Foi quase um escândalo. Comentado o propósito, antes da publicação, com

o indignado pavor de muitos aos quais se figurava heresia monstruosa,

mal se compreendeu e aceitou mesmo depois da publicação, quando se

tornou possivel examinar as doutrinas que expunha em seus termos, aliás

muito chãos e claros. O chefe de um partido conservador arvorava-se em

advogado do mais perigoso pensamento revolucionário! Muita gente o

imaginou e lamentou, sem poder explicar êsse estranho desvairamento. O

estudioso e observador da evolução política, que outra coisa não foi

nesse incidente o antigo ministro do Estado e o mais moderado dos

ministros, o mais avesso a radicalismos, verificando o desenvolvimento

das doutrinas e referindo-as aos factos e às lições da experiência,

determinando posições, relações e conseqùências, desapaixonadamente e

lucidamente, com inteiro conhecimento de causa e aturada reflexão, em um

espírito de pura justiça, perfeita sinceridade e elevado idealismo, êsse

passava ignorado das multidões que apenas o tinham visto e compreendido

nas secretarias do Estado, referendando decretos de nomeação de

funcionários públicos. Entre o antigo e o novo homem a distância era

grande e a incompatibilidade profunda, e os que haviam servido e amado o

ministro, não estavam dispostos a seguir ou aplaudir o pensador, a quem

por última homenagem reservavam todavia certo respeito, aquilatando-lhe

o valor pela posição social que ocupava e não pelos merecimentos que o

engrandeciam.

Nessa conjuntura, Antonio de Serpa encontrou, porêm, um amigo e

contraditor notavel, de prodigiosa fecundidade, saber e vastidão de

espírito, grande autoridade moral e intelectual, que foi, é, e está para

durar--Oliveira Martins.

A êsse tempo, era êste o adepto e propagandista do muito falado e

querido socialismo do Estado, grande progresso fabricado nas

universidades da Alemanha, fértil em promessas de renovação das

sociedades, grande organizador e disciplinador. O retardatário seria

Antonio de Serpa com o seu liberalismo dissolvente, todo penetrado de

negações. Vieram para a imprensa as discussões dêsses dois ilustres

antagonistas, aplicando as suas teorias ao regimen económico, e não

foram sem influência nas vicissitudes políticas e na administração

pública dessa época e nas que até nossos dias se lhes teem seguido. O

socialismo venceu, profundamente penetrou e se mantem na constituição

política nacional, embora o mais das vezes se revele tão pobre de ideais

como incapaz na aplicação. Quase só temos a agradecer-lhe a boa vontade,

perdoando-lhe os agravos.

Se hoje, porêm, relermos o opusculo de Antonio de Serpa e considerarmos

as suas simpatias pela aspiração essêncial do anarquismo, e a coragem

com que, sem receio das interpretações equivocas, veiu em defeza dos

seus principios fundamentais, aquilo que algum dia levantou rumor de

blasfémia e escândalo não se nos afigura mais do que uma ténue apologia

de verdades quase axiomaticas, uma vaga e frouxa inclinação, timida e

até nem sempre isenta de injustiça.

Outros e inesperados aspéctos se nos deparam.

Ao fim destes vinte anos, o anarquismo, que com fortuna vária

insistentemente proseguia no seu eterno duelo com o socialismo,

reaparece-nos revestido de nova e resplendente armadura. Perante uma

horrorosa fatalidade de que o seu inimigo é cumplice, descobre-lhe as

deformidades e aponta-as á maldição dos povos. As munições dos exercitos

converte-as êle em punhais terrivelmente agudos para quem as fabricou e

emprega.

O principio da maxima liberdade social e política, e correlativamente a

redução ao minimo dos poderes do Estado e das sujeições do govêrno

político, isso que é na realidade o princípio anarquista na sua pureza,

conseqùência lógica de toda a aspiração liberal que criou as sociedades

modernas, avigorou-se na guerra com extraordinárias forças. A Revolução

Francesa recrudesce exaltada em novas glórias e a sua bandeira de

Liberdade, Igualdade e Fraternidade, que ha perto de cincoenta anos

andava esfarrapada, escarnecida e vilipendiada pelos filósofos do

absolutismo, pelos comandantes das casernas, pelos prégadores e

ditadores dos parlamentos e pelos profetas da lei da luta pela vida,

ei-la de repente restituida à sua unidade, beleza e caridade, reanimando

em esperança as multidões prostradas pelas agonias, dôres e impotência

que foram a obra sinistra dos seus inimigos.

O que não disseram da Revolução Francesa o imperialismo restaurado pelo

prussianismo triunfante de 1870, pelo realismo literário inflamado pelo

baixo materialismo que desnaturou e atraiçoou as teorias evolucionistas,

e pelo positivismo, solicito demolidor de altares e de teologias, todo

zeloso das coisas práticas do mundo?!... Liberdade, Igualdade e

Fraternidade, idealismos e realismos, tudo eram utopias, doenças,

fraquezas a que urgia acudir com a proscrição do sentimentalismo,

levando de tropel toda a nobreza, e com a glorificação da cobiça e

sensualidade, desdenhando de toda a obrigação de generosidade e pureza.

Uns nasciam para mandar e outros para obedecer, dizia-se então; e todos

para se banharem e deleitarem em um mar de infinita sordidez, cuja

navegação o socialismo organizava com inexcedivel engenho e superior

segurança para um alto e ponderado comércio de carregações de

prosperidades, regalos, comodidades e mercâncias.

Nessa construção, era a Sciência que lhe animava e inspirava o impulso,

emquanto lhe traçava os planos, libertando de toda a debilidade da

Religião que arruinára, segundo ela cria, os edifícios de outras eras

tenebrosas, barbara, nociva, perigosíssima superstição com sua fatal

insânia de ascetismos, desprendimentos e estéril consagração ao que não

é dêste mundo.

Hoje, os exércitos que por suas paixões e crenças cobrem de sangue a

terra e sacrificam milhões de vidas, clamam alto que combatem pela

liberdade, pela independência das pequenas nacionalidades, pela

aniquilação do despotismo militar e seus consortes e derivados, pelo

reino do cristianismo entre os homens. É a rehabilitação total do

espírito que inflamou a Revolução Francesa; é a justificação ardente e

cara do idealismo político e religioso amaldiçoado e acusado de

sentimentalismos mórbidos e por demais esquecido e atraiçoado; é a

ressurreição e louvor de todo êsse romantismo brilhantemente e

exuberantemente fecundo, que afinal, através de todos os seus fulgores e

errores, significou com uma eloqùência inaudita o descontentamento do

império da sordidez na humanidade, a visão de sociedades melhores e de

almas mais elevadas do que aquelas muito mesquinhas e imperfeitas que

dolorosamente nos dominavam e turbavam--dêsse romantismo que, em obras

de génio, foi acto de Fé, Esperança, Caridade e Beleza, por vezes louco

mas jámais vil.

Por essas crenças que há um século cobriram de vítimas a Europa e que

afadigamente, desde a reacção de 1870, renegámos e esquecemos, morrem

hoje alguns milhões de soldados. Um incidente histórico que da

capacidade militar da Prússia fez a lei do mundo culto, corrompendo o

senso moral e político dos povos estranhos e pervertendo aqueles mesmos

que lhe deram causa, interrompeu a civilisação iniciada pela Revolução

Francesa, fundada nos seus evangelhos e durante oitenta anos conquistada

passo a passo, heroicamente, entre mil desastres e infinitas penas.

Fecha-se agora o período de quarenta anos de reacção.

Á parte condições técnicas e a magnitude de uma organização de fôrças

militares que o industrialismo moderno sabiamente aparelhado produziu e

ostenta, a situação do principio do século XIX e a do principio do

século XX inteiramente coincidem. O impulso íntimo não mudou; apenas se

encontra robustecido pela experiência recente e aturada e tambêm pelo

desengano da conveniência e insolência do despotismo armado a primor e

acautelado com talento e saber, mas nem por isso mais humano, antes

muito mais brutal e pedante do que o absolutismo anémico, mais estúpido

e senil do que cruel, que pelas côrtes apodrecidas da Europa a Revolução

Francesa desapiedadamente combateu e derrubou.

Escutemos o que a Inglaterra nos diz. De pronto compreenderemos para

onde caminhamos, para onde ela nos quer levar e nos leva, porque nesta

cruzada, evidentemente, vai na frente. Se não foi a sua espada mais

poderosa, foi de certeza a sua consciência mais penetrante. O ódio

alemão não se ilude; apontando apoplético à Inglaterra, aponta ao

inimigo.

Pela palavra dos seus sacerdotes mais venerados, sem duvidar da vitória

nem um só instante, préga a guerra santa. «É uma batalha de ideias e de

ideais», diz-nos o dr. Clifford, um velho, que foi um dos mais

eloqùêntes adversarios da guerra da África do Sul e é há cincoenta e

seis anos pastor protestante de uma igreja de Londres. «Krupp póde fazer

armas, mas não póde fazer homens. Estes professores de chacina,

prégadores da barbaria como um dogma, estes homens que se apoiam em

bases scientíficas e advogam a ruína das catedrais e o terror dos

não-combatentes, homens, mulheres e crianças--estes homens trabalharam

durante quarenta anos e é o resultado da sua obra que nós combatemos». E

o reverendo Orchard, da King's Weigh House Church, moço de talento e

justa fama, por sua vez nos diz que «se há qualquer cousa vital na

nacionalidade e no império, não há derrota que os (aos ingleses)

esmague. A vitória não será decidida pelas massas dos homens ou pelo

tamanho dos canhões, mas por uma certa concepção da nacionalidade e do

império. Os impérios morrem, não por um perigo externo, mas porque o

coração do império não é suficientemente forte para lhes sustentar o

corpo». «Podem os homens queixar-se de que a ética cristã é frouxa, mas

não podem tirar-lhes do sangue a influência cristã».

«Não somos uma nação cristã, mas não podemos negar o nosso amor por

Cristo». «Ha certa essência de cristianismo no sangue inglês» que lhe

deu domínio sôbre os outros povos, sentimento de justiça e

magnanimidade, que o faz sorrir no seu humorismo à contradição das

cousas resolvida e conciliada na unção de uma perene bondade.

E a filosofia e a história, o meditado conhecimento dos factos,

confirmando a intuição do sacerdote, como êste confirmára as afirmações

do político que pela bôca do primeiro ministro da Inglaterra assegurará

ao mundo que «não se tratava de um conflito meramente material, mas

tambêm de um conflito espiritual», não nos induzirão em sentimentos

diversos dos que as igrejas e as chancelarias nos insinuam. O pensador

fortalecido por aturado estudo e acreditado por trabalhos valiosos que é

Benjamim Kidd, resumindo as conclusões dos mestres da sua classe, julga

que a Alemanha só poderá ser vencida por «um idealismo mais alto e uma

crença e uma determinação que sejam mais fortes do que aquelas que nesta

guerra a sustentam».

O ideal que anima a Alemanha moderna «representa a mais antiga doutrina

política do mundo--a doutrina do estado predatório como encontrou a sua

expressão histórica mais subida no império da Roma pagã. Exprime, em

resumo, a negação dos princípios característicos com os quais os

progressos e liberdade do Ocidente se identificaram desde que o mundo

antigo caíu. Mas exprime essa negação protegida com sciência, recursos e

organização, como Roma nunca possuiu».

«Todavia, a história da civilisação ocidental durante dois mil anos não

é senão a história do esmagamento e pulverização desta doutrina, em toda

a fórma por que ela procurou encorporar-se no estado aliada ao poder

militar». A significação subjacente de todas as fórmas do progresso no

Ocidente durante vinte séculos é que êsse progresso ergueu a concepção

do direito a uma altura que é universal, «Fez o direito independente e

superior a todos os interesses do estado, seja qual fôr a pretensão ou

missão em que possam basear-se, seja qual fôr a escala em que possam

representar-se, e seja qual fôr a fôrça em que possam apoiar-se». A

doutrina oposta, reclamando a superioridade do estado sobre o direito,

foi sempre o desafio às lutas estupendas que constituem a história da

civilisação ocidental, e sempre caíu sob o impulso de uma civilisação

mais alta.

Cabem à Inglaterra as maiores responsabilidades na crise presente. A sua

história e o seu domínio «fizeram da Grã-Bretanha a mais complexa

psicologia política e a mais poderosa fôrça do mundo moderno. A natureza

da sua fôrça escapa inteiramente à compreensão dos espíritos presos no

absolutismo fechado das castas militares da Alemanha moderna. Foi ela

que em contacto com o mundo durante séculos e nas suas humilhações e

desastres, como nas vitórias de um império de 450 milhões de individuos

da raça humana, aprendeu a grande lição universal--isto é, que há uma só

raça, uma só côr e uma só alma na humanidade, posto que para o saber

queimasse às vezes a carne. Foi ela que ergueu o sentimento da

responsabilidade humana acima de todas as teorias dos interêsses dos

estados e dos impérios». Foi ela que, por sua glória e fortuna da

humanidade, amou, guardou e enalteceu com uma devoção invencível aquele

«intolerável pêso da moralidade de escravos da ética civilisada» que

Nietzsche flagelou; e foi ela tambêm que mais do que nenhuma outra

nação, e esplendidamente, nos deu um exemplo inegualável dessa

democracia que hoje proclama retumbantemente os seus incontestados

direitos e há pouco não passava de «uma falência e uma vergonha», no

conceito presunçoso e insolente dos administradores e senhores da

«caserna besuntada de metafísica que fica para lá do Reno», segundo a

sugestiva expressão de Eça de Queiroz, tão pitoresca como profunda e

vagamente profética.

Ferido na guerra o socialismo, gravemente ferido pelas suspeições que o

desprestigiam empanando-lhe o resplendor de mensageiro humanitário,

amesquinhado pela insuficiência da aspiração que o alenta e acusado de

intimidades manifestas com o despotismo, de que se revelou amigo e

instrumento dócil, havendo «quebrado a espinha dorsal», nos termos em

que exprime o seu desastre um publicista cujo diagnóstico tem corrido na

imprensa--e sendo o socialismo a mais scientífica das concepções de

governo e a mais engenhosa arte de governar os homens e os trazer

contentes, com êle caem por terra e se desfazem volumosas bibliotecas de

estudos e teorias, qual delas a mais subtil, complexa e eficaz para dar

a abastança, a felicidade e a posse de todos os bens do corpo e da alma.

Se é grande e edificante a humilhação do orgulho militar, frustrado na

sua omnipotência pela aversão dos povos, não é menor nem nos ensina

menos a humilhação do orgulho scientífico e filosófico que com êle se

emparceirára em uma só jactancia e o apoiava e instruia. A Alemanha

afrontava a terra inteira com o seu saber, tão arrogante, poderoso e

altivo como as armas com que ameaçava levar diante de si e sumir nos

arrebatamentos invencíveis da sua cultura as nações e as gentes de todo

o globo. Arvorou-se em empório de todo o saber e de todo o pensar. Só

dali nos viria essa mercadoria preciosa, e porventura excessivamente a

procurámos em suas terras e a pagámos por exagerados preços.

De facto, nunca se viu um povo tão bem preparado com aquilo que a razão

pode facultar-nos, senhora do mais profundo conhecimento das forças em

acção no universo. Nunca ninguem penetrou tão lucidamente os segredos

das coisas, nunca ninguem soube tão completamente as suas qualidades, e

nunca ninguem as aproveitou em igual extensão e com mais minucioso e

sábio metodo. A preparação militar da Alemanha, tão falada e tão gabada

e temida, era apenas uma das faces da sua preparação em absoluto. Estava

preparada militarmente, como preparada estava socialmente, nas escolas,

nas instituições, no comércio, nas oficinas, sôbre tudo nas suas

oficinas. Era um prodígio sem precedentes, um inaudito fenómeno de

previsão, de ordem, de atenção, compreensão e satisfação de todas as

necessidades, das maiores às mais pequeninas, de antecipação de todos os

confortos, de extremo desenvolvimento de toda a capacidade mental, de

toda a riqueza económica, de toda a fôrça concebivel e possivel dos

indivíduos e das comunidades. E nada disto, que era e é um assômbro,

impediu que o mundo inteiro, ou pouco menos, se revoltasse contra ela,

lhe abalasse o edifício formidável, e para o fazer se sujeitasse ao

maior e mais angustioso dos sacrificios.

Imaginou a Alemanha que o mundo se revoltava contra a sua grandeza

porque, incapaz de a atingir, a invejava e odiava. Mas na realidade

apenas se revoltou contra a natureza meramente material da sua grandeza.

Foi isso que êle odiou, foi isso que o ofendeu e fez lançar no combate,

incitado por uma vaga mas impetuosa intuição da urgência de certa

necessidade de humilhação do orgulho da razão, da sciência, da

filosofia, e das vaidades, e bastas vezes inanidades, das suas

multíplices traduções práticas.

Fabricára a Alemanha robustissimos animais com todos os merecimentos de

presa, de actividade e de presteza, que podem competir a uma esmerada

animalidade. Mas o que esqueceu e o mundo pedia, foi criar homens com

todas as qualidades de liberdade e bondade que o coração não dispensa. O

resultado será que, levado o conflito à agudeza em que de perto o

sentimos, ficámos desconfiados para largos anos, provavelmente para

largos séculos, de que aquelas escolas, aqueles laboratórios, aquela

sciência, aquela filosofia, aquelas armas, aquela disciplina, e toda

aquela ordem material, intelectual e moral, de uma tenue moralidade sem

nobreza, que admirámos, copiámos e nos era afiançada como a última e

definitiva palavra da civilização, serão bem pouco, os míseros vencidos

de uma outra civilização muito mais ingénua, muito menos sábia, muito

menos preparada, meditada e armada, mas apaixonada de liberdade e amor,

muito mais cristã, numa palavra. E a glória imarcescível desta

civilização confundiu totalmente o orgulho daquela outra, inconsistente

e fraca, embora erguida em dourados baluartes.

Facto singular e notável--há muito a Alemanha se queixava de pobreza de

homens públicos e diplomatas; até mesmo não estava segura de abundar em

capacidades militares. Isso diziam, sem reservas, entre os seus, os que

mais autoridade e experiência tinham para o afirmar, e isso era

confirmado pelos estranhos que estavam em circunstancias de conhecerem a

situação política do Império; e isso se acentuou com uma evidência

concludente nas negociações que precederam a guerra e em todas as que se

lhes seguiram, revelando da parte da diplomacia alemã uma incapacidade

suma, ao passo que a Inglaterra ostentava nas mesmas diligências uma

pleiade de homens públicos a par do seu passado e da sua fama, em tudo à

altura das dificuldades assombrosas da conjuntura, e a França e a Russia

nada lhe ficavam devendo em demonstrações brilhantes de inteligência e

carácter daqueles que conduzem os seus destinos, quer nos campos de

batalha, quer de portas a dentro das secretarias do Estado.

Parece que toda a sciência alemã, com a exactidão matemática dos seus

apurados cálculos e processos, abandonou ou ignorou qualquer factor

essencial, e por isso foi incapaz de criar homens nesta inteireza,

equilibrio e beleza de faculdades que só o latino nas suas tradições,

mesmo negligentemente cuidadas, sabe produzir e produz com uma

expontaneidade, com uma naturalidade que são maravilha e a mais solida

presunção da sua eternidade. Aqueles que jámais descreram das

humanidades contra a sciência, que o mesmo é dizer da vida contra a

mecânica, da ordem moral contra a ordem material, da dignidade humana na

sua plenitude contra o seu rebaixamento em um simples valor económico,

renovaram a fé entre as vicissitudes desta guerra, e é bem de crer que

vão privar o germanismo do lugar que usurpara às humanidades, e tem de

lhes restituir, na educação das novas gerações.

Sciência era ainda, e na derrota da sciência vai envolvida, toda aquela

psicologia entrincheirada em fortalezas históricas que havia de

justificar a guerra, o militarismo, e a arquitectura social e política

que lhes convem. E respectivamente os sonhos de paz eram utopia,

romantismo, sentimentalismo, negação do espírito scientífico, filosofia

da cobardia, desgraça e atrofia das raças que os deixassem prevalecer e

só pela guerra alcançariam manter a energia.

A própria guerra se encarregou, porêm, de desvanecer toda a velha lenda

da necessidade e benefícios das guerras.

No primeiro ímpeto da insânia em que se precipitou, foi como uma

pesadissima nuvem que escurecesse e dissipasse todas as esperanças de um

mundo para sempre livre de batalhas sanguinárias, tal qual o viamos já

próximo, ditando a lei do alto dos tribunais de paz e apregoando o

advento da idade de ouro pelos profetas e apóstolos que nos convenciam e

fascinavam. A persuasão que ultimamente se divulgara de que a guerra

significava, àlêm duma acção crudelissima, um negócio péssimo, a _grande

ilusão_; toda a erúdita e rigorosa analise que reduziu a guerra a uma

futilidade, quando não era puramente a cobiça sordida e cega dos que

mandavam e não tinham medida nem lei em suas ambições; essa aurora de

tempos novos pareceu escurecida para não mais brilhar, quando os

primeiros fumos dos canhões atoldaram.

Desenganassem-se os ingénuos, pensou-se; a guerra era condição

imprescindivel e insubstituivel das sociedades humanas e, por melhores

que fôssem as razões e o sentimento que a condenavam, mais podiam os

instintos que a alimentavam. O presente era a demonstração clara da

subsistência dessa doutrina de morte.

Mas bastaria que isto se disputasse, ainda mesmo que não fôsse com

aquela universalidade e largueza com que se discutia, bastava a

insistência na dúvida e a inflexibilidade na rebeldia para assegurar que

alguma coisa nova agitava o mundo. Imediatamente a reflexão reanimou e

fortaleceu as tendências dominantes antes da guerra. Logo se viu e foi

certo--facto primacial e de extremas conseqùências, que a guerra, ainda

há cem anos uma actividade natural, e nessa qualidade admitida e aceita

unanimamente, tornára-se no pensamento dos nossos dias uma

monstruosidade, uma aberração e um crime, tão indignadamente apontados e

abominados hoje como outrora exaltadamente louvados e aplaudidos.

Nem todo o bem provido arsenal que a moralidade da guerra usa em sua

defesa pôde dominar a rebelião dos que a detestam e esperam baní-la. Não

esqueceu todas as alegações a seu favor que colhera no correr dos

séculos; todas aduziu e nenhuma pôde prevalecer. Corrigia o egoismo,

avigorava a disciplina, evitava a debilidade, unia os povos, inflamava o

sentimento da honra, engrandecia no heroismo, fortalecia para a

adversidade, para a tristeza e para a dôr, desenvolvia a obediência ao

dever, semeava a coragem, a dedicação e a generosidade? Nem assim

conseguia restaurar o império perdido! Poderes mais altos lentamente se

haviam constituido, e ao mais pequeno sôpro a piramide, que parecia

invulnerável a toda a injúria dos tempos, como os tumulos dos faraoos,

esboroava-se desfeita. Perante a prova da vida, a prova do fogo e do

sangue, a prova da morte, tornou-se insuficiênte e insignificante para

julgar os homens. A escala dos valores toda se havia alterado; quanto

era primacial para a grandeza e dignidade e se buscava e costumava

encontrar na guerra, tudo se viu e conheceu em muito maior e mais nobre

amplitude nas inevitáveis e constantes provações da vida. Se o

desprendimento, a coragem, a honra, o estoicismo, a tenacidade, o

esfôrço, a consagração ao dever, à amizade, à pátria e ao lar eram

virtudes sem as quais os homens se despenhavam na abjecção, não

careciamos, para as possuir, de as cultivar no ódio, na cobiça, na

brutalidade, na impiedade, na ruina e nas atrocidades sanguinárias; o

trabalho, a desgraça, a fatalidade das coisas, a cegueira do destino e

do mundo cósmico, o sentimento da responsabilidade religiosa bastavam

para nos experimentar e educar. A adversidade de todos os dias, que não

cessa de nos acompanhar, era o suficiente para nos ensinar e pôr em

prova toda a robustez do corpo e toda a nobreza da alma, se de uma e de

outra eramos capazes. O _Cavador do Millet_, no seu campo safaro, só com

a sua enxada e o peito descoberto, amesquinhára e derrubára dos seus

pedestais os Hercules e herois de todos os tempos, e profeticamente

apregoára que era chegado o tempo de converter as espadas em charruas.

A Guerra: Depoimentos de Herejes · 第 2 / 8 段