XVI.

Antonio de Azevedo recebeu, ao mesmo tempo, tres cartas, afinadas todas

pelo mesmo tom de felicidade.

Abriu primeiro a de Corinna da Soledade: era uma surpreza desde o

principio. Noticiava o casamento de Felismina com Fernando de Athaide, e

os miudos successos decorridos até ás palavras proferidas por seu pae na

occasião do brinde.

A ultima pagina continha o seguinte:

«Ainda estamos do Porto; mas brevemente vamos para Lisboa. O primo

Fernando quer que te esperemos lá, onde se hão de realisar os nossos

sonhos, mais cedo do que eu e tu suppúnhamos, ó meu querido Antonio!

Vem, vem no primeiro navio que sahir Ás vezes receio morrer antes da tua

chegada. Temo que me acordem d'este sonho. As pessoas infelizes não

podem familiarisar-se com a ideia de já o não serem! Imaginas tu que

terrores me atormentam, agora, que tão ditosa me sinto, e tão grata

levanto as mãos ao Senhor! Lembra-me que já podes amar-me com menos

ardor; lembra-me que estás embevecido na ambição das riquezas... Ó meu

amigo, até me lembra se terás morrido! Vê tu se ha mais cruel

imaginação! Nem agora me deixa o mau destino! Parece que se está assim

vingando por não poder aniquilar-me! Acode aos meus receios, vem sem

demora, sim? Fernando é um anjo de bondade; sobra-lhe riqueza para dar

abundancia e alegria a muita gente. Não será vergonha recebermos tudo de

sua mão. Que lhe diria o visconde a teu respeito, que elle ficou

pensativo?! Perguntei-lhe o que tinha, e respondeu-me que o teu

caracter, por demasia de austeridade, talvez se não dobrasse á vontade

d'elle. Comprehendo estas palavras: suspeitam que tu recusarás favores

de posição, devida a influencia estranha. É porque não sabem quanto me

amas, meu querido amigo! Eu disse a meu primo que ficava pela tua

docilidade: não me deixes ficar mal, não?

....................................................................»

A carta de Fernando de Athaide rezava assim:

«O meu amigo espera que eu de Londres lhe escreva, explicando a surpreza

de uma procuração que lhe deixei, a fim de tomar conta na direcção dos

meus haveres ahi, no caso de eu me demorar na Europa. Escrevo-lhe de

Portugal, onde estou casado com minha prima Felismina. Ja vê que me

compuz com Gastão de Noronha o mais amigavelmente que vossa senhoria

podia desejar. Antonio de Azevedo com duas palavras decidiu do meu

destino; e, se não me engano, abriu uma época de muita ventura para esta

familia, que é hoje a minha, e que deve ser a sua tão brevemente, quanto

depende da sua vinda para Portugal.

«Eu não lhe peço, apenas lhe digo que venha. Se necessario fosse pedir,

Corinna e eu duvidariamos do seu amor. Bem sei que ha uma certa

dignidade humana, que tem a ferrea inflexibilidade dos corações duros.

Essa, Deus permittirá que não seja a sua: se o fosse, a minha gloria

seria imperfeita, e essa nuvem bastaria a toldar esta festiva luz que me

alegra a alma.

«Não discutamos tal ponto. Venha, meu irmão. Os meus negocios deixe-os

entregues ao senhor Valentim da Costa, a quem escrevo.

«Minha mulher offerece uma prenda de noivado a sua futura esposa: quiz,

porém, (caprichos feminis!) que vossa senhoria fosse o portador da

prenda, que ahi lhe ha de ser dada.

«Na proxima semana partimos para Lisboa. Na sua chegada alli

encontrar-me-ha logo.

«Corinna tem as tristezas da duvida. Venha dar-lhe a ventura que a mais

ridente esperança não póde dar-lhe...................................»

A carta do visconde da Cruz incluia a ordem devolvida dos seis contos de

reis, e a historia minudenciosa que Antonio lêra na carta de Corinna.

Como avaliador profundo do caracter do seu amigo, o visconde combatia de

antemão os argumentos de independencia com que esperava ser contrariado;

rematava, porém, a carta censurando-se a si proprio por ter julgado tão

frio amante o homem que, por amor d'um anjo, se expatriara alanceado de

desgostos......

Entendam lá o coração humano!

Antonio de Azevedo lêra as tres cartas surprendido, mas não alegre! Que

nuvem negra lhe cobria o quadro bello a que o chamavam as tres cartas!

Que presagio d'alma lhe antepunha ás delicias convidativas da patria uma

visão triste em que elle parecia cravar os olhos espavoridos!

Valentim da Costa, que raro sahia de casa, entrou n'este momento.

--A alegria dá forças!--exclamou elle--aqui está o velho a dar os

emboras ao mancebo, que foi mais cedo compensado do que ordinariamente

costumam sêl-o os bons!... Que é isso?! vossê está triste, Antonio?! As

suas cartas que lhe dizem?

--Que Fernando de Athaide casara com uma de suas primas.

--E que mais?... Não é chamado para ir casar com a sua Corinna?

--Sou.

--E então? vossê não está ainda louco de alegria? Não cuida em

preparar-se para a ida?

--Não, senhor; cuido em ganhar a minha independencia. Corinna é a filha

de Gastão de Noronha, e eu sou quem era, quando sahi de Portugal. Estou

pobre como vim. A patria para mim é meramente a terra onde nasci; não é

independencia. Quando aqui vim, foi a legitima vaidade de homem

pundonoroso que me aconselhou; o pundonor aconselha-me agora que não vá

acceitar de mãos estranhas a subsistencia de minha mulher e de meus

filhos. A maior alma é sempre insignificante ao pé da pequenissima alma

em cuja dependencia está. Eu não quero dizer a Corinna que lisonjeie seu

cunhado pelos favores que lhe devemos. Ser-me-ia um permanente

infortunio recebel-os de Gastão ou Fernando. Sou homem: devo-me a mim

proprio. E os homens que não podem viver com muito, vão ás inferiores

escaleiras sociaes procurar a mulher que quadra á sua mediania, e não

devem pensar que o amor os desculpa de irem ás altas classes convidar

uma senhora a descer onde elles estão. Não caso pobre com Corinna, e

tambem não a faço quinhoeira da minha dependencia. Quando eu tiver

ganhado pollegada a pollegada o torrão que me sustente na patria, então

irei. Agora, meu bom amigo, vou dar-lhe conta da minha amargura, que é

mais que tristeza. Corinna, ao receber esta resposta, dirá que eu a não

amo. Fernando dirá que sou indigno d'ella. O fidalgo arrancará do

orgulho ferido injurias contra o meu plebeismo. As irmans hão de

dizer-lhe que eu a sacrifico á bruteza das minhas ambições. A final só

terei por mim a minha consciencia pura, se é que me não ha de pungir a

mágoa de ser assim organisado. Aqui tem, senhor Valentim, que a minha

estrella é má!

--Má!?--exclamou o velho--É uma estrella de santificação a sua, meu

Azevedo! Sabe o que eu podia fazer? era argumentar comsigo, e leval-o a

convencer-se de que a dependencia só é vergonhosa quando o dependente

abdica de sua dignidade á força de fazer-se inutil; dir-lhe-ia que vossê

com o seu trabalho de jurisconsulto, embora mal remunerado, havia de

adquirir na patria o torrão mais que abundante á sua subsistencia, e que

sua senhora e seus filhos viveriam todos felizes á sombra da mesma

arvore; mas...

Antonio de Azevedo interrompeu:

--Os seus argumentos não me moveriam: perdôe á minha rebeldia, meu caro

amigo. A mediocridade, e ainda mesmo a pobreza, podem parecer delicias á

mulher que ama contrariada por obstaculos de nascimento ou de fortuna: o

amor faz milagres taes, desfigurando tudo o que está feito e refeito

pelos seculos, e pelo consenso universal. Quando, porém, o amor cede ao

tempo, á intimidade, aos mais serios deveres da maternidade, e aos

preceitos e preconceitos inexoraveis da sociedade--que acham sempre

traça de se insinuarem mesmo através do colmado do trabalhador de

enxada--a mãe, que se vê pobre, é já mulher muito diversa da noiva que

almejava a pobreza do homem amado. As flores da poesia fructificaram já

em filhos que pedem alimento, educação e futuro. As amigas de infancia,

que pareceram baixas almas por se terem victimado voluntariamente ao

oiro d'um velho e aos epigrammas da mocidade, lá estão ricas,

respeitadas e vaidosas de seus filhos; e com quanto já não conheçam a

amiga pobre que se deu de coração ao coração, culpam-na e condemnam-na

do alto da sua severa abundancia. Ora a mulher, na posição de Corinna,

quando se vê pobre, dois annos depois de casada, e vê ricas suas irmans,

lembra ao marido que peça o amparo d'ellas; e se esse marido é Antonio

de Azevedo, a verdadeira desgraça domestica principia para ambos desde

esse momento. Aqui tem o que sou e o que penso. Julgue-me e condemne-me

o mundo como puder e quizer. O meu pensamento era salvar a dignidade de

Gastão sem lhe dar riqueza, por me ser impossivel adquiril-a; depois eu

levaria o meu pouco á familia que vivia de pouco, e seriamos felizes

todos. Não póde já ser assim. Estão ricos, ou vivem á sombra do homem

rico. Não serei eu quem vá pedir um logar entre pessoas que se haviam de

acotovellar com o plebeu. Que levaria eu que me recommendasse? Se eu

fosse nobre, daria como merito a minha inutil e inerte nobreza; assim,

filho do povo e pobre, todos, menos a generosa Corinna, a seu tempo

perguntariam uns aos outros: «De que serve este homem?» Ora um homem

sabe pontualmente quando os outros perguntam o para que elle serve... Em

summa, cá estou no começo da minha tarefa: Deus dá-me este pensar para

que eu o leve a cabo. Outra cousa, meu amigo. O visconde da Cruz

devolve-me a lettra dos seis contos: aqui a tem vossa senhoria para

rehaver os quatro que benignamente me emprestou. Beijo-lhe segunda vez

as mãos.

Valentim ia replicar com razões de muita força, que lhe suggeriu o

talvez injusto juizo que Azevedo expendera a respeito das mulheres

devotadas á pobreza dos maridos, quando o bacharel foi procurado por um

negociante.

Disse o negociante que recebera ordem de entregar trinta contos de reis

fracos a Antonio d'Azevedo, por mandado de Fernando de Athaide,

accrescentando que era tal quantia a prenda de noivado que a senhora D.

Felismina offerecia a sua irman.

O bacharel disse ao negociante que conservasse em sua mão a quantia, até

lhe ser pedida.

Sahiu o depositario dos trinta contos, e o doutor exaltou a bizarria de

Fernando de Athaide, aconselhando Antonio d'Azevedo a não dar á sua

dignidade umas parecenças de soberba.

--É o dote de Corinna, que seu primo lhe dá--disse Azevedo--Quando eu

tiver egual quantia, não me pejarei de ir levantar o deposito. Em

verdade, é grande a alma de Fernando, e por isso mesmo se faz digno de

lidar com almas eguaes á sua.

O velho sahiu captivo do moço; mais extremoso que captivo; sentia-se

amar como pae; ser-lhe-ia doloroso apartar-se d'elle desde aquella hora.

No termo da vida, longa vida em contacto com as pustulas sociaes,

aquella paragem, áquem da eternidade, era-lhe uma como prelibação das

alegrias dos justos. Pensava o ancião em dar um adeus á existencia,

contente d'ella, e de si: parecia-lhe que as palavras do consolador lhe

suavisariam o trance. Era já egoista da amizade do seu Azevedo:

disputal-o-ia á mesma Corinna, se o visse em preparativos de viagem.

--Se eu pudesse dar-lhe desde já a independencia!--dizia entre si o

velho--Oh! se podia!... Mas, a dar-lh'a, eil-o ahi está dependente de

mim, e a rejeitar-m'a, e a fugir-me as instancias, e a ser menos meu

amigo! É preciso respeital-o muito para o prender á minha affeição.

Aqui está a resposta de Antonio d'Azevedo a Corinna:

«Folgo com as venturas de teu pae, e louvo a Deus por me ter dado uma

casual influencia no melhor remedio de seus males. Tudo me faz crer que

tendes em Fernando um bom irmão. Dá um abraço, por mim, na tua

Felismina, e agradece-lhe o valioso deposito que confiou de mim. Em vez

das joias, que vale este dinheiro, pedir-te-ia, minha Corinna, se

estivesses no Lima, que te adornasses de flores; mas, como vives em

Lisboa, os enfeites das flores valem nada ahi, porque o clima as

requeima logo. Esse sol quer reverberar nas facetas dos brilhantes,

senão ninguem dá por elle.

«Não tens amor aos teus campos e ao teu rio? Ó minha amiga, ainda me

doem saudades das minhas arvores, ainda peço a minhas irmans que m'as

guardem e cultivem com amor! Não me culpes, se a minha saudade ainda vai

por esse formoso Portugal fóra, para além do ponto onde estás, em busca

d'outros amores. Amores são, que eram já muito em minha alma, antes que

tu m'a reformasses para olhar a futuros. Tinha de meu, quando te vi, um

passado de innocentes alegrias. A idade, cortada de penas, pôde tudo,

menos despojar-me do que lá está, e está para sempre, nas relvas, nas

arvores, nas serras, e no meu Cávado! Vê tu como a criança ainda se gosa

das lagrimas do homem!

«Que estou eu a devanear, se tu já tens pressa de saber porque vai esta

carta, e não vou eu!

«Não vou, Corinna, porque é cedo para ser feliz. O puro e duradouro

contentamento custa a merecer, e leva tempo. As alegrias improvisadas

vão como vem. Sobre que bases assentam as nossas convenções de coração,

minha amiga? Voltar eu a Portugal com o necessario para a decencia da

posição em que te conheci. Se eu fosse, faltava-te: tu perdoavas-m'o; eu

é que não podia perdoal-o a mim proprio. A decencia da tua posição não a

tenho ainda. Sei que anjo és, que doce conformidade seria a tua: mas o

mau, o intractavel, e irreconciliavel com os _tremendos nadas_ da vida

positiva, sou eu. Venho da desgraça, e conheço-a: as minhas relações em

Lisboa foram os desgraçados, e estudei-os. Deus confiou-te de mim como

d'um encaminhador e guarda. É forçoso dizer-te que o bom rosto da

fortuna só está sorrindo aos teus olhos, porque és innocente. Se comigo

não tem sido boa, tambem já se abstem de querer enganar-me. A nossa

riqueza, Corinna, é a esperança: esta, juro-te eu, que vale mais que os

milhões de tua irman. Felismina tem tudo que desejava: Deus sabe o que

ella agora deseja!...

«O que tu queres de mim não é muito amor, e uma casinha além no nosso

Minho, e as serenas alegrias, promettedoras d'um fim de vida socegada?

Lá me tens o coração, e eu cá o espirito a grangear o mais. Não o tenho

ainda: poucos annos bastarão a esta opulencia, que tão pouco vale aqui e

lá. Então, sim, então verás que vai aqui n'este peito a ufania d'um

principe, o santo orgulho d'um operario, que não inveja principes. Hei

de ir procurar-te, não aos bailes de Lisboa, mas sim aos arvoredos do

Lima. De lá irás comigo, sem atravessares pompas de cidades, nem

magnificencias onde te fique prêso um desejo. Lá temos ainda á margem do

meu rio a casa de meus paes: que pobre e formosa vivenda!

Augmental-a-hemos para vivermos todos: plantarás novas arvores, e irás

tomar o teu quinhão das flores de nossas irmans. As tuas arvores virão a

tempo com suas sombras para nossos filhos; e estes, creados nas

asperezas dos montados, e nas asperezas da religião, ir-se-hão fazendo e

formando entre as duas sublimes e unicas poesias: a da fé e a da

natureza.

«A vida, que me tu pedes, é mui diversa, Corinna. Teu cunhado é um

grande em Portugal, quando o quizer ser. Teu pae e tua mãe anhelam muita

luz para serem vistos, e embriagam-se nos perfumes da lisonja. Esse ar a

mim empeçonhava-me a vida, e não sei se o coração. Ahi amava-te menos,

porque perderia o amor de mim proprio, o amor que me extrema do vulgo, o

illustre vulgo, que é o derradeiro plebeismo, sem individualidade, sem

classe, sem mais religião que a das sensações.

«Corinna, não te aviltes em te julgares menos amada. Adoro-te

respeitosamente; porque sei que rejeitas o sacrificio da minha

dignidade.

«Estamos no ponto onde ha quatro mezes estavamos: a mulher corajosa

espera; e o homem, nobilitado por teu amor, quer ennobrecer-se para a

tua mão. Nada mudou, salvo a posição de tua familia. Mas que temos nós

que entender com a riqueza de Fernando de Athaide? A riqueza é d'elle. A

mim era-me egual depender de teu cunhado, ou do visconde da Cruz, ou do

primeiro encontradiço que me offerecesse um obulo. Quando sahi de

Portugal, Felisberto Taveira emprestava-me alguns contos de reis para eu

me estabelecer e casar comtigo. Se então rejeitei um emprestimo sem

desaire, como hei de ir hoje acceitar uma delicada esmola d'um sugeito

que escassamente conheço?

«Isto será amar-me demasiadamente a mim; e não é menos amar a mulher que

está identificada em minha vida e honra.

«Adeus, Corinna. A tua alma ha de conservar-se immaculada ahi em Lisboa,

como lá na solidão das nossas terras. Se o mundo te não respeitar, tu

saberás respeitar-te a ti mesma. Ahi e em toda a parte encontrarei

sempre a minha Corinna, cuja animadora imagem eu vejo em tudo que é

adoravel e santo. Adeus.»

Estrellas Propícias · 第 26 / 34 题