[Nota lateral: Visita de Gurupira; mau tratamento que soffre

Produced by Pedro Saborano

Notas de transcrição:

O texto aqui transcrito, é uma cópia integral do livro impresso

em 1886. Foi mantida a grafia usada nessa edição, tendo sido

corrigidos apenas pequenos erros tipográficos que não alteram

a interpretação do texto, e que por isso não foram assinalados.

No livro há algumas referências a um mapa, que acompanhava a edição

original. Não foi possível localizar uma cópia desse mapa para

acompanhar esta edição digital.

RELATORIO

DE UMA

VIAGEM ÁS TERRAS DO CHANGAMIRA

POR

JOAQUIM CARLOS PAIVA DE ANDRADA

CAPITÃO DE ARTILHERIA

LISBOA

IMPRENSA NACIONAL

1886

RELATORIO

DE UMA

VIAGEM ÁS TERRAS DO CHANGAMIRA

POR

JOAQUIM CARLOS PAIVA DE ANDRADA

CAPITÃO DE ARTILHERIA

LISBOA

IMPRENSA NACIONAL

1886

RELATORIO

Quando regressei a Gouveia, da viagem que fiz ás terras de Gungunhana,

julguei conveniente não partir para Manica sem conferenciar com Manuel

Antonio de Sousa que tinha ido a Moçambique, e que, demorado de semana

para semana em Quelimane, só chegou a Gouveia no dia 17 de agosto.

N'esse mesmo dia chegaram tambem ahi uns pretos vindos de Manica,

dizendo que acabavam de apparecer em Macequece uns landins perguntando

por fazendas minhas que deviam ali estar, e que só por se acharem bem

guardadas e por ter a gente do paiz assegurado que taes fazendas não

existiam, é que provavelmente os landins não roubaram algumas.

Não vi n'esta noticia motivo que me impedisse a partida para Macequece,

mas em attenção á opinião de Manuel Antonio e de um principe ou grande

de Manica, meu antigo guia n'essa terra, que ha algum tempo esperava

Manuel Antonio em Gouveia, resolvi não ir para Manica, sem ter

conhecimento do resultado da missão que Gungunhana tinha enviado a

Lisboa, e aproveitar o tempo da demora forçada para visitar um paiz a

que me referi no relatorio da viagem ás terras dos landins, e onde de

facto importava com mais urgencia chegar do que á antiga feira

portugueza de Manica, objectivo principal da missão de que fui

encarregado.

........................................................................

Por estes motivos, resolvi partir sem demora n'esta direcção.

I

Viagem de Gouveia a Changamira e regresso a Gouveia

[Nota lateral: Fome no paiz.] Uma circumstancia tornava extremamente

difficil a realisação d'esta viagem; a falta de chuvas tinha motivado a

perda das colheitas de mantimento, milho, mapira, mechoeira e nachenin,

e a fome era quasi geral em toda a Africa austral. Os homens na

Gorongosa, no Barue, por toda a parte, andavam espalhados pelo mato a

grandes distancias para apanhar fructos e raizes, que traziam ás

povoações para matar a fome ás mulheres e ás creanças, o que muitas

vezes não conseguiam, morrendo muita gente por falta de alimento. N'este

relatorio só desejo tratar do que importa ser conhecido para basear

trabalhos futuros; não fallarei portanto das miserias que fui

presenceando, nem das extraordinarias difficuldades que encontrei em

mover-me com umas oitenta cargas n'um paiz que se achava em tão

desgraçadas condições.

[Nota lateral: Relatorio e mapa de Mauch] De todos os nomes que me eram

conhecidos pela leitura do relatorio de Mauch e do mappa que o

acompanha, apenas o de Caterere me era tambem citado em Gouveia, e como

ahi havia bastante gente que conhecia o paiz que eu queria visitar, logo

suppuz que Mauch teria mal escripto os nomes que foi ouvindo, e esperei

ir achando no progresso da viagem a equivalencia entre os nomes de Mauch

e os que me indicavam em Gouveia. Foi portanto para as terras do regulo

ou mambo Caterere que primeiro me dirigi.

[Nota lateral: Viagem pelo Barue] Entre estas terras e Gouveia está

apenas comprehendido o antigo reino do Barue. Como é já sabido, o rio

Inhandue, que banha Gouveia, separa o Barue do praso Gorongosa, e como

se vê no mappa junto, o rio Caurese, importante e caudaloso affluente do

Aruenha, separa o Barue da terra de Caterere que se chama Guessa. O

Barue, na parte exactamente comprehendida entre Gouveia e a povoação do

Caterere, acha-se despovoado e não havia caminho aberto n'essa direcção;

por isso, parti de Gouveia dirigindo-me mais para o norte até á aringa

de Inhangona, e d'ahi voltando para sudoeste segui para a aringa de

Tumbura indicada no mappa, quasi na fronteira do Barue e na latitude da

povoação do Caterere. Tendo partido de Gouveia em 26 de agosto, só

cheguei á aringa de Tumbura em 5 de setembro.

Esta viagem por caminho que se abra directo, o que se obtem logo que

tres ou quatro filas de carregadores ou cypaes por elle tenham passado,

e em condições normaes, póde ser feita em tres dias.

[Nota lateral: Do Tumbira á aringa do Bonga, capitão do Caterere.] Tinha

combinado com Manuel Antonio que esperaria na aringa de Tumbura que um

dos capitães d'elle Manuel Antonio fosse adiante com um presente da sua

parte ao Caterere, avisando-o da minha visita de amisade, e que só

depois da volta do emissario é que eu saíria do Barue para Guessa; mas

como o mencionado capitão, que devia ter-se juntado a mim poucos dias

depois da minha partida de Gouveia, não apparecesse; como por

informações obtidas na localidade eu soubesse que podia passar do Barue

directamente para a terra de Inhachiranga, atravessando o Aruenha a

jusante da foz do Caurese, ponto onde termina a terra de Guessa, e me

fosse assegurado por um homem de Inhachiranga que se achava em Tumbura,

que a terra era curiosa de visitar pelas lavagens de oiro que ahi faziam

e que encontraria n'ella o melhor acolhimento; como ainda mais eu

quizesse quanto possivel evitar a perda de tempo, resolvi arranjar

carregadores em Tumbura que me levassem a Inhachiranga, para ahi,

aproveitando o tempo com o estudo do paiz, esperar o capitão de Manuel

Antonio que devia ir ao Caterere annunciar a minha visita.

Parti no dia 10 de setembro, mas os carregadores e guias, em logar de me

levarem directamente ao Aruenha, ou, o que a isso teria equivalido, pelo

caminho que trouxe na volta, indicado no mappa, o que apenas atravessa a

ponta não habitada da terra de Guessa, comprehendida entre o Caurese e o

Aruenha, talvez com a idea de encurtar duas ou tres horas de serviço,

levaram-me por caminho um pouco mais ao sul, que me conduziu ao Caurese

em altura tal que, ao atravessar o rio, me achei de surpreza junto á

aringa de um capitão do Caterere chamado Bonga.

[Nota lateral: Rio Caurese.] O Caurese tem aqui uns 50 metros de largo e

excellente agua com approximadamente uma altura media de 1 metro em toda

a largura do leito que é de areia. Tem porém de espaço a espaço grandes

rochas, e o rio até á foz é absolutamento improprio para a navegação.

Vi-o na estiagem e tendo havido grande secca. No tempo das chuvas

engrossa muito, e mesmo em seguida a um só dia de grande chuva não dá

passagem a vau.

Foi no dia 11 de setembro que cheguei á aringa do Bonga. Os carregadores

de Tumbura, a quem eu nada tinha que dar de comer, não podendo por preço

algum comprar-lhes mantimento, voltaram para trás, ficando em um

acampamento junto á aringa com os _motores_ (cargas) e os meus muleques.

Como era de esperar, o chefe da aringa, logo que eu passei por ella, e

não me achava em condições de seguir com os carregadores que trouxe do

Barue, não me facilitou a marcha, para diante, apesar de eu lhe dizer

que ia só até Inhachiranga para ahi esperar o capitão que devia

preceder-me na visita que eu desejava fazer ao Caterere, o instou muito

para que não saisse de Guessa sem primeiro ir visitar o mambo. Vi-me

assim moralmente obrigado a ir á povoação do Caterere, para onde parti

no dia 12, seguindo o caminho indicado no mappa.

[Nota lateral: Visita ao Caterere.] Tendo, ao chegar proximo da povoação

na tarde do dia 13, feito avisar o mambo da minha visita, cheguei na

madrugada do dia 14 á aringa que se chama de Inharichinga. A primeira

entrevista com o mambo Caterere ou Gutuqui, foi logo muito cordial.

Dei-lhe alguns presentes de pouco volume e peso que commigo tinha

levado, como colares de coral, espelhos, barretes, camisas, pannos

ricos, explicando-lhe que só ali me achava para satisfazer aos desejos

do seu capitão Bonga, pois desejava ter sido precedido por um capitão de

Manuel Antonio, que trazia um bom presente de fazendas e um recado de

amisade de seu amo. Por varias vezes Caterere me disse que Manuel

Antonio lhe viria fazer guerra, e que o trataria como tratou ao Macombe,

rei do Barue. Procurei fazer desapparecer esta idéa, repetindo-lhe que

pelo contrario Manuel Antonio lhe mandava um presente de amisade, e

explicando-lhe que o Rei de quem Manuel Antonio era subdito, não queria

guerra, mas amisade, não só com Caterere, como com todos os regulos

visinhos, e que para estreitar relações de amisade eu a todos tencionava

visitar. Durante o dia fez-me Caterere repetidas visitas á palhota onde

fiquei, e aconselhou-me a que, em logar de ir para Inhachiranga na

margem esquerda do Aruenha, fosse para uma povoação de um Camunda, na

margem direita e portanto ainda da terra de Caterere, podendo eu d'ahi

ir ver os logares proximos onde gentes de Guessa e das terras vizinhas

costumam lavar ouro.

Levava commigo uma das armas _Winchester express_ pertencentes ao

districto de Manica. O mambo quando a viu pediu-me para lh'a explicar, e

como estas armas são muito certeiras e permittem um tiro muito rapido,

fiz da porta da aringa, em seguida e em differentes direcções, fogo

contra delgados troncos de arvores a grandes distancias, ficando o mambo

muito admirado quando foi junto ás arvores ver o resultado dos tiros.

Cito esta circumstancia para acrescentar que, apesar de eu ter ido só

com tres muleques e estar morando na aringa, vieram pouco depois dizer

ao mambo que a gente das proximas povoações tinha fugido ao ouvir os

tiros, suppondo que era guerra!

A aringa do Caterere é pequena, e muito fracamente construida; tem

proximo uns montes de rochas que a commandam completamente.

Com as repetidas perguntas que a varios fiz a respeito da passagem de

Mauch por estas terras, ha uns vinte annos, convenci-me que ninguem tem

idéa d'este viajante.

A latitude de 17° 30' 30", que achei para esta aringa, concorda com a

posição em que Mauch a poz na sua carta.

Não parece que o paiz tenha sido visitado por estrangeiros, e não

conhece esta gente senão Tete, Sena e sobretudo o nome de Gouveia.

Empregam varias palavras portuguezas. Estranhei ouvir-lhes dizer quando

fallavam commigo: _senhor_, pois que os nossos pretos nas cidades, e os

proprios brancos fallando de outro branco com os pretos, fazem uso da

palavra _mosungo_.

Não vi entrar preto algum na minha palhota ou na do mambo sem que

primeiro dissesse: _licença_, palavra que parece de uso commum, não só

em Guessa, como nas outras terras onde depois estive.

Recebi do Caterere muitas informações ácerca dos mambos e campos de oiro

que me ficavam para a frente; soube tambem que da aringa a Manica são

cinco dias de caminho, havendo apenas entre as duas terras a de Munhama,

que se atravessa em dois dias. Não se passa pelo Aruangua, o que prova

que este rio nasce a leste do caminho seguido.

Não consentiu o mambo que eu partisse sem ser seu hospede durante uma

noite. Na madrugada do dia 15 voltei ao meu acampamento no Caurese, onde

cheguei na manhã seguinte; vindo com um grande do mambo, que me

acompanhou para communicar as ordens do Caterere e facilitar o

transporte das cargas para a margem do Aruenha.

[Nota lateral: Partida do Caurese para o Aruenha ou antes Quenha.] No

dia 17 parti de junto da aringa do Bonga para a margem do Aruenha, onde

cheguei, com duas horas de passeio junto á aringa de Camunda, pequena

povoação rodeada de fraca estacaria, fazendo o acampamento a jusante

d'esta aringa.

O rio tem aqui uns 100 metros de largura, mas a agua corre por varios

braços serpenteando na areia, não cobrindo todo o leito. Informaram-me

de que o rio, bastante ainda para jusante da foz do Caurese, tem varias

rochas que lhe atravessam o leito; penso porém, que será navegavel vindo

do Zambeze até pelo menos á affluencia do rio Mazoc. Rio Aruenha ou

antes Luenha. Já nas minhas viagens pelo Zambeze para Tete, tinha notado

que os pretos chamam Luenha ao rio que em as nossas cartas chamamos

Aruenha, e que afflue no Zambeze em Massangano, onde está construida a

celebre e vergonhosa aringa do Inhaúde ou do Bonga. No mappa do

Levingstone tambem este rio tem o nome de Luenya. É tambem Luenha o

unico nome que agora lhe ouvi dar, e parece-me preferivel adoptar esta

designação, não só por ser a verdadeira, mas porque melhor se distingue

de Aruangua; e são dois nomes que como rios ou commandos militares do

districto de Manica muitas vezes haverá a citar reunidos.

[Nota lateral: Ouro no Luenha.] Nos dias 18 e 19 fui com gente da

povoação de Camunda, ver os logares onde costumam lavar oiro no rio. Os

terrenos em que n'esta altura corre o Luenha não são auriferos, e o oiro

só se encontra, renovado todos os annos depois das cheias, nas pequenas

porções de areia que fica retida entre as grandes rochas que atravessam

o rio. Os pretos e pretas, que lavam admiravelmente com a batea, podem

com utilidade extrahir o oiro que cada anno é retido nos mesmos logares,

e assim o fazem ha seculos, mas o lavar estas areias, por causa da sua

pequena quantidade, embora sejam relativamente ricas, nunca poderia

pagar a uma companhia europêa. É muito provavel que no proprio leito,

atraz d'estas _barras_, onde ha profundidade de agua e onde os pretos

nunca lavam, haja accumulado de ha seculos oiro mais grosso, e quando o

paiz esteja frequentado pelos brancos, é provavel que venha a

proceder-se a trabalhos n'estes logares com bons resultados, mas é claro

que a pesquiza do oiro para os que primeiro cheguem será muito mais

interessante nos proprios terrenos d'onde o oiro é annualmente arrancado

e arrastado pelas aguas.

[Nota lateral: Rio Mupa.] Na visita que fiz á _Massanga_, ou foz do

Caurese vi que o rio Mupa não é um affluente do Caurese como está

marcado na carta de Mauch mas, um pouco mais abaixo, directamente

affluente do Luenha.

[Nota lateral: Mambo Schomali de Mauch.] Descobri, emquanto estava

n'este acampamento do Luenha, quem era o mambo Schomali, que Mauch cita

como sendo o chefe das terras que constituem a parte mais rica dos

Campos do Imperador Guilherme.

É um pequeno mambo da terra de Macaha, chamado Machamare. Já de ha muito

tinha conhecimento do nome da terra e de outros nomes do mambo, que

tambem se chama Chibinda e Inhaúbinda. Serviu-me de confirmação á

equivalencia entre o nome de Machamare e o de Schomali o encontrar nos

dois rios Inhamussice e Munhoque, dois rios auriferos da terra de

Macaha, os equivalentes aos rios Iantsitsi e Noke da carta de Mauch.

Achei interessante que os pretos que lavavam n'um logar ou _barra_ do

Luenha chamado Biriuide, me dissessem, que todo o oiro que até ali

chegava era proveniente do rio Inhamussice, precisando a proveniencia do

oiro, quando o Luenha no seu vasto curso drena um paiz muito extenso e

recebe muitos outros affluentes. Por esta indicação é de suppôr que as

areias do Luenha acima da affluencia do Inhamussice não tenham oiro

algum, tornando evidente que é por este affluente que os _diggers_ devem

subir nas suas pesquizas.

Pouco depois de chegar a este acampamento do Luenha, vi que nada me

aconselhava a que ahi me demorasse e procurei arranjar carregadores para

continuar na viagem.

[Nota lateral: Chegada do capitão Bastião e de Gurupira.] No dia 19 de

setembro, com o capitão Bastião, de Manuel Antonio, encarregado dos

presentes para o Caterere, chegou ao acampamento vindo de Gouveia, onde

tinha ido visitar Manuel Antonio, o filho grande do mambo Motoco, chefe

relativamente poderoso da terra da Builha, situada alem, a sudoeste, da

região a que Mauch deu o nome do seu imperador. Como não via

possibilidade de achar, no logar onde estava, carregadores, e me

constasse que na terra de Motoco e terras proximas havia algum

mantimento, pedi a este filho do Motoco, chamado Gurupira, que me

mandasse os necessarios carregadores e que acompanhasse um dos meus

muleques, a quem entreguei fazendas, na compra de mantimento que deveria

ser mandado para a terra de Macaha. Gurupira disse-me que elle era

justamente casado com uma filha do mambo Machamare, deu-me informações

sobre a Macaha e indicou-me a povoação de Chibanda, filho do mambo,

situada na ponta de terra entre o Inhamussice e o seu affluente

Munhague, como bom logar para acampamento, e foi para ahi que combinamos

eu partiria, e seria mandado o mantimento que fosse comprado.

Na tarde do dia 22 apareceram-me no acampamento uns cem homens armados,

seguidos por um pandoro ou leão.

[Nota lateral: Pandoros.] Os pandoros, que eu já tinha visto nas terras

do districto de Tete, que ha no Mazoe, que havia no reino do Barue e que

ha nas terras de todos os pequenos mambos d'esta região, são uns homens,

que se escondem de vez em quando dizendo que vão para o mato e se

transformam em leões, que mesmo quando se acham na fórma de homens estão

quasi sempre a rugir, e que vivem á custa dos mambos e dos povos

impondo-se-lhes como entes sobrenaturaes. Os mambos nada fazem sem os

consultar. A superstição com os pandoros em Tete communica-se aos

musungos mulatos e mesmo á gente da India que n'elles chegam a

acreditar. O Inhaúde e o Bonga das nossas desgraçadas guerras, apesar de

homens muito intelligentes em outras cousas, nada faziam sem consultar

os pandoros. Ás vezes os pandoros são mulheres. Ha n'uma terra da margem

esquerda do Mazoe, em logar onde já estive partindo de Tete, uma celebre

Clara, pandoro de grande fama e julgo que conselheiro muito attendido

pelo Bonga.

[Nota lateral: Extorsões pelo pandoro e grandes do Caterere.] Os grandes

do Caterere que vieram com o pandoro, nenhum dos quaes eu tinha visto na

aringa do mambo, disseram que eu era amigo de Gouveia, que vinha para os

enganar e fazer-lhes guerra, que devia voltar para trás e não tornar a

esta terra. Mostrei-lhes admiração de que tal dissessem quando eu tinha

ido visitar o seu mambo como amigo e como amigo tinha por elle sido

recebido; que elles já sabiam que o que eu queria era seguir para

diante, que elles estavam fechando os caminhos, o que lhes trazia

difficuldades no futuro, e que se a gente que ali estava me quizesse

levar as cargas para Macaha eu lhes pagaria como a carregadores e daria

ao pandoro e aos grandes alguns presentes. Foi provavelmente para

receber estes _presentes_ que pandoro e grandes vieram, quando constou

que desejava saír da terra d'elles. Acceitaram a proposta e começaram

depois com successivos pedidos. Tendo eu dado alguma cousa ao pandoro,

pediram para os grandes, depois para a outra gente, depois mais alguma

cousa por eu ter feito barracas.

Desejando eu sobretudo ir para diante e servir-me d'esta gente como

carregadores, fui cedendo a todas as extorsões, cuja importancia total

foi de facto insignificante, mas que pela maneira como foram feitas

justificam a futura occupação da terra de Guerere. Toda a noite, uma

esplendida noite de luar, tiveram batuque e adormeci ao som das

cantigas, cujas phrases mais repetidas eram que haviam de cortar-me a

cabeça, a de Manuel Antonio e a de um homem d'esta terra que tinha

entrado ao meu serviço.

[Nota lateral: Da povoação de Camunda ao Rupire.] Na madrugada do dia 23

paguei aos carregadores, dizendo-lhes que era para irem até á povoação

de Chibanda na Macaha, mas pouco depois começaram a dizer que só iriam

até ao Rupire, cousa commum de succeder em Africa com os carregadores,

mesmo em outras circumstancias.

Atravessei o Luenha e segui na direcção que mostra a carta pela terra de

Inhachiranga sem passar por povoação alguma, até ao rio Inhamatoque,

limite de Inhachiranga e do Rupire, onde os carregadores largaram as

cargas, voltando logo para a sua terra.

Logo que cheguei ao Inhamatoque mandei chamar gente do Rupire, mas só no

dia 26 é que tive os necessarios carregadores e parti para junto da

povoação do mambo d'esta terra.

[Nota lateral: Mambo Chiquiso.] Ao mambo do Rupire, chamado Chiquiso,

disse que só para o visitar e lhe dar alguns presentes é que eu tinha

vindo á povoação d'elle, em logar de seguir ao longo do Luenha até á

Macaha, mas que era para a povoação de Chibanda n'esta terra que eu me

dirigia. Por varias formalidades com o mambo, e com os pandoros que no

Rupire são tres, e para fazer excursões a alguns rios onde lavam oiro,

demorei-me no Rupire, e comquanto o meu projecto fosse seguir para

Macaha, como esta terra é talvez a mais pequena e menos povoada de todas

as d'esta região, e como fui successivamente reconhecendo a importancia

da posição do Rupire e quanto seria preferivel crear uma estação

civilisadora portugueza n'esta terra, achei conveniente ceder aos

pedidos que me faziam de não seguir para diante, até lançar bases de uma

estação que mais tarde iria exercendo a sua acção sobre os mambos e

povos das terras vizinhas. É no Rupire que antigamente acampavam

negociantes brancos de Tete e mesmo de Quelimane, para compra de oiro e

marfim que os pretos das terras vizinhas vinham trocar por fazendas, e

effectivamente, durante os tempos que eu mesmo ali fiquei, todos os dias

chegavam ao acampamento muitos pretos com canudos de pennas cheias de pó

de oiro para trocar por fazendas. Tinha eu combinado com o mambo que

seria junto á foz do Inhamussice que eu faria o meu acampamento e as

primeiras construcções, base da futura estação civilisadora e

commercial, mas as povoações do Rupire estão todas nas proximidades e em

torno da aringa do mambo, e as margens do Inhamussice não estão

actualmente habitadas. Vendo que muitos dos grandes se mostravam

desconfiados por eu querer ir fazer o acampamento n'um sitio isolado,

tive que abandonar a idéa de ir para o Inhamussice e que me decidir a

escolher um terreno n'uma elevação nas proximidades da aringa do mambo.

Pela prolongada falta de chuvas, a agua nos differentes riachos que

cortam o paiz tinha deixado de correr, e a melhor que encontrei,

extrahida de uma poça, era leitosa e de muito mau sabor. Foi o uso

d'esta repugnante agua de certo a causa dos soffrimentos de baço que

depois tive, mas a tudo me sujeitava para realisar a fundação da estação

do Rupire, que, embora me propozesse fazer varias excursões na Macaha e

outros paizes proximos, não mais tencionava abandonar senão quando de

Portugal fosse mandado alguem para tomar conta d'esta estação.

Paguei ao mambo e aos pandoros tudo o que elles quizeram pelo direito de

chamar minha uma porção do terreno, e dei começo a algumas construcções.

[Nota lateral: Desconfiança da gente do Rupire.] Apesar das boas

relações que logo de principio fiquei tendo com o mambo, o enorme ciume

que estes pequenos chefes têem uns dos outros, e sobretudo a

desconfiança que no Rupire como em Guessa tinham das más inteuções de

Manuel Antonio contra estas terras davam quasi diariamente motivo a

alvoroço e á reunião em conselho dos pandoros e grandes na aringa.

Se eu tivesse chegado ao Rupire vindo de Tete achariam muito natural a

minha visita. Reconhecendo pela lição que tive no Caterere que as minhas

relações com Manuel Antonio não eram uma recommendação para estes

vizinhos do Barue, desejei quanto possivel occultar estas relações e que

me considerassem como vindo de Quelimane, Senna e só de passagem pelas

terras de Manuel Antonio, mas cada circumstancia que lhes mostrava a

minha maior intimidade com este capitão mór era motivo de novas

desconfianças. Assim a chegada de um correio, a chegada de dois muleques

que eu tinha mandado a um ponto do Barue, onde me constou haver algum

mantimento, o desejo de eu expedir o meu correlo, tudo foi motivo de

desconfiança e de embaraços. Sujeitava-me com paciencia a todos estes

aborrecimentos, pois suppunha que successivamente elles iriam diminuindo

de intensidade mostrava bem ao mambo que se eu quizesse fazer guerra não

estava com todas as minhas cargas a installar-me ao pé da aringa, e que

a minha presença junto a elles era a melhor garantia que poderiam ter de

que nenhum branco os atacaria. Pareciam convencer-se, mostravam a maior

cordialidade, mas tornavam pouco depois a espantar-se pelos motivos mais

futeis.

[Nota lateral: Visita de Gurupira; mau tratamento que soffreu.] Disse

que quando Gurupira, o filho grande do mambo Motoco, passou pelo meu

acampamento do Luenha, lhe pedi que me mandasse carregadores para me

levarem d'ahi para Macaha, e me comprasse mantimentos para tambem para

lá mandar.

Na tarde do dia 8 de outubro, quando eu estava a conversar amigavelmente

com o mambo Chiquiso, sentado sobre um panno no chão junto á minha

cadeira, appareceu Gurupira com outro homem e o meu muleque que eu tinha

mandado com a fazenda para a compra de mantimentos. Quasi ao mesmo tempo

um preto veiu dizer baixo ao mambo que, alem d'estes tres homens, havia

outros escondidos no mato. Eram simplesmente os carregadores que eu

tinha pedido, que o Gurupira trazia com elle da terra do pae, e que

tinha deixado proximo dos limites da terra do Rupire para me vir

perguntar se eu ainda precisava d'elles. O mambo correu rapidamente para

a aringa, e momentos depois elle e uns sessenta homens armados de

zagaias, machados, arcos e flechas ameaçavam os dois homens que por

motivo tão natural e tão facil de explicar me vinham ver, não se

lembrando aquelles cobardes que n'aquelle instante só pensavam que eram

sessenta contra dois, de que um d'estes dois homens era filho de um

chefe que facilmente poderia arrasar todo o Rupire. Corri a defender de

morte certa os dois homens, cobrindo-os com o meu corpo, mas quando

deixei Gurupira para attender ao companheiro que meia duzia de homens

arrastavam pelo chão, levando-o pelas pernas, e emquanto eu rolava

tambem pelo chão, por me ter o desgraçado lançado os braços ao grosso da

perna, foi o filho do Motoco violentamente espancado. Consegui apaziguar

tudo e foram os dois homens para a aringa com a promessa formal do mambo

de que lhe não fariam mal algum. Effectivamente, no dia seguinte partiu

Gurupira para a sua terra tendo, antes que o deixassem saír da aringa,

mandado os pandoros pedir-me fazendas para lhe dar, a fim de que a gente

do Motoco lhes não viesse fazer guerra.

[Nota lateral: Partida do Rupire.] Desde então não tornei mais a ver o

mambo até que no dia 11 me vieram dizer que toda a gente do Rupire se

tinha reunido na aringa para pedir ao mambo e aos pandoros para me não

deixar ficar na sua terra.

Soube mais tarde que a maior parte da actual população do Rupire é

constituida por gente do Barue, que de lá fugiu quando este reino foi

tomado por Manuel Antonio, e penso que o pedido que acabo de mencionar

seria motivado por ter Gurupira, em a noite que passou na aringa,

fallado das estreitas relações que havia entre mim e o capitão mór de

Manica. Em vista d'esta declaração e do que a gente do Rupire, a quem eu

acabava de comprar terrenos, já me tinha dado noticias sufficientes para

a occupação, pela força, da sua terra, onde não consentiam que estivesse

como amigo, resolvi, em logar de continuar para Macaha e outras terras,

apenas com alguns muleques, em condições tão desfavoraveis como as da

epocha e circumstancias em que eu me achava, regressar para Gouveia para

propor o necessario para transformação do Rupire em terra ou prazo da

corôa; e mandei dizer ao mambo que mandasse reunir carregadores para a

minha partida.

Na manhã do dia 12 apresentaram-se os carregadores no acampamento e

receberam todos pagamento para levarem as cargas até á povoação de

Gossi, na terra de Sangano. Foi indicada esta povoação pela gente do

Rupire, apesar de não se achar ella na direcção do Barue, por dizerem

ser a mais proxima e aquella onde facilmente encontraria gente que

quizesse ir até á aringa de Tumbura.

Estes homens, quasi todos já meus conhecidos, pelo mal que se

comportaram como carregadores desde o acampamento do Inhamatoque até ao

do Rupire, e depois nos varios serviços, como construcção de palhotas,

de que eu os encarreguei, levantaram as cargas e pozeram-se a caminho em

tão boa ordem e assim foram seguindo, que eu suppuz que teriam recebido

especiaes recommendações para irem convenientemente até ao seu destino.

Tendo andado uma hora, atravessei o rio Inhamessansára, rio que eu já

tinha visitado dias antes, em que os pretos lavam oiro e que nasce no

mesmo centro, de onde, correndo em outra direcção, nasce o Inhamussice.

O Inhamessansára é aqui limite do Rupire e de Massáoa, terra que tinha a

atravessar n'uma parte que não é habitada, para chegar á terra de

Sangano e povoação de Gossi, filho grande do mambo d'esta terra.

Pouco depois de atravessar o rio, eu, que nunca tinha soffrido do baço,

comecei a sentir do lado esquerdo uma pontada que, augmentando

rapidamente, me impediu de continuar a andar e me fez entrar em machila.

Momentos depois um dos machileiros de traz largou a canna da machila

para apanhar o chapéu que lhe tinha caído, e o outro que era muito fraco

deixou-me cair bruscamente no chão. O choque d'esta queda aggravou muito

o mal que poucos instantes antes pela primeira vez se tinha manifestado,

e fiquei por mais de uma hora debaixo de uma arvore revolvendo-me no

chão com dores e afflicções horriveis, e suppondo por vezes que não mais

me tornaria a levantar. Os carregadores passaram para diante, na mesma

extraordinaria boa ordem a que me referi, sem que eu lhes dissesse o que

me tinha succedido.

Quando me foi possivel entrar na machila e pôr-me a caminho, estranhei

encontrar pouco depois, descansando todos juntos os carregadores que

suppunha muito adiante. Continuei no caminho avançando pouco porque os

machileiros erão só os meus muleques, e nos esforços que fazia para me

arrastar a pé quasi nada adiantava, quando um dos filhos do mambo chegou

correndo para me avisar que os carregadores não queriam andar mais e

pedir que mandasse algum muleque para tomar conta das cargas que elles

queriam abandonar. Eu não estava em estado de voltar para traz e tambem

suppuz preferivel não mandar para junto das cargas um só moleque, mas

sim dizer que as cargas tinham sido entregues ao mambo do Rupire e á sua

gente, que por ellas eram responsaveis até as pôrem na povoação de

Gossi; propondo-me, porém, logo que chegasse a esta povoação, mandar

buscar as cargas abandonadas, por modo analogo ao que já por vezes, até

no Barue, tinha tido que fazer, mesmo por falta de forças dos esfomeados

carregadores.

Continuei, portanto, na minha vagarosa marcha até que, tendo anoitecido,

me deitei na beira do caminho sem ter noticia da povoação de Gossi nem

encontrado uma gota de agua com que matar a sêde, que mesmo aos pobres

muleques devorava.

Pondo-me a caminho antes de amanhecer, na madrugada seguinte cheguei a

uma pequena povoação da terra de Sangano, de um preto chamado Chirombre;

soube ali em que direcção ficava a povoação de Gossi e que na vespera

tinha passado deixando á esquerda o caminho que lá me teria levado.

Expedi immediatamente um homem da povoação de Chirombre para ir pedir a

Gossi que me mandasse homens seus buscar as cargas que a gente do Rupire

me tinha deixado no caminho.

Pelas dez horas da manhã chegou á povoação de Chirombre um dos filhos do

mambo do Rupire que tinha estado sempre ao meu serviço, dizendo que

passára a noite ao pé das cargas, que o mambo tinha vindo da aringa e

não tinha conseguido que os carregadores seguissem para diante, e que

elle vinha pedir carregadores. Não havendo n'esta povoação um unico para

lhe dar, voltou logo para traz com a promessa de que se poria a caminho

com uns trinta homens que ainda estavam junto ás cargas. Até este

momento, portanto, não tinha eu rasão para pensar que succederia

differentemente do que por muitas vezes me tinha acontecido,

principalmente nas minhas antigas viagens, partindo de Tete mesmo com o

governador do districto, com o abandono das cargas e fuga dos

carregadores.

[Nota lateral: Roubo das cargas.] Na tarde, porém, d'este mesmo dia

appareceu-me n'um misero estado o preto que de madrugada tinha mandado á

povoação de Gossi, dizendo que tinha ali reunido alguns carregadores

para ir buscar as cargas abandonadas, e que ao chegar proximo d'ellas

tinha encontrado grande agrupamento de gentes do Rupire e de Massáoa;

este ultimo é, como disse, o nome da terra onde as cargas estavam; que

uns e outros se tinham apoderado das cargas, quebrando e rasgando os

motores para distribuir entre si tudo o que elles continham; e que tanto

elle como os homens de Gossi que o acompanhavam tinham sido espancados.

Por peior opinião que forme do caracter da gente do Rupire não penso que

este roubo fosse premeditado. Estou convencido que quando os

carregadores levantaram do acampamento tinham recommendações para seguir

em boa ordem até á povoação de Gossi; e que se o mambo veiu da aringa

até ao logar em que os carregadores pararam é que alguem bem

intencionado o foi avisar; e creio tambem que o mambo os exhortaria a

que continuassem. Mas eu por vezes tive occasião de notar o pouco caso

que em geral a gente do Rupire faz da auctoridade do mambo.

Provavelmente estes carregadores, homens sem palavra e sem respeito

pelos compromissos que tomavam em troca da fazenda que recebiam, pararam

quando se sentiram cansados com as para elles, geralmente muito fracos,

pesadas cargas, e só se teriam posto a caminho se eu me achasse junto a

elles e se, analogamente ao que já com elles tinha succedido, os

induzisse a continuar com algum novo pequeno pagamento.

Penso que estavam hesitantes no que fariam, quando gentes das povoações

de Massáoa, avisadas por qualquer modo do que se passava na sua terra,

correram a ver o que podiam com isso aproveitar.

Basta só poder explicar que nas discussões que entre uns e outros

podessem ter tido logar um primeiro motor fosse aberto e o seu conteúdo

espalhado, porque, em vista das fazendas soltas, excitados uns pelos

outros, concebe-se que perdessem a idéa de toda a responsabilidade e, na

febre de se apoderarem do que para elles eram tão grandes riquezas, não

parassem sem terminar a sua repartição, destruindo tudo que para elles

não tinha utilidade.

De nada servia voltar atrás só com os meus muleques e como me achava

apenas com o que tinha sobre o corpo e sem cousa alguma para comer,

n'uma miseravel povoação de quatro ou cinco palhotas, onde nada havia,

procurei dirigir-me logo para a povoação do mambo da terra em que me

achava.

É inutil fallar das privações que passei n'este e nos dias seguintes e,

por infeliz coincidencia, quando me achava victima dos maiores

soffrimentos que tinha tido em toda a vida.

[Nota lateral: Da povoação de Chirombre á de Chideu.] No dia 14 parto da

povoação Chirombre para a do mambo d'esta terra de Songano, chamado

Chideu, ou tambem Inhamande.

Chideu é extremamente velho e quasi cego. A terra de Sangano tem pouca

gente, mas o velho mambo é pessoalmente de grande auctoridade pelo poder

sobrenatural de ler no futuro que lhe attribuem.

Recebeu-me muito bem, mas com um ceremonial de feiticeiro que em

trabalho de outra natureza seria interessante descrever.

[Nota lateral: Possibilidade de tomar posse do Rupire antes de regressar

a Gouveia.] É, porém, importante notar que esta grande auctoridade na

opinião do seu povo e na dos povos vizinhos, disse que o tratamento que

eu tinha recebido, que o roubo que me tinha sido feito, quando ninguem,

tinha a queixar-se do meu procedimento nem do da minha pouca gente

quando eu tinha dado todos os presentes do costume ao mambo e aos

pandoros, quando tinha comprado uma terra para construir casas e ter as

minhas culturas, tudo justificava um severo castigo e que as terras do

Rupire fossem tomadas pelos brancos; offerecendo-se o mambo a

coadjuvar-me para esse fim com a sua gente.

É facil comprehender quanto eu desejaria, em logar de me declarar n'este

relatorio uma victima de um roubo no paiz que fui visitar, de o assignar

como commandante provisorio do Rupire. Por tres modos poderia ter

chegado a este resultado:

1.º Pelo emprego da gente de Motoco. Achava-me, porém, principalmente

pelo meu estado de saude, em condições demasiadamente miseraveis para,

em relação a um povo estranho poder por mim só representar a acção

official portugueza, e não desejei correr o risco de que a conquista do

Rupire, em logar de ser absolutamente a nosso favor, fosse quasi apenas

em vantagem da relativamente poderosa gente do Motoco.

2.º Pelo emprego de gente de Tete. São conhecidos os relevantes serviços

que ultimamente tem prestado ao paiz o governador d'este districto, e

como a nossa occupação effectiva de vastos territorios ao sul do Zambeze

entre Tete e Zumbo se tem realisado com o auxilio do capitão mór do

Zumbo, Araujo Lobo e do capitão mór de Chicoa, o mosungo Ignacio. Este

Ignacio tem com a sua gente ido occupando territorios para o sul de Tete

até quasi á margem esquerda do Mazoe e vive de ordinario n'uma aringa

que fica a menos de tres dias de caminho do Rupire. Recorrer ao

governador de Tete e ao capitão mór de Chicoa era de certo resolver a

questão com a maior brevidade. O proprio mambo Chideu me disse que

bastava que a gente do Rupire soubesse que o mosungo Ignacio marchava

para essa terra com os seus cypaes para que toda logo fugisse ou se

submettesse. Em uma carta que duas ou tres semanas depois vim a receber

em Gouveia do governador de Tete, informado embora com muitas alterações

e exageros do que succedia, espontaneamente me pedia elle mais algumas

informações a fim de immediatamente mandar avançar a necessaria gente de

Tete para effectuar a posse do Rupire. Tinha porém eu partido de Gouveia

com gente e conselhos do Manuel Antonio; o nome d'estes mambos vizinhos

do Luenha, principalmente o do Caterere, está muito ligado no espirito

de Manuel Antonio ao do Macombe, antigo rei do Barue, de quem elles eram

como vassallos e suppuz que recorrendo eu ao capitão mór de Chicoa para

a occupação do Rupire, não seria isso agradavel a Manuel Antonio; vindo

mais tarde a reconhecer que, se assim tivesse procedido, o teria

extraordinariamente offendido e talvez motivado acontecimentos

desagradaveis.

O terceiro alvitre, visto que eu suppunha Manuel Antonio muito distante,

occupando-se da construcção das aringas do Pungue, consistia em recorrer

á aringa de Tumbura, cujo capitão é o principal chefe de guerra de

Manuel Antonio, e fazer com elle, juntamente com gente do seu districto

e dos districtos proximos, que todos lhe obedecem, um agrupamento de uns

trezentos ou quatrocentos homens, o que me parecia ser mais do que o

necessario para realisar satisfactoriamente a occupação do Rupire e de

Massáoa.

Alguns caçadores matariam os bufalos e outra caça grossa, em quantidade

necessaria para dois, tres ou quatro dias, e chegada a gente ao paiz, os

recursos em cabras e em algum mantimento escondido, que eu sabia ali

havia, serviriam por algum tempo. Um cypae de Tumbura, que me tinha

trazido o correio e ainda se achava commigo, dizia-me ser facil, para

cousa tão pouco importante, que o capitão Macarimgomba, chefe de

Timbura, e reconhecido como capitão mór dos cypaes, reunisse a

necessaria gente e fizesse a expedição, sem ordem de Manuel Antonio, e

só por minha requisição. Foi este terceiro alvitre que sem ir adiante da

povoação de Chideu, eu procurei realisar. Para isso mandei a Tumbura o

citado cypae e muleques meus, e tambem para que de Tumbura me trouxessem

algumas das fazendas que eu ahi tinha em deposito, pois os meus amigos

da terra de Sangano, apesar da consideração e sympathia que me

dispensavam e de estarem sempre em torno de mim, pouco me davam de

presente, quasi nada queriam vender de fiado, e para eu e os muleques

termos a pouca e miseravel comida, que nos ia permittindo viver, tinha

sido necessario que elles fossem successivamente vendendo os seus pannos

até ficarem completamente nús. Parece-me que o mais precioso presente

que recebi do mambo Chideu foi uma véla de cebo, que eu já tinha visto

entre o seu material de feiticeiro, e que provavelmente guardava ha

muitos annos; veiu o velhinho, que muito lhe custava dar alguns passos,

trazer-ma á minha palhota n'uma tarde em que n'ella me achava com

bastantes dores e bastante fome.

Infelizmente para a execução do meu projecto, um movimento que n'essa

mesma occasião se tinha dado nas aringas fronteiras do Bonga e de

Massangano e do Barue tinha obrigado a partir para lá com a gente da sua

aringa o capitão Macaringomba, e os meus emissarios encontraram em

Tumbura quasi que unicamente as mulheres e as creanças.

[Nota lateral: Partida de Sangano para Tumbura.] Na impossibilidade de

effectuar a occupação do Rupire antes de deixar estas terras, parti no

dia 25 de outubro para Tumbura, seguindo da povoação de Chideu pelo

itinerario marcado no mappa, com machileiros que Chideu mandou reunir,

pagos com fazendas, que me tinham chegado de Tumbura. Um dos filhos do

mambo, por ordem do pae, acompanhou-me até esta aringa. O filho mais

velho, Gossi, de que tenho varias vezes citado o nome, veiu para a

povoação do pae logo depois de eu ahi chegar, e ficou ahi até eu partir.

Morto o velho mambo, este rapaz facilmente reconhecerá a soberania de

Portugal, ou fará a entrega das suas terras.

Como se vê na carta entre a terra de Sangano e o rio Luenha, está a

terra de Inhachiranga que eu já disse ter atravessado na ida para o

Rupire sem passar por povoação alguma. Na volta passei pela aringa de

Cariua, filho do mambo da terra, e ahi tive occasião de ver que a

opinião a respeito do Rupire era a mesma que em Sangano, e que ficam

esperando que em breve passem pela sua terra, como amigos, cypaes de

Gouveia, com destino ás terras que fizeram por ser castigadas,

[Nota lateral: Partida de Tumbura para Gouveia.] No dia 26 de outubro,

dia seguinte ao da minha partida da povoação de Chideu, cheguei a

Tumbura. Ahi soube que Manuel Antonio não se achava no Pungue, mas tinha

corrido de Gouveia para pôr fim ao movimento parcial, que contra desejos

d'elle, se tinha dado na fronteira das terras do Bonga. Puz-me em

communicação com elle; encontrámo-nos no dia 3 de novembro na aringa de

Inhangona e d'ahi partimos juntos para Gouveia ao encontro do sr.

governador geral da provincia, que n'esse mesmo dia ahi devia ter

chegado.

[Nota lateral: Ordem para a occupação do Rupire.] Exposta a situação ao

sr. governador geral, resolveu elle que o districto de Manica e o

capitulo mór de Manica e Quiteve dirigissem uma expedição ás terras de

Rupire e de Massáoa.

Devo acrescentar que antes da minha chegada a Gouveia, constando ahi

vagamente o que tinha succedido, já o governador do districto de Manica

tinha solicitado do general da provincia ordem para que fosse mandado

pessoalmente ao Rupire.

N'estas condições a minha presença de nada serviria para o bom resultado

da expedição; como tambem parecesse melhor nada emprehender do lado de

Manica até que fosse conhecido o resultado da missão do Gungunhana,

junto do governo de Sua Magestade; achei conveniente, tanto por causa de

minha saude, como por outros motivos, aproveitar o intervallo para vir á

Europa, onde verbalmente ou em qualquer trabalho especial poderei

fornecer importantes informações, em vista do desenvolvimento dos

auspiciosos trabalhos encetados pela creação do districto de Manica.

[Nota lateral: Despezas da expedição.] As despezas da expedição foram

fazendas gastas com os carregadores e machileiros, com os presentes

voluntarios ou espontaneos aos differentes mambos, com as exigencias de

alguns d'estes mambos e dos seus pandoros, a compra de terras e de

palhotas no Rupire, e as cargas roubadas pela gente do Rupire e de

Massáoa, n'esta ultima terra, sendo parte d'ella artigos geralmente de

acampamento, pertencentes ao districto de Manica, outra, fazendas da

companhia de Ophir, que fez todos os adiantamentos para esta expedição,

e finalmente motores de propriedade; pessoal, avalio em 1:500$000 réis a

importancia das fazendas da companhia de Ophir, com que foram feitos

todos os pagamentos e do resto d'estas fazendas roubado em Massáoa.

[Nota lateral: Resultados da expedição.] Parece-me poder citar os

seguintes: ter feito melhor conhecimento do que é o Barue, e das

condições em que actualmente se acha este antigo reino; ter-me

certificado que nos chamados Campos de Oiro do Imperador Guilherme ainda

não havia vestigios de qualquer acção estrangeira, e que estavamos ainda

bem a tempo de em toda esta região exercermos a nossa occupação ou

protecção; ter, pelo que vi, e pelo oiro dos rios Inhamessansára, Muse,

Inhamussice, Munhoque, e outros, que os pretos todos os dias traziam ao

meu acampamento para trocarem por fazendas, e por saber que ha seculos

elles lavam sempre nos mesmos logares, adquirido a convicção de que o

centro, de pequena area, d'onde em todas as direcções partem estes

differentes rios, deve ser um importante campo aurifero como Mauch o

suppoz; ter obtido informar-nos ácerca de um outro centro a que adiante

me referirei, ainda mais interessante pela maior quantidade de oiro que

hoje d'elle extrahem, pela abundancia de agua corrente, pelas grandes

manadas de bois, que n'elle ha, e pela sua salubridade; finalmente, não

tendo conseguido fixar pacificamente no Rupire as bases de uma estação

civilisadora e commercial portuguesa, ter recebido das gentes d'esta

terra, de Guessa e de Massáoa pretextos, que na opinião dos mambos

vizinhos nos justificam a tomar posse d'estas terras; e alcançado a

nomeação de uma expedição official do districto de Manica para este fim,

e para a fundação de um nucleo, que não póde deixar, por pouco que

façâmos, de trazer ao dominio portuguez todos os vizinhos povos d'esta

interessantissima região.

II

Algumas considerações relativas á politica interna dos districtos de

Manica e de Tete

Na primeira parte descrevi rapidamente a minha viagem a uma parte da

região denominada por Mauch Campos de Oiro do Imperador Guilherme, e

indiquei alguns dos resultados directos d'esta viagem.

N'esta segunda parte reunirei algumas informações relativas aos paizes

percorridos, e outros que devemos considerar em breve como parte

integrante da provincia de Moçambique.

[Nota lateral: Barue.] No relatorio da viagem de Mauch falla este

explorador do successor de Musilicatze, do Musila e do Macombe, rei do

Barue. Alem d'estes tres grandes potentados só encontrava entre o

Limpopo e o Zambeze chefes minusculos dos quaes apenas cita o nome de

Schomare (que já sabemos ser Machamare), a proposito da mais notavel

riqueza dos seus terrenos auriferos.

O grande reino de Barue, que já tinha atravessado ha annos, quando fui a

Manica, e ha pouco quando fui ás terras dos landins, foi agora

percorrido por mim em toda a sua extensão, de leste até ao seu limite

oeste, formado pelo Caurese e depois mais para o norte pelo Luenha.

Como é sabido, o rio Inhandue, que banha Gouveia, separa n'esta altura o

Barue das terras da soberania portugueza. Este rio póde-se considerar

como origem do rio Urema, affluente do Pungue. Entrando no Barue os rios

principaes, pela extensão do percurso e largura do leito, que encontrei

foram successivamente os seguintes: o largo rio Morose, affluente do

Inhamapase, que desaguando no canal Mucua se póde considerar ou

affluente do Pungue pelo Urema, ou do Zambeze pelo Sangue; o tortuoso

Misangase que desemboca no Zambeze, logo abaixo do luane do Prazo

Chemba, e cujo leito se atravessa ou segue quasi umas vinte vezes no

caminho entre Chemba e Gouveia; o Pompue, affluente do Zambeze a meia

altura da linha da praia do praso Chiramba, e o Muira, affluente do

Zambeze, no Bandar, isto é, um pouco a jusante da entrada da Lupata.

Poderei ainda citar o Mupa, affluente do Luenha, um pouco a jusante da

foz do Caurese. Se estes rios ainda tivessem agua corrente em toda a

epocha do anno, seria o Barue, no geral da sua area, um dos mais bellos

campos que a provincia de Moçambique podesse offerecer á colonisação

agricola europea. Infelizmente porém todos os vastos leitos arenosos

d'estes grandes rios se acham seccos durante grande parte do anno,

podendo-se apenas, e não em todos, obter d'elles agua para beber por

meio de covas abertas no seu leito.

Relatorio de uma viagem ás terras do Changamira · 第 1 / 3 段