Das meninas, a mais saudosa do Porto era Corinna da Soledade. Razão
tinha mais que as irmans, porque amara mais que todas, e amara sem
intenção nem calculo.
N'um baile do conde do Casal fôra-lhe apresentado Antonio d'Azevedo
Barbosa, moço de vinte e dois annos, nem pallido nem córado, nem triste
nem alegre, um homem egual a todos os homens, como elles são fóra do
romance.
Este Antonio d'Azevedo Barbosa era de Barcellos, filho d'um pequeno
proprietario, que tinha muitos filhos, e mandara o mais velho cursar
jurisprudencia em Coimbra, cuidando erguer um futuro esteio aos irmãos,
lesados em seu patrimonio por amor d'aquelle.
O moço fôra muito novo para Coimbra; ninguem o admoestava a estudar;
viu-se em plena liberdade de suas acções; achou que era muito suave vida
gastar a mesada, e poupar os livros. Assim o fez, e fez mal, que ficou
reprovado em preparatorios.
Os patricios seus contemporaneos na universidade foram contar a
Barcellos o desastre do estudante, não por lhe quererem mal, mas por se
quererem demasiado bem a si: disseram-n'o para que a villa de Barcellos
e o mundo soubessem que Coimbra não é para todos; e, a este proposito,
repetiam as memorandas palavras do senhor Ferrer, lente de direito
natural, aos seus discipulos: «meus senhores, quem não puder ser doutor,
seja sapateiro.»
Manoel d'Azevedo, pae do academico reprovado, adoeceu de paixão, e, se o
não amparam os braços implorantes dos outros filhos, cahia na cova.
Um abbade limitrophe de Barcellos, e tio materno do estudante, levou o
moço para sua casa, e castigou-o com uma tarefa diaria de duzentos
versos de Virgilio, e um thema de duas laudas da _Vida de Fr.
Bartholomeu dos Martyres_, e doze paginas do _Genuense_, e outras tantas
de rhetorica e geographia. Findou o prazo das ferias, e Antonio tornou a
Coimbra, á custa do abbade. Fez o seu exame de latim, logica, rhetorica
e geographia, com approvação e applausos de bom latinista.
Matriculou-se no primeiro anno, e sobre-excedeu as esperanças do tio e
as ambições do pae: ganhou o segundo premio, e recolheu ao gremio de sua
familia. D'esta vez, o pae ia adoecendo de alegria.
Não se morre de dor, nem de alegria; mas morre-se facilmente d'um
hydro-torax; foi o que n'esse mesmo anno succedeu a Manoel d'Azevedo.
Eram nove os orphãos, e Antonio, o mais velho dos irmãos, tinha dezesete
annos. Fez-se inventario, pagaram-se as dividas do casal, e ficaram
dotados com cento e cincoenta mil reis cada um. O abbade levou as
sobrinhas para sua companhia, que eram quatro; arrumou no commercio os
pequenos, e disse ao segundo-annista da universidade, que se reduzisse a
viver com quatro mil e oitocentos reis de mesada, se queria formar-se.
Antonio respondeu que viveria com menos, para que suas irmans vivessem
com mais.
Foi o moço ao segundo anno, e começou logo a escrever umas cadernetas
que lá denominam «sebentas», as quaes os cuidadosos em reproduzir a
prelecção do lente vendem lithographadas. As sebentas de Antonio
d'Azevedo grangearam reputação de explicitas e bem coordenadas, e
produziram metade de sua subsistencia; a outra metade proveio-lhe da
versão de romances francezes, editados por assignatura. E assim vingou o
segundo anno, e os annos seguintes até completar sua carreira.
O bacharel Antonio d'Azevedo recolheu ao presbyterio do tio com o seu
diploma enrolado n'um tubo de folha de Flandres.
--E agora?--perguntou o abbade, tres mezes depois.
--Agora, estou formado--respondeu o bacharel.
--Bem sei; mas que fazes? quando começas o teu officio de doutor?
--O meu officio de doutor?!--disse Antonio de Azevedo, como perguntando
a si mesmo a utilidade da formatura em direito.
--Sim--tornou o padre--o sapateiro, o marceneiro, o artifice em todos os
mesteres, cumprido o tempo de aprendizagem, começa de ganhar sua vida.
Ha dez annos que tu estudas para isto que hoje és: estás doutor, meu
sobrinho; agora applica o que sabes.
Antonio d'Azevedo achou discreta a admoestação delicada do tio. Recebeu
o seu patrimonio de cento e cincoenta mil reis, e foi a Lisboa requerer.
Ajuntou o pretendente ao seu requerimento as certidões de seus premios
na faculdade, e de seu excellente comportamento, afóra a pathetica
narrativa de sua pobreza, e das quatro orphans dependentes d'elle.
Consta que o ministro da justiça se não commovera, porque não lera a
petição nem os documentos.
O bacharel, ao cabo de seis mezes, pediu ao tio padre que lhe mandasse
alguns soccorros, com que pudesse deter-se mais algum mez em Lisboa,
esperando despacho.
Não lhe respondeu o tio, porque já estava na presença de Deus.
Responderam as irmans, pedindo-lhe que fosse tomar conta d'ellas, visto
que o novo abbade as mandaria sahir da casa da residencia parochial.
Triste nova para o pobre pretendente, que só tinha de seu o diploma, e
uma surrada casaca com que ia ás audiencias semanaes do ministro, o qual
nunca lhe deu fé da casaca, nem dos premios universitarios, nem das
lagrimas!
Escreveu Antonio a um de seus quatro irmãos, que já era guarda-livros
n'uma casa commercial do Porto, pedindo-lhe meios para sahir de Lisboa,
e ir á provincia tomar conta das irmans. O guarda livros acudiu prestes
ao pedido, e partiu logo a segurar a subsistencia ás quatro meninas na
casa agricola em que tinham nascido. Deteve-se ainda alguns mezes o
bacharel em Lisboa, sustentado por seu irmão. A final, baldadas as
supplicas, o triste moço sahiu da capital com intenção de abrir
escriptorio de advogado na sua terra.
Não desagrade ao leitor este familiar estylo com que lhe são contadas
coisas de si tão singelas, que, só á custa de muito florescêl-as, é que
poderiam ser agradaveis. Acceitem-me os successos verdadeiros sem
enfeites; quando eu estiver fantasiando, então lh'os darei ataviados de
modo que a poesia me dispense de ser um fiel copista do que a toda a
hora nos passa diante dos olhos.
Chegou Antonio d'Azevedo ao Porto, e hospedou-se em casa de seu irmão
Joaquim. Acertara de ser o commerciante a cujo serviço estava Joaquim,
pae de dois condiscipulos de Antonio. Receberam-n'o cordialmente,
deram-lhe bom quarto, sentaram-no no melhor logar da sua mesa, e
instaram-o a demorar-se no Porto durante aquelle inverno. N'essa mesma
occasião fôra ao Porto Gastão de Noronha com suas filhas e mulher; e,
como Antonio d'Azevedo, obrigado pelos seus hospedeiros condiscipulos,
fosse aos bailes onde elles iam, ahi está a razão porque Corinna da
Soledade encontrou o bacharel de Barcellos no baile do conde do Casal.
O infortunio abastarda os espiritos, desalenta-os, e de todo os
transfigura. Antonio d'Azevedo vergava debaixo da dependencia, sem
maldizel-a. Sentia-se alquebrado por sua mesma inercia, e esmagado pelo
quasi opprobrio de sua inutilidade. O futuro estava-lhe fechado, futuro
para onde o arremessavam esperanças, que todas vira morrer, durante
aquelle triste viver de supplicas e repulsões á porta de ministros, de
magnates, de influentes, homens que vestem o arnez do egoismo, logo que,
no dizer do senhor A. Herculano, «se recostam nos sophás para onde se
atiraram de cima do tamborete de couro ou da cadeira de pinho.»
Sentia-se o moço brutificado pela desgraça: tem ella de seu o fatal
condão de deslapidar o brilho das ideias, enredando-as, escurecendo-as,
falsificando-as; ha uma como nevoa que empana os objectos ou os
desfigura; o infeliz vê sempre errado; ora crê e confia-se em tudo que
ao commum dos homens é despresivel; ora esquiva-se a tomar pelos
caminhos direitos do bem-estar, que eventualmente se lhe offerecem. Póde
ser que uma linguagem energica lhe valesse uma transformação de vida;
mas o susto, o quasi pavor com que falla aos grandes, e a humildade
lagrimosa com que intenta commovel-os, é ainda um sestro mau da sua
desgraça. E em tudo assim, em tudo, até no amor, que devia estar forro
das cadeias com que a desfortuna peia e trava as demais faculdades. É ao
pé da mulher amada, amada sem confiança nem expansão, é ahi que mais a
olhos observadores se manifesta o infeliz. Nenhuma palavra diz que
lealmente lhe sirva o coração. O que diz é incongruente e absurdo,
quando não é disparate de desfranzir um riso. As agudezas triviaes, que
inculcam fina têmpera de alma, e que todo o homem, medianamente servido
de olhos e intellecto, sabe dizer, tomam no discurso do infeliz umas
entoações ridiculas e antipathicas. Se algum pensamento bem ordenado lhe
entreluz, esmorece ao proferil-o, afroixa-o como inconciliavel com sua
baixa posição, e prefere antes trocal-o por uma semsaboria. Esta é a
sorte de todos os desgraçados, que não são tolos; porém é coisa muito
rara encontrar-se um tolo desgraçado.
Antonio d'Azevedo sondara-se, compulsara-se, e vira a lenta desfiguração
que se operara em sua alma. Impozera-se silencio, que os seus amigos
estranhavam. Negava-se a dar parecer nas mais insignificantes questões.
De si para si dizia elle que sentia uma depressão no cerebro, uma placa
de ferro premindo-lhe a bossa do entendimento. Onde concorresse com
senhoras, ninguem lhe ouvia palavra, senão as precisas para dar um
pretexto a ausentar-se. Muita gente o reputava malfadado; e outra optava
antes por que fosse estupido.
Quando elle viu Corinna da Soledade, estava ao lado d'um sujeito, cuja
maxima gloria n'este globo era poder apresentar um conhecido a outro
conhecido. Assim que alguem lhe dizia: «Vossa senhoria conhece fulano?»
respondia logo: «Quer ser apresentado?» E se os apresentados lhe ficavam
á mão, era logo.
Foi o que aconteceu com Antonio d'Azevedo.
Apenas lhe elle perguntou quem era aquella menina vestida de
azul-celeste, o sujeito travou-lhe do braço, e disse:
--Venha cá.
O bacharel mal sabia onde era levado, quando se viu rosto a rosto de
Corinna, a quem o apresentante disse:
--O meu amigo doutor Antonio d'Azevedo Barbosa, que eu
satisfactoriamente apresento á excellentissima senhora D. Corinna da
Soledade e Noronha, filha do nobilissimo Gastão de Noronha. Agora
deem-me licença, que tenho de fazer quatro apresentações ao conde do
Casal.
Deus livre o leitor de ver-se alguma vez nos apertos do bacharel!
Corinna esperou o logar-commum que deriva da apresentação. Antonio
d'Azevedo não sabia o logar-commum. Foi ella quem o disse:
--Está animadissimo o baile; mas abafa a gente de calor!
--Sim, minha senhora--disse o nosso pobre amigo, puxando pelo colchete
da luva até arrancal-o com a pelica.
Corinna esperou ainda que o moço fosse além da affirmativa do calor, em
que elle parecia estar mais abafado que toda a outra gente: tão copiosas
lhe borbulhavam na testa e faces as camarinhas do suor!
Antonio d'Azevedo viu-se tal qual estava sendo aos olhos da filha de
Gastão de Noronha. Apiedou-se d'elle o seu bom anjo. Levantou-se aquelle
espirito com todo o peso da sua amargura, e disse abruptamente, mas de
compasso:
--Eu não solicitei a honra de ser apresentado a vossa excellencia. Um
homem desgraçado não pede relações. Fui barbaro comigo mesmo entrando
aqui; mas a desventura tem mil rodeios por onde me encaminha a tudo que
me augmenta o desgosto da vida. Resta-me ainda uma sombra de vaidade...
Custa-me que vossa excellencia fique fazendo de mim uma ideia injusta.
Não sou absolutamente estupido: sou infeliz. Perdi o dom da palavra, e
só sei fallar em lagrimas, ou com a minha consciencia, na solidão.
Perdôe-me vossa excellencia este intempestivo desafogo.
E retirou-se, sem dar tempo a um monossyllabo.
Corinna da Soledade seguiu-o interdicta com os olhos, e estranhou
aquella novidade romanesca de que não encontrára exemplo mesmo em Paris.
Antonio d'Azevedo sahiu do baile, que era na casa do quartel general, e
tomou pela rua do Sol a passo vagaroso, até receber a bafagem fria do
Douro, debruçando-se sobre o peitoril do passeio das Fontainhas. Pouco
depois desenrolou-se do mar um denso nevoeiro que se estendeu rio acima,
e logo despediu em nuvens a subir as fragosas ribas da margem direita, e
espraiou-se com taciturna presteza por sobre a cidade. A regélida
neblina arrefecera a cabeça do moço. O que elle estava soffrendo era um
d'aquelles phrenesis que, a longos espaços, atacam os misanthropos.
As pessoas nunca apalpadas por esta penosa enfermidade, cuidam que ou
ella não existe, ou, se existe, em pouco está o combatel-a com os suaves
linimentos da sociabilidade, ou pouco se deve doer de a não gosar o
misanthropo que lhe foge.
Pouco sabe de tamanha desventura quem tal diz! Os accessos de
vertiginosa raiva que padecem os feridos d'esta lepra moral são agonias
mortaes. O esquivarem-se á sociedade, o ouvirem-se unicamente a si
proprios nos monologos selvagens com que a si se amaldiçoam e amaldiçoam
a humanidade, dispara por vezes em enfurecimentos e raivas, que só bem
desafogam se o desgraçado, com as proprias unhas, se dilacera. O homem
sem irmãos, sem familia, sem amigos, sem um mundo que lhe absorva a sua
individualidade e n'elle se identifique, sáe tanto fóra das leis da
natureza, que a sua angustia ha de superar todas as angustias
inconsolaveis. D'estas horas tinha muitas Antonio d'Azevedo, e uma das
mais longas e convulsivas estava elle penando n'aquella noite.
Havia de pensar a leitora que o infeliz ia para as Fontainhas scismar na
imagem de Corinna da Soledade, contar-lhe os seus infortunios sem pejo
d'ella nem das estrellas, consubstancial-a em sua alma pelo mais facil
dos processos que usam amantes imaginativos; em fim, haviam de pensar os
meus amigos que Antonio d'Azevedo era um poeta como nós todos os que
andamos de noite a namorar senhoras nos luzeiros do firmamento, como se
isso servisse d'alguma coisa para o amanho da vida de cada um e de cada
uma. Em minha boa e leal verdade hei de dizer-lhes que o bacharel de
Barcellos era bastante desgraçado para entender em coisas do coração,
que requerem contentamento e paz de espirito. Um homem que medita no
presente e futuro de quatro irmans, reconcentra toda a sua sensibilidade
no coração paternal. O coração dos amores conjugaes--alvo mais ou menos
remoto dos affectos enamorados--esse não se compadece com as tristezas,
que gelam e como que endurecem o espirito.
Em quanto, porém, o moço engolfava os olhos e o pensamento na alvacenta
nuvem que mais e mais se condensava sobre a torrente, Corinna da
Soledade relanceava inquieta os olhos á procura do cavalheiro que lhe
tinha apresentado Antonio d'Azevedo. Ao vel-o, fez-lhe signal com
vehemente interesse, e perguntou-lhe quem era o sujeito que lhe elle
apresentara.
--É um doutor de Barcellos, que eu encontrei, ha dias, hospedado em casa
dos Taveiras, riquissimos commerciantes. Estes meus amigos é que devem
conhecel-o cabalmente, e só elles podem informar vossa excellencia...
Dê-me licença...
O cavalheiro vira de relance um dos dois bachareis, condiscipulos de
Antonio d'Azevedo, e apanhou pelos cabellos o ensejo d'uma apresentação.
Instantes depois voltava, e dizia ter a honra de apresentar á filha do
nobilissimo Gastão de Noronha o doutor Felisberto Taveira, e deixou-os,
segundo disse, para ir apresentar dois amigos da provincia á senhora
condessa do Casal.
Este cavalheiro, alguns annos depois, á hora da morte, ainda apresentou
ao seu confessor as testemunhas do testamento.