Gastão de Noronha valia ainda muito com homens de alta graduação, seus
companheiros de exilio.
O litigio, perdido em primeira instancia, foi appellado para o Porto; e
com quanto uma espantosa actividade, esporeada pelo ouro do brazileiro,
instasse com os juizes de segunda instancia, os padrinhos do fidalgo
valeram mais para que o processo paralisasse na mão do relator. Este,
porém, com maravilhosa consciencia fez saber ao réo que a sua perda era
inevitavel, cedo ou tarde, e que parte da imprensa estava a favor da
prompta decisão do pleito.
Decorridos quatro mezes, os tres jornaes portuenses d'aquelle tempo, e
alguns de Lisboa, depois d'um prefacio de dez e mais artigos ácerca da
corrupção da magistratura, fulminaram o juiz relator, já alcunhando-o de
vendido, já de subornado pelas fidalgas influencias que ladeavam Gastão
de Noronha. Não houve remedio senão confirmar a sentença.
Recorreu de revista para o supremo tribunal o réo, acompanhando o
processo, e cumulando embargos sobre embargos. Em Lisboa a presença de
Gastão e a solicitude dos amigos promettiam um anno ou mais de
esquecimento dos autos; mas as gazetas, ainda antes de tempo, já se
mostravam espantadas da demora, e, por conta de seu espanto, lavraram
logo alvará de corruptos a todos os juizes, pedindo ás leis, ao governo
e ao universo que os esfollassem, como o tyranno de Siracusa fizera a um
juiz venal.
Aproveitou Gastão o ensejo de requerer emprego em Lisboa, já mais que
certo do resultado do pleito. Os seus amigos, que o julgavam rico,
pasmavam de o verem com aquelle aspeito typico, immutavel, e unico de
pretendente. Pedia elle a directoria d'uma alfandega de primeira ordem,
posto que nenhuma estivesse vaga. O ministro achou absurdo o
requerimento, e os amigos acharam importuno o requerente. Desceu Gastão
de suas pretenções, e pedia um governo civil em Vianna, Braga ou Porto.
Os funccionarios que exerciam taes commissões na provincia eram sujeitos
affectos ao governo, e bons fabricantes de Fabricios e Codros
sertanejos. O fidalgo foi esclarecido a este respeito, e azoou. Pediu
ainda um logar de escrivão da mesa grande da alfandega de Lisboa; mas o
ministro mostrou-se muito sentido de que o serventuario existente não
tivesse dado causa a ser demittido.
Ora Gastão de Noronha algumas vezes, em Paris, dera a um dos ministros
pares de botas, e muitos jantares a outro. Assim lh'o lançou em rosto, e
elles, pelos modos, ouviram a injuria com muito receio de que o fidalgo
minhoto fizesse uso dos pulsos não menos rijos que as phrases. Era homem
para isso o atribulado pae de cinco meninas, em vesperas de não ter
sombra de arvore sua que o cobrisse!
Desanimado, e com o pensamento do suicidio a empeçonhar-lhe a alma,
desamparou o processo, e foi para os seus.
Que ia elle fazer alli? que destino ia dar ás filhas? que remedio
esperava elle haurir das lagrimas da pobre Mafalda, que em seis mezes
envelhecera vinte annos?
A sua entrada em casa denunciou, sem palavras, a desesperança e suprema
desgraça que o trazia. As meninas cuidaram logo nos preparos para se
recolherem ao claustro, e D. Mafalda, sem consultar o marido, resolvera
entrar com Corinna no mosteiro de Vianna. No tocante a si, dizia Gastão
de Noronha que as suas tenções estavam deliberadas.
As tenções do fidalgo eram incendiar o palacete no dia em que chegasse
de Lisboa a noticia do ultimo arranco da sua fortuna. O que elle faria
de si depois era segredo que não deixou transpirar dos seus furores
recalcados no peito.
A noticia que o seu procurador lhe deu passados dias foi consolativa. O
supremo tribunal annullara o processo desde a appellação por falta de
intimação ao réo. Queria isto dizer que a demanda ia recomeçar desde a
sentença de primeira instancia.
Recobrou-se Gastão; as meninas descontinuaram os preparativos de
convento; aquietou-se o animo de todos, e volveram á casa das margens do
Lima alguns parentes, que fugiam _para não presenciarem as angustias
d'aquella nobilissima familia_. Boas almas, não tem duvida nenhuma!
De pouco tempo foi este repousar para maiores angustias. Os zelosos
procuradores de Fernando de Athaide obtiveram despacho para embargo dos
fructos pendentes, fundamentando sua justiça em artigos que o leitor
curioso póde ver de seu vagar no codigo.
Foi, para este effeito, citado Gastão de Noronha. Era de mais: foi uma
faisca que atiraram áquella alma cheia de rancor, que ameaçava explosão!
O fidalgo chamou os criados, armou-os, postou-os ao portão da quinta, e
sentou-se no muro para capitanear a defeza.
Os officiaes de justiça, idos de Vianna, quando avistaram os homens
armados, retrocederam. Os criados, vencedores sem consumo de polvora,
deram-lhes uma bateria de apupos e assovios, que nunca a justiça d'estes
reinos foi tão ridiculamente escorraçada.
Gastão preparou-se para mais pugnaz arremettida. Chamou os caseiros em
grande numero, armados de foices, enxadas e escopetas vesadas a matar
uma andorinha no ar.
Sahiram de Vianna os mesmos esbirros e outros mais afoitos, com doze
soldados e um sargento. As inculcas do fidalgo anticiparam-se com a
noticia. Gastão fechou toda a sua familia n'uma sala interior da casa
nova, e postou-se com trinta homens nas janellas do edificio solarengo.
A diligencia viu aberto o portão, e receou cilada. Os aguazis incitaram
o exercito a ir na dianteira. O bravo sargento, direito como um
Giraldo-sem-pavor, entrou com o dedo no gatilho, bradando: «preparar!»
com voz tão marcial, que fazia lembrar os bons tempos de Nuno Alvares e
João de Castro. Os soldados compassaram-se em atiradores ao longo das
alas de cilindras e acacias.
As avesinhas, que se aninhavam calorosas por entre a folhagem,
crepitavam em bandos, e fugiam para o lado da casa, como a pedirem
abrigo ás cinco meninas, suas unicas visitas áquelles pacificos
caramancheis.
Parou a tropa no terraço fronteiro á casa. O sargento viu uma cabeça
entre as duas columnatas mosarabes d'uma janella, e disse:
--Cuidado! que lá está um!
--É o fidalgo!--disse o escrivão, aventurando uma espreitadella por
entre as franças de uma olaia--Está sósinho?
--Está, pelo menos não vejo mais ninguem--disse o sargento.
Animou-se o executor a sahir em claro, e cortejou de baixo Gastão.
--Que quer vossê?--perguntou o fidalgo.
O escrivão tartamudeou palavras inaudiveis. Sahiu á frente um official
de chibança, e disse stentorosamente:
--Vimos a fazer embargos nos fructos a requerimento de Fernando
d'Athaide, e com mandado do senhor doutor juiz de direito. Está vossa
excellencia citado na presença de todas estas testemunhas. Agora vamos
cumprir a diligencia: somos mandados. Vossa excellencia, se quizer,
ponha embargos ao embargo.
--Eu não lhe tolero conselhos, _su_ miseravel!--bradou Gastão--Já, e sem
perda de tempo, meia volta á direita, e fóra da minha quinta, quando não
vão debaixo de fogo!
--Auto de resistencia!--exclamou o escrivão, desentarrachando um
tinteiro de osso negro, e examinando na unha do pollegar esquerdo os
bicos da penna.
Mal o scriba proferira a bombastica exclamação, o fidalgo deixou ver o
cano de um bacamarte, e vinte se não mais bocas de fogo romperam das
differentes janellas. O escrivão escoou-se ao longo d'um massiço de
murtas e acocorou-se. Os esbirros tomaram a retaguarda do exercito, e o
sargento, em vez de arengar á tropa enfiada de pavor, sahiu do seu posto
de honra e foi perguntar ao agachado escrivão se devia dar voz de fogo.
O escrivão ouviu a sibylla do medo, e disse que o melhor seria não haver
sangue, e retirarem-se a lavrar o auto de resistencia.
--Meia volta á direita, rodar!--bradou o sargento. Os soldados voltaram
costas ao inimigo, e obedeceram ás vozes «braço-arma!» e «marcha!»
A victoria, posto que incruenta, seria uma ridicula derrota para as
armas e para as lettras juridicas, se alguns dos caseiros de mais rópia
e chulice, como lá dizem, não sahissem por portas travessas contra
vontade do amo, e não cortassem por atalhos a retirada á corrida
justiça. Mal precatada ia esta, quando o tiroteio lhe rompeu á frente e
pelo flanco direito, com grande algazarra de gritos, e de balas, cujo
assovio encrespava de horriveis titilações as orelhas do escrivão. Os
soldados viam, a intervallos, surgirem umas cabeças por detraz das
moitas, ou deslizarem rapidos os vultos sobre uma clareira de dois
troncos seculares do escuro arvoredo. Um soldado mais afoito rompeu ao
bosque, e voltou de lá a manquejar com um raspão de bala n'um artelho. O
esbirro chibante, que queria dar o exemplo da bravura, viu-se de repente
na boca d'uma clavina, e metteu a coragem debaixo dos joelhos, que poz
em terra, pedindo misericordia.
Gastão, logo que ouvira o tiroteio, mandou chamar os seus bravos, mas
não a tempo de aggravar a resistencia com o ferimento do soldado. Cessou
o fogo. Os escaramuceiros recolheram á cidadella com um chapeo de
aguazil arvorado no gancho d'uma foice, e o escrivão com os seus
chegaram a Vianna com aspecto livido como aquelle soldado unico dos
trezentos de Leonidas que foi annunciar a Sparta a morte de todos os
seus camaradas nas Thermopylas.
O regimento de infanteria aquartelado em Vianna, quando viu o soldado
ferido, quiz sahir em pezo a vingar a affronta. Conteve o commandante a
soldadesca, promettendo em nome da justiça mais legal e solemne
vingança.
Póde dizer-se, sem injuria ao fidalgo, que a pobre cabeça d'elle estava
perdida. Era aquillo tudo um cavar abismos em abismos. De hora a hora
mandava atalaiar a estrada, em quanto recolhia gente armada das aldeias
proximas, munições de guerra e vitualhas. Aquella casa, tão quieta dias
antes, a remirar-se no crystal do Lima, estava sendo um castello de
antigo barão em guerra com rei, ou senhor feudal inimigo de velhos odios
de raça. As pallidas meninas e sua mãe aconchegavam-se umas das outras,
e tremiam a cada estrondo de cronha d'armas no sobrado ou tinnir de
varetas no cano das espingardas.
Mafalda ia supplicar ao marido que fugisse e as deixasse a ellas
recolher aos conventos para se pouparem á desgraça de o verem a elle
morto ou preso.
Gastão enfurecia-se contra as lagrimas; e, no auge de sua demencia,
chegava a bradar que elle e sua familia morreriam no incendio da casa
para não sobreviverem ao opprobrio da indigencia.
Os espias, ao terceiro dia de providencias para formal assedio, foram
avisar o fidalgo de que vinham na estrada tres cavalheiros com um
lacaio.
Momentos depois apearam no pateo os pacificos invasores da fortaleza,
passando por entre fileiras de homens armados.
Gastão da sua janella-guarita reconheceu um parente de Vianna e
Felisberto Taveira, já então visconde da Cruz, cujo era o lacaio.
Felisberto abraçou effusamente o pae de Corinna, maravilhando-se do
aspeito bellicoso do castello, e pedindo licença para cumprimentar as
damas castellans.
Appareceram as meninas com sua mãe. Corinna não se teve que não
abraçasse expansiva e lagrimosa o amigo de Antonio d'Azevedo.
Ditos os logares communs, que eram para pouco em lances tão
extraordinarios, o visconde da Cruz disse que lêra no _Periodico dos
Pobres do Porto_ uma correspondencia contando com negras cores a
primeira resistencia que o fidalgo fizera á acção judiciaria, e os
motivos que promoviam o embargo. Ajuntou que resolvera desde logo sahir
caminho de Vianna para, como bom amigo de tão sympathica familia,
offerecer o seu valimento. Accrescentou que chegara a Vianna quando se
tomavam violentas medidas para vingar o aggravo feito á justiça e á
força armada; e então, de accordo com o cavalheiro parente da casa, e
advogado d'um tal Fernando de Athaide, conseguira, mediante um deposito
equivalente ao rendimento dos bens litigados, cancellar os processos
crimes instaurados e mandados de prisão.
Não ficou assim mesmo Gastão de Noronha extremamente satisfeito de tal
serviço; mas agradeceu-o com um sorriso, e as meninas com lagrimas.
A parecer do visconde, os caseiros depozeram as armas e os criados
voltaram ao seu trabalho. O chapeo do aguazil, em testemunho de alegria,
foi arcabusado e sacudido em farrapos aos quatro ventos do ceo.
O restante do dia e noite correu tranquillo e alegre. Corinna recebeu
furtivamente a segunda carta de Antonio d'Azevedo, e sentiu ancias de
oscular a mão do visconde, que lh'a entregou com estas palavras:
--O nosso Antonio está n'um largo caminho de venturas. Ha de vel-o em
Portugal dentro em pouco, e rico. Tenha orgulho de ser amada por tal
homem.
--Tenho! Deus sabe que tenho!--murmurou ella.