Quarenta anos de materialismo brutal, inflamado por um mesquinho e

desvairado orgulho scientífico, terminam hoje na guerra a sua

obscurecida fama e glória, aquela por demais terrena que ao seu espírito

correspondia e que era a única a que a sua fascinação podia conduzir.

Esse materialismo cái pela fragilidade das suas edificações, porque só

produzia dôres onde prometia alegrias, só acumulava ruinas onde

ostentára traiçoeiras prosperidades. Mas, antes que um cataclismo

inaudito lhe demonstrasse a estreiteza e inconsistência, um trabalho

subtil lhe minára os fundamentos: aniquilivam-no aquêles mesmos que o

haviam gerado e nutrido, os apóstolos e os seus fiéis, os filósofos e os

pensadores, a inspiração dos poetas, as academias, e sobretudo as

multidões que os ouviam, sentiam e interpretavam, fatigadas de errores e

de desprendimento religioso e moral; e, verificando pela experiência de

agudos instintos os benefícios e os males das doutrinas e das crenças,

conforme a verdade e felicidade que lhes trazem ou lhes roubam, assim as

amaldiçôam ou engrandecem. São êsses poderes invisíveis e imponderáveis,

que habitam no coração das multidões anónimas, que nos dirigem e dão a

vida e a morte, nos indivíduos como nas sociedades. Só êsses poderão

libertar-nos da guerra ou eternisar a sua danação; e as igrejas valerão

então o que valer a sua obediência ao princípio cristão, e os estados

serão um flagelo, se em acção o negarem, ou uma fortuna, se o

respeitarem e traduzirem nas cousas da terra e nas relações entre as

nações.

Da arte de gastar e suas responsabilidades

«Uma crise grave ilumina e descobre perigos que se não suspeitavam;

hábitos que anteriormente nos pareciam tão inocentes e naturais que

nenhum mal encerravam, mostram-se com uma dupla face nos seus efeitos.

Parece que se torna necessaria mais reflexão; e, posto que nos seja

impossível achar remédio simples para ruins efeitos, sabemos que,

começando a pensar honestamente, teremos probabilidades de achar o

caminho de melhores hábitos.

«Será esperar muito que entre outras cousas boas que podem resultar

desta negra crise, venha a nascer um certo acordar, da nossa parte,

quanto à futilidade, assim como quanto ao perigo, de muitas das nossas

despesas? Não é bem para uma nação que uma quarta parte dos seus

rendimentos se gaste de um modo inconstante. Não é bem para uma nação

que a quarta parte da sua capacidade de trabalho se especialise a

produzir cousas que se vêem e sentem destituídas de valor, mal uma crise

o vem pôr em prova. De resto, os ricos não são os únicos que no seu

gastar estão em falta; tambêm os pobres teem os seus poucos luxos

inuteis. Mas são os ricos, e não os pobres, que individualmente teem

maior responsabilidade na errada direcção do trabalho, emquanto são êles

que individualmente possuem maior poder de gastar e são, por

conseguinte, os que gozam de maior liberdade para escolherem o modo por

que hão-de usar êsse poder.»

A isto vem, em suas conclusões finais, o opúsculo precioso que, sob o

titulo de _Spending in War Time_, o professor E. J. Urwick publicou, em

Oxford, na colecção de _Papers for War Time_, dirigida por W. Temple.

Inspirada na convicção de que «esta guerra é o resultado e a revelação

dos princípios anti-cristãos que dominaram a vida da cristandade do

ocidente, e dos quais tanto as igrejas como as nações carecem de se

arrepender», essa colecção é uma crítica penetrante e serena de muitas

angustias em que a indigência e a perversão religiosa nos lançaram, e é

simultâneamente um estudo magnifico de diversos problemas que a

ansiedade de melhores dias definiu e pôz, não sem esperança de soluções

por igual próprias a satisfazer as investigações da consciência moral e

as necessidades da vida prática. Os que seguem a Cristo, estão unidos

entre si em uma comunhão superior a todas as divisões de nacionalidade e

de raça; «os deveres cristãos e de amor e de perdão prendem-nos tanto em

tempo de guerra como em tempo de paz». E os cristãos teem de reconhecer

«a insuficiência da mera compulsão para vencer o mal, e de guardar a

confiança suprema nas fôrças espirituais, particularmente no poder e no

método da Cruz». Disso depende, no conceito dos que se associaram à

missão de que os opusculos daquela colecção são inteligente testemunho e

instrumento eficaz, disso depende uma paz duradoura.

Para o conseguirmos, torna-se necessario um novo esfôrço com o fim de

aplicarmos em todas as relações da vida a aspiração de comunhão e

fraternidade; e neste pensamento cada um, examinando os seus recursos,

virá a considerar o que faz e o que deve fazer dos meios económicos que

o destino lhe facultou, como serve ou contraría os princípios cristãos e

o seu reino na terra, e especialmente como favorece ou embaraça a

solução dos conflitos económicos que a guerra exacerbou e revelou com

uma dolorosissima evidência.

O problema será de minguado alcance para todos aqueles a quem a

exiguidade de meios determina e restringe imperiosamente a natureza e

extensão das despesas. Esses gastam o que não podem deixar de gastar

para se sustentarem, quando freqùêntemente, e por desgraça, não são

reduzidos ao extremo de não gastarem sequer aquilo de que careciam para

o seu parco sustento, porque de todo lhes faltam os meios

indispensáveis. Mas não acontece assim com outros, ainda numerosos, de

facto representando uma fôrça poderosa na actividade das sociedades; e

êstes, tendo mais do que o necessário para o sustento, ficam por isso

com uma larga margem para a livre distribuição de grande parte dos seus

haveres pelas despesas que lhe aprouverem, e paralelamente estão

sujeitos às responsabilidades que a sua abundancia e liberdade implica.

E êstes o que fazem, sobretudo o que devem fazer na crise presente?

Continuam as suas despesas de luxo e a sua prodigalidade de futilidades

em prejuizo de despesas de necessidade social urgente, continuam em seus

regalos, ignorando a indigência dos oprimidos e famintos? Ou, para

acudirem aos necessitados, derivam das suas dissipações habituais as

somas que nelas empregavam, e para isso criam novas legiões de

indigentes, condenando à miséria, pela cessação do trabalho, aquêles que

lhes serviam as dissipações, provendo-lhes o luxo e as futilidades,

disso auferindo o pão de cada dia e para isso tendo sido educados por

longos anos de prática e especialisação, que não raro os tornaram

inaptos para outras profissões?

A situação é de uma agudeza extrema. Para qualquer lado que se movam os

que teem disponibilidades a empregar, ou persistam nos antigos hábitos

ou tomem por caminho novo, já não fugirão a semeiar privações,

alongando-as a uns porque não lhes dão o pão que deveriam dar-lhes, e

causando-as a outros se, para acudirem aos primeiros, se apartam dos

ultimos, negando-lhes o que até aí lhes davam e em certo modo prometiam

dar-lhes, pela invariabilidade do que lhes pediam.

A conjuntura é opressiva, e fômos nós, por nossa vontade, que lhe demos

causa, por nossa pobreza de senso moral, por um deplorável abandono a

toda a casta de apetites. Organisamos e distribuímos as nossas despesas

sem cuidarmos das responsabilidades económicas que elas importam,

constantemente de profundo alcance e agora cruelmente postas a nú pela

perturbação em que a guerra desfez muita ficção e muita ilusão. Seriam

as nossas despesas como essas doenças latentes, graves, fatais, que se

escondem em aparências de saúde e artes de bem trajar, e que uma febre

acidental revela aos que em sua negligência não as tinham previsto nem

sentido, aterrando-os então pela iminência de perigos mortais e pela

presença de própria miséria. Por uma incúria que é o indício da

lastimosa leveza de consciência moral e religiosa de que nos deixamos

possuir, viemos a regular ordináriamente as despesas e toda a

distribuição dos nossos bens segundo o volume dos meios de que dispomos

e segundo os apetites que nos incitavam e cuja legitimidade nem de longe

discutiamos. Desprendemos-nos da consideração das conseqùências

ulteriores da aplicação dos nossos haveres; jámais ponderamos, como

obrigação e dever, que género de trabalho êles criavam, quantos

trabalhadores alimentavam e em que condição os mantinham, que influência

social exerciamos por êsse modo, que bem-estar ou que miséria dependia

de nós, que instabilidade e perigos conseqùêntes eram os companheiros

obrigados das nossas obras e tendências. Vamos em uma leviana e

traiçoeira certeza de que gastando, seja como fôr, beneficiamos o

comércio e acrescentamos a riqueza e o tráfego, unicamente porque demos

emprego a muitos braços.

Na verdade, assim acontece; o nosso luxo e a nossa dissipação significam

o sustento de muita gente. Sómente esquecemos, e o mais das vezes

ignoramos inteiramente, porque, à falta de vigor moral bastante, isso

escapa à nossa atenção e nem de longe nos toca, e muito menos preocupa a

consciência, sómente não perguntamos que especialização de trabalho e de

capital os nossos hábitos determinam, que espécie de constituição

económica criam e sustentam, e de que enfermidades ela padece e faz

padecer os homens que lhe estão sujeitos. Pois é evidente que será, por

exemplo, muito diversa em seus riscos a situação de costureiras

empregadas a fazer vestidos de baile, para êsse trabalho amestradas, e a

situação dessas mesmas costureiras empregadas a coserem blusas de

trabalhadores. Ao mais pequeno alvoroço mercantil ou qualquer outro,

cessam os bailes, as costureiras ficam sem trabalho e anula-se o capital

que lhes era destinado, desaparece; emquanto só em ultima miséria e na

maior calamidade deixam de ser necessarias as blusas dos trabalhores, e

cessa de se aproveitar o capital de que o seu fabrico carece, e se

suspende ou interrompe o pagamento do trabalho que reclamam. São

infinitamente e manifestamente menos numerosas as contigências de

retribuição do cavador do que do ourives; entre êles há toda a distancia

que vai das necessidades essênciais da existência aos caprichos

acidentais de adorno e de prazer. E dada a dificuldade, e em muitos

casos a impossibilidade de mudar de profissão ao sabor dos mercados,

porque o desenvolvimento de certas aptidões implica, em geral, o

afrouxamento, e em breve a atrofia completa, de outras capacidades,

compreender-se-á quanto importa para a fortuna dos trabalhadores o

género de trabalho que lhes reclamamos e o género de mercadoria que lhes

pedimos e, porque lho pedimos, os convidamos e na realidade obrigamos a

produzir.

Nós, os da gente fina e boa gente, «lisongeamos-nos», diz o sr. Urwick,

«crendo que, só pelo simples acto de gastarmos dinheiro, prestamos um

assinalado serviço à indústria, _beneficiando o comércio e dando

emprego_. Isto, como todo o economista sabe, é realmente um sofisma. Mas

é o mais plausivel dos sofismas e muito popular; e a sua plausibilidade

reside no facto de conter uma semi-verdade. É essa semi-verdade que

agora temos a considerar; o sofisma apreciá-lo hemos dentro em breve. É

indubitavelmente verdadeiro que todo o dispendio de dinheiro significa a

inclinação da indústria para certa via. Quem gasta uma libra em sapatos,

estimula por isso os patrões e os operários a fazerem sapatos e a

proseguir no fabrico dos sapatos, em vez de produzirem qualquer outra

cousa. Não sustenta ou mantém a indústria dos sapatos no sentido

rigoroso da palavra; mas faz que o trabalho e o capital se consagrem

espontaneamente ao fabrico dos sapatos de preferência a fazerem sacos.

No momento presente vemos isto operando em larga escala; uma soma enorme

de dinheiro se está gastando em panos de _khaki_, resultando daí que

correspondentemente uma larga quantidade de trabalho e capital

(incluindo a de alguns antigos fabricantes de calçado) é dirigida para a

produção dos uniformes de _khaki_. Ora esta direcção do trabalho e do

capital involve alguma cousa mais do que puramente se lhes dar ordem

para fazerem isto em vez daquilo. Usualmente significa que dá causa a

que os trabalhadores e o capital dos patrões se tornem altamente

especialisados para o trabalho particular que lhes pedem; tornam-se, por

conseguinte, aptos para este trabalho e para nenhum outro. Isto ainda é

mais verdadeiro na direcção do trabalho devido às despezas da gente

rica; em geral, requer-se por exemplo maior especialização da parte dos

fabricantes de vestidos ou de sapatos muito caros do que da parte dos

fabricantes de vestidos ou sapatos mais baratos. Ora a dificuldade com

todos os trabalhadores de uma alta especialisação (e com o capital

altamente especialisado e a habilidade de dar emprego que com êles

operam) é que não podem facilmente adaptar-se a fazer qualquer outro

trabalho. O costureiro hábil não pode mudar e coser _khaki_; o ourives

hábil não servirá de muito para fabricante de espingardas ou para

construtor de cabanas. É por isso que hoje os grupos de pacientes mais

dignos de dó são justamente aqueles trabalhadores que durante anos

dependeram da freguezia da gente fina. Na realidade, dependeram e

dependem literalmente de nós, neste sentido--fômos nós que os convidamos

a abrirem lojas e a exercerem um comércio próprio para satisfazer as

nossas necessidades, e a ganharem a sua vida por este modo e só por este

modo. São, por conseguinte, os _nossos_ trabalhadores, os _nossos_

dependentes, tão literalmente como se fôssem os nossos criados; e no

momento em que cessamos ou alterámos os nossos hábitos de gastar, estão

arruinados».

De modo que, chegados a uma conjuntura como a presente, é muito bom

dizer:--«Reduzam-se as despezas ao essencial; suprimam-se todas as

despezas supérfluas». Mas logo surgem duvidas e perguntam:--«E os

trabalhadores que criamos para satisfazerem as nossas despezas

supérfluas de que hão-de viver?...»

«A dificuldade vem de habitos de gastar que se baseiam em um sofisma

perigoso». Os embaraços economicos presentes são a derivação lógica de

uma errada constituição económica anterior. Talvez pelas condições do

indústrialismo moderno, que apartou em um desligamento profundo os

trabalhadores e quem êles servem e os emprega, talvez por essa mecânica

de uma absurda divisão do trabalho, que fez que de ordinario não

saibamos onde se criou o pão que comemos, nem quem o fabricou, nem quem

fiou e teceu o linho e a lã que nos cobrem, o certo é que absolutamente

se obliterou o sentimento da responsabilidade na arte de gastar, e de

todo deixamos que prevaleçam nesta materia tendências, principios e

processos que resultam não só em desamor dos que de nós dependem

imediatamente, mas até na instabilidade e muita dissipação da própria

riqueza. «Imaginamos que «sustentamos» os trabalhadores gastando

dinheiro com as cousas que êles fazem. Ora nenhum gasto de dinheiro ou

consumo de fazenda fornecida em troca de dinheiro gasto sustenta alguem,

a não ser a pessoa que adquire a fazenda e a consome. Trabalhadores e

indústria são em geral sustentados só por um modo--pela criação actual

de riqueza real para êles usarem e viverem dela. Se cavamos um campo e

criamos trigo, acrescentamos realmente o sustento de todos os

trabalhadores. Se meramente compramos o trigo e o comemos, só a nós nos

sustentamos, à custa de quem criou o pão, seja êle quem fôr. E isto

aplica-se a toda a compra ou gasto. Muita gente tem dificuldade em o

conceber; mas a materia é bastante simples. Os dois processos de fazer

riqueza, em a nossa capacidade de produtores ou trabalhadores, e de a

consumir, em a nossa capacidade de gastadores de dinheiro, são

exactamente análogos aos dois processos de cosinhar os alimentos e de os

comer depois de cosinhados. Se o nosso cosinheiro nos prepara um jantar,

a seqùência natural dos acontecimentos é que nós ou outros o havemos de

comer. Mas comer o jantar não habilita, de modo algum, o cosinheiro a

preparar outra refeição, e não o sustenta, a êle, nem à sua cosinha.

Isso só se consegue fornecendo-lhe novos materiais para cosinhar. Ou

podemos comparar a despeza á explosão de uma arma. A explosão é a

conseqùência natural da carga, e foi para isso que a arma foi carregada;

mas a explosão não concorre para carregar de novo a arma, isso só se

obtem produzindo novas munições. Se a explosão tem algum valor, pertence

êle a um resultado totalmente diferente, que por sua vez está

inteiramente dependente do seu fim ou direcção. Assim com os nossos

gastos. Podem ter efeitos benéficos, se são bem dirigidos, isto é, na

proporção em que procuram satisfazer as necessidades reaes de gente

realmente necessitada. Mas, só pelo facto de gastar, não contribuem no

quer que seja para sustentar a gente cujas mercadorias compramos. Se

pretendemos sustenta-la, então toda a nossa pretensão deve assentar no

facto de que previamente ganhamos por um trabalho util o dinheiro que

gastamos e por êsse trabalho acrescentámos realmente os recursos dos

outros trabalhadores. Gastando o dinheiro ganho, não acrescentaremos o

quer que seja a êsse bom resultado.

«Assim, não ha virtude alguma em a nossa acção como gastadores... Muitas

vezes, pelo contrário, haverá um resultado definitivamente pernicioso

onde fôr excessiva a soma do que se comprou e consumiu. Porque os

trabalhadores ou os fabricantes de riqueza são em numero limitado, e,

com todo o seu duro trabalho, a soma de cousas que podem fabricar, ou a

soma de serviços que podem prestar em um ano, é severamente limitada,

mesmo que possa crescer gradualmente à medida que os anos vão correndo.

E em uma terra que de modo algum anda inundada de mel e de leite, nenhum

individuo e nenhuma classe pode tirar com muita largueza da provisão

total produzida sem deixar algures uma falta. Isto é por tal forma

verdadeiro e obvio que podemos ir até afirmar que por cada cem libras

que gastamos, além das primeiras quinhentas ou seiscentas libras dos

nossos rendimentos, ha necessariamente algures alguma familia da nossa

comunidade coagida a viver com menos de duas libras por semana, muitas

vezes com menos de trinta ou de vinte e cinco _shillings_. Ora nos

tempos _bons_, quando o clamor dos indigentes não é muito alto, nem de

longe atentamos nisto, e por conseguinte gastamos de coração leve os

rendimentos. Mas vem uma crise e reflectimos; vagamente sentimos a

relação entre a nossa abundancia e a indigência dos outros,

suficientemente para nos inclinar a não dispender o nosso dinheiro como

antigamente».

Nestas lucidas asserções, que são afinal versiculos capitais de um breve

e fecundo evangelho moral e económico, com tão elevado talento definido

por um espírito e por um caracter manifestamente superiores, não quer o

seu autor que se lhe atribua a «afirmação de que os nossos habitos de

gastar são egoistas, ou indignos, ou extravagantes, ou maus, salvo no

caso unico em que êles involvem realmente um perigo grande para o

sistema actual da indústria. E que êles na verdade são nêste sentido

habitos maus, está provado pelo facto--e êsse é o sinal de todo o habito

máu--de que presentemente involvem todo o sistema em dificuldades, mal

sofreram um choque. Por êste modo, pelo perigo da instabilidade que lhes

é inerente, êsses habitos de gastar da gente fina parecem ser elemento e

parte daquele arriscado processo em que se procura equilibrar a pirâmide

da indústria no vertice dos desejos e necessidades de uma pequena

classe, em vez de a assentar na larga base das necessidades universais».

Não são «cousa simples» as obrigações de caridade com os nossos

dependentes, e muito menos o são o conhecimento e arte de a exercer pela

nossa acção em criar a riqueza onde um proceder leviano apenas se

imagina autorizado a dispendê-la, na boa fé de que para isso tem

moralmente inteira liberdade, isenta de grave responsabilidade pessoal.

Mas, se houve beneficios na guerra e nos transes por que nos faz passar,

a seu activo teremos de lançar as profundas lições sociais que nos deixa

e o poder, senão o terror, com que nos obriga a escutá-las. Porque, no

dizer de um jornalista inglês, «a guerra ensinou a certa gente, pela

primeira vez, exactamente o que significa viver em uma sociedade.

Mostrou que a nossa sociedade, em lugar de estar bem organizada, está

mal organizada e frouxissimamente unida, e quanto as pretensões

individuais estão em conflito com os interesses de todo o povo. Daí vem

que a guerra está desenvolvendo uma agudissima série de problemas

sociais» e, ousarei acrescentar, daí vem conjuntamente que, sendo a

maior das calamidades, poderá resultar em uma fecunda angústia, se por

sua instigação houver o bom senso e coragem de dar a êsses problemas as

soluções evidentes que êles reclamam, e que de resto continuamente

conhecemos e entrevemos pela voz de interpretes eloquentes.

Viu o nosso tempo uma terrivel desgraça que não pôde evitar e o tortura;

mas viu tambêm uma geração que, esclarecida como nenhuma outra igual que

a história nos mostrasse, sabe julgar conscienciosamente as suas dôres e

delas tirar ensinamento para emendar os seus êrros e para acautelar a

justiça e a paz das gerações futuras. Honesta e delicadamente se apressa

a aproveitar e meditar as lições de uma experiência cruel. É isso a sua

honra e o seu dever, e é afinal o interesse imediato do seu

contentamento e felicidade.

O Cavador e o Profeta

Algum tempo meu criado, hoje apenas um companheiro da minha morada,

porque a edade e as enfermidades o isentaram de toda a obrigação de

assiduidade e serviço efectivo, o velho que vive comigo é um caracter

irreductivel em seus moldes. Feito à lei da natureza, do que ela deu e

do que o destino quiz, em uma liberdade intransigente, por uma rebeldia

infinita constituido fóra de toda a pressão da vontade e intenções de

estranhos, não há nada que o vergue, nem há contingência que o

amedronte, nem mesmo força que facilmente o modere. O seu braço e a

consciência são a sua fortuna, e isso lhe basta. Um secreto orgulho o

domina e conduz. Tem a sua aspiração, sua crença, regra e necessidade, a

sua linha, como o modernismo usa dizer, e dela não se afasta. Não há

insinuação alheia que lhe modifique a opinião ou que lhe abrande a

teimosia; e o vigor da afirmação é tanto mais seguro quanto é pura e

estreme a ingenuidade. Não conhece duvidas, como por certo as ignoram as

raizes que alimentam os lirios e as sarças que se cobrem de espinhos.

Cavador e servo por condição e nascimento, desde a infância até à

velhice adeantada e insubmissa em que vae arrastando os anos, é uma

destas creaturas que nasceram para tirar da terra o pão com o suor do

rosto, comendo as migalhas e abandonando o principal aos seus senhores,

e que, por sua grandeza e nobreza, não maldizem semelhante estado e nem

sequer o evitam. Toda a metralha filantrópica e seus condimentos e

acessorios sociológicos e socialistas, que se traduzem em bibliotecas

infindas e em odios, guerra e sangue, toda essa ambiciosa disputa e

repartição da riqueza, e seus venenos, astucias, e engenhosas e subtis

ilusões, tudo isso se teria afigurado futil e vão a êsse velho pobre, se

êle fôsse capaz de definir em teses, discursos e combates o que lhe vai

no íntimo. Subjugado, provavelmente, por aquele mesmo principio que não

permite que as rolas discutam o motivo pelo qual umas andam magras e

outras gordas e uns ninhos estão altos e outros baixos, uns em logar

seguro e outros em risco, por êsse motivo se julgaria impedido de se

atormentar estudando as desgraças do mundo e a sua redenção. Para o meu

cavador, a servidão seria uma cousa que «acontece», como o crepúsculo, a

aurora, a chuva e o vento. Umas vezes seria doce e outras penosa, umas

vezes seria a fartura e outras a fome, e invariavelmente seria lógica e

aceitável, porque nessa natureza com que lida de perto, não encontra

injustiças, nem resignações, nem sofismas, e apenas há uma ordem eterna

e intransgressivel que só a natureza determina e conhece. Um fatalismo

vago será talvez um dos bordões da humildade.

A Guerra: Depoimentos de Herejes · 第 6 / 8 段