Lembra-se o leitor de eu lhe ter dito, no primeiro capitulo, que, por
uma tarde de Agosto, estava Corinna da Soledade, nas margens do Lima,
reclinada n'um dos bancos circumpostos á fonte do tôpo da sombria
avenida?
Agora é que o romance prende com aquella tarde! Vejam que desconcerto
este! Chega uma novella ao meio, e torna a começar. Parece que é isto um
abuso da indulgencia com que o leitor costuma indultar-me os desarranjos
do meu engenho. Ora queira perdoar mais este, attendendo a que as
coisas, na vida como ella é, tambem assim vão desordenadas, e começam
não só pelo meio, mas até pelo fim.
A carta, que Corinna lia e regava de lagrimas, era de Antonio d'Azevedo.
A pagina que mais a enternecia a prantos dizia assim:
«.....................................................................
Eu não sei que deva esperar de Fernando de Athaide. Pareceu-me bom quando
lhe vi lagrimas, e mau quando se despediu. Será tudo, ou não será nada
do que me pareceu: os individuos vulgares são os menos intelligiveis. O
melhor, Corinna, é nada esperar que bom seja.
«Entretanto, eu posso mandar á tua familia o bom coração que tu fizeste,
e não póde ser teu sem ser dos teus. Prézo teu pae e tua mãe, quero ás
tuas irmans como ás minhas. Tenho-vos a todos no mais sagrado dos meus
affectos e ardentes desejos de ser util.
«Os meus haveres, por em quanto, não merecem tal nome; porém a minha
palavra vale muito com os amigos que me deram os Taveiras. É-me facil
possuir alguns contos de reis, e mandal-os a teu pae para ter uma casa e
segura subsistencia de sua familia, até que a minha posição seja mais
solida. Mas como hei de eu, e com que pretexto, remetter-lhe este
dinheiro? Como ha de elle acceital-o? Pensei n'isto muitos dias; e, a
final de desanimados arbitrios, tomei um expediente que tu, minha
Corinna, applaudirás, porque, sobre tudo, és a minha irman. Remetti seis
contos de reis ao nosso Felisberto Taveira, pedindo-lhe que fosse elle
offerecel-os a teu pae como coisa sua. Contrariou-me logo a conjectura
de que teu pae os não acceitaria, por não poder dar abonação; mas tão
cansado estava eu já de ser contrariado, que fechei os olhos, e deixei
ao meu bom amigo o desapressar-se das difficuldades. Aqui tens o que
fiz: Deus fará o resto.
«Pedi ao Taveira que aconselhasse a sahida de teu pae para o Porto ou
Lisboa. A especial situação em que elle se collocou é muito violenta.
Digam-lhe todos que abandone as terras que já não são suas. Em toda a
parte ha sol e arvores e paz. Todas as flores te hão de festejar, minha
filha, e o meu coração te será companhia onde quer que vás............
.....................................................................»
Era bem para lagrimas este singelo dizer e extremo amar do pobre
ausente!
Expiravam nas cristas das serras fronteiras os ultimos raios de sol, que
Corinna contemplava, coroando de escarlate os pinhaes, quando um
barquinho abicou á margem relvada, mesmo no ancoradoiro pertencente á
quinta de Gastão de Noronha.
Corinna viu saltar e subir por entre as aleas das ramosas arvores um
homem, seguido d'um criado com uma mala. Como a fuga, sem ser vista,
seria extemporanea, a menina, escondendo a carta, esperou que o
adventicio chegasse.
A certa distancia descobriu-se o sujeito, e perguntou se estava em casa
o senhor Gastão de Noronha.
--Meu pae está para Vianna--disse Corinna--mas deve chegar ao escurecer:
não tardará.
--Poderei esperar que elle chegue para lhe apresentar uma carta do
senhor visconde da Cruz?
--Sim, senhor: queira subir, que eu dou parte a minha mãe, posto que
ella está recolhida no seu quarto por doença.
Chamou Corinna um criado que encaminhou o hospede á sala.
Pouco depois entrou a menina na sala, desculpando sua mãe em não poder
ir receber um amigo do senhor visconde, e pedindo ao cavalheiro o favor
de esperar seu marido, que voltaria breve.
Corinna retirou-se, ouvidos os termos cortezãos com que o hospede
agradecia a delicadeza da senhora D. Mafalda.
Não se demorou Gastão. Foi logo á sala, e recebeu a seguinte carta:
«Illustrissimo e excellentissimo senhor, e meu respeitavel amigo de
minha maior consideração e respeito. Amigos de meu pae, e muito da nossa
estima, nos recommendam o cavalheiro portador d'esta carta, brazileiro
nato, que anda visitando a Europa, e quer ver o nosso Minho, e mais
ainda o Minho de vossa excellencia, symbolisado na sua formosa quinta.
Confiados na amizade de vossa excellencia, ousamos pedir-lhe o favor de
recebel-o, e indicar-lhe as principaes bellezas que enfeitam as margens
do Minho e Lima. Digne-se vossa excellencia acolhel-o com a sua
costumada delicadeza, e dar-nos a honra de lhe devermos esta nova
consideração. De vossa excellencia etc.==_Visconde da Cruz._
«_P. S._ Passados dias terei o prazer de visitar vossa excellencia e sua
amavel familia, para quem peço respeitos e saudades.»
--Offereço-lhe esta casa como a offereceria ao senhor visconde--disse o
fidalgo com palaciana graça--Queira sentar-se. Temos alguns locaes
bonitos na nossa provincia; mas se vossa senhoria viu a Suissa, a Italia
e alguns departamentos de França, de certo achará encarecida a pintura
que lhe fizeram do Minho. Eu viajei muito com a minha familia antes de
estabelecer casa em Paris, no tempo das nossas guerras intestinas!
Sinceramente lhe digo que lá fóra vi a natureza mais adornada, e por
isso mesmo mais bella: tudo assim é. O artista quer achar a nudez para
enfeital-a com a poesia do pincel ou do buril; mas o mero curioso sente
melhor o bello onde elle realmente é.
Proseguiram em conversação sobre viagens, até horas do chá. Já o
hospede, a esse tempo, sabia que o seu quarto de dormir era contiguo á
sala, e que o seu criado dormia na alcova inferior correspondente ao
pavimento do quarto.
Antes de servir-se o chá, mandou Gastão chamar as cinco meninas, e
apresentou-as a Carlos Zuzarte, que assim disse chamar-se o hospede.
Felismina tocou piano para acompanhar Emma; seguiu-se Elisa a cantar,
acompanhada por Leonor: Corinna estava no quarto de sua mãe. Carlos
sentia-se como encantado entre aquellas meninas, que fallavam um
portuguez feiticeiro em suas incorrecções, como fallariam anjos, se
descessem a tractar com portuguezes, circumstancia de idioma que os
poetas nunca observaram, que me lembre. Em quanto a ellas, o dizer do
hospede, puro brazileiro, era coisa de muita graça, com o que ellas
francamente riam, e de modo o faziam, que o viajante folgava de lhes dar
motivo a rirem. É onde póde chegar a condescendencia com meninas
galantes!
A noite correu ligeira para todos. Ao dia seguinte madrugou Zuzarte, e
desceu ao jardim. Argentava o sol a serra d'Arga, e lá em cima os
montados d'aquella mystica selva dos franciscanos, onde ainda rumorejam
os psalmos das singelas almas que d'alli, tão visinhas do ceo, se alaram
para Deus. Com que pena, leitor, eu acho o meu frei Luiz de Sousa
estranhamente trivial e despoetico na descripção d'aquelle ermo e dos
seus moradores! Elle, o dulcissimo panegyrista das solidões de Bemfica,
passou por entre os cenobitas de mais ignorada vida, nas chronicas
monasticas, e apenas disse: «É convento de religiosos entregues mais á
vida contemplativa, que aos cuidados e trabalhos da activa.» E mais nada
d'aquellas brenhas, e grutas e lageas sem nome que...
Se eu me deixava ir agora á vontade da penna, lá me ficava o romance
enredado nos silveiraes da mata de S. Francisco de Vianna, por onde já
passei um dia, lá muito no alto, d'onde eu avistava a casa acastellada
de Gastão de Noronha, em quanto outro anachoreta me ia contando o
romance d'aquella familia.
O hospede estacou surprezo á entrada d'um pavilhão de olaias. Estava lá
dentro uma como estatua de alabastro, que poderia chamar-se o anjo da
meditação. A estatua, porém, se o era, dos jardins do ceo devia de ser,
porque tinha luz nos olhos e celestial graça no sorriso, quando Zuzarte
a viu. Era Corinna da Soledade.
Cortejou-a o sujeito com certa turvação, e retirou-se. A menina
correspondeu ao cumprimento, e sahiu do jardim logo que o hospede se
distanceou da gruta.
Por alli se deteve contemplativo o brazileiro até horas de almoço. Lá
veio procural-o Gastão de Noronha, e se andaram ambos conversando ainda
sobre coisas que tendiam todas, por parte do fidalgo, a averiguar se o
hospede era rico.
--Tenho trinta e oito annos--disse o brazileiro--e principío agora ainda
a pensar nas delicias que tem o mundo. Até agora cuidei em fazer-me
rico, pensando que bastava sel-o para ser feliz. Como me enganei, cuido
d'hoje ávante em dar nova applicação á fortuna.
--Na sua idade--atalhou Gastão--quando se é rico, acham-se abertas as
portas do mundo para todos os gosos.
--Não é tanto assim--replicou o hospede--A riqueza é muitas vezes um
estorvo á felicidade do coração; e o coração, aos trinta e oito annos, é
quasi sempre enganado pela juventude que o reflexo do oiro lhe dá.
Quando me proponho um programma de vida nova, o meu primeiro pensamento
é casar. A felicidade do celibatario, se elle não fôr monge ou santo, ou
temperamento excepcional, é uma concatenação de deleites viciosos com
muito desconto de amarguras. Para além d'este difficil passo do
casamento rasgam-se-me novos horisontes, encantam-me as alegrias da vida
domestica, vejo os bens que Deus concede na velhice aos que dignamente
consumiram suas forças nos annos em que as forças carecem de ser
subordinadas ao dever...
--Pensa muito acertadamente, senhor Zuzarte--interrompeu o fidalgo.
--O quadro delicioso que vim achar em sua casa, senhor Gastão de
Noronha, redobrou-me o encanto, porque é elle a mais sublime realidade
das minhas imaginações. Que ditosa velhice a do pae que vê em volta de
si cinco filhas, cinco amores de filha a florescerem-lhe a alma com as
suas primaveras! Assim não se deve sentir o pezo dos annos, nem o temor
da morte. O caminho final, a ultima jornada deve ser suave entre os
anjos. Não é muito feliz, senhor Gastão de Noronha?
--Sou infeliz--disse, em boa consciencia, o fidalgo.
--Infeliz?! Com familia tão querida e extremosa, n'este paraizo, é
infeliz!? Então lá se vão as minhas chimeras!...
--Fui ditoso até ao momento em que uma inesperada desventura me bateu á
porta para me dizer que esta casa não era minha, e que as minhas filhas
teriam um futuro de dependencia, obscuridade, e... Deus sabe que
futuro!...
--Pois não é de vossa excellencia esta casa?--perguntou o hospede com um
ar de espanto, que denotava artificio por demasia de naturalidade.
--A herança de minha mulher foi-me disputada por um parente; são
vinculos que as leis concederam a um filho natural do antecessor de
minha mulher. Passados alguns mezes terei de sahir com minha familia. Um
descendente dos marquezes de Villa Real não terá choupana onde se
abrigue com suas filhas e mulher. Aqui tem o senhor Zuzarte a razão da
minha amargura. As filhas, que eram minhas delicias, estão sendo um
constante incentivo de soffrimento. Eduquei-as em França, dei-lhes uma
infancia de rainhas, premeditava casal-as nas primeiras familias d'esta
provincia: muito fidalgas, muito prendadas e muito pobres, quem as quer,
a não serem maridos de quem eu de certo as não fiava assim mesmo
pobres?...
Carlos ouvia Gastão com semblante mais assombrado que compungido:
dir-se-ia que aquelle homem, conscio da indole soberba do fidalgo,
pasmava de ouvil-o abrir-se em palavras tão brandas, francas e humildes.
De si para si dizia Gastão, vendo o aspecto indefinivel do seu hospede,
que, depois da revelação da pobreza, o rico o estava olhando com menos
prestigio, e talvez reflectindo no modo de esquivar-se a alguma petição
de dinheiro. Esta hypothese, beliscando o orgulho do fidalgo, fel-o
proromper n'estas palavras destoantes das ultimas que proferira:
--Ainda assim, as pessoas que se hospedam em casa de Gastão de Noronha,
por em quanto, são recebidas como em todo o tempo. A revelação que lhe
fiz, senhor Zuzarte, não é lastimas de quem acaba pedindo um favor.
Tenha vossa senhoria muita confiança na minha independencia, que eu hei
de morrer Gastão de Noronha. Ha mezes que o nosso amigo visconde da Cruz
depositou um capital de dois contos de reis para evitar um embargo nos
fructos pendentes d'estes bens: quando eu tal sube, vendi as joias de
minhas filhas para embolsar o senhor visconde do seu deposito.
--Vossa excellencia está-me fazendo revelações que me confundem--atalhou
o hospede--e ao mesmo tempo fere-me com suspeitas que eu não mereço! Por
ventura crê-me capaz de o julgar abatido e desmerecido em seu
infortunio? Que disse eu para vossa excellencia passar de uma tão nobre
confissão dos seus desgostos a prevenir-me de que os hospedes em sua
casa são recebidos como nos tempos prosperos?!
--Desculpe-me--acudiu Gastão--é que eu não nasci para estas queixas, e
cuido sempre que a pobreza me abate aos olhos dos estranhos, desde que
me vi desconsiderado dos parentes.
Entraram na casa do almoço, e encontraram D. Mafalda, que os esperava
com as cinco meninas. Carlos foi apresentado á fidalga, e deteve-se
conversando especialmente com ella durante o almoço. A polidez assim o
mandava ao hospede: mas o familiar affecto com que elle a tratava era
por demais. Notaram as meninas que elle não desfitava os olhos de sua
mãe senão quando encontrava os d'ella, já tambem admirada da fixidez
attenta do brazileiro.
Da casa do almoço passaram á sala do piano. Felismina foi cantar
modinhas brazileiras com o requebro e mimo das ardentes e languidas
filhas do Brazil. Felismina era uma formosa morena, com olhos negros,
cabellos curtos e annelados como spiraes de ebano, esbelta de corpo,
alta mais que todas, muito agil e inquieta, relanceando sempre a vista a
todos e a tudo, a mais diserta e chistosa de todas, e a menos dada ás
flores, á poesia, e ás bellezas campezinas que suas irmans encareciam
umas mais que outras, e Emma, a pachorrenta Emma, esta mais que nenhuma.
Felismina estava gracejando com Zuzarte a respeito das damas
brazileiras, cujas graças o hospede, sem favor, elogiava, quando um
criado entrou á sala onde estavam todos, e entregou uma carta ida de
Lisboa para Gastão de Noronha. Era a carta do procurador.
--Teremos golpe?--disse o fidalgo a D. Mafalda.
--Não sei qual possa ser!--respondeu a senhora--As dores mais de temer
estão todas passadas.
Leu Gastão a carta, e disse com alvoroço:
--O Fernando manda suspender a execução, e retirar o processo de
julgamento com desistencia! Que significa isto?
--O quê, papá?--exclamou Felismina, que mal ouvira, de entretida que
estava com o brazileiro.
--É o primo Fernando que desiste da demanda--disse Mafalda.
--Foi elle!--exclamou Corinna.
Voltaram-se todos para a menina que soltara o brado, e viram-a muito
escarlate.
--Elle! quem?--perguntou o pae.
Corinna balbuciou confusas palavras, e não soube como explicar aquelle
disparate, que parecia o despertar subito d'um arrobamento semelhante a
somnambulismo!
Se não existissem os pronomes _este_ e _elle_, Corinna teria exclamado:
--Foi Antonio d'Azevedo!
E, se ella tal dissesse, ninguem a entenderia, excepto o leitor.