capital do districto. Já atrás notei como o prolongamento d'esta estrada
para Changamira será a via de communicação mais rapida d'esta divisão do
districto de Manica com a costa.
O major Serpa Pinto, no seu livro, _Como atravessei a Africa_, mostra
como, aproveitando o alto Zambeze, o Cafuque e o baixo Zambeze, se póde
facilmente pôr em communicação mais de dois terços de largura do
continente africano n'estas latitudes com o oceano indico.
Antigamente as communicações entre Tete ou Senna e Quelimane tinham
logar por embarcações que desciam o grande rio até ao sitio do Mazaro,
entravam ahi no rio Muto, que seguiam com mais ou menos difficuldade de
navegação, pela pouca agua que em certos pontos o rio tinha durante a
estiagem, e depois pelo rio dos Bons Signaes ou de Quelimane até á villa
d'este nome. Mais tarde a bôca do Muto ou Mazaro fechou-se completamente
com areia e vegetação, e a navegação pelo rio Muto cessou de todo;
começando-se a fazer uso do Barabuanda ou Quaqua, outro canal da
communicação entre o Zambeze e o rio de Quelimane, com agua em parte
fornecida por alguns pequenos rios que a elle vem dar. Durante alguns
dias do anno, quando a cheia no Zambeze é muito grande, as embarcações
que vem do Zambeze podem entrar no Quaqua, ou mesmo navegar pelos
campos, fóra do leito do canal, e seguir sem interrupção até Quelimane;
mas durante quasi a totalidade do anno a navegação não póde ser continua
entre Quelimane e o Zambeze. Todas as mercadorias importadas por
Quelimane com destino ao Zambeze, ao Chire, ao lago Nyassa, sobem o rio
de Quelimane e o Quaqua em pequenas embarcações até onde a agua lhe
permitte que cheguem, geralmente até proximo das construcções da
companhia do opio onde, o Quaqua faz uma curva que mais do que em
qualquer outro ponto, a não ser muito acima quando junto ao extremo do
canal, se approxima do Zambeze. Tudo é descarregado ahi e transportado á
cabeça dos carregadores até ao Zambeze, na altura da povoação do
Vicente, que fica um pouco acima do Mazaro. Com relação ás embarcações,
procede-se por dois modos: ou as embarcações que vieram de Quelimane
ficam no Quaqua e as cargas são postas em novas embarcações no Zambeze,
ou as proprias embarcações do Quaqua são passadas para o Zambeze. Os
coxes e almandias feitos de um só tronco de arvore cavado, não têem
perigo de se desconjuntarem e são arrastados sobre o solo desde um rio
até ao outro; os escaleres são voltados de quilha para o ar e
transportados sobre os hombros de trinta ou quarenta pretos. É por este
modo que se têem feito nas ultimas dezenas de annos os transportes do
commercio do Zambeze. Procedeu-se a estudos para projectar pelo canal do
Quaqua, convenientemente rectificado e aprofundado, uma communicação
permanente entre o Zambeze e o rio de Quelimane; tem-se tambem indicado
como conveniente a construcção de uma linha ferrea partindo da villa de
Quelimane ou de outro ponto da margem do rio de Quelimane para o Zambeze
e mesmo para o Chire.
Mas as aguas do Zambeze que, como acabo de dizer, só durante as grandes
cheias passam pelo Quaqua, pelo Muto e por terrenos inundados para o rio
Quelimane, continuam na maior parte do anno, correndo todas pelo grande
leito do rio até que este se divide nos differentes braços que as levam
ao oceano. Pensa-se hoje que de todas as bôcas do Zambeze, só uma, a do
Inhamissengo, permitta a passagem de embarcações por cima da barra.
Quando em 1879 pela primeira vez cheguei ao Zambeze, o porto de
Inhamissengo, apesar de que ha seculos tinha sido considerado como
podendo dar entrada aos mesmos navios que entram em Quelimane, apesar
das viagens de Livingstone, dos trabalhos do sr. Augusto de Castilho e
de ter sido o porto por onde os vapores _Senna_ e _Tete_ entraram no
Zambeze, achava-se quasi de todo esquecido e inteiramente abandonado
pelas nossas auctoridades. A casa hollandeza tinha estabelecido uma
feitoria na ilha de Inhamissengo, collocado uma grande bandeira
hollandeza na entrada do rio e considerava-se quasi em terreno tão seu
como a casa hollandeza em Banana, e Porto da Lenha dizia estar nos seus
territorios do Zaire. Algum tempo depois o governador do districto de
Quilimane, o sr. José de Almeida de Avila, creou o commando militar do
Inhamissengo e nomeou para esse cargo um official que em breve
transformou a ilha, em que primeiro se achava só a casa hollandeza,
n'uma pequena povoação constituida pela residencia do commandante,
construcções do posto fiscal, feitorias das duas grandes casas francezas
que negoceiam em toda a costa de Moçambique e algumas outras casas. A
creação d'esta povoação não teve no desenvolvimento do commercio da
Zambezia a influencia que á primeira vista parecia deveria ter, por tres
motivos, sendo um d'elles a falta de communicações entre Inhamissengo e
Quilimane, o segundo a falta de um rebocador para facilitar a entrada e
a saída dos navios de véla que começavam a ir ao porto de Inhamissengo e
o terceiro a situação da povoação. A povoação foi construida junto á
primeira casa edificada na ilha, a casa ou feitoria hollandeza; a praia
da povoação era tão proxima do mar que a agua muitas vezes estava quasi
tão agitada como na costa e muitas das embarcações do Zambeze, que
desceram até ao Inhamissengo, foram voltadas pelas ondas, perdendo-se
tudo o que n'ellas vinha. Ora, o rio Inhamissengo tem com o de Quilimane
por uma grande extensão agua mais profunda do que a altura da agua na
barra, e todas as embarcações que podem passar sobre a barra podem com
mais facilidade subir pelo rio acima. O sr. capitão Augusto de Castilho,
antes de ser governador geral, já tinha feito esta observação e
escolhido na terra firme da margem direita do Zambeze local para uma
povoação até onde podessem chegar todos os navios que passassem sobre a
barra do Inhamissengo e que se achasse em tão faceis condições de
accesso para as pequenas embarcações que venham de Tete, Senna e do
Chire, como está a povoação do Vicente, onde hoje se fazem todas as
baldeações. Um dos primeiros actos do novo governador geral foi o
determinar a formação da nova povoação, a que deu o nome de Conceição, e
que deve vir a ter um desenvolvimento, como o sr. marquez de Sá, no seu
livro o _Trabalho rural africano_, previa, para a povoação que elle
dizia dever fundar-se um pouco mais acima, na Chupanga. A falta de
rebocador especial para o porto de Inhamissengo deixa-se de fazer sentir
logo que haja um bom rebocador em Quelimane, que por emquanto poderá
servir para os dois portos, visto que o numero de barcos de véla que os
frequentam é muito reduzido e hoje devem já os dois portos estar ligados
por uma linha telegraphica que se achava em construcção quando parti de
Quelimane. Quanto ás communicações regulares entre Inhamissengo e
Quelimane por vapores, poderiam ellas em rigor ser effectuadas pelo
rebocador do governo a que me acabo de referir, mas é de esperar que o
sejam por modo mais conveniente, sendo executada a excellente idéa do
sr. governador geral, que consiste em dispensar os paquetes da carreira
subsidiada de tocar em Chiloane, fazendo-os logo seguir de Inhambane
para Quelimane e vice-versa na viagem da volta, o que é vantajoso para o
serviço dos portos importantes da provincia, e fazer com que a empreza
de navegação com o pequeno vapor que ella tem obrigação de ter em
serviço na costa, organise um serviço regular, em combinação com a
passagem dos paquetes em Quelimane, d'este porto para o Inhamissengo até
á povoação da Conceição, para o Bangue ou foz do Pungue, para Sofalla e
para Chiloane. As condições em que assim ficará a povoação da Conceição
já por si concorrerão muito para o desenvolvimento do commercio da
Zambezia, pois que qualquer pequeno negociante ou agricultor das margens
do Zambeze ou do Chire poderá desde já mandar com toda a facilidade uma
ou mais almandias tripuladas por pretos de seu serviço portadores de um
simples bilhete até Conceição para fazer entrega dos generos, ou ás
grandes casas commerciaes de exportação, ou directamente á agencia que
n'esta povoação deve ter a empreza de navegação, o que nunca poderia
succeder com as complicadas baldeações do Zambeze para o rio de
Quelimane.
Mas o grande desenvolvimento do commercio do Zambeze só se manifestará
quando aos melhoramentos que tenho indicado e que se podem considerar
como realisados, se juntar o da creação de um serviço de navegação a
vapor no Zambeze até Tete ou até ao pé das cataratas de Coruabassa, no
Chire e no Luenha. Esta navegação não é isenta de difficuldades, mas com
a pratica do serviço poderão ir sendo vencidas ou torneadas. O que é
urgente é começar. Possuir o Zambeze e não procurar ter n'elle um
serviço de navegação a vapor, é como se n'um paiz abundantissimo em
productos que precisam ser economicamente transportados, houvesse
construida uma extensa linha ferrea que se deixasse desaproveitada só
para evitar a compra de uma locomotiva e de alguns wagons. Poucas
despezas se poderão fazer na provincia de Moçambique que dêem resultados
mais immediatamente remunerativos para a provincia; é incontestavel que
com urgencia ao governo convem, ou adquirir algum material de navegação
bem escolhido, e organisar por sua conta um serviço de correio de
Conceição a Tete, tomando os vapores de escala cargas dos particulares,
ou promover a formação de uma empreza, ou dar a qualquer empreza já
creada o necessario auxilio para a organisação d'este serviço.
A navegação do Zambeze acima do Tete é interrompida pelas cataratas de
Caruabassa. Desde a altura do logar de Cachombe, a montante das
cataratas até Zumbo, foz do Cafuque, e por este rio acima a navegação é
mais facil do que em muitos pontos do rio abaixo de Tete. Nas
publicações que fizerem os dois exploradores Capello e Ivens, que
parecem ter vindo enthusiasmados com a regiao do Zumbo, não deixarão
elles de confirmar a idéa do major Serpa Pinto e de pugnar pelo
aproveitamento da magnifica estrada que a natureza poz ahi á nossa
disposição; e eu penso que ao tratar-se da navegação do Zambeze deveria
immediatamente fazer-se transportar até Tete o material de uma ou duas
lanchas a vapor para serem armadas no Cachombe e ahi lançadas ao rio. Se
porém é provavel que uma empreza particular podesse com mais vantagem de
que o governo organisar um serviço a vapor desde Conceição até Tete e no
Chire, não julgo que, salvo o caso da organisação de uma vasta companhia
com um largo plano de trabalhos, o que não será facil por emquanto
realisar, o serviço de Cafuque e do Zambeze acima de Cachombe, podesse
com utilidade ser feito por uma empreza, e julgo que toda a vantagem
n'este caso seria a do emprego de duas embarcações pertencentes ao
governo.
Sem entrar em desenvolvimentos, parece-me que a creação de um districto
e governo do Cafuque seria hoje um utilissimo serviço prestado á
provincia de Moçambique. Apesar das excellentes condições que se dão no
actual governador do districto de Tete, não póde elle, como o padre que
foi nomeado para Tete com a obrigação de ir dizer missa aos domingos no
Zumbo, attender a todas as interessantes questões que agora ha a
resolver para o lado do Mazoe, com o Bonga e na Macanga, e ao mesmo
tempo occupar-se da expansão dos novos dominios na região do Zumbo e na
exploração e occupação da estrada do Cafuque. O districto do Cafuque
deveria começar junto ao rio Zambeze na altura do Cachombe, isto é,
acima das cataratas da Caruabassa e prolongar-se por emquanto
indefinidamente para O. O governador do Cafuque teria dois fins
principaes em vista. O primeiro crear relações com os matebeles, se isso
fosse julgado conveniente, ou pelo menos assegurar para a soberania
portugueza uma facha de terrenos ao longo da margem direita do Zambeze
desde o Zumbo até ás cataratas de Cariba ou talvez mesmo até ao rio
Guai. O segundo occupar-se da estrada do Cafuque, de estudar bem as
circumstancias locaes e propor a necessaria creação de estações
portuguezas em pontos adequados. O governo do Cafuque só poderia ser
dado a um official prudente e de toda a confiança. Se se encontrasse um
official com desejos de cumprir esta missão, mas de patente ou posição
tal que não estivesse em harmonia com a de um governador de districto,
poderia executar essa missão com o caracter provisorio ou de organisação
e com o titulo de commissario do governo, desligando-se em todo o caso
do districto de Tete toda a area da sua acção.
Para que tão util medida produza os resultados consideraveis que ella
póde e deve produzir, é absolutamente necessario que todos se convençam
de que é aos capitães móres de influencia pessoal, contra os quaes
tantos fallam por ignorancia, que devemos quasi todos os territorios que
possuimos na Zambezia, que a obra d'estes capitães móres foi o primeiro
passo dado, e em que seria perigoso ficar; que devemos agradecer-lhes e
recompensa-los, e trabalharmos de accordo com elles em ir transferindo a
sua influencia pessoal para agentes mais regulares da Magestade, como
agora dizem todos os pretos da Gorongosa, que já hoje bem comprehendem
que a Magestade, e que o governador, mandado pela Magestade são
auctoridades de ordem muito superior á de Manuel Antonio; e isto porque
Manuel Antonio, na melhor harmonia com o governador de Manica, não faz
senão repetir aos grandes e aos mais pretos que elle é escravo do Rei, e
que todos devem absoluta obediencia ao governador que elle mandou para
ali.
Não conheço o capitão mór Araujo Lobo, mas sim os muitos serviços que
elle tem prestado ao paiz, e estou convencido que se apparecer no Zumbo
um governador do Cafuque, ou um commissario regio que proceda com tanto
tacto, como na Gorongosa está procedendo o governador de Manica, teremos
adquirido em breve e consolidado para a nação portuguesa, e poderemos
muito desenvolver elementos, já hoje adquiridos por portuguezes
benemeritos, mas elementos que nas condições que hoje se dão podem de um
momento para o outro desconjuntar-se e inutilisar-se, quando não seja
senão pela morte, possivel sempre, de um ou poucos individuos. A um
negociante da Zambezia, muito pratico nas viagens para Tete e para o
Zumbo, ouvi eu dizer que o capitão mór do Zumbo, Araujo Lobo, podia com
os recursos de que dispõe assegurar communicações permanentes desde esta
villa até ao Bihé. Não aproveitar meios de acção d'esta ordem seria
falta para lastimar.
Bordo do _Drumond Castle_, 23 de Janeiro de 1886.=_Joaquim Carlos Paiva
de Andrada_, capitão de artilheria em commissão.