Decorreram alguns dias de excursões pelo Minho e Lima. O visconde
acompanhou o festivo rancho. As meninas iam felizes: a propria Corinna,
com as suas esperanças, egualava as irmans em contentamento. A espaços,
Zuzarte ou o visconde lhe diziam uma palavra confortadora, de modo que o
desconfiado Gastão não désse fé. No que elle muito reparava era nas
repetidas conversações dos dois hospedes, que se apartavam da caravana
para fallarem com certos visos de mysterio.
--Em quanto a mim--dizia o fidalgo a D.Mafalda--o brazileiro consulta o
visconde a respeito de Felismina. Seria bom prevenil-o.
Chegaram a Ponte do Lima. D. Mafalda quiz visitar o carneiro de seu tio
Fernão de Athaide. Ajoelharam todos a orar por alma do fidalgo. Carlos
Zuzarte com tal devoção o fez, que deu nos olhos de todos.
--Parece que é bom christão!--disse Mafalda a Felismina--Vê tu que o
homem tinha lagrimas nos olhos, e veio perguntar-me se eu ajoelhara por
formalidade, se por sincero sentimento de respeito ás cinzas de meu tio!
Que pergunta!...
Alojaram-se n'um velho palacio das margens do Minho, onde tinham nascido
os avoengos de Mafalda: era a casa onde expirara Fernão. As meninas
riram muito, e andavam a reboque umas das outras nos vastos salões
esburacados. No quarto onde morreu o camarista de D. João VI estava um
retrato d'elle, roido de traça e pó, com as feições quasi apagadas. O
brazileiro disse a Gastão de Noronha que Fernando d'Athaide havia de
apreciar grandemente o mimo d'aquella carunchosa lona. Prometteu Noronha
mandar retocar o retrato, e presentear-lh'o.
Nem Mafalda, nem alguma das meninas quiz pernoitar no quarto, onde
morrera o tio, e estivera inhabitado desde então. Dormiram n'elle o
visconde e o brazileiro.
Dois dias depois proseguiram o passeio desandando para o palacete das
margens do Lima. O visconde recolheu-se ao Porto, e Carlos Zuzarte ficou
ainda sem designar destino.
Abriu-se o theatro lyrico no Porto. O brazileiro convidou a hospedeira
familia a visitarem a galera que elle tinha fundeada no Douro, e a
gosarem-se de algumas noites de theatro. As quatro meninas iam
endoidecendo de alegria com o convite, e mais ainda com a
condescendencia do pae. Corinna entristeceu-se. A felicidade adoçava-lhe
a solidão agora mais que nunca. Os sitios onde nos afizemos a scismar e
soffrer com a nossa saudade dão-nos a sombra do ausente que choramos
sempre que a mágoa lá se vai carpir. Se depois nos afastamos d'aquelles
sitios, a saudade já é dupla: parece que os novos logares, onde imos,
nos não conhecem, nem sabem porque choramos. A nossa dor dera-nos além
um clima nosso; aqui tudo estranhamos, tudo nos parece em dobro
apartado. Esta sensação amarga adivinhava Corinna da Soledade, quando
pediu a sua mãe licença para ficar com o governo da casa. Gastão deu a
licença sem constrangimento; mas Carlos Zuzarte não prescindiu da
companhia de Corinna, e de modo lh'o disse a ella, que a menina não
hesitou.
Esperava-os no Porto uma casa nobre mobilada com riqueza. Pasmou Gastão
das rapidas providencias do seu hospede: este disse que, tencionando
residir alguns mezes no Porto, incumbira o seu amigo visconde da
decoração da casa.
Pediu o brazileiro a D. Mafalda se convidava as suas relações no Porto
para lhe honrarem as salas por occasião d'um baile, que elle queria dar
ao visconde da Cruz. Deu-se um baile explendido, como o fidalgo
portuguez os dava em Paris.
Concorreram as senhoras de primeira sociedade e formosura.
Carlos Zuzarte afigurou-se a muitas meninas um bom marido; todas, porém,
excepto uma, se abstiveram de revelar o seu parecer n'um sorriso ao
brazileiro, por verem que eram cinco, e todas bellas, as filhas do
fidalgo commensal do ricasso; ora a exceptuada não deu pêso a isso, e
distinguiu-se em branduras e cortezias que deram na vista.
Felismina foi quem primeiro as viu. Podera não! O seu amor era
verdadeiro, porque disparatou em ciumes. Sahiu das salas, recolheu-se ao
seu quarto, e, nem com ordem do pae, sahiu de lá. O brazileiro soube
isto, e sorriu-se como a vaidade do coração sorri. Foi elle, em pessoa,
pedir a Felismina que voltasse á sala: estava fechada por dentro, e
disse pela fechadura da porta que não ia servir de escarneo á sua rival.
Carlos sustentou o dialogo á fechadura, foi eloquente quanto se póde ser
por um tal systema de embocadura de suspiros, e conseguiu que Felismina
promettesse voltar á sala.
O brazileiro levou á evidencia de todos que amava a filha de Gastão,
desde que o seu perdoavel orgulho se inflou com os ciumes, acintemente
provocados.
No dia immediato jantaram a bordo da galera, que se chamara _Aurora_, e
n'aquelle dia appareceu chrismada em _Felismina_. Este successo para
Gastão de Noronha teve o valor do terceiro proclame lido á missa
conventual.
Á noite não sahiram de casa, nem receberam visitas, excepto o visconde
da Cruz, e seu irmão Luiz Taveira, que, desde o baile, scismava muito
com Leonor, filha de Gastão, a mais mimosa de todas em structura, coisa
assim como sonho, sylpho, ou quer que era de imponderavel, que parecia
nas walsas uma borboleta de azas iriadas.
Que esperto era aquelle Gastão de Noronha! Deu logo pela ternura dos
olhares de Luiz, e de si para si disse: «Mudam os ventos, mudam os
tempos!»
Estava, pois, reunida a familia, o dono do palacete, e os dois Taveiras
convidados ao desembarque.
Ao retirarem os taboleiros do chá, o brazileiro convidou Felismina a
jogar o xadrez, sob condição de ficar sujeita á vontade do vencedor a
liberdade do vencido. Felismina annuiu. Todos cercaram os jogadores com
anciosa curiosidade.
--Gósto de ver a attenção que nos prestam--disse Zuzarte--porque não é
brincadeira isto. Esquecia-me, porém, ouvir o senhor Gastão de Noronha,
antes de acceitar a annuencia de sua filha. Vossa excellencia não vem
com embargos, se a sorte fôr funesta á senhora D. Felismina?
--Quaes embargos!--exclamou Gastão rindo estrondosamente--E se ella
vencer? haverá embargos por parte do cavalheiro Zuzarte?
--Ninguem se importa com o meu destino.
--Quem sabe!...--disse Felismina--Tenho medo....
--Que teme, minha senhora?--perguntou Zuzarte com meiguice.
Felismina sorriu e córou.
Jogaram. Os peões, os delfins, o castello, o rei e rainha do brazileiro,
foram todos derrotados e assoprados miseravelmente. Felismina venceu.
--Estou á sua disposição, minha senhora!--disse Zuzarte.
--Está?--acudiu ella com as morenas faces retinctas de escarlate.
--Estou: que determina?
--Que fique sendo o nosso amigo sempre; que não torne para o Brazil.
--Ficarei. Quer-me então como um parente, sim? Irmão, tio, primo... veja
lá: qual parentesco lhe quadra mais?
--Seja primo--disse Felismina.
--Pois, sim, seja primo--disseram todas as meninas.
--Pois então venham dar todas um abraço em seu primo--tornou o
brazileiro erguendo-se--O primeiro abraço ha de ser o de minha prima
Mafalda, sobrinha de meu pae Fernão de Athaide.
Houve um spasmo em todas as senhoras, que pareciam, ao encarar-se
mutuamente, perguntarem umas ás outras se tinham entendido o dizer do
brazileiro.
--Então, prima Mafalda!--tornou Fernando de Athaide--se não acceita o
parentesco que sua filha nos dá, acceite o que nos deu a natureza. Aqui
tem o mau, o perseguidor, o implacavel Fernando de Athaide! Vingue-se
agora, dando-lhe um abraço de abafar-lhe o ruim coração que trasborda de
felicidade!
Mafalda correu aos braços de Fernando; Corinna, Emma, Felismina, Elisa,
Leonor, todas a um tempo, pareciam contentar-se com apertar-lhe os
braços. O proprio Gastão abrindo os seus queria abraçar o grupo d'um
amplexo.
Fernando de Athaide, beijado e abraçado por todas, sentou-se extenuado,
e murmurou:
--Devo esta felicidade a Corinna. Dê-me um outro abraço, minha prima
Corinna: a si devo o que sou agora; a si é que toda esta familia deve a
felicidade que eu posso dar-lhe.
--A mim?!--disse Corinna.
--Como assim, primo Fernando?--acudiu Mafalda--a gente não sabe como é
que Corinna deu causa a isto!...
--Eu lhe digo, prima: se Antonio d'Azevedo não tivesse amado Corinna,
nunca o eu conheceria no Rio de Janeiro; e, se eu não viesse a encontrar
o amigo, o anjo, o honrado amante de Corinna, creia vossa excellencia
que seria hoje o perseguidor d'estas pobres meninas. Foi elle quem me
ensinou, com duas palavras, como o Christo as dizia aos maus, a ser bom,
compassivo e misericordioso. Vi-lhe lagrimas mal abafadas no coração; e
quiz Deus que ellas me cahissem no meu. D'ellas se gerou a felicidade de
todos nós, de todos, menos a d'elle... Adiante... Elle está debaixo da
mão de Deus... A sua hora de premio ha de tambem chegar... Meu primo
Gastão, eu perdi o jogo com minha prima: perdi o direito de me revoltar
contra as suas decisões; mas, ainda assim, o coração põe embargos, e
vossa excellencia será o juiz, e minha prima Mafalda tambem. Eu peço-lhe
para minha esposa sua filha Felismina: antes quero ser irmão que primo
d'estas meninas; hei de sentir alguma vez o prazer de chamar a vossa
excellencia pae. Dá-me sua filha?
--Com orgulho, com soberba, como a não daria ao primeiro sangue de
Portugal!--exclamou Gastão, conduzindo Felismina aos braços de Fernando.
O visconde da Cruz felicitou Gastão, e discorreu com enthusiasmo sobre o
pathetico lance, a respeito do qual tambem eu faria aqui de vontade um
discurso, se o leitor quizesse medir sua paciencia com o meu fôlego
oratorio. A chave de oiro com que o visconde fechou a parlanda foi
apresentar todas as licenças necessarias para os noivos se receberem na
egreja parochial de Cedofeita, com dispensa de proclames e attestados
canonicos do imperio do Brazil. Isto deu realces de alegria á
sobre-excitação em que todos estavam. Mafalda queria manter-se em sua
gravidade dos quarenta annos; mas parecia irman de suas filhas. Gastão
andava a querer levantar toda a gente nos braços, e, a fallar a verdade,
não só levantava, mas apertava as costellas franzinas do noivo com todo
o amor dos seus musculos d'aço, musculos que desmentiam a fidalga
placidez, que é condição das finas raças. N'estas idas e voltas, Luiz
Taveira não perdia Leonor de olho, e a espiritual menina, com quanto mui
angelica, d'esta vez dava semelhanças d'aquelles anjos despenhados por
crime de inveja. O deliquio com que ella o fitava parecia dizer: «A mim
não se me dava de me parecer com os mortaes n'estas alegrias da mana
Felismina!» A pachorrenta Emma é que se movia menos n'aquella geral
vertigem. Sentou-se a conversar com o visconde, e teve o descôco de
dizer que já se não podia ter em pé, e que estava saudosa das suas
almofadas de relva nas margens do Lima.
Seguiu-se, dias depois, o casamento. Não foi fallado, nem estrondoso.
Até os jornaes o ignoraram, ou, se o souberam, vingaram-se da sovinice
dos noivos, deferindo para mais galhardas bodas as quatro phrazes
ramalhudas do costume.
Ao jantar concorreram unicamente o visconde, seu irmão, e o velho pae
dos Taveiras, ancião de muita gravidade e respeito, um dos velhos
modelos do commerciante portuense, coberto de honradas cans, com muita
consciencia em logar de sciencia, e poucas palavras, mas pesadas a oiro,
e authorisadas como se fossem maximas que encerrassem a experiencia
d'uma longa vida.
Terminado o jantar, apagado o afôgo dos brindes, e travada serena
pratica ácerca dos verdadeiros bens da vida, Bernardo Taveira fallou
assim:
--Eu, se tivesse uma filha, havia de procurar-lhe marido dotado com os
verdadeiros bens da vida: que vem a ser saude, honra, trabalho e
religião; religião bastaria dizer, porque ella encerra tudo. No meu
tempo achavam-se moços bons, que não tinham outro dote; e o homem que
acertava com um, dava-se por feliz, se tinha filha a casar, ou grandes
cabedaes a administrar. Eu não sei se ha muitos d'estes moços n'estes
ruins tempos; o que de véras sei é que os poucos que ha, batem ás portas
dos ricos, e estes não lh'as abrem, sem que elles mandem adiante a
certeza de que o seu honrado trabalho está já em bom fructo de acções
bancarias; e, se elles mostram o fructo, sem dar ideia da arvore boa ou
má que os deu, isso tambem não importa... Senhor Gastão de Noronha, eu
hospedei em minha casa um moço chamado Antonio d'Azevedo Barbosa. Era
pobre, e sem occupação. Tinha a sua formatura, a sua habilidade; mas,
apesar de amigos protectores, não tinha que fazer. Muitas vezes eu disse
em mim: «Se eu tivesse uma filha, dava-a a este moço pobre.» O meu
hospede teve razões para sahir de Portugal e ir ao Brazil: dei-lhe lá as
relações dos meus amigos, e a alguns disse eu que o recebessem como
receberiam meu filho. Ia recommendado por sua honra: foi o que mais lhe
valeu lá. Azevedo principiou a trabalhar e logo a ser conhecido como
lettrado. Advoga, e ha de ser rico; e, se não fôr rico, ha de ser sempre
mais do que isso: ha de ser um thesouro de virtudes. Peza-me realmente
não ter uma filha; mas quando vejo que vossa excellencia tem quatro
solteiras, não resisto á vontade de lhe pedir uma em nome de Antonio de
Azevedo.
Gastão de Noronha ficou estupefacto. Fernando de Athaide avisinhou-se
d'elle, e disse-lhe:
--O homem veneravel que lhe falla, tem inspiração do ceo, meu primo.
Acceite a felicidade da nossa Corinna.
--Demora-se a responder, senhor Gastão!--disse o velho com ar triste--Eu
não queria que os rogos dos moços valessem mais com vossa excellencia,
que as minhas singelas palavras. Se alguem aqui pedir mais do que eu, ha
de ser a noiva. Senhora D. Corinna, venha comigo: ha de ajoelhar aos pés
de seu pae.
Ergueu-se o tremulo ancião, e tomou a mão de Corinna, que era toda
purpura e lagrimas.
Gastão, sem balbuciar um monosyllabo, fez signal affirmativo, recebeu a
filha nos braços, e osculou-a na testa.
--Bravo!--exclamou o brazileiro, apertando convulsamente ao peito o
velho Taveira. A esposada e as outras meninas, salvo Emma, foram beijar
soffregamente a irman; Emma, porém, lá da sua cadeira de espaldas, disse
lentamente:
--Ó Corinna, vem cá abraçar-me, que eu não posso bolir comigo de
cansada!
Este milagre de inercia fez rir a todos, e desfranziu o semblante de
Gastão. Voltaram á mesa do _toast_ a brindar Antonio de Azevedo. O
fidalgo concordou sem repugnancia nas saudes propostas, e agradeceu a
ultima do negociante, em nome de sua filha, futura esposa de Antonio
d'Azevedo.
Quando Gastão proferiu estas palavras com enthusiasmo, Corinna da
Soledade descahiu sobre o hombro de sua mãe, e desmaiou. Era um deliquio
de felicidade, um arrobamento de bemaventurança como as santas os sentem
em seus extasis de amor divino.