desvairado orgulho scientífico, terminam hoje na guerra a sua
obscurecida fama e glória, aquela por demais terrena que ao seu espírito
correspondia e que era a única a que a sua fascinação podia conduzir.
Esse materialismo cái pela fragilidade das suas edificações, porque só
produzia dôres onde prometia alegrias, só acumulava ruinas onde
ostentára traiçoeiras prosperidades. Mas, antes que um cataclismo
inaudito lhe demonstrasse a estreiteza e inconsistência, um trabalho
subtil lhe minára os fundamentos: aniquilivam-no aquêles mesmos que o
haviam gerado e nutrido, os apóstolos e os seus fiéis, os filósofos e os
pensadores, a inspiração dos poetas, as academias, e sobretudo as
multidões que os ouviam, sentiam e interpretavam, fatigadas de errores e
de desprendimento religioso e moral; e, verificando pela experiência de
agudos instintos os benefícios e os males das doutrinas e das crenças,
conforme a verdade e felicidade que lhes trazem ou lhes roubam, assim as
amaldiçôam ou engrandecem. São êsses poderes invisíveis e imponderáveis,
que habitam no coração das multidões anónimas, que nos dirigem e dão a
vida e a morte, nos indivíduos como nas sociedades. Só êsses poderão
libertar-nos da guerra ou eternisar a sua danação; e as igrejas valerão
então o que valer a sua obediência ao princípio cristão, e os estados
serão um flagelo, se em acção o negarem, ou uma fortuna, se o
respeitarem e traduzirem nas cousas da terra e nas relações entre as
nações.
Da arte de gastar e suas responsabilidades
«Uma crise grave ilumina e descobre perigos que se não suspeitavam;
hábitos que anteriormente nos pareciam tão inocentes e naturais que
nenhum mal encerravam, mostram-se com uma dupla face nos seus efeitos.
Parece que se torna necessaria mais reflexão; e, posto que nos seja
impossível achar remédio simples para ruins efeitos, sabemos que,
começando a pensar honestamente, teremos probabilidades de achar o
caminho de melhores hábitos.
«Será esperar muito que entre outras cousas boas que podem resultar
desta negra crise, venha a nascer um certo acordar, da nossa parte,
quanto à futilidade, assim como quanto ao perigo, de muitas das nossas
despesas? Não é bem para uma nação que uma quarta parte dos seus
rendimentos se gaste de um modo inconstante. Não é bem para uma nação
que a quarta parte da sua capacidade de trabalho se especialise a
produzir cousas que se vêem e sentem destituídas de valor, mal uma crise
o vem pôr em prova. De resto, os ricos não são os únicos que no seu
gastar estão em falta; tambêm os pobres teem os seus poucos luxos
inuteis. Mas são os ricos, e não os pobres, que individualmente teem
maior responsabilidade na errada direcção do trabalho, emquanto são êles
que individualmente possuem maior poder de gastar e são, por
conseguinte, os que gozam de maior liberdade para escolherem o modo por
que hão-de usar êsse poder.»
A isto vem, em suas conclusões finais, o opúsculo precioso que, sob o
titulo de _Spending in War Time_, o professor E. J. Urwick publicou, em
Oxford, na colecção de _Papers for War Time_, dirigida por W. Temple.
Inspirada na convicção de que «esta guerra é o resultado e a revelação
dos princípios anti-cristãos que dominaram a vida da cristandade do
ocidente, e dos quais tanto as igrejas como as nações carecem de se
arrepender», essa colecção é uma crítica penetrante e serena de muitas
angustias em que a indigência e a perversão religiosa nos lançaram, e é
simultâneamente um estudo magnifico de diversos problemas que a
ansiedade de melhores dias definiu e pôz, não sem esperança de soluções
por igual próprias a satisfazer as investigações da consciência moral e
as necessidades da vida prática. Os que seguem a Cristo, estão unidos
entre si em uma comunhão superior a todas as divisões de nacionalidade e
de raça; «os deveres cristãos e de amor e de perdão prendem-nos tanto em
tempo de guerra como em tempo de paz». E os cristãos teem de reconhecer
«a insuficiência da mera compulsão para vencer o mal, e de guardar a
confiança suprema nas fôrças espirituais, particularmente no poder e no
método da Cruz». Disso depende, no conceito dos que se associaram à
missão de que os opusculos daquela colecção são inteligente testemunho e
instrumento eficaz, disso depende uma paz duradoura.
Para o conseguirmos, torna-se necessario um novo esfôrço com o fim de
aplicarmos em todas as relações da vida a aspiração de comunhão e
fraternidade; e neste pensamento cada um, examinando os seus recursos,
virá a considerar o que faz e o que deve fazer dos meios económicos que
o destino lhe facultou, como serve ou contraría os princípios cristãos e
o seu reino na terra, e especialmente como favorece ou embaraça a
solução dos conflitos económicos que a guerra exacerbou e revelou com
uma dolorosissima evidência.
O problema será de minguado alcance para todos aqueles a quem a
exiguidade de meios determina e restringe imperiosamente a natureza e
extensão das despesas. Esses gastam o que não podem deixar de gastar
para se sustentarem, quando freqùêntemente, e por desgraça, não são
reduzidos ao extremo de não gastarem sequer aquilo de que careciam para
o seu parco sustento, porque de todo lhes faltam os meios
indispensáveis. Mas não acontece assim com outros, ainda numerosos, de
facto representando uma fôrça poderosa na actividade das sociedades; e
êstes, tendo mais do que o necessário para o sustento, ficam por isso
com uma larga margem para a livre distribuição de grande parte dos seus
haveres pelas despesas que lhe aprouverem, e paralelamente estão
sujeitos às responsabilidades que a sua abundancia e liberdade implica.
E êstes o que fazem, sobretudo o que devem fazer na crise presente?
Continuam as suas despesas de luxo e a sua prodigalidade de futilidades
em prejuizo de despesas de necessidade social urgente, continuam em seus
regalos, ignorando a indigência dos oprimidos e famintos? Ou, para
acudirem aos necessitados, derivam das suas dissipações habituais as
somas que nelas empregavam, e para isso criam novas legiões de
indigentes, condenando à miséria, pela cessação do trabalho, aquêles que
lhes serviam as dissipações, provendo-lhes o luxo e as futilidades,
disso auferindo o pão de cada dia e para isso tendo sido educados por
longos anos de prática e especialisação, que não raro os tornaram
inaptos para outras profissões?
A situação é de uma agudeza extrema. Para qualquer lado que se movam os
que teem disponibilidades a empregar, ou persistam nos antigos hábitos
ou tomem por caminho novo, já não fugirão a semeiar privações,
alongando-as a uns porque não lhes dão o pão que deveriam dar-lhes, e
causando-as a outros se, para acudirem aos primeiros, se apartam dos
ultimos, negando-lhes o que até aí lhes davam e em certo modo prometiam
dar-lhes, pela invariabilidade do que lhes pediam.
A conjuntura é opressiva, e fômos nós, por nossa vontade, que lhe demos
causa, por nossa pobreza de senso moral, por um deplorável abandono a
toda a casta de apetites. Organisamos e distribuímos as nossas despesas
sem cuidarmos das responsabilidades económicas que elas importam,
constantemente de profundo alcance e agora cruelmente postas a nú pela
perturbação em que a guerra desfez muita ficção e muita ilusão. Seriam
as nossas despesas como essas doenças latentes, graves, fatais, que se
escondem em aparências de saúde e artes de bem trajar, e que uma febre
acidental revela aos que em sua negligência não as tinham previsto nem
sentido, aterrando-os então pela iminência de perigos mortais e pela
presença de própria miséria. Por uma incúria que é o indício da
lastimosa leveza de consciência moral e religiosa de que nos deixamos
possuir, viemos a regular ordináriamente as despesas e toda a
distribuição dos nossos bens segundo o volume dos meios de que dispomos
e segundo os apetites que nos incitavam e cuja legitimidade nem de longe
discutiamos. Desprendemos-nos da consideração das conseqùências
ulteriores da aplicação dos nossos haveres; jámais ponderamos, como
obrigação e dever, que género de trabalho êles criavam, quantos
trabalhadores alimentavam e em que condição os mantinham, que influência
social exerciamos por êsse modo, que bem-estar ou que miséria dependia
de nós, que instabilidade e perigos conseqùêntes eram os companheiros
obrigados das nossas obras e tendências. Vamos em uma leviana e
traiçoeira certeza de que gastando, seja como fôr, beneficiamos o
comércio e acrescentamos a riqueza e o tráfego, unicamente porque demos
emprego a muitos braços.
Na verdade, assim acontece; o nosso luxo e a nossa dissipação significam
o sustento de muita gente. Sómente esquecemos, e o mais das vezes
ignoramos inteiramente, porque, à falta de vigor moral bastante, isso
escapa à nossa atenção e nem de longe nos toca, e muito menos preocupa a
consciência, sómente não perguntamos que especialização de trabalho e de
capital os nossos hábitos determinam, que espécie de constituição
económica criam e sustentam, e de que enfermidades ela padece e faz
padecer os homens que lhe estão sujeitos. Pois é evidente que será, por
exemplo, muito diversa em seus riscos a situação de costureiras
empregadas a fazer vestidos de baile, para êsse trabalho amestradas, e a
situação dessas mesmas costureiras empregadas a coserem blusas de
trabalhadores. Ao mais pequeno alvoroço mercantil ou qualquer outro,
cessam os bailes, as costureiras ficam sem trabalho e anula-se o capital
que lhes era destinado, desaparece; emquanto só em ultima miséria e na
maior calamidade deixam de ser necessarias as blusas dos trabalhores, e
cessa de se aproveitar o capital de que o seu fabrico carece, e se
suspende ou interrompe o pagamento do trabalho que reclamam. São
infinitamente e manifestamente menos numerosas as contigências de
retribuição do cavador do que do ourives; entre êles há toda a distancia
que vai das necessidades essênciais da existência aos caprichos
acidentais de adorno e de prazer. E dada a dificuldade, e em muitos
casos a impossibilidade de mudar de profissão ao sabor dos mercados,
porque o desenvolvimento de certas aptidões implica, em geral, o
afrouxamento, e em breve a atrofia completa, de outras capacidades,
compreender-se-á quanto importa para a fortuna dos trabalhadores o
género de trabalho que lhes reclamamos e o género de mercadoria que lhes
pedimos e, porque lho pedimos, os convidamos e na realidade obrigamos a
produzir.
Nós, os da gente fina e boa gente, «lisongeamos-nos», diz o sr. Urwick,
«crendo que, só pelo simples acto de gastarmos dinheiro, prestamos um
assinalado serviço à indústria, _beneficiando o comércio e dando
emprego_. Isto, como todo o economista sabe, é realmente um sofisma. Mas
é o mais plausivel dos sofismas e muito popular; e a sua plausibilidade
reside no facto de conter uma semi-verdade. É essa semi-verdade que
agora temos a considerar; o sofisma apreciá-lo hemos dentro em breve. É
indubitavelmente verdadeiro que todo o dispendio de dinheiro significa a
inclinação da indústria para certa via. Quem gasta uma libra em sapatos,
estimula por isso os patrões e os operários a fazerem sapatos e a
proseguir no fabrico dos sapatos, em vez de produzirem qualquer outra
cousa. Não sustenta ou mantém a indústria dos sapatos no sentido
rigoroso da palavra; mas faz que o trabalho e o capital se consagrem
espontaneamente ao fabrico dos sapatos de preferência a fazerem sacos.
No momento presente vemos isto operando em larga escala; uma soma enorme
de dinheiro se está gastando em panos de _khaki_, resultando daí que
correspondentemente uma larga quantidade de trabalho e capital
(incluindo a de alguns antigos fabricantes de calçado) é dirigida para a
produção dos uniformes de _khaki_. Ora esta direcção do trabalho e do
capital involve alguma cousa mais do que puramente se lhes dar ordem
para fazerem isto em vez daquilo. Usualmente significa que dá causa a
que os trabalhadores e o capital dos patrões se tornem altamente
especialisados para o trabalho particular que lhes pedem; tornam-se, por
conseguinte, aptos para este trabalho e para nenhum outro. Isto ainda é
mais verdadeiro na direcção do trabalho devido às despezas da gente
rica; em geral, requer-se por exemplo maior especialização da parte dos
fabricantes de vestidos ou de sapatos muito caros do que da parte dos
fabricantes de vestidos ou sapatos mais baratos. Ora a dificuldade com
todos os trabalhadores de uma alta especialisação (e com o capital
altamente especialisado e a habilidade de dar emprego que com êles
operam) é que não podem facilmente adaptar-se a fazer qualquer outro
trabalho. O costureiro hábil não pode mudar e coser _khaki_; o ourives
hábil não servirá de muito para fabricante de espingardas ou para
construtor de cabanas. É por isso que hoje os grupos de pacientes mais
dignos de dó são justamente aqueles trabalhadores que durante anos
dependeram da freguezia da gente fina. Na realidade, dependeram e
dependem literalmente de nós, neste sentido--fômos nós que os convidamos
a abrirem lojas e a exercerem um comércio próprio para satisfazer as
nossas necessidades, e a ganharem a sua vida por este modo e só por este
modo. São, por conseguinte, os _nossos_ trabalhadores, os _nossos_
dependentes, tão literalmente como se fôssem os nossos criados; e no
momento em que cessamos ou alterámos os nossos hábitos de gastar, estão
arruinados».
De modo que, chegados a uma conjuntura como a presente, é muito bom
dizer:--«Reduzam-se as despezas ao essencial; suprimam-se todas as
despezas supérfluas». Mas logo surgem duvidas e perguntam:--«E os
trabalhadores que criamos para satisfazerem as nossas despezas
supérfluas de que hão-de viver?...»
«A dificuldade vem de habitos de gastar que se baseiam em um sofisma
perigoso». Os embaraços economicos presentes são a derivação lógica de
uma errada constituição económica anterior. Talvez pelas condições do
indústrialismo moderno, que apartou em um desligamento profundo os
trabalhadores e quem êles servem e os emprega, talvez por essa mecânica
de uma absurda divisão do trabalho, que fez que de ordinario não
saibamos onde se criou o pão que comemos, nem quem o fabricou, nem quem
fiou e teceu o linho e a lã que nos cobrem, o certo é que absolutamente
se obliterou o sentimento da responsabilidade na arte de gastar, e de
todo deixamos que prevaleçam nesta materia tendências, principios e
processos que resultam não só em desamor dos que de nós dependem
imediatamente, mas até na instabilidade e muita dissipação da própria
riqueza. «Imaginamos que «sustentamos» os trabalhadores gastando
dinheiro com as cousas que êles fazem. Ora nenhum gasto de dinheiro ou
consumo de fazenda fornecida em troca de dinheiro gasto sustenta alguem,
a não ser a pessoa que adquire a fazenda e a consome. Trabalhadores e
indústria são em geral sustentados só por um modo--pela criação actual
de riqueza real para êles usarem e viverem dela. Se cavamos um campo e
criamos trigo, acrescentamos realmente o sustento de todos os
trabalhadores. Se meramente compramos o trigo e o comemos, só a nós nos
sustentamos, à custa de quem criou o pão, seja êle quem fôr. E isto
aplica-se a toda a compra ou gasto. Muita gente tem dificuldade em o
conceber; mas a materia é bastante simples. Os dois processos de fazer
riqueza, em a nossa capacidade de produtores ou trabalhadores, e de a
consumir, em a nossa capacidade de gastadores de dinheiro, são
exactamente análogos aos dois processos de cosinhar os alimentos e de os
comer depois de cosinhados. Se o nosso cosinheiro nos prepara um jantar,
a seqùência natural dos acontecimentos é que nós ou outros o havemos de
comer. Mas comer o jantar não habilita, de modo algum, o cosinheiro a
preparar outra refeição, e não o sustenta, a êle, nem à sua cosinha.
Isso só se consegue fornecendo-lhe novos materiais para cosinhar. Ou
podemos comparar a despeza á explosão de uma arma. A explosão é a
conseqùência natural da carga, e foi para isso que a arma foi carregada;
mas a explosão não concorre para carregar de novo a arma, isso só se
obtem produzindo novas munições. Se a explosão tem algum valor, pertence
êle a um resultado totalmente diferente, que por sua vez está
inteiramente dependente do seu fim ou direcção. Assim com os nossos
gastos. Podem ter efeitos benéficos, se são bem dirigidos, isto é, na
proporção em que procuram satisfazer as necessidades reaes de gente
realmente necessitada. Mas, só pelo facto de gastar, não contribuem no
quer que seja para sustentar a gente cujas mercadorias compramos. Se
pretendemos sustenta-la, então toda a nossa pretensão deve assentar no
facto de que previamente ganhamos por um trabalho util o dinheiro que
gastamos e por êsse trabalho acrescentámos realmente os recursos dos
outros trabalhadores. Gastando o dinheiro ganho, não acrescentaremos o
quer que seja a êsse bom resultado.
«Assim, não ha virtude alguma em a nossa acção como gastadores... Muitas
vezes, pelo contrário, haverá um resultado definitivamente pernicioso
onde fôr excessiva a soma do que se comprou e consumiu. Porque os
trabalhadores ou os fabricantes de riqueza são em numero limitado, e,
com todo o seu duro trabalho, a soma de cousas que podem fabricar, ou a
soma de serviços que podem prestar em um ano, é severamente limitada,
mesmo que possa crescer gradualmente à medida que os anos vão correndo.
E em uma terra que de modo algum anda inundada de mel e de leite, nenhum
individuo e nenhuma classe pode tirar com muita largueza da provisão
total produzida sem deixar algures uma falta. Isto é por tal forma
verdadeiro e obvio que podemos ir até afirmar que por cada cem libras
que gastamos, além das primeiras quinhentas ou seiscentas libras dos
nossos rendimentos, ha necessariamente algures alguma familia da nossa
comunidade coagida a viver com menos de duas libras por semana, muitas
vezes com menos de trinta ou de vinte e cinco _shillings_. Ora nos
tempos _bons_, quando o clamor dos indigentes não é muito alto, nem de
longe atentamos nisto, e por conseguinte gastamos de coração leve os
rendimentos. Mas vem uma crise e reflectimos; vagamente sentimos a
relação entre a nossa abundancia e a indigência dos outros,
suficientemente para nos inclinar a não dispender o nosso dinheiro como
antigamente».
Nestas lucidas asserções, que são afinal versiculos capitais de um breve
e fecundo evangelho moral e económico, com tão elevado talento definido
por um espírito e por um caracter manifestamente superiores, não quer o
seu autor que se lhe atribua a «afirmação de que os nossos habitos de
gastar são egoistas, ou indignos, ou extravagantes, ou maus, salvo no
caso unico em que êles involvem realmente um perigo grande para o
sistema actual da indústria. E que êles na verdade são nêste sentido
habitos maus, está provado pelo facto--e êsse é o sinal de todo o habito
máu--de que presentemente involvem todo o sistema em dificuldades, mal
sofreram um choque. Por êste modo, pelo perigo da instabilidade que lhes
é inerente, êsses habitos de gastar da gente fina parecem ser elemento e
parte daquele arriscado processo em que se procura equilibrar a pirâmide
da indústria no vertice dos desejos e necessidades de uma pequena
classe, em vez de a assentar na larga base das necessidades universais».
Não são «cousa simples» as obrigações de caridade com os nossos
dependentes, e muito menos o são o conhecimento e arte de a exercer pela
nossa acção em criar a riqueza onde um proceder leviano apenas se
imagina autorizado a dispendê-la, na boa fé de que para isso tem
moralmente inteira liberdade, isenta de grave responsabilidade pessoal.
Mas, se houve beneficios na guerra e nos transes por que nos faz passar,
a seu activo teremos de lançar as profundas lições sociais que nos deixa
e o poder, senão o terror, com que nos obriga a escutá-las. Porque, no
dizer de um jornalista inglês, «a guerra ensinou a certa gente, pela
primeira vez, exactamente o que significa viver em uma sociedade.
Mostrou que a nossa sociedade, em lugar de estar bem organizada, está
mal organizada e frouxissimamente unida, e quanto as pretensões
individuais estão em conflito com os interesses de todo o povo. Daí vem
que a guerra está desenvolvendo uma agudissima série de problemas
sociais» e, ousarei acrescentar, daí vem conjuntamente que, sendo a
maior das calamidades, poderá resultar em uma fecunda angústia, se por
sua instigação houver o bom senso e coragem de dar a êsses problemas as
soluções evidentes que êles reclamam, e que de resto continuamente
conhecemos e entrevemos pela voz de interpretes eloquentes.
Viu o nosso tempo uma terrivel desgraça que não pôde evitar e o tortura;
mas viu tambêm uma geração que, esclarecida como nenhuma outra igual que
a história nos mostrasse, sabe julgar conscienciosamente as suas dôres e
delas tirar ensinamento para emendar os seus êrros e para acautelar a
justiça e a paz das gerações futuras. Honesta e delicadamente se apressa
a aproveitar e meditar as lições de uma experiência cruel. É isso a sua
honra e o seu dever, e é afinal o interesse imediato do seu
contentamento e felicidade.
O Cavador e o Profeta
Algum tempo meu criado, hoje apenas um companheiro da minha morada,
porque a edade e as enfermidades o isentaram de toda a obrigação de
assiduidade e serviço efectivo, o velho que vive comigo é um caracter
irreductivel em seus moldes. Feito à lei da natureza, do que ela deu e
do que o destino quiz, em uma liberdade intransigente, por uma rebeldia
infinita constituido fóra de toda a pressão da vontade e intenções de
estranhos, não há nada que o vergue, nem há contingência que o
amedronte, nem mesmo força que facilmente o modere. O seu braço e a
consciência são a sua fortuna, e isso lhe basta. Um secreto orgulho o
domina e conduz. Tem a sua aspiração, sua crença, regra e necessidade, a
sua linha, como o modernismo usa dizer, e dela não se afasta. Não há
insinuação alheia que lhe modifique a opinião ou que lhe abrande a
teimosia; e o vigor da afirmação é tanto mais seguro quanto é pura e
estreme a ingenuidade. Não conhece duvidas, como por certo as ignoram as
raizes que alimentam os lirios e as sarças que se cobrem de espinhos.
Cavador e servo por condição e nascimento, desde a infância até à
velhice adeantada e insubmissa em que vae arrastando os anos, é uma
destas creaturas que nasceram para tirar da terra o pão com o suor do
rosto, comendo as migalhas e abandonando o principal aos seus senhores,
e que, por sua grandeza e nobreza, não maldizem semelhante estado e nem
sequer o evitam. Toda a metralha filantrópica e seus condimentos e
acessorios sociológicos e socialistas, que se traduzem em bibliotecas
infindas e em odios, guerra e sangue, toda essa ambiciosa disputa e
repartição da riqueza, e seus venenos, astucias, e engenhosas e subtis
ilusões, tudo isso se teria afigurado futil e vão a êsse velho pobre, se
êle fôsse capaz de definir em teses, discursos e combates o que lhe vai
no íntimo. Subjugado, provavelmente, por aquele mesmo principio que não
permite que as rolas discutam o motivo pelo qual umas andam magras e
outras gordas e uns ninhos estão altos e outros baixos, uns em logar
seguro e outros em risco, por êsse motivo se julgaria impedido de se
atormentar estudando as desgraças do mundo e a sua redenção. Para o meu
cavador, a servidão seria uma cousa que «acontece», como o crepúsculo, a
aurora, a chuva e o vento. Umas vezes seria doce e outras penosa, umas
vezes seria a fartura e outras a fome, e invariavelmente seria lógica e
aceitável, porque nessa natureza com que lida de perto, não encontra
injustiças, nem resignações, nem sofismas, e apenas há uma ordem eterna
e intransgressivel que só a natureza determina e conhece. Um fatalismo
vago será talvez um dos bordões da humildade.