melhor condição seria a primeira e a mais proxima para que o destino o
lançára. Porque se deixou induzir na tentação de descobrir onde mora a
riqueza e onde se nos entrega, foi duas vezes a Lisboa, a pé, por êsses
caminhos fóra, vendo terras e homens, transpondo descuidadamente as
sessenta leguas que tinha a calcar da aldeia até à cidade. Mas em
nenhuma dessas aventuras encontrou cousa que o prendesse, deleite que o
seduzisse, luxo que o deslumbrasse ou salario que o convencesse. E
depressa voltou à enxada e à escravidão do amo a quem cavava as terras,
e que em troca lhe dava o pão. A experiência do mundo, quando o via de
perto, inflamava-lhe logo um obstinado desejo e contentamento da
pobreza.
Maior aventura que as duas jornadas a Lisboa foi o casamento. Porque
tambêm se casou; tambêm um dia foi à egreja «maila a sua açucena», como
diz, rememorando com uma pitoresca ironia e sorridente indulgência êsses
malfadados passos.
Deu-se mal. Era de prevêr. Não sei o que seria a mulher; não creio muito
que primasse pela doçura. E, como êle pelo seu lado não personificava a
brandura nem a flexibilidade, o conflicto era certo e o apartamento a
sua conseqùência.
Pesava-lhe pouco êsse apartamento em que rehavia a independência,
dando-a tambêm à mulher e aos filhos. Porque, como sôbre os bens não
havia questão, como, prescindindo dos poucos que possuia, se conformava
maravilhosamente com as suas propensões, o divórcio tornava-se, e de
facto se tornou, em extremo simples. Não precisava de juiz nem escrivão.
Era deixar à mulher e aos filhos a casa, o lar, o campo, e mais toda a
poesia, graças e confortos que lá não encontrou, e mais todas as
inquietações que lá o mortificaram, e ir-se êle embora, a cavar nas
terras de alguem que lhe desse o pão e o socêgo. E foi o que êle fez,
serenamente, tranquilamente, em uma tranquilidade de vencedor.
Deixou-lhes tudo, sem mesmo reservar algumas moedas que herdára de um
fidalgo a quem serviu por muitos anos e que, consciente da sua condição
e da bondade a que ela obriga, contemplou no testamento todos os seus
criados e servidores.
Separou-se da mulher e mais dos haveres o cavador rebelde. A felicidade
e a paz, pagava-as com a isenção; não as pressentia nas cobiças, por
elas não se afreimava.
Cavar e servir, eis a suprema felicidade à qual obedecia. Não se detinha
a verificá-lo, nem o confessava, nem o apregoava, nem talvez o pensava
claramente. Mas demonstrava-o em seu sangue e exemplo, o que seria a
mais penetrante arte de persuadir.
Cavar, servir... e tambêm amar. Servir com um tão arrebatado
desprendimento já significaria muito amor, mas êsse amôr, que lhe andava
no ânimo, tinha traducção ampla e ardente em um outro modo. Morria pelos
animais. Afagava-os, beijava-os, cuidava-os carinhosamente, com um zêlo
terrivel. Por êles se afligia, irritava-se e praguejava, se o pasto era
escasso ou se a avareza do amo ou do feitor não alargava as rações até
onde era mister para uma ostentosa prosperidade do estábulo. Algum anjo
ou demónio lhe mandaria guardar para aqueles seres mudos e pacíficos a
afeição e a dedicação que os homens pagavam mal; advinhava-lhes
superioridades na inconsciência, e com ternura as reconhecia.
Entretanto, acrescentava em seu espírito e lembrança o compêndio dos
ensinamentos da vida, e, pobre de bens porque os outros lhos tinham
levado, não era indigente de opiniões. Tinha a sua filosofia,
consistente, sólida, de largos e singelos alicerces, e de resto
rematadamente singular. Assim, entre as lições que lhe ouvi, aprendi que
no casamento a questão de idade só importa ao homem. A mulher a todo o
tempo póde casar; o homem é que precisa de ser novo.
--«Porque?»
--«Porque?!... Ora essa! Porque o homem é que tem de _o_ ganhar, precisa
de ter fôrças para isso. A mulher é só para o governar e gastar».
E trabalhava, trabalhava continuamente, e sempre que póde ainda
trabalha, com uma tenacidade indomável. Não é para se enriquecer nem
para enriquecer o amo; as riquezas e o amo confunde-os na mesma
indiferença. É por trabalhar; é o trabalho pelo trabalho, impulso
essencial, significação única da vida, única razão de ser da existência
na terra. Cria como as rosas florescem. E no seu sistema moral e
económico trabalhar é usar dos braços para criar o pão. Não concebe
outra cousa.
Austeridade, ascetismo, de todo os ignora, como ignora ou despreza a
poupança e a previdência. Onde é que êle viu isso nas plantas que semeia
e nos animais que estremece? Não póde, evidentemente, caber na sua
lógica o que não coube na lógica da natureza. Por isso a dissipação da
taberna e do alcool, exaltando-lhe os nervos e extasiando-o, lhe
parecerão um facto tão natural e legítimo como as correrias dos potros
na pastagem.
Quanto tem é para beber, e a sua mágua é que eu lhe dê muito pouco para
êsse fim. Se lhe dizem que é um vicio e a causa da sua miséria, recebe
com um desdem altivo a advertência. No seu conceito, a embriaguez é
apenas uma alegria, abençoada como todas as alegrias.
Quem sabe?!... Talvez na rudeza da sua ingenuidade, inflamada pelas
provações do mundo, tivesse fechado a abóbada de uma grande filosofia. A
vida seria uma obrigação e uma orgia, uma disciplina e uma liberdade,
uma sujeição de toda a nossa actividade ao esfôrço de criar o pão e uma
independência de todos os instinctos na suma vibração das suas
energias--uma religião em que o mesmo amor, e por igual, servia a Deus e
aos homens, à terra e aos céus, porque a terra e os céus eram as duas
grandes verdades iniciais, duas emanações sublimes de um só espírito
misterioso.
Ora eu gosto de ouvir êsse homem. Sendo maior do que eu, tendo feito
aquilo que eu não fui capaz de fazer, tendo vivido na intensidade de
vida que eu não fui capaz de atingir, indubitávelmente há-de saber o que
eu não sou capaz de saber.
Perguntei-lhe pela guerra. Que me dizia desta loucura de matar que cobre
de sangue o mundo?
--«A guerra», respondeu-me, «é por causa dos que querem comer sem
trabalhar. Olhe, quando eu vou à cidade e vejo por lá os soldados, bem
agasalhados, bem mantidos, bem engraixados, escovados e a luzir, digo
comigo que é essa gente que faz a guerra. Porque quer andar assim, de
costa direita, quer comer sem trabalhar».
Ai está uma opinião! Opinião de um cavador, que o é, honestamente, há
mais de sessenta anos; mas, sem embargo, uma opinião. E como tem seus
apóstolos, como há-de ser prégada na taberna, entre os cavadores,
_caveant consules_! tomem nota os generais e os seus imperadores,
andam-lhes inimigos na fortaleza.
Disse-me Tolstoi, quando o visitei, que da Russia emigram familias
inteiras, e em uma simples carroça levam todos os seus bens, e vão muito
longe, à Sibéria, quasi à China, a fazerem as colheitas. Depois por lá
ficam, por lá engenham suas cabanas, criam uma lavoura nos desertos
incultos, e «são felizes até que os governos as descobrem para lhes
pedir impostos e os filhos para a guerra».
Dar-se hia o caso que o cavador, em toda a sua obscura ingenuidade, e o
génio, em todo o seu resplendor de glória, soletrassem ambos as mesmas
palavras nas mesmas acções? Foi o cavador que falou pela bôca do profeta
ou foi o profeta que incarnou no cavador? E, se se juntaram e
identificaram, que mundo novo prometem a sua conformidade e
consubstanciação em uma única visão?!...
Aparições
Mazzini
É condição ingénita dos homens sofrer para conhecer. A experiência e o
que ela ensina não passa sem máguas. A dôr ilumina e revela o caminho da
salvação. Porventura tanto nos elevamos e robustecemos, no entendimento
e no caracter, pelos desenganos dos erros e pelas atribulações que eles
importam como nos cegamos, desvairamos e enfraquecemos pelos bafejos de
uma fortuna fácil e prolongada.
Se benefícios teve a guerra, o mais alto seria acordar, até às suas mais
remotas profundezas, a consciência dos povos, o sentimento do seu
destino e responsabilidades na vida. Perdidos nas mais pungentes
incertezas, em labirintos de ruinas inundadas de sangue e habitadas pela
morte, pela fome e pela desgraça, perguntam entre agonias se na terra
haverá refúgio de tão agudas penas e calamidades; anciosos, interrogam
os céus e a imensidade, rogando que lhes mandem uma voz que seja o
pregão do resgate, um alento onde respirem a fortaleza e paz. Profetas
que a embriaguez das paixões votára à mudez dos seus tumulos e a quem o
seu tempo desconhecêra ou apenas suspeitára a grandeza, erguem-se das
cinzas aureolados de poderes divinos. Á confusão tenebrosa do tumulto em
que os homens se despenham nos abismos que a própria loucura cavou,
sucedem aparições que os guiam na estrada da redenção. São remorso e
esperança, remorso da infidelidade em que as esquecemos e que pagamos
cara, e esperança da glória a que nos conduzem.
Poucos dias apóz a declaração da guerra, encontrei em uma folha inglesa
o nome de Mazzini.
Como o mais inculto, mal conhecia essa sombra quasi apagada pela
obsessão do realismo e pela torrente de realidades que haviam dominado
os espíritos e edificado os impérios do nosso tempo, alvoroçando o
assombro da nossa imaginação e inflamando-nos traiçoeiras vaidades.
Revolucionário, poeta e sonhador, incarnação de idealismos que haviam
ganhado fama de estéreis e perigosos, e a negação daquela espécie de
homem prático em que a sordidez se converteu em suprema virtude, Mazzini
jazia no manso olvido e proscrição a que uma época toda enlevada e
confiada na ordem, na sciência, na razão e no positivismo havia votado a
legião inquieta dos descontentes, crentes e videntes, pensadores
rebeldes e apóstolos intemeratos, à qual êle pertencera e dera todo o
fulgor do seu génio. Ia na onda que varrera da nossa presença e da nossa
fé as visões romanticas que um entendimento prático até aos aviltamentos
da brutalidade usava acoimar de ridículas e vãs.
Era surpreza que alguém desse bando exilado voltasse, e exactamente na
hora em que menos deveria poder, quando a violência estava senhora do
mundo e nêle corria solta, em momento sem dúvida nada favorável à
contemplação de visões que o ferro e fogo não fôsse capaz de desfazer.
Mas por isso mesmo que a surpreza me incitava, por isso mais depressa e
atentamente corri a ouvir os clamores da aparição.
Que dizia?[8] Em que arrebatamentos se exaltava e nos induzia?!...
Não compreendia Mazzini a subsistência do mundo e da razão só por si,
independentes de um princípio superior a que se subordinassem. O
universo pertência a Deus. «A terra era apenas um degrau para os céus,
uma linha no poema imenso do universo, uma nota na harmonia da ideia
divina. Da conformidade das nossas obras com essa harmonia dependia» o
triunfo final, toda a paz, toda a ventura, toda a dignidade e grandeza
das sociedade humanas. Sendo um sonho, uma aspiração, uma essência
impalpável, era isso a sumula, regra, condição da vida de todas as
realidades em que a nossa vontade podia influir, o fundamento, único
consistente, de todas as edificações que tentassemos construir.
Quando o profeta cuidou de traduzir a fé na solução dos problemas do seu
tempo e do seu país, no ardor de mártir a que consagrára a vida, sentiu
que duas doenças corrompiam as classes que preponderavam no govêrno dos
estados--«o maquiavelismo e o materialismo. A primeira, mesquinho
disfarce de um homem grande mas infeliz, leva-nos para longe do amor e
de uma franca, corajosa e leal adoração da verdade; a segunda, através
do culto do interêsse próprio, precipita-nos no egoismo e na anarquia».
Eram essas as doenças sociais e políticas que ameaçavam e embaraçavam
uma renovação política da Itália, e que hoje, é tristemente manifesto,
de todo perturbaram a fortuna da Europa.
Por completo nos desprendemos da lei, e «não há vida sem uma lei. Onde a
vida existir, existe em certo modo, conforme certas condições, sob uma
certa lei. Uma lei de agregação governa os minerais; uma lei de
crescimento governa as plantas; uma lei de movimento governa as
estrelas; uma lei nos governa, a nós e à nossa vida, lei mais nobre e
mais elevada do que aqueloutras, por isso que nós estamos superiores a
todas as outras cousas criadas na terra. Desenvolver-nos, proceder,
viver conforme a nossa lei, é êsse o nosso primeiro, e até mesmo o nosso
único dever».
A ordem do progresso é clara e evidente. Revela-se-nos pela história
como pela consciência. Mostra-se na grande distância entre a crença do
presente e a fé que foi a base da moralidade das gerações que nos
precederam. «Os primeiros homens sentiram Deus, mas sem o compreenderem,
sem mesmo procurarem compreendê-lo na sua lei; sentiram-no no seu poder,
não no seu amor; tiveram uma vaga concepção de certa relação entre Deus
e o homem, mas nada mais». Foi longa, durou dilatados séculos a
insinuação do espírito que nos havia de levar a compreender que _há um
só Deus e todos os homens são filhos de Deus_. Foi a promulgação destas
duas grandes verdades que mudou o aspecto do mundo, e «só então o homem
soube que onde encontrar um companheiro está um irmão, dotado de uma
alma imortal como a sua, destinada a erguer-se ao seu criador, um irmão
a quem deve amor, participação na sua fé, e auxilio de conselho e acção
quando o carecer. Só então se ouviram nos lábios dos apóstolos palavras
sublimes, proféticas de outras verdades contidas em germen no
cristianismo, palavras ininteligiveis para a antiguidade e mal
compreendidas ou desprezadas pelos sucessores dos apóstolos. Porque _da
maneira que em um corpo temos muitos membros, mas não teem todos uma
mesma funcção, assim, ainda que muitos, somos um só corpo em Cristo, e
cada um de nós membros uns dos outros_. (S. Paulo, Ep. aos Romanos, c.
XII, vv. 4, 5). _E haverá um só rebanho e um só pastor_ (Evangelho de S.
João, c. X, ver. 16)».
A política era a traducção dessa lei suprema no govêrno das nações, em
toda a extensão dos princípios que daí se deduzem. Seria uma acção
religiosa e moral, e jámais era lícito degradá-la em uma disputa de
egoismos ou em uma convenção de interêsses. «O govêrno do pais tem de
ser baseiado pelo nosso trabalho sôbre o culto dos princípios, não sôbre
o culto idólatra dos interêsses e da oportunidade. Há países na Europa
onde a liberdade é sagrada no intimo, mas sistematicamente violada
externamente; povos que dizem que _a verdade é uma cousa e a utilidade
uma outra cousa, que a teoria é uma cousa e outra a prática_. Êsses
países teem necessariamente de expiar a sua culpa em longo isolamento,
opressão e anarquia».
A educação, que é a insinuação da lei e a integração das gerações na sua
substância, assume, nesse sistêma, uma missão e poderes capitais.
«O indivíduo é um renovo da humanidade, e alimenta e refaz a sua própria
fôrça na fôrça da humanidade. Êste trabalho de alimentação e renovação
opera-se pela educação, que directa ou indirectamente transmite ao
indivíduo os resultados do progresso de toda a raça humana. Por
conseguinte, não só porque é uma _necessidade_ da nossa vida, mas tambêm
porque é uma espécie de santa comunhão com todos os nossos companheiros
e com todas as gerações que viveram, isto é, que pensaram e trabalharam
antes de nós, por isso carecemos de nos educar, o mais possível, em uma
educação moral e intelectual que compreenda e cultive todas as
faculdades que Deus nos deu, como semente para produzir fruto, e forme e
mantenha um laço entre a nossa vida individual e a vida colectiva da
humanidade. E para que êsse trabalho de educação se realise o mais
rapidamente, e para que a nossa vida individual se ligue mais segura e
intimamente com a vida colectiva de todos, com a vida da humanidade, por
isso Deus nos fez essencialmente seres sociais. Toda a espécie de ser
inferior póde viver por si, sem outra comunhão além da que tivér com a
natureza, com os elementos do mundo físico. Nós não. A cada passo temos
necessidade dos nossos irmãos; e não podemos satisfazer as necessidades
mais simples da vida sem nos socorrermos do seu trabalho.»
Infelizmente, estávamos e estamos longe de atribuir à educação o seu
valôr religioso. Vai desvairada e em erro, semeiando muitos males e
produzindo escassissimos e contaminados bens. «Hoje, na Europa, a
_instrucção_, desacompanhada de um gráu correspondente de _educação_, é
um grave mal; mantem a desigualdade entre as diversas classes de um
mesmo povo e inclina o espírito ao calculo, ao egoismo, a compromissos
entre a justiça e a injustiça, e a toda a falsa doutrina».
Comunhão «é uma palavra santa. Ensinou aos homens que eles eram uma
família única de irmãos em Deus, e uniu o senhor e o escravo no mesmo
pensamento de salvação, na mesma esperança e no mesmo amor do céu».
Símbolo da igualdade entre os homens, cumpre à humanidade desenvolver
toda a verdade que nela se encerra.
«A egreja não o fez e não póde fazê-lo. Tímida e incerta no seu começo,
mais tarde aliada com os príncipes e com o poder temporal, embebida no
próprio interêsse, com uma tendência aristocrática alheia ao espírito do
Fundador, vagueou na estrada direita e retrogradou até diminuir o valor
da comunhão, limitando-a para os seculares só ao pão, e reservando para
os sacerdotes a comunhão nos _dois géneros_».
«Não era materialista. Os moços de inteligência estreita e educação
superficial, mas excessivamente inflamados e irritados contra um passado
morto que ainda quer dominar o presente; cuja vaidade é lisongeada pela
ideia da ousadia intelectual; que carecem de capacidade para descobrir
naquilo que foi a lei daquilo que ha-de ser, são levados a confundir a
negação de uma forma gasta da religião com a negação daquela religião
eterna que é inata na alma humana. Neles o materialismo assume o aspecto
de uma rebelião generosa, e muitas vezes é acompanhado pelo poder de
sacrifício e pelo respeito sincero da liberdade. Difundido, porêm, entre
os povos, o materialismo, pelo culto exclusivo do bem-estar material,
tenta mais infalivelmente, extingue o fogo de um pensamento alto e
nobre, assim como toda a scentelha de vida livre, prostrando-os
finalmente perante a violência triunfante, perante o despotismo do _fait
accompli_». Fôra êle que «em Roma extinguira toda a virtude
republicana».
Porque não era materialista, só acusava a egreja onde a julgava infiel à
sua missão espiritual e divina; não porque ela se fundasse em uma missão
que havia deixado de ser a aspiração da humanidade, a sua religião. Pois
«a vida era uma missão, e a existência aquela parte dessa missão que nós
temos a cumprir na terra. Descobrir, compreender e intelectualmente
dominar aquele fragmento da lei divina que é acessivel às faculdades
humanas, transmudá-lo em acção (até onde as forças humanas o permitem)
aqui, onde Deus nos pôz, é o nosso fim, o nosso dever. Cada um de nós e
todos nós estamos sujeitos ao esforço de incarnar na humanidade aquela
porção de verdade eterna que nos foi dado perceber, de converter em uma
realidade terrena tão grande parte do «reino dos céus», da concepção
divina que repassa a vida, quanto nos foi dado compreender».
Não era ingrato à egreja, «nem irreverente perante as suas grandes
ruinas». Não esquecia «que lhe deviamos não só a ideia da unidade da
família humana, da igualdade e emancipação das almas, mas tambêm a
salvação das relíquias da nossa anterior civilisação latina».
«A salvação do cristianismo e por êle a salvação da civilisação
europeia, pela unidade da hierarquia durante um período de anarquia e
trevas; o espírito de amor com os pobres e os párias aflictos da
sociedade que inspirou os primeiros bispos e papas; a luta severa
sustentada por êles em nome da lei moral contra o poder arbitrário e a
ferocidade dos senhores feudais e dos reis conquistadores; a grande
missão (desconhecida em nosso tempo por aqueles que nada sabem ou
compreendem da história) cumprida por êsse gigante da inteligência e da
vontade, Gregorio VII, e a fecunda vitória que êle ganhou em auxilio do
govêrno do espírito sôbre as armas reais, do elemento italiano sôbre o
elemento germanico; a missão da conquista civilisadora entre povos
semi-bárbaros levada a cabo pela egreja; o impulso dado à agricultura
pelos monjes durante os tres primeiros séculos, a conservação da
linguagem de nossos pais, a época esplendida de arte inspirada no dogma,
as obras eruditas dos beneditinos, o começo da educação gratuita, a
fundação de instituições de benevolência, nossas irmãs de
misericórdia»--tudo isso Mazzini lembrava e respeitava na vida da
egreja.
Mas acusava a egreja da «insania de pretender que um facho, aceso há
desoito séculos para lhe iluminar a jornada atravez de uma única época,
estava destinado a ser uma única luz no caminho do infinito». Acusava-a
de «desconhecer a santidade da alma de Jesus, superior a toda a outra em
inspiração e amor fraterno, transformando-o, a despeito dos seus mais
sublimes pressentimentos, em um vulgar e eterno tirano das almas». Uma
religião expirava, se perdia o poder de sacrifício. E o catolicismo
«podia ainda, com o auxílio dos enganos dos seus ministros e da pompa
dos seus ritos, juntar em volta de si o concurso numeroso de fieis,
aparentemente dedicados, e assim continuar fazendo, emquanto a única
escolha dêsses fieis está entre as recordações de uma fé, outrora grande
e fecunda em bens, e as negações áridas de um materialismo embrutecedor.
Mas pedissem a esses fieis para morrerem pela egreja e pela fé que ela
representava, e não se encontraria entre eles um só mártir».
«Não se enganasse a egreja! Em volta dela a fé agonisava. Como
scentelhas derradeiras de um fogo que se apaga, a fé, em nossos dias,
desfalecendo encontra expressão nas orações murmuradas perante os nossos
altares, por força do hábito, em momentos breves e determinados.
Evapora-se à porta da egreja, e não mais governa ou guia a vida
quotidiana dos homens. Dão uma hora para os céus e o dia para a terra,
para os seus cálculos e interêsses materiais, ou para estudos e ideias
estranhos a toda a concepção religiosa».
A fé em Deus determinava uma economia, uma constituição e uma repartição
da riqueza, assim como determinava uma regra de liberdade e amor nas
relações civís e políticas. Fôra ela que lentamente fizera crescer «no
espírito dos homens o sentimento do dever social com as classes
trabalhadoras», que se tornára preponderante na política do nosso tempo
e fizera da liberdade de concorrência um espectro de crueldade. «Para
aqueles que nada possuem, para aqueles que são incapazes de poupar o
quer que seja no salário quotidiano e não teem, por conseguinte, cousa
alguma para começarem qualquer empreza comercial, a liberdade de
concorrência era uma mentira, como a liberdade política era uma mentira
para aqueles que por falta de educação, instrução, oportunidade e tempo
não podem exercer os seus direitos».
O progresso seria essencialmente um estado de consciência. «Realiza-se
passo a passo, por virtude de leis que nenhum poder humano pode dominar,
por _desenvolvimento_, pela _modificação_ perpétua dos elementos que
manifestam a actividade da vida. Muitas vezes os homens, em certas
épocas, em certos países e sob a influência de certos erros e prejuízos,
deram o nome de elementos, de condições da vida social, a cousas que não
teem a sua raiz em a natureza, mas sómente nas convenções e costumes de
uma sociedade iludida, e que desaparecem fora dessa época particular ou
além dos limites próprios dêsses países. Mas podemos descobrir quais são
os verdadeiros elementos inseparáveis da natureza humana, interrogando
os instinctos das nossas almas e verificando em face das tradições de
todos os tempos e de todos os países se êsses instinctos nossos são como
sempre fôram os instinctos da humanidade».
E, evidentemente, desde que o progresso é êsse «desenvolvimento»,
sujeito a leis fóra do alcance do poder humano, o remédio para a
deplorável condição presente não podia encontrar-se em qualquer
organização geral arbitrária, feita segundo o plano de certo espírito e
estabelecida por decretos. Tudo isso resultava em ilusões por diversos
modos destinadas a naufragarem e a dissiparem-se. O remédio tinha de ser
qualquer outra cousa que não significasse a criação de uma humanidade
nova, mas que continuasse a humanidade nas suas tendências essenciais e
indestructiveis. «Algum dia fomos _escravos_, depois _servos_, depois
_assalariados_; não tardará que sejamos, se o quizermos ser, livres
produtores e irmãos na _associação_--associação livre e voluntária, por
nós mesmos organizada em certas bases, entre homens que mutuamente se
conhecem, amam e estimam, não a associação obrigada, imposta pela
autoridade que governa e ordenada sem respeito pelos laços e afeições
individuais, tratando os homens mais como máquinas de produzir do que
como seres de livre e espontânea vontade».