«_21 de junho de 1843, onze horas da manhan._
«Aqui estou, minha querida Corinna. Cheguei ha meia hora. A minha
tristeza tem uma negrura inexplicavel. Abafa-me mortalmente este ar.
Estou como o desterrado que atiraram a uma praia onde não houvessem
olhos humanos que me vissem chorar. Ó meu Deus, que atroz supplicio é a
saudade! Que desolação em roda de mim, que terror me incute tudo isto
que me vê com uma indifferença dolorosa como o escarneo! Sahirei eu
d'esta febre que me está arrancando pedaços de vida a cada momento! Ó
Corinna, eu não a vejo mais! Aqui é que sossobram as mais robustas
almas... Eu não previra isto... É impossivel que haja piedade n'esta
gente! A quem escrevo eu, meu Deus! Está a milhares de leguas distante,
ó minha amiga! E esta carta só, passados quinze dias, sahirá
d'aqui!...............................................................
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«_Quatro horas da tarde._
«Sahi no afôgo de uma afflicção sem nome. Levei a minha carteira, e
entreguei uma carta do Taveira a um negociante, que, apenas leu a carta,
me disse que eu seria hospede na sua chacara, para onde vou ámanhan.
Acolheu-me com muito bom rosto, e, apertando-me a mão, disse: «O senhor
vem muito recommendado: ha de ter muitos amigos, e eu o mais dedicado de
todos.»
«Fizeram-me grande bem estas palavras. A maior oppressão vai
desapparecendo. Já a vejo a outra luz, minha Corinna. Já a torno a ver
ao meu lado com a missão de anjo do alento e da paciencia. Os
desamparados são unicamente aquelles que não tem nenhum amor puro na
terra, nem confiança na graça divina. Ha de tudo em minha alma, bemdito
seja Deus! Eis-me outra vez forte para a lucta, e envergonhado da minha
fraqueza. Não rasgo a primeira pagina d'esta carta porque a minha alma
ha de mostrar-se-lhe sempre nas suas intercadencias de força e
desanimação. Assim lh'o prometti, e tenho necessidade de cumprir. Toda a
gente ha de ignorar os meus desfallecimentos, menos a minha Corinna para
me dizer: «Levanta-te, fraco, se queres ser digno de mim!» Vou sahir
para entregar outras cartas, antes da minha ida para o campo.
«_Nove horas da noite._
«Todos os portuguezes me recebem nos braços. Suppunha eu que os
negociantes me acolheriam com a frieza da sua distancia d'um homem de
tão diversa profissão. O que ahi se diz d'esta boa gente é uma calumnia.
Os opulentos commerciantes a quem me apresentei parece que me estavam
vendo nos olhos espelhadas as saudades da patria; e elles, tambem
saudosos, sympathisavam mais com a minha dor, e queriam ouvir-me fallar
das menores coisas de Portugal. Aqui é que se sabe o que é esse torrão
de flores e alegrias. Em parte nenhuma a palavra «patria» tem tão doce,
tão querida e esperançosa significação. Muitos ahi dizem que tem
vergonha de serem portuguezes; aqui sente-se orgulho de ter lá nascido,
e encontrar tão longe irmãos assim saudosos da mãe commum. Abençoados
sejam estes homens que tem olhado compadecidos para mim! Devo-lhes esta
serenidade com que lhe vou escrevendo... Mas o cansaço prostra-me, minha
amiga. Até ámanhan.
«_22 de junho, oito horas da manhan._
«O meu despertar foi afflictivo. Com os sonhos renasceram as saudades, e
o descorçoamento. Assaltou-me a pusillanime ideia de voltar já para
Portugal. Seduzia-me o receio de adoecer n'este clima, o terror das
febres, a difficuldade de ser rico, onde nem todos são ricos, ainda os
mais laboriosos. Adormecera pensando no caminho que devia encetar: todos
se me afiguravam difficeis e escabrosos. Que fraqueza! que inconstancia
miseravel a do homem mais fervoroso no trabalho! Eu tinha perguntado ao
dono do hotel se os advogados enriqueciam depressa; e elle, enumerando
todas as profissões que enriqueciam, não mencionou a minha. Instei
encarecendo as vantagens que se offerecem a um bom e honrado advogado:
ouviu-m'as encolhendo os hombros, e disse que os caminhos direitos eram
os mais tortos para quem procurava enriquecer-se. Isto desconsolou-me,
amargurou-me os sonhos, e deu-me a hora má que precedeu estas linhas.
Deixar fallar o descrente da honra. Se é forçoso, renunciarei á riqueza;
contento-me que as muitas fadigas e vigilias me dêem honesta
independencia, e o respeito de mim proprio.
«_Cinco horas da tarde._
«Espera-me o amigo de quem vou ser hospede. Brevemente voltarei a dar
começo á minha tarefa. Já me estão pezando as horas que vou passar de
ocio sem prazer: parece-me que são horas que roubo á sua felicidade e á
minha. A vontade energica é uma esperança meio realisada. Ha aqui n'este
ar, n'este ceo, n'esta incessante labutação, um rumor mysterioso que eu
escuto como o cantico victorioso dos que luctaram e venceram. Porque não
hei de eu, a final, vencer tambem com esta ancia e força d'alma, com
este amor e saudade, com esta voz prophetica promettedora de honrosos
triumphos?...
«_23 de junho, nove horas da manhan._
«A casa em que vivo, minha amiga, faz-me lembrar uma finissima e polida
concha entre fofos de verdura e caules de gentis florinhas! As palmas,
as tamarindeiras, os coqueiros, e muita especie de arvores do paraizo
com sua explendida e agigantada folhagem, absorvem os raios abrazadores
d'este sol, e elaboram-no em si, expedindo-o em frescura, que faz
lembrar a da nossa terra, as auras das margens dos nossos rios, os
salgueiraes do seu Lima, e os choupaes do meu Cávado! Mas que falta aqui
da alegria dos nossos arvoredos, minha Corinna? Não sei: parecem-me
tristes estas arvores; não me viram na infancia; não me conhecem; não me
fallam. Que bello deve ser este diamante do mundo para os que nasceram
aqui! Que abrasadas fantasias serão as dos poetas aquecidos a este vapor
aromatisado por tantas urnas de florescencia peregrina! Que ar de
primitiva magnificencia da creação tem isto tudo? Afigura-se-me que, á
sahida do eden, este pedaço de mundo se desdobrou, com as entranhas
arquejantes de riqueza, concitando o homem condemnado a trabalhar, a
tressuar e a limpar mil vezes o rosto, calcinado sob os ardores do sol,
á sombra d'estas arvores, que significam a misericordia divina ao lado
da justiça inexoravel. É um como fantastico explendor que me está
arrobando os sentidos; mas a minha alma está triste porque esta verdura
macilenta não é a da minha patria; estas folhas hirtas, apontadas ao ceo
como flexas, ou largas, immoveis e enormes, não me dão o murmurio
tremente das nossas selvas. Não oiço o rumorejo dos regatos, nem o gemer
dos carros, nem a cadencia melancolica dos pegureiros das nossas serras.
Ai! a patria, Corinna! como é linda a nossa tão rica e tão pobre terra!
Que copiosas bençãos verte Deus sobre a cabana do pobre jornaleiro que
achou a felicidade sem a procurar, formando d'um rochedo e da sebe
d'alguns arbustos o seu palaciosinho ás abas da serra da Tranqueira,
onde eu, em criança, tantas vezes subi para contemplar as boleadas
serras do seu paraizo, minha filha. Tudo agora me lembra quanto é
pequeno e pueril ao pé d'estes gigantes de verdura, que me assoberbam
com a sua magestade! Ainda vos verei, ó opulentas pobrezas da minha
mocidade! Ainda lá recordarei, a sós com o anjo da minha alegria, estas
melancolicas horas, este deslumbrante espectaculo, que parece estar-me
dizendo que para gosal-o é preciso ter aqui gosado os brinquedos de
irmãos, os carinhos de mãe; e, sobre tudo, ter aqui sentido o coração a
formar-se, e a desentranhar-se em amor e esperanças...................
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«_25 de junho._
«Brevemente, ámanhan talvez, volto para o Rio. Vou praticar com um
advogado portuguez de grandes creditos e fortuna, homem de muita idade,
que reparte comigo os interesses, e me trespassa as obrigações muito
lucrativas de defensor, em que está contractado com corporações
commerciaes. Devo esta promettedora estreia ás cartas do pae de
Felisberto Taveira, que d'aqui foi ha muitos annos, e deixou respeitado
nome, e ainda grosso cabedal. Estou contente quanto, em minha situação,
é possivel estar. Esta familia que me hospedou já me parece minha. A
intimidade aqui é uma religião, como se um punhado de portuguezes, e não
cincoenta mil almas, se encontrassem em torrão estrangeiro. Aqui é onde
nós aprendemos o amor de conterraneos: lá, no seio da mãe, somos-lhe
ingratos a ella, e maus uns com os outros; aqui suspiramos todos por
ella, abençoamol-a, e religamos os corações de todos com vinculos da
reciproca saudade.
«Espere, espere, minha querida Corinna, que havemos de ser felizes!
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«_27 de junho._
«O lettrado a quem vou associar-me é um ancião de semblante apostolico,
viuvo, sem filhos, rico, muito esmoler e doente. Fallamos muito de
Portugal, d'onde elle veio com D. João VI ha muitos annos. É filho de
Lisboa, e está ha vinte annos com o projecto feito de ir morrer á
patria; porém os medicos aconselham-o a gosar-se do clima a que está
affeito. É que toda esta gente o venera, e carece além d'isso da sua
muita sciencia, e probidade na sciencia. Já aqui teve comsigo dous
sobrinhos, que elle amava como seus unicos herdeiros. Morreram ambos por
causa da irregularidade da sua vida, e o ancião chorava fallando-me
d'elles. Ámanhan começo a praticar e a estudar o direito brazileiro:
ser-me-ha preciso naturalisar-me; que importa? Eu serei voluntariamente
natural de toda a parte onde encontro irmãos que fallam a minha lingua,
com tanto que me deixem o coração, lá, onde tenho tudo que é d'elle.
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A carta é extensa de mais, e o leitor contenta-se com as paginas
transcriptas.