pejo e a dignidade empéciam-lhe a eloquencia da palavra, realçando-lhe a
do silencio. O conde olhou na face das creanças uma por uma, chamou-as
para si, e disse brandamente:--É necessario fazermos homens estes
pequerruchos... Então que querem ser? Provavelmente generaes. Quasi
todas as creanças querem ser generaes...
--Seduzidos talvez pela fortuna militar do avô...--interrompeu Tavares;
e continuou animado pela communicativa lhaneza do millionario.--O que eu
muito desejo obter do valimento de V. Ex.ª, mediante a protecção d'esta
senhora que bondosamente nos recebeu, é que os meus quatro netos sejam
recebidos em algum azilo de infancia desvalida. Eu já requeri ao actual
governo, documentando o requerimento com os meus serviços de soldado,
desde 1801 até ao anno em que eu devia ter desertado da bandeira jurada,
para estar hoje na alta posição onde subiram os meus camaradas
desertores. Escravo da obediencia e da disciplina, segui os meus
generaes e acabei a minha carreira onde a honra me fez parar. Ora,
se a extrema da honra foi ao mesmo tempo para mim o começo da penuria,
isso é questão que não vem ao ponto, nem que viesse eu importunaria V.
Ex.ª com queixumes e lastimas. Requeri, pois, pedindo a admissão de meus
netos no collegio militar. A absurdeza do pedido era pelos modos tamanha
que o meu requerimento nem sequer mereceu a consideração de ser
indeferido. Fechadas as portas da justiça, bati ás da caridade. É V.
Ex.ª, snr. conde, o bom anjo que sahiu a escutar os meus rogos, e...
--Muito bem...--obstou o conde, amargurado pelas lagrimas do
velho.--Tenho entendido que V. S.ª deseja que os seus netos sejam
recebidos em algum estabelecimento de educação... Ámanhan, á hora da
tarde que lhe convier, queira enviar-m'os a minha casa...
O conde affagou as faces dos meninos, que lhe beijaram as mãos, sorrindo
para elle com a graça do infantil amor que vem do coração das
creancinhas aos labios que ainda não sabem agradecer. Depois, ergueu-se;
apertou francamente a mão do venerando veterano; cumprimentou-lhe as
filhas, que o contemplavam com os olhos anuviados de lagrimas; e
despediu-se de D. Maria José, que o fitava com estranho e amoravel olhar.
Ao entardecer do dia seguinte, Christovão Tavares entrou na loja da
luveira impando de cançasso e exultação. Contou que o snr. conde o
mandára entrar com os meninos para a sala, onde elle estava com um
sujeito, a quem dissera:--Aqui estão os seus alumnos.
--Era o director d'um collegio de primeira ordem--ajuntou o velho.--O
snr. conde enviou os meus netos a um collegio, minha senhora, com ordem
de os proverem de roupas abundantes, de todo o enxoval prescripto aos
meninos ricos. Depois, os pequenos e mais eu e o mestre entramos na
caleche do snr. conde, e fomos a minha casa despedil-os das tias que
choravam de contentamento. O generoso moço disse-me á sahida que fosse
todos os mezes ao escriptorio d'um cambista á rua dos Retrozeiros, e que
hoje mesmo lhe apresentasse um bilhete que me deu. Eu estava por tal
maneira aturdido e embriagado de felicidade, que nem sei se lhe
agradeci... Os desgraçados, minha senhora, quando de repente se acham a
respirar uma atmosphera que não é a sua, suffocam, ouram, e não se acham
em si mesmos, no seu habitual viver de escura cerração!... Fui á rua dos
Retrozeiros, apresentei o bilhete, e recebi cem mil reis! Eil-os
aqui, snr.ª D. Maria! Cem mil reis para cada mez! E quatro netos no
collegio a expensas d'aquelle anjo que a Providencia divina mandou
travar a roda da minha desfortuna! Veja isto, minha querida senhora! Se
eu me não affizer a esta luz que me alumia o fim da existencia, receio
enlouquecer de alegria! Mas tanta felicidade é a V. Ex.ª que a devo...
--A mim, snr. Tavares?! pois que fiz eu?
--Que fez, meu Deus?! Recebeu-me na sua casa; olhou compassivamente para
minhas filhas, disse palavras amorosas aos meus netos, e quiz que o snr.
conde nos visse atravez do seu coração... Oh! eu creio que este milagre
o fez a piedade abraçada ao amor... Quem nos deu o pão abundantissimo, o
vestir, a casa com ar e sol, o acordar alegre sem o fantasma da fome
diante, o futuro das creanças... quem foi senão a... futura condessa de
Baldaque?
Ao proferir as ultimas palavras, o velho pegára convulsante da mão de D.
Maria José e collára n'ella os labios tremulos.
A filha de D. Miguel sentira n'esse lance mui deliciosa commoção, um
alvorecer de luz em cheio na alma, a revelação subita d'um amor, o
primeiro, com as santas alegrias da pureza, e a confiança profunda nas
virtudes do homem amado. A revelação, em tom prophetico, feita por
aquelle velho de barbas brancas orvalhadas de lagrimas, soou-lhe na alma
com religiosa suavidade.
O instante foi solemne. A poesia pode engrinaldar o quadro com as suas
flores e a moral regosijar-se, como é justo, de um caso de amor nascido
em condiçoens tão honestas.
Eu, de mim, menos attreito que o leitor á idealisação de coisas
naturalmente explicaveis, penso que ella já o amava tão devéras e de
dentro da consciencia, que, se o conde descorçoado por desdens, se
vingasse esquecendo-a, teria levado pela mão da saudade a filha do
principe á sepultura; mas ás fragilidades das amorosas mais celebradas,
não.
Isto é o que me parece; mas não afirmo que assim houvesse de acontecer.
Sei historias de amores tão bem começadas como esta e acabadas nas
enfermarias das loucas. Os personagens masculinos d'algumas andam ahi ao
flaino ainda com a sua velhice tingida e sadia. Creio que o castigo
d'elles é andarem pintados; mas o diabo conhece-os, apezar do fluido.
Elles lá irão cair-te nas prezas, ó horrendo Minos!
XIII
DESASTRE DO GATUNO
Vem agora aqui o casar.
D. FRAC. M. DE MELLO, Carta de Guia de Casados
Aquelle rapaz abrazado de cara, a refulgurar uns olhos vertiginosos á
feição dos ebrios, cercado de gente, que o escuta, á mesa redonda do
Hotel Bragança, é Victor Hugo José Alves.
O energumeno vocifera contra certa mulher que o trahiu. Conta que lhe
immolou as convicçoens politicas, a juventude e a liberdade. Diz que por
amor d'ella apostatára do socialismo, renegára das crenças republicanas,
furtára ao edificio do futuro as achêgas do seu talento, e puzera o seu
nome illustre debaixo das maldiçoens da posteridade.
Alguns convivas riem de esguêlha, em quanto outros lhe vão solicitamente
reparando o destroço que elle faz no kumel, acinte pedido para
afogar a hydra que lhe roe as fêveras da alma.
Disse elle mais que essa perfida havia casado no dia anterior com o
filho de um negreiro que morrera conde, transmittindo ao herdeiro, com a
herança ignominiosa de tres milhoens, o titulo, o pergaminho onde o
ministro fizera assignar ao rei a abdicação da sua moralidade.
Acrescentou que o segundo conde de Baldaque se deixára embair do ardil
de uma luveira, que se dava ares de princeza bastarda, tendo sido sua
mãe uma famosa aventureira que não poderia com exactidão apontar o pae
aos filhos que tivera. Disse mais... Não disse mais nada, porque n'este
comenos estalava-lhe em cada face uma bofetada das que entupem os jorros
da mais caudal eloquencia.
O que dera aquellas provas muito equivocas da sua admiração á
objurgatoria do poeta era um velho barbaçudo, de espessos bigodes
brancos, alto, gravemente vestido, magestoso aspeito de soldado da
guerra peninsular. Era o ex-brigadeiro Christovão de Pina Tavares.
Victor Hugo, estupefacto da injuria e talvez atordoado do choque,
encarou fremente, mas silencioso, o veterano que elle perfeitamente
conhecia.
--Villão!--rugia o velho com os olhos brilhantes da chamma dos vinte
annos--Torpissimo gaiato que insultas a senhora que roubaste! Bandido,
que comes no Hotel Bragança os tres contos de reis de...
Tavares susteve-se, reprimido pela mão da caridade. O homem, que havia
bebido o fel da injustiça, receiou ultrapassar o direito do castigo.
Conteve-se, vendo o quebranto do miseravel, e o fundo abysmo a que podia
tombal-o com o pé.
Outro militar, general das fileiras da liberdade, antigo camarada de
Chistovão Tavares, e seu convidante n'aquelle jantar, tirou-lhe com
força pelo braço, e levou-o.
Os galhofeiros ouvintes de Victor sahiram de espaço, sem sequer
averiguarem da injustiça do insulto. Elle, porém, restaurado da pancada
moral, recolheu-se ao seu quarto, atirou-se contra o estofo d'uma
voltaire, fincou os dedos na testa, e resmuneou cabeceando entre as
sacudidelas da colera e dos gazes da indigestão:
--Ó minha vingança!... Ó minha vingança!...
Terribilissimo, formidando e medonho pela cara que fez então!
Quando, passados minutos, o criado lhe entrou ao quarto com os
castiçaes, Victor Hugo remetteu contra elle, bramindo:
--Que queres?
E cambaleava como se as luzes lhe inflammassem o alcool.
--Que queres?--tornou elle de murros apontados á cara innocente do gallego.
--Trago as luzes, snr. Victor Hugo...--tartamudeou o moço assombrado.
--Vai-te!... Deixa-me!... Negro, negro, quero tudo negro, como a vingança!
O criado sahiu, e disse á criada, que espreitava o poeta:
--Safa-te, que elle está borracho!...
Safemo-nos tambem nós: deixemol-o gizar a traça da vingança; não
assistamos áquella alchimia diabolica; que o kumel e o cognac se lhe
destillem em peçonha escorrida da fornalha do cerebro ao coração.
Mas quem disse a Christovão Tavares que o seu correligionario consumia
em golodices francezas, no famigerado hotel, as inscripçoens da condessa
de Baldaque?
Não foi ella.
Acontecera, como era natural, contar a luveira ao conde o destino que
dera aos seus apoucados haveres. Esta confidencia--bem se lembra o
leitor--denegada n'outra occasião, fêl-a espontaneamente depois
que, sem rodeios nem contrafeito pudor, disse ao conde que o amava.
Similhante revelação realçou-lhe a virtude no conceito do noivo. Nada
mais formoso, mais para se adorar que a pobreza tão de vontade, o
despojar-se a magnanima senhora em beneficio d'um pae que lhe não
enviára sequer palavra de agradecimento! Esta magua tocara-lhe o
coração; mas sem queixar-se.
Entretanto, o conde, quando soube quem tinha sido o medianeiro da
remessa do dinheiro, suspeitou da fraude, sem todavia insinuar ao animo
de D. Maria as suas desconfianças.
Neste tempo, o brigadeiro Tavares era muito da casa do conde, e estimado
como amigo com todas as excellencias de leal caracter, ao passo que D.
Maria José solicitára a familiaridade das filhas a quem communicava as
delicias do seu amor.
Contou o conde a Tavares o lance admiravel da remessa do dinheiro; mas,
duvidando que o principe proscripto o recebesse, encarregou o velho de
averiguar dos maioraes do partido legitimista, se alguem, auctorisado
por D. Maria José de Portugal, remettera tal quantia ao snr. D. Miguel
de Bragança. O indagador levava instrucçoens para não citar o nome
do medianeiro, talvez com o proposito de lhe não ferir o pundonor, se
elle houvesse honradamente cumprido o encargo.
A commissão de soccorros respondeu que nenhuma quantia lhe fôra entregue
de ordem de tal dama; posto que muitas vezes, nas reunioens onde
concorria Victor Hugo José Alves, se houvesse mencionado tal senhora
como filha d'el-rei o snr. D. Miguel--filiação aliás duvidosa para elles
membros da commissão de soccorros.
No dia immediato, Christovão Tavares entregava tres contos de reis aos
encarregados de remetter para Heubach os donativos, e pedia que se
fizesse chegar ao conhecimento de D. Maria José de Portugal qualquer
palavra que o snr. D. Miguel escrevesse a tal respeito.
Antes de volvidas tres semanas, a commissão de soccorros enviava, por
via do ex-brigadeiro, á luveira da Rua Nova da Palma, uma carta do
principe proscripto ao vice-rei, perguntando-lhe se a senhora que tão
generosa o visitava no seu desterro era filha de Marianna Franchiosi
Rolim de Portugal.
O conde, disfarçando a parte que tinha no jubilo da sua amiga, assistiu
ao mavioso espectaculo da ternura com que ella beijava a carta do pae.
Dizia então D. Maria, para aliviar escrupulos de ter sido injusta:
--Olhe, Raul, eu nunca lhe disse isto; mas digo-lh'o agora como quem se
alivia de um peccado, confessando-o. Cheguei a desconfiar que Victor
Hugo não mandasse o dinheiro. Nunca ousei perguntar-lhe por nada,
receiando que elle me adivinhasse a suspeita... Pobre rapaz!...
E o conde sorria, sem lhe entre-mostrar uns longes da verdade.
Tavares, por sua parte, obedecia ás ordens do conde, guardando, com
superior esforço e dolorosa violencia, o segredo do roubo. Quando, ainda
assim, encontrava o ladrão entre os homens de bem do partido
absolutista, o velho descorava, torcia-se, gaguejava monologos,
resfolegava fumaradas de colera, e fugia com o segredo, que lhe pezava,
como se levasse sobre a alma um enorme remorso--remorso de não avisar os
seus correligionarios.
Uma vez pediu com as mãos erguidas ao conde que o deixasse expulsar
d'entre os realistas aquelle hediondo larapio. E o conde respondeu:
--Isso é de justiça; mas deixe-me casar e saír de Portugal; depois,
quando minha mulher estiver longe, fará o que entender. Não lhe
roubemos á feliz menina o prazer de ter sido d'ella o dinheiro que D.
Miguel recebeu. Se o snr. Tavares denuncia o furto, o escandalo andará
tão fallado por essa Lisboa que D. Maria será das primeiras pessoas que
o saibam.
N'este bom proposito, esperava o velho, quando concorreu áquelle jantar,
a convite do antigo camarada, que solemnisava n'esse dia, com duas
garrafas do Porto, a sua reforma em marechal de campo. A garrafa
correspondente ao ex-brigadeiro, a gratidão e a honra cooperaram
n'aquelle impeto das duas bofetadas. Mas, graças ao sentimento de
commiseração que o reteve, os circumstantes não perceberam senão que
Victor Hugo insultava uma senhora a quem havia roubado tres contos de reis.
No dia seguinte, contava-se o caso no Chiado. Uns diziam que Victor
havia sido amante da luveira casada agora com o conde, e lhe gatunára a
herança que ella tivera d'um agiota. Esta era a opinião dos sugeitos
contusos por Damião Ravasco. Outros, rejeitando a tradição mais
corrente, asseveravam que a roubada tinha sido uma marqueza velha, e que
o official realista, que bofeteara o litterato, era amante da marqueza
desde 1801--ou 1789, acrescentava o meu amigo José Parada para quem
todos os infortunios eram cornucopias de chalaça.
O conde, recolhido á dôce intimidade do noivado por muitos dias, ignorou
o successo; e, quando saíu, não houve indiscreto que lh'o referisse.
No emtanto, Victor Hugo dava que scismar aos seus partidarios, não
comparecendo nas reunioens onde innocentemente conspiravam os letrados
da causa; nem sequer nos saráos somnolentos, onde a idéa velha passava
as noites cabeceando acalentada nos braços do snr. padre Beirão e d'outros.
Naturalmente se explica o desvio do cavalleiro da Ala pelo justo receio
de ser interrogado ácêrca dos tres contos de reis, sabido já o roubo
pelo ex-brigadeiro, que tinha accesso ás casas principaes, e reputação
de homem honesto.
E mais depressa ainda se esclarece a conversão d'este desgarrado bode ao
seu rebanho antigo,--á seita dos carbonarios, reorganisada em 1848, com
elementos combustiveis de tanta força, que todos se vaporaram, deixando
as fezes ahi por essas secretarias do Terreiro do Paço, encrustadas nas
pastas dos ministros que foram, que são, e hão de ser. Diziam os
seus confederados na loja: que Victor Hugo, restituido á bandeira que
desertára por amor d'uma ingrata Dalila, nunca fôra tão Samsão na força
do verbo, tão Hugo na energia das figuras, tão republicano na medula dos
seus ossos. O seu auditorio destampava em gargalhadas quando o Fuas
Roupinho da esquadra naufragada, zombando do seu proprio appellido de
guerra, chacoteava da ordem de S. Miguel, que elle denominava a
cavallaria desferrada do archanjo.
É justo que não se esqueça, na correnteza d'estes casos, a familia
d'esta pessoa.
D. Rozenda Picôa, assim que viu annunciado o casamento de D. Maria José
de Portugal, deliberou visital-a e manter boas relaçoens com a sua
hospeda, visto que a fortuna caprichosa a collocara na posse pouco
vulgar de uma corôa de condessa com tres milhoens.
Annunciou-se ao guarda-portão do palacio. Tangeu-se uma campainha.
Desceu um escudeiro que recebeu o nome da visita. E com demora de alguns
minutos, voltou o escudeiro dizendo que a snr.ª condessa não recebia.
--Então porque?!--perguntou D. Rozenda abespinhada.
--Porque não quer... É boa a pergunta!--respondeu o escudeiro com altivez.
--Não quer?!--redarguiu a mãe de Victor.
--Então a snr.ª luveira já não conhece as amigas velhas?... Não?... Ella
me conhecerá!...
E saíu enfurecida em busca do filho, deliberada a conciliar-se com elle
para collaborarem na vingança.
Em abono do benigno coração da condessa cumpre saber-se que ella
receberia com alegre sombra a visita de D. Rozenda, se o conde, ao ouvir
proferir o nome da mãe de Victor Hugo, não pedisse brandamente á esposa
que se abstivesse de receber tal senhora.
Perguntou ella que razão havia para não a receber. O conde respondeu:
--Deve ser muito forte a causa que me faz contrariar-te pela primeira
vez, minha filha. Tu a saberás. Por em quanto, basta que eu te diga que
esta mulher é mãe de um homem que os meus lacaios recusariam acceitar
nas suas assemblêas de taverna. Sabes de mais que eu não defendo minha
casa aos pobres; as tuas amigas e os meus amigos são todos pobres. Se
essa senhora está necessitada, soccorre-a; mas não a recebas, porque é
mãe de um homem que está hoje escarnecendo os amigos de teu pae.
A condessa ficou sabendo que Victor Hugo renegara da sua quarta ou
quinta religião politica, e mais nada. Observava ella porém:
--O que a mim me admira, Raul, é ter elle entregado os tres contos de
reis! É uma honra que não se entende bem a d'este homem!...
XIV
A VINGANÇA
_Sunt quædam quoe honestè non possum dicere._
Ha ahi coisas que eu não posso honestamente referir.
CICERO, Seg. Philipica.
Tenho á vista o folheto que Rozenda Picôa entregou ao filho, feito o
pacto de vingança.
Em 1840, desoito annos antes dos successos até aqui referidos,
publicou-se em Lisboa, na _Typographia portuense_, estabelecida na rua
da Palmeira n.º 36, um opusculo de 23 paginas em 8.º, intitulado: _A
villan fidalga. Ou aventuras e transformaçoens da filha d'um moleiro
conhecida em Lisboa pela alcunha de D. Marianna Joaquina Franchiosi
Rolem Portugal, moradora actualmente na Travessa nova de S. Domingos n.º
4, segundo andar_, etc.
O signatario do opusculo, Luiz Caetano da Rocha, principia por uma
_Breve exposição_ na qual relata que Marianna Joaquina o arguira de
falsificador de um titulo de divida, em que a assignatura da querelante
era imitada. O ministerio publico tambem querelara. Luiz Caetano, depois
de oitenta dias de cadeia, foi ao tribunal para assistir á ratificação
da pronuncia.
O advogado da accusação era Abel Maria Jordão, que morreu visconde de
Paiva Manço; o da defeza era Antonio José Dique da Fonseca. Arcaram os
dois athletas forenses com toda a pujança da sua notoria habilidade.
Diziam os espectadores que o melhor causidico de D. Marianna era a sua
formosura, bem que ella orçasse então pelos trinta e nove annos. O certo
é que a parcialidade do juiz e delegado eram por tanta maneira
insidiosas que o patrono do réo foi chamado á ordem, quando contava aos
jurados a vida escandalosa da auctora. Quer, porém, o jury se deixasse
vencer do soborno ou convencer da justiça, é certo que não ratificou a
pronuncia e affirmou que era dolosa a querela.
Vem depois o réo absolto á imprensa com os documentos que o seu advogado
não logrou ler no tribunal.
Examinemol-os succintamente, bem longe de os acceitarmos com a
importancia que o foliculario lhes dava quando escrevia: _talvez que
ainda uma penna habil se sirva d'estes documentos para compor uma
novella... a qual mostrará que no mundo muitas vezes o plebeu se atavia
com as galas da nobreza, o vicio se encobre com a capa da virtude, e nem
tudo é o que parece_.[3]
O primeiro documento é um attestado onde se diz que Marianna Joaquina,
filha de Eusebio Joaquim e d'outra Marianna Joaquina fugira de Azeitão
em 1814 com João Lopes Giraldes.
Do segundo documento convem trasladar o seguinte, que é já copiado da
nota do tabellião de Lisboa Thomaz Isidoro da Silva Freire (Livro 214,
folhas 103):
_Saibam quantos este instrumento de declaração virem que no anno do
nascimento de nosso Senhor Jesus Christo, de mil oito centos e trinta e
um, aos vinte e nove dias do mez de novembro, n'esta cidade de Lisboa,
na rua da Magdalena n.º 70 e casas de morada de D. Marianna Joaquina
Franchiosi Rolem, aonde eu tabellião vim, estando ahi presente Eusebio
Joaquim da Silva, morador em Villa Fresca de Azeitão, e por elle
foi dito na minha presença e das testimunhas ao diante nomeadas: que, no
anno de mil oito centos e quatro, lhe foi entregue e a sua mulher
Marianna Joaquina da Conceição, uma menina para crear, a qual viveu em
sua companhia, e da dita sua mulher na Villa d'Azeitão, reputada como
sua filha até á edade de treze annos para quatorze em que se casou, e
que agora pela prezente escriptura declara que a referida menina é a
dita D. Marianna Joaquina Franchiosi Rolem, e que não é sua filha, nem
com ella tem parentesco algum, e que esta declaração promette, e se
obriga haver em todo o tempo por firme e valiosa. Estando tambem
presente a dita D. Marianna Joaquina Franchiosi Rolem por ella foi dito
acceita esta declaração na forma d'ella._
O terceiro documento é um auto lavrado em 1838, na villa de Azeitão,
onde appareceu um José Antonio Atalaya, com procuração de pessoa que o
documento omitte, citando Eusebio Joaquim da Silva para jurar em sua
alma se D. Marianna Joaquina de Portugal residente em Lisboa, é sua
filha, e se ali possue uma quinta. Eusebio declara ser verdade o
allegado na petição.
Segue um documento denominado _Querela_.
É o traslado da querela que deu em 1821 contra Marianna Elisia, mulher
solteira, um Manoel Rodrigues, padeiro na Travessa do Secretario da
Guerra, queixando-se de ter sido roubado em objectos de ouro e diamantes
no valor de 848$000 reis.
Vem depois um attestado do solicitador de causas Antonio Gamarra,
passado em 1838, certificando que Marianna Joaquina da Conceição Elisia,
concubinaria do padeiro em 1821, era a mesma que, desasete annos depois,
se chamava D. Marianna Joaquina Franchiosi Rolem Portugal, e vivia na
rua da Emenda, onde tinha carruagem propria.
Accresce outra attestação do prior de S. Nicolau Francisco do Rozario e
Mello, datada em 1839. Jura elle _in verbo sacerdotis_ que, no anno de
1827, apparecêra no cartório da egreja de S. Nicolau uma mulher de
capote dizendo que pretendia se lhe baptizasse um menino filho de paes
incognitos, e que trazia procuração do desembargador Ferraz para ser
padrinho; mas, no acto de lançar o competente assento no livro, ella
observára que, sendo verdadeiramente padrinho quem tocava no menino,
melhor seria não designar elle prior como padrinho o dito desembargador,
mas sim o portador da procuração. Attesta mais o padre que, volvido
algum tempo, appareceu no mesmo cartorio uma senhora ostentando
grande personagem pela tafularia dos vestidos e carruagem de que apeara,
e disse chamar-se D. Marianna Joaquina Portugal; mas declara o prior que
logo reconheceu ser a mesma que solicitara o baptismo já referido. E
declarou a dama que tinha havido um filho do desembargador Ferraz, o
qual menino ali fôra baptisado como filho de paes incognitos.
Acontecendo, porém, ter proximamente fallecido o desembargador, ella
pretendia que no assento baptismal de seu filho se declarasse o nome do
pae. O padre recusou-se, sem que a competente auctoridade o
auctorisasse. Dias depois, voltou a mesma senhora com uma ordem do
vigario geral, o desembargador José Gonçalves Pereira, mandando proceder
o prior ás diligencias necessarias para averiguar se o menino Francisco
era filho do desembargador Ferraz. Em observancia de tal mandado foi o
prior a casa de D. Marianna de Portugal, e ouviu o depoimento de tres
mulheres; todavia, no dizer do padre, as testimunhas eram tão discordes
nas circumstancias, que nenhum credito lhe mereceram. E acrescenta que
tendo elle despedido um preto seu criado, o preto entrou no serviço de
D. Marianna de Portugal; e, voltando para casa d'elle prior, declarara
que na casa, d'onde sahira, havia um menino comprado para herdar
d'um homem rico e fallecido.
Temos agora outra attestação, que vae integralmente copiada: