O incansavel estudo, auxiliado pelo muito saber e prática do doutor
Valentim da Costa, habilitou Antonio d'Azevedo a grangear renome em
poucos mezes de exercicio.
O velho presava o praticante com mais que a vulgar estima captada pela
probidade. Quantos ganhos podia declinar em lavor do laborioso moço
todos lhe dava, não exceptuando mesmo os resultantes de seu proprio e
exclusivo trabalho. Os clientes não distinguiam entre os dois, e alguns
iam mais contentes da linguagem e escripta concisa e vigorosa do doutor
novo.
--Já póde o senhor Azevedo, quando quizer, estabelecer-se sobre si--lhe
disse o velho um dia--Ha de sobejar-lhe clientela, e está na carreira
que leva á consideração e á fortuna. De mim é que já não precisa, meu
caro amigo.
--E vossa senhoria assim me dispensa da sua companhia?--atalhou
Azevedo--Fiz sempre quanto pude por que esta sociedade lhe não fosse
onerosa.
--Ora ahi está! Eu a cuidar que o senhor desejava estar sósinho em seu
escriptorio, como todos desejam, e vai agora sae-me o Azevedo o
contrario de toda a gente! Pois, em sua boa verdade, o senhor quer ficar
na minha companhia?
--Desejo-o; e nunca me lembrou que havia de sahir.
--Pois fique, Azevedo, fique, se o não move o interesse de mais algum
punhado de oiro no fim de cada anno. Bem vê como este meu trabalho é
interrompido pela gota, pelo rheumatismo e por outros achaques, contra
os quaes não tenho que allegar nos nossos reinicolas. Isto está acabado,
e acabada estava ha muito a minha tarefa, se não fossem velhos amigos
que me tiram da cama para a cadeira, e ás vezes conseguem arrastar-me,
em holocausto á amizade, aos tribunaes. Agora os novos que trabalhem, e
cá se avenham com o seculo, com o qual eu já me não entendo. Tome o
Azevedo conta das minhas procurações, dos meus livros, dos meus amigos,
e, se quizer, do meu rheumatismo e da minha gota.
O velho doutor era mui faceto, e mettia sempre a riso a sua gota e o seu
rheumatismo.
Estavam elles n'uma d'estas feriadas praticas, quando entrou um cliente
de Valentim da Costa.
--Muito bem apparecido seja--disse este--o senhor Fernando de Athaide,
fidalgo em Portugal e fazendeiro no Brazil. Vem-me dizer que está de
posse dos seus vinculos de S. Torquato, de Alvites e de Ameixoal?
Parabens!
--Quaes parabens, meu caro senhor doutor!--disse Fernando de
Athaide--Aquillo tem dente de coelho! Tenho gasto o valor dos bens;
tenho cinco sentenças a favor, e ainda pelo ultimo barco recebi uma
carta do advogado e outra do procurador. Veja lá vossa senhoria o que
por lá vai!
Leu o doutor mentalmente, e interrompeu-se em meio com esta exclamação:
--Magnifico bruto é o seu advogado, e o seu procurador outro bruto
magnifico! Pois não deixam de intimar ao réo a primeira sentença! Esta,
esta é das que desbancam a propria estupidez!...
--Pois olhe que tenho pago a rios de oiro essas brutalidades--disse
Fernando.
--Não que ellas valem-no pela raridade!--disse o doutor limpando os
oculos e proseguindo na leitura mental.
--Isto agora é que tem graça!--exclamou o velho, arfando em
risadas--Está-se lá em Portugal na edade media. Recebem a justiça a fogo
e ferro! Ó Azevedo, oiça lá isto, que é perdido em pouca gente.
E leu:
«A diligencia que sahiu de Vianna, retirou apupada e não fez o embargo;
a outra que foi com a tropa, retirou debaixo de fogo, e recolheu com um
soldado ferido. Á hora que lhe escrevo consta-me que mais de cem homens
armados fazem sentinella ao palacio artilhado de Gastão de Noronha....»
--Como? de quem?--exclamou Azevedo.
--De Gastão de Noronha--disse o velho--Conhece-o?
--Conheço!--disse mui alvoroçado e pallido Antonio d'Azevedo--Mas que
tiros são esses?
--É muito simples--respondeu Fernando d'Athaide, eu sou o directo
successor dos vinculos que retem D. Mafalda de Athaide, mulher de Gastão
de Noronha e minha prima. Ha muitos annos que tracto de senhorear-me do
que é legitimamente meu. Tenho vencido em todas as instancias; obtive
despacho para embargo nos fructos até á final decisão do pleito,
annullado por um estupido descuido; e quando os officiaes de justiça vão
cumprir a lei, o senhor Gastão dá-lhe fogo, e diz que a casa é sua. Ora
vejam o que é Portugal! que civilisação aquella! Com que então o senhor
doutor conhece meu primo Gastão de Noronha?
Azevedo, de abstrahido que ficou, não ouviu a pergunta. Fernando encarou
em Valentim, como perguntando-lhe se era surdo o praticante.
--Diz o senhor Fernando se o meu amigo conhece Gastão de Noronha--tornou
o velho.
--Conheço, creio que já disse.
Esta resposta foi dada com enfadado franzimento de sobr'olho, estranho
ao velho.
Azevedo, vencido insolitamente de sua nobre paixão, fitou em cheio o
rosto de Fernando, e perguntou:
--O senhor é pobre?
--Graças a Deus, não.
--É rico?
--Assim, assim.
--É muito rico--accrescentou o doutor Valentim.
--E não carece dos bens de sua prima D. Mafalda para ser feliz?--tornou
Azevedo.
--Os bens são meus; não são de minha prima Mafalda--redarguiu Fernando
com desabrimento.
--Convenho que são seus. Os bens que legitimamente possue sua prima são
cinco filhas. Se o senhor tirar áquella familia as terras de que viviam,
sua prima e seu primo e cinco meninas terão fome; ao passo que o senhor
Fernando de Athaide não saberá que fazer d'essa parcella, que
accrescenta á sua abundancia.
--Pode ser que assim seja--disse Fernando descommovido--mas a pobreza
não é orgulhosa. Eu escrevi duas cartas a Gastão de Noronha, quando elle
estava em Paris, propondo-lhe uma conciliação, e elle nem sequer desceu
do seu orgulho a responder ao filho natural de Fernão de Athaide. Ora o
filho natural quer desforçar-se como seu pae se desforçaria lançando
fóra de sua casa os miseraveis que o não reconhecem como dono, nem
sequer como parente. Colloque-se lá na minha posição, e diga-me o que
faria?
--Tinha commiseração--respondeu Azevedo, e fingiu-se occupado a folhear
uns autos.
--Commiseração com o senhor castellão que manda despejar balas sobre os
executores do meu direito!--volveu Fernando--Olha em que postas eu era
talhado se vivesse lá n'aquellas serras, em que os ladrões fidalgos se
acastellam!
Antonio d'Azevedo pegou do chapeo, e disse que ia jantar e voltaria
depois. Ao sahir cortejou urbanamente Fernando, como a pedir-lhe
desculpa no sorriso.
--Este homem é exquisito!--disse Fernando ao doutor.
--É um modêlo de honra e virtude--tornou o velho--Não imagina que puro
oiro é o d'aquella alma! Foi a commiseração que o excitou a tal
estranheza de phrases. Desculpe-o, que o pobre moço, no fim de tudo,
disse-lhe uma augusta verdade. Olhe que é triste coisa um homem que
educou cinco filhas com todo o mimo e regalias de fidalgas, vel-as
privadas de pão e de respeitos sociaes.
--Então que quer o senhor doutor?--atalhou Fernando.
--Eu de mim não quero senão absolver a compaixão de Antonio d'Azevedo, e
lembrar ao senhor Fernando, que a caridade e o perdão são as virtudes
fundamentaes do doutrinamento de Jesus Christo.
--E achava vossa senhoria acertado--acudiu Fernando--que eu perdesse
contos de reis, que tenho gastado n'este capricho, e deixasse os meus
vinculos na posse e direitos de minha prima?
--Eu não aconselho, senhor Fernando. Isto de bem fazer não se lê nem se
ensina: está dentro do coração, é foro intimo, é materia de tractar com
Deus. Faça o que bem quizer; mas de modo se haja que nunca venha a
sentir-se mal comsigo proprio.
--A minha consciencia está tranquillissima--retorquiu Fernando.
--Quantas vezes a consciencia está quieta, e o coração inquieto? A
consciencia é a inspiradora dos deveres; e o coração da piedade, da
humanidade, e d'outras virtudes menos pautadas que os meros deveres e
obrigações de uma recta razão. Faça o que quizer, senhor Fernando...
--Como eu me enganei!--atalhou Athaide.
--Enganou-se!? Com quê e com quem?
--Com o seu socio de escriptorio.
--Ora essa! pois...
--Eu lhe digo, senhor doutor. Disseram-me que este Antonio d'Azevedo era
um advogado esperto.
--Não lhe mentiram.
--Será; não duvido. Ora, como eu queria acabar com isto á custa de mais
alguns contos de reis, vinha com o fito posto em offerecer tres ou
quatro contos ao doutor Azevedo para elle ir a Portugal tomar posse dos
vinculos em meu nome, removendo todos os embaraços com a sua esperteza.
Vinha n'esta ideia, e, quando menos o cuido, acho um prégador de
caridade...
--Gratuito...--accrescentou, sorrindo, o velho.
--O que faltava era ter de lhe pagar o sermão que não lhe encommendei!
--Pois olhe que valeu dinheiro! Vossa senhoria, se for scismar no que
ouviu, ámanhan está melhor de coração que hoje. Acha que não vale
dinheiro um melhoramento moral? Oh! se vale! Até eu lhe devo, a elle mui
salutares conselhos para a caduquez, e quando o escuto estou como
pezaroso de não ter sido o que elle é. Pois que lhe disse o meu Antonio
d'Azevedo? Cifra n'isto: «O senhor é muito rico: deixe essas migalhas
que está disputando á familia, que não tem mais nada: faça de conta que
pegou de sete pessoas pobres de sua familia, e deu a cada uma sua
subsistencia.» Não lhe sôa bem isto ao animo desassombrado, senhor
Fernando de Athaide? O seu bom sangue de fidalgo não se azedaria nas
veias, se lhe cá viessem dizer que uma porção tão chegada de seus
parentes andava lá por Portugal arrastada sobre os espinhos da pobreza,
da miseria, e talvez da deshonra? Tem o senhor em Portugal cinco primas.
Onde cuida vossa senhoria que as póde levar a indigencia?...
Valentim, fallando d'este theor, tinha os olhos embaciados de lagrimas.
Fernando olhava-o em certa estupefacção, que umas vezes é dureza de
sentimento, e muitas encendimento de renascida sensibilidade. O velho
calou-se, e o primo de D. Mafalda, tomando o chapeo, sahiu sem proferir
palavra, cortejando o doutor com um aceno.
--Adeus, meu amigo--disse o velho--Pense no fim da vida. Lembre-se que,
no inverno d'ella, costumam os velhos lembrar-se das flores d'alma, que
esmagaram na primavera.
Fernando ouviu, no patamar da escada, as ultimas palavras, e sahiu tanto
ou quanto abalado.
Pouco depois entrou Antonio d'Azevedo. Viam-se-lhe nos olhos os residuos
das lagrimas. É que elle acabava de escrever a seguinte lauda d'uma
carta a Corinna:
«.....................................................................
«_2 d'Abril de 1844--quatro horas da tarde._
«Acabo de saber as desventuras que vão em tua casa. Ouvi-as da boca do
mesmo homem que vos quer privar d'essas arvores e do berço onde te
embalaste, minha querida Corinna. Eu alcanço a profundeza das vossas
amarguras, pobres meninas e pobre mãe! Que tremenda afflicção hallucinou
teu pae ao ponto de resistir á justiça impiedosa, que não entende de
infortunios, nem de lagrimas! Quantas vezes te voaria ao coração
angustiado a imagem invalida do teu amigo! Tardias exclamações, filha!
Deixa-me ver o que posso conseguir a bem de teu pae, cujas mãos eu
espero beijar ainda. Talvez que á hora em que receberes esta carta,
começada com tanta alegria, e tão atormentada agora, tudo esteja sanado,
e teu pae olhe como suas para sempre essas reliquias de uma grande
fortuna mal desbaratada. Tenho um presentimento de que hei de merecer a
intervenção da providencia nas minhas intenções. Talvez que, a estas
horas, estejas orando, e o anjo do nosso amor me segrede os dons que
Deus te concede. Vou sahir, minha Corinna. Vou ouvir o santo varão a
quem devo tudo. É tempo de eu lhe mostrar que anjo tu és para o fazer
teu amigo, e bemfeitor de ambos. Até logo.»
Valentim observou o ar magoado do seu estremecido amigo, e quiz ver uma
extraordinaria causa áquelle compungir-se pela familia portugueza.
--Olhe que eu cá fiquei prégando com o homem--disse o velho--As suas
palavras foram o thema do sermão; mas, a fallar-lhe a verdade, não vejo
lura d'onde saia coelho. Este Fernando de Athaide, cujo pae e mãe
conheci, se não fosse a balda da fidalguia, havia de ser um homem muito
estimavel. Está muito rico, e acha-se pobre quando veste a casaca sem o
habito de cavalleiro ou official da Roza. Ha pouco arranjou em Portugal
não sei que fitinha, que ellas por lá são tantas e tão bastas que não ha
saber estremar os fidalgos pelas fitas. Mas o pobre homem não se
contenta com ser condecorado pelo que faz (que eu, a bem dizer, não sei
o que elle faz ou fez) quer tambem que a sua fidalguia lhe proceda em
linha direita dos godos. Para isso precisa justificar-se tomando posse
das quintas vinculadas e dos pardieiros que, pelos modos, tem ameias,
adarves, barbacans e brazões com corôas e mitras. Isto é o que explica a
crua insensibilidade de Fernando com os seus parentes. Ora diga lá,
Azevedo, vossê conhece pessoalmente o tal Gastão de Noronha?
--Conheço-o de vista apenas; mas Gastão de Noronha está tão identificado
á minha vida, que por causa d'elle estou hoje no Brazil. O senhor doutor
Valentim já sabe que o meu coração tem lagrimas de saudade. Eu era na
patria o que ainda sou aqui: um rapaz sem bens e sem futuro; e Gastão de
Noronha era o fidalgo não rico, mas de sobra ambicioso e soberbo para me
não dar sua filha. A mulher que eu amo e choro é filha de Gastão de
Noronha.
--É notavel a coincidencia!--disse Valentim--Agora é que a sua mágoa me
parece racional, e digna me pareceria de todo o modo. Entretanto, meu
Azevedo, na sua mão está salvar essa menina, e desde já, das
contingencias da pobreza. O senhor já sabe que tem bastos recursos no
Brazil. Vá a Portugal, que a soberba do fidalgo deve estar amollecida.
Case com a sua dama, e volte, que os seus amigos cá o ficam esperando.
Riram os olhos de Antonio d'Azevedo; mas este clarão de alegria foi
instantaneo.
--Seria a felicidade perfeita para mim, mas não para ella--disse o
bacharel, após instantes de reflexão.
--Como assim?--perguntou o velho--que mais póde ella desejar?!
--Que seus paes e irmans não soffram as horriveis privações tanto mais
amargas, quanto a vida lhes correu abundante e respeitada. Calcule o
senhor doutor que desgosto não seria o d'ella ao lembrar-se que suas
quatro irmans ficaram encerradas em conventos, e dependentes da esmola
de parentas! e que sua mãe, privada d'ellas, e talvez do marido... como
poderia eu ser assim feliz, meu amigo?!...
Antonio d'Azevedo deixava cahir as lagrimas para que o velho não lh'as
visse enxugar! Ha lagrimas que tem um como pudor, e recato que é talvez
o medo de serem mal avaliadas. O chorar do homem ha de ser assim, ou
ficará sendo miseravel alardo de sua feminil fraqueza.