

remotas profundezas, a consciência dos povos, o sentimento do seu

destino e responsabilidades na vida. Perdidos nas mais pungentes

incertezas, em labirintos de ruinas inundadas de sangue e habitadas pela

morte, pela fome e pela desgraça, perguntam entre agonias se na terra

haverá refúgio de tão agudas penas e calamidades; anciosos, interrogam

os céus e a imensidade, rogando que lhes mandem uma voz que seja o

pregão do resgate, um alento onde respirem a fortaleza e paz. Profetas

que a embriaguez das paixões votára à mudez dos seus tumulos e a quem o

seu tempo desconhecêra ou apenas suspeitára a grandeza, erguem-se das

cinzas aureolados de poderes divinos. Á confusão tenebrosa do tumulto em

que os homens se despenham nos abismos que a própria loucura cavou,

sucedem aparições que os guiam na estrada da redenção. São remorso e

esperança, remorso da infidelidade em que as esquecemos e que pagamos

cara, e esperança da glória a que nos conduzem.

Poucos dias apóz a declaração da guerra, encontrei em uma folha inglesa

o nome de Mazzini.

Como o mais inculto, mal conhecia essa sombra quasi apagada pela

obsessão do realismo e pela torrente de realidades que haviam dominado

os espíritos e edificado os impérios do nosso tempo, alvoroçando o

assombro da nossa imaginação e inflamando-nos traiçoeiras vaidades.

Revolucionário, poeta e sonhador, incarnação de idealismos que haviam

ganhado fama de estéreis e perigosos, e a negação daquela espécie de

homem prático em que a sordidez se converteu em suprema virtude, Mazzini

jazia no manso olvido e proscrição a que uma época toda enlevada e

confiada na ordem, na sciência, na razão e no positivismo havia votado a

legião inquieta dos descontentes, crentes e videntes, pensadores

rebeldes e apóstolos intemeratos, à qual êle pertencera e dera todo o

fulgor do seu génio. Ia na onda que varrera da nossa presença e da nossa

fé as visões romanticas que um entendimento prático até aos aviltamentos

da brutalidade usava acoimar de ridículas e vãs.

Era surpreza que alguém desse bando exilado voltasse, e exactamente na

hora em que menos deveria poder, quando a violência estava senhora do

mundo e nêle corria solta, em momento sem dúvida nada favorável à

contemplação de visões que o ferro e fogo não fôsse capaz de desfazer.

Mas por isso mesmo que a surpreza me incitava, por isso mais depressa e

atentamente corri a ouvir os clamores da aparição.

Que dizia?[8] Em que arrebatamentos se exaltava e nos induzia?!...

Não compreendia Mazzini a subsistência do mundo e da razão só por si,

independentes de um princípio superior a que se subordinassem. O

universo pertência a Deus. «A terra era apenas um degrau para os céus,

uma linha no poema imenso do universo, uma nota na harmonia da ideia

divina. Da conformidade das nossas obras com essa harmonia dependia» o

triunfo final, toda a paz, toda a ventura, toda a dignidade e grandeza

das sociedade humanas. Sendo um sonho, uma aspiração, uma essência

impalpável, era isso a sumula, regra, condição da vida de todas as

realidades em que a nossa vontade podia influir, o fundamento, único

consistente, de todas as edificações que tentassemos construir.

Quando o profeta cuidou de traduzir a fé na solução dos problemas do seu

tempo e do seu país, no ardor de mártir a que consagrára a vida, sentiu

que duas doenças corrompiam as classes que preponderavam no govêrno dos

estados--«o maquiavelismo e o materialismo. A primeira, mesquinho

disfarce de um homem grande mas infeliz, leva-nos para longe do amor e

de uma franca, corajosa e leal adoração da verdade; a segunda, através

do culto do interêsse próprio, precipita-nos no egoismo e na anarquia».

Eram essas as doenças sociais e políticas que ameaçavam e embaraçavam

uma renovação política da Itália, e que hoje, é tristemente manifesto,

de todo perturbaram a fortuna da Europa.

Por completo nos desprendemos da lei, e «não há vida sem uma lei. Onde a

vida existir, existe em certo modo, conforme certas condições, sob uma

certa lei. Uma lei de agregação governa os minerais; uma lei de

crescimento governa as plantas; uma lei de movimento governa as

estrelas; uma lei nos governa, a nós e à nossa vida, lei mais nobre e

mais elevada do que aqueloutras, por isso que nós estamos superiores a

todas as outras cousas criadas na terra. Desenvolver-nos, proceder,

viver conforme a nossa lei, é êsse o nosso primeiro, e até mesmo o nosso

único dever».

A ordem do progresso é clara e evidente. Revela-se-nos pela história

como pela consciência. Mostra-se na grande distância entre a crença do

presente e a fé que foi a base da moralidade das gerações que nos

precederam. «Os primeiros homens sentiram Deus, mas sem o compreenderem,

sem mesmo procurarem compreendê-lo na sua lei; sentiram-no no seu poder,

não no seu amor; tiveram uma vaga concepção de certa relação entre Deus

e o homem, mas nada mais». Foi longa, durou dilatados séculos a

insinuação do espírito que nos havia de levar a compreender que _há um

só Deus e todos os homens são filhos de Deus_. Foi a promulgação destas

duas grandes verdades que mudou o aspecto do mundo, e «só então o homem

soube que onde encontrar um companheiro está um irmão, dotado de uma

alma imortal como a sua, destinada a erguer-se ao seu criador, um irmão

a quem deve amor, participação na sua fé, e auxilio de conselho e acção

quando o carecer. Só então se ouviram nos lábios dos apóstolos palavras

sublimes, proféticas de outras verdades contidas em germen no

cristianismo, palavras ininteligiveis para a antiguidade e mal

compreendidas ou desprezadas pelos sucessores dos apóstolos. Porque _da

maneira que em um corpo temos muitos membros, mas não teem todos uma

mesma funcção, assim, ainda que muitos, somos um só corpo em Cristo, e

cada um de nós membros uns dos outros_. (S. Paulo, Ep. aos Romanos, c.

XII, vv. 4, 5). _E haverá um só rebanho e um só pastor_ (Evangelho de S.

João, c. X, ver. 16)».

A política era a traducção dessa lei suprema no govêrno das nações, em

toda a extensão dos princípios que daí se deduzem. Seria uma acção

religiosa e moral, e jámais era lícito degradá-la em uma disputa de

egoismos ou em uma convenção de interêsses. «O govêrno do pais tem de

ser baseiado pelo nosso trabalho sôbre o culto dos princípios, não sôbre

o culto idólatra dos interêsses e da oportunidade. Há países na Europa

onde a liberdade é sagrada no intimo, mas sistematicamente violada

externamente; povos que dizem que _a verdade é uma cousa e a utilidade

uma outra cousa, que a teoria é uma cousa e outra a prática_. Êsses

países teem necessariamente de expiar a sua culpa em longo isolamento,

opressão e anarquia».

A educação, que é a insinuação da lei e a integração das gerações na sua

substância, assume, nesse sistêma, uma missão e poderes capitais.

«O indivíduo é um renovo da humanidade, e alimenta e refaz a sua própria

fôrça na fôrça da humanidade. Êste trabalho de alimentação e renovação

opera-se pela educação, que directa ou indirectamente transmite ao

indivíduo os resultados do progresso de toda a raça humana. Por

conseguinte, não só porque é uma _necessidade_ da nossa vida, mas tambêm

porque é uma espécie de santa comunhão com todos os nossos companheiros

e com todas as gerações que viveram, isto é, que pensaram e trabalharam

antes de nós, por isso carecemos de nos educar, o mais possível, em uma

educação moral e intelectual que compreenda e cultive todas as

faculdades que Deus nos deu, como semente para produzir fruto, e forme e

mantenha um laço entre a nossa vida individual e a vida colectiva da

humanidade. E para que êsse trabalho de educação se realise o mais

rapidamente, e para que a nossa vida individual se ligue mais segura e

intimamente com a vida colectiva de todos, com a vida da humanidade, por

isso Deus nos fez essencialmente seres sociais. Toda a espécie de ser

inferior póde viver por si, sem outra comunhão além da que tivér com a

natureza, com os elementos do mundo físico. Nós não. A cada passo temos

necessidade dos nossos irmãos; e não podemos satisfazer as necessidades

mais simples da vida sem nos socorrermos do seu trabalho.»

Infelizmente, estávamos e estamos longe de atribuir à educação o seu

valôr religioso. Vai desvairada e em erro, semeiando muitos males e

produzindo escassissimos e contaminados bens. «Hoje, na Europa, a

_instrucção_, desacompanhada de um gráu correspondente de _educação_, é

um grave mal; mantem a desigualdade entre as diversas classes de um

mesmo povo e inclina o espírito ao calculo, ao egoismo, a compromissos

entre a justiça e a injustiça, e a toda a falsa doutrina».

Comunhão «é uma palavra santa. Ensinou aos homens que eles eram uma

família única de irmãos em Deus, e uniu o senhor e o escravo no mesmo

pensamento de salvação, na mesma esperança e no mesmo amor do céu».

Símbolo da igualdade entre os homens, cumpre à humanidade desenvolver

toda a verdade que nela se encerra.

«A egreja não o fez e não póde fazê-lo. Tímida e incerta no seu começo,

mais tarde aliada com os príncipes e com o poder temporal, embebida no

próprio interêsse, com uma tendência aristocrática alheia ao espírito do

Fundador, vagueou na estrada direita e retrogradou até diminuir o valor

da comunhão, limitando-a para os seculares só ao pão, e reservando para

os sacerdotes a comunhão nos _dois géneros_».

«Não era materialista. Os moços de inteligência estreita e educação

superficial, mas excessivamente inflamados e irritados contra um passado

morto que ainda quer dominar o presente; cuja vaidade é lisongeada pela

ideia da ousadia intelectual; que carecem de capacidade para descobrir

naquilo que foi a lei daquilo que ha-de ser, são levados a confundir a

negação de uma forma gasta da religião com a negação daquela religião

eterna que é inata na alma humana. Neles o materialismo assume o aspecto

de uma rebelião generosa, e muitas vezes é acompanhado pelo poder de

sacrifício e pelo respeito sincero da liberdade. Difundido, porêm, entre

os povos, o materialismo, pelo culto exclusivo do bem-estar material,

tenta mais infalivelmente, extingue o fogo de um pensamento alto e

nobre, assim como toda a scentelha de vida livre, prostrando-os

finalmente perante a violência triunfante, perante o despotismo do _fait

accompli_». Fôra êle que «em Roma extinguira toda a virtude

republicana».

Porque não era materialista, só acusava a egreja onde a julgava infiel à

sua missão espiritual e divina; não porque ela se fundasse em uma missão

que havia deixado de ser a aspiração da humanidade, a sua religião. Pois

«a vida era uma missão, e a existência aquela parte dessa missão que nós

temos a cumprir na terra. Descobrir, compreender e intelectualmente

dominar aquele fragmento da lei divina que é acessivel às faculdades

humanas, transmudá-lo em acção (até onde as forças humanas o permitem)

aqui, onde Deus nos pôz, é o nosso fim, o nosso dever. Cada um de nós e

todos nós estamos sujeitos ao esforço de incarnar na humanidade aquela

porção de verdade eterna que nos foi dado perceber, de converter em uma

realidade terrena tão grande parte do «reino dos céus», da concepção

divina que repassa a vida, quanto nos foi dado compreender».

Não era ingrato à egreja, «nem irreverente perante as suas grandes

ruinas». Não esquecia «que lhe deviamos não só a ideia da unidade da

família humana, da igualdade e emancipação das almas, mas tambêm a

salvação das relíquias da nossa anterior civilisação latina».

«A salvação do cristianismo e por êle a salvação da civilisação

europeia, pela unidade da hierarquia durante um período de anarquia e

trevas; o espírito de amor com os pobres e os párias aflictos da

sociedade que inspirou os primeiros bispos e papas; a luta severa

sustentada por êles em nome da lei moral contra o poder arbitrário e a

ferocidade dos senhores feudais e dos reis conquistadores; a grande

missão (desconhecida em nosso tempo por aqueles que nada sabem ou

compreendem da história) cumprida por êsse gigante da inteligência e da

vontade, Gregorio VII, e a fecunda vitória que êle ganhou em auxilio do

govêrno do espírito sôbre as armas reais, do elemento italiano sôbre o

elemento germanico; a missão da conquista civilisadora entre povos

semi-bárbaros levada a cabo pela egreja; o impulso dado à agricultura

pelos monjes durante os tres primeiros séculos, a conservação da

linguagem de nossos pais, a época esplendida de arte inspirada no dogma,

as obras eruditas dos beneditinos, o começo da educação gratuita, a

fundação de instituições de benevolência, nossas irmãs de

misericórdia»--tudo isso Mazzini lembrava e respeitava na vida da

egreja.

Mas acusava a egreja da «insania de pretender que um facho, aceso há

desoito séculos para lhe iluminar a jornada atravez de uma única época,

estava destinado a ser uma única luz no caminho do infinito». Acusava-a

de «desconhecer a santidade da alma de Jesus, superior a toda a outra em

inspiração e amor fraterno, transformando-o, a despeito dos seus mais

sublimes pressentimentos, em um vulgar e eterno tirano das almas». Uma

religião expirava, se perdia o poder de sacrifício. E o catolicismo

«podia ainda, com o auxílio dos enganos dos seus ministros e da pompa

dos seus ritos, juntar em volta de si o concurso numeroso de fieis,

aparentemente dedicados, e assim continuar fazendo, emquanto a única

escolha dêsses fieis está entre as recordações de uma fé, outrora grande

e fecunda em bens, e as negações áridas de um materialismo embrutecedor.

Mas pedissem a esses fieis para morrerem pela egreja e pela fé que ela

representava, e não se encontraria entre eles um só mártir».

«Não se enganasse a egreja! Em volta dela a fé agonisava. Como

scentelhas derradeiras de um fogo que se apaga, a fé, em nossos dias,

desfalecendo encontra expressão nas orações murmuradas perante os nossos

altares, por força do hábito, em momentos breves e determinados.

Evapora-se à porta da egreja, e não mais governa ou guia a vida

quotidiana dos homens. Dão uma hora para os céus e o dia para a terra,

para os seus cálculos e interêsses materiais, ou para estudos e ideias

estranhos a toda a concepção religiosa».

A fé em Deus determinava uma economia, uma constituição e uma repartição

da riqueza, assim como determinava uma regra de liberdade e amor nas

relações civís e políticas. Fôra ela que lentamente fizera crescer «no

espírito dos homens o sentimento do dever social com as classes

trabalhadoras», que se tornára preponderante na política do nosso tempo

e fizera da liberdade de concorrência um espectro de crueldade. «Para

aqueles que nada possuem, para aqueles que são incapazes de poupar o

quer que seja no salário quotidiano e não teem, por conseguinte, cousa

alguma para começarem qualquer empreza comercial, a liberdade de

concorrência era uma mentira, como a liberdade política era uma mentira

para aqueles que por falta de educação, instrução, oportunidade e tempo

não podem exercer os seus direitos».

O progresso seria essencialmente um estado de consciência. «Realiza-se

passo a passo, por virtude de leis que nenhum poder humano pode dominar,

por _desenvolvimento_, pela _modificação_ perpétua dos elementos que

manifestam a actividade da vida. Muitas vezes os homens, em certas

épocas, em certos países e sob a influência de certos erros e prejuízos,

deram o nome de elementos, de condições da vida social, a cousas que não

teem a sua raiz em a natureza, mas sómente nas convenções e costumes de

uma sociedade iludida, e que desaparecem fora dessa época particular ou

além dos limites próprios dêsses países. Mas podemos descobrir quais são

os verdadeiros elementos inseparáveis da natureza humana, interrogando

os instinctos das nossas almas e verificando em face das tradições de

todos os tempos e de todos os países se êsses instinctos nossos são como

sempre fôram os instinctos da humanidade».

E, evidentemente, desde que o progresso é êsse «desenvolvimento»,

sujeito a leis fóra do alcance do poder humano, o remédio para a

deplorável condição presente não podia encontrar-se em qualquer

organização geral arbitrária, feita segundo o plano de certo espírito e

estabelecida por decretos. Tudo isso resultava em ilusões por diversos

modos destinadas a naufragarem e a dissiparem-se. O remédio tinha de ser

qualquer outra cousa que não significasse a criação de uma humanidade

nova, mas que continuasse a humanidade nas suas tendências essenciais e

indestructiveis. «Algum dia fomos _escravos_, depois _servos_, depois

_assalariados_; não tardará que sejamos, se o quizermos ser, livres

produtores e irmãos na _associação_--associação livre e voluntária, por

nós mesmos organizada em certas bases, entre homens que mutuamente se

conhecem, amam e estimam, não a associação obrigada, imposta pela

autoridade que governa e ordenada sem respeito pelos laços e afeições

individuais, tratando os homens mais como máquinas de produzir do que

como seres de livre e espontânea vontade».

A Guerra: Depoimentos de Herejes · 第 7 / 8 段