«Na minha segunda carta lhe contei o que se passou até á morte do tio D.
João. Agora é que eu bem comprehendo o desespero em que vive meu pobre
pae. Quando elle me disse que iamos empobrecer, cuidei que se inventava
um engano para eu consentir em ser a victima voluntaria da pobreza da
nossa familia. Soube que a Emma fôra instada com as mesmas razões da
pobreza: não a dissuadi; mas, em minha consciencia, julguei que era
sacrificada ás ambições de continuar-se em Lisboa o fausto que tiveramos
em Paris.
«É verdade o que meu pae me dizia. Os bens do vinculo, unicos que
possuimos, estão em risco de se perderem. Imagine o meu querido amigo
como será a nossa vida, ouvindo a cada hora o pae lastimar-se,
enfurecer-se e lançar-nos injustamente em rosto que fomos nós a causa da
sua ruina, porque dissipara os bens livres para nos dar em Paris uma
vida brilhante com esmerada educação! Minha mãe, que não tem culpa de
ter sido herdeira do dote que lhe tiram, faz-me muita compaixão, quando
o pae lhe diz que foi atrozmente enganado para casar com ella.
«Que será de nós, passados alguns mezes? Para onde iremos quando nos
expulsarem d'esta casa? Minha mãe já pediu a parentas, que tem em
differentes conventos, que nos recebam. Eu creio que irei para Vianna e
mais a mana Felismina; outra irá para Vairão; e as outras duas para S.
Bento do Porto. O pae diz que vai a Lisboa requerer um emprego, com que
possa sustentar-se a si e á mãe. De maneira que estamos em vesperas de
nos dispersarmos para nunca mais nos reunirmos! E eu, entre todas as
minhas irmans, sou a menos infeliz, porque ha muito suspiro pela solidão
do claustro, e sei que lá terei comigo a imagem compassiva do meu
querido irmão; porém, eu queria ir para o convento, deixando a minha
familia contente e feliz, e não assim a braços com a dependencia, e Deus
sabe com quantas desventuras peores que a dependencia!
«Aqui me tem, pois, bem digna do seu amor por minha pobreza. Já me
lembrou se Deus me deu esta virtude para merecer aos seus olhos, meu
amigo. Tenho momentos em que o futuro se me allumia; sou eu a unica
pessoa da minha familia que vê a felicidade através d'esta escuridade.
Todos se lastimam, e eu só me lastimo de os ver tão desanimados.
Falta-lhes o amparo do amor, e talvez da fé na providencia divina. Eu
rezo muito, e desafógo em consoladoras lagrimas; minhas irmans e meus
paes abafam sem linitivo. Ás vezes quero consolar meu pae: o infeliz
repelle-me, como se eu désse causa a seus desgostos, e não fosse capaz,
para o salvar da queda, de me deixar esmagar no coração e na vida!
«Não estranhe que eu lhe diga tudo o que o coração me fôr dictando.
Agora que eu estou assim pobre, e d'aqui a pouco obscura e esquecida
n'um convento, haveria alguem que me quizesse para esposa? Poderia
alguem invejar a sorte do homem que me acceitasse? Pois, é n'esta
situação que eu mais confio do seu amor; é assim que eu me affoito a
pedir-lhe que venha, que renuncie ao desejo de ser rico, e que... A
riqueza para que a procurava? não era para poder ostentar o seu
valimento aos olhos de meu pae? Era de certo; que, se fosse para valer
em meu conceito, grande injustiça me fazia, meu caro amigo. Pois então
faça de conta que estão cahidas as barreiras que só o ouro poderia
arrazar. Ninguem me impedirá que eu seja sua mulher. Sejamos ambos
pobres: não teremos que medir a desegualdade das nossas posições. A
nossa fortuna principiará com a primeira moeda de cobre que empregarmos
no primeiro pão. Depois eu lhe darei horas de alegria com a minha ditosa
conformidade a tudo que os descontentes chamam infortunio.
«Não cuide que a vida de convento me assusta, e que eu procuro aligeirar
o tempo do supplicio. Não, meu amigo. O convento é o unico estado que me
quadra, e a mais proxima ventura que se offerece á minha sêde de
solidão. Se voltar cedo, lá me encontrará; se, passados muitos annos
tornar para Portugal, no convento me encontrará ou desfigurada pela
velhice, ou confundida nas cinzas das bemaventuradas, que alli acabaram
contentes e amantes de mais seguras esperanças que as minhas.
«Póde ser que o meu irmão, n'essa outra sociedade, com outras relações,
e com a mudança que fazem os annos, contra vontade mesmo de quem se
transfigura, sinta diminuir-se a boa impressão que de mim levou. Não
creio que me esqueça; mas póde ser que a distancia me vá descolorindo
aos olhos da sua alma. Se tal acontecer, nem assim deixarei de esperar
que em algum momento, entre as fugazes venturas d'este mundo, o seu
espirito vá ver-me, no meu asylo, esperando-o ainda, e esperando sempre.
«Mas o meu coração lhe pede que não me esqueça, e que acceite as
alegrias que elle lhe promette. Adeus, meu amigo, meu consolador. Sua
_C. da Soledade_.»