vivia ahi por perto da Praça dos Romulares, com o seu hotel bastante
luxuoso ainda, para dignamente hospedar o principe Lichnowsky.
Este principe viu-a, admirou-lhe as graças, comquanto já desluzidas, e
então soube que uma linda menina, que ali se via, era filha do principe
proscripto. Nas suas _Recordaçoens, do anno de 1842_, escreveu elle:
_Fui recebido na rua de... em uma hospedaria...[8] A dona
da casa, uma_ ci-devant _bella mulher com ainda classicos vestigios
de depostos encantos, esteve antigamente na posse de ternas relaçoens
com D. Miguel. Ha mesmo alguem assás atrevido para chegar a
assegurar que existem provas vivas d'aquella perdilecção real._[9]
Poucos mezes mais disputou a vida atormentada, a desgraça, que, de dia
para dia, lhe esvasiava os guarda-fato e os bahús. Não é mister
rendilhar phrases lugubres, que deixem transparecer as dilaceraçoens que
a levaram ao suicidio.
Duas palavras bastam: vergonha e pobreza. Vergonha dos opprobrios
d'aquelle folheto, e ninguem que a defendesse. Pobreza, que explicava o
desamparo dos protectores, e a impunidade da injuria.
Morreu, descansou.
XVI
RESSURREIÇÃO DE UMA ALMA
_Nec sine premio virtutes._
Não ha virtude despremiada.
BOETIUS, da Consolação da Philosophia, Liv. IV.
A medicina, informada da origem da enfermidade moral da condessa,
aconselhou viagens como distracção. O caracter intermittente dos
accessos de lagrimas, e a incongruencia das palavras, delirantes sem
febre, eram symptomaticas de perturbação de juiso. Todo seu empenho
apontava em provar ao marido que as affrontas atiradas á sepultura de
sua mãe eram calumniosas. O conde esforçava-se por convencêl-a de estar
d'isso bem persuadido; ella, porém, sobrevinha na mesma prova, se
despertava apoz um breve espaço de repouso.
Assim que a desfigurada condessa ganhou forças e se docilisou ás
carinhosas supplicas do marido, aprestou-se tudo rapidamente para a viagem.
Da casa e direcção dos negocios do conde ficou encarregado Damião
Ravasco. O mulato exultou quando o dispensaram de os acompanhar, sem
todavia manifestar o intento que o prendia a Lisboa. Toda a sua
esperança era descobrir o publicador do folheto, bem que de si para
comsigo devia ser um dos dois que elle esmurraçára, sem embargo de lhe
dizer Christovão Tavares que suspeitava muito d'um tal Victor Hugo.
Queria muito o mulato que lh'o mostrassem a fim de o não procurar longo
tempo, se um dia o diabo o atraiçoasse. E, com effeito, chegou a vêl-o á
porta do Marrare do Chiado. Contemplou-o com disfarce, e disse entre si:
«deve ser este!» Entretanto, as cartas vindas de differentes paragens da
Europa, não davam esperanças do restabelecimento da condessa. A
monomania da justificação da mãe resistia ás diversoens, aos rogos, ás
caricias, e á therapeutica dos banhos, frios da Allemanha.
No outono de 1860, chegaram a Baden, esperançados nas aguas mineraes. Ao
mesmo tempo, chegava D. Miguel de Bragança com sua esposa e alguns filhos.
O conde levou alvoroçado a noticia á enferma, que teimava em não
sahir do seu quarto. A condessa agitou-se, riu-se, chorou, bateu as
palmas, abraçou o marido, beijou a sua amiga Ernestina, e exclamou com
febril vertigem:
--Vou vêr meu pae!... vaes vêl-o, Raul!... verás o que elle te diz de
minha mãe... verás que é tudo calumnia!...
Mas o conde receiava que o infante desconfiasse da sanidade intellectual
de uma senhora que lhe saisse ao encontro a chamar-lhe pae, sem de
antemão se haver prevenido para tal apresentação.
Contida no seu enthusiasmo a condessa por considerações de etiqueta
indispensaveis com os principes, o conde fallou a um sacerdote da
pequena comitiva do infante, e industriou-o sobre a maneira de precaver
D. Miguel para ser cumprimentado por uma dama portugueza, a condessa de
Baldaque.
O principe alegremente mostrou vivo desejo de conhecer a esposa de um
cavalheiro a quem elle e os legitimistas portuguezes deviam relevantes
finezas.
Incutia receios o arquejar do peito da condessa, quando apeou da
carruagem á porta do infante.
Sahiu D. Miguel de Bragança ao patamar da escada a recebel-os. Quando,
com a mais lhana cortezia, o principe offerecia a mão á dama, ella
ajoelhou; e, suffocada por soluços, cobriu de lagrimas e beijos a mão
que não pôde esquivar-se áquelle estranho transporte.
--Ó minha senhora!--exclamava o infante--por quem é! peço-lhe que se
levante...
E olhava para o conde, como a pedir-lhe a explicação da anciedade da dama.
E o conde, com os olhos turvos de lagrimas, disse:
--Vossa magestade comprehenderá a perturbação de minha mulher, sabendo
que ella é Maria José de Portugal, filha da snr.ª D. Marianna...
--Ah!--exclamou o infante--já sei... já comprehendo...
E, com maior esforço, inclinando-se até poder levantal-a dos seus pés,
abraçou-a, beijou-a na testa, correu-lhe as mãos pelas fontes, e murmurou:
--Vi-a creancinha... de seis mezes...
E, tomando-lhe o braço, conduziu-a á sala, sentou-a na othomana, ao seu
lado, lançou-lhe o braço pela cintura, e disse-lhe quasi em segredo:
--Sua mãe... é morta?
--Ha muitos annos...--balbuciou a condessa.
--Porque me não escrevia, quando me enviava...--tornou elle, feita
uma longa pausa.
--Oh!--atalhou D. Maria--peço-lhe que não se lembre... vossa magestade...
--Que me não lembre?... Eu não me esqueço senão dos ingratos... minha
filha!...--E voltando-se para o conde:--sênte-se, senhor... Como se
chama seu marido?--perguntou á condessa.
--Raul--respondeu ella.
--Sênte-se, snr. Raul... Sei que é brazileiro... Agradeço-lhe esta boa
hora da minha vida--proseguiu tomando entre as suas a mão de Maria.--Mal
diria eu!... Ella aqui está... aquella creança que eu via como um anjo
lá ao longe da vida... um ponto branco e luminoso do passado... um
sonho!...
D. Miguel alongou os olhos tristes para o horisonte azul que as
montanhas recortavam. Que visão! que saudade! que escuridade ia dentro
d'aquella alma, purificada na onda das lagrimas, na fragua da
indigencia, no cadinho ardente do desesperar!
O conde, embevecido no aspecto respeitavel e triste d'aquellas cans
geadas dos invernos de vinte e oito annos, escutava-o tão admirado,
quanto em Portugal a opinião da plebe das letras malsinava de ignorancia
o principe. D. Miguel interrogava, ora o conde, ora a filha sobre
coisas e pessoas da patria, alheando-se da politica, e instando a sua
dolorosa curiosidade em miudezas de certos sitios, dourados pelo sol da
infancia, e esmaltados de indeleveis côres pelo archanjo da saudade, que
lá de longe nos segue até nos entregar ao archanjo da morte.
Quando um criado entrou á sala annunciando que a rainha se recolhera do
banho, o infante disse ao conde:
--Minha mulher ha de querer cumprimental-os em occasião mais opportuna.
A condessa levantou-se, dobrou o joelho ao lado do esposo, beijaram as
mãos do principe, que deu o braço á dama, até ajudal-a a subir ao
estribo da carruagem.
Desde esta hora, raiou luz nova no espirito da condessa. As lagrimas do
enthusiasmo filial diluiram a mancha negra que lhe ennoitecia, a
intervallos, a razão. Se a causa d'aquelles crepusculos da escuridade da
alma tinha sido julgar-se abatida pela calumnia aos olhos do marido, a
cura operou-se pelo exalçamento que lhe dera a consideração do pae em
presença do conde. Só assim: nenhuma outra ancora salvaria do golpho das
trevas aquelle espirito. A ferida escalavrara o orgulho da neta de
Affonso VI, por sua mãe e por seu pae.
Demorou n'aquella paragem o conde até que D. Miguel recolheu a
Heubach. Depois, deteve-se em Allemanha. Por espaço de anno, raros dias
se não viram as duas familias. A felicidade de Maria José era o céo,
como raras vezes a virtude n'este mundo o encontra, na consciencia, e
nas alegrias inalteraveis da vida exterior.
O conde, adivinhando os discretos silencios da esposa, disse que nunca
mais voltaria a Portugal. Projectou, pois, deter-se na Europa mais dois
annos, e voltar para o Brazil, onde o chamavam as memorias da infancia,
como quem queria continuar as doçuras da vida adulta e lá esperar a
quietação da velhice.
N'este proposito ordenou ao seu procurador e mormente a Damião Ravasco a
venda de todos os seus haveres em Lisboa, com ordem ao leal amigo de o
ir encontrar a Marselha, levando comsigo Christovão Tavares e toda a
familia do afortunado velho.
Quando Damião, grandemente desconsolado por ter de sahir de Portugal sem
vingar o conde, obedecia ás ordens recebidas, foi colhido de sobresalto
por uma noticia que, segundo elle affirmou, por pouco o não matava de
prazer.
Christovão Tavares mostrou-lhe uma gazeta liberal em que o articulista,
em polemica virolenta com o redactor d'outra gazeta, escrevia estas
lisonjas: «... Quem é este sevandija que nos falla em moralidade, em
caracter, em firmeza de principios, em dignidade jornalistica? Quem é o
gaiato, o fundibulario das esnogas d'Alfama, que nos despede a pedra,
sem receio que o recochête lhe vá bater no stigma infamante da testa,
onde a lei já não deixa escrever LADRÃO com ferro em braza? Quem é, e
donde veio este Victor José Alves, que incravou no nome plebeu o «Hugo»
tão honrado no mundo? Quem lhe disse a elle que onde estava o _Alves_,
para memoria de um certo _Diogo_, devia intervir o sobrenome do primeiro
poeta do universo?
«Victor Hugo! elle, o filho da estalajadeira, que ainda tem, como brazão
de familia, atraz da porta o cacete do marido, que quiz mercadejar com
as costas dos septembristas, como com os coiros de vacca onde se
levantou subindo pela tripeça do pae!
«Victor Hugo! elle que imbaiu uma certa luveira a dar a D. Miguel uns
tres contos de reis, que o _escroc_ desbaratou em pasteis de camarão e
orgias nos bordeis!
«Victor Hugo! elle que depois prefaciava um apontoado de injurias
aleivosas que haviam matado a infeliz mãe da luveira roubada, e levaram
depois ao cairel do sepulcro moral a razão de certa condessa, que
hoje erra foragida da patria em companhia de seu honrado marido!
«Elle, Victor Hugo, que apoz tantas protervias, umas culminantes de
infamia, outras de irrisão, exerce hoje um logar de confiança politica,
o secretariato d'um governo, e pendura na lapella da casaca, que devia
ser blusa de forçado, duas commendas, uma que lhe dá o foro de fidalgo,
e outra que o representa benemerito das consideraçoens litterarias!...
Elle que...»
Damião Ravasco arrojou o jornal, e atirou-se aos braços de Tavares
exclamando:
--É meu o homem! Se alguem lhe põe a mão, arranco-lhe os figados pela
bocca!
E parecia jorrar ascuas de forja afogueada por ambos os olhos.
CONCLUSÃO
É immolado um porco á terra.
HORACIO, Epist. I, Livro II.
Corria o mez de agosto de 1862.
Na estação de seges de praça, que descorrem pela cidade baixa, notaram
os boleeiros a concorrencia de um mulato, que elles tinham visto,
adestrando as soberbas parelhas do conde de Baldaque, ou aderençando
pôtros rebelloens e alfarios com a galhardia de consummado picador.
Reputavam-no mordomo do millionario; porém, quando o viram na praça,
boleando uma sege numerada, inquiriram d'elle mesmo se deixára o serviço
do conde. E elle respondeu:
--O conde foi-se embora para França, e eu, que me dou bem por cá,
empreguei as minhas soldadas n'este trem, e vou vivendo.
O serviço de Damião agradava sobre modo aos rapazes do Chiado. O mulato
era já conhecido da mocidade de pechisbeque, versão genialmente
portugueza da _jeunesse dorée_ lá d'álem. Em dia de toirada era ditoso
quem o emprazava de vespera.
Victor Hugo rara vez sahia de sua caza na Travessa do Estevão
Galhardo--aonde voltára reconciliado com a mãe e um tanto fallido ao
dinheiro--que não visse o mulato convidando-o a acceitar-lhe o seu serviço.
Uma vez, entrou na sege, e disse:
--Ás camaras!
A sege voou. Victor, apeando, disse:
--Isso é que é andar, rapaz! Como te chamas?
--O mulato.
--Mas como é o teu nome?
--Mulato.
--Mulato não é nome, é côr. Tu deves ser Simão ou André ou Belchior...
--Sou mulato.
--Pois então, mulato--voltou sorrindo o commendador da Conceição--queres
ir amanhã levar-me a Cascaes?
--É longe, meu amo. Faz muito calor. Estafo os cavallos á torreira do
sol; e eu não sei andar a passo. É para lá! bem vê V. Ex.ª... Eu não
poupo o gado...
--Pois vamos de noite, queres?
--De noite? A que horas?
--Ás tres.
--Isso é de dia.
--Ás duas, serve-te?
--Convem. Chegamos lá ás sete.
--Sabes onde moro?
--Parece-me que sei... é...
--No Hotel da Travessa...
--Do Estevam? já sei... Lá estou ás duas em ponto.
--Sem falta? palavra?
--De mulato. Quer que espere?
--Não. Pega lá...
E deu-lhe, com fidalga bizarria, dez tostoens. Damião recebeu-os na luva
de algodão. Subiu á almofada, largou para a rua de S. Bento, e deixou
caír as duas corôas no regaço de uma mendiga cega.
Á uma hora da manhã Victor Hugo recolheu do Gremio, e sevou o seu
rewolver de seis tiros. Depois trajou-se á campezina, fato inteiro azul
anil, luva amarella, chapéo de palha, uma gravata de muitas pontas com
muitas flores e muitas borboletas. O espelho lisongeava-o, occultos os
dentes, o vestibulo infecto d'aquella caverna do peito, as navalhas
podres do javali que esfoçava lá dentro.
Victor Hugo ia a Cascaes á cata d'uma grega que, por aquelles dias,
alvorotára os galans enfrascados em damarias d'aquella casta. Farto de
amores peninsulares, o poeta Alves almejava um amor grego, perfumado das
auras do Bosphoro, coisa que lhe désse uma vez ao menos as morbidezas do
oriente na Travessa do Estevam Galhardo.
A grega perseguida dos caens vadios de Lisboa, que se lhe penduravam de
cauda de murzêlo, fugira para Cascaes, no intuito outro sim de traduzir
o Alkorão para uso dos seus cathecumenos.
Victor Hugo ia procurar a grega, fugida do serralho de Bysancium, e
disposto a enrodilhar o turbante na cabeça, mahometanizar-se, restaurar
a Grecia por amor d'ella, dar a casca em Missolonghi, e almoçar com
ella, se pudesse.
Ás duas horas rodou a sege na calçada e parou. D. Rozenda, quando o
filho passava no corredor, disse lá de dentro da alcôva:
--Onde vaes tão cedo, Victor?
--Vou a Cascaes.
--Que vaes fazer a Cascaes, homem?!
--Respirar as brizas do mar.
--Forte asno!--murmurou a mãe, e adormeceu. A sege abalou velocissima.
Ahi por Paço d'Arcos, Victor perguntou ao boleeiro, quando a sege ia
muito a passo:
--A quem compraste esta boa parelha?
--No leilão do conde de Baldaque. V. Ex.ª conhece-os?
--Conheço o conde, os cavallos não.
--Não me saberá dizer porque é que o conde se foi embora?
--Sei: casou com uma aventureira...
--Que vendia luvas...
--Isso...
--E depois?--tornou o mulato.
--A opinião publica fez-lhe troça e elles safaram-se.
--Ah!... então a troça como foi?... Acho que havia de ser um folheto que
ouvi ler, a dizer o diabo da mãe da tal condessa...
--É isso...
--E aqui, ha de haver um mez, leram-me um jornal onde se dizia que o
folheto fôra publicado por um snr. Victor Hugo, que tinha roubado grande
chelpa á tal luveira. Sempre ha cada malandro! O senhor conhece-o?
--Quanto déste pela parelha?--perguntou Victor, como se a pergunta fosse
feita a um pavão, que berrava no arvorêdo dos Palhas.
--Cincoenta libras--respondeu o mulato, muito mais delicado que o seu
interlocutor.
--Não foi cara.
--Todo o trem do conde se vendeu ao desbarato. Contou-me um criado
d'elle, meu patricio, quero dizer, tambem mulato, que a condessa
fôra de Lisboa doida, por causa do tal folheto, publicado pelo larapio
que a roubou. Veja V. Ex.ª que patife aquelle! O mulato é levadinho de
dez milhoens de diabos, e disse-me que não se vae embora de Portugal sem
cortar a cabeça ao tal Victor Hugo!
--Quem, o preto?--perguntou sorrindo o commendador.
--Sim, o preto...
--Ha de ser um que dava sôcos nos namoros da luveira...
--Hade ser esse, provavelmente...
--Pois, se o vires, dize-lhe que o tal Victor Hugo só deixa cortar o
pescoço depois que mette seis balas na cabeça de quem lh'o quer cortar.
--Então o homem pelos modos é têzo?
--É: fia-te em mim.
--Não duvido, patrão; mas a valentia não tira que elle seja um ladrão; e
um malvado que roubou a alegria e o juizo a uma senhora que lhe não fez
mal nenhum, que eu saiba.
--Elle lá teve as suas rasoens... Olha lá, não deixes adormecer os
cavallos... Ainda agora vamos em Oeiras...
--Temos muito tempo, patrão... V. Ex.ª não conhece um caminho por onde
se atalha uma legua boa?
--Não.
--Quando chegarmos ao fim do muro da quinta do marquez, eu lh'o mostrarei.
Damião chicotou os cavallos com frenezi. Era a onda de sangue que já lhe
girava como meandro de vitriolo por entre os seios do cerebro. As
chicotadas eram uma maneira de se desafogar d'aquella congestão.
Chegados á extrema do muro, o mulato metteu por uma vereda estreita,
desterroada e pedregosa.
--Não é por ahi!--disse Victor--por onde diabo vaes?
--Por aqui é o atalho--respondeu Ravasco.
--Deixemo-nos de atalhos agora de noite!
--Não tenha medo, patrão. O snr. não traz rewolver?--dizia e affoitava a
parelha.
--Trago rewolver; mas...
--Então que medo tem?
--Não é medo de ladroens; é medo que esbarrondes a sege! Olha que o
caminho vae já bater ahi n'uma charneca fechada, não vês? Volta para
traz, bruto!
Damião Ravasco não respondeu. Levou impetuosamente os cavallos aos
sacoens até entestal-os com um comoro eriçado de piteiras e socavado nas
margens resvaladias, e saltou de golpe da almofada, quando as bestas se
escabravam trepando á valla.
Este abrupto salto, depois da pertinacia do cocheiro em fustigar os
cavallos contra o vallado, incutiu em Victor Hugo a suspeita de estar em
perigo de ser roubado pelo mulato. Instinctivamente arrancara do
rewolver, quando o boleeiro saltou. E, no conflicto em que Damião
arremettendo á sege, puchava de repellão pelas cortinas embreadas,
Victor desfechou-lhe um tiro na face, e o segundo no respaldo da sege,
porque o pulso lhe estalou e revirou-se na mão do mulato como se os
ossos se deslocassem dos ligamentos estorcidos por uma tenaz.
E do mesmo impeto fincou-lhe na garganta a garra esquerda, e empuchou-o
para fóra da sege.
Victor, escabujando de encontro aos raios da roda, rugia gritos de
soccorro, luctando em balde para arrancar a mão ainda armada á torquez
que lhe desarticulava o pulso.
O mulato remessou-lhe um joelho ao ventre, e disse-lhe n'um rouquejar de
voz, mudada em bramido pela ferocidade da ira:
--Hasde saber quem sou, perverso ladrão! Sou o preto do conde de
Baldaque. Dá-me seis tiros na cabeça antes que eu te corte a tua. Um já
cá o tenho no rosto; se morrer delle, perdoo-te.
Á ultima palavra vociferou elle um rispido regougo, coisa parecida
ao soturno urrar da féra; e, no mesmo acto, arrancou da navalha
espanhola já aberta entre a manga da jaleca e o braço, e cravou-lh'a
através da garganta.
Era cadaver o insultador da condessa de Baldaque; mas o leão não
desenterrára os gryphos aduncos das carnes do tigre morto.
A cólera recrudescia ao compasso da dôr atroz que lhe sangrava na cara.
Levou a mão ao olho direito, e retirou-a empapada em sangue e humores.
Receiou morrer, e este mêdo dava-lhe vertigens, e um raivar de demonio,
cada vez que o sangue barbotando lhe tolhia a vista.
Talvez que a vingança ficasse áquem das raias da barbaridade, se Victor
o não houvesse ferido mortalmente, como elle suppunha. Travou dos
cabellos ao cadaver, e correu-lhe á volta do pescoço repetidos golpes
até o degolar. Atirou para dentro da sege a cabeça, e deixou o restante
no chão ensopado da sangueira.
Antes de repontar o sol, sege e cavallos estavam na cocheira do conde.
A cabeça de Victor Hugo foi submersa em álcool n'uma vasilha negra. E
Damião Ravasco, entregue aos cuidados de Chistovão Tavares e d'um
cirurgião, soffria a dolorosa anatomia da extracção do olho direito
e esquirolas da orbita correspondente.
Ai! elle não poderia mais vêr a cabeça de Victor Hugo José Alves senão
com um olho!
Do apparecimento do cadaver descabeçado na Azinhaga das Cobras deve
lembrar-se perfeitamente o leitor de Lisboa. Primeiro, disse-se que era
uma victima das vinganças clandestinas dos carbonarios. Alguem pensou
que fosse o administrador do concelho de Oeiras, que n'esse dia estava
sadio e incolume em Cascaes namorando a grega. Outros, os mais sensatos,
pediam a cabeça do sujeito para fazerem o seu juiso ácêrca da identidade
da pessoa. A final soube-se quem era, por causa d'umas cartas de namoro
que lhe encontraram na algibeira, dirigidas a _Victor Hugo_; mas tambem
isto foi motivo a conjecturar-se que o auctor do _Napoleon--Le petit_,
viera incognito a Lisboa, e o imperador dos francezes o mandára
assassinar, decapitar, _etc._, _etc._ O que é certo é que muita gente,
quando se disse que o descabeçado era o Victor, filho do Alves dos
coiros, respondeu brutalmente: _Foi bem feito_.
Sarado da ferida, mas cego do olho, e esburacado no bordo inferior da
orbita, Damião Ravasco, liquidado o trem da homicida façanha, fez-se ao
mar e mais o official realista e as filhas e os netos. Marselha era
o itinerario prescripto pelo conde. Dirigiram-se á rua Camebiere, _hotel
des Empereurs_.
Entraram juntos á sala privativa do conde. Damião ia na frente,
sobraçando uma caixa de estanho, com argolas lateraes. Quando se
defrontou com o conde e a condessa, ambos exclamaram espantados da tão
differente cara de Ravasco:
--Que é isso!?--bradou o conde--Vens cego de um olho, Damião?
--E que profunda cicatriz elle tem na face!--disse a condessa.
--Que foi isso?--tornou o irmão.
--Este olho que me falta--respondeu Ravasco pousando o caixote sobre uma
banca; e repetiu:--Este olho, que me falta, tirou-m'o um sujeito chamado
Victor Hugo José Alves.
--Porque, meu Deus?--disse a condessa.
--É possivel!?--exclamou o conde--E tu...
--Eu sempre ouvi dizer ao meu mestre de latim: «olho por olho, dente por
dente»--respondeu Ravasco;--mas, a fallar a verdade, não me accommodo
com esta lei. Quem me tira um olho a mim ha de ficar sem dois, pelo menos.
E, dizendo, destapava a caixa de estanho. A condessa tremia
convulsamente. O conde encarava-o estupefacto. O ex-brigadeiro e as
filhas e netos agrupavam-se á volta da condessa. E Damião continuou:
--Ora eu que não tinha vagar, nem a occasião era a melhor, para tirar os
dois olhos ao sujeito que me tirou um, achei que o mais summario e
seguro era cortar-lhe a cabeça. Eil-a aqui! Vejam se a conhecem!--disse
o mulato, mostrando a cabeça tragica, mergulhada em espirito de vinho,
no amplo frasco extraído da caixa.
A condessa parecia desmaiar nos braços do marido, exclamando em extrema
afflicção:
--Jesus! que horror! que barbaridade!...
--Horror, sim, minha filha!--disse o conde--mas barbaridade... Não
culpes Damião sem o escutar.
E Ravasco, aproximando-se da condessa, fallou serenamente:
--Eu tenho pouco que dizer em minha defesa, snr.ª condessa. Em Lisboa
sahiu um folheto no qual se dizia que sua mãe roubava padeiros de quem
era amazia...
--Silencio!--bradou o conde.
--Deixe defender-se o barbaro, snr. conde!--volveu Damião--N'esse
folheto havia uma nota em que se dizia que o conde de Baldaque casára
com uma aventureira. Se o snr. conde casasse com uma mulher perdida, eu
não o vingaria, por entender que era justo o castigo; mas como eu
sei que V. Ex.ª era uma senhora honesta, entendi que devia cortar a
cabeça d'onde sahiram os insultos a V. Ex.ª e a um homem que me chamou
irmão. Não tenho mais que dizer. Cá levo a cabeça para lhe dar honrosa
sepultura nos esgotos de Marselha.
E sahiu com o caixote debaixo do braço. Na sala era tetrico e profundo o
silencio. Nem que aquillo fosse a cabeça de Holofernes, ou de Pompeu! E
as lagrimas derivavam copiosas no rosto de Maria José.
Ó egregia alma, como essas lagrimas deviam ser abençoadas do soberano e
inexprimivel Espirito que tão perfeita scintilla de sua divindade te
bafejou no berço!
EPILOGO
Os condes de Baldaque, n'este anno de 1872, viajam no Oriente, com o
filho mais velho.
Damião Ravasco, reconhecido irmão do conde, e quasi millionario, vive no
Ceará com sua mulher D. Luiza Tavares, a mais nova das filhas do
ex-brigadeiro já fallecido.
As outras filhas, exceptuada Ernestina que acompanha a condessa, casaram
e são ricas.
Os netos do brigadeiro, doutorados na universidade de S. Paulo, estão
estabelecidos no imperio brazileiro.
D. Rozenda Picôa é mestra regia na Porcalhota.