Nem tinha mudado de sentir em 1874, não obstante muito haver

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JAIME DE MAGALHÃES LIMA

A GUERRA

DEPOIMENTOS DE HEREJES

F. FRANÇA AMADO, EDITOR

COIMBRA. 1915.

A GUERRA

Composto o impresso na Tipografia França Amado,

Rua Ferreira Borges Coimbra.

JAIME DE MAGALHÃES LIMA

A GUERRA

DEPOIMENTOS DE HEREJES

COIMBRA

F. FRANÇA AMADO, EDITOR

1915.

Prologo

Um direito o nosso tempo conquistou plenamente--o direito de heresia.

Muitos outros tentou proclamar, desde o meiado do século XVIII até hoje.

Pela sua vitória se esforçou e sacrificou. Mas, se muitos quiz e por

momentos imaginou possuir, quasi outros tantos surgiram e se apagaram

com a rapidez e mágoa com que invariávelmente se desfazem ilusões e

esperanças mal fundadas.

O direito de heresia, o direito de discutir, contestar e negar todas as

ideias por qualquer modo dominantes, todas as convenções estabelecidas,

todos os dogmas, todos os principios e todos os preceitos da religião,

da filosofia, da arte, da sciencia, da politica, e de quanta afirmação o

nosso pensamento sonhe ou imponha, quer na vida concreta, quer na vida

puramente especulativa, o direito que implica a faculdade de regeitar no

govêrno da nossa actividade espiritual e material toda a autoridade

independente de restricção e de crítica--êsse logrou, porêm, prevalecer

atravez de todas as vicissitudes a que o tiveram e teem sujeito

multiplos e vigorosos despotismos, sempre fáceis em renascer das

próprias cinzas. Abolidas as divindades, as sagradas como as profanas,

as que se adoram nos templos como as que se lisongeiam nos palácios, é

legítimo duvidar da crença religiosa como da crença política, podemos

sem ofensa dos homens e respeitando a nossa consciência desconfiar de

muito civismo e de muito patriotismo envelhecidos e envilecidos por

diversa corrupção, podemos duvidar da justiça, e até da dignidade, de

muito orgulho nacional, pervertido por íntima ruindade. É isso tão

legitimo, de uma tão genuina fidelidade à razão, como o desdem das iras

olimpicas de Jupiter, ou a revolta contra as fogueiras da Inquisição, ou

a libertação da tirania de todos os cesares, sejam êles coroados por

direito divino ou aclamados pela insensatez e pela ingenuidade da

soberania popular. «Libertamo-nos dos abusos do velho mundo; carecemos

de nos libertar das suas glórias», disse Mazzini. E isso, que algum dia

poderia parecer blasfemia do revolucionário, encerra hoje apenas uma

modesta e incontestada insinuação e autorização de livre exame. Muito

heroismo houve que o passado glorificou e o futuro converterá em

ignominia, muito fraqueza vilipendiada o tempo nos tornará em

merecimento e honra, muita virtude foi crime, muito crime foi santidade,

muita prudência foi loucura, muita loucura foi acerto.

O cataclismo de 1914, turvando em ansiedade todos os corações, onde

corações encontrou, ainda os mais débeis, foi um ensejo tremendo dêsse

direito de heresia que uma lenta e progressiva insistência anterior

havia constituído e estabelecido firmemente em o nosso espirito; foi um

ajuste de contas correspondente à magnitude sem precedentes da guerra

que êle soltou. Verdadeiras religiões politicas e sociais, como a ordem,

a riqueza, o nacionalismo, o socialismo, o resplendor militar, as

egrejas, o império, e até o próprio cristianismo, foram chamadas a uma

revisão sevéra dos respectivos valores e a uma determinação dos seus

caracteres e responsabilidades; e dessa revisão sairam profundamente

alteradas na sua nobreza, na sua razão e pureza, e na sua mais humilde

utilidade. Palavras que eram um paládio transfiguráram-se em espéctros,

muito resplendor se apagou, muita treva se iluminou, muito poder se

arruinou, muito fetichismo se desfez.

De algumas dessas heresias, que tenho por fundamentais e destinadas a

uma influência incalculável no futuro das sociedades humanas, colhi

nestas folhas umas breves notas, na esperança, senão na certeza, de que

não pouco poderão esclarecer, e sobretudo fortalecer, nestas horas de

angustia, os que as meditárem.

Umas foram já impressas no _Diário de Noticias_, de Lisboa; outras, o

maior número, vem agora a público pela primeira vez. E de tal modo me

alarguei ceifando em seára alheia, que, constituindo as notas que se

referem à _Arte de Gastar_ uma versão quási completa do magnífico

opúsculo do sr. E. J. Urwick, julguei-me obrigado a solicitar do editor

sr. Humphrey Milford a autorização necessária para a tradução, que êle

bondosamente me concedeu, com uma gentileza pela qual confesso aqui o

meu reconhecimento.

Não vão os tempos para profecias. Tão profundo é o tumulto em que o

mundo se atropela desvairado, que todas são perigosas e se arriscam a um

desmentido rápido e radical.

Foi a guerra iniciada em nome da liberdade dos pequenos povos e do

respeito da justiça entre os homens e as nações. Mas não teremos que nos

surpreender se, chegada a hora da paz e da vitória, forem os primeiros

despotas aqueles mesmos que clamaram pela libertação dos oprimidos e no

seu clamor conduziram os exercitos às batalhas.

Não teremos de que nos surpreender, se esse for o epílogo desta inaudita

desgraça. Em primeiro logar, a guerra é só por si uma escola de

despotismo para vencedores e vencidos; é, como agora aconteceu em todos

os paises interessados no conflito, sem excepção, a suspensão absoluta

de todas as liberdades e direitos individuais, a absorpção de todas as

forças e de todas as actividades sociais, uma violência sem limites,

involvendo vidas e bens em uma temerosa vertigem do estado. De uma tal

situação ficam resíduos; de semelhante incêndio restarão, pela força das

cousas, ruínas fumegantes. O que era temporário tornar-se-á facilmente

permanente, máu foi ter-se fundado; o que se decretára para salvação da

republica, astuciosamente se continua para vantagem das dinastias e das

oligarquias. Houve uma fermentação cuja vitalidade reanimou muitos

elementos mortos e dormentes e cujos efeitos vão muito alêm do periodo

que a levantou, compreendendo por simples contágio muita cousa que lhe

era estranha.

Depois, convém não esquecer que a torrente dos impulsos económicos

pesará duramente na vida das nações empenhadas na guerra.

A ruina foi de uma vastidão insondável. A riqueza que por diversos modos

se aniquilou na guerra, excedeu quanto os cálculos podem atingir e

quanto os números podem somar. Não há arimética possível para volumes

desta largueza e complexidade.

Finda a guerra, êsses valores perdidos hão-de, naturalmente, procurar

uma restauração pura e simples, uma reintegração de posse, por processos

e em termos inteiramente conformes com o estado anterior ao desastre. E

êsse estado económico, que foi uma das causas mais poderosas desta

calamidade que nos aterra, é fundamentalmente despótico, e nem por outro

modo tem probabilidades de subsistir. Um publicista de grande autoridade

na imprensa inglesa, o professor L. P. Jacks, escrevendo no _Hibbert

Journal_ sôbre «a tirania das cousas que são meramente cousas», mostrou

como a mecânica e os maquinismos, «primitivamente destinados ao serviço

dos homens, se tornaram a muitos respeitos o seu senhor.» «O militarismo

e o industrialismo, como hoje existem na Europa, teem a sua origem em

uma fonte comum. Ambos esclarecem a inclinação dada ao espírito humano

pelo culto do maquinismo, que tão extensamente se tornou dominante na

vida espiritual do mundo ocidental.» «Ganha terreno a suspeita de que o

industrialismo deve afinal ser contado, em si e por si, entre as causas

positivas da guerra. Acrescentando a riqueza, a ostentação e o orgulho

dos povos, não servirá para acentuar as suas rivalidades, para cavar

mais fundas as suas invejas, e para inflamar as suas paixões

predatórias?»

Ora não é de crêr que o industrialismo, causa de guerra e dos seus

despotismos, abdique de boa mente do seu império e renuncie às armas com

que o sustenta, mórmente depois de ter sido o soldado mais forte da

guerra, que se fez mais nas fábricas e nas fundições monstruosas do que

nos campos de batalha, onde os soldados empregáram os engenhos de morte

que as oficinas e os laboratórios criavam e lhes mandavam.

Se ao industrialismo, de sua natureza despótico, que com grande cópia de

alegações ha-de reclamar o antigo logar, juntarmos as urgências

financeiras, ansiosas por uma organização económica fácil e

abundantemente colectável, se houverem de ser consideradas as

necessidades fiscais dos estados esmagados com dívidas fabulosas que se

contraíram rapidamente, mas que levam anos a saldar, muitos anos e muito

penosos, não será de estranhar que a guerra, no seu seguimento imediato,

robusteça aquela constituição do trabalho que, seguramente, por uma já

longa e amargurada experiencia, sabemos ser a mais perfeita negação da

liberdade, a mais fatal das opressões.

Todavia, embora quaisquer profecias se achem evidentemente sujeitas a

formais desenganos, ousarei dizer que alguma cousa é certa desde já nos

resultados da guerra. Podem as instituições políticas e os sistemas

económicos ser arquitetados e fundados como melhor convenha aos

caprichos dos reis, à fortuna dos homens, à sapiência diplomática e aos

seus sortilégios cabalisticos. Póde ser que, afinal, a guerra pareça,

nos seus efeitos concretos, radicalmente contrária aos sonhos de

liberdade que inflamaram os seus incendios e precipitaram as suas

hecatombes. Mas determinou uma renovação da consciência, uma filosofia,

uma moral, um modo de ser economico, um renascimento íntimo, que são de

durar e crescer, invulneráveis às artes dos imperadores e ao poder dos

vendilhões, superiores ao seu domínio.

A catástrofe de 1914 «não foi na realidade um acontecimento que mudou o

mundo. Foi uma grande mudança do mundo que rematou em um grande

acontecimento, cujo final ainda não é conhecido de homem algum[1].» Foi

essencialmente uma agonia espiritual perante a qual importam pouco e

serão transitórias as alterações ou a persistência da ordem material do

mundo.

O poder de revelação deste cataclismo excede muito a força de destruição

das edificações materiais que pulverisou. «A verdade é que entramos em

relações com um novo mundo que até aqui nos foi desconhecido. Poderes

espirituais até hoje invisiveis aparecem no seu ambiente. Digo

«invisiveis», sómente porque a sua acção se ocultava aos homens emquanto

êles andavam imersos nos cuidados do bem-estar material. E agora, neste

mesmo momento em que o mundo se alaga em sangue, e uma tormenta de fogo,

destruindo tudo na sua passagem, ameaça converter em pó e cinzas o nosso

bem-estar--eis que os cegos vêem e os surdos começam a ouvir.

Obscuramente pressentimos a aproximar-se a vitoria do espírito sôbre o

cáos. Quasi podemos dizer que uma scentelha desprendendo-se da

tempestade universal nos revelou subitamente um novo aspecto do mundo...

Além do inferno que se desencadeou sôbre a terra, distinguimos a

presença de um Poder mais alto, sôbre o qual o inferno não prevalece; e

é a êste poder mais alto que o futuro pertence. A sua acção é sempre a

mesma--no indivíduo, na nação e na humanidade. Afirma a vida contra a

morte e a integridade daquilo que vive contra as forças que o

dissolveriam. Vimos êste Poder incarnando em uma longa sucessão de

aparições que nos surpreendem. É precisamente nesta antecipação da sua

conquista final no futuro que encontramos a inolvidável significação da

guerra presente[2]».

Progresso, só no espírito existe. O materialismo de que a Alemanha foi

neste momento um estupendo representante, esplendido em seu género,

valerá tanto ou tão pouco nas cousas da terra como nos reinos do puro

pensamento. «Parecia dominar como filosofia na hora presente. Tinha a

seu favor uma certa força. Estamos em um mundo material, e os que

estudam o organismo corporeo andam sujeitos a virem gradualmente a uma

espécie de conclusão de que êle é a existência inteira. Por isso erram.

A matéria é muito importante, mas por modo algum é a totalidade do

universo. Há dois aspectos do universo, o espiritual e o material, e um

tem de ser aproveitado pelo outro. Não póde admitir-se que o aspécto

material domine; tem de servir as necessidades do espírito. A nota do

universo material é repetição; a nota do universo espiritual ou psiquico

não é, porêm, repetição, mas progresso. Isto se vê na história do nosso

próprio mundo--primeiro os animais inferiores, depois os animais

superiores, e por fim o homem. O que depois disto virá, não o sabemos

ainda, mas estamos longe da perfeição. Deve ser qualquer cousa melhor. O

próprio homem se tornará melhor sôbre a terra. E, assim como para o

indivíduo, o progresso da evolução não tem fim. Temos de compreender que

somos todos seres eternos, que temos um destino infinito deante de nós,

ou para cima ou para baixo, conforme o nosso caracter e atributos. Esta

é a nota do universo espiritual. O seu resultado é a vida, e a vida cada

vez maior. A soma de vida no universo parece crescer continuamente,

emquanto a soma de matéria e energia não cresce; esta é constante. A

inteligência póde crescer; póde crescer a felicidade; póde o

conhecimento espiritual atingir alturas presentemente inacessiveis[3]».

Apliquemos à crise presente êstes princípios, que são universais.

Procuremos um balanço exacto e consciencioso das alterações que a guerra

trouxe e nos deixou. Logo veremos a profundeza do seu alcance e os seus

lucros positivos um desenvolvimento de sensibilidade moral e religiosa

nas sociedades cultas, como jámais se viu, uma acentuação de tendências

de liberdade, de justiça, de amor e de religiosidade que acrescentáram

em proporções assombrosas os tesouros da vida do espírito, único

progresso possível, único que importa o domínio da matéria, mesmo quando

a materialidade se reputa fortalecida e inexpugnável pela solidez das

suas filosofias e sistemas, pelo poder das armas e da riqueza, e pela

prepotência triunfante e orgulhosa sôbre as infinitas escravidões que a

servem e são a sua mais funda aspiração e o seu mais eficaz instrumento

de reinar.

Mais prolongada no tempo e nas conseqùências, sobretudo infinitamente

mais fecunda do que a breve e incerta jornada militar, política e

económica em que tiver de rematar os combates, será a jornada moral e

religiosa a que a guerra nos conduziu. Não há poderes do mundo que a

perturbem. Porventura será mais activa quando êles menos a favorecerem.

A necessidade de reacção acelera-a e fortifica-a.

Talvez então, quando fôr a seu termo, as guerras nos pareçam, além da

«futilidade» que hoje são, uma infantilidade cruel, de que nos

lembraremos com a mesma opressão do coração que nos mortifica, se na

mente nos passa a recordação dos ninhos que na meninice destruimos e das

vidas que por capricho sacrificamos. E na humanidade chegada à edade da

razão a _Eneida_ será porventura um conto para crianças, e os herois que

nos exaltaram perder-se-ão em trevas distantes como aquelas em que

entrevemos a rudeza da edade da pedra.

Convulsões dum enfêrmo

Quando em 29 de julho de 1914 a Alemanha enviou à Russia uma declaração

de guerra, o mundo, acordando tragicamente da sordidez indolente e

gananciosa dos interesses baixos e das corrompidas comodidades, enervado

por longos anos de paz empregados em abrandar a fúria insaciável dos

seus prazeres e complexas sensualidades, julgou no auge da indignação

que um pensamento monstruosamente scelerado meditára e consumava um

«crime contra a civilização», o maior e o mais odioso que jámais se

sonhára e praticára na história da humanidade. Declaradamente se

armavam, havia quási meio século, os grandes poderes militares da

Europa; engrandeciam os exércitos, acrescentavam as armadas, acumulavam

os canhões, amontoavam munições e edificavam fortalezas por modo nunca

visto. Mas a confiança na autoridade e eficácia do velho preceito que

nos mandava preparar para a guerra se queriamos a paz, sustentava uma

segurança profunda e a tranquilidade, como certeza, de que tão

dispendioso e aturado forjar dos arsenais era apenas um côro de louvores

à glória da paz, soberana, possuindo o mundo, conquistando-o dia a dia

pela sua fascinação e ainda pelos engenhos de guerra que prometiam uma

inviolabilidade formidável a quem os soubesse fabricar e usar.

Depois, não estava demonstrado que a guerra importava a ruina de

vencedores e vencidos, e era de todo incompatível com a sustentação e

prosperidades das riquezas industriais e mercantis que a custo e com

enorme esfôrço haviamos criado e nos absorviam? Os pensadores, os

economistas e os homens de boa fé e melhor razão não tinham provado que

só por demência, e jámais por conveniência ou glória de uma nação, fôsse

ela qual fôsse, se poderiam desencadear ou consentir tão insensatos e

pavorosos cataclismos? A paz era reconhecidamente o mais lucrativo dos

negócios, emquanto as armas significavam a mais sólida das garantias da

amizade entre os povos. Apesar dos vaticinios de profetas tenebrosos

impenitentes, que tambêm os havia e não cessavam de agourar desgraças,

tendo por fatal a hora terrível de uma guerra europeia, o mundo ia

remexendo os seus oiros e os seus estercos, os seus bens e as suas

devassidões, convencido de que a bonança, uma perene bonança orgiaca,

era de ora em diante a lei da vida.

De facto, a guerra, lançando o fogo subitamente a todos os paioes,

surpreendia-o. Era a subversão das suas melhores crenças. Não podia

crê-la.

Quem ousava lançar a terra inteira nessa insondável voragem?!...

A guerra, no primeiro momento dêsse aflitivo e desvairado despertar, era

unicamente o fruto amargo da soberba lugubre dos que governam as nações,

alimentada na obscuridade das chancelarias, moralmente obtusas e

empedernidas e ignobilmente ávidas e crueis, de todo desprendidas do

zelo e respeito da fortuna dos povos que um desapiedado egoismo lhes

fazia ignorar; e a traição aos arrebatamentos da ventura em que viviamos

era executada e proclamada pelo braço e pela bôca de três imperadores,

um caduco na senilidade própria dos seus anos, o outro demente de raça e

de vaidade, e o terceiro não muito são, sujeito a acessos de melancolia.

Eram êles que na mais atroz loucura gerada de imaginárias ambições

lançavam uns contra os outros homens de todos os continentes, por igual

escravos do trabalho, que realmente se amavam e não tinham motivos para

se desamarem, e antes sentiam razões poderosas para se auxiliarem e

unirem. Eram êles os reus da atrocidade estupenda que ia cobrir de

desolação e de cadáveres o chão que Deus nos dera e nós queriamos para

criar e cultivar o pão, e os filhos e a arte e a religião, toda a

fortuna, toda a dignidade e toda a glória da nossa espécie.

Poucos dias, porêm, haviam decorrido desde a primeira hora de espanto e

aversão, e uma vaga consciência começou a mostrar que sob o impulso e

comando dos imperadores e dos generais, sob as cobiças das castas

militares e dos seus chefes, inflamando-as e explicando-as, senão

legitimando-as, entre o estrépito dos cavalos e dos canhões, havia o

conflito das raças, uma diversidade e uma incompatibilidade de

aspirações que se excluiam e por condição estavam sem remissão

destinadas a chegarem à agudeza dos combates em que se encontravam.

Bastaram as primeiras batalhas e as primeiras vitórias dos alemães na

Bélgica para que uma luz súbita mudasse todos os apectos. As primeiras

atrocidades que os exércitos da Alemanha cometeram, perante o

desrespeito dos tratados confessado com um extremo impudor e a perfídia

cínica em sua hedionda nudez, perante a hospitalidade traída,

construíndo fortalezas ocultas e pondo espiões onde com amizade eram

acolhidos, perante o morticínio de velhos e crianças, o insulto e

injúria das mulheres e a destruìção e saque dos mais preciosos tesouros

do espírito humano, mal se revelou a animalidade barbara que alimentava

a fúria germanica, compreendeu-se a que tremendo duelo eramos chamados.

E, assistindo à ressurreição dos sentimentos e processos que ha longos

séculos tinham movido as hordas teutónicas, de tenebrosa e amaldiçoada

fama, e se julgavam para sempre condenados e banidos, e confrontando-os

com o espírito religioso de abnegação e bondade que animava o slavo, com

o respeito, decôro e dignidade que é honra e brazão do mundo britânico,

e com a gentileza e rectidão que em toda a conjunctura caracteriza o

espírito gaulez, estremados assim fundamente os campos ao fim de um mês

de hostilidades, a experiência estava feita e o desengano acabado, e o

primeiro ministro da Inglaterra, Asquith, no discurso magistral que

pronunciou no Guildhall, podia dizer com o aplauso retumbante da Grã

Bretanha e de todo o mundo culto:--«Não é um conflito meramente

material, é tambêm um conflito espiritual. Das suas últimas

conseqùências se verá que mais tarde ou mais cedo dependem tudo o que

contêm promessa e esperança, que conduz à emancipação e mais completa

liberdade de milhões que constituem a massa do género humano».

Quem tinha olhos para ver, entendimento para considerar e sôbretudo

coração para sentir, logo sem a menor sombra se convenceu de que,

envolvido no tropel das ambições políticas e das rivalidades militares,

o que rialmente as precipitava em um embate temeroso era a

incompatibilidade, irreconciliável e ardente, entre a fôrça e o direito,

entre a brutalidade e o respeito, moderação e tolerância, entre as

cobiças da sordidez e o desprendimento da nobreza, entre o cinismo e a

crença, entre a liberdade e o despotismo, entre a boa fé e a

deslealdade, entre o orgulho e a modéstia, entre a candura e a

corrupção, entre o Deus do sacrificio à caridade e à bondade e o Deus

das batalhas, da avareza e do ódio. Nem sequer era uma disputa de

doutrinas e de sistemas; era e é uma oposição violenta de temperamentos,

uma divergência de modos de ser sociais, morais e religiosos entre si

antipáticos até à exclusão mútua. Era Tolstoi contra Strauss, Ruskin

contra Bismarck, Voltaire contra Treitschke, o monismo degradante de um

Ernesto Haeckel contra o dualismo espiritualista, nobre, credor

inflexível de responsabilidades, de um Alfredo Wallace; era a fé, a

graça, a justiça e a liberdade contra o scepticismo, a bruteza e o

despotismo, embora os primeiros se apresentassem desprotegidos de

previsão e astucia e os últimos viessem servidos pelo estudo, pelo

metodo e por subtil engenho.

Aos pensadores e erúditos não foi difícil esclarecer-nos, demonstrando

que vinham de longe as incompatibilidades cujas energias contrárias,

agravadas e acumuladas no correr dos anos, chegavam em uma hora

angustiosa a um combate de vida ou de morte. Reeditaram-se e notaram-se,

com a aureola das profecias, palavras de Ruskin nas quais a intuição

penetrante do génio muito cedo apontou a distância que havia entre o

carácter germânico e as tendências britânicas. Já em 1859 Ruskin falava,

em carta a um amigo, do «intenso egoismo e ignorância do pintor alemão

moderno (na sua obra)» que «era indizível no que tinha de ofensivo. A

eterna vaidade e vulgaridade mascarando-se de piedade e poesia, a surdez

profunda a toda a beleza rial, inchada em abomináveis caricaturas

daquilo que êles imaginam ser o carácter germânico, a absorpção de todo

o amor de Deus ou do homem na impaciência de aplauso» feriam-no e

repugnavam-lhe. Na França ainda êle achava certa paixão de beleza,

embora não fôsse senão na faina de um açougue ou na concupiscência; «mas

o alemão era por demais vão para se deliciar no quer que fôsse».

Nem tinha mudado de sentir em 1874, não obstante muito haver mudado a

reputação do valor alemão nas coisas do mundo. Então escrevia:--«As

bençãos são apenas para os dôces e misericordiosos, e um alemão não pode

ser uma coisa nem outra; nem sequer compreende o que essas palavras

signifiquem». «Egoista nos mais puros estados de virtude e moralidade»,

«não ha sôma de saber que possa jámais fazer modesto um alemão». De modo

que, quando os alemães se apossam da Lombardia, bombardeiam Veneza,

roubam-lhe os quadros (de que não podem compreender nem um traço), e

inteiramente arruinam o país moral e físicamente, deixando atraz de si

miséria, vicio e ódio profundo, onde quer que os seus malditos pés hajam

pisado. Foi precisamente o mesmo que fizeram em França--esmagaram-na,

roubaram-na, deixaram-na na miséria do desespero e da vergonha, e fôram

para casa a lamber os beiços e a cantar «Te-Deus».

O almirante Von Tirpitz, interrogado pelo senador Beveridge, homem

público muito popular nos Estados Unidos da América, disse-lhe que «o

povo alemão se tornára feliz e prospero pelos velhos métodos de duro

trabalho, vida limpa e pensamento claro. Tomára os mercados da

Inglaterra, porque o inglês insistia nas suas férias, nos seus dias

livres em cada semana e nos sports». Querendo glorificar o temperamento

alemão e explicar as suas conquistas, depreciando ao mesmo tempo a vida

inglesa, estabelecia um confronto no qual se definiam admiravelmente o

caracter e tendências dos dois povos em guerra. Vive um para enriquecer;

nisso se absorve e consome absolutamente, empregando um talento e arte

que são maravilha. Quer o outro férias que lhe são indispensáveis para a

contemplação e intimidade da natureza e para cultivar aspirações

apolineas; e disto fez uma religião.

Renovaram-se as lições do passado; e pelos factos presentes

compreendem-se hoje em toda a extensão os clamores, escritos e pregações

dos profetas, guias e educadores da Alemanha moderna, entre os quais

ficará de triste celebridade a obra de Bernhardi, cujo pensamento

fundamental é de uma simplicidade incomparável:--«A Alemanha tem nos

destinos do mundo uma alta e divina missão, espalhar a sua cultura,

levar a cabo o renascimento dos homens e das sociedades na cultura

germânica e pela cultura germânica, e o processo único de cumprir êsse

destino religioso é o ferro e o fogo, o poder militar e a aniquilação

radical de todos os povos que não sejam da opinião do missionario

vencedor ou não se sujeitem à sua despótica vontade e império. A

cultura, no seu derramamento, começaria esmagando a França que, sendo a

inimiga mais inquieta e perigosa pela agilidade e fascinação do seu

espírito, é a primeira que à Alemanha cumpre suprimir para capazmente

desimpedir o caminho.

Rematava nisto o bismarkismo, talvez interpertrado muito àlêm ou fora

dos seus princípios. Concluia pela prussificação de toda a Alemanha,

afagada, soprada e insinuada no sangue teutónico e nos afins por

nascimento ou inclinação, por todas as universidades, todos os prélos e

todos os mestre-escolas, e divulgada aos quatro ventos, em todo o globo,

por enxames de caixeiros viajantes transportados em navios sumptuosos

com matrícula em Hamburgo.

Levou tempo a fazer e deu muito trabalho essa nova Alemanha. Para isso

foi necessário arrazar, como alegremente se arrazou, até aos alicerces,

aquela outra Alemanha gloriosa, dos tempos em que militarmente era

vencida, a Alemanha de Kant, de Lessing, de Goethe e de Beethoven, do

tempo em que, toda impregnada de idealismo, de sabedoria, arte,

ingenuidade, simplicidade e anceios de liberdade, tinha menos sciência

de laboratório e mais sciência do coração, e não sabia mentir, intrigar,

corromper e oprimir. Mas isso se fez completamente. Não falta entre os

seus filhos quem, vendo maguadamente e sem paixão a situação, termine

por confessar que os alemães «deixaram de ser uma nação de pensadores,

poetas a sonhadores e agora só procuram o domínio e exploração da

natureza... Conservaram um harmonioso equilíbrio entre o desenvolvimento

económico e o desenvolvimento moral como algum dia sucedeu com os

gregos? Não; com o enorme crescimento da riqueza negras sombras caíram

sôbre a vida nacional. Na nação como no indivíduo, vemos com o

crescimento da riqueza o decrescimento do sentimento moral».

Nem mesmo Nietzsche, que, isento de sentimentalismos e branduras, não

adorou pouco a fôrça e uma robustez pagã, nem êsse poupou à cultura

alemã o mais amargo desdem, insurgindo-se contra essa sua «obscuridade»

e «nausea», que «todos os deuses aprenderam a temer. Se alguem quizesse

vêr a alma germânica demonstrada «ad oculos», que observasse o gosto

germânico, as artes e os modos germânicos. Que grosseira indiferença

pelo gosto!» Para «todo o leitor que tivesse um «terceiro» ouvido»,

dizia, eram «uma tortura» os livros escritos em alemão, «sem tom, sem

ritmo nem cadência». O próprio alemão lia «mal», negligentemente

arrastado.

Para ser lógico, o alemão tinha de descer a toda essa dureza e de varrer

do espírito tudo o que não significasse meramente a fôrça e poder de

subjugar físicamente. Outra coisa não era de prevêr. As virtudes da

caserna aborrecem e cortam o desenvolvimento dos subtis e eternos

encantos das academias, embora êsse comércio de sentir e pensar e dizer,

que só em si se alegra e alimenta e se atribui a delicadeza da vida e

muito da sua grandeza, valha muito no conceito dos homens e na sua

felicidade, sem embargo de ser ignorado pelo militarismo, mercê da sua

natural rebeldia no conhecimento de qualquer coisa estranha à arte da

brutalidade e da chacina sábiamente organizadas e condecoradas. E esta

Alemanha bismarkina, militarisada até à medula dos ossos, materialisada

em todo o sentido, purgada, em absoluto, de influências idealistas,

fazendo da disciplina, obediência, ordem e comodidades a razão última da

nossa existência, reduzida a um rebanho de animais bem ensinados e bem

mantidos, de pêlo luzidio e músculos titânicos, prontos à voz e dóceis

ao chicote, esta Alemanha edificada de fresco e tendo posto na caserna a

bandeira que arriou da catedral gótica e dos paços da cidade, tingindo-a

de novas côres, surpreende-se, muito sincera e candidamente, se o mundo

lhe significa pela inimizade que detesta a sua cultura.

Não sabe a Alemanha explicar que haja nações civilizadas contra ela

unidas com os povos da Rússia, semi-bárbaros no seu conceito. Como

sujeitam a Europa ao risco da sua invasão e predomínio, chamando-os e

admitindo-os, em pé de igualdade, de portas a dentro dos seus velhos

palacios?!... Pasma desta infidelidade à sua cultura e outra cousa não

compreenderá, pois, destituída de todo o sentimento verdadeiramente

cristão, não percebe os laços que juntam os povos educados no Evangelho,

fazendo do Evangelho a razão suprema da existência; e outros não há que

mais profundamente o sigam e nêle creiam do que a Grã-Bretanha e a

Rússia, apezar de viverem sob instituìções políticas opostas em

larguíssima escala. Porque deixou apagar todos os impulsos íntimos do

amor, trocados pelos regalos do estomago, não atinge que aquilo que os

povos aliados seus visinhos e inimigos correm a combater, é exactamente

a cultura alemã, esta aspiração que reduziu a fortuna e contentamento da

humanidade a comer bem, beber melhor, dormir quente e descansado, andar

agasalhado, ter uma velhice farta e tranquila, remédios, médicos e bons

hospitais nas doenças, habitações esmeradas, e gaz, electricidade,

caminhos de ferro, muitas oficinas, cinematógrafos, telefones e

gramofones, e quanto, e sómente quanto, se paga a dinheiro nos mercados

e se encomenda nas fábricas, sendo tudo isso regido por uma política e

por uma mecanica administrativa que na precisão matemática em nada

difere das máquinas de aço e que pelas suas potentes alavancas reduziu o

homem à mísera condição de matéria prima, questão de número, volume e

qualidades físico-químicas, tal qual o minério que se tirou das

profundezas da terra. Não concebe que foi o extremo fastio dessa

cultura, em que tudo foi cultivado menos a liberdade e o amor entre os

homens, êsse reino incontestado da alma, o que impeliu para a guerra as

raças que o adoram, outro não suportam e o vêem ameaçado: não concebe

que entre exércitos que, como o alemão, deixam, por onde passam, uma

esteira infinita de garrafas vasias, e os que, como o da Russia, proìbem

o alcool entre as suas gentes, sacrificando para isso os melhores

rendimentos do tesouro pùblico, não concebe que só isso seja informação

suficiente de que interesses morais estão em jogo no que aparentemente

os incautos tomarão apênas pela guerra das ambições dos reis e das

castas políticas e militares. Nem por sombras imaginará que estas lutas

de vida ou de morte são as convulsões de uma civilização enferma de

inanidade religiosa e de gôso, cansada do peso da cultura absurda das

materialidades, caída em um desespero febril de libertação dos germens

mórbidos que lhe invadiram o sangue e lhe converteram a vida em

tormento.

Se me quizerem contraditar, dir-me hão que a religião, e muito em

especial o cristianismo, tem na Alemanha os seus historiadores mais

profundos e os estudiosos mais penetrantes. Não pouco terão êles

concorrido para manter acesos, ao abrigo dos vendavais da filosofia

racionalista, os fachos do mais sublimado idealismo.

O que é incontestável, reconheça-se. Simplesmente convêm advertir e

ponderar que a «sciência» religiosa alemã, aliás assombrosa, é uma

cousa, e a «emoção» religiosa inglesa e o «ascetismo» russo são outra

cousa; e o que nas margens do Reno é um valor intelectual, conclusão de

silogismos, demonstração de textos e arquivos, elemento de compreensão

do mundo e dos homens, é fora dali, em terras suas inimigas, um valor

moral, fundamento e motivo de proceder nas relações individuais e

sociais. De modo que o que algures se tornou objecto de curiosidade, sem

duvida salutar e benéfica, que se cultiva de mistura com todas as outras

culturas, é em paragens próximas uma fôrça tão misteriosa como

soberanamente poderosa, obedecida superiormente a todas as outras fôrças

a que o homem está sujeito. E ai estará a razão pela qual a Alemanha,

sendo país de muita religião e teologia escolástica, práticamente pouca

religião encontrou, e essa muito acanhada e escassa, fértil em

disciplina e activa em política, mas tão pobre de fé que autorizou e

reclamou, em proclamação dos seus sacerdotes mais graduados, a vingança

a que a Áustria devia sujeitar a Sérvia porque um principe fôra

assassinado.

Um nosso prelado que conhece o sertão africano e aí tem exercido a sua

missão sacerdotal com uma dedicação exemplar, contava-me há pouco que o

negro prefere o domínio português ao domínio alemão, porque, no lúcido

instinto que o não engana, considera que, quando o preto tem culpa,

ajoelha, põe as mãos, e o branco, se é português, perdôa, e, se é

alemão, castiga sem dó nem piedade, como se perdão não lhe houvesse

implorado.

Isto compreendeu o negro e não o compreendeu o alemão no aviltamento

moral da sua maravilhosa cultura, em que a misericórdia não teve lugar;

e por isso é bem de crêr que o negro compreenderia o que o alemão não

alcança, quando lhe dissessem que a guerra que se espalhou no mundo e o

inunda de sangue e de dôr, é a guerra entre os que perdoam, quando os

delinqùentes ajoelham, e os que não sabem perdoar, nem mesmo em face da

mais submissa humildade e contrição.

Alguma cousa nos diz que não estão em êrro aqueles que anunciam como

fruto desta guerra tremenda uma renovação de todo o nosso modo de ser

social. Ousarei até acrescentar que essas conseqùências últimas da

guerra, mais do que esboçadas, acentuando-se já clarissimamente em

pontos essênciais, são certas e inevitáveis, independentemente da

vitória das armas. Desde a lição formidável da queda do império romano,

abdicando das suas velhas fôrças morais, das que considerava fundamentos

da sua austéra e cruel grandeza, e entregando as rendidas a um poder

mais alto, à inspiração cristã, desde então nunca mais o materialismo,

culto ou inculto, e o idealismo, ingénuo ou refletido, se encontraram em

conflito sem que, tarde ou cedo, o idealismo, erguendo-se de todas as

derrotas, não acabasse por arrastar os homens e os conduzir à alegria e

à felicidade em reinos superiores à sordidêz do mundo, mesmo quando essa

sordidêz fôsse abundantemente doirada e inteligentemente regrada. Desde

que esta alma acorde, confundirá, por fôrça ou por arte, pela

irresistibilidade que é a sua essência, aquela outra alma de baixa

servidão terrena que lhe repugna.

Anunciam os augures políticos que esta guerra traz comsigo a libertação

das pequenas nacionalidades. Mas, entrevendo em semelhante empreza mais

do que uma conquista de meras liberdades políticas e de independência

dos povos, recordando a dissolução do império romano, seguida da

fragmentação medieval, e aproximando-a da revolução iminente dos

impérios modernos nas suas tendências descentralisadoras, já amplamente

e brilhantemente exemplificadas na Inglaterra, não estará muito afastado

da realidade quem supozer a política levada neste pendor pelo surdo

impulso de fôrças morais e religiosas, pela pressão das exigências da

mentalidade característica da nossa era. Á liberdade do pensamento,

emancipada de toda a espécie de dogmatismo, exaltada e avigorada pelo

estudo, pela experiência e pela reflexão, corresponde a pulverização das

crenças e das aspirações, a infinita variedade do modo de ser

intelectual, moral, religioso e estético do nosso tempo, demandando com

a legitimidade da revisão e contestação de toda a fé a legitimidade e

direitos de tolerância de todo o espírito nas suas manifestações

especulativas e concretas. Dentro de grandes linhas psicológicas

fundamentais, a diversidade é extrema e reclama liberdades correlativas,

a assegurar-lhe a expansão. Quando, por exemplo, e o mais vulgar, uns

pedem «Deus, Pátria e Rei» e outros exigem «Liberdade, Igualdade e

Fraternidade», podemos estar certos de que de cada lado não se apuram

algumas centenas de homens que vejam Deus no mesmo altar, que amem na

pátria as mesmas feições, que dêem ao rei o mesmo trono, que encerrem a

liberdade nos mesmos limites, repartam pela mesma medida a igualdade e

sintam pelo mesmo coração a fraternidade. Ora à desagregação do

pensamento tem de corresponder, naturalmente, a pulverisação dos poderes

políticos que não podem subsistir na antiga integridade e extensão sem a

unidade de tendências mentais, constantemente contrariados, minados e

traídos por obscuras mas indomáveis rebeldias. Se vêmos um estupendo

império, como o da Grã-Bretanha, englobando sob a mesma bandeira,

irmãmente querida e amada, as raças mais diversas e as mais diversas

aspirações, é porque para êsse milagre político, sem precedente na

história, se criou um povo em cujo génio, por uma arte que é maravilha

de espontânea perfeição, se conciliam praticamente as maiores e

desusadas liberdades com a coincidência em uma unidade, para a qual

provavelmente só se encontrará justificação na comunidade de amor à

própria liberdade e no propósito íntimo de a manter e defender.

Sendo, porêm, excepcional este modo de ser e sendo ao mesmo tempo

evidente que não conseguiu êle até hoje reproduzir-se, particularmente

no continente da Europa, onde à extrema desagregação do pensamento, de

todo carecido de unidade, se junta a extrema opressão dos impérios, de

todo avessos a suportarem independências, o conflito tem de seguir seus

trâmites para abolir uma unidade forçada que a unidade psicológica não

autoriza; e para satisfazer a diversidade pela liberdade há de encontrar

as soluções convenientes. Os ingleses não exageram, quando dizem que

combatem tanto pela Inglaterra como pela Alemanha. De facto, preparam a

vitória de princípios, por cujo triunfo anseiam todos os povos chegados

à idade da razão.

O que êsses povos vão fazer déssa liberdade, até onde a levam, para que

a querem e em que a aplicarão, o que ela vai demolir e o que ela vai

construir, não é fácil prevê-lo, como não é fácil prever que destino as

estações reservam à planta que hoje nasce bafejada do sol e ámanhã se

verga e esmorece açoitada do temporal. Mas dêsde já se torna manifesto

que estamos em vésperas de uma profunda reacção, pois que por efeitos de

reacção chegámos à convulsão presente. Desde já se adivinha que a

negação da cultura alemã, e negada está seja qual fôr a sorte das armas,

sendo ela a cultura e a ambição meditada e tenaz de toda a especie de

materialidades, implica um largo desprendimento de infinitas

materialidades com que agora sobrecarregamos e afligimos a vida. O dr.

Inge, prégando há pouco em Londres, na abadia de Westminster, e

discorrendo sobre as conseqùências da guerra, definiu o que entre os

pensadores começa a distinguir-se nitidamente, dizendo: «Teremos de nos

contentar no futuro com uma vida mais chã e, espero, com um mais alto

pensar. Se assim fôr, veremos a verdade daquêle velho e belo proverbio

espanhol, de que «Deus nunca bate com ambas as mãos». As nossas perdas

seriam ganhos.»

Mesmo entre nós, alguma coisa se passará de conseqùências talvez

larguissimas, e porventura altamente benéficas, apezar da crise dolorosa

a que nos sujeitam.

É sabido que os rendimentos das alfândegas chegaram a baixar em

proporções assustadoras. Significa isso a privação de muita coisa que

sempre nos será indispensável e que por qualquer modo teremos de criar

ou substituir, e significa tambêm a abstenção de muita outra coisa que

sempre nos foi supérflua, só por vício se divulgou e é urgente suprimir.

Se esta situação persistir, a que modificações obrigará a economia do

pais e respectivamente a economia de cada um? Acontecerá que por

urgência das pressões económicas cheguemos a um nacionalismo e a uma

simplicidade aos quais nenhum incentivo moral póde levar-nos, e em favor

dos quais se esfalfaram em vão a arte mais sã, o mais bem inspirado

patriotismo e mais modesto bom senso?

Evidentemente, a alma dos povos não se vence e aniquila e transmuda com

aquela prontidão que os canhões mostram ceifando os exércitos e

arrazando as cidades. Não consente mutações instantâneas.

Ámanhã, finda a guerra, os povos que nela combateram e os estranhos que

comovidamente foram testemunhas das suas vicissitudes, continuarão no

seu trabalho, nas suas paixões, nos seus vícios e nas suas virtudes,

como se lhes permanecesse intacto e sem alteração o carácter. Mas novos

ástros se ergueram, brilham e lentamente iluminarão e penetrarão o mundo

com a sua luz, e nele criarão inumeráveis vidas novas. O materialismo

com todas as suas edificações e fortalezas afunda-se no occaso, e o

idealismo, renascido das profundezas onde jazia sepultado, mas não

morto, surge glorioso a revestir a terra desolada.

Ganhos e perdas

Os factos da consciência não esperam os feitos das armas para

reconhecerem e declararem as suas vitórias e derrotas. Pondo em pouco as

conseqùências militares e políticas da guerra, desenhe-se como houver de

se desenhar a divisão da terra, reparta-se como houver de se repartir a

distribuição da fôrça e dos canhões, muito antes disso e

independentemente dos seus destinos e designios já as aspirações e

crenças dos homens definiram e anunciaram tendências e propósitos que da

guerra nasceram ou na guerra encontraram terreno propício, já marcaram

no seu rol vencedores e vencidos, já proclamáram suas determinações

inflexiveis.

Não são poucos, e sôbre tudo não são pequenos, os vencidos da

conflagração tremenda em que o mundo se agita.

Dela sai já gravemente ferido, arrastado e vexado, perdida a corôa e

desprestigiado, o poder magnifico do socialismo que durante longos anos

fez prosélitos, adeptos, martires, herois, em torrentes, por milhões,

apaixonou as multidões, dominou, convenceu e pôz ao seu serviço os reis

e os sapientes, toda a grandeza e autoridade política e moral, o saber,

a virtude e a fôrça.

Chamado a dar conta dos seus compromissos de humanidade, a dizer como,

por que modos e até onde influia na felicidade dos homens e com a

abastança assegurava a paz, a alegria e o amor do proximo, que invocára

para base dos seus direitos e legitimidade dos seus triunfos, mostrou-se

o companheiro e o aliado submisso de todos os despotismos e de todas as

crueldades. Não nos poupou nem um golpe, nem uma lagrima, nem uma

injuria; a todo o morticinio, a toda a opressão e a todo o insulto o

temos visto associado, sem um lamento, sem um gesto de repulsão, escravo

dedicado de um patriotismo todo constituido e só constituido de cobiças

e odios, por completo desconhecendo o que seja e para que sirva a

fraternidade, a magnanimidade, o respeito da liberdade estranha, todo o

Decalogo. Doutrina de autoritarismo e de despotismo económico moralmente

acanhada, reduzindo a vida a uma repartição de comodidades e a uma

cevadeira de necessidades físicas e apetites meramente sensuais, o

socialismo podia importar, e de facto importou, maravilhas de ordem, de

previdência, de agasalho e bom trato, grandes contentamentos do estomago

e grandes regalos, mas era uma mecanica que só considerava o corpo,

deixava intacto isto que chamamos alma e, nada dizendo ao nosso coração,

consentia-lhe que alimentasse a ruindade de sentimentos cujas furias a

guerra soltou; até mesmo assistiu, mais do que indiferente, complacente,

senão contente, à prolongada cultura dessa ruindade, que as obsessões de

grandeza política reputavam um auxiliar eficaz de seus desvairados

sonhos.

Na verdade, o socialismo, sendo reconhecidamente e de antiga data um

despotismo, a abdicação voluntária ou forçada da liberdade individual na

omnipotência do estado, não tinha razão para desamar quaisquer

despotismos seus irmãos; tudo poderia sentir, sincero e coerente nas

suas afirmações, menos a palavra liberdade.

Mas a liberdade não lhe perdoava, jámais lhe perdoou, cedo começou a

apontar-lhe e a exprobar-lhe a infidelidade aquilo sem o que a vida é

pura miseria, embora dourada; e agora, vendo-o arregimentado com o

despotismo e a opressão militar, passa-o ao bando das traidores e

herejes. As sombras dos Proudhon, dos Bakounine, dos Tolstoi, dos

Réclus, como a figura profetica de Kropotkine sorriem tristemente à

desgraça presente e à ruina, mais do que nunca confiadas em que só a

gloria da sua crença poderá resgatar-nos da mortificação. Quantos

apregoavam que os governos são essêncialmente um mal, seja qual fôr a

fórma em que pretendam ocultar seus maleficios, quantos abominaram a

coacção e por a abominarem foram crucificados e sofreram nas enxovias e

na perseguição e no desprezo dos homens, quantos só esperaram a

felicidade das sociedades e a redenção das suas penas fundando-as no

imperio da consciência moral isenta de toda a violência e

constrangimento, sentem renovada e avigorada a sua fé e exaltam-se na

vitória que lhe facultam as calamidades, espalhadas pelos seus

adversarios das alturas dos seus tronos e dos seus tribunais, semeando a

ferro e fogo a fome, a morte, o luto e a desolação, com uma impiedade

inflexivel, obedientemente e brilhantemente servida pelo esforço irado

dos exércitos e pela soberba enfatuada e corrompida das magistraturas.

Filho legitimo do liberalismo dos nossos avós, o anarquismo, na sua alta

expressão filosófica, que não nas suas aberrações criminosas, vê de

súbito a sua bandeira erguida e iluminada de uma nova luz, flutuando

sôbre o naufrágio e confusão da inconsistente e ilusória bondade do

socialismo.

Nem para nós, na estreiteza da nossa descurada mentalidade, é novo o

problema. Ha muito lhe ouvíramos o rebate a que responderam as

imprecações impacientes daqueles a quem êle surpreendia, pondo-lhes em

risco bens e grandezas.

Há vinte anos, António de Serpa,--um talento culto, homem de superior e

nobre capacidade, a que poucos mas os mais eminentes dos seus

contemporâneos fizeram justiça e que o desleixo pátrio se apressou a

esquecer,--escrevia um opusculo sobre «O Anarquismo».

A Guerra: Depoimentos de Herejes · 第 1 / 8 段