--Valha-me Deus!--disse o doutor, esfregando as palmas das mãos
tremulas--como ha de a gente remediar isto? O que o meu Antonio queria é
que todos vivessem contentes. Christan utopia, que ha de realisar-se no
ceo!
--Eu vinha animado d'um pensamento quando aqui entrei--tornou
Azevedo--porém desanimei logo que o senhor me disse que Fernando de
Athaide queria os vinculos para mostrar a sua fidalga genealogia.
--É o que é; e se não fosse, que ideia era a sua? Vamos discutil-a.
--A minha ideia era contrahir eu um emprestimo aqui: sei que o obtinha.
--Tambem eu sei que o meu amigo obtem o emprestimo. E depois?
--Avaliavam-se os bens vinculados e as despezas feitas para os liquidar:
eu dava o valor de tudo a Fernando de Athaide, e elle desistia do
direito por conciliação.
--E o Antonio ficava pobre e a trabalhar toda a sua vida para remir a
divida?
--Necessariamente.
--Com effeito!--exclamou o doutor--e dizem lá que já não ha santos! Sabe
vossê, Azevedo, como é que o mundo, desde que perdeu a fé nos milagres,
chama aos santos da sua virtude? Chama-lhes mentecaptos. Assim devia de
ser, porque a philosophia inscreveu tambem como demencia o amor divino
dos crucificados por sua lealdade a Deus, e d'estes vejo que ainda os ha
devotados á _sublime loucura da cruz_. Queria então vossê adjudicar o
trabalho de toda a vida ao pagamento do dinheiro com que pretende
restabelecer o bem-estar da familia da sua futura senhora?... Vamos
meditar. Este Fernando de Athaide, como já lhe disse, o que quer é
provar _urbi et orbi_ que é fidalgo de raça por seu pae. A herança não
lhe importa. Poderemos conseguir que elle convença o universo da sua
fidalguia, sem se apossar dos vinculos de D. Mafalda? Aqui é que bate o
ponto. E poderemos conseguil-o sem que o meu amigo hypotheque o seu
trabalho á solvencia da divida? Invoquemos as musas das entalações, e
vejamos o que ellas nos decretam em coisa tão prosaica, já que os
praxistas nos tapam todas as sahidas. Poderemos pensar no modo de
approximar Fernando de Athaide de uma das primas, casando-os? Este
expediente bem se vê que é inspiração de musas, porque é de todo em todo
poetico. Que diz a isto, meu rapaz?
--Creio que por parte de Gastão de Noronha seria um negocio concluido,
ainda mesmo que Fernando de Athaide fosse do mais baixo plebeismo--disse
Azevedo.
--Feliz genio de homem para os nossos fins! Mas vossê sabe que a
renuncia d'um direito transmissivel, como é o dos vinculos, é nulla; e
que os descendentes do renunciante estão sempre ao abrigo da lei. É
preciso que Fernando de Athaide case com a menina successora dos
vinculos, na hypothese de serem elles legitimamente de sua mãe...
--Essa é Corinna!--interrompeu Azevedo--Corinna é a que eu amo!
--Ah! sim? então muda de figura o negocio.... Deixe-me pensar... E se
nós conseguissemos que Fernando casasse com uma das outras senhoras?
Leval-o-iamos a deixar aos sogros a administração dos vinculos,
melhorados e desembaraçados de dividas com liberalisado capital pelo
ricasso, e sobre tudo pelo fidalgo, orgulhoso de reedificar os
pardieiros de seus avoengos. Que lhe parece?
--Gastão de Noronha não acceitaria a humilde posição de mordomo de seu
genro--disse Azevedo--Por parte d'este a reconciliação seria impossivel.
Só vejo um meio.
--Diga lá.
--Fernando obteria uma filha de Gastão, se, antes de pedir-lh'a,
rasgasse as provas com que se diz successor dos vinculos.
--Não se rasgam assim facilmente as provas. A perfilhação está
archivada, e as cartas e testamento que o legitimam filho de Fernão de
Athaide estão em notas de tabelliães de Portugal e do Brazil.
--A desistencia, portanto, é invalida?--tornou Azevedo.
--É, a menos que o senhor me não assevere que a descendencia directa de
Fernão de Athaide acaba em seu filho.
Proseguiram largo tempo dialogando juridicamente, e ultimaram indecisos
no que deviam fazer.
Antonio d'Azevedo desvelou aquella noite em hypotheses que se combatiam
e destruiam. Amanheceu-lhe o dia seguinte para incessante inquietação e
dolorosa perplexidade. Voltou ás onze horas ao escriptorio de Valentim
da Costa, e encontrou-o encerrado com Fernando de Athaide.
--Já se demorava--disse-lhe o doutor--Sente-se aqui.
O velho, voltado a Fernando, proseguiu:
--Dá-se o caso, amigo e senhor Athaide, que este Antonio d'Azevedo veio
ao Brazil ganhar alguns punhados de oiro para poder voltar a Portugal e
casar com uma das cinco primas de vossa senhoria, filhas de Gastão de
Noronha.
--Pois conhece minhas primas?!--atalhou Fernando.
--Especialmente a mais velha, a senhora D. Corinna--disse Azevedo.
--Alguem me disse que é muito galante essa--tornou o millionario.
--São todas galantes: são cinco anjos, que fariam o orgulho d'um pae
menos infeliz que o senhor Gastão, e teriam sido felizes se nascessem em
menos elevada condição.
--Alguem as viu em Paris--tornou Fernando--e achou-as educadas muito á
franceza.
--Por força devia achal-as assim educadas: as mais novas lá nasceram.
--Mas desenvoltas... é o que eu quero dizer.
--Não senhor: enganaram-o: vi-as em alguns bailes do Porto com quanta
gravidade e compostura se póde desejar na mulher que se ama para nos
felicitar e honrar a vida.
--Agora fallo eu--atalhou o velho--O senhor Azevedo affligiu-se quando
vossa senhoria nos contou a situação em que ficou seu tio; é natural;
porque a senhora que elle ama, até ao sacrificio de vir grangear-lhe
aqui o pão futuro, está lá n'essa casa, d'onde vossa senhoria vai
expulsar toda a familia.
--Minhas primas devem odiar-me de morte!--interrompeu Fernando em tom de
desagradavel ironia.
--Fazem ellas muito bem--disse o velho, sorrindo.
--Que lhe diz de mim a prima Corinna?--tornou Athaide com prasenteiro
semblante.
--A carta que ella me escreveu n'este ultimo navio contém uma pagina com
referencia a vossa senhoria. Queira lêl-a, que ella de certo me perdoa a
confidencia.
Fernando de Athaide leu a penultima lauda da carta, dobrou-a
vagarosamente, e restituiu-a sem fitar os olhos no bacharel.
--Aqui não ha odio de morte n'estas palavras, senhor Fernando de
Athaide--disse Azevedo.
--Então isso é segredo cá para o velho, heim?--disse o doutor.
--Ha meia hora que recebi a carta--respondeu o moço, entregando-lh'a.
--Sempre quero ver o juizo que ella faz do priminho. Mostre lá o sitio
onde vem a catillinaria.
--Antonio indicou-lhe a pagina, e o velho leu alto:
«Ouvi dizer ao nosso amigo Felisberto que o primo de minha mãe é muito
rico, e não precisa d'estes poucos bens. Que triste gloria reduzir á
ultima pobreza uma familia tão numerosa! Ha corações muito duros, meu
querido Antonio! Ás vezes penso com tristeza e ao mesmo tempo
consolação, no differente modo de pensar que Deus dá ás suas creaturas
tão semelhantes no exterior. Não se lembrar esse homem das afflicções
que nos dá sem proveito nenhum para si mesmo! Não saberá elle que a
subsistencia de sete pessoas, creadas na opulencia, era só isto que nos
tira!? Se um dia lhe disserem que meu pae morre de desgosto e miseria, a
voz do sangue não lhe gritará como um remorso ao coração? Ai! como os
felizes gosam, ó meu pobre Antonio!...................................
.....................................................................»
--Estas palavras, senhor Fernando--continuou o veneravel doutor--podem
mais que tudo quanto eu lhe dissesse, se as lagrimas que eu vejo nos
seus olhos não são uma illusão dos meus. Olhe fito cá para mim, Athaide!
Não se envergonhe de ser bom: tenha só pezar de o não ter sido. Vamos!
deixe lá fallar esse coração! Sente-se disposto a salvar esta familia?
--Responderei--disse Fernando de Athaide, erguendo-se de golpe.
--Uma resposta, n'este caso, não é operação diplomatica que demande
vigilias e subtilezas de engenho. Sente-se!--disse com gracioso imperio
o velho.
--Mas que quer de mim o doutor?
--Quero que se meça em bizarria d'alma com este cavalheiro que aqui
está. Antonio d'Azevedo quiz contrahir um emprestimo de trinta contos,
ou mais, caucionados com a sua honra e trabalho. Estes trinta excedem em
doze, segundo vossa senhoria me tem dito, o valor dos vinculos. O
restante será o que Fernando de Athaide tem gasto no costeio da demanda.
Antonio d'Azevedo queria offerecer a vossa senhoria esta quantia como
gratificação pela desistencia da demanda.
Sorriu Fernando, e atalhou:
--O doutor não disse a este senhor que eu dou trinta contos pelo menor
dos meus caprichos, e que ainda fico bastantemente rico para dar de
esmola o valor dos vinculos ao soberbo Gastão de Noronha?
--Esmola que elle não acceitará--disse com altivez o amado de Corinna.
--Nem eu estou pedindo esmola para o marido de sua tia--accrescentou o
doutor.
--Então que pede?!--tornou Fernando com philaucioso sobrecenho.
--Peço ao fidalgo que tenha uma alma fidalga; que, se a não tiver, que
importam os seus brazões em confronto da caridade com que o escravo nu
levanta da rua o seu irmão prostrado de fome?! Quer saber o que lhe fica
bem? O cavalheiro manda suspender a execução, sem desistencia dos seus
direitos, que as leis e todos lhe reconhecem. O seu vencimento foi
completo: agora é preciso coroal-o com a generosidade, se quer o
triumpho. Está vencida a questão: está reconhecido Fernando de Athaide o
successor dos vinculos de seu pae. São seus os vinculos, e é sua a honra
de os deixar administrar por sua prima. Isto é que é nobreza! De resto,
as armas dos portões das suas quintas são pedaços de pedra lavrada, onde
as aranhas fazem seus ninhos como entre a palhiça que colma a cabana do
jornaleiro! Que diz?
--Responderei!--repetiu Fernando--tenho de dar satisfação á minha
dignidade. Entre coração e pundonor vai larga distancia: preciso de
explicar o despreso com que foram recebidas as minhas cartas por Gastão
de Noronha. É preciso que o mundo não pense que os meus direitos se
atemorisaram diante do arcabuz do valentão.
--É preciso, primeiro que tudo, respeitar o infortunio!--disse
brandamente Antonio d'Azevedo.
--Digno de respeito--accrescentou o neto dos Athaides sahindo de má
sombra.