As cartas de Antonio de Azevedo a Corinna e Fernando produziram o que
elle até certo ponto vaticinara, fallando com Valentim.
Corinna duvidou do amor, que se desafogava em dissertações mysticas, e
bucolicas saudades d'arvores e de rios.
As irmans de Corinna, com o louvavel intento de a consolarem, abundavam
no parecer d'ella.
Fernando de Athaide dizia a sua mulher que não podia caber amor em
coração tão cheio de orgulho.
D. Mafalda dizia ao marido que era moda a gente baixa fingir philaucia
de fidalgos.
Gastão, acidulado pelo dito da esposa, deu para baixo na peonagem, e
declarou que sempre esperava que sua filha levasse uma boa lição.
Acontecera estar n'este ensejo em Lisboa, e hospede de Fernando, o
visconde da Cruz e seu irmão Luiz. A declamação do fidalgo ferira
acremente a dedicada alma do visconde. Tambem este havia de ter uma
carta explicativa do proceder de Antonio d'Azevedo: esperava-a do Porto,
e, sem a ter lido, não queria arvorar-se defensor do ausente. Tanto,
porém, subiu Gastão em sarcasmos contra o _homem de Barcellos_, que o
visconde ergueu-se irado, e exclamou:
--Senhor Gastão de Noronha! o _homem de Barcellos_, quando vossa
excellencia estava em risco de extrema pobreza...
Corinna correu contra o visconde, e poz-lhe a mão na boca, supplicando
silencio. A prevista menina sabia que duro vexame o pae ia soffrer com
tal revelação. Calou-se o visconde, e o fidalgo insistiu na continuação
da phrase, com tregeitos iracundos. O visconde ia pegar do chapeo,
quando Emma lhe disse:
--Não saia assim irritado, visconde. Sou eu que lh'o rogo.
Parece que Emma podia muito no animo do visconde.
Fernando travou do braço do cavalheiro, e passou á sala immediata.
--Vossê--disse elle--ha de dizer-me o resto da phrase. Que fez Antonio
d'Azevedo, quando meu primo estava em risco de extrema pobreza?
--Mandou-me seis contos de reis para eu lhe valer, sem declarar a seu
primo que os mandava elle. No mesmo paquete em que recebi tal ordem,
veio vossê. Logo que me revelou quem era e o intento com que vinha,
entendi que a posição de seu primo estava mudada. Ainda assim, fui a
Vianna, e offereci dinheiro a Gastão. Como não precisava, devolvi a
ordem a Antonio d'Azevedo.
--Bem--disse Fernando--é forçoso o segredo?
--É. Corinna valeu-me n'um impeto de cólera; agora confio de vossê que a
minha palavra, dada ao Azevedo, se não quebrante.
--Confia bem, visconde. Que admiraveis virtudes as d'este moço! Sabe
vossê que um homem, conhecedor de taes exemplos de honra, nunca está bem
com a sua consciencia!? Eu não sei o que já hei de fazer a favor de
Antonio d'Azevedo!... Aqui me diz o meu correspondente que elle deixou
ficar o dinheiro em deposito até nova ordem. Está claro que o não
acceita...
--Clarissimo. Se elle não vem, como iria levantar a prenda da
noiva?!--disse o visconde.
--Que se ha de fazer, meu amigo?
--Não sei: é esperar que elle tenha o que julga necessario á sua
independencia.
--Vou dar um passo decisivo!--tornou Fernando, depois de breve
meditação.
--Qual?
--Vossê verá. Vamos á sala. Receio que meu primo diga alguma grosseria a
Corinna.
Quando entraram, a pobre menina estava chorando, e Felismina,
lançando-lhe os braços sobre os hombros, segredava-lhe consolações.
Fernando approximou-se de ambos, e disse a Corinna:
--Está tudo remediado. É questão de alguns dias.
E, voltado a Gastão, disse jovialmente:
--Olé, primo! o incidente passou: torna tudo ao seu curso regular. Aqui
não se falla bem nem mal de Antonio d'Azevedo. Defendel-o seria
ultrajal-o. Accusal-o seria um vilipendio. Ninguem ficou mais nem menos
do que era.
Na noite d'esse dia estava Corinna no seu quarto com Felismina, quando
entrou Gastão de affavel semblante. Sentou-se entre ambas, e disse com
mellica entoação:
--Tu és minha filha, és o meu sangue, tens pundonor de raça, e deves
estar curada, Corinna. Ha muito quem te pretenda; e teu cunhado deixa-te
a administração dos vinculos para tu poderes escolher marido. Tens tres
bons partidos a escolher. O morgado de Villar da Rocha está aqui em
Lisboa, viu-te, e perguntou-me se não estavas promettida. Um filho
segundo do marquez de Travassos, familia mais antiga que a Lusitania,
fez-me egual pergunta. O barão da Teixeira, vindo ha pouco da Bahia, com
mais de quinhentos contos, fallou em ti ao Fernando. Escolhe.
--Não escolho ninguem--disse resolutamente Corinna--O que eu escolhia
era a morte.
--Antes isso que a vergonha da familia!--replicou o pae.
--Que vergonhas dá ella á familia?--perguntou Felismina com os geitos
especiaes de quem tem dois milhões.
Gastão involuntariamente respeitou a interpellação da filha millionaria.
A bem dizer, a pergunta era irrespondivel.
D'ahi a pouco estava febril Corinna, e as ancias e soluços tão
frequentes a opprimiram, que a familia houve medo d'algum accesso de
loucura.
Fernando de Athaide, conscio da brevidade do insulto nervoso, disse ao
primo:
--Não volte a injuriar a pobre menina, que a mata a ella, e perde a
minha estima. Eu hei de necessariamente fazel-a feliz. Se o não
conseguir, maldigo a hora em que a conheci.
Dias depois, Corinna sahira do seu quarto, pallida, desolhada e triste.
O sangue mal lhe acudia ao pulso. As palavras sahiam á força de
caricias. Era preciso fazel-a chorar para que as lastimas subissem do
coração aos labios. Fallavam-lhe em Antonio de Azevedo, e as faces
retingiam-se-lhe; mostravam-lhe o anjo da esperança a voejar para ella,
e o sorriso volitava-lhe em toda a face até se confundir com as lagrimas
de jubilo. Mas este mesmo jubilo era um accesso de febre. Os medicos
tinham-se enganado: aquelle quebranto de forças e feições eram
prenuncios de morte. A gente experimentada facilmente diagnostíca estas
insaneaveis doenças: os medicos é que, do cocuruto da sciencia, o que
ordinariamente palpam n'estes symptomas é uma doença que entende com o
estomago ou com o figado. De coração só conhecem lezões, turgecencias,
hypertrophias, aneurismas, &c. Tem assim, e por conta da sciencia,
morrido muita gente, que se curava com um raio de alegria e um pouco de
compaixão do mundo.
Fernando encerrou-se com Gastão, e disse-lhe:
--Vou liquidar a minha casa ao Rio de Janeiro. Mandei crenar a galera.
Parto na proxima semana. Minha mulher vai comigo; e Corinna irá tambem,
se o primo a ama e me estima a mim. Se ficar, morre; e se morrer,
Felismina não quer voltar a Portugal.
--Vai procurar o noivo minha filha?--disse Gastão ironicamente.
--Vai procurar a vida; e se Antonio d'Azevedo lh'a dér, bem haja o
salvador da nossa Corinna!
--Pois que vá: nós partiremos para o Minho.
--Pedia-lhes que ficassem em Lisboa, e não alterassem os costumes de
minha casa. Tenho relações que desejo conservar. Meu primo honrará os
nossos amigos, recebendo-os. Em seu poder fica a porção da fortuna que
tenho em Portugal. A sua estima por mim ha de chegar ao sacrificio de
esperar em Lisboa a nossa volta do Brazil.
Não se fez rogar o fidalgo. Sujeitou-se plenamente á vontade do genro.
Recebeu Corinna da Soledade a nova da viagem. Alvoroçou-se até recahir
na febre; mas a crise foi leve, e rapida a convalescença.
A galera de Fernando, construida em Inglaterra, era garbosa, linda e
leveira como um cysne. A tolda era um camaranchel de sedas, como o das
antigas gondolas de Veneza. O chrisma para «Felismina» fadou-lhe mais
ricos destinos. O amor lhe inventara os adornos, os perfumes, as graças
e garridices que só o amor desentranha de suas fantasias. A sala de ré
era uma ante-camara de sultana. Ia por esses mares fóra aquella concha
de perolas, namorada das auras que ciciavam no velame, imitando as
branduras de suas irmans derramadas pelas moitas dos gestaes. Que
vontade fazia aquella gentil galera de ir ter um mundo na vastidão do
oceano, e não vêr mais que ella e ceo, e um ente amado, debaixo das
estrellas a espelharem-se nos paramos azues das aguas! Como alli o
coração, golpeado na terra, se iria contente, se cá d'estes abysmos
levasse ainda a salvo o condão da poesia que faz sahir mundos sobre
mundos dos abysmos do mar!
A galharda galera, como ovante da gentil alma que levava, sahiu barra
fóra com todo o panno e prospera monção. A festival menina, por esses
mares fóra, sobre a tolda, a scismar, com os olhos lá no infinito
horisonte, d'onde a chamava o esposo, e os favonios a enfunarem-lhe as
roupas alvissimas... que linda ia! julgareis ver a pomba sobre a arca
fluctuante nas aguas já serenas do diluvio!
Ao vigesimo nono dia de viagem avistaram pharoes das terras de Santa
Cruz.
Corinna, ao repontar da alva, subiu ao tombadilho, e viu a cidade
d'oiro, a rainha do novo mundo, espreguiçando-se do ultimo somno entre
os ceruleos coxins do seu immenso leito com pavilhão de mil flammulas e
bandeiras. Parecia-lhe ver caminhar a terra, mar dentro, a recebel-a;
mas tardio era o avançar da galera a encontral-a.
--D'aqui a meia hora?--disse ella a Fernando.
--Sim, d'aqui a meia hora, minha egoista!--respondeu o primo, e
continuou sorrindo--D'aqui a meia hora já não tens patria, nem irman,
nem cunhado! O Antoninho, que, a estas horas está escrevendo uns
_provarás_, com o supremo tedio de que é susceptivel a creatura humana,
vai receber um golpe d'alegria mortal!... Haverá no genero humano um
segundo homem a ponto de experimentar prazer egual?! É impossivel que
elle te não adivinhe, mana Corinna! salvo se o coração de um
jurisconsulto é tapado a toda a casta de inspiração divina!...........
......................................................................
A este tempo, chegava Antonio d'Azevedo Barbosa, ao caes.
Adivinhou, com effeito?--pergunta o leitor.
Nem sombra de presentimento, meu amigo! O que trazia ao caes, e a bordo
de um navio, Antonio d'Azevedo, é successo infausto que tem uma historia
concisa, mas necessaria.
Um dos irmãos do bacharel, Francisco d'Azevedo, era caixeiro, em Lisboa,
n'uma casa de cambio da rua dos Capellistas. Merecera um bom nome, e
cahira em tentação depois de o ter merecido. As desordens da vida, as
demasias de luxo, a ancia de mostrar-se rico aos olhos d'uma mulher que
distinguia os moços ricos, induziram-no a subtrahir, com intenção de os
repor, capitaes, que excediam os seus ordenados de dois annos. Francisco
jogou na esperança de resgatar-se, e cavou mais no abysmo de sua
perdição. Quasi a ponto de ser descoberto, quando o patrão dava o
balanço, o caixeiro desappareceu, e fugiu caminho do Brazil, confiado na
reforma de seus costumes, e na possibilidade de ganhar depressa com que
restituir o furto.
Chegou ao Rio, e procurou o irmão. Deu explicações inventadas da sua
ida, e conseguiu logo, mediante Antonio d'Azevedo, boa casa, bom
ordenado e muita estimação dos patrões.
O bacharel estava contente do expediente de seu irmão. Lembrava-se que
assim mais cedo as irmans teriam bom amparo.
Lia, passados trinta dias, Antonio d'Azevedo o _Commercio do Rio de
Janeiro_, e casualmente parou os olhos sobre esta correspondencia,
intitulada: _Cautela com os ladrões._
E seguia d'este theor:
«_Fugiu de Lisboa, com direcção ao Brazil, um caixeiro do cambista F***.
Chama-se Francisco de Azevedo, natural de Barcellos. Desfalcou o patrão
em dois contos de reis. Para que o ladrão não logre o bom resultado das
suas manhas, avisa-se o commercio do Brazil._»
Antonio d'Azevedo viu entre si e o jornal um redemoinho de scintillas de
lume, e, ao levar as mãos aos olhos, tinha perdido os sentidos. Este
lance passára-se no escriptorio de Valentim da Costa.
Entrara o velho, e ouvira o soluçar cortante do seu amigo. Interrogou-o
com paternal carinho. Azevedo ergueu-se como atordoado, e, ao sahir,
murmurou estas palavras:
--A infamia está ahi escripta n'esse jornal.
Foi ao armazem onde Francisco era guarda-livros; entrou no gabinete
particular do negociante, e encontrou-o lendo o jornal.
O negociante estava correndo a primeira pagina, e a noticia vinha na
segunda.
--Por cá, doutor!--disse alegremente o patrão de Francisco--Vem saber
como vai o nosso homem? Optimamente. Estou contentissimo. É seu irmão, e
basta!
Eram frechas que varavam o peito de Antonio de Azevedo! A dor rompeu-lhe
em lagrimas. O negociante viu-as, e exclamou:
--Que tem o doutor?! Alguma desgraça de familia lá na terra? Morreu-lhe
algum de seus irmãos?
--Morreu Francisco--balbuciou o bacharel.
--O quê? morreu Francisco! O doutor está a sonhar! Pois não o viu quando
entrou?!
--Morreu para a honra--tornou já serenamente Antonio--Ahi está na
segunda pagina d'esse jornal o ignominioso epitaphio do desgraçado.
--O quê? que diz o doutor de epitaphio?
Azevedo collocou o dedo indicador sobre a correspondencia. O
commerciante leu, e fez-se amarello. Depoz o jornal, levou as mãos aos
raros cabellos brancos, e disse:
--Tem razão, doutor! seu desgraçado irmão está morto!
--Vim para o levar comigo. Queira o senhor dar-lhe ordem de sahir.
Rogo-lhe a generosidade de não lhe dizer a causa por que o despede.
Deteve-se a scismar o negociante, e disse com energia de boa alma:
--Vamos ver se o salvamos.
--Salval-o como?
--Vai com outro nome para o Pará.
--O nome não é o infamado; é elle. Creia o meu amigo que eu não vim
pedir-lhe a sua protecção para salvar o homem indigno d'ella. Vim buscar
meu irmão.
Foi chamado Francisco.
--Dá contas ao senhor Silva, que vaes sahir de sua casa.
O guarda-livros fez-se roixo.
--Não ha explicações previas--tornou Antonio--Apresenta os livros a teu
cargo ao senhor Silva.
--Os livros estão vistos--disse o negociante--Não tenho a menor suspeita
da probidade do senhor Francisco.
--Suspeita?--atalhou este.
--Silencio!--disse imperiosamente Antonio--Vamos.
O commerciante apertou a mão do bacharel, e lançou ao irmão um olhar
compassivo.
Francisco hospedou-se com Antonio. Dois dias depois, recebeu de repente
a noticia da sua volta a Portugal, accrescentada d'estas palavras:
--Entrega esta carta em Lisboa. A pessoa a quem a entregas irá comtigo a
casa do cambista F***, teu patrão que foi. Darás ao cambista o dinheiro
em que elle se disser roubado por ti. Cobrarás recibo, que me enviarás.
Feito isto, recolhe-te a Barcellos, e pede a tuas irmans que te dêem um
quinhão da sua subsistencia.
Francisco, lavado em lagrimas, quiz ajoelhar aos pés de seu irmão, e
contar a historia dos seus desatinos.
--Não ha historia que absolva um roubo--disse o bacharel.
E no dia seguinte, quando elle acompanhava ao navio o irmão, é que a
vistosa galera _Felismina_ se baloiçava, como odalisca, sobre a camilha
azul das aguas que reverberavam o sol nascente, e se cobriam de
scintillante lhama de oiro.
Olhem a felicidade de Corinna e a felicidade de Antonio de Azevedo!