Só pela renovação moral dos homens se alcançará a renovação das

sociedades. Essa é a condição de toda a reforma social. O progresso só é

eficaz e duradouro se o fundou a capacidade de progredir. «A sorte de um

homem não se altera renovando e embelezando a casa em que êle vive. Onde

só respira o corpo de um escravo e não a alma de um homem, todas as

reformas são inuteis; a morada limpa, luxuosamente mobilada, é um

sepulcro branco, nada mais». «Só os princípios edificam». «Onde

quizermos realizar um dos grandes feitos chamados revoluções, temos

sempre de ir ao conhecimento e à pregação dos princípios. O verdadeiro

instrumento do progresso dos povos tem de se procurar no factor

_moral_». Não suprimiremos o factor económico nem é possível suprimí-lo,

mas subordinámo-lo ao factor moral, «porque fora do govêrno da sua

influência, desligado dos princípios e abandonado às teorias do

individualismo que hoje o governam, resultará em egoismo bruto, na luta

perpétua entre homens que devem ser irmãos, na expressão dos _apetites_

da espécie humana». A cada estado do progresso devia corresponder «uma

melhoria positiva da condição material do povo»; mas sustentava que «os

interêsses materiais não podem desenvolver-se sósinhos, dependem dos

princípios, não podem ser a _mira_ e o fim da sociedade. Porque sabiamos

que semelhante teoria destrói a dignidade humana, porque nos lembramos

que, quando o factor _material_ começou a apossar-se de Roma, e o dever

com o povo se reduziu a dar-lhe _pão e jogos_, Roma e o seu povo

apressaram-se na própria destruição; porque viamos hoje em França, na

Espanha, em todos os países, a liberdade calcada aos pés ou atraiçoada,

precisamente em nome dos interêsses comerciais e daquela doutrina servil

que separa dos princípios o bem-estar material».

São «as ideias que governam o mundo e os seus acontecimentos. Uma

revolução é a passagem de uma ideia da _teoria_ à _prática_. Digam os

homens o que disseram, os interêsses materiais nunca causaram e nunca

causarão uma revolução. A pobreza extrema, a ruina financeira, a

tributação opressiva e desigual, podem provocar levantamentos que são

mais ou menos ameaçadores e violentos, mas nada mais. As revoluções teem

a sua origem no espírito, nas próprias raizes da _vida_; não no corpo,

no organismo material. Na base de toda a revolução há uma religião e uma

filosofia. É uma verdade que pode provar-se por toda a tradição

histórica da humanidade».

Acreditassem os seus camaradas revolucionarios da Italia «nas palavras

de um homem que, durante trinta anos, estudou o curso dos acontecimentos

na Europa e na hora do triunfo viu perdidas pela imoralidade dos homens

as emprezas mais santas e uteis. Não venceriam senão _tornando-se, êles

mesmos, melhores_; não conquistariam o exercício dos seus direitos senão

_merecendo-os_ pelo sacrifício, pelo engenho e pelo amor. Se os

procurassem em nome de um dever cumprido ou para ser cumprido,

alcançá-los hiam; mas, se os procurassem em nome do _bem-estar_ que os

materialistas lhes tinham ensinado, apenas alcançariam triunfos

momentaneos, seguidos de desilusões tremendas. Atraiçoavam-nos aqueles

que lhes falavam em nome do bem-estar, da felicidade material. Tambêm

êsses procuravam o seu _bem-estar_ e para o obterem queriam unir-se com

eles, como um elemento de fôrça, emquanto tinham obstáculos a vencer;

mas, logo que com o seu auxílio tivessem obtido o bem estar,

abandoná-los hiam para que tranquilamente podessem gozar a conquista.

Era essa a história do último meio século e o nome dêsse meio século era

_materialismo_».

As sociedades nunca poderiam renovar-se pelo conhecimento, estudo e

organização dos interêsses económicos. «As classes abastadas, no

conforto da sua prosperidade, nunca experimentam privação ou sofrimento.

Por vezes, vêem a miséria do pobre, mas facilmente se habituam a

considerá-la uma triste _necessidade_, e deixam às gerações futuras o

cuidado de lhe encontrar remédio. A indiferença e o esquecimento são

doces para o homem que se sente no santuário da sua família, cercado de

faces sorridentes, emquanto lá fóra sopram as rajadas do inverno e a

neve, ligeira e bela, lhe bate nas vidraças da janella dupla. Esperareis

erguer da sua apatia estes favorecidos do mundo pela simples expressão

da _situação económica_ e do que deva substituí-la em uma sociedade bem

organizada? Esperareis arrancá-los do seu repouso egoista meramente pela

análise do que acontece em uma esfera na qual eles nunca penetraram?

Talvez em teoria aprovem as vossas doutrinas utilitárias; não lhes

peçam, porêm, que promovam a sua aplicação. Porquê? Falam-lhes em nome

de _interêsses_. Não é o gozo o primeiro dos interêsses? E êles gozam».

A nacionalidade e o patriotismo que a sustenta, serve e fortalece, será

tambêm um facto de consciência moral e religiosa e nunca, por mais

habilmente desfigurada que ela seja, pode fundar-se e manter-se pela

delimitação do território, pelo agregado e conjugação das fôrças

económicas e por qualquer combinação de actividades políticas. «A

nacionalidade é a crença em uma origem e um fim comum. Se hoje fôr

fundada em um interêsse, pode ser derrubada amanhã por outro interêsse

mais ousado e mais poderoso». «Só quando o evangelho da fraternidade de

todos os homens de uma nação fez da alma santuário de virtude e amor,

quando a grande concepção da nacionalidade deixou de se encontrar

reduzida a proporções mesquinhas, quando procura para base dos seus

direitos alguma cousa mais que o interêsse material, interêsse que

sempre tem o seu rival... só então teremos uma nação como nunca será

possível tê-la dos sofistas que podem achar uma nacionalidade sem Deus».

O progresso é um acto de fé. «A cada passo no pensamento religioso

correspondia um progresso na vida civil». «Deus assim o quer» seria o

grito eterno de todo o movimento que tem «por fundamento o sacrifício,

por instrumento os povos, e por fim a humanidade». «O pensamento

religioso é o alento da vida da humanidade, a um tempo a sua vida e

alma, o seu espírito e o sinal externo. A humanidade só existe na

consciência da sua própria origem e no pressentimento dos seus próprios

destinos». Fora do trabalho da reforma moral «toda a organização

política é estéril», e é ilusão esperar triunfos se «do nosso trabalho

banirmos a ideia religiosa». «Só a consciência liberta os povos». «O

elemento religioso é universal e imortal. Em toda a grande revolução

está marcado o seu sinal, revela-o na sua origem e fim».

Acreditava «em um Deus, autor de quanto existe, o pensamento absoluto

vivo, de que o nosso mundo é um raio e o universo a incarnação».

Acreditava em «uma lei, geral e imutável, que constitue o nosso modo de

existir, que compreende toda a série possivel de fenómenos e exerce uma

influência continua sôbre o universo e sôbre tudo aquilo que êle contêm,

no seu aspecto físico como no seu aspecto moral». E a lei da vida, para

Mazzini, era por igual essencial e simples.

«Cristo disse:--«Amae primeiro a Deus e amae-vos uns aos outros com

afeição fraterna». E disse tambêm:--«Entre vós será o primeiro aquêle

que fôr o servo de todos». Toda a essência do cristianismo se compreende

nestas palavras. Unidade de fé, mútuo amor, fraternidade humana,

actividade nas boas obras, a doutrina do sacrifício, a afirmação da

doutrina da igualdade, a abolição de toda a aristocracia, o esforço de

perfeição no indivíduo e a liberdade, sem a qual nem o amor nem a

perfeição podem existir--tudo assim se resume naqueles dois preceitos».

«Toda a revolução social é essencialmente _religiosa_. Toda a época tem

a sua _crença_. Sem unidade de fé, a associação é impossivel; prégar a

humanidade, a pátria, o povo, essas grandes fórmulas da associação que

superiormente dominam o nosso tempo, emquanto negamos ou despresamos o

_sentimento religioso_, é desconhecer a significação dessas palavras,

querer o fim sem os meios, a obra sem os instrumentos necessários. Como

fôrem as nossas crenças, assim elas nos hão-de dar a regra de acção». Em

seu coração «amava a visão de uma fé, não de uma escola».

Os direitos em que a Revolução Francesa se fundou, involviam a mais

traiçoeira das aspirações de uma sociedade. Foi glória do Profeta,

talvez a mais alta das muitas que o coroaram, a intuição e o ardor com

que opôz o dever ao direito, em um momento em que apaixonadamente se

combatia e morria pelo fetichismo do direito, sem que das hecatombes que

provocou podesse resultar nem a fortuna nem a tranquilidade dos homens,

arrastados de escravidão em escravidão, de miséria em miséria, de

tormento em tormento, de incerteza em incerteza. Um erro inicial os

transviava e perdia; ignoravam que «o unico padrão da vida é a ideia do

dever, santa, inexorável, dominante».

«Fazer da política uma arte e apartá-la da moralidade, como os

estadistas e diplomatas reais desejavam, era um pecado perante Deus e

uma destruição perante os povos. O fim da política era a aplicação da

lei moral à constituição civil de uma nação na sua dupla actividade,

doméstica e estranha. O fim da economia era a aplicação da mesma lei à

organização do trabalho no seu duplo aspecto de produção e

distribuição».

«Não pregassem, não trabalhassem em nome de direitos que apenas

representavam o indivíduo, mas em nome do dever que representava o fim

de todos. Não havia direitos alguns, salvo os que eram conseqùência dos

deveres cumpridos; podiam resumir-se em um só direito--que os outros

cumpram comnosco o dever que nós cumprimos com êles. Não dissessem que a

soberania está em nós. A soberania está em Deus. A vontade do povo só é

sagrada quando interpreta e aplica a lei moral. Quando dela se afasta, é

impotente ou nula e não representa outra cousa senão tirania.» «A

sociedade de Rousseau, como a de Montesquieu, é apenas uma sociedade de

seguros mútuos». Partindo da filosofia da liberdade individual,

destituiu de fecundidade êste _princípio_ baseando-o, não sôbre um dever

comum a todos, não sôbre a definição do homem como uma criatura social

por essência, não sôbre a concepção de uma autoridade divina e de um

designio providencial, não sôbre o laço que une o _indivíduo_ à

humanidade do qual êle é um factor, mas sob a simples _convenção_,

confessada ou subentendida».

«Carecemos de ensinar não o _direito_, mas o _dever_, acordar para

melhores cousas a natureza degenerada, a alma semi-exausta, o entusiasmo

decrescente; carecemos de possuir a consciência do valor humano e da

missão dos homens na terra, e por aí erguer a fôrça de proceder, que até

agora está esmagada pela indiferença. E isso obra de princípios, de

crença, de pensamento religioso, de fé. Foi a obra de Jesus. Não

procurou êle salvar pela crítica um mundo moribundo. Não falou de

interêsses a homens cujas almas estavam envenenadas pelo culto dos

interêsses. Prégou no santo nome de Deus certas verdades até então

desconhecidas. Estas poucas verdades que agora, desoito séculos depois

da sua passagem, procuramos esforçadamente realizar, mudaram a face da

terra».

«Três cousas eram sagradas--tradição, progresso, associação».

A tradição histórica tinha de ser considerada, «não com a ignorância

presunçosa dos materialistas modernos, mas com a atenção reverente

devida a uma representação da nossa vida colectiva, único padrão onde

podemos deduzir e verificar a concepção da lei que a governa». A verdade

encontrar-se hia no «estudo severo da tradição universal que é a

manifestação da vida na humanidade». A humanidade, dizia, invocando e

desenvolvendo o pensamento de Pascal, «é um homem que aprende

continuamente. Os indivíduos morrem; mas a verdade que pensaram e o bem

que produziram, não se perdem com eles. A humanidade junta-o, e os

homens que passam sôbre as suas sepulturas aproveitam-no. Cada um de nós

nasce hoje em uma atmosfera de ideias e crenças que são a obra de toda a

humanidade antes de nós; cada um de nós traz inconscientemente algum

elemento, mais ou menos valioso, para a vida da humanidade que se lhe

segue. A educação da humanidade cresce como aquelas piramides orientais

a que cada viandante junta a sua pedra. Passamos, viajantes de um dia,

chamados a completar a nossa educação individual em outro lugar; a

educação da humanidade brilha por scentelhas em cada um de nós mas o seu

inteiro resplendor descobre-o lentamente, progressivamente,

continuamente, na humanidade. De uma a outra tarefa, de uma a outra fé,

passo a passo, a humanidade conquista uma visão mais clara da sua vida,

da sua missão, de Deus e da sua lei». Onde a tradição e a intuição se

completam e consubstanciam, «onde encontramos a voz permanente da

humanidade harmonisando-se com a voz da nossa consciência, aí teremos ao

nosso alcance alguma cousa com absoluta verdade».

O homem não é, porêm, apenas o investigador da verdade. «É _pensamento_

e _acção_. As teorias podem modificar o primeiro; não podem criar o

ultimo». E, fielmente obedecendo ao próprio espírito, em Mazzini

confundiram-se o profeta e o homem da acção, o apostolado e a visão, o

poeta e o revolucionário. Desde a adolescência selando com o sangue os

juramentos da sua fé, conspirador e camarada certo em todas as

inumeráveis e prolongadas revoluções que sonharam e fundaram a Itália

unificada, muitas vezes o seu chefe audacioso e nobre, a sua alma,

inspiração, e o seu braço executor, não houve risco a que se esquivasse,

não houve penas que não experimentasse, desde o aturado exílio que em

condições de pobreza, às vezes extrema, o apartou da família, da pátria

e dos amigos, até à condemnação à morte e porventura à tentativa de

assassinato que o perseguiram como milhafres. Não houve contrariedade ou

ameaça que lhe vencessem o desprendimento e o ardor, uma vaga sêde de

martírio. «Particularmente aborrecia o egoismo, tão popular com a gente

de hoje. Não gastava o seu tempo cantando, orando e clamando a Deus que

lhe salvasse a alma. Nem se entregava ao estudo e à cultura para lhe

salvar o espírito. Sempre cuidava do espírito e da alma, mas era sempre

do espírito e da alma dos outros». E «foi conspirador porque era muito

fiel a Deus e ao Povo para que consentisse em os vêr atraiçoados, muito

honesto para que vivesse submetido ao mal, muito bravo para que

aceitasse a paz sem honra»[9].

Nem por isso lhe faltaram inimigos. Não podiam faltar a quem, na lógica

inevitável dos princípios que se deduziam da sua fé, viu «classes

perigosas nos eclesiásticos ociosos, de que há muitos mil, e nos ricos

que com o seu dinheiro não faziam bem». Um instinto seguro os advertia

de que quem tudo confiava do povo era naturalmente o adversário perigoso

dos apanágios e privilégios que ensoberbeciam as aristocracias políticas

e eclesiásticas. Cavour e Luiz Napoleão Bonaparte eram irmãos nos

sentimentos com que detestavam Mazzini, e nem outra cousa se compadecia

com o conflito de ideais que o amor do apóstolo e a ambição do

aristocrata e do imperador em confronto necessariamente inflamavam. O

profeta era apenas o éco da voz do cristianismo, e o cristianismo é a

negação radical e a ruina de quantas aristocracias, hierarquias,

divisões de classes e servidões o egoismo e a perversão dos homens teem

inventado para contentar e engrandecer a paixão de mandar e as suas

cobiças. Todos êsses sistemas de dependências morais, políticas e

económicas partilharam daquela decadência das divindades pagãs que o

monoteismo cristão confundiu e afugentou. Foram, na verdade, a tradução,

em diferentes modos da vida social, de uma concepção moral e religiosa

que caducou; foram deuses adorados por multidões submissas e

inumeráveis, tiveram o seu culto, e absorvente, nos homens e nas cousas,

no coração e nos bens da terra; mas, lentamente, outra e mais alta

religião os destituiu do seu poder e prestigio, inspirando-nos e

mostrando-nos uma outra razão da vida, adjudicando toda a nossa

actividade intima e externa a um outro espírito. Não faz sentido ter e

invocar como princípio de acção e dedicação o meu senhor», ou êle seja

rei, ou sacerdote, ou fidalgo ou capitão de industria, quando senhores e

vassalos de toda a casta e ordem e categoria todos teem de invocar e

seguir o «seu Deus», aquêle perante o qual são irmãos igualmente

humildes e sujeitos, dêle recebendo igualmente uma só e única lei de

comunhão e coadjuvação. A obediência comum nivelou, e de facto destruiu

só porque as nivelou, todas as gradações e distâncias em que as

comunidades bárbaras se ordenaram e estratificaram, todos os despotismos

e dogmatismos, mais ou menos benignos e fecundos, em que primitivamente

se fundaram e viveram, tomando por eternidade a conveniência política ou

religiosa de uma hora. Se em nossos dias essa ordem se mantém ainda por

muitos modos e em diversos lugares, se persistem e são uma fôrça

espiritual efectiva aquêles sentimentos de fidelidade, lealdade,

dedicação e sujeição que eram seus vínculos e instrumentos, se essa

ordem e todo o seu cortejo mental e espiritual sobrevivem quando já

terminou a religiosidade íntima que era a sua essência e alma, é sómente

porque, convertida em tradições políticas, estéticas, morais e

eclesiásticas, senhora de altos monumentos e fortalezas que edificou,

póde representar, e em muitos casos representa, uma utilidade prática,

um sistema de conjunção e organização oportuno e cómodo, o remanescente

de hábitos tardos em mudar e fiadores de uma estabilidade que é a

primeira das condições de um desenvolvimento seguro. Mas, sem embargo, o

império de Deus arruinou virtualmente o império dos cesares, desde os

que são coroados em tronos magnificos até aos que teem seus escudos nos

cofres à prova de fogo; e aquela simples virtualidade de um princípio é

de efeitos práticos incomensuráveis e invencíveis. A consciência de uma

escravidão eterna que a todos nos involve e subjuga, obliterou e perdeu

aquela outra consciência de escravidões mortais, condicionadas,

contingentes e transitórias, por longos séculos decisivas e supremas.

Mazzini, que por ser fiel à primeira e lhe sujeitar a política denunciou

as ultimas e as combateu e teve por calamitosas, não podia merecer-lhes

senão anatemas.

Assim devia ser. Vinha antes da sua hora. E condição do profeta. Tinha

de ser apedrejado e consagrado pela aversão e pela ira dos fariseismos

absolutistas e demagógicos que disputavam o domínio do seu tempo.

Amaldiçoado dos despotismos, por isso que pedia a liberdade, não podia

ser amado do demagogismo, por isso que invocava Deus, religião e dever

perante aqueles que em sua estreiteza e cegueira sómente viam e queriam

o mundo, a materia e os direitos do homem, quanto a sordidez sugere e

aponta, e na sordidez e nos seus enganos e dôres tripudia, mente e se

desfaz.

Quando morreu, a 10 de março de 1872, deixava a terra inteira, e

sobretudo a Europa, atónita e prostrada na adoração daquêle materialismo

da fôrça e da riqueza que vencera em Sédan e nas escolas e academias,

cimentando os alicerces de um grande império e aí se oferecendo à

imitação das nações, emquanto se insinuava nos laboratórios e nas

bibliotecas e aí endurecia o coração e envenenava o espírito das novas

gerações. Nesse momento, Mazzini era um vencido; com o seu débil corpo

se sepultavam as suas ilusões. Liberdade, religião e o povo que

inconscientemente as guarda e serve, iam de tropel calcados e esmagados

no culto de multíplices escravidões, no desprendimento de Deus e da sua

lei, na fé vil de que o mundo era um banquete do qual só ao nosso ventre

tinhamos a dar contas.

Dêsse banquete do materialismo robusto e convicto, reflectido, astuto,

sabedor e previdente, tão abundante de servos envaidecidos da própria

servidão como pródigo de vitualhas e orgias e orgulhoso dos seus

anfitriões desvairados na grandeza do mando e dos bens, Mazzini viu as

primeiras horas gloriosas. Então, o apóstolo era apenas uma sombra que

se afundava naquêle crepúsculo em que o romantismo sonhador anoitecia,

escarnecido satanicamente dos fortes que o apontavam à irrisão e

condenação das multidões, por muito ter amado a liberdade e os homens.

Quarenta anos vão passados. O banquete degenerou no ajuntamento trágico

das fúrias da morte e da ruina. E eis que Mazzini volta, na auréola da

sua glória, a repetir-nos que sem Deus e sem dever e sem amor a terra

será eternamente o inferno ensanguentado a que descemos.

FIM.

[1] Artigo do _Manchester Guardian_.

[2] Principe Troubetzkoy, professor de Direito na Universidade de

Moscou, no _Hibbert Journal_.

[3]_Millgate Monthly_, março de 1915. Notícia de um discurso de

Oliver Lodge, em Bradford.

[4] Percy Dearmer. _Patriotism._ Humphrey Milford: Oxford Unversity

Press, 1915.

[5] William Temple. _Cristianity and War._ (Humphrey Milford; Oxford

University Press, 1914).

[6] E. Carpenter, _What will Stay the Plague?_ Artigo publicado em

_The Christian Commonwealth_, de 9 de dezembro de 1914.

[7]_The War and Democracy_, por W. Seton--Watson, J. Dover Wilson,

Alfredo E. Zimmern e Arthur Greenwood. (Londres; Macmillan, 1912).

Pag. 374 e seg.

[8] O pouco que sei do pensamento e vida de Mazzini colhi-o

principalmente, quasi exclusivamente, em dois volumes da _Everyman's

Library_. (Londres; J. M. Dent & Sons), um que contêm versões dos

escritos de Mazzini, _The Duties of Man and Other Essays_, e o outro

que é a narração da sua vida e a crítica das suas doutrinas,

intitulado _The Life of Mazzini_, escrito por Bolton King. Esses

dois volumes constituem só por si uma lição moral e política e uma

inspiração de dignidade e nobreza de um altissimo valor. Quem os

divulgasse em linguagem portuguesa, prestaria excelente serviço às

letras pátrias, e sobretudo à educação das novas gerações, tão

desiludidas das seguranças e presunções materialistas que encontram

no ocaso, como apressadas em descobrir novos e mais serenos

horizontes para que se encaminhem.

[9] H. Demarest Lloyd. _Mazzini and other Essays._ Pag. 4 e 6.

Indice

Prologo

Convulsões dum enfêrmo

Ganhos e perdas

Revisão de valores

Da arte de gastar e suas responsabilidades

O Cavador e o Profeta

Aparições

DO MESMO AUTOR

_Vozes do meu lar_, 1 vol.

_Na paz do Senhor_, romance, 1 vol.

_Reino da Saudade_, romance, 1 vol.

_Via Redentora_, 1 vol.

_Apostolos da Terra_, 1 vol.

_Sonho de Perfeição_, romance, 1 vol.

_S. Francisco d'Assis_, 1 vol.

_José Estevão_, 1 vol.

_Alexandre Herculano_, 1 vol.

_Rogações de Eremita_, poemetos em prosa

_Salmos do Prisioneiro_, 1 vol.

A Guerra: Depoimentos de Herejes · 第 8 / 8 段