Corinna e Felisberto Taveira conversaram largo espaço. Gastão de
Noronha, reparando no interesse e apparente intimidade com que sua
filha, estranha ás dansas e a tudo, se entretinha, cuidou em averiguar
quem fosse o cavalheiro. As informações deram em resultado que o fidalgo
ficou contente. Houve alli um sujeito que respondeu assim
arithmeticamente á pergunta do nobilissimo Gastão:
--João Bernardo Taveira, quando casou, dotou-se com cento e cincoenta
contos; a mulher trouxe-lhe de dote cento e dez contos: somma duzentos e
sessenta contos. Depois, o Taveira herdou de sua cunhada cento e dez
contos: somma trezentos e setenta contos. O negocio d'esta casa tem ido
sempre em crescente prosperidade. Dou-lhe que, feitas as despezas
domesticas, o capital de trezentos e setenta contos, em trinta annos,
tenha rendido nove por cento. Ahi tem vossa excellencia que a casa de
João Bernardo Taveira deve hoje valer perto de setecentos contos, que
repartidos por dois filhos...
--Trezentos e cincoenta contos--atalhou o fidalgo--é uma fortunasita
soffrivel em Portugal...
--Eu não se me dava de a soffrer em Londres--disse o outro.
Em vista do que, o condescendente pae estimou que sua filha gastasse o
tempo com gente d'aquella bitola.
Ao abrir da manhan entrou Felisberto no quarto de Antonio d'Azevedo, e
encontrou-o emmalando a sua roupa.
--Isso que é?--disse Taveira--onde vaes tu?
--Vou para Barcellos--respondeu serenamente o hospede--Basta de vida
regalada: vamos ao trabalho, que é o unico regalo dos infelizes. Estou
aqui deslocado, meu amigo. Esta vida do teu galhardo Porto não se fez
para mim. Ha de ser-me mais consoladora a soledade e a tristeza de
minhas irmans. Desgraçados com desgraçados.
--Mas--interrompeu Felisberto--que vaes fazer em Barcellos?
--Abrir um escriptorio de requerimentos, e nos dias em que merecer um
tostão com o meu trabalho, dar a minhas irmans um banquete que valha um
tostão; e nos dias em que a minha sciencia das leis não tiver que fazer
com a paz em que vivem os homens, farei discursos a minhas irmans para
persuadil-as á resignação. De qualquer das maneiras carecem ellas de
mim, e eu d'ellas.
--E porque não has de tu--atalhou o leal amigo--dizer ao teu Felisberto
que tuas irmans estão precisadas, e que os prazeres da vida te amarguram
em quanto ellas estão penando? Abre as minhas gavetas, e manda dinheiro
a tuas irmans.
--Obrigado, meu bom irmão. Se a amizade te impõe o dever de ser
generoso, a estima de mim proprio obriga-me a ser homem. Aquelle que
vive de emprestimos, sem ter exhaurido as suas faculdades de aptidão
para o trabalho, póde hypothecar a sua palavra, mas a dignidade, não,
que a não tem.
--Faz a tua vontade, Azevedo; mas vê lá que o teu catonismo de dignidade
te não leve até á ingratidão!...--disse com branda severidade o filho do
millionario.
--Ingratidão!--acudiu o mancebo com sincera magoa.
--É ingratidão esconderes tua vida de quem está com a alma aberta
convidando-te a dar-lhe o prazer de te ser util. É ingratidão
privares-me da alegria de te fazer bem a ti e aos teus.
--Perdoa-me, pois...--interrompeu Azevedo, apertando-lhe
estremecidamente a mão.
--Estás perdoado--tornou Felisberto abraçando-o; mas has de cumprir uma
pena. Ficarás mais algum tempo comnosco. Tuas irmans não são felizes;
mas necessidades creio que as não soffrem. Teu irmão Joaquim reparte com
ellas o seu ordenado, e bem sabes que quatrocentos mil reis abundam á
subsistencia d'uma familia em Barcellos... Vou ajudar-te a desfazer a
mala.
Felisberto ia desdobrando o pouco fato do seu hospede, e fallando ao
mesmo tempo:
--Porque sahiste tão cedo do baile, Azevedo? Ás onze horas já te não
vi...
--Estava triste...
--E que fizestes até ás seis horas e meia fóra de casa?
--Andei a fazer a digestão da felicidade com que sahi de lá--respondeu
sorrindo amargamente Azevedo.
--Que te pareceu aquella mulher com quem falaste? a Corinna?
--Chama-se Corinna?
--Da Soledade! Vê tu que nome, que poesia, e que romance! Quanto daria o
Eugenio Sue por um nome d'estes? Quando aquella menina fôr conhecida dos
poetas menores do Porto, todas as poesias se chamam «Corinnas da
Soledade.» Que te pareceu ella a ti, alma de gelo?
Antonio d'Azevedo córou, lembrando-se de que o seu amigo ouvira d'ella
ou d'outra a singular sahida da sua apresentação, adornada comicamente
de motejos feminis, os mais pungentes de quantos ha.
--Riram-se de mim?--perguntou elle--Tu de certo não ririas, meu Taveira!
--Se riram! que desproposito! Que ha em ti provocador de riso?
--Entre-lembro-me de ter dito não sei quê a essa senhora... O que foi
está-me fazendo a impressão de um mau sonho.
--Disseste-lhe que eras infeliz. Tu crês que a infelicidade faça rir
alguem? Corinna ouviu-te, estranhou o infortunio que se confessa em
bailes; mas não sorriu, condoeu-se, lastimou-te, e pediu-me que te
levasse ámanhan ao baile da Torre da Marca.
--É curiosidade de mulher ociosa?
--Não: é sympathia...
--Com a desgraça?--atalhou Azevedo.
--E com o homem, creio eu; muito mais com o homem. Uma menina de vinte
annos, bella, nobre, e não sei se rica, só por milagre sympathisa com o
homem desgraçado.
--Então...--disse Antonio d'Azevedo, e sosteve-se.
--Então, ias tu perguntar-me se seria amor?
--Não: o infortunio estraga as faculdades da razão, mas não as cega, meu
amigo.
--O que me espanta é o sangue frio com que tu ouves esta revelação, que
faria endoidecer muitos felizes!--tornou Felisberto--Dar-se-ha caso que
tu sejas aleijado de coração! Ó Azevedo, tu já amaste?
--Não tive ainda tempo. Quando a alma trabalha sempre, o coração nunca
está ocioso. Bem sabes que fiz a minha formatura á custa de muitas
vigilias. Acabei de formar-me, e fui para Lisboa requerer. Estive lá
nove mezes; e, n'este longo prazo de desgostos, o menor foi a fome, e o
maior foi a convicção da minha nullidade. Uma vida assim, nem por
descuido se acha illaqueada nas armadilhas do amor.
--Mas deves ter sentido uma aspiração que é commum: deves ter sonhado
uma mulher.
--Não, porque adormecia sempre com a barra de ferro da desgraça sobre o
peito. As mulheres que via nos meus sonhos eram minhas quatro irmans
lindas, desamparadas e pobres. Tinha o coração cheio d'ellas. A
Providencia divina tem-me feito a mercê de não ajuntar uma quinta imagem
ás quatro infelizes que sobejam á minha sensibilidade.
--Ora vamos--tornou Felisberto Taveira--Corinna da Soledade não é mulher
que algum homem veja isentamente. Não te havia ser penoso amal-a, pois
não?
--Tem graça a pergunta!--respondeu Azevedo com affavel sorriso--Creio
que me seria muito facil amal-a se eu fosse Felisberto Taveira, ou um
d'esses mil que recebem um raio d'este sol universal da esperança ou da
alegria. Como queres tu que a minha alma saia do seu abysmo escuro, e vá
como doida banhar-se na luz immensa, n'este mar de paixões deliciosas
que eu mal conheço dos romances que traduzi, como quem copía caracteres
hebraicos, sem os entender? Meu amigo, eu creio que o amor só resiste ás
lagrimas, que são suas: ha um chorar que vem d'outras angustias mais
severas e profundas; e, a meu ver, estas lagrimas vão ao coração, e
devoram o sentimento melindroso do amor.
--É uma theoria, que estás compendiando para um futuro livro, meu
Azevedo; estimo que desbanques o Balzac, o Ovidio, o Sthendal, o
Castilho, e quantos escreveram do amor e da arte de amar; entretanto,
convem-te recolher experiencias. Começas ámanhan a experimentar no baile
da Torre da Marca.
--Tu és tão bom que me deixas ficar em casa!--disse Azevedo.
--Não posso: dei a minha palavra a Corinna, contando com a tua
condescendencia.
--Iremos--acudiu Antonio d'Azevedo.
N'este mesmo dia, Joaquim, guarda-livros dos Taveiras, foi ao quarto de
seu irmão, e disse-lhe:
--Trago-te uma boa nova, Antonio. O senhor Taveira chamou-me ao seu
escriptorio, e augmentou o meu ordenado a um conto e duzentos, para que
eu continuasse a dispender na minha decencia e pequenas negociações que
faço a quantia que dava a nossas irmans. Beijei-lhe as mãos, e
agradeci-lhe em nome d'ellas, e em teu nome. Agora vê tu se precisas
d'alguma quantia para os teus arranjos, que eu tenho de sobra. Se queres
tornar para Lisboa, vai, Antonio, que te não hão de faltar meios. D'aqui
a meia duzia de annos as nossas irmans podem estar casadas com
lavradores remediados, se eu tiver vida e saude. Dois mil cruzados é um
bom dote para cada uma, e eu sinto-me com bastante aptidão e fortuna
para os grangear de dois em dois annos, sem lhes diminuir a ellas a
mesada. Quero ver se tu agora com esta boa noticia te não alegras,
Antonio! Andas ahi tão acabrunhado que pareces um velho! Quem te vir
assim abatido e descuidado do teu aceio, ha de pensar que algum remorso
te atormenta! Vive como toda a gente mais infeliz do que nós somos. Se
foste contrariado, se trabalhaste muito para te formar, agradece a Deus
a intelligencia com que venceste todos os obstaculos. Se não tens agora
emprego, tu serás empregado. Os senhores Taveiras morrem por ti, e tem
muitos amigos na capital. Já o pae me disse que, em cahindo este
ministerio has de ser delegado ou administrador d'um bairro aqui do
Porto. Depois, as nossas irmans se estiverem solteiras, veem para a
nossa companhia, e vão comnosco aos bailes e aos theatros...
--Cala-te, criança!--interrompeu Antonio--Se as nossas irmans hão de ir
comnosco aos bailes e aos theatros, como queres tu que ellas casem com
lavradores, dotadas a dois mil cruzados! Vê se as dotas, Joaquim; e
dá-lhes os seus maridos lavradores, e não as chames á cidade. Não te
lembras d'aquelles choupos onde cantavam de madrugada e ao anoitecer os
pintasilgos, debaixo da janella do nosso quarto?
--Lembra.
--Pois olha que não ha musica mais suave a corações felizes! Deixa que
nossas irmans a gosem por muito tempo; que, se a esquecerem por outra,
em vão te cansarás em dar-lhes novas alegrias. Faz por que ellas não
tenham de vender o seu patrimonio, que está na pequena propriedade onde
os passarinhos cantam nos choupos, e onde o anjo da paz mora com ellas.
Em quanto ao offerecimento que me fazes do teu dinheiro, meu bom irmão,
póde ser que eu t'o acceite para uma longa viagem, visto que já não sou
aqui preciso para meditar no futuro esteio da nossa familia.
--Pois onde queres tu ir?--atalhou Joaquim.
--Penso em ir ao Brazil. Dizem-me que ha alli trabalho para os braços de
todas as nações, e particular amor e bem-querença para o portuguez que
trabalha. O cansaço do espirito enfraqueceu-me os braços, é verdade;
mas, ainda assim, quando eu puder acabar de todo com este incommodo
hospede chamado a sciencia--a minha estupida e inutil sciencia!--então
póde ser que os braços se revigorem, e eu restitua á minha propria
dignidade, em trabalho, o que perdi na inactividade de doze estereis
annos de lidas de pensamento e de vans ambições. Outras ambições me hão
de levar ao Brazil: é ajudar-te, Joaquim; é ser, como tu, digno da
estima dos nossos e da estima de estranhos. O homem inerte, aqui no
Porto, é desconsiderado: devia sel-o assim em toda a parte onde fosse um
e unico o padrão da honra. Não sei em que conta sou tido pelas raras
pessoas que me conhecem aqui; mas escuto o que se diz dos pouquissimos
que por ahi vagueiam de rua em rua, affectando com jactanciosa necedade
que o Porto póde imitar Lisboa no seu peculiar caracteristico da
vadiagem. Vexa-me a actividade d'esta boa gente, que parece trabalhar
incessantemente para dar nome de laborioso a este paiz! Ando como
humilhado ao par do commerciante, do artista, do escriptor e do ultimo
operario. Esta ancia de lavor e de fadiga chega a mortificar-me. É ver
que benefica influencia tem a labutação dos mais materiaes mesteres
sobre os espiritos exclusivamente dados ás funcções da intelligencia!
Parece que todo o homem anda em competencia com o outro na sua esphera
de trabalho. O commerciante agenceia grandes operações em poucas horas;
as forjas convertem em fórmas maravilhosas milhares de arrobas de ferro
em rapido tempo; o poeta, se outro fito o não descaminha, realça na
facundia e selecção de seus poemas; o romancista, com este mesmo mundo
de boas paixões e febril actividade, comporá livros sobre livros sem lhe
ser mister explorar as sinuosidades do vicio para ser bem-quisto e lido.
E que sou eu aqui, meu irmão? Que fiz eu do meu cabedal de
intelligencia? Deixei-o congelar-se sob a mão do infortunio, quando
devia rasgar umas cartas de bacharel affrontosas, e vestir a jaqueta do
operario, em cujas lapelas o respeito publico aprezilha muitas vezes a
condecoração, invisivel sim, mas venerada na consciencia dos que
nobilitam o trabalho..................................................
Eu tenho a sizudesa de poupar o leitor ao muito mais estirado discurso
do bacharel. Fallou muito, como fallam os misanthropos quando uma
luzinha de esperança lhes lampeja na sua escuridade. A sua esperança
sorria-lhe d'além-mar, do ceo hospedeiro do novo-mundo.