--Fui eu que sacudi o pó a dous pirangas que...

--Tornas ao fadario antigo?... Que te fizeram?--volveu o conde mal

assombrado.

--A mim? nada...

--Então a quem?

--Estavam a rinchar pachuchadas e chalaças á senhora alli da loja como

quem derriça por uma mulherinha de pouco mais ou menos. Figurou-se-me

que o snr. conde, se cá estivesse, faria o mesmo que eu fiz... Os

cavallos estão endiabrados com a mosca! Olha a rédea falsa, rapaz! Vai

ahi até ao Rocio, e desanda. Toca!... Não me deixes escarvar o gado que

se escabreia... Olha o cavallo da mão... não no vês a arrifar?

--Espera!--disse o conde ao sota.--Eu volto a pé... Damião, salta para a

almofada, mette os cavallos á cocheira, e espera-me em casa.

O mulato obedeceu constrangido. Vaticinava-lhe o coração que

ausentar-se era perder lanço de desemperrar as articulaçoens dos pulsos.

D. Maria de Portugal referiu o successo, colorindo-o nos promenores

improprios da sua narrativa; mas entremostrando, nas hesitaçoens

delicadas, que os offensores haviam merecido o castigo recebido.

N'esta conjectura, abeirou-se da porta um dos curiosos, que mantinham na

rua o auditorio á espera da explicação da desordem, e disse para dentro

que os dois janotas socados pelo mulato vinham do lado da Praça da

Figueira com tres municipaes.

--Snr. conde!--disse D. Maria assustada--rogo-lhe que se retire...

--Não me peça V. Ex.ª sacrificios em que a minha dignidade seja

violentada. Retirar-me de que perigos? O procurado pelos soldados de

certo, não sou eu! Prouvera a Deus que o fosse... N'este momento invejo

Damião; e prezo-o mais do que é costume prezar as pessoas que se invejam.

Dito isto, o conde assomou ao limiar da porta, a tempo que os soldados e

os dois respeitadores da intervenção judicial defrontavam com a loja.

O conde conheceu o amigo do deputado. Era um dos seus commensaes nas

ceas amostardadas por dançarinas, mulheres que dissolviam o coração

em champagne, e o espumavam nos labios em beijos acres de tanino. Os

quaes beijos, na alma deste contubernal do liberalissimo Raul, haviam

deixado contusoens menos duradoiras que os tres bofetoens do selvagem

americano nas maçans pizadas da sua cara.

Acercou-se o paralta da porta da loja e perguntou:

--Ó conde, ahi dentro está um preto?

--Não.

--O scelerado fugiu! disse o deputado.

--Não fugiu--emendou o conde.--De quem havia de fugir elle? De VV.

Exc.as? Dos soldados de certo não; porque seria injuriar dois

cavalheiros dessa laia, suppor que VV. Ex.as, castigados ao mesmo

tempo por um só homem, iam invocar a protecção de trez municipaes!

--Que ar é esse teu?--perguntou o lisboeta, estranhando o tom

insolentemente ceremonioso do conde.--Que tens tu com o assassino que

nos assaltou ahi na loja d'essa notabilidade protegida por sicarios de

tal casta?

--Vejo que a protecção da força armada--replicou rindo o conde--lhe

permitte á lingua a actividade que lhe falta nos braços!... O homem que

lhe bateu, não fugiu.

--Então onde está?

--Quer esclarecimentos para instaurar querella contra elle? Eu lh'os

dou. Chama-se Damião Ravasco, e vive na casa de Raul Baldaque, ás

Janellas Verdes... Procure-o lá.

--Ah! então o preto é da sua familia brazileira?--atalhou o lisboeta

casquinando.--Eu não sabia que a sua nobilissima raça era bicolor! E nós

a cuidarmos que o assassino era um bolieiro!--proseguiu o esmurraçado,

tregeitando jogralmente para o legislador melancolico.

--Ó camaradas!--disse o conde aos municipaes--a nação portugueza

paga-lhes para guardarem as costas a covardes d'esta ralé?

O que parecia mais auctorisado entre os soldados, voltando-se aos dois

queixosos, disse que elle e seus camaradas não tinham que fazer alli,

visto que o homem que os espancára já lá não estava.

E, como, depois se retirassem, os queixosos seguiram o exercito.

E logo a gentalha, o jury permanente das ruas, usando aquella sarcastica

philosophia que lhe dá a independencia dos farrapos, apupou os janotas,

socados por um mulato de jaleca.

--Lá vão a mastigar fructa do Brazil! dizia um caiador preto, floreando

o pincel com ademanes de vaidoso patriotismo.

XI

SOLEMNIA VERBA

Allons, de l'égoisme, de l'esprit, et de l'impudence,

e tu seras bientôt dans les grandeurs.

BALZAC.

Elle rugiu de indignação, e metteu na algibeira um rewolver de seis

tiros, quando soube que D. Maria José de Portugal tinha sido ultrajada.

Elle quem?

Victor Hugo José Alves--pois quem havia de ser?

D. Maria, n'aquella tarde da sova subministrada por Damião Ravasco,

nutava indecisa se deveria fechar o estabelecimento e obstar a novo

insulto, se affrontar animosamente as contingencias da sua posição.

N'esta penosa alternativa, em que de um lado preponderava a inflexivel

necessidade, e do outro lado o medo da zombaria, a encontrou Victor

Hugo.

O ingresso precipitado, que elle fez na loja esbofando, alvorotou a dama.

--Acabo de saber--disse elle, com intercadencias de asphyxia--que dois

biltres ousaram aggraval-a, minha senhora! Eu antevi sempre que V. Ex.ª,

baixando á plana onde se acha, seria alvo de taes vilipendios. O

sentimento de excelsa virtude, que lhe aconselhou tal passo, não podia

ser entendido n'este javardeiro de Lisboa. Ha dedicaçoens santas que se

não permittem ás mulheres formosas. É prohibido aos anjos avoejarem por

este inferno sem crestarem as azas. Eu avisei-a, snr.ª D. Maria José.

Contava com isto. Sei o que é esta sociedade. Esperava que a sua

innocente alma provasse o fel do intransitivo calix que está sempre

emborcado aos labios puros. Mas... não venho arguil-a... Venho saber os

nomes dos bigorrilhas que a offenderam!

--Não conheço as pessoas que me offenderam, snr. Victor--respondeu D.

Maria José, abafando o despeito que lhe causara o tom pretencioso da

censura.

--Mas aqui--volveu o cavalleiro da Ala, arejando-se com o chapéo e

chibatando a perna direita com a badine de caoutchouc--aqui estava

alguem que sabia os nomes dos dois birbantes!...

--Estava, sim. O conde de Baldaque sabe quem são: eu não sei.

--N'esse caso, vou procurar... sua excellencia... o snr. conde de Baldaque.

Victor Hugo pausou em cada syllaba uma accentuação ironica, deixando vêr

nos dentes caninos o azedume e a podridão.

--Procural-o...--acudiu D. Maria, mais receiosa da tolice que da

braveza--Procural-o!...

--Sim..., minha senhora.

--Para quê?

--Para que me diga o nome dos dois sujeitos que enxovalharam V. Ex.ª, se

é que o snr. conde não reserva para si a honra de a desaggravar.

--O favor do desaggravo já o recebi de um criado do conde; entretanto,

agradeço ao snr. Victor a resolução com que veio aqui.

--Mas eu, minha senhora!--replicou o filho de Rozenda, enroscando a

badine, e fazendo resaltar a ponta de uma para outra mão--eu lamento

profundamente que V. Ex.ª fosse desaggravada por um criado de quem quer

que seja. As senhoras, nascidas em degraus inferiores da escala social,

recusariam tão ordinario paladim; salvo se o conde de Baldaque pode

armar cavalleiros os seus criados.

D. Maria José encarou soberanamente no poeta, e disse:

--A final, que ares são esses que se está dando, snr. Victor? Depois das

zombarias dos homens que não conheço, vem V. S.ª com os seus motejos?

Estou em lhe dizer que os insultos dos estranhos não me ferem tanto como

as ironias das pessoas que me conhecem.

--Eu não a motejo, snr.ª D. Maria--acudiu Victor Hugo, compondo a cara

de visagens melodramaticas.--Queixo-me, deploro-me, appéllo do seu

orgulho para o seu coração. Uns peitos recalcados dão lagrimas; outros

dão sangue; e os mais infelizes são os que não podem desafogar chorando,

nem succumbem ao gume da ingratidão que os sangra e retalha... Os mais

dignos de lastima são os que a si mesmos se despedaçam com os gryphos do

escarneo. Mas eu queixo-me, senhora, sem accusar. Accusar a filha d'um

principe não ousa o vérme, o plebeu, a fronte onde a mão de Deus pode

ser que esculpisse a palavra GENIO...

(Em parenthesis: Victor Hugo, quando pronunciou a palavra «genio», não

fez algum signal indicativo que me auctorisasse a escrevêl-a em

lettras maiusculas, a não ser o tom, a pancada com que elle a proferiu,

batendo na testa).

--GENIO,--repetiu elle--só genio; corôa de conde, não: as corôas não as

dá Deus; compram-se cá. Vinte negros, vendidos depois de azorragados,

dão uma corôa de conde, snr.ª D. Maria José de Portugal. O sangue de

vinte negros n'um prato da balança; e no outro prato a corôa de conde.

Aqui tem como hoje na monarchia de seu pae se forjam os grandes do

reino, os senhores do novo feudo, os castellãos dos armazens de

molhados, os ricos-homens que conquistaram pendão e caldeira nas

arrancadas de Africa, nas costas de Guiné, pelos sertoens dentro, á

montaria das rezes negras, que se acurralam nos poroens dos açougues, e

se infeiram nos atrios dos palacios d'estes condes, d'estes Baldaques,

d'estes...

D. Maria, que o estivera escutando com os olhos baixos, relançou-lhe um

olhar de frecha, e disse:

--Está-me incommodando, senhor Victor! Lembro-lhe o dever de não

insultar uma pessoa ausente, que me tem tratado com a maior delicadeza,

e de quem V. S.ª não tem razão de se queixar.

--Estou-a incommodando!--replicou elle com espanto.--Onde foi V. Ex.ª

escavar palavra tão aviltante, tão despresadora!?... Diga-me antes que a

injurio. _Incommodar!_ Isso diz-se a um mendigo importuno, a um

miseravel que nos enoja, a uma lama que nos salpica o verniz das botas!

_Incommodar!_ V. Ex.ª perdeu a magnanimidade com que tratava os

humildes, antes de viver com os condes? A mim, senhora, devêra

incommodar-me o carcere onde estive por amor de V. Ex.ª, e não me

incommodou! Deviam incommodar-me as vaias, as zombarias dos

correligionarios que deixei por amor de V. Ex.ª, e não me incommodaram!

Devia incommodar-me o aprumo realengo das suas vozes sentenciosas quando

me falla, e não me incommodam; porque as ingratidoens de V. Ex.ª não

incommodam, dilaceram; não são fastidiosas como a impertinencia; são

percucientes como a ponta hervada d'um punhal!...

--Tanta palavra, meu Deus!--exclamou D. Maria José, rebuçando a ironia

no tregeito da admiração.--Todo esse excesso de sentimentalismo seria

bom de perceber, se algum acto da minha vida me obrigasse a dar conta

dos outros ao snr. Victor Hugo... Mas eu creio que não... A amisade não

explica o zelo de V. S.ª nem me força a respeitar a censura que me

faz. Se me avalía injustamente, sinto; mas não sei que lhe faça...

--Quer dizer--sobreveio o poeta--que ama o conde de Baldaque?

--Não, senhor; quero dizer que amo a minha liberdade.

--E nega que ama o filho do negreiro?

--Quem é o negreiro?

--O negreiro era o pae do _roué_, cujo escravo despicou V. Ex.ª. Vai bem

á filha do snr. D. Miguel de Bragança deixar-se requestar de um homem a

quem seu augusto pae daria como escudo um tagante sobre as costas negras

d'um ethiope a ressumbrarem sangue? Senhora D. Maria José de Portugal,

não responda: medite, e, depois dir-me-ha se eu devo noticiar aos

fidalgos portuguezes, com quem me dou, que V. Ex.ª fez d'este balcão uma

especie de altar baixo, ao réz da rua, bem baixo, para que algum ignobil

transeunte pudesse levantar até aqui o braço humilde e depôr o vóto. Só

assim, minha senhora, o arlequim, trajado de conde, ousaria defrontar-se

com V. Ex.ª. Emfim, começo a ler no seu rosto o fastio que avilta. Eu

retiro-me... Saiba, porém, que a amo, snr.ª D. Maria José... Note bem...

que a amo! E os homens da minha tempera, quando são indignamente

menoscabados, morrem, ou fazem guerra mortal a quem os despreza!

Note bem isto! palavras solemnes!...

E sahiu.

Victor Hugo José Alves era assim! Amava e bramia d'aquelle feitio; mas

era homem--como já poucos havia, e não ha hoje nenhuns--capaz de

desfechar valentes rhetoricas á face de uma senhora. Não lhe afeminavam

os olhos as lagrimas da pieguice. Em vez de suspiros ciciosos como auras

entre moitas de rosmaninho e trevo, trovejava urros, quando o ôdre da

paixão lhe rebentava dentro. Fizeram-no assim a natureza e o theatro, o

sangue do dom abbade de Cistér misturado ao sangue do Alves da sóla,

caceteiro defunto; e, além d'estes sangues, a arte, os dramas do snr.

Mendes Leal, cheios de judeus ciosos, e outros facinoras metaphoricos.

Na noite d'esse dia funesto, o amador aviltado pediu a D. Rozenda que

lhe mostrasse um folheto publicado em 1840 contra a mãe de D. Maria José

de Portugal.

D. Rozenda, receiosa de alguma imprudencia intempestiva, quiz saber que

destino o filho tencionava dar ao folheto.

--Nenhum,--disse elle, coando um riso feroz por entre as luras

croozothicas de tres dentes incisivos.

--Vê lá, Victor!... Não faças mal á rapariga...--instou a mãe.--Se ella

doidejar, deixal-a... Olha que este folheto mente que tem diabo... Lá

que ella é filha de D. Miguel, isso é tão certo como tu seres meu

filho... O que tu tens sei eu... É ferro... soubeste que ella namora um

conde... Isso já eu desconfiava... E então que se lhe ha de fazer?...

--Que pergunta!--replicou sacudindo a juba o equivoco neto do ferrador

de Povolide.--Que se lhe ha de fazer!... Ignobil pergunta! Ó mãe, mãe,

que é dos instinctos nobres da sua origem? Como pode consentir que seu

filho seja acalcanhado por um villão, que se diz conde? _Conde!_ Nós, os

legitimistas, não reconhecemos titulos outhorgados pelo governo

usurpador. Baldaque é o negreiro, é o chatim, é o plebeu reféce. Maria

José de Portugal, a luveira, é filha de um rei. Nós, os que defendemos o

prestigio dos nomes historicos, não consentimos que um bandalho, vestido

de conde na guarda-roupa d'esta tramoia que se chama o systema liberal,

se atreva a mercadejar com o producto das negras uma senhora que teve o

pae no throno...

--Pois se sabes que ella teve o pae no throno--replicou a mãe

sensata--que queres fazer ao folheto?

--O que quero? Vêr se posso convencer-me de que esta mulher não é

filha do snr. D. Miguel, casando ella com o plebeu, arraiado dos xaireis

de conde, percebe?

--Mas, ó rapaz, se esse conde tem dois ou tres milhoens...

--Ahi vem a senhora com as baixezas do costume!... É o que eu lhe tenho

dito muitas vezes... Está contaminada...

--O quê?--interrompeu D. Rozenda funestando a cara com uma ruim

visagem.--Estou contaminada?!

--Sim, senhora! está contaminada da peste do dinheiro; está gafa da

podridão dos costumes. Creio sinceramente que nasceu nobre; mas a

convivencia com um homem de negocio abastardou-lhe o sangue...

--Olha que esse homem era teu pae, Victor! Vê lá como fallas do auctor

dos teus dias; que eu não admitto atrevimentos, ouviste? Já uma vez te

puz as mãos na cara, por me dizeres que bem se via que eu era fidalga

por ser burra; agora, dizes que estou contaminada dos costumes, porque

acho que a luveira não andaria mal, se se fizesse condessa... Ora queira

Deus que as tuas faltas de respeito me não obriguem a quebrar-te a cara,

percebes?

Victor Hugo, voltando o dorso ás ameaças maternas, ia retirar-se, quando

ella, retendo-o pelas abas do fraque, exclamou:

--Já p'r'aqui, malcriado! Você volta as costas a sua mãe! Olhe que o

espatifo, ouviu?

N'isto, acudiu aos brados da mulher de rija tempera a irmã Euphemia,

cuja brandura de alma se operara debaixo das emollientes meiguices e

trechos litterarios do finado dramaturgo e d'outros homens sensiveis

dados ás lettras. As duas irmans altercaram largo tempo ácêrca da

materia sujeita. Rozenda opinava que o filho era um bréjeiro. Euphemia

desculpava-o, porque todos os poetas eram assim esquentados da

idéa:--these que ella poderia provar com o snr. conselheiro Viale, se o

conhecesse tão de perto e á lareira como devem ser apalpados os poetas

grandes.

Assistiu Victor Hugo, impando de tedio, á discussão das manas. Aquelle

espirito, dilatado ao calorico das salas da côrte, não cabia na área

burgueza onde outr'ora Elias e Antunes couberam com as suas almas

fadadas para a pasta e para a mitra. O rival do conde pejava-se de ter

estado no seio de Rozenda por espaço de nove luas. Dizia-lhe a

philosophia que o talento é emancipação quando a tutela é bruta, e que

as mães de natural bronco, bem que sejam respeitaveis como machinas

productoras, devera ser desviadas do caminho do genio, se lh'o

atravessam com babozeiras e outras coisas chatas. Encabrestado por estas

idéas, Victor, ainda então bastante adinheirado d'aquelles tres contos

das inscripçoens da luveira, sahiu da casa da mãe, e foi morar no Hotel

de Bragança.

XII

EXPLOSÃO DE AMOR

Deus, ecce Deus!

VIRGILIO, Eneida, L. VI, V. 46.

Um dia, corridos poucos mezes depois dos successos relatados, entrou na

loja da luveira um ancião com tres senhoras pobremente vestidas de luto

e quatro meninos pallidos, magros, com os olhos grandes e socavados da

fome.

Descobriram-se o velho e as crianças. D. Maria José levantou-se e

respondeu á cortezia profunda das tres mulheres, que a cortejaram como a

desgraça corteja o valimento.

O homem, que parecia engulir as lagrimas para poder fallar, disse com o

chapéo em uma das mãos e a outra no peito:

--Está na presença de V. Ex.ª um brigadeiro que em Evora-monte

entregou a espada aos vencedores. Em vez de entregal-a, se eu não

tivesse mulher e quatro filhas, ter-me-hia inclinado para a ponta da

espada, e cahiria vingado da sorte, já que as balas do inimigo me

pouparam para tão longa e desmerecida infelicidade. Estas tres mulheres

são minhas filhas, A mãe morreu esgotada de forças, porque teve fome

quando creava a ultima menina, que não está aqui, porque tambem morreu

ha seis mezes. Era já viuva: foi descançar na sepultura, e deixou-me

quatro netos que são estas crianças. Somos oito pessoas de familia. As

minhas filhas trabalham quanto podem e em tudo que sabem. Mas pouco

sabem, porque a si devem tudo. As duas mais velhas ainda estiveram dois

annos em collegio; porém, aprendiam linguas, como cumpria que

aprendessem as filhas d'um official-general, com appellidos tradicionaes

e serviços á patria mais valiosos que os appellidos. Tirei-as do

collegio, logo que principiei a vender as joias de minha mulher. As duas

meninas, voltando a casa, fallaram em francez á mãe, que tinha sido

educada no estrangeiro; e eu disse então ás innocentes mal entendidas na

desgraça de seu pae: «Filhas, aprendei a pedir esmola em portuguez.»

Ellas estremeceram e choraram, como se adivinhassem a fóme e a nudez.

D. Maria José, com as palpebras trementes e as lagrimas a borbulharem,

atalhou o brigadeiro:

--Deve ser muito penoso a V. S.ª contar-me a sua desgraça, e a mim

ouvil-a. Se me julga nas circumstancias de soccorrer as suas mais

urgentes precisoens, e se quer servir-se do meu pouco, espere V. S.ª que

eu vou buscar algum dinheiro...

--Não, minha senhora--tornou o velho.--É certo que venho pedir a V. Ex.ª

uma esmola, mas esmola muito avultada: nada menos que o pão, a educação

e o futuro destes meus netinhos...

--Oh! se eu pudesse...--atalhou D. Maria--V. S.ª provavelmente está

enganado com os meus recursos...

--Eu não me valho dos recursos da fortuna; mas sim dos da alma de V.

Ex,ª. Receio estar roubando-lhe tempo, minha senhora, e portanto serei

succinto quanto possa, até para me não parecer com todos os desgraçados

que são geralmente diffusos. Ha um mancebo poderoso em Lisboa, do qual

muitas familias realistas, de seis mezes a esta parte, recebem mezadas

abundantes. Este caritativo senhor não é legitimista; não sei o que

é politicamente: sei que é bom; é dos que professam a divina

legitimidade de Jesus Christo. Chama-se elle o snr. conde de Baldaque...

D. Maria José corou: eram o nome, a surpreza, e o jubilo, tudo

simultaneamente.

O ancião proseguiu:

--Eu tambem sou dos favorecidos pela bem-fazeja mão do snr. conde, que

me não conhece, nem recebe á sua presença as pessoas que o buscam para

lhe agradecerem a esmola: recebe apenas as que vão pedir-lh'a. Eu já o

procurei. Annunciei-me como portador das lagrimas reconhecidas de meus

filhos e netos. O benigno mancebo mandou-me dizer que voltasse eu a

pedir á minha familia que lhe mandasse sorrisos em vez de lagrimas.

Delicado coração! Como é possivel haver no peito de um rapaz afortunado,

que nunca soffreu, esta sciencia da desgraça, este respeito ao pêjo com

que um velho, outr'ora feliz e affagado de ricas esperanças, se dobra a

beijar a mão que lhe reparte o pão de cada dia pela sua familia! Diga-me

V. Ex.ª minha senhora, como tão cedo se formou na alma do snr. conde de

Baldaque a virtude que é costume retemperar-se na fragua das dores!...

Teria elle, em annos tão verdes, experimentado desenganos, perdas de

nobres affectos, dissabores grandes que antecipam a velhice moral e

influem a precoce piedade dos anciãos como eu, e das familias

angustiadas como esta minha?

--Não posso responder-lhe...--disse a luveira--conheço o snr. conde ha

pouco mais de um anno... Não sei de alguma dôr grande na sua vida, senão

da morte do pae...

--Um cavalheiro que o conhecia não me disse mais do que V.

Ex.ª--continuou o velho.--A este cavalheiro, que priva muito com os meus

correligionarios e se chama Victor Hugo José Alves, perguntei se as

relaçoens, que tem com o snr. conde, o auctorisariam a pedir-lhe um

favor para o desvalido brigadeiro Tavares. Respondeu-me o snr. Victor

Hugo que não; mas ajuntou que me diria pessoa idonea, e logo me nomeou a

snr.ª D. Maria José de Portugal. Hesitei se devia acceitar a informação

seriamente, porque havia no tom das palavras e no gesto d'elle certo

azedume ou ironia que me fez desconfiar. Contei isto a minhas filhas, e

ellas, principalmente as duas mais velhas, quando eu proferi o nome de

V. Ex.ª, disseram logo que tinham conhecido uma filha do snr. D. Miguel,

no collegio onde algumas vezes foram visitar as suas antigas mestras; e

uma d'ellas, se bem se lembra, ainda deu liçoens de francez a V.

Ex.ª...

--É aquella!--exclamou com alvoroço D. Maria José, saindo fóra do balcão

para abraçal-a.--É a snr.ª D. Ernestina Tavares... Eu entrevia no seu

rosto uma pessoa conhecida...

--É esta velha que aqui vê de cabellos todos brancos aos trinta e cinco

annos... disse Ernestina.

E D. Maria, com mais familiar sorriso:

--Eu tenho uma saleta, onde posso receber senhoras minhas amigas e de

mais a mais pobres...--E, subiu a escada, correu um reposteiro de chita,

e esperou que as oito pessoas entrassem.

Depois, mandou para a loja a criada, e pediu ao brigadeiro Tavares que

lhe desse a satisfação de ser util á sua familia.

--Eu não sei que futuro hei de dar a estes quatro meninos...

N'este acto, parou um cabriolet defronte da casa. A luveira chegou á

vidraça, e disse serenamente ao brigadeiro:

--É o snr. conde de Baldaque... Eu digo-lhe que suba, e V. S.ª tem

excellente occasião de dispensar o meu patrocinio, pedindo directamente

o que pretende.

Levantaram-se todos com alvoroto e certa inquietação como de medo. Mil e

duzentos contos representados por um homem é coisa capaz de assustar um

ministerio, quanto mais uma familia pobre!

O conde ficou maravilhado quando D. Maria José, descendo até ao ultimo

degrau da escada, lhe pediu que subisse á salinha.

Era o primeiro convite que recebia.

Entrou, e deu logo de rosto com o velho inclinado, quasi ajoelhado que

lhe tomára a mão, e a levára aos labios.

--Eu não conheço...--tartamudeou o conde no maior enleio.

--Sou um brigadeiro do exercito do snr. D. Miguel, sou Christovão de

Pina Tavares, a quem V. Ex.ª ha seis mezes dá o pão d'esta numerosa

familia que aqui está.

--Mas...--balbuciou o conde, voltando-se para D. Maria José.--V. Ex.ª

não me disse que conhecia esta familia...

--Não conhecia--respondeu a luveira--; mas reconheci agora esta senhora

que algum tempo me leccionou em francez, no mesmo collegio onde ella foi

educada. Alguem disse ao snr. Tavares que V. Ex.ª me honrava com a sua

amisade; e este senhor, carecendo d'um empenho para o snr. conde,

procurou-me, e agora mesmo começava a expor a sua pretenção. Estava

dizendo o snr. brigadeiro que não sabia que destino havia de dar

áquelles quatro meninos, seus netos... Queira continuar, snr. Tavares...

O Carrasco de Victor Hugo José Alves · 第 6 / 10 段