Eduardo Carpenter, encanecido em sua inquebrantável missão de amor,
quando o génio bafejado pela santidade nos diz firme e docemente, de
todo isento de ira injuriosa dos tímidos e vacilantes, que, para pôr
termo a esta peste da guerra, _não há senão um remédio_, e é «o geral
abandono dêste sistema de vivermos do trabalho dos outros», poderá
parecer-nos que simplifica em extremo e reduz a proporções demasiado
mesquinhas um conflicto de proporções gigantescas que é uma dôr e uma
agonia para o mundo inteiro. Suspeitaremos capricho da destreza do
filósofo ou uma violência sagaz nesta segurança com que êle pretende
fazer entrar na regra comum o que por mil modos se mostra uma
anormalidade tão complexa como estupenda. Mas, se reflectirmos,
ligeiramente que seja, de pronto nos convencemos de que nem a afirmação
do profeta se afasta dos limites e da lógica dos factos averiguados, nem
os seus vaticínios são outra cousa senão a voz deste cristianismo que em
renascimento assombroso se faz ouvir e é juíz em todo o sistema das
relações sociais, desde a ínfima humildade de um servo que nos comove
até á soberba das potestades da terra que nos ameaçam.
Essa é a causa da guerra, este sistema de viver do trabalho dos outros,
negação formal do cristianismo, ou se siga entre os indivíduos ou entre
as nações, e isso mesmo o tem sido desde o princípio do mundo. Fôram
para isto as primeiras guerras primitivas, «para apreender gados e
colheitas, para apanhar escravos de cujo trabalho os conquistadores
podessem subsistir; e são a mesma cousa as ultimas guerras. Adquirir
concessões de borracha, minas de ouro, minas de diamantes em que o
trabalho de gente de côr seja explorado até ao extremo mais amargo;
apossar-se de colonias e terras distantes, onde empresas capitalistas
gigantes (com o trabalho de brancos ou de gente de côr) possam realisar
dividendos imensos, pela subida do minério ou de outros productos
industriais; esmagar qualquer outro poder que nos estorve no caminho
destas avidas e deshumanas ambições:--tais são os fins das guerras de
hoje. E nós não vemos a causa do mal porque êle está tão perto de nós,
porque nos anda no sangue. Toda a vida particular das classes
capitalistas e comerciais, que hoje são os representantes das nações, se
funda em o mesmo princípio. Como indivíduos, o nosso unico fim é
encontrar algum trabalhador ou grupo de trabalhadores cujo trabalho
valoríse o que nós podemos apropriar... Um parasitismo sem disfarce e
sem vergonha é a ordem, ou a desordem dos nossos dias. A rapacidade dos
animais de preza mal se oculta em a nossa vida social, transparentemente
velada todavia por uma aguada de sentimento «cristão» e por uma rede de
instituições filantrópicas para suposto benefício das muitas vítimas que
nós espoliamos.
«Que há pois que admirar se êste princípio de rapacidade e guerra
intestina que governa a nossa condição, se esta cobiça vulgar que nos
cobre o corpo de jóias e peles, e nos cobre a meza de alimentos caros,
sem considerar aqueles a quem arrancámos êsses confortos, que há pois
que admirar se por fim resultam na rapacidade e violência sôbre o vasto
teatro do drama das nações, e nas letras vermelhas da guerra e do
conflito, escritas através dos continentes? De nada serve dizermos com
uma presumida piedade que estamos em campo para banir a guerra e o
militarismo, animando nós entretanto em nossa própria vida e em a nossa
igreja, ligas do império e outras instituições, o mais sordido e egoista
mercantilismo, que em si é essêncialmente uma guerra, apenas uma guerra
de um género muito mais insignificante e mais cobarde do que aquele que
se assinala no embate das tropas ou na furia das espingardas e dos
canhões. Não, não há outro meio; e só pelo abandono geral do sistêma
comercial e capitalista presente será banida a peste da guerra[6].»
Êstes são os acanhados e míseros termos a que as fúrias da guerra se
reduzem, esta é a palpitação do seu imundo ventre--uma derrogação do
princípio cristão, perfeitamente idêntica em suas causas e efeitos a
qualquer outra das que quotidianamente praticamos em nossa existência e
que o hábito nos velou com uma empedernida inconsciência. Apontá-la em
uma tal simplicidade é uma revelação salutar, grande e fecunda esmola.
Acusados e pelo próprio pungir da acusação saberemos o que o
cristianismo significa na hora presente, até onde chegam as suas bençãos
e anatemas, e conheceremos, com um profundo suspiro de alívio, que
influências imponderáveis nos subjugam, que novas fôrças lenta e
latentemente se criaram, e que espécie de revolução, ou, melhor, de
resurreição nos anunciam.
Áspero e obscuro se mostra, porêm, o caminho da vitória, porque ao mesmo
tempo que um cataclismo nos revela a inanidade da nossa presumida
fortaleza, deixa-nos incertos sôbre o valor das fôrças que podem
edificá-la. E aquilo de que mais esperávamos, a razão, o desenvolvimento
da inteligência na humanidade, o conhecimento da história e a observação
minuciosa e exacta da evolução das sociedades, todo êsse honesto labor
das universidades, da imprensa, dos pensadores, dos poetas, de quantos
por qualquer meio se tornaram verdadeiros pastores das nossas almas,
tudo isso que é um assombro da capacidade mental dos homens, tudo foi
vão para evitar as provações a que um destino sinistro nos conduziu.
Se a razão só por si podesse vencer, um libelo contra a guerra como êsse
que Norman Angell ofereceu ao mundo culto na _Grande Ilusão_, largamente
comentado pelo autor e pelos estranhos, e recentemente acrescentado e
renovado no _Prussianismo e a sua Destilação_, isso bastava para que a
paz e a guerra fôssem um pleito findo.
Compendiando muitos séculos da história da humanidade e os factos
essênciais da vida política e económica dos nossos dias, definindo e
conjugando o que vaga e fragmentáriamente todos sentiamos e pensavamos,
o pregão de Norman Angell mostrou-nos que a doutrina que constitue a
grande ilusão é a crença de que as cousas de maior valor na vida,
aquelas que representam os fins das sociedades humanas, só podem
alcançar-se pelo desenvolvimento da fôrça política e militar dos
estados, pela extensão do seu território e pelo domínio dos seus
govêrnos. Esta doutrina, proeminente e característica na Prussia,
tornára-se afinal comum a toda a Europa por virtude de um deplorável
contágio. Para a debelar não bastavam combinações diplomáticas e a
revisão de fronteiras; nascida de certas tendências de espírito, só por
tendências opostas poderia ser vencida. Foram os professores, as
academias e os publicistas que durante cinqùenta anos a propagaram; e só
por um trabalho de identica natureza poderia ser afastada. Não seria
pelo ferro e pelo fogo que haviamos de nos libertar da sua calamitosa
sujeição. Era vêr o que tinha acontecido com as guerras da religião;
debalde sacrificaram milhões de vidas, quando tentaram sustentar as
crenças pela fôrça, e só terminaram, dando a toda a fé a liberdade,
quando o espírito a conquistou, quando a fermentação intelectual e a
estimativa dos valores morais, a sua discussão pacífica e a sua
comparação, demonstraram a inanidade da fôrça na sustentação dos
altares. Assim acontece e se verifica que «o combate pelos ideais não
póde mais tomar a forma de combate entre as nações, porque as questões
morais estão dentro das próprias nações e cruzam as fronteiras
políticas. Não há estado algum moderno que seja completamente católico
ou protestante, liberal ou autocrático, aristocrático ou democrático,
socialista ou individualista. As lutas espirituais e morais do mundo
moderno proseguem entre os cidadãos do mesmo estado em uma cooperação
intelectual inconsciente com os grupos correspondentes dos outros
estados, e não entre os poderes publicos dos estados rivais». Política e
economicamente se tem estabelecido uma situação paralela em que «a
estratificação das sociedades» se sobrepõe aos artificios das divisões
nacionais. O mundo tende a repartir-se, não pela fôrça das espadas mas
pela coesão dos espíritos e dos interêsses. «É impossivel», diz Baty,
citado por Norman Angell, «ignorar a significação dos congressos
internacionais não só do socialismo mas do pacifismo, do esperantismo,
do feminismo, de toda a espécie das artes e sciências, que tão
claramente marcam os seus sinais nas épocas de férias. A nacionalidade,
como fôrça de limitar, cede perante o cosmopolitismo... Encontramos a
aproximar-se uma situação em que a fôrça da nacionalidade será
distintamente inferior à coesão de classe, e na qual as classes se
organizarão internacionalmente de forma a aproveitarem os efeitos da sua
fôrça». O que Norman Angell repete, acentuando que «por mil modos a
associação atravessa os limites dos estados, que são puramente
convencionais, e torna uma inépcia scientifica a divisão biológica do
género humano em estados independentes e combatentes». «Ninguêm pensa em
respeitar um _mujik_ russo porque pertence a uma grande nação, ou em
desprezar um fidalgo escandinavo ou belga porque pertence a uma nação
pequena». «Viremos a compreender que as divisões reais psíquicas e
morais não são entre as nações, mas entre as concepções opostas da
vida».
Dada a lei de aceleração a que as sociedades humanas evidentemente
obedecem, a predominancia e império da nova concepção das relações entre
os povos será em breves anos uma realidade. E a acção dessa lei
efectua-se com uma rapidez vertiginosa. «A idade do homem sôbre a terra
tem sido diversamente reputada entre trinta mil e trezentos mil anos. A
certos respeitos, desenvolveu-se mais nestes últimos duzentos anos do
que em todas as épocas precedentes. Vemos hoje maiores mudanças em dez
anos do que primitivamente em dez mil. Quem póde prevêr os
desenvolvimentos de uma geração?».
Nem se diga que o mundo foi sempre o mesmo e não muda, nem que a
natureza humana não é susceptível de mudar. A história é a negação
radical de semelhante afirmação, que não passa de refugio infantil de
retardatários. Do canibalismo à cooperação, do duelo aos tribunais, dos
autos de fé à liberdade religiosa, do heroismo divinisado ao espírito
militar combatido como um crime, a humanidade renasceu; e, se
exteriormente é bem diferente do que foi na sua origem, intimamente
anima-a um espírito que desconhece e repele aquele de pura animalidade
que algum dia foi sua razão de ser. Civilisou-se; de bandos famintos,
devastadores e crueis, passou à comunidade moral e religiosa, e a
civilisação desenvolveu-se na razão inversa da fortaleza do espírito
militar. «Á medida que os homens perdem a tendência de combater,
cresce-lhes a tendência para trabalhar, e é trabalhando juntos, e não
combatendo-se, que os homens progridem». Só pelo «hipnotismo de uma
terminologia que se tornou obsoleta» o espírito militar, muito a custo e
decaíndo, continuamente se sustenta.
De resto, há muito é sabido e demonstrado que as guerras são instrumento
de degradação das raças. Matam os melhores, a flôr da espécie, os mais
sãos e corajosos, e deixam confiada aos débeis e menos aptos a
procriação das novas gerações. Na guerra com a Alemanha, a própria
Inglaterra, apezar de toda a resistência do espírito da sua raça, corre
o risco de perder as suas melhores qualidades. Combatendo o prussianismo
póde prejudicar-se na diligência de o vencer pela adopção das suas armas
e pelo abandôno das virtudes que a tornaram grande, «a aptidão de
iniciativa, a confiança no próprio esfôrço, a sua obstinada resistência
à intervenção do estado (já enfraquecida), a sua impaciência com a
burocracia e a lista vermelha (tambêm já a decaír), tudo o que se
involve na sua geral rebeldia de arregimentação». «A fôrça empregada
para aperfeiçoar a cooperação entre as partes, para facilitar a troca,
promove o progresso; a fôrça que combate essa cooperação, que procura
substituír pela coacção o benefício mútuo da troca, que é em certo modo
uma fórma de parasitismo, promove o retrocesso».
A luta entre as nações «é um anacronismo». «Poucos compreendem até que
ponto a fôrça física foi substituída nas cousas humanas pela pressão
económica--usando êste termo no seu justo sentido, não só como a disputa
do dinheiro, mas compreendendo quanto nisso se involve, bem-estar,
consideração social e tudo o mais. O espírito primitivo não compreendia
um mundo em que as cousas não fôssem todas reguladas pela fôrça. Mesmo
os grandes espíritos da antiguidade não acreditavam que o mundo podesse
ser laborioso, senão quando a grande massa se tornasse laboriosa pelo
uso da fôrça física, isto é, pela escravatura. Tres quartas partes dos
que nos dias mais florescentes de Roma povoavam o que agora é a Itália,
eram escravos, acorrentados no campo quando trabalhavam, acorrentados à
noite nos dormitórios e, os que eram porteiros, acorrentados aos
portais. Era uma sociedade de escravos--escravos para combate, escravos
para trabalhar, escravos para cultivar, escravos oficiais e, acrescenta
Gibbon, o próprio imperador era um escravo, «o primeiro escravo nas
cerimónias que êle prescrevia». Sendo grandes e penetrantes muitos dos
espíritos da antiguidade, nenhum deles mostrou uma larga concepção de
uma condição social em que a coacção física fôsse substituída pelo
impulso económico. (Aristoteles sentiu todavia um lampejo de verdade,
quando disse que, «se o martelo e a lançadeira podessem mover-se por
si», a escravidão seria desnecessária). Dissessem-lhes que havia de
chegar tempo em que o mundo trabalharia muito mais activamente sob o
impulso de uma causa abstracta chamada interesse económico, e êles
considerariam semelhante asserção como a de meros teóricos sentimentais.
Nem temos necessidade de irmos tão longe»; se ha sessenta anos
afiançássemos a um senhor de escravos americanos que pelo trabalho livre
êle havia de ter mais algodão do que pela escravatura, por certo se
riria da nossa credulidade. Sem dúvida, por efeito da lei de aceleração
a que as sociedades humanas andam sujeitas, é de todos os tempos, mas
principalmente da nossa época, esta derrota da guerra pela economia,
esta substituição do combate pela coadjuvação, que se tornou o meio mais
seguro e rendoso não só de vivermos em paz, o que já seria muito, mas
tambêm de acrescentarmos os bens e multiplicarmos as riquezas, o que,
por isso mesmo que satisfaz a ambição, por isso é comum e abrange o
espírito mais elevado e o mais mesquinho, por isso se torna uma fôrça
universal em todo o sentido.
Do anacronismo e futilidade da guerra foi já convencido por mestres
competentes todo o mundo culto, quási todo o mundo que sabe lêr. E
todavia a guerra persiste, porque, para a banir, a razão não basta, só o
coração purificado e exaltado pelo espírito cristão é capaz de consumar
êsse prodigioso renascimento.
Mas como, por que modo poderão essas forças prevalecer? Por que meios
poderá tornar-se efectiva na vida nacional e internacional dos povos
êsse espírito cristão que agora despertado por uma catástrofe estupenda
se ergue como uma aurora de redenção? Onde encontrará armas para
combater o inimigo, a satânica sensualidade que fundou o mundo moderno
em ambições tôrpes e em materialidades e que, é evidente, não abdicará
do seu reino passada a tormenta? Como é que um pensamento religioso só
por si ha-de destroçar os poderes da terra enriquecidos, armados e
incessantes na avidez? Pelas ligas e tribunais de paz, pelos ajustes
diplomáticos, pela redução dos armamentos, por todos êsses «retalhos de
papel» que se rasgam ao primeiro ímpeto, como a Alemanha rasgou o
compromisso que a obrigava a respeitar a neutralidade da Bélgica?!...
Não é todo êsse impulso cristão um arrebatamento de idealismo destinado
a naufragar no mar imenso e tormentoso das realidades? Se as igrejas em
suas fortalezas seculares não poderam subjugar os homens e sujeita-los à
lei de Cristo, como é que de esforços dispersos e boas intenções há-de
tirar-se uma fôrça que domine os estados e lhes trace a sua regra?
Ferrero, o historiador da _Grandeza e Decadência de Roma_, diz-nos no
último volume de sua obra que, «emquanto em Roma, à volta de Augusto, a
pequena oligarquia dos dominadores, que julgava que tudo, mesmo o
futuro, dependia dela, se exgotava em discórdias furiosas e em
tentativas contraditórias para afeiçoar o futuro a seu modo, êsse futuro
por si mesmo se fazia no grande império, e muito diferente daquilo que
se tinha pensado. Emquanto Augusto se dava a tantas penas para
reorganizar em Roma o govêrno aristocrático, acontecia que por si
mesmas, pouco a pouco, e pelos esforços de milhões de homens
inconscientes do resultado final, as regiões do império que mais
diferiam pela língua, pela raça, pelas tradições, pelo clima, mútuamente
se penetraram e chegaram a uma unidade económica muito compacta;
interesses materiais que infinitamente se encadeavam, tinham-nas mais
estreitamente ligadas do que o podiam fazer as leis e as legiões de Roma
ou a vontade do senado e dos imperadores. Era por êsse trabalho
interior, invisivel, de que ninguêm tinha consciência, que o ajuntamento
acidental dos territórios feito pela conquista e pela diplomacia se
tornava verdadeiramente um só corpo, animado de uma vontade única».
Soluções congéneres e paralelas dos problemas da vida das nações e da
constituição psicológica dos povos vem apontadas e defendidas com uma
grande clareza em um pequeno livro ultimamente publicado na Inglaterra.
Dedicado à _Workers' Educational Association_, e por isso posto em
termos de ser compreendido alêm do mundo dos letrados e erúditos,
colaborado por professores eminentes das universidades de Cambridge e
Oxford, mais cingido aos factos do que enlevado na sedução de abstrações
e idealismos, procura êsse excelente trabalho esclarecer-nos sôbre a
crise que a guerra representa nos destinos da democracia, e com um exito
manifesto muito instrue os menos versados nas questões políticas, mas
nem por isso menos interessados e dedicados na determinação final de uma
situação das nações da Europa, que terá de ser de larguissimas
conseqùências na fortuna ou na desgraça dos povos que elas compreendem.
Considera êsse livro que na tarefa em que nos propomos fundar o domínio
da lei, direitos civis universais e a abolição da guerra, há dois
processos.
Um consiste na pressão dos governos e nos seus ajustes e convenções, em
tudo isso que anda sonhado e fragmentado em criações e aspirações de
tribunais de paz, em planos de desarmamento, em tratados de arbitragem e
em muitas outras ingenuidades correlativas, tão cativantes na candura da
sua fé como débeis na eficácia. Evidentemente, todas naufragam na
impossibilidade de serem sancionadas pela fôrça, quando a loucura ou a
perversidade dos homens as desrespeitarem. Quando os conflitos surgirem,
onde estão os exércitos que tornam soberanas e uma realidade as decisões
dos tribunais? Quando uma nação, armada e grande, afrontar as obrigações
dos _retalhos de papel_ e os rasgar, quem tornará de bronze a vontade
dos tribunais e converterá em mármore a precária consistência do papel?
Um revoltado bastará para atraiçoar as intenções mais firmes e felizes,
e para inundar a terra de uma chuva de sangue e de fôgo.
Todos êsses engenhosos contratos podem «ser alivio por algum tempo e
preparar o caminho para progressos ulteriores, mas só por si não podem
dar segurança alguma permanente, nenhuma justificação satisfatória para
o abandôno de meios defensivos, da parte dos vários govêrnos soberanos e
em bem das suas nações».
Sem dúvida, embora encontrem dificuldades irredutiveis para se manterem,
nem por isso são de desprezar êsses ajustes e contratos. Pelo contrário,
merecem ser promovidos e aproveitados. Sómente convém não lhes atribuir
valôr que não comportam, ou esperar da sua acção uma fortaleza que as
suas faculdades não atingem. Pois, de resto, significam altos
beneficios; pressupõem a supremacia do Direito sôbre a Fôrça no espírito
colectivo da humanidade civilisada, uma supremacia definitiva daquilo
que póde chamar-se o ideal civil contra o ideal militar, não em a
maioria dos estados mas em todos os estados suficientemente poderosos
para desafiar a violência. Pressupõem um mapa do mundo traçado
definitivamente em linhas que satisfaçam as aspirações nacionais dos
povos. Pressupõem um _status quo_ que se mantem, não simplesmente, como
o de 1915, porque é um facto legal e a sua perturbação seria
inconveniente para os govêrnos existentes, mas porque é meramente
equitativo. Pressupõem uma base democrática de direitos civis e
representação idêntica entre todos os estados componentes. Pressupõem,
finalmente, uma opinião pública educada, incomparavelmente menos
egoista, menos ignorante, menos flutuante, menos materialista, e menos
estreitamente nacional do que aquela que até aqui tem prevalecido».
O outro processo «pode parecer, nesta hora de sonhos e desastre, de
extremos de esperança e desilusão, um trilho longo e enfadonho. E a
velha estrada larga da civilisação, não os atalhos através dos campos.
Espera resultados duradouros, não da cooperação mecânica dos govêrnos,
mas do crescimento de um direito civil orgânico, pela educação das
próprias nações no sentimento do dever e da vida comum. Espera, não o
estabelecimento definido do Estado do mundo em nossos dias, mas sómente
uma refutação definida da perniciosa teoria da incompatibilidade mútua
das nações. Espera a expressão do govêrno do mundo na ordem externa,
daquilo que podemos chamar o _princípio da República_, do grande
princípio de lord Acton, do estado composto de nações livres, do estado
como um corpo vivo, que vive pela união orgânica e livre actividade dos
seus diversos membros. E encontra o seu imediato campo de acção no
alargamento da profundeza e extensão das obrigações civis entre os povos
das grandes, livres, justas, supranacionais repúblicas, cujo patriotismo
foi edificado, não por preceito e doutrina, mas sôbre o firme fundamento
das mais antigas lealdades».
«Os problemas derivados do contacto das raças e das nações nunca podem
ser resolvidos nem pela acção prudente dos indivíduos nem por conflito e
guerra; só têem solução em uma política deliberada e recta no seio de
cada estado, no reconhecimento por ambas as partes de exigências mais
altas do que os seus interesses seccionais--as exigências de direitos
civis comuns e do interêsse da civilisação. Nisto, na união e
colaboração das diversas raças e dos diversos povos, é que o princípio
da República encontra o seu campo peculiar de operação. Sem êste
princípio... o mundo será o caos que hoje é»[7].
Eis aí a lei suprema da história--a preponderância da actividade
interior e inconsciente dos povos sobrepondo-se às lucubrações, aos
decretos, às legiões, à vontade e à vaidade e inanidade dos capitães e
dos imperadores, e preterindo-os inexoravelmente em todos os grandes
movimentos da humanidade. Roma e a constituição jurídica e moral do
mundo latino que dela nasceu e é seu espelho, foi apenas o maior exemplo
da inflexibilidade dessa lei do desenvolvimento das raças, duas vezes
repetido naquele lugar, primeiro criando a unidade política da
civilisação, e depois refazendo-a, quando, decrépita, carecia de ser
renovada pela unidade religiosa. A face das cousas parece mudar mas
sómente a sua face muda; em sua essência permanecem sujeitas à mesma
lei, idêntica e constante nos grandes feitos como nos mais pequenos, de
fronteiras a dentro das nações como em toda a largueza dos continentes.
Se o cristianismo tem de prevalecer e redimir das suas misérias o mundo,
será únicamente por «êsses esfôrços de milhões de homens inconscientes
do resultado final», por «êsse trabalho interior, invisível, de que
ninguêm tem consciência», por efeito dessa misteriosa disseminação.
Quando as leis escritas a definirem e reconhecerem, será porque de facto
a sua vitória a isso as obrigou. Não serão elas que lhe hão-de dar ou
roubar o seu domínio.