largueza e ferocidade com que vai devastando a terra, sentiu-se vencida
e aquela mesma futilidade, aquela mesma maldição, desgraça e estéril
crueldade que anteriormente a deshonravam e lhe lavravam sentença de
proscrição no conceito dos homens empenhados em nos libertarem dos seus
trágicos horrores.
Fossem quais fossem os canhões que tivessem de orgulhar-se de soltar o
último grito de morte, vencida estava e está aquela espécie de
civilização que nos conduziu a esta catástrofe infernal e a preparou e
pretende justificá-la. Póde essa civilização restabelecer-se da desordem
em que agonisa e, cobrando ânimo, restaurar cidades, oficinas e
governos, com todos os seus enganos, traições e angústias, com todas as
suas fadigas, prazeres, ruins ambições e opressões; póde, claudicante e
ignorando a própria miséria, continuar incerta e cega na jornada dos
seus muitos e lúgubres progressos até de novo naufragar na imensidade
dos seus inumeráveis desastres. Mas acordou um inimigo que não lhe
perdoará; despertou a consciência das suas terríveis enfermidades, e com
ela descerrou a visão de reinos de liberdade, de amor e de simplicidade
que fascinam. Após a guerra, o mundo será outro, senão de facto, porque
os factos são lentos em render-se, ao menos pelo sentir que é tenaz e
seguro nas conquistas.
Porque, na realidade, esta guerra não foi apenas a conflagração dos
poderes da terra, por tremenda que essa conflagração nos pareça; não foi
unicamente um incidente histórico da expansão das raças, ainda que
muitas envolvesse e apaixonasse. Foi muito mais do que isso, e acima de
tudo isso, um acto de contrição dos erros do nosso desvairado coração,
por muito distante e obscuro que pareça o seu domínio sôbre o tumulto
dos exércitos; mais do que desengano e desilusão de uma traiçoeira paz e
ventura, foi o castigo da confiança em fôrças mentirosas, foi um
profundo _peccavi_ cuja expiação sofremos no mais angustioso dos transes
e cuja absolvição temos de procurar em um mundo fundado em uma outra
alma muito diferente daquela, por demais corrompida, a que loucamente
nos haviamos entregado. Outras aspirações, outras crenças e todo o seu
modo de ser externo terão de nos inspirar para nossa fortuna e alegria.
Muita coisa que criamos morta ha de resuscitar; e muita coisa que
supunhamos eterna ha de desvanecer-se para sempre.
Revisão de valores
O facto mais notável da guerra nos mezes, já longos, por que se tem
dilatado, não é de certo nem a novidade da tática e da estrategia, nem
as subtilezas e primores dos engenhos de matar, que eficazmente
aproveita e emprega com éxito brilhante, nem o calibre dos canhões, ou a
rapidez dos movimentos, ou a audácia e artes dos que voam nos ares e se
perdem nas nuvens tão facilmente como navegam por baixo das ondas e se
ocultam nas profundezas do mar. Tudo isso é muito curioso, sem embargo,
para as imaginações infantis, mas difere do que antigamente se fazia
apenas naquelas minguadas proporções em que os brinquedos das lojas de
Paris diferem dos que alegravam as mocinhas de Corinto antes de Cristo
vir ao mundo. As jornadas de Joffre em automóvel não serão cousa muito
diversa no carácter e conseqùências das que na mesma Galia, igualmente
insubmissa e ardente, algum dia foram feitas pelas legiões de Cesar com
seus estupendos pulmões aquecidos a trigo e centeio, e em certo modo
sobrepujando aos pulmões de aço nutridos de essências explosivas que
hoje repetem e acrescentam as maravilhas de outrora. Mais molas, rodas e
engrenagens fomos nós capazes de ajustar e pôr em movimento, com espanto
das multidões ingénuas e alegria e proveito, não exíguo, dos fundidores
e capitalistas e fabricantes, possuidores de privilégios registados e
possuídos por uma febre e uma impudência de especular e ganhar tão
despejadas e poderosas que não carecem de registo, nem de garantias
especiais do estado, para ser ignominiosa e funestamente soberanas. Mas
no final, apezar de toda a complexidade em que nos embrenhámos, não
ostentamos ambições e talentos superiores aos muitos e famosos que
fizeram a guerra quási exclusivamente fiados na fôrça do seu braço; e
nem tão pouco consagramos as proezas e chacina a fins mais nobres do que
aqueles de estreme e insaciável cobiça que exaltaram os generais de
outras eras. Como guerreiro, o mundo é o que sempre foi desde que se
conhece história, um assassino cruel e sordido.
Será mesmo um pouco mais vil. Se neste capitulo da vida social houve
alteração de valores, foi toda em proveito de aptidões degradantes. Com
uma guerra feita a poder de submarinos, trincheiras e espiões, a
astúcia, a dissimulação e a habilidade de ferir sem correr risco de ser
ferido tomaram em larga extensão o logar que era ocupado pela coragem,
pela firmeza de ânimo, pela decisão, pela energia, pela grandeza e
lealdade da luta a peito descoberto. O carácter de negócio, conta, e
cálculo e previsão, aliás de supremo alcance, apagou muita beleza da
imprudência, da ousadia e do desprendimento. «As batalhas não são já o
heroismo espetaculoso do passado», disse um general celebre pelos seus
escritos, Homero Lea. «Os exércitos de hoje e os de ámanhã são uma
sombria máquina gigantesca destituida de heroismo melodramático... uma
máquina que leva anos a formar em suas partes separadas, que leva anos a
uni-las em seu conjunto, e que leva anos para funcionar doce e
irresistivelmente». O mais seguro dos combates modernos é obra de
trevas, um requinte de traições e de surprezas, uma mecânica anónima,
acautelada e perversa, que raro consente um gesto de generosa
magnanimidade, raro conduz a revelar quem ofereça com uma clara
abnegação a própria vida, quem se inflame procurando dar a morte ao
inimigo da sua pátria e da sua crença. Entre a guerra moderna, intima e
exteriormente mascarada de couraças, e a guerra dos tempos heroicos,
fundada na fortaleza do ímpeto, ha a distancia que vai de um
arrebatamento a uma cilada, de um problema a uma oração, e de um negócio
a um sacrifício. Sempre a ganância, a soberba, a perfidia, o ódio e a
baixeza andaram na guerra involtos e confundidos com a nobreza e a
isenção; é certo. Mas a influência relativa do valor de cada um dêsses
diversos elementos modificou-se em nossos dias em prejuízo da glória das
batalhas. O vulgar e o ínfimo prevalecem. Até nisto teria havido a
insinuação de um certo materialismo que invariavelmente prefere a
torpeza lucrativa às contingências de uma franca e determinada
honestidade.
Isso, porêm, são cambiantes superficiais que não atingem a essência da
guerra, pois esta nos seus aspectos fundamentais, em galeras ou em
couraçados, com catapultas ou com canhões de 42, continua a ser a mesma
multidão de dedicações e de abjecções, a mesma jornada da honra
escoltada de infâmias, em regra mais rendosa para a ignomínia do que
gloriosa para a dignidade.
Facto de superior significação que esta guerra tenha a considerar e a
guardar como ensinamento, senão como profecia divina, um só teremos a
apontar, e êsse de incalculável magnitude--a amizade em que no dia de
Natal se fundiram os ódios dos adversarios que momentos antes friamente
se trucidavam e que, sem escritos do protocolo nem ordens dos generais,
por espontaneidade do coração, decretaram um armistício, tão rápido no
tempo como douradouro na inspiração, para soltarem palavras de paz e
afeição, que lhes transbordavam do peito, e para converterem em olhares
de intimidade e ternura, de que estavam sequiosos, a hostilidade
sanguinaria em que um tresloucado fetichismo os trazia empenhados. Os
soldados voltaram às fileiras, o fogo recomeçou, o sangue jorrou, e de
novo se cobriu de cadaveres a terra. Mas alguma cousa indestructível se
edificára e permanecia de pé, inviolável; uma luz se acendêra, que não
podia apagar-se, de paz, de comunhão e de carinho; uma saudade se
ateiára precipitando as nações e os exércitos em caminhos novos, para
outros combates.
Não foi, sem dúvida, o internacionalismo cegamente nivelador que ali
venceu e aniquilou o nacionalismo nas suas estreitezas e prejuízos, que
lhe encobrem a sua legitimidade, lógica, elevação e grandeza, e por
vezes as pervertem, transmudando em aversão o amor do próximo e a
amizade do vizinho. Não foi o desfazer das nações, das fronteiras e dos
lares, a absorpção e a utopia em uma patria indistincta da humanidade.
Foi todavia a graduação do internacionalismo na escala dos valores em
uma altura superior àquela que anteriormente lhe havia sido designada;
foi a consagração de uma abençoada exaltação que cresceu e pôde mais do
que a insânia sanguinária de aniquilação mútua, foi um pregão eloqùênte
lançado aos quatro ventos da terra, e sobretudo aos senhores da terra, a
repetir-lhes que os homens não querem a guerra e a aborrecem, e
unicamente pela avidez dos que os governam, escravisam, fascinam e
iludem são arrastados às batalhas que o coração amaldiçôa. Foi a
confissão tácita, mas iniludível e de uma eficácia incalculável, das
determinações de uma consciência que sente dissipar-se a divisão das
raças e das nações--não porque a suprime, mas exactamente porque,
reconhecendo a diversidade, liberdade e beleza das feições das raças, a
ama no vizinho como em nós mesmos, unindo-nos na comunidade de
interesses e afeições por aquilo que é o nosso comum amor, em vez de nos
massacrar na concorrência das ambições, no desrespeito da
individualidade étnica específica, na intolerancia, em tudo quanto póde
distinguir-nos e de facto nos distingue, sem que por isso tenha de nos
separar e tornar inimigos.
Os menos desconfiados das aparências e incitamentos da primeira
impressão, vendo soltas as furias da guerra, imediatamente disseminando
calamidades e atrocidades sem numero e sem nome, desde o morticínio das
mulheres e das crianças até à ruina das catedrais--que jámais poderão
ressurgir na inteireza do seu esplendor e poesia, jámais poderão rehaver
os bafejos dos alentos místicos que em extasis divinos as sonharam e
ergueram e pelo sangue de mártires e pelo génio dos obreiros lhes haviam
dado a aureola de uma arte e tradições irreparáveis, das que vivem uma
só vez, filhas de uma só alma, e não renascem, se as ultrajou a malvadez
dos homens atónitos na turbação de um ímpeto sinistro!--os menos
desconfiados dos incitamentos da primeira impressão de pronto descreram
dos sinais de paz que há pouco viam com alvoroço no horisonte. Logo se
abandonaram ao desalento e tiveram como não subsistentes a solidez e
progressos daquele internacionalismo que era a vitória da consciência
dos interesses comuns dos povos prevalecendo sobre os conflitos das suas
diversas tendências, necessidades e divergências, e conduzindo a uma
lenta substituição da hostilidade pela cooperação que, paulatinamente
mas incessantemente, se infiltrára no espírito das raças e se traduzia
em ligações cada vez mais estreitas, em um comércio material e moral
cada vez mais assíduo e penetrante, e na dissolução paralela de suas
reservas, dissenções, temores e inimizades. Devia esclarecer-lhes muitas
hesitações o que no dia de Natal se passou entre exércitos inimigos em
campanha, de súbito tornados irmãos por mandados desconhecidos, mais
altos do que a voz dos generais rutilantes de galões; mas, se a grandeza
milagrosa dêsses comandos invisíveis não lhes assegura que alguma causa
de novo se fundou na terra e que não foi apenas um sonho de visionarios
a convicção dos que antes da guerra encontravam na expansão do
internacionalismo os fundamentos e a esperança do renascimento político
e social das comunidades, meditem paralelamente o que na escala dos
valores sofreram o patriotismo e a diplomacia, e isso lhes dirá por
outra forma e por outras palavras o que a trégua e os sorrisos do dia de
Natal não lhes tiverem significado. A seu modo e precisamente, pela
análise da história, pelo exame dos factos políticos e pela verificação
das ideias e opinião dominantes, isso lhes dirá o que porventura lhes
haja escapado na inspiração misteriosa e vaga dos transportes do
coração, nêsse desdenhado e até execrado sentimentalismo que, no
conceito dos seus inimigos sendo nada, uma futilidade doentia, quando
não é a desgraça, a dissolução da energia, teve todavia a fôrça de
desarmar exércitos e transpor trincheiras que os corajosos e prudentes,
indemnes de debilidades afectivas, haviam juntado e edificado para uma
obra de extermínio.
O patriotismo reconhece hoje penitentemente os seus desvarios e crimes,
e é novo e singular que se atribuam crimes a quem andava protegido por
um resplendor de pureza. Eivado de infinitos temores, ódios e egoismos,
corrompeu-se, ou melhor, não tem sabido purgar-se de «faltas grandes e
crueis, como aconteceu á religião do cristianismo, embora as faltas do
patriotismo não sejam usadas pelos agnosticos contra êle, do mesmo modo
por que êles procedem para as faltas da religião, o que talvez possa
derivar de que os agnosticos estão compreendidos nas faltas do
patriotismo e são alheios às faltas da religião». Compreenderam-se em
uma só divindade e apostolado as virtudes e as degenerações e
deformidades do patriotismo; porque «o patriotismo pode tornar-se não
moral, ou definitivamente imoral e ateu. Os estados, como as igrejas,
podem começar por uma cobiça de fôrça, por impulsos de infalibilidade, e
daí passarem, através de uma perversão de lealdade, à perda conseqùênte
da honra e ao esfacelamento da etica». «Um cristão não pode pedir a sua
moral ao estado ou tomar os diplomatas como seus directores espirituais;
o unico patriotismo que êle pode respeitar é o que obedece ao Deus da
verdade e da rectidão. E este patriotismo, porque é moral, é capaz de
ser internacional. Um patriotismo que não pode ser internacional que não
pode encontrar logar para uma mais larga lealdade à humanidade ou uma
mais profunda lealdade à igreja, acaba sempre por ser criminoso». «No
fundo de todas as doenças do patriotismo há sempre o espírito do ódio».
«O verdadeiro patriota é o que crê, não em um só patriotismo, mas em
todos, que respeita a nacionalidade dos outros e saúda a lealdade onde
quer que a encontre. Não fomos suficientemente patriotas no passado.
Realmente, não acreditamos no patriotismo». É insensato, mesquinho e
despiedoso o patriotismo que antes de bem combater não soube bem viver,
que só na guerra sente as obrigações e todas as esquece e desconhece na
paz. «Nos anos angustiosos de sombria luta de classes que nós chamamos
os anos caquéticos da paz, vivemos vidas baixas, egoistas, acanhadas e
crueis. De ano para ano as cidades alargam horrivelmente as suas ruas e
tocas nesta linda Inglaterra», (como de resto em todo o mundo), «que é
nossa, pela qual somos capazes de morrer, mas pela qual não estamos
prontos a viver; de ano para ano são oprimidos os pobres, rebaixados os
humildes e quebrantados os fracos, e ergue-se aos céus o clamor de
milhões que se submergem emquanto nós opulentamente nos divertimos. E
imaginamos ser patriotas! Até no tributo da vida humana a chacina da
guerra é pequena, comparada com os acidentes constantes que resultam das
doenças que se podiam evitar, da mortandade de crianças a que se podia
atalhar, de industrias perigosas desnecessarias, da ignorância, da
pobreza, da embriaguez e vicio».[4]
Companheira e a melhor serva dêsse patriotismo e nacionalismo de
antagonismos sangrentos, rapacidade e conquista--miséria e orgulho dos
govêrnos destituídos de senso moral e religioso, a diplomacia, principal
responsável da desolação e luto que cobrem a Europa, sofre hoje na
guerra uma completa derrota. Vexada pela enormidade do desastre, para
sempre convencida de uma monstruosa traição a Deus e aos homens, à paz e
à riqueza da terra, condenada e confundida pelo cataclismo que na sua
corrupção e debilidade fundamentais provocou, aplaudiu e consumou,
perdeu o prestígio dos seus conciliábulos e segredos, e são mais os
incrédulos que a proscrevem do que os fieis que a amparam. Há muito
suspeita, por isso mesmo que, dissimulada e tenebrosa nas maquinações,
isso induzia a desconfiar da sua justiça e boa fé, embora fôsse o meio
de lhe ocultar os propósitos e habilidades, e não raro as cobiças, a
sordidez, as vaidades e ignobeis fins de que era instrumento mais ou
menos consciente e nunca escrupuloso--agora, ao dar conta pública das
suas façanhas, estas confirmaram e agravaram todas as suspeitas
anteriores.
Singular ironia do destino e não sem uma particular significação, um dos
homens que muito antes da guerra se identificára mais inteiramente com o
movimento que, à falta de melhor expressão, poderemos chamar
anti-diplomático, era um hereje da sua igreja, um deputado do parlamento
inglês, Arthur Ponsonby, aristocrata criado na atmosfera mais puramente
aristocrática que póde conceber-se, nascido em um palacio rial, filho do
secretário particular da rainha, descendente de fidalgos com uma elevada
posição na côrte e no seu país, pagem de honra da rainha durante cinco
anos e em seguida, durante quási dez anos, dedicado ao serviço
diplomático no estrangeiro e no ministerio dos negócios estrangeiros da
Grã-Bretanha. Mais perfeito conhecimento de causa não podia exigir-se
para discutir a situação, valor e tramites da diplomacia, seus
beneficios e seus males e agravos.
Ora êste homem, que se distinguira já por duas obras de valor, _O Camelo
e o Fundo da Agulha_, severo estudo da degradação que a posse da riqueza
importa, e a _Decadência da Aristocracia_, onde pôs a claro a fraqueza
da própria classe a que pertencia, êsse publicista de sinceridade e
talento provados escrevera em 1912 um panfleto, a que intitulou
_Democracia e Fiscalização dos Negócios Estrangeiros_. Aí procurava
acautelar-nos contra os perigos a que a cerrada e voluntária obscuridade
da diplomacia trazia sujeitos os destinos, aspirações e esforços das
democracias. «Não creio», escrevia então, «que na época presente haja
questão mais importante do que a consideração do problema que resolverá
como é que a opinião pacífica, moderadora e progressiva da democracia
póde penetrar tanto nos negócios internacionais como nos negócios
nacionais, e como é que um estado democrático póde descobrir os meios
próprios para se exprimir no governo da nação».
Até que ponto fôram proféticos os seus pressentimentos e temores, qual a
importancia do problema que êle punha acima de todos os outros problemas
políticos, demonstrou-o a guerra. E, interrogado há pouco por um
redactor de _The Christian Commonwealth_, pôde renovar o seu pensamento
com a autoridade e desenvolvimento próprios de quem o viu justificado
por factos de uma trágica evidência.
Não supõe «que tivesse havido um cataclismo moral na vida do mundo. O
desastre foi devido principalmente a erros políticos. Mesmo depois que a
guerra começou, temos tido muitas provas de que realmente não houve
quebra na boa vontade do povo deste país ou de qualquer outro. As
narrações pateticas, feitas pelos homens em campanha, das relações
afetuosas entre êles e o «inimigo» no dia de Natal mostram claramente
que a guerra não é entre os povos; sentem a necessidade de ser amigos e
facilmente seriam amigos, se os que os governam não estivessem em
guerra. O sentimento do povo é perfeitamente são; a guerra não foi
causada por ódio ou cólera que o povo de um pais sentisse contra o povo
de outro pais. Foi causada pela inferioridade do que se chama a
moralidade internacional e que é realmente a moralidade
intergovernamental. Baseia-se neste facto a sua oposição à guerra. A sua
crítica é principalmente política. Contesta que haja uma quebra moral da
parte do povo... carecemos de nos libertar do segredo diplomático e
garantir a fiscalisação democrática nos negócios estrangeiros, o que só
por intermédio do parlamento póde fazer-se. «Diplomacia aberta» é em
certo modo uma frase que não convém. Do que o país carece é de conhecer
inteiramente os seus compromissos e obrigações com os países
estrangeiros e ter informação definida das linhas gerais da política que
se segue relativamente às relações com o estrangeiro. Não precisa de
interferir na responsabilidade do executivo... Há na diplomacia uma
tradição de segrêdo, um ar de guardar segrêdos misteriosos do estado,
que nos veio de idade-média e que tem por efeito deixar as cousas
inteiramente nas mãos de homens públicos ciumentos de toda a intervenção
estranha. O que mais lastima, todavia, é a política do silêncio oficial
sobre materias que se tornam de uma importância vital. Um completo
segrêdo é em nossos dias praticamente impossível. O povo sustenta-se de
palestras ociosas, rumores e falsas referências dos jornais. Não está
sem informações mas está mal informado.» A culpa não é dos ministros, é
dos próprios parlamentos que se movem em um círculo vicioso: porque os
seus membros não são informados dos negócios externos, poucos se
interessam por êles e os estudam, cáem cada vez mais nas mãos dos grupos
que os regulam. «Mas a guerra abalou a confiança nestes grupos, e a
ocasião é oportuna para mudanças que os acontecimentos mostraram de tal
modo imperativas.» As questões de política estrangeira estão destinadas
a prender a atenção dos povos nos anos mais próximos, «e toda a
consideração de senso-comum e de prudência, para nada dizer da
democracia, prescreve uma alteração do sistema que caiu.» Não é que a
direcção dos negócios estrangeiros tenha de ser tirada aos respectivos
ministros ou que deixe de haver negociações que necessitem de reserva
emquanto proseguem. «Mas carecemos de mais bastas oportunidades de
discussão, de submetter ao parlamento todos os tratados, compromissos e
obrigações, de democratisar o serviço diplomático.» Porque a exiguidade
da retribuição dêsses serviços tornaram-nos praticamente o apanágio de
reduzidissimas classes abastadas, e «homens de talento, criados na fé
democrática, que compreendem e podem interpretar o sentimento popular,
são excluidos justamente por não possuirem aquelas qualificações
adventícias. Precisamos de alargar a área da selecção.»
Evidentemente, a guerra não importou a falência absoluta da diplomacia.
Entre as nações terá de haver as inteligências e ajustes que são
indispensáveis, essenciais, em toda a ordem da vida social da
humanidade, e essas relações não podem deixar de ter seus interpretes
próprios e instruidos, e seus planos e modos de proceder. Não está
inutilisada a engrenagem porque funcionou mal, pessimamente, com grande
perda de vidas e bens e com infinita cópia de atribulações e de dôres.
Mas está humilhada, desacreditada, a sua reservada altivez, e por sua
insensatez, egoismo, estreiteza de entendimento e estreiteza ainda maior
do coração terá de dar o lugar a quem a substitúa com menos soberba,
mais modéstia, e sobretudo mais conhecimento e respeito das aspirações
dos povos que a sua arte está destinada a servir e que ela cegamente
sacrificou às ambições pervertidas de reduzidas aristocracias e à
voracidade insondável das oligarquias mercantes.
Porque a democracia é um facto. Já nem há fôrça nem astúcia interessada
que lhe estorvem a expansão. A diplomacia que vivia encerrada em seus
palácios, fóra de toda a promiscuidade e contacto com as plebes que
arregimentava apenas para seu uso e capricho, terá de descer a este
campo comum onde cada um vive na franqueza sem refolhos das suas
aspirações e das tendências dos homens e dos povos seus irmãos. De
soberana passa a cativa, ao cativeiro das obrigações políticas e morais
que são a condição da dignidade e da utilidade, da arte de ser e viver
nobremente, em paz e dando a paz.