II.

O romancista de mais perluxo gosto em nomes de personagens de novella,

se os procurar nos climas temperados, ahi os acha mais lindos, mais a

molde da strophe, do poema e do romance sentimental. Os nomes de mais

musica, e mais amoraveis, são os das mulheres gregas, se todos soam como

os das heroinas de Byron, de Hugo, e dos poetas affeiçoados ás coisas

orientaes.

Desisto de ir á Grecia baptisar as minhas personagens femininas. Escrevo

de Portugal, onde ha nomes de mulheres a competirem de belleza com suas

donas; e, mais que em outra provincia, no coração de todas, no

Minho,--que bem podéra ser a flor da Europa--ahi, na familia de solar, e

na familia da choça, ha peregrinos nomes, que mais parecem ensinados

pela melopeia das aereas musicas, ou dos mui suaves murmurinhos das

florestas, dos rios, das aves e dos insectos.

Corinna da Soledade era o nome da visão, que o meu leitor pudera ver

n'uma tarde de agosto de 1844.

Em outra qualquer tarde poderiamos ver, não uma, mas um rancho de cinco

meninas, a competirem de formosura, todas trajadas de branco, soltos os

cabellos, ou ennastrados de flores, com que se andavam dando invejas ás

outras. Eram as cinco irmans d'aquelle ditoso ermo; as cinco Evas

d'aquelle terreal paraizo, por onde não rastejavam serpentes, estas

serpentes de casaca e luva branca, que são o proprio demonio civilisado

pelo alfaiate, e amoldado a estes tempos illustrados em que nenhuma Eva

de certo se deixaria embair por cobras, propriamente ditas.

Tinha então vinte annos Corinna da Soledade.

Sou avesso a descripções: muitas vezes o tenho dito. Sahem-me todas

muito pallidas e infieis por causa do esforço que faço a dar relevo aos

traços. Profusamente se dispendem os romancistas em mineralogia e

botanica para colherem o effeito das comparações. Flores e pedraria, a

alvura do lyrio, o escarlate do carmim, o niveo jaspe, o rubido coral, a

lustrosa pretidão do azeviche, a ágata para a cutis das mãos, a petala

de rosa para a das faces, o branco avelludado da magnolia para o collo,

o marfim para os dentes... que sei eu!

Corinna da Soledade era de estatura mais que mean, refeita, robusta na

apparencia, mimosa de pelle, mas não alvissima; olhos mais singulares

pela brandura que pelo tamanho, reluzentes como chammas, ou amortecidos

como a luz tibia da lua empanada por transparente nuvem--alternativas

instantaneas, que denotavam as rapidas mutações da alma--; arcadas

negras e sedosas, travadas na base da escampada fronte--rara belleza em

mulher, n'aquellas mesmas, que se chamam Sapho, Staël, ou Sand--, breve

boca de finissimos labios, subtilmente assombrados d'um buço,

imperceptivel a curta distancia, mas de bello effeito na approximação.

Tanto esta, como as outras quatro filhas de Gastão de Noronha, tinham

sido educadas em França, para onde os paes emigraram em 1829. O fidalgo

do Minho homisiara-se, sem conscienciosamente poder dizer que era menos

realista que seus avós; porém, odios velhos de covardes inimigos o

haviam denunciado á alçada, e o prudente sujeito antes quiz confirmar a

denuncia com a fuga, que provar d'entre ferros sua innocencia.

Em 1833 recolheu a numerosa familia á patria. As meninas vinham

esmeradamente educadas em collegio de Paris, e saudosas dos comêços de

vida alegre que ainda experimentaram na capital do mundo. A transição de

Paris para as margens do Lima, as noites fugitivas dos bailes comparadas

com o silencio do palacio velho, em parte ruinas, e rodeado de arvoredos

e murmurios melancolicos, parece que ao mesmo tempo enluctaram o animo

das cinco meninas, que se contemplavam umas ás outras, como se as

lançassem nas praias ermas d'Africa.

Gastara, nos cinco annos de emigração, o jactancioso Noronha, como

gastam em Paris os homens opulentos ou perdularios. Bem que a sua casa,

toda em propriedade rustica, fosse grandemente rendosa, e bastasse a

dar-lhe fama e brilho de rico na sua provincia, os redditos d'ella

escassamente dariam a um parisiense com que sustentar dez pessoas de

familia em recatada decencia. Gastão, recolhendo á patria, rareou a

pouco e pouco as nuvens da poeira olympica de Paris, que lhe empanavam

os olhos, e viu todos os seus haveres ameaçados, se não já feridos de

proxima ruina. Os caseiros e administradores tinham esbanjado e

desbaratado á porfia com elle; porém, tão engenhosamente o fizeram, que

o fidalgo achou-os a elles proprietarios, e legitimos possessores das

quintas que, por ordem do amo homisiado, tinham vendido.

A velha casa solarenga d'onde o fidalgo sahira para o estrangeiro, nos

cinco annos de desamparo e descuido dos administradores, abriu pelo

tecto e fendeu-se pelas abaladas paredes. A familia, affeita a morar em

casas decoradas com graciosas alfaias, quando entrou ao palacete das

margens do Lima, confrangeu-se de pavor como se os vigamentos estivessem

estalando sobre suas cabeças. Fugiram as meninas do salão de espera, e

entraram na sala proxima, onde as mais velhas se recordavam de terem

visto tapetes encarnados, jarrões indianos, e espaldares de sêda. A sala

estava sendo uma eira, com espigas a monte, medas de palha painça, e

instrumentos agricolas, como enxadas, gadanhas, forcados e aguilhadas,

por sobre os jarrões esbotenados.

D. Mafalda, mãe das meninas, quando tal viu rompeu a chorar, e o marido

a praguejar, e as meninas encolheram-se todas a um canto, tão tristes e

intanguidas, como se as tivessem descido por um alçapão ás lageas de

fria masmorra.

Cuidou logo o fidalgo em mandar reconstruir aquella parte da casa, que

eu mostrei ao meu leitor, na margem direita do Lima. Como gizara obra

grande, a belprazer da sua desasizada fantasia, vendeu e hypothecou bens

urgentes á sua sustentação para convertel-os em salas, tapetes,

porcellanas, diwans, sophás, chaises-longues, jardineiras, consoles, e

que taes estrangeirices em que as meninas reconheciam um pedaço do seu

saudoso Paris.

Soffreram maior quebra os rendimentos, sem que a conformidade, se não o

contentamento d'aquella familia, bem aposentada e servida do luxo da

civilisação, os indemnisasse do desfalque dos bens. Gastão de Noronha em

vez de aconselhar paciencia á esposa e ás filhas, era o primeiro a

lastimar-se da solidão em que viviam, do tedio das compridas noites de

inverno, do enfadonho palavrorio dos primos e primas, e dos pessimos

cosinheiros, que nunca tinham bem acertado com o segredo de loirejar á

parisiense umas _omelettes souflées_, ou um _vol-au-vent_.

Enfadado de tudo, Gastão, incitado pelos gabos que a imprensa portuense

dispensava á sua companhia lyrica, pegou da familia, alvoroçada com a

boa nova, e foi para o Porto, onde passou um inverno, frequentando as

melhores casas, e convidando aos seus bailes a flor da mocidade

portuense.

Imaginou elle que suas filhas, educadas a primor, bem fallantes,

bonitas, e graciosas em seu desembaraço, fariam epocha no Porto, como

costuma dizer-se, e seriam pretendidas dos negociantes ricos á conta de

sua fidalguia. Este plano é o unico signal que temos da intelligencia

domesticamente governamental de Gastão de Noronha. Não se recommenda o

systema aos paes dissipadores e aos fidalgos arruinados, porque, sobre

ser revelho e desautorisado, é seu tanto ou quanto immoral: abstenho-me

de fundar o dito em razões que não agradariam nem moralisariam.

Não ha duvida que as meninas, educadas em França, e formosas como as que

mais o são em Portugal, impressionaram vivamente os moços abastados da

dinheirosa cidade; mas estas impressões redundaram todas em muita

poesia, em muito suspiro, em muitos olhares meigos, e em muita

contradança innocente, quando contradansas podem ser innocentes.

Os mancebos apaixonados viam as meninas, e viam tudo que mais anhelavam;

mas os paes d'estes mancebos, posto que achassem lindas de se verem as

flores, iam de preferencia analysar o tronco da arvore florida, o qual

tronco, como sabem, era Gastão de Noronha. Estas analyses ao tronco

prejudicavam grandemente as flores, como é de ver; e todos os velhos

abastados diziam, á uma, que não queriam enxertias de sua obscura

linhagem em arvore podre. Não sei se o nobilissimo Gastão de Noronha

chegou a saber que lhe chamavam arvore podre!

O sabido é que o fidalgo voltou ás margens do seu Lima, na primavera

seguinte, com as filhas solteiras, e tristes em dobro do que tinham

vindo de Paris.

O Porto d'aquella epocha era muito para dar saudades a quem o trocava,

não direi só pelas solitarias margens d'um rio, mas ainda pelos ruidosos

esplendores da capital.

Quem de lá sahiu ha dezoito annos, e hoje alli voltou, não reconheceu de

certo a sociedade portuense. Então primavam as principaes familias do

commercio, da industria e da jerarchia na magnificencia de seus bailes.

Rara semana corria sem que algum salão reverberasse os seus lustres nas

graças nativas e nos custosos artificios com que se sobre-doiravam

aquellas gentis meninas, que hoje se desvelam em ser mães, e todo seu

viver concentram na vida intima. Das duas ricas provincias, feudatarias

da cidade industrial por excellencia, confluiam, no fim do outomno,

quantidade de morgados e morgadas, que se dispendiam á larga, e

constituiam grande parte da sociedade brilhante, que os folhetins

cantavam, e as modistas vestiam... ou despiam, seria mais acertado

dizer-se. Nenhum festim nupcial dispensava um baile; cada pessoa da

familia opulenta, em seu dia natalicio, tinha um baile; o baile era o

cunho do progresso n'aquella sociedade desentorpecida do marasmo de

seculos, e devotada a competir em pompas com Lisboa, que a não valia

então, nem hoje me affoito a dizer que a vale. E quão diversa agora se

me afigura, quão outra te vi, ó rainha do norte, depois que os teus

próceres trocaram a convivencia dos salões pela commodidade das

equipagens! Foi a parelha que matou o baile indisputavelmente. Foi o

luxo esteril dos urcos e dos arreios, dos trens armorejados, e das

fantasiosas librés que desviou o fecundante capital do intento

civilisador a que o applicaram os patriarchas do progresso n'aquella boa

terra. Era um capital que a todos chegava, todas as classes sociaes

participavam da superabundancia do baile.

Enriquecia a modista.

Prosperava o cabelleireiro.

As confeitarias rivalisavam em primores de bolinhos e pasteis.

O mercador renovava os seus lotes em cada trimestre.

As alfaias dos salões, no ultimo baile, faziam esquecer as pompas do

penultimo.

E, por outro lado, visto pela face moral, o baile era o incentivo mais

energico do talento. Então se viram maravilhas de genio na secção das

locaes, que tão enfezadinha é agora! Então andavam ahi versos, a froixo,

por todos os jornaes; eramos todos poetas, todos tinhamos uma estrella

que cantar, e, pelo commum, aquella estrella luzia-nos da constellação

dos bailes.

E agora, tudo fundido nas carruagens que trancaram as portas dos salões,

tudo, sem excepção das musas!--as proprias musas me quer parecer que

andam aos varaes das seges!

Estrellas Propícias · 第 10 / 34 题