V.

Dizia Gastão de Noronha á filha Corinna:

--Vi-te hontem á noite muito distrahida, menina, e gostei que te

inclinasses áquelle rapaz...

--A qual, papá?

--A qual ha de ser?!--tornou o pae com um gesto de intelligencia e

comprazimento--é o unico com quem te detiveste uma boa hora...

--Ah! já sei... o Taveira?

--Alli tens um excellente marido, Corinna! Trezentos e cincoenta

contos... Não sabias?

--Não, meu pae--respondeu a menina, indecisa se devia desenganal-o, ou

evadir-se á continuação das perguntas.

--É necessario--proseguiu Gastão em tom solemne--acabar com as

distincções de raças. A velha nobreza é um merito relativo que o

progresso acata, se outros meritos de natureza commum a sustentam na

altura d'onde procede. As altas linhagens predominavam, quando eram as

representantes dos illustres nomes e das grandes riquezas. Porém, depois

que as industrias abriram fontes de ouro, sem terem de o fazer á ponta

da espada e da lança, a fidalguia baixou muito do seu quilate, e teve de

associar-se com ellas para não ficar sósinha, estacionaria e

dessociavel. Tu viste como em França as netas dos grandes titulares de

Luiz XIV vão casando com os netos dos plebeus d'aquelle tempo.

Ennobrecer-se de veneras e titulos custa tão pouco, ou vale tão pouco no

bom juizo dos governos illustrados, que já hoje póde cada homem rico

abrir a sua burra, e fazer com que ao mesmo tempo se abra o cofre das

graças. Muita gente irreflectida diz que isto é um mal; e os atilados

acham que a depreciação dos fóros de fidalguia é coisa de incalculaveis

vantagens para o adiantamento da humanidade. Entendem elles avisadamente

que só assim, egualando os homens pela nobilitação, já que elles não

querem egualar-se pelo plebeismo, conseguiremos ser todos eguaes. Ora

nós, filha, que vivemos em França, onde as fitinhas são respeitadas,

porque todos as desejam e trabalham para ganhal-as, vencendo uma

batalha, apedrejando um rei, ou inventando uma machina de fazer

colchetes, devemos ter na devida conta de desprêso uma chimera que,

felizmente, em Portugal preoccupa todas as cabeças para, a final, as

nivelar todas na mesma linha...

Corinna da Soledade estava ouvindo e recolhendo as sentenças do pae, com

o proposito de responder com ellas ao mesmo apostolo da egualdade, se

alguma vez carecesse d'isso.

Gastão continuou no mesmo tom de circumspecta gravidade:

--Accrescem razões d'outra ordem no caso especial em que estamos,

Corinna. A nossa casa está desfalcada a ponto de eu não poder remediar

com a mais apertada economia o mal que vem de avós, e eu continuei na

emigração, para vos dar decencia, educação e prazeres. Moços eguaes a ti

em nascimento muitos haverá; mas, pouco mais ou menos, empobrecidos como

nós, e retirados como realistas á obscuridade dos seus solares e da sua

inactividade. Uns por inercia, outros por ignorancia, todos se devem

considerar formando á parte uma phalange de estatuas d'algum devastado

jardim que não ha de mais florir. Já vês, Corinna, que ha difficuldade

em achar-se um marido como teus bisavós o desejariam; mas facil te ha de

ser encontral-o como teu pae t'o deseja. Felisberto Taveira, sobre ser

rico, é um gentil moço, é doutor, revela fina educação, e... não é

assim?

--Parece-me excellente sujeito--disse Corinna.

--Bem: eu não podia enganar-me--tornou com alegre semblante o pae--Já te

disse elle que... sim... manifestou-se-te?

--Nada me disse com relação a casamento, papá.

--Não admira: era a primeira vez que fallava comtigo; mas que te

amava...

--Tambem não disse...

--Pois sim; convenho em que o respeito e a delicadeza o contivessem;

porém tu deves conhecer, depois de uma hora de conversação...

--Não fallamos a nosso respeito, papá--disse candidamente Corinna.

--Pois então?!

--Eu lhe digo: apresentaram-me um sujeito que me disse umas palavras

muito amarguradas, e sahiu do baile. Fiquei pasmada e curiosa de saber

quem era o tal sujeito. O Antão de Menezes, que m'o tinha apresentado,

trouxe-me o Taveira para me dar as informações que eu desejava. Ficamos

a fallar d'elle todo aquelle tempo que o papá viu. Ahi tem vossa

excellencia o que foi.

--E quem era o sujeito? que te disse elle? e porque ficaste tu assim

curiosa de o conhecer?!--perguntou Gastão com demudado rosto.

--Era um doutor Azevedo Barbosa, de Barcellos, hospede do Felisberto

Taveira...

--E que mais?--atalhou o pae precipitadamente.

--E que mais?! o papá que deseja que eu lhe diga mais?

--Se é rapaz de fortuna... Em Barcellos não sei que haja...

--É pobre, e vive muito penalisado, porque tem quatro irmans, e cuida

que o persegue uma má estrella.

--Pois sim, não duvido que o persiga uma má estrella, e que seja pobre e

tenha quatro irmans; mas que tens tu que ver com isso? Em que se funda a

tua interessante curiosidade?!

--Tive compaixão d'elle, papá.

--E gastaste uma hora a colher informações!... O Taveira havia de

persuadir-se que tamanho interesse significava alguma coisa mais que

simples curiosidade. Se assim foi, como havia de elle dizer-te que te

amava?! Ora, minha filha, nunca faças praça d'essas tuas compaixões sem

utilidade. Se o Taveira te procurar nos bailes, agradece-lhe a

preferencia, e não lhe faças suspeitar que o escolhes por medianeiro:

isso não só desanima, mas offende o amor-proprio. Teu pae pede-te que

olhes com toda a seriedade ao teu futuro, que por em quanto se figura

triste. Com um bom casamento davas-te, e davas á tua familia a

felicidade.

Corinna da Soledade, ausente o pae, scismou largo tempo com muita

tristeza, e meditou em fingir-se doente para não ir, na seguinte noite,

ao baile da Torre da Marca.

O fingimento era facil; porém o bom ou mau anjo d'ella segredou-lhe

seducções, que a deliberaram a conservar-se no goso de sua perfeita

saude para ir ao baile dos condes de Terena.

Antonio d'Azevedo, sinceramente violentado, entrou na sala em que estava

Corinna, e foi ao lado de Taveira cumprimental-a. Momentos depois,

Felisberto ia retirar-se, crendo que assim comprazia a Corinna. Chamou-o

ella, e disse-lhe a resguardo de Azevedo:

--Desagrado a meu pae, que está aqui defronte, se ficar conversando com

o seu amigo. Peço-lhe que me não deixe só com elle, e, quando meu pae

estiver jogando, então...

E de feito, Gastão de Noronha fitava os olhos na filha, e perguntava á

pessoa com quem fallava, se o sujeito que entrara com Taveira era um tal

Azevedo, de Barcellos.

Dizia Taveira ao seu hospede:

--Aposto mil contra um... aposto!

--O que?--perguntou Azevedo.

--Que Corinna te ama, e te ama de véras! A esconder-se do pae para te

fallar! ha nada mais persuasivo! Quando uma menina se confia n'um

confidente, e desconfia de seu pae, e se esconde d'um terceiro para

dizer ao medianeiro que volte com o outro quando o papá estiver jogando;

e quando esse _outro_... és tu!...

Antonio d'Azevedo ergueu os hombros, e disse:

--Valha-te Deus! Cuidas tu que eu tenho espirito bem folgado para entrar

n'estes brinquedos pueris, em que a tua seriedade corre perigo de

sahir-se mal!... Queres tu que eu me capacite de que estamos figurando

n'uma das graves comedias humanas? Pois sim, meu amigo: figuremos e

discutamos. Tu já disseste áquella senhora que eu sou um pobre bacharel

que consumiu sua sensibilidade, _fazendo a côrte_ aos ministros da

justiça?

--Não lhe disse tudo isso, nem parte d'isso. Como ella me não perguntou

se eras rico, dispensei-me de ser o inventariante dos teus pares de

botas e dos teus camapheus. Perguntou-me se eras bom, e eu disse-lhe que

eras um moço honrado, e o coração d'um anjo. Tudo o mais que dissemos

foi commentar o que é ser-se honrado e ser-se anjo. Provavelmente

Corinna, que viu tudo em Paris, não achou lá a exquisitice do

anjo-coração, e está em ancias de saber em que tu te apartas do restante

do genero humano. Esta curiosidade é já uma escolha, e a escolha, se a

tua modestia m'o consente, é o amor com todos os seus recatos e

astucias.

Proseguiram n'esta contenda, até que Taveira viu abancar ao jogo o pae

de Corinna; mas, momentos antes, observara elle que o fidalgo segredara

com sua mulher, olhando o bacharel de travéz com o sabido disfarce dos

que olham de travéz. D. Mafalda fizera um gesto, que vinha a dizer que

estava sciente.

--Vejo que a familia está de sobre-rolda!--disse Taveira ao seu

amigo--mas ainda assim avisinhemo-nos cautelosamente da praça.

Corinna acabara de dansar, e passeava pelo braço do parceiro, que por

fortuna era Antão de Menezes, o apresentante emérito. Este, que

adivinhava todas as subtilezas do coração dos seus apresentados,

approximou-se de Azevedo, e disse-lhe com mui galharda cortezania:

--O thesouro não me pertence. Aqui o tem, que eu sou apenas o indicador

dos thesouros.... sou uma especie de S. Cyprianno, que descobre as

riquezas encantadas.

Antonio d'Azevedo deu o braço a Corinna, e Felisberto Taveira retirou-se

com Antão.

Agora é que havia de ser umas delicias ouvil-os, se D. Mafalda,

vigilante observadora da passagem innocente, não mandasse um cavalheiro

dizer a sua filha que fosse fallar-lhe.

Corinna respondeu:

--Queira dizer á maman que eu vou já.

--Vá, minha senhora--disse Azevedo. Não seja eu causa de sua mãe a

desgostar.

--Não importa.... Eu queria pedir-lhe que não fosse tão infeliz...

--A mim?!--atalhou Azevedo suavemente enleado pela musica d'aquella voz,

em que o tom da supplica tinha o mavioso do carinho filial.

--Sim... pois não me disse que era muito desgraçado?...

--Sou.... era muito desgraçado; mas condoeu-se vossa excellencia a tal

ponto de mim que....

--Que lhe peço com instancia que se não deixe vencer do tedio da

sociedade; não fuja das pessoas que imagina felizes... Olhe que não

encontra seis que o sejam n'estes centenares de pessoas. Eu, se fosse

senhora das minhas acções, tambem aqui não vinha, e ficaria a soffrer

sem nada remediar... Não posso demorar-me, que minha mãe está

impaciente... Olhe que eu desejo a sua amizade... Conduza-me a minha

mãe... e não se esqueça...

Este lance, que, a dar-se uma vez na vida do homem, nunca se repete, foi

uma especie de vertigem, que deixou o espirito de Azevedo na indecisão

de quem, a sonhar, a si mesmo se pergunta se está sonhando.

Corinna sentou-se ao lado de sua mãe, e o bacharel com os braços

pendentes e a boca descerrada para tragar fôlego que lhe alargasse o

peito, ficou, tres passos distante, arrobado na contemplação da gentil

menina.

Taveira, que não os perdera de vista, estava-se deliciando no

espectaculo que só elle via. Quando achou que era tempo de acordar o

amigo de um extasis desagradavel a D. Mafalda, tomou-o pelo braço, e

disse-lhe simulando seriedade:

--Quando quizeres vamos embora. São duas horas da manhan.

--Já!--murmurou Azevedo.

--Vê lá.... se queres sonhar mais alguns minutos....

Azevedo comprehendeu a intenção de Taveira, e disse com uma voz que não

era a sua, e com um brilho d'olhos que nunca tivera:

--Nasce o novo homem... Sinto o coração... Agora sei que ha uma

felicidade commum de todos os desgraçados. Se isto não é uma sensação

passageira, hei de beijar-te as mãos, que me arrancaram do meu abysmo.

--A beijares as mãos de alguem--disse Taveira, sorrindo--é melhor que

beijes as mãos de Corinna.

Antonio d'Azevedo deteve-se um pouco de tempo em recolhimento

silencioso, e disse de sobresalto:

--Isto é uma nova desgraça!

--O quê? uma desgraça beijares as mãos de Corinna?

--Vê tu--proseguiu elle como se não ouvisse a pergunta galhofeira do

amigo--que engenhosa é a minha funesta estrella! Hontem tive um

pensamento que me deu vigor novo para crer e esperar. Projectei ir ao

Brazil, e logo os horisontes do meu futuro se rasgaram, e não sei a que

luz a esperança me mostrou dias ditosos. Sonhei com as alegrias do meu

plano, e acordei hoje com um alvoroço estranho. A desgraça viu que eu

tive algumas horas menos negras, e duvidou da sua omnipotencia.

Trouxe-me aqui para eu sentir que o apartar-me hoje do local onde ouvi

aquella mulher me ha de ser um tormento.

--Melhor!--interrompeu Felisberto--Ella e os teus amigos não querem que

vás ao Brazil procurar a felicidade que deixas cá. Onde a procuramos é

que ella não está.

--Entendes tu--disse o bacharel--que se é feliz, amando, na minha

posição, uma senhora na posição de Corinna de Noronha, filha do nobre

Gastão de Noronha...

--Nobre e pobre, accrescenta. Se elle fosse rico como foi, dizia-te que,

a não quereres renunciar aos teus austeros principios de dignidade,

convinha-te esmagar o coração debaixo da barra d'oiro que ella valesse;

mas, segundo as informações que hoje me deram, a filha do fidalgo não

tem mais do que tu. Entre ti e ella está estabelecida a egualdade

humana, no maximo rigor da palavra.

--Ainda não--atalhou Azevedo--Eu sou filho de um lavrador de Barcellos.

--Vai tu perguntar aos lavradores de Barcellos se elles dão seus filhos

ás filhas dos fidalgos que não tem terras que lavrar.

--Essa é outra questão, meu amigo. Não te esqueças que eu sou um homem

sem occupação. Tão reprehensivel seria eu disputal-a ao pae sendo ella

rica e eu pobre, como se quizesse associal-a á minha pobreza. Que faria

eu d'aquella menina se me fosse permittido casar com ella?

--O que fazem das esposas os maridos que casam pobres. Amam-as como se

costumam amar os pobres; por amor d'ellas redobram de vigor para

luctarem com a adversidade; por amor dos filhos nunca esmorecem no

desalento em que tantas vezes se nos deparam os celibatarios, que apenas

luctaram um anno com as contrariedades. A familia é uma accumulação de

forças no braço do seu chefe. O pae nunca succumbe; o marido tem uma

força providencial que o ampara.

Este dialogo, o primeiro que n'este genero talvez se travou n'um baile

entre dois rapazes menores de vinte e cinco annos, foi interrompido por

Gastão de Noronha, que quiz ser apresentado a Felisberto Taveira.

Estrellas Propícias · 第 13 / 34 题