Tres mezes depois dos grandes successos froixamente descriptos no
anterior capitulo, Fernando de Athaide e sua mulher vinham caminho de
Portugal; e Corinna da Soledade e seu marido Antonio d'Azevedo
habitavam, nos arrabaldes do Rio de Janeiro, uma chacara de modestas
regalias.
O bacharel era ainda o mesmo laborioso jurisconsulto, associado no
escriptorio de Valentim da Costa. Corinna, simplesmente ajudada d'uma
negra, cuidava do lavor domestico, singelo lavor, que isso mesmo tem de
bom a mediania.
Quizera Fernando que seus cunhados ficassem habitando a casa onde se
hospedaram, e Azevedo, já receoso de desagradar com suas isempções, mal
se atrevia a rejeitar os offerecimentos; porém Corinna, avaliadora dos
secretos desejos de seu marido, simulou vontade de viver no campo, e
assim o desembaraçou do desgosto de acceitar a magnifica vivenda na
melhor praça da capital. Valentim, aconselhando Athaide no melhor modo
de haver-se com seu cunhado, repetia o que no livro divino de frei Luiz
de Sousa se lê, que o cardeal de Lorena dizia, ao embaixador de
Portugal, com referencia ao santo arcebispo bracharense: «.....se o
quereis ter contente, não lhe deis a comer mais que dois ovos duros.»
Corinna recebêra de Felismina a prenda dos trinta contos depositados
ainda em poder do commerciante. Foi-lhe, porém, mister guardal-os como
cofre de joias, sem lhe dar destino conducente a alliviar os encargos do
marido. Era um dinheiro que não existia para o bacharel, nem Corinna
buscava occasião de fallar d'elle.
No tocante a felicidade, alguns periodos de uma carta de Azevedo ao
visconde da Cruz dizem o que basta a convencer-nos de que a possuiam,
quanto ella, n'este desterro, se deixa gosar.
«.............................................................
«Ás seis horas da tarde, quando vou do escriptorio, encontro sempre a
minha Corinna sentada n'um pequenino ressaio, como se lá diz no meu
Barcellos, que tenho á porta da chacara. Alli é a minha primeira
paragem, em que o espirito se desfadiga do pesadello das leis: o coração
toma absoluto imperio sobre as minhas outras faculdades, e todo me deixo
adormecer na quietação d'um bem-estar, que só podem conhecer os
operarios d'um dia inteiro, quando ao cahir da noite, se repousam ao
lado da companheira, por amor da qual se cansam e recobram. Os nossos
frugaes jantares são rapidos, e assazoados dos infantis gracejos da
minha Corinna, que os tem sempre novos para encarecer a profusão das
iguarias. Depois vamos por esses caminhos fóra, admirando tudo que nos
vem ao encontro a sorrir: são as arvores e flores de todas as ricas
vivendas d'este luxoso torrão: tudo é nosso, porque, meu amigo, nada
ambicionamos do que vamos vendo.
«Corinna está-me sempre repetindo a historia dos nossos amores, que eu
acho sempre nova. Os dois bailes do Porto em que a vi; as primeiras
palavras que eu lhe disse, com destemperada lamuria; os seus pensamentos
lá no Lima, dia por dia, e hora por hora. Sinto-me duplicadamente viver
na sua vida passada; parece-me que estou tomando posse d'uma existencia
que devia ser minha desde então.
«Deito-me cedo para me levantar com a aurora. Corinna lê até tarde: lê
alto em quanto vê que eu a escuto; depois, vai diminuindo gradualmente a
voz até me ver adormecido. Rirás tu d'esta miudeza de traços no quadro
da felicidade domestica? Se ris, visconde, mal de ti, que os não has de
saber gosar. Uma coisa magnifica, estrondosa, e apparatosa, que vai pelo
mundo, chamada Felicidade, feitas as contas, sabes o que é? É isto, são
os singellos prazeres, que não valem nada descriptos, e são a
bemaventurança sentidos. E não valem nada, porque a gente que os lê,
pensa que pouco vai de desejal-os a tel-os. Que engano! A mais facil
felicidade é a que requer mais grande coração e pura consciencia. Se
estes bens fossem communs, todos eramos felizes. Nós antes queremos ser
todos ricos......................................»
Valentim da Costa foi, um domingo, jantar com os _seus filhos_, termo de
muita amizade com que elle os acarinhava. N'esse dia se completavam os
setenta e nove annos do ancião. Depois do jantar, desceram a sentarem-se
debaixo das quatro palmeiras, que davam o usurpado titulo de chacara á
casinha dos venturosos. Ahi fallou sempre o velho, com a perdoavel
vaidade de quem sabe tudo do passado, e possue a chave dos futuros. Ora!
por onde elle andou! Foi cavar na raiz da revolução franceza, contou a
vida de Napoleão, a fuga de D. João VI, as anecdotas da côrte, a
infancia e juventude do senhor D. Pedro IV, a mocidade estudiosa e as
virtudes civicas do actual imperador do Brazil, e tudo isto para
concluir que o presente era melhor que o passado, e que o futuro será
melhor que o presente. E a tal proposito ajuntou:
--Vossês não façam caso do que eu disser, quando elogiar as coisas e
pessoas do meu tempo. O _seu tempo_ é a balda dos velhos, que, ao
verem-se carregados de tempo, não só querem que seja _seu_--o que
ninguem lhes contesta--; mas até querem que o tempo d'elles fosse a
melhor quadra dos dezenove seculos que já lá vão. Ora eu, que sou velho
e ao mesmo passo rasoavel, se duvidasse das virtudes d'este tempo,
duvidaria das vossas, meus filhos. Dizem que a velhice é egoista, e
morre devorada de odientos ciumes da geração nova, não só porque é boa
de indole, que tambem por ser inventora das regalias que vieram tarde
para ella. Deus me livre de ir á eternidade com este trambolho agarrado
ás pernas: bem me basta a gotta! Eu cá de mim até folgo de acabar,
quando começa uma transfiguração na face da terra, coisa nem sequer
sonhada ha quarenta annos, quando eu e os meus contemporaneos
motejavamos o desconfortavel viver de nossos paes. Não me dirão o que
nós tinhamos mais do que elles, ha quarenta annos?! Vossês é que podem
rir-se de mim e dos meus; mas nem por isso lhes quero mal de inveja. O
meu amor á gente nova chega a ponto de eu me desejar morrer no meio
d'ella. Querem-me os meus filhos trazer para sua casa? Eu estou por alli
sósinho n'aquella rua do Ouvidor, muito rica, e muito bulhenta. Tenho lá
tres pretos e tres pretas a quem quero dar a liberdade, e os diachos não
a querem! Olhem que é forte mania a dos que dizem que a escravidão é o
antagonismo permanente com a ideia de Jesus! Se os meus pretos fossem
novos, e eu lhes désse liberdade, os pobresinhos, em vez de irem aos
seus sertões respirar ar livre, assoldadavam-se a senhor que os
carregava de trabalho; ora, como os meus escravos são velhos, os
coitados não querem a liberdade, que para os de sua especie é uma
palavra van. Pois se eu me não posso, nem devo desfazer d'elles,
peço-vos que m'os deixeis trazer comigo para a vossa companhia. Verdade
é que esta casa é mui estreita para tanta negraria, e commodidades d'um
hospede octogenario. Aqui é que o meu Azevedo ha de mostrar-se amigo do
seu velho. Está alli abaixo uma boa casa, com muito arvoredo em roda.
Vai o meu filho arrendar aquella casa, e recolher-se a ella com o seu
mestre de leis. Faça de conta que eu sou um pulvereo praxista que vossê
tem na sua livraria... O ingrato não me responde. Vou voltar-me para a
minha filha Corinna. Faz-se o que eu peço?
--Faz--disse Corinna, sorrindo ao esposo.
--Pois então--tornou o velho--já d'aqui não saio. Onde me dais agasalho
esta noite? Quero já saber onde está o meu quarto.
No dia seguinte, Azevedo arrendou a chacara magnifica, mudou para ella
com o ancião, e com os seis velhos escravos e amigos de Valentim. Logo
ao segundo dia, o hospede chamou Azevedo, e disse-lhe:
--Eu tambem tenho a minha dignidade, a minha vaidade e o meu orgulho.
Quero entrar com a minha quota parte para as despezas da casa, minhas e
da minha pretaria. Arrendamento da chacara, a meias; o importante da
cozinha, isso é cá com o anjo dos lares, com a nossa Corinna.
Antonio d'Azevedo ia contrariar o velho, e reteve-se ante um gesto de
desagrado, e logo esta risonha exclamação:
--Vossê cuida que tem mais pundonor que eu!
Este viver continuou assim seis mezes. Corinna tinha ouvinte certo ás
suas leituras em quanto o marido dormia. Valentim repousava tres horas
em cada noite, e velava as outras, folheando papeis, e dando expediente
a negocios attinentes aos seus haveres. Algumas vezes ia á cidade em
carruagem que comprara n'este ultimo praso da vida, não tanto para elle,
como para os passeios de Corinna. Valera-lhe a gotta para colorir o
presente aos seus queridos commensaes.
N'este tempo as cartas vindas de Portugal davam a noticia confirmada dos
casamentos de Emma e Leonor. As duas noivas tinham ido para o Porto com
seus maridos, e Felismina com seu marido e o primogenito estavam nas
margens do Lima, ou no palacio reconstruido de Fernão de Athaide, onde o
filho natural mandara acastellar os telhados. Fernando era já visconde
do Ameixial, e estava pasmado da barateza da coisa, em comparação do
muito que dera por uma commenda cinco annos antes. Tinha sido logrado
pelo procurador.
Gastão de Noronha, D. Mafalda e a menina mais nova tinham ido a Paris
comprar mobilia para renovar a decoração do palacio de Lisboa. Esta era
a razão ostensiva que o publico deve acceitar por ser melhor, se não a
mais ajuizada; mas os indiscretos portuguezes que então estavam em
França, disseram que o ainda robusto Gastão de Noronha fôra espairecer
saudades de uma duqueza, ou duas duquezas, ou mais seriam, que, pelos
modos, em Paris, isto de amar quatro duquezas é coisa mais que frequente
a quantos portuguezes lá vão, como eu tenho visto nos apontamentos de
pessoas que lá estiveram quinze dias. D. Mafalda é que ha de saber a
verdade de tudo.
Com estas noticias chegou outra concernente a Francisco d'Azevedo. O
caixeiro chegou a Lisboa, pagou a sua divida, mandou o recibo ao irmão,
foi a Barcellos, vendeu a pequena legitima, abraçou suas irmans, e
tornou a Lisboa, d'onde partiu para a Africa.
As quatro meninas das margens do Cávado viviam abundantemente. Seu irmão
Joaquim, já estabelecido e coadjuvado pelos Taveiras, occorria-lhes a
todas as necessidades, dava-lhes tudo, menos o prazer de leval-as ao
Porto, porque o irmão do Brazil, em todas as cartas recommendava
instantemente, que as deixasse estar em Barcellos com as arvores e
flores da casa paterna. Outros dois irmãos de Azevedo, sem importancia
n'esta chronica de familia, exerciam probamente a profissão do
commercio.
--Todos felizes!--exclamou o velho, que ouvira attentamente lêr as
cartas, como se fossem de familia sua--Todos felizes! Só o meu pobre
Azevedo ainda a trafegar para o pão de cada dia! Os dois contos de reis,
ganhados nos primeiros mezes, lá se foram na restituição do Francisco.
Desde então para cá as economias são impossiveis! Esta Corinna é uma
grande avára! Tem alli na gaveta trinta contos, que ella chama os seus
alfinetes de noiva, e não os quer arriscar nas despezas da cozinha! Ora
deixa-te estar, minha sovina, que te não hei de deixar em testamento as
minhas tres pretas velhas!
--O Antoninho não quer o dinheiro...--disse ella, afagando o cabello do
marido, que ria muito do sainete comico do velho--Ha que
tempos--continuou ella--eu não vi o meu thesouro! Vou-lhe desafiar a
inveja, doutor, a mostrar-lhe as minhas notas! ora espere...
Foi Corinna a uma gaveta de sua commoda, e voltou pallida, exclamando:
--Ó Antoninho! mudaste o dinheiro da gavetinha do meio?
--Eu nunca soube onde tinhas o teu dinheiro--respondeu placidamente o
marido.
--Não está lá... roubaram-m'o--bradou ella.
Dias antes tinha fugido uma negra, alugada para a cozinha.
--Seria a preta?--perguntou tranquillamente o bacharel--Póde
proclamar-se rainha nas suas senzalas a negrinha!
Corinna mostrava-se afflicta. O marido chamou-a a si, encostou-a ao
seio, e disse-lhe com muita meiguice:
--A tua grande alma, minha filha? Então! ha ahi dinheiro que valha uma
lagrima tua, Corinna? Imagina que Deus te experimentava, privando teu
marido da saude de tres dias! Que farias então, minha amada?... Quantas
vezes darias os teus trinta contos por uma tisana que me restaurasse?!
Quero só ver-te lagrimas, quando eu as chorar.
--Tens razão!--exclamou ella--Estou alegre! perdoa á minha fraqueza de
mulher, sim? Quem me visse chorar, julgaria que eu amava aquelle
dinheiro inutil!
--Pois sim; tudo isso é muito admiravel--exclamou o velho--mas é
necessario annunciar a fuga da ladra, agarral-a e despedaçal-a com o
azorrague!
Antonio de Azevedo ergueu os hombros e sorriu. Corinna fitou os seus
humidos e negros olhos em Valentim, e murmurou:
--Despedaçal-a! Coitada da infeliz!
--Essa agora é que não é piedade irreprehensivel, menina!--redarguiu o
velho--Chama _coitada infeliz_ á negra que lhe rouba uma quantia que em
Portugal se chama _uma fortuna_!... Eu tomo a negra á minha conta! Ha de
ser cortada pelo azorrague!
--Não deixes, Antoninho!--clamou Corinna, tomando-lhe o rosto entre as
mãos.
--Não deixo, não, filha. O doutor está feroz; mas aquillo passa-lhe.
--Ora, senhores--tornou o velho tregeitando espanto--O nome, que isso
tem em boa hermeneutica, é _fomentar o crime_! A sociedade não se serve
assim! É preciso que cada qual contribua com o cauterio para lhe
extirpar os cancros que a corroem.
--Parece que está no tribunal, doutor!--disse Azevedo--A velha
eloquencia é ainda brilhante; mas a lei nova, a lei do justo que os
fariseus azorragaram, manda cahir o azorrague das mãos do offendido, e
castigar moralmente o culpado.
--Moralmente!--retorquiu o doutor--Com que então vossê crê no moral dos
negros?!
--Creio na alma dos negros.
--Isso é uma impiedade!
Azevedo riu-se, e, por momentos, duvidou do concerto intellectual do
velho.
Mas, a esta injuriosa duvida, ergueu-se o velho, e caminhando para
elles, com os braços abertos, exclamou:
--Não calumniemos a negra, meus filhos! Abraçai-me, anjos! Eu quiz
experimentar a vossa caridade! Abraçai-me, santos da honra e da
misericordia, que os vossos trinta contos quem os furtou fui eu!