inuteis; encontrando-se, em toda a vasta area a que me refiro, mais
facilmente agua em pequenos regatos ou affluentes de affluentes, indo
ella sendo absorvida á proporção que se approxima dos largos leitos
arenosos. Se o centro do Barue não é em geral cortado por abundantes
cursos de agua, os seus limites são quasi todos determinados por
caudalosos rios, cujas margens me parecem excellentes campos para
colonisação.
N'este caso estão as margens do Inhandue, principalmente as do Vunduse
(do Barue), do Pungue ou Aruangua, e ainda apesar da mosca pépsé as do
Caurese e Luenha.
Não deve deixar de ser citado o Inhasonha, o importante affluente do
Pungue, que esse não limita o Barue, mas corre todo dentro d'este reino,
que tem excellente e abundantissima agua e margens adaptadissimas para
colonisação branca.
A ultima viagem através do Barue fez-me melhor apreciar a importancia
dos serviços feitos por Manuel Antonio, causando-me cada vez mais
admiração o ver como um unico homem, pela sua actividade e energia póde,
não só resistir ao ataque que o poderoso e sanguinario Macombe fez á
Gorongosa, mas depois perseguir este potentado, vencel-o e dictar
absolutamente a lei em todo este vasto territorio.
Tenho nota do nome e localidade approximada de mais de trinta aringas,
algumas das quaes, como a de Pangara, me dizem ser vastissimas,
construidas depois que Manuel Antonio se apoderou do Barue, tendo todos
os seus capitães (de que tambem tenho o nome, e a maior parte dos quaes
conheço pessoalmente), cypaes que n'ellas vivem ou n'ellas se agrupam e
os necessarios elementos para a defeza.
É muito interessante e para ser adoptado em territorios novamente
apossados, o systema administrativo, ou antes policial, introduzido por
Manuel Antonio no Barue. A gente que habitava este reino, ou foi morta
durante a guerra, ou fugiu para outras terras ou ficou no Barue,
submettendo-se a Manuel Antonio. Toda a que ficou foi nos differentes
districtos dividida em grupos, sendo-lhes dada como Inhacuavas, chefes
ou representantes para advogarem os seus interesses, homens escolhidos
de entre os grandes do Barue, que mais confiança mereciam a Manuel
Antonio.
Alguns milhares de homens dos nossos prasos da Corôa ou Quitevistas, que
tinham vindo para a Gorongosa foram introduzidos no Barue como cypaes,
agrupados em ensacas, commandadas superiormente pelos capitães. Em quasi
cada uma das talvez quarenta ou mais aringas do Barue ha para um lado da
aringa o recinto reservado do capitão chefe da aringa e sua familia, e
proximo as palhotas dos cypaes e suas familias, e para o outro lado o
recinto reservado do Inhacuava e sua familia e proximo as palhotas de
colonos do Barue. O capitão é sempre homem absolutamente dedicado a
Manuel Antonio e o Inhacuava foi por elle escolhido.
Vi sempre, nas differentes aringas onde estive, a melhor harmonia entre
os inhacuavas e os capitães da aringa. Por accordo entre as duas
auctoridades, os territorios em torno das aringas são divididos para as
culturas ou _colimas_ das familias dos cypaes e dos colonos. Manuel
Antonio ainda não começou a receber tributo ou mussôco no Barue, mas
comprehende-se como é facil fazel-o logo que a isso se resolva.
No Barue ha muita quantidade de cera; cypaes e colonos apanham esta cera
que fica sua propriedade e que elles vendem nas aringas, onde Manuel
Antonio tem fazendas em troca d'estas fazendas.
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Como tenho dito, e como o mappa junto o mostra, o limite oeste do Barue
é o rio Caurese que o separa da terra Guessa, e depois mais para o norte
o rio Luenha que o separa do Inhachiranga, Inhabaco e Marembe.
[Nota lateral: Terras do Changamira.] A terra Guessa do mambo Caterere
fica comprehendida entre o Caurese e o Luenha, e vae estreitando até ao
ponto de affluencia d'aquelle rio com o rio principal. A ponta norte
d'esta terra é pouco accidentada, e quer no meu itinerario da volta,
quer no da ida, ao sul d'aquelle, o caminho é facil e quasi horisontal.
Para o sul, porém, da aringa do Bonga, em todo o terreno que percorri
desde ahi até á aringa do Catarere, o terreno eleva-se successivamente e
torna-se bastante accidentado. Comquanto não tenha podido reconhecer os
montes a que Mauch chamou Bismack e Moltke, é de certo ás serras em
Guessa que ficam ainda para o sul da aringa do Caterere que elle se
referiu quando disse que as serras a leste dos campos de Oiro formavam
uma barreira invencivel aos que a elles pretendessem chegar vindos
d'esse lado. Talvez o dissesse para tirar a vontade aos exploradores
portuguezes.
Pela carta, porém, se vé o pouco que ha a tornear para ir da aringa de
Taua ou da de Tumbura no Barue, até á terra de Macaha, centro dos campos
de oiro de Mauch; e penso que ainda se poderá achar caminho mais
directo, embora ligeiramente mais accidentado, de Tumbura para Macaha,
cortando em altura conveniente o caminho que segue da aringa do Bonga á
do Caterere.
Quando me achava no acampamento do Rupire, vendo tão vizinhas as serras
da margem direita do Mazoe, sabendo que este rio corre apenas uns dois
ou tres dias ao sul da villa do Tete, notando que as relações
commerciaes do Rupire e terras proximas teem quasi exclusivamente tido
logar desde ha seculos com os negociantes d'esta villa, pareceu-me por
algum tempo preferivel que as futuras relações officiaes com o Rupire
tivessem logar pelo districto de Tete.
O que depois se passou, e o que deve ter tido logar depois da minha
partida para a Europa, leva-me a abandonar esta idéa para voltar á
expressa no meu precedente relatorio, confirmando a proposta de que os
limites dos dois districtos, Manica e Tete, sejam determinados pelo
Luenha, desde a sua foz no Zambeze até á altura da confluencia do rio
Mazoe, e depois pelo curso d'este rio; com a differença de que, o que
então indicava como _limite da area de acção_ dos dois districtos,
parece agora dever em breve transformar-se, graças ao que tem sido feito
do lado de Tete, e á occupação do Rupire, em limite _do territorio
effectivo_ dos mesmos districtos.
Não posso resistir a fazer uma comparação que me occorre ao espirito
sempre que penso no resultado do contacto das areas effectivamente
occupadas de dois districtos em colonias nossas, contacto que julgo
nunca teve logar, nem mesmo na provincia de Angola.
Um inventor qualquer descobriu que dois bicos de gaz, collocados proximo
um do outro, combinando as duas chammas, produzem luz mais intensa do
que a da somma das mesmas chammas separadas; um pequeno apparelho movido
por um machinismo de relogio, que se acha n'um mostrador de uma loja em
Londres, apresenta primeiro as duas chammas separadas e parallelas, e
depois, approximando um bico do outro, mostra o extraordinario augmento
da intensidade da luz logo que as chammas chegam ao contacto, para
voltar á simples intensidade das duas luzes simples logo que ellas se
separam. É uma experiencia de gabinete mostrando a verdado da divisa do
escudo belga.
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No dia em que, tendo desapparecido a infamante aringa de Massangano, a
acção directa do districto de Manica chegar á margem directa do Luenha e
do Mazoe, e a do districto de Tete á margem esquerda dos dois rios,
estou convencido que um phenomeno analogo ao que se dá com o contacto
das duas chammas ha de ter logar com grande intensidade.
O imposto do mussôco cobrado em tão vasta area dará em poucos annos um
excesso de rendimento que poderá servir de garantia para levantar
capitaes, que a seu turno empregados em melhoramentos reproductivos
forçosamente farão entrar a Zambezia n'uma progressão de prosperidade
para a qual ninguem se atreverá a dizer que lhe faltam as bases ou os
recursos necessarios.
Toda a margem esquerda do Luenha, que ficaria pertencendo ao districto
de Tete, isto é, desde a foz do rio até á confluencia do Mazoe está hoje
em poder das gentes do Bonga.
Pela margem esquerda do Mazoe acima está o paiz occupado por pequenos
mambos, mas tanto até ao Luenha como até ao Mazoe, pelo menos, por
emquanto, até á latitude 17° ou 17°,30, muito facil será prolongar a
acção directa do districto de Tete por meio de recursos de que o
governador do districto e o capitão mór de Chicoa dispõem, sobretudo
quando procederem de accordo com as auctoridades do districto de Manica.
Logo na minha primeira intervista com Chiquiso, mambo do Rupire, fiquei
surprehendido de lhe ouvir chamar Changamira, e suppuz que n'este paiz,
agora dividido em tão pequenas terras, este mambo seria o herdeiro do
antigo imperador; mas mais tarde soube que este nome era tambem como
titulo honorifico dado a outros mambos.
Toda a região de que me tenho occupado, e que comprehende os Campos de
Oiro do Imperador Guilherme, corresponde approximadamente com a que no
mappa do sr. marquez de Sá é denominada terras do Changamira, e era
proprio que fosse dado a esta divisão do districto de Manica o nome de
_Changamira_, limitando-a a E. pelo Caurese e Luenha com o Barue, e ao
N. e O. pelo Mazoe com o districto de Tete, e ao S. talvez
approximadamente na latitude de 17°,30' ou 17°,40' com outra futura
divisão do districto de Manica, de que adiante vou fallar.
Aos Campos de Oiro do Imperador Guilherme chamariamos de futuro: minas
de Changamira.
A divisão Changamira, limitada, como disse, comprehende a terra Guessa,
do mambo Caterere, Inhachiranga do mambo Zinto, Inhabaco do mambo
Mezumbauocra, Marembe do mambo Chitumbe, Sirge (do Mazoe) do mambo
Cajue, Manáva do mambo Ziráve, Doro do mambo Inhacoare, Garue do mambo
Rundo, Fungue do mambo Chissungue, Chissergue do mambo Inhaiuo, Macaha
do mambo Machamare, Sangano do mambo Chideu, Rupire do mambo Chiquiso, e
outros mais a oeste até ao Mazoe, de que eu não terei tido informação.
Builha, terra do mambo Motoco, poderá ainda ser comprehendida na divisão
de Changamira.
[Nota lateral: Local da primeira povoação de brancos em Changamira.] A
primeira parte d'este relatorio dá noticia de como, apesar das
diligencias que fiz para ir entrando em amigaveis relações com as gentes
d'estas terras, o procedimento das gentes de Guessa, Rupire e Massáua
para commigo obrigará á deposição dos tres mambos, e á passagem das tres
terras á administração directa da nação.
Occupadas estas tres terras, que se acham em não interrompido seguimento
com o Barue, occupado pelo districto de Tete todo o paiz até á margem
esquerda do Mazoe, facil será por um ou outro modo vir em breve a
exercer a nossa acção, tão pacificamente quanto possivel, sobre todas as
terras de Changamira, que deixei mencionadas.
A primeira estação ou povoação europêa a fazer em Changamira parece-me
que deve ser situada no Rupire, junto á margem esquerda no rio
Inhamussice em ponto a escolher desde a affluencia do rio Caruse no
Inhamussice, até á affluencia d'este rio no Luenha. Este ponto ficaria
apenas a dois dias da aringa de Tumbura, a um dia da actual aringa de
Caterere, a dois ou tres do ponto em que o Luenha, vindo do Zambeze,
deixará de ser navegavel, a dia e meio do ponto mais proximo do Mazoe, e
a cinco dias de Tete. Fica muito perto do centro das minas de
Changamira, e em excellente situação como testa de linha para a
exploração do paiz dos mususuros de que já vou fallar.
[Nota lateral: Administração do Changamira.] Para a policia e defeza das
terras de Changamira, que agora forem occupadas, não vejo necessidade,
em caso algum, de empregar uma força de europeus, ou qualquer
destacamento de um corpo da provincia.
O processo mais economico e efficaz é o empregado por Manuel Antonio no
Barue. Construir ou aproveitar umas tres aringas, escolher para ellas
bons capitães com as suas ensacas de cypaes, aos quaes se darão as
terras necessarias para o sustento de suas familias, e nomear os
inhacuavas de Guessa, do Rupire e de Massaua, escolhidos entre os
grandes d'estas terras, que vivam nas aringas, respondam pelos colonos e
lhes advoguem os interesses.
A aringa do Rupire poderia ser a do actual mambo, mas seria preferivel
arrasar esta e construir uma nova, em ponto escolhido nas proximidades
da povoação branca.
Para a administração superior e provisoria da Changamira
apresentam-se-me dois modos de proceder.
O primeiro consiste em nomear-se um commandante militar de Changamira,
que tratará do arrolamento dos colonos nas terras occupadas, de cobrar o
mussôco, que poderá todo ser pago com oiro em pó, e procurará ir
occupando successivamente todo o Changamira, transformando em Inhacuavas
os mambos ou parentes d'elles em que haja mais confiança.
O commandante militar, nomeado como tal, não póde nem por conta do
governo, nem por sua propria conta, comprar oiro aos indigenas, nem
realisar com elles qualquer outra permutação mercantil. Como, porém,
nada se póde fazer sem attender a estas operações, e é absolutamente
necessario que ellas tenham logar no local escolhido para a povoação
branca, para a ella chamar amigavelmente e pelo seu interesse, as gentes
das terras vizinhas, torna-se essencial a installação de uma ou mais
firmas commerciaes simultaneamente com a do commando militar.
É evidente que um commandante militar isolado, sem meios de entrar em
relações de troca com os indigenas, nada poderia fazer.
O segundo modo de proceder consistiria, no caso de que á companhia de
Ophir fosse dado um caracter semi-official, era fundar esta companhia
uma estação civilisadora e commercial no Rupire, encarregada de vir a
receber os impostos com os arrendatarios dos prazos da corôa, de
effectuar as permutações com os indigenas e de com elles ir estreitando
relações de confiança e amisade. Ao chefe superior d'esta estação
civilisadora, que poderia ser um escolhido official do exercito de
Portugal, poderiam ser dados durante este primeiro periodo de occupação
os poderes e attributos de commandante militar ou de capitão mór.
Qualquer que seja a solução adoptada, o que parece muito util é que o
commando militar ou a estação civilisadora no Rupire seja constituida
por fórma tal que possa destacar para a frente elementos de exploração
tendo por fim a creação no mais breve tempo possivel de uma estação
portugueza na região indicada no mappa do sr. marquez de Sá com o nome
de mususuros, e que com este nome é effectivamente conhecida no paiz.
[Nota lateral: Itinerarios para Changamira.] Por caminho directo, que
hoje já se achará aberto, a viagem de Gouveia á aringa de Tumbura poderá
fazer-se em dois dias, e portanto a viagem de Gouveia ao Rupire em
quatro dias. Fazendo-se uso do magnifico porto do Bangue, e havendo
faceis communicações do Pungue com Gouveia, a principal estrada da costa
para Changamira poderá ser a do Bangue, Gouveia e Tumbura. Será esta
sempre a mais rapida e a que deve ser seguida pelas malas e pelos
passageiros.
Mas para o transporte das fazendas de importação ordinaria e o da cera,
lã, pelles, couros e outros productos relativamente pobres de
exportação, são preferiveis aos meios de communicação rapida os meios de
communicação economica, e para este fim a via do Zambeze e Luenha poderá
com vantagem ser empregada quando n'estes rios haja carreiras a vapor.
Os vapores poderão ir por este ultimo rio até a distancia de dois ou
tres dias da estação de Rupire.
Infelizmente o paiz aqui é extraordinariamente infestado pela mosca
pepse, e não permitte por emquanto o uso dos carros de bois; mas facil
será fazer uma boa estrada e ensaiar para esta curta viagem de dois dias
o emprego de carros puxados por burros ou muares.
Emquanto se não podér aproveitar uma parte do curso do Luenha, e
emquanto se não crearem faceis communicações pelo porto do Bangue com
Gouveia, como não convem ir do Zambeze a Gouveia, para de lá ir a
Changamira, a estrada commercial para esta terra deverá seguir, ou de
Chemba, como já disse em outro relatorio, ou antes, subindo embarcado
mais um pouco o Zambeze, por um caminho, que se abra pelo valle do Muira
em direcção á aringa de Inhacassengo e d'ahi, atravessando o Luenha, por
Inhabaco e Inhachiranga até ao Rupire.
[Nota lateral: Musururos.] Durante a minha estada no Rupire obtive muito
interessantes informações ácerca do paiz dos mususuros, bususuros ou
ainda susuros, que tem sobre o de Changamira a vantagem de não estar
sujeito ao flagello da mosca pepse, e por isso a de ter abundantissimas
manadas de bois, a de ser mais elevado e apparentemente mais salubre, e
ainda a de ser retalhado com pequenos rios de excellente agua corrente.
Fizeram-me do paiz dos mususuros a descripção que eu poderia fazer de
Manica. Como paiz aurifero, pelo que ouvi e pelo oiro que effectivamente
hoje de lá tiram, parece-me ser tambem superior a Changamira.
A compra do oiro tem ahi ás vezes logar por um modo curioso. Todos os
pretos dos mususuros desejam comer carne de vacca, mas nem se sabem
agremiar para a distribuição nem desejam matar os seus bois para os
comerem em familia.
Os pretos mercadores, mesmo pretos do Rupire, que ali vão comprar oiro,
começam por comprar um boi por um algodão pegado de 6 libras, que custa
em Quelimane 1$600 réis, e depois vendem a retalho a carne em troca de
oiro.
A indole do povo parece ser boa; a todos os pretos que ahi chegam como
compradores tratam _como se fossem mosungos_. O paiz tem, ou ao paiz vem
ainda muito marfim. Builha, a terra do mambo Motoco, não é ainda
considerada como mususuros, mas parece que o são já as terras que ao S.
e SO. com ella confinam.
Pelo leste confina Builha com Manica, havendo porém bastante distancia
entre as povoações mais proximas das duas terras por haver n'esta
direcção uma larga faxa não habitada. Da povoação do Motoco á do Mutaça,
rei de Manica, são quatro dias de caminho; á do Macone, mambo que fica a
O. de Manica, são tres dias. Manguende é o nome de um mambo dos
mususuros, que fica a dois dias da povoação de Motoco e que tem muito
marfim.
A terra dos mususuros, considerada pelos pretos mais rica em oiro, é
_Goa_, que tem por mambo a Mussanae; fica a tres dias de caminho da
povoação de Motoco, atravessando-se pela terra Zumba do mambo Gaha, pela
do Sotoco do mambo Chunni, e pela de Chiguagua, que tem o mambo com o
mesmo nome. Chiguagua é terra considerada tambem como tendo muito oiro.
Outra terra ainda citada como muito aurifera é a do mambo Massumbura,
que ainda fica dois dias adiante de Goa.
Todas estas terras parece que se acham na bacia hydrographica do Mazoe.
_A priori_ parece que a melhor situação para fundar a estação
civilisadora e commercial de mususuros seria pela latitude 18° junto ás
cabeceiras do Mazoe e do Save. Esta estação ficaria quasi na latitude de
Gouveia e poderia communicar directamente com a capital do districto, se
se encontrasse bom caminho atrás do paiz montanhoso que ha a atravessar;
achar-se-ia talvez a dois dias de caminho de Macequece e d'ahi poderia
seguir pelo bom caminho que já sabemos haver para o Pungue, ou ainda
poderia vir a communicar directamente com o porto de Bangue e povoações
intermedias que venham a fundar-se, procurando logo a direcção do valle
do Pungue, deixando Gouveia ao N. e Macequece ao S.
Este paiz elevado onde nascem o Save e o Mazoe e outros afluentes do
Zambeze, cuja occupação é da maior importancia politica, parece ser o
mais adaptado para a colonisação europea na Africa austral. A pagina 285
dos _Proceedings of the Royal Geographical Society_, de maio 1884, vê-se
que a respeito d'esta região mr. Selous, o celebre explorador e caçador
africano, que tão bem conhece o Transvaal, diz: «As melhores partes do
Transvaal não lhe podem ser comparadas».
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III
Considerações relativas á politica a seguir com alguns paizes que
envolvem a provincia de Moçambique
É desnecessario dizer o que era de facto ha pouco tempo a provincia de
Moçambique ao S. do Zambeze. O que se passa ainda no proprio districto
de Moçambique dá idéa de quanto se estendiam os nossos direitos
effectivos em toda a provincia.
Hoje, ou em breve, podemos dizer que os limites legaes da soberania
portugueza ao sul do Zambeze são, começando do S., os que nos fixam a
arbitragem do marechal de Mac-Mahon e o tratado de 1869 com o Transvaal
até á altura da confluencia do Paphoris no Limpopo; depois a linha
limite O. das terras do Gungunhana, que, partindo approximadamente da
altura da foz do Paphoris segue até ao ponto em que o Save muda de
direcção para O.; depois o curso d'este rio emquanto elle desde a sua
origem corre de N. para o S.; finalmente, uma linha que vá das
cabeceiras do Save, abrace os mususuros e Changamira, siga em parte o
curso do Mazoe e depois inclinando mais para O., e abraçando os
territorios da Chidima, que ultimamente têem sido conquistados pelo
districto de Tete, se prolongue até ao Zambeze, não sei quanto, a
montante da villa de Zumbo.
A epocha dos soberanos indigenas independentes na Africa do S. está
proxima a acabar, e é só aos ingleses, allemães e boers do Transvaal que
teremos a attender como unicos elementos que se poderão oppor, pelos
direitos que elles por sua parte adquiram, á expansão da area da
provincia de Moçambique, ou a que a linha de limites que indiquei se
afaste para O., abraçando novos territorios.
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[Nota lateral: Estradas commerciaes.] O que é evidente é que estes
territorios, abundantes em riquezas para explorar, existem onde estão;
que ninguem os poderá deslocar da situação geographica em que elles se
acham; e que esta situação os obriga a serem directa ou indirectamente
nossos tributarios e a concorrerem para a prosperidade da provincia de
Moçambique pelo uso que farão das suas estradas e dos seus portos.
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As grandes estradas commerciaes do interior da parte central da
provincia de Moçambique para a costa, serão as que vierem encontrar os
rios que desembocam na bahia de Manzanzane ou conduzam ao porto do
Bangue, e o Zambeze.
A creação do districto e governo de Manica, a viagem que por este motivo
fiz ás terras dos landins, e o ter sido um dos primeiros actos do novo
governador geral da provincia o tomar em consideração as informações que
no meu relatorio expuz relativamente ao rio Pungue, mandando a
canhoneira _Quanza_ explorar a foz d'este rio, levaram á descoberta de
um porto de mar superior aos de Quelimane e Inhambane, situado
approximadamente a meio da distancia entre estes dois portos, e na
embocadura de rios navegaveis por grande extensão. A não ser que o
estado do paiz, que é desconhecido, revele alguma circumstancia muito
desfavoravel, como a de não haver nos terrenos marginaes do porto local
conveniente para a construcção d uma cidade, a descoberta d'este porto
terá em breve uma extraordinaria influencia no desenvolvimento da mais
valiosa porção da provincia de Moçambique.
Basta citar as estradas que a este porto devem convergir.
Disse em outro trabalho que o Quiteve, desde as costas da provincia até
proximo da povoação de Gungunhana, era um paiz plano e horisontal. Em
todo elle vivem bem os bois e podem ser empregados carros como os que
percorrem toda a Africa austral, á excepção dos paizes onde ha a mosca
ou aquelles em que ha só portuguezes.
Uma estrada carreteira, partindo da povoação de Gungunhana, deve vir
procurar o rio Busi em altura conveniente. Barcos fluviaes a vapor
ligarão este porto ao ponto do Bangue. Á estrada de Gungunhana
prolongada será a estrada de Duma e de toda a parte S. do paiz dos
matebeles até Gubulavaio.
Já tambem em outro relatorio disse que de um ponto da margem direita do
Pungue, onde se possa chegar em embarcações adequadas partindo do porto
do Bangue, até Manica ha já caminho de preto facil, que se póde
percorrer a pé em quatro dias.
É desnecessario lembrar que o sitio das minas de Inhaoxe, entre o Busi e
o Pungue, fica a menos de um dia do ponto de desembarque em qualquer
d'estes rios e portanto do mais facil accesso pelo porto do Bangue.
N'este mesmo relatorio já disse que o valle de Pungue, para montante da
foz do Vundusi, é um excellente campo para colonisação e que _a priori_
se poderia esperar que ao longo d'este valle se possa abrir uma estrada
para servir directamente o paiz dos mususuros.