Antonio de Azevedo foi abrir a reprêsa de lagrimas no seio do ancião que
o esperava com as suas, unico balsamo das supremas afflicções.
--Veja a minha vida!--disse entre soluços o bacharel--Pensar eu que o
muito trabalhar me daria um quieto contentamento, e que, além dos
dissabores do coração, nunca teria outros!... E agora estes! os da
ultima deshonra! uma vergonha irremediavel que me priva de olhar de
frente para os homens que estimaram meu irmão por amor de mim!
O velho, combatendo os escrupulos do moço, teve a admiravel e inspirada
eloquencia da verdade. Declinou a deshonra sobre quem a praticara, e
provou ser aquella desgraça mais uma prova para aquilatar as virtudes do
bacharel. Verdadeiros, mas, ainda assim, inconsolativos argumentos!
Fallaram longo tempo. Valentim não deixara sahir o amigo n'aquella
manhan, receoso de que a solidão lhe amargurasse a mais as apprehensões.
Quando o moço se impunha a si mesmo o preceito da força para o trabalho,
e o velho insistia nos seus dictames insinuativos de coragem, entrou no
escriptorio Fernando de Athaide.
Antonio de Azevedo, como a desentorpecer-se de um glacial spasmo,
estendeu-lhe machinalmente a mão e deixou-se abraçar. Valentim fazia um
alarido de exclamações de espanto, que não deixavam ouvir o adventicio.
--Vejo-o triste e demudado, senhor Azevedo!--disse o primo de Corinna.
--É oiro que está ainda ardendo da ultima prova!--respondeu o velho--A
desgraça cuidou que o fulminava; mas a honra venceu.
Antonio d'Azevedo fez um gesto supplicante de silencio ao doutor, e
disse a Fernando:
--Ninguem o esperava no Rio, senhor Athaide.
--Foi uma partida repentina. Assim é que se fazem as coisas!
--Como ficou Corinna?--perguntou Azevedo; e logo as lagrimas lhe
saltaram a quatro, e uma ancia lhe ressumou á face em suor frio.
Sentou-se quebrantado, e murmurou:
--Desculpem-me: estou-me fazendo mulher... Estas lagrimas, se as não
chorasse, matavam-me.
--São de saudade?--disse Fernando.
--São de desesperança, cuido eu--respondeu Azevedo, escondendo os olhos
com as mãos.
--Anime-se!--exclamou Athaide--Que descorçoamento é esse, improprio
d'uma alma de bronze! Azevedo, saia d'essa lethargia! Olhe que Corinna
ama-o como sempre, e espera-o com a anciedade d'um anjo consolador de
todas as suas mágoas.
--Tardia virá a consolação!--balbuciou o moço--Deus me livre de a
condemnar a soffrer debaixo da minha estrella... Escreveu-me ella?
--Que pergunta! Tenho em casa uma carta sem fim, que o meu amigo ha de
lêr como se ella mesma a estivesse fallando! Venha comigo, e cuidará que
tem entre mãos, não uma carta, mas o proprio coração da sua Corinna!
--Agora consinto que vá!--disse o velho.
--E o doutor vem tambem--acudiu Fernando.
--Vamos lá!--voltou o velho--Vossês os rapazes andam comigo d'aqui
p'r'ali, como se esta gotta não merecesse respeito nenhum á geração
nova! Ora esperem ahi, que eu vou vestir a dalmacia, a casaca
circumspecta! Sua senhora veio?
--Veio, sim.
--Ah!--disse Azevedo--está cá a senhora D. Felismina?!
--Pois eu havia de deixar lá a alma! Então vossê não sabe que marido eu
sou! Minha mulher sou eu--disse com festivo semblante o millionario.
Sahiram.
--Isto veio do ceo!--disse Valentim--Quem distrahiria o meu pobre
Antonio, se lhe não chegassem os bons amigos da patria! Vai ter um dia
cheio, meu amigo! Quem lhe fallaria com mais ternura da sua Corinna que
a irman querida! Felismina se chama ella: hoje é que é _feliz mina_ de
consolações para o meu desterrado!
Assim, com estes dizeres affectuosos do alegre ancião, chegaram ao
grandioso predio, que Fernando habitava.
Na primeira sala esperava-os Felismina. O doutor, que subia na
dianteira, ao vêl-a, exclamou:
--Sim, senhores! É muito linda! Ha muito que não vi d'estes fructos da
minha terra! Quero e gosto que as senhoras brazileiras vejam o que lá ha
por Portugal!
Felismina sorriu-se ao galanteio do velho, e abraçou Antonio d'Azevedo.
--Como está abatido!--disse ella.
--Abatido no rosto, mas Sansão na alma!--acudiu Valentim.
--Acha-me velho?--disse Azevedo--N'este paiz acaba-se depressa o homem
que se não exercita muito, e endurece ao fogo do sol. A sua familia,
minha senhora, ficou boa? A senhora D. Corinna?
--Como faz essa pergunta, senhor Azevedo!...--disse Felismina--Que
frialdade! Dar-se-ha caso que vossa senhoria não ame já minha irman?
--Por Deus, minha senhora!--respondeu o moço--Todos os infortunios podem
menos sobre mim que uma injustiça, que deixa de ser injuria por ser dita
por vossa excellencia.
--Se elle ama sua irman!--atalhou o velho--Ó minha senhora, se os meus
cabellos brancos inspiram confiança, creia vossa excellencia que o meu
Azevedo ama tanto sua irman que, por amor d'ella, excede-se a si proprio
na prática das virtudes. Grande e distincto deve ser o amor que faz o
virtuoso! Vicios e crimes é o que eu tenho visto resultar dos amores
vulgares...
--Está o senhor Azevedo ancioso por que lhe entreguem a carta de
Corinna--disse Fernando--Vai tu buscal-a, Felismina.
Abriu-se uma porta, e appareceu Corinna, exclamando:
--Não preciso que me tragam!
E cuidam que ella impallideceu, desmaiou, ou, pelo menos, expediu um ai
de procedencia dramatica?
Não, senhores. Corinna entrou de corrida, leve como um gnomo, a rir e a
chorar, purpureada, com os olhos a saltar-lhe fóra da face, os braços
abertos e convulsos, a respiração como tomada, e os labios crispando
nervosamente, sem poderem proferir o quer que era de que só os
dramaturgos acham sempre uma expressão insipida, incolor e inverosimil.
Antonio de Azevedo é que (sem desaire seja dito) deu uns ares de
idiotismo, que, na scena, seriam lastimaveis! Abraçou Corinna, como a
medo: era a primeira vez que a sentia nos braços. Fitou-a como quem
duvída; remirou-a, como quem teme um engano dos sentidos; estava-se
acordando do sonho; invocava a sua razão; e, quando a razão lhe mostrou
em volta d'elle todas as faces orvalhadas de lagrimas, é que Azevedo
pôde exclamar:
--Bem hajas, anjo de Deus!...
Imagine agora a minha leitora os successos indescriptiveis d'este lance.
Por pouco imaginativa que seja, vossa excellencia ha de avultal-o melhor
em sua fantasia do que eu poderia dar-lh'o n'esta pagina. Uma só poesia
creou a natureza para taes quadros: é a poesia da pintura.
Foram cinco minutos de febre, de delirio, de silencio, de ouvir-se o
bater forte e descompassado de cinco corações. Ora pintem lá isto, a não
ser em expressão de olhos, de labios, de feições que só, em casos
d'estes, se vos deparam em pinturas christans, onde os enlevos são ceo,
bemaventurança e alegria de santos. E haveis de notar que o proprio
pincel profano antes se quer a pintar expressões angustiosas, porque as
visagens da afflicção mais se prestam ao relevo, como em Niobe, em
Laocoonte, em Ugolino. Quer tudo isto dizer que tenho diante dos olhos
aquelle espectaculo de jubilos, e desisto de descrevel-o para de todo em
todo me não capacitar de minha inhabilidade.
Porque hei de eu dizer tão affoitamente «espectaculo de jubilos», se
Antonio d'Azevedo, momentos depois, se deixava senhorear da lembrança do
irmão, banido do numero dos honrados! A candida Corinna encarava n'elle
com olhos aguados, e no lacerante silencio de sua alma perguntava a si
mesma, que fizera ella para ser menos amada! De que outro modo se
explicaria a tristeza do moço n'aquella primeira hora!
Não pôde ter-se que o não chamasse a um ponto mais afastado da sala onde
se tinham ficado Valentim e Fernando, em quanto Felismina sahira a dar
ordens.
--Tu estás melancolico, Antonio!--disse ella, tomando-lhe a mão com
estremecida ternura--Viria eu contrariar a tua vontade? Estaria eu
enganada comtigo?...
--Vejo-me indigno de ti...--respondeu Azevedo.
--Indigno de mim!--tornou ella crescendo no afago da expressão convulsa
de lagrimas--Pois tu não tens sido mais que nobre para seres digno da
mais nobre e pura mulher! Quererás que eu te recorde as tuas virtudes,
meu querido amigo!?
--As minhas virtudes--replicou o moço--tão frageis eram, que talvez a
esta hora tenham sido reputadas hypocrisia.
--Ó filho!--exclamou ella--desconfio da tua razão! Muito deves ter
padecido para te considerares assim, quando em volta de mim os teus
merecimentos são louvados com admiração de todos!...
--Escuta-me para me consolares, Corinna. Deus quiz que tu viesses á hora
em que toda a esperança me ia fugindo...
Antonio d'Azevedo contou a Corinna a ignominia de seu irmão, e levantou
a voz de modo que Valentim, no angulo opposto da sala, ouviu tudo.
Ergueu-se o velho, caminhou para elles, e interrompeu a exposição do
bacharel.
--Senhor Antonio d'Azevedo, antes do infortunio de seu irmão, vossê, no
Rio de Janeiro, gosava nome de intelligente, laborioso e honesto; depois
do infortunio de seu irmão, o nome de Antonio d'Azevedo é proferido com
o acatamento de que homem nenhum de sua idade se tem gosado. Os velhos
honrados da sociedade brazileira querem conhecel-o: os portuguezes citam
o seu glorioso procedimento com orgulho. O facto é de ha tres dias, e
tem corrido de bôca em bôca como raras vezes acontece a uma boa acção.
Ora pois! Eu sei bem o que é dignidade; achei que a sua se manteve
sempre na altura dos mais dignos homens d'outros tempos; admirei-o e
louvei-o pelo que outros chamariam demasias de orgulho sob capa de
independencia; agora, porém, é chegada a hora de eu lhe dizer que, assim
como a suave religião se descaminha até ao fanatismo execravel, assim a
briosa dignidade, se perde o rumo do bom juizo, vai dar comsigo n'uns
excessos rudes, insociaveis e repellentes. A sociedade applaude os
virtuosos, mas desadora os que fazem de sua virtude uma tribuna para lhe
censurar as fraquezas. O excesso do bem é um mal que não me aproveita a
mim, nem a outrem. Eu quero que Antonio d'Azevedo se mostre alegre para
que o mundo não diga que a honra tem uns pavores interiores refractarios
ao contentamento. A boa consciencia é alegre, senhor. E o melhor
beneficio que vossê póde fazer aos homens é convencel-os de que vai indo
seu caminho, arrancando os espinhos dos pés, e sorrindo ás novas
desventuras que o impecem. Fallou o velho. Diga agora o anjo, a nossa
Corinna, o que será preciso fazer-se a esta criança decrepita para a
levantarmos do seu abatimento?
--Se eu pudesse...--balbuciou Corinna.
Antonio d'Azevedo levou aos labios a mão de Corinna, e murmurou:
--Emenda tu os defeitos da minha desgraçada indole... Dá-me paz,
Corinna; dá-me a uncção do teu amor, e eu me salvarei de mim proprio...
--Primeiro passo a dar!--exclamou Valentim da Costa--O primeiro passo a
dar é casarem-se, meus filhos!
N'este momento entrou Felismina, e disse:
--Está o almoço na mesa.
Valentim continuou:
--Visto que está o almoço na mesa, o primeiro passo a dar, meus filhos,
é... almoçar!
No decurso da conversação durante o almoço, disse Fernando de Athaide:
--Ahi vão novidades, meu caro Azevedo. O visconde da Cruz casa
brevemente com Emma, e Luiz Taveira com Leonor. Eliza tem doze annos, e
já é pretendida. Quem de certo nos fica solteira é a nossa Corinna! que
pena!
Riram todos, e Valentim exclamou:
--Solteira! essa é boa! Não consentirei eu que a belleza assim seja
ultrajada! Aqui está a minha mão, senhora D. Corinna! É um sacrificio
que faço da minha isempção; mas faço-o para que suas manas se não riam
de vossa excellencia.