_José Joaquim do Cabo Pinto, commendador da ordem de S. Bento de Aviz,

tenente coronel de cavallaria, governador do Forte da Cruz Quebrada.

Attesto que D. Marianna Joaquina Franchiosi Portugal, hoje intitulada

Rolem, talvez por se ter naturalisado franceza, tem sido heroina sem

egual, como é notorio n'esta cidade, querendo-se intitular fidalga,

sendo filha de um moleiro de Azeitão, por nome Euzebio, a quem fugiu com

um official de Marinha, vindo assistir para o pé da Fundição; dizem que

depois cazou com um sombreireiro, que a deixou e fugiu; tomou uma caza

na rua dos Douradores, a que deu o nome de hospedaria, aonde iam os

figuroens com as suas amasias, e por isso adquiriu grandes

conhecimentos, dos quaes soube tirar partido, sendo seus apaixonados

Luiz da Motta Fêo, o Barrão, coronel de milicias, Antonio Sicard,

tenente de cavallaria que morreu na Torre de S. Julião, e um Rego, e a

final o desembargador Ferraz que lhe poz carruagem, e ella largou então

a hospedaria, e veio morar para o Carmo; mas, indo todos os dias á

Travessa de Pombal a caza do tal Ferraz, que morreu quasi de repente,

apoderou-se de um bahu em que elle tinha os seus papeis; e, por

temer que lh'os procurassem em caza, foi morar ao pé do Paço de Bem

Formoso, e metteu-se depois a protectora de pretendentes, alcançando

muitas coizas pois era protegida do ministro da fazenda D. Diogo Lousan;

passou a ser espia de D. Miguel, a quem ia fallar um dia sim outro não,

quasi sempre, e por isso contrahiu grande amisade com o Vadre. E, como

receasse a chegada do snr. D. Pedro a Lisboa, se naturalisou franceza,

pois sei a quem ella mostrou a carta de naturalisação; isto era para

jogar com um pau de dous bicos. Finalmente é heroina do seculo, como é

notorio. E, como me consta haver uma cauza que a dita propoz ao snr.

F... na qual diz que uma menina que tem em caza é filha do tal F...

declaro pela presente que ainda que ella fosse sua mãe propria, era

impossivel saber se...[4] Mas é constante por ella o dizer

ás suas amigas que a menina era sua afilhada, e a tinha tomado por a mãe

ser pobre; mas agora no seu proceder se conheceu o fim para que a

tomou... etc. Lisboa 5 de julho de 1838._

Agora são duas senhoras que véem quebrar a dureza do quadro com as

mimosas feminilidades dos seus dizeres. A snr.ª D. Maria Leonor da Cunha

Saldanha, solteira, diz em 1838 que conhecera D. Marianna de Portugal em

1831 e 1832, a cuja casa ia; e vendo então uma menina de peito lhe

perguntára de quem era. Primeiro, D. Marianna respondera que era filha

d'uma mulher que a declarante via por lá; e, passados mezes, dissera que

aquella menina era sua filha e do snr. D. Miguel, intitulado rei

n'aquelle tempo.

A snr.ª D. Joanna Candida da Silva Monteiro, viuva, diz que conhecera

entre 1817 e 1818 D. Marianna Elisia, criada de M.me Chapsal. Sabe que

ella depois teve amisade com um padeiro, e depois com Luiz da Motta Fêo,

e depois com o desembargador Ferraz; e que uma menina que tem em casa, e

conta hoje de seis para sete annos, por nome Maria José, lhe disse ella

que era sua afilhada. Declara mais D. Joanna que conhecia a pessoa

contra quem depõe por ter sido ella depoente sua costureira, depois que,

na ausencia de M.me Chapsal, a sua antiga criada, já n'outra posição,

ficára senhora da casa.

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Eis muito compendiada a substancia do opusculo que D. Rozenda entregou

ao filho.

Victor Hugo empeçonhou a segunda edição do libello com prefacio e notas,

para fazer bem sensivel que a filha de Marianna era a logrativa luveira

da Rua Nova da Palma, feita por obra e graça dos seus olhos feiticeiros

condessa de Baldaque.

O folheto, impresso clandestinamente, espalhou-se pela posta interna. O

conde e a esposa receberam exemplares em duplicado. Foi ella quem os

recebeu e descintou, á hora em que seu marido não estava em casa. Leu as

primeiras paginas, e já pouco percebeu do affrontoso attestado do

tenente coronel de cavallaria. O sangue, regorgitando-lhe do coração

anciado, estuou-lhe no cerebro. Escurentou-se-lhe a vista, não por

lagrimas, mas pela treva da congestão que lhe deu receios da morte. A

attribulada senhora ainda chamou a brados a sua amiga Ernestina Tavares,

lançou-se-lhe nos braços já esvahida, e balbuciou ainda:

--Que Raul não veja...

Alludia ao folheto que ali estava cahido no pavimento; mas Ernestina,

sem attentar no folheto nem ponderar as inintelligiveis palavras, rompeu

em altos clamores, mandando todos os criados procurar o conde.

Já elle subia accelerado as escadas, perguntando a Damião Ravasco se o

correio da posta interna havia trasido alguns papeis.

--Trouxe dois folhetos;--disse o mulato--um para V. Ex.ª e outro para a

senhora condessa.

--Que desgraça!--murmurou o conde.

É que elle, entrando em casa do seu banqueiro, vira sobre a escrivaninha

um folheto ainda cintado, e lera nas margens onde não chegava o papel

sobrescriptado as palavras _Marianna_ e _Portugal_. Pediu licença para

abrir o folheto, leu salteando algumas linhas de cada pagina, e sahiu

precipitadamente no intento de impedir que a condessa visse os insultos

a sua mãe.

Entrou ao quarto onde Ernestina escutava a agitada respiração da condessa.

--Ella leu o folheto?--perguntou o conde.

--Não sei que folheto V. Ex.ª diz... Eu ouvi-a gritar, corri logo, e

achei-a n'este estado. Ainda me disse não sei que palavras que mal

percebi...

A este tempo, Damião Ravasco, esquecido do respeito usado com a

ante-camara de seu amo, tinha tambem entrado, e erguido do chão o

impresso. O conde, que transportára nos braços a esposa para o quarto

inferior, não reparou no mulato que ficara lendo o folheto. Quando,

passados dez minutos, voltou para mandar procurar um medico, achou

Damião a lêr.

--Quem te chamou aqui?--perguntou com azedume.

--Vim eu, snr. conde--respondeu serenamente o mulato.--Estava aqui a vêr

quem é que fez isto... Ha de dar-me licença de levar este folheto...

Quem o escreveu, dou-lhe a minha palavra de honra, juro-lhe pela alma de

seu pae, que não torna a escrever outro. Diga-me, pela memoria de sua

mãe, e pela vida da snr.ª condessa lhe peço que me diga quem escreveu isto?

--Não sei, Damião...--respondeu o conde reconhecido ao zelo e vehemencia

dos rogos do mulato--Nós o saberemos... Vae chamar medico... Não te

demores.

O medico não tardou; mas Damião Ravasco só entrou noite alta. Dizia-se

que um mulato, com o fogo do inferno nos olhos, andára perguntando de

typographia em typographia se um folheto que mostrava tinha lá sido

impresso. Parava á beira dos grupos e imaginava que poderia descobrir

rasto por onde fariscasse o auctor do folheto. Estacára no Chiado em

frente do deputado da sova memoranda, a vêr se poderia, com mais ou

menos justiça, escorchal-o contra um frade de pedra. Offerecêra

dinheiro grande a uns agentes da policia que lhe descobrissem a victima.

E nestas diligencias que lhe queimaram o sangue e centuplicaram os

demonios do máo genio, andou Ravasco todo o dia e grande parte da noite.

Quando chegou a casa foi muito ás surdas até á porta dos aposentos do

conde. Escutou e ouviu passear na ante-camara. Bateu de mansinho. O

conde sahiu á saleta.

--Como está a senhora?--perguntou Damião.

--Está com febre.

--Não descobri nada--voltou o mulato.

--Não descobriste o quê? que procuravas tu?

--O auctor do papel.

--Prohibo-te que faças taes indagaçoens. Eu o saberei; mas, se o souber,

prohibo-te que me vingues. Se o infame não puder ser castigado por um

homem de bem sêl-o-ha por um lacaio; mas não por ti que és... meu irmão...

Damião dobrou os joelhos, e cobriu de lagrimas as mãos do conde.

XV

A PROLE DE D. AFFONSO VI

Para vós verdes como coisa nenhuma é encoberta.

BERN. RIB., Menina e Moça, cap. XII

Aquelle folheto, impresso em 1840, explica tres annos de angustias

dilacerantes que levaram Marianna Rolem de Portugal ao extremo desafôgo

do suicidio, ao ver-se desvalida das pessoas que se pejavam de conviver

com a mulher infamada, e de mais a mais empobrecida.

Mas quem era Marianna Joaquina Franchiosi Rolem de Portugal?

Que havemos de inferir dos attestados reimpressos por conta de Victor Hugo?

É a filha aventureira do moleiro de Azeitão? Fugiu d'alli com um

official da armada?

É a criada da franceza Chapsal?

É a infiel contubernal do padeiro Manoel Rodrigues?

É a supposta parturiente do menino Francisco, e a indigitada amante de

D. Miguel?

Donde lhe veem aquelles appellidos? Quem a levou a Joaquim Euzebio para

que a creasse?

Vamos derivar a resposta de tão justa curiosidade desde 1661.

Onde isto vae!

A historia patria, que o leitor conhece impressa, não lhe refere que D.

Affonso VI, á volta dos dezoito annos, viu em Lisboa, nas

circumvisinhanças de Queluz, uma rapariga muito formosa, pelo braço de

um mancebo de boa figura. Encarregou o valido Henrique Henriques de

indagar quem fosse a galante menina. Descobriu-se que era Catharina

Arrais, natural de Coimbra, donde fugira com seu primo, Manoel Arrais,

estudante, a fim de se casarem em Lisboa, logo que obtivessem dispensa

de parentesco e remoção de outros impedimentos canonicos attinentes ás

fragilidades da sua céga paixão.

Sabido isto, e a residencia dos profugos amantes, estava sabido tudo.

Manoel Arrais foi preso e conduzido a Coimbra. Catharina, na noite

d'esse dia, foi assaltada no seu esconderijo por um tal Agostinho Nunes

e por Henrique Henriques de Miranda que a levaram ao rei.

Dois annos depois, Catharina Arrais era freira em Santa Anna, e Manoel

Arrais era fallecido de dôr.

Antes, porém, de ser dada como esposa a Jesus Christo, houvera Catharina

uma filha de Affonso VI, a qual se chamou D. Luiza de Portugal.

Esta D. Luiza, quando prefez seis annos, foi transferida a casa do

famoso estadista conde de Castello Melhor, onde recebia tratamento de

alteza.

Aqui se deteve com honras de infanta até ao anno de 1667, em que o pae

já estava preso á ordem do principe seu irmão. Mas um dia o corregedor

da côrte entrou á força no palacio do marquez, apoderou-se de D. Luiza

de Portugal, e levou-a para o mosteiro de Santa Anna.

Soror Catharina recebeu sua filha, pensionada pelo infante, com a

declaração de que sua alteza não a reconhecia como sobrinha; mas a

protegia como desgraçada victima da libertinagem de seu augusto irmão.

Vejamos agora o que se fez para destruir as conjecturas de ser filha de

D. Affonso VI aquella menina. A historia impressa não o diz. Ha

manuscriptos que nos elucidam; e um, que possuo com a maior

estimação e de nenhum modo suspeito, vae referir-nos a villissima traça

que teceram os partidarios da rainha e do infante para desfazerem a

embaraçosa hypothese da fecundidade do filho de D. João IV.

O manuscripto intitula-se: _Vida de el-rei D. Affonso VI, escripta no

anno de 1684_.[5]

Dava que pensar e receiar a crença publica de existir a filha do rei. O

processo do divorcio, fundamentado em rasoens de torpissima

deshonestidade, tropeçava n'aquella menina. O procurador da rainha,

duque do Cadaval, refere o expediente que lhe desatravancou o passo.

Sobeja malvadez onde a imaginação coxêa no enredo. O homem escreveu isto

para a posteridade, e talvez vaidoso de engenhar o capitulo d'uma novela

ao sabor do tempo. Conta elle: «Offerecia-se ao duque uma grande duvida

do bom successo da causa (_o divorcio_); porque dizia que era

impossivel, tendo el-rei uma filha em casa do conde de Castello Melhor,

chamada D. Luiza e com tratamento de alteza. Achando-se este negocio com

esta grande duvida, Deus, que é a mesma verdade, foi servido de buscar

os meios de se descobrir e averiguar com toda a certeza.

Recolheu-se um dia ao jantar para casa; achou na mão de um criado seu,

um escripto que ali tinha deixado um moço. Dizia elle: _Se V. Ex.ª quer

saber um negocio muito importante para a cauza da rainha com que V. Ex.ª

corre, ache-se á noite no seu coche, só, ás escadas do Loreto, de sorte

que espere n'aquelle logar o sino da meia noute._ E não se assignava o

escriptor. Logo foi o duque á Esperança,[6] e, mostrando o

escripto á rainha, lhe disse ella que de maneira nenhuma queria que

fosse, por que aquillo podia ser de grande perigo. Respondeu-lhe o duque

que havia de ir, e que deixasse sua magestade á conta d'elle a segurança.

«Reedificava-se a egreja do Loreto do incendio que havia padecido. Tinha

no adro um grande telheiro a cujo abrigo trabalhavam os officiaes da

obra. Mandou o duque metter n'elle o capitão de cavallos Manoel

Travassos e o de couraças Manoel Caldeira, ambos de grande valor.

Acompanhavam aos capitães quatro creados do duque, todos valorosos e bem

armados com ordem de que, se vissem mais de que uma pessoa, sahissem do

logar onde estavam. Foi o duque áquelle logar assignalado esperar a meia

noite. Eis que chega ao estribo do coche uma mulher embuçada; e,

perguntando ao duque se a conhecia, o duque lhe respondeu que não; e

ella lhe tornou que era D. Anna Saraiva, que havia muitos annos o duque

a vira e lhe fallara muitas vezes; e disse-lhe o duque que entrasse no

coche, e que fossem até á Cotovia, que era parte mais solitaria.

«Disse-lhe D. Anna Saraiva que lhe queria mostrar como uma menina, que

estava em caza do conde de Castello Melhor não era filha d'el-rei, posto

que tractada por tal. Perguntando-lhe o duque como o sabia, lhe

contou toda a historia, e disse que, morando Agostinho Nunes nas cazas

do armeiro-mor, a convidou para ir ver botar uma náo ao mar; e que alli

vira uma moça bem parecida, descorada e com o cabello cortado; e que,

perguntando-lhe algumas cousas a fim de saber quem era, e que vida era a

sua, lhe respondeu que as más cores do seu rosto eram effeito da sua

dor, e os cabellos lhe haviam sido cortados pela mão d'el-rei. Foi D.

Anna, que era destra, inquirindo a môça, até que esta lhe manifestou sua

desgraça, e disse que se chamava Chatharina Arrais; e, galanteando-a

Manoel Arrais seu primo em Coimbra, viera para Lisboa com animo de casar

com elle; e que, morando em umas cazas com o dito seu primo, a foram

furtar uma noite Agostinho Nunes e Henrique Henriques, e a levaram ao

paço, e pernoitou na camara de el-rei: que seu primo morrera de magua em

Coimbra, e ella fôra para casa de Agostinho Nunes, onde se achava, e

fôra obrigada a dizer, quando desse á luz, que a creança era filha

d'el-rei; e sobre isso lhe fizeram grandes tyrannias até chegar el-rei a

cortar-lhe os cabellos. Disse mais D. Anna Saraiva que D. Catharina

Arrais estava freira em Santa Anna, e que ella lhe fallara, e estava

resolvida a vingar-se, declarando a verdade. Chamou o duque a

Agostinho Nunes e em presença de Duarte Ribeiro foi inquirido e disse a

verdade. Resolveu-se o duque a ordenar a Aurelio de Miranda, tabellião

de notas, fosse ao campo de Santa Anna, perto da egreja, e alli

esperasse recado d'elle duque; o qual deixando Augusto Nunes no seu

coche, mandou dizer á prelada que quizesse fallar-lhe; e, vindo a

prelada, lhe disse que tinha que fallar com Catharina Arrais, e sua

mercê lh'a mandasse á grade. Assim fez. Appareceu; e, dizendo-lhe o

duque que não vinha tirar-lhe a sua tença, antes conservar-lh'a; que

elle sabia a verdade do que tinha passado; que convinha muito que o

depuzesse em juizo, e que elle pediria licença á rainha para tal

deposição. Veio Aurelio de Miranda. Disse D. Catharina o que havia

succedido, e assignou. Averiguada esta materia, foi D. Luiza tirada pelo

corregedor da côrte de casa do conde de Castello Melhor, e o infante lhe

deu uma tença. Tirado este impedimento, se processou a causa de divorcio

até final conclusão, etc.»

Até aqui a fantasia do historiador, atando alguns lanços verosimeis com

outros de todo o ponto irracionaes. Que precisão tinha D. Anna Tavares

de revelar o mysterio, a deshoras, nas escadas do Loreto? De quem

se temia ella, se tinha por si a rainha, o infante, o duque, Agostinho

Nunes e todos quantos haviam sido alcayotes do rei preso? Quem teve a

sandia credulidade de acceitar que D. Catharina, á primeira vez que via

D. Anna, lhe contasse as miudezas vilipendiosas de sua vida? E o caso de

el-rei lhe cortar de mão propria as tranças, por que ella se recusava de

o acceitar como pae da creança que havia de nascer? Claro é que os

personagens d'aquelle tenebroso drama de cruezas e devassidoens eram

melhores algozes que romancistas.

Todavia é certo que soror Catharina recebeu sua filha, e, segundo a

vontade de quem lh'a pensionára, quiz que ella fosse religiosa. Estava,

porém, um amor infantil começado em casa do grande ministro de Affonso

VI com D. Pedro de Mello e Alencastre, fidalgo de primeira plana,

aparentado com os Castello-melhor. O moço, com quanto nobilissimo,

olhava timidamente para a filha do rei; mas, depois que a prepotencia

rebaixara a jerarchia de D. Luiza, complanou-se o terreno em que elle

mais affoitamente podia requestal-a.

Estreitaram-se as relaçoens amorosas--tanto quanto os degenerados

mosteiros do tempo as facilitavam--mantidas, ainda assim, no mais

alto ponto da honestidade. D. Pedro de Mello e Alencastre casou com D.

Luiza de Portugal, e viveram em uma quinta do Riba-Tejo, em um quasi

desterro imposto pelo contrariado infante.

Houveram varios filhos todos varoens, e um d'estes, D. Prior de

Guimaraens, de amores com uma dama da côrte e de stirpe muito selecta,

reconheceu sua filha D. Maria de Portugal, que casou com Marco

Franchiosi, filho de um conde milanez, que militara em Portugal, no fim

do reinado de D. Pedro II. Seguiu-se, neta de D. Luiza, D. Maria Izabel

Franchiosi de Mello e Portugal e Alencastre, dama da côrte da rainha D.

Marianna de Austria, acolhida pela soberana por dó da extrema pobreza em

que a deixára o pae, homem de vida estragada.

N'este tempo, appareceu em Lisboa um provinciano riquissimo, de Pinhel,

chamado Salvador da Costa Fagundes, a quem D. João V fez capitão de

cavallos, deu habito de Christo, foro de fidalgo, e nomeou sargento mór

da sua terra.[7]

Este Salvador Fagundes, movido pela formosura e prosapia da açafata da

rainha, casou com D. Maria Izabel, segunda neta de D. Luiza de

Portugal.

Tiveram quatro filhos: um que succedeu na casa, dois que professaram em

Santa Cruz de Coimbra, e uma senhora que se chamou D. Maria Escolastica

Pulcheria Fagundes de Alencastre Portugal.

Esta menina, que vivia na côrte em casa de parentes, amou um official

francez chamado Hilario Lescoeure Rolem, (_Rolin?_) com o qual fugiu

para Azeitão e mais uma filhinha nascida em Lisboa. Por Azeitão viveram

anno e meio clandestinamente em uma quinta que o francez ali comprara.

Descoberto e perseguido pela justiça, o official foi assassinado em acto

de resistencia, e D. Maria reconduzida aos seus parentes, depois de ter

deixado entregue a Joaquim Eusebio, moleiro em Azeitão, a filha, que se

chamou Marianna Joaquina.

D. Maria, em 1808, forçada pelo irmão, casou para o alto Minho com o

representante de uma casa antiquissima, cujos appellidos omitto em

respeito a seus netos.

E, como em 1816 ficasse viuva, foi a Lisboa, e encarregou um seu

afilhado, official de marinha, de procurar Marianna em Azeitão, e

convencêl-a a seguil-o para Lisboa, se tivesse a fortuna de a encontrar.

O official encontrou a filha de sua madrinha moirejando no cazebre

do moleiro. Facil lhe foi movêl-a a acompanhal-o.

Orçava então pelos treze annos D. Marianna Elisa. Era linda quanto Deus

podia fazel-a. A mãe nobilitou-lhe o nascimento com as suas lagrimas, e

entregou-a aos disvellos de uma franceza illustrada que se chamava

madame Chapsal.

A mãe demorou-se com a filha alguns mezes, fez-lhe doação da quinta de

Azeitão revindicada de illegitimos possuidores, estabeleceu-lhe

abundantes recursos, e voltou para a provincia, onde tinha filhos na

primeira infancia.

Não sei se esta senhora voltou a Lisboa desde aquelle anno até ao de

1819 em que faleceu, depois de haver rogado a um provedor Ferraz, então

seu hospede em Ponte do Lima, que entregasse a Marianna o seu cofre de

joias, não podendo legalisar-lhe outra herança.

Este Ferraz, quando entregou as joias, rendeu-se por tal feitio á

belleza da orfan, que não houve mais desenliçar-se d'aquella fascinação.

Por desventura, o provedor era rivalisado por um gentil cadete de

cavallaria, de nome Antonio Sicard.

Travou-se entre os dois emulos batalha de odios abafados, que mais tarde

levaram Sicard, já alferes de cavallaria, por denuncia aleivosa de

Ferraz, á Torre de S. Julião, onde morreu.

Presume-se, todavia, que D. Marianna decidira o pleito a favor do

cadête, por maneira tão decisiva e inappellavel que se estadiava em

publico, de braço dado com o esbelto môço.

Tambem conjuraram bastantes tradiçoens a confirmar que o desembargador

Ferraz, homem teimoso e rico, lográra tal qual dominio no coração de D.

Marianna, á custa de liberalidades, entre as quaes realçavam o palacete

e a carruagem.

Que D. Marianna de Portugal quiz mais tarde legitimar um filho para

succeder na herança do magistrado é de todo o ponto inquestionavel,

segundo jura o prior de S. Nicolau; mas essa creança não desdoira os

creditos da quinta neta de Affonso VI. Era um filho artificial.

A opinião publica desdoira as mães dos filhos naturaes; dos artificiaes,

não. Ultraja-se a natureza e respeita-se a arte.

Vivia D. Marianna de Portugal fóra de portas, quando D. Miguel a viu.

Sua sexta avó D. Catharina Arrais soprara a mesma lavareda no peito de

Affonso VI. Mas o real amante, graças á brandura de costumes d'este

seculo, não a tosquiou, antes lhe beijou as tranças, e se deixou

encadear por ellas. Tambem não consta que Marianna se doêsse do pejo da

maternidade, á imitação da freira de Santa Anna, consoante o duque

de Cadaval a calumniou. Muito pelo invéz: ella adorava o principe, e

sentia-o na alma e no sangue quando a creança lhe palpitava no seio.

Attesta o coronel José Joaquim do Cabo Pinto, no opusculo reeditado por

Victor Hugo José Alves, que D. Marianna visitava D. Miguel de dois em

dois dias. Isto não me parece exacto. Pendo a crêr que ella o visitasse

todos os dias. Quanto á espionagem, que lhe assaca o desbragado

commendador d'Aviz em estylo de tarimba, isso é calumnia a descambar em

parvoice. As espias absolutistas não tratavam com o rei directamente:

começavam no Miguel alcaide, e tocavam o ápice do valimento se levavam a

denuncia até ao intendente geral da policia.

D. Marianna de Portugal empobreceu durante a sua intimidade com o rei.

Para sustentar carruagem, libré e uma apparente abastança, vendeu as

joias da mãe, depois que exhauriu o peculio que amealhara nos cofres do

desembargador. Animo isempto e estreme de vil ganancia ostentou-o

nobremente quando o coração predominou e abafou os baixos sentimentos

que a pertinacia do desembargador lhe implantara na alma plebeamente

educada. Um amor grande com os luzimentos verberados da corôa real,

devia ser segundo baptismo para o coração da neta de reis.

Acabada a guerra e desterrado o infante, D. Marianna estava pobre e

tinha uma filha.

O desembargador Ferraz volveu a procural-a como amigo, como protector, e

como velho inveterado de paixão, agora exacerbada pelos realces que o

amor de D. Miguel haviam resurtido da belleza de D. Marianna.

Se é preciso confessar que a desvalida senhora acceitou a protecção do

magistrado por amor á filha e desamor á penuria, diga-se o delicto bem

alto, e haja de lhe perdoar em silencio a notoria sensibilidade do leitor.

Voltou a neta de D. Catharina Arrais a equipar sege e lacaios; mas, em

1838, o desembargador, aquelle Merlin cupidineo, levou comsigo para o

inferno dos desembargadores a lanterna milagrosa que fazia prodigios de

ouro á volta de Marianna.

Recorreu a mãe de Maria José ao expediente da hospedaria. N'esse trato,

ia provendo á educação da filha, e costeando certas pompas um tanto

desbotadas, mas incongruentes ainda assim com o seu estado. Contrahiu

dividas, precipitou a queda na rampa da uzura; e é bem de presumir que o

agiota, de quem a filha herdou, a desbalisasse a termos de lhe não

poder a consciencia com o roubo. Exemplo unico.

O insulto publicado em 1840 impeçonhou a vida da infausta vergontea de

Bragança. Os tres annos que ainda arrastou á volta da filha, como quem

se estorce e despedaça entre o amor de mãe e a necessidade de morrer,

foram expiação acerba, purificação que nos torna respeitavel a memoria

d'esta senhora de tão illustre sangue.

O Carrasco de Victor Hugo José Alves · 第 8 / 10 段