o mandou á escóla, trajando-o com decencia incompetente a um servo.
Aggravaram-se, porém, as desconfianças, quando, prompto em primeiras
lettras, o rapaz seguiu estudos superiores.
Poucos annos antes, havia casado o negociante com a mãe de Raul, a qual,
ciosa da consideração que o esposo liberalisava ao filho da escrava,
disparou em impertinencias que poderiam resultar a felicidade do mulato,
se elle pendesse a engrandecer-se por lettras.
Quiz o prudente esposo restabelecer a paz domestica, enviando Damião a
seguir em Portugal a carreira da jurisprudencia ou da medicina na
universidade de Coimbra. O rapaz ouviu as ordens do padrinho, e
respondeu humilde, mas com firmeza, que não queria ser doutor, nem tinha
queda para estudos.
Esta confissão não era vaidade mal rebuçada em modestia. Em Damião
Ravasco, ao passo que a esforçada musculatura se alargava com
proporçoens agigantadas, parecia que as potencias da alma lhe eram
deprimidas pelo pezo da materia. Os condiscipulos não ousavam
motejar-lhe a rudêza, desde que elle, em polemicas grammaticaes,
abusando dos preceitos mais vulgares da camaradagem litteraria,
respondia com sôccos ou marradas aos argumentos dos adversarios:
indignidade que ainda não vimos praticada em outra parte, senão no
parlamento portuguez.
Os professores haviam já prevenido o protector do mulato, quanto á
incapacidade rebelde do estudante; apesar disso, Baldaque desejou
illustral-o, até ao momento em que Damião por claros termos se recusou.
Interrogado sobre o modo de vida que melhor quadrava ao seu genio, o
rapaz, que então contava dezoito annos, respondeu que o seu gosto era
ser boleeiro; e acrescentou que tarde ou cedo o havia de ser, porque
ninguem fugia á sua estrella.
Ou porque respeitasse a estrella de cada sujeito, ou receiasse denunciar
o que era, ou dar mais fortes suspeitas do que não era, o negociante
offerecera alguns contos de reis a Damião Ravasco a fim de que se
estabelecesse, consoante sua vontade e vocação.
O mulato rejeitara o dinheiro dizendo entre soluços que não queria
deixar o padrinho; e, abraçado ao pequeno Raul, rogava-lhe, debulhado em
lagrimas, pedisse ao pae e á mãe que o não mandassem embora.
A esposa do submisso negociante não condescendera. Os rasteiros
instinctos de Damião, preferindo a cocheira á universidade, e a sella ás
cartas de bacharel, acerbaram o desamor da dama que afiava cortantes
chacotas contra a defunta escrava, assacando-lhe que ella arteiramente
capacitara da tal paternidade o seu senhor, usurpando direitos de
progenitura a algum obscuro lacaio. Antonio Baldaque, posto que não
se desse como pae do mulato claramente, devorava em silencio o insulto,
deixando-se invilecer e maneatar pelas centenas de contos que a esposa
augmentara aos seus haveres.
Não era elle todavia insensivel ao espinho occulto que lhe pungia na
vaidade de pae, quando diligenciava demover o afilhado da vil profissão
de boleeiro, incitando-o a sair para Portugal, onde lhe segurava
recursos para negociar, se não quizesse outra carreira.
Damião Ravasco, soffreando esforçadamente a sua mania, cuidou que
poderia conformar-se, e já parecia vencido das indirectas instancias do
padrinho. Mas, um dia, como visse annunciada a venda de carroagem e
parelha do ministro francez, concorreu ao leilão, licitou por não poder
conter-se, e arrematou o trem, obedecendo á espora do instincto que o
não deixou reflectir na desobediencia.
Dado tal passo, Damião foi despedir-se do padrinho que o recebeu de máo
rosto, improperando-lhe a baixeza das inclinaçoens. O moço, porém,
possuido dos fidalgos espiritos de muitos portuguezes coevos, netos de
Gamas, Albuquerques, Castros e outros, respondeu que a sua inclinação,
não o deshonrando a elle não podia deshonrar ninguem.
A pessoa de quem Damião Ravasco se despediu com muitas lagrimas era
o menino Raul. A creança pagava amorosamente os afagos do mulato,
defendendo-o como podia, quando a mãe o tratava com desaffecto, e
fugindo d'ella para os carinhos do filho da preta, quando a retrincada
senhora o appellidava affrontosamente o _negro_.
Começou o mulato sua vida de alquilador prosperamente, comprando
carroagens, e boleando-as elle mesmo. A paixão da almofada e do pingalim
não lhe consentia aristocratisar-se na sua esphera de proprietario de
nove parelhas normandas e seis aceados trens. Era artista em extremo
grau. Entrajava com menos alinho que os seus criados. Todo o seu
deliciar-se em luzimento e galhardia de composturas eram os arreios dos
cavallos e o brilhante verniz das equipagens.
A propensão do mulato não era das que menos se prestam a irritar as
sanhas das indoles brigosas. A parçaria com homens de Cavalhariça, de
natural bulhentos, muitas vezes o poz no gume do perigo, e outras tantas
lhe deu admiraveis triumphos de pugilato, quando não era a navalha que
empurrava os adversarios para o hospital. A policia, inquietada e nem
sempre respeitada pelo valentão, quiz prendêl-o em cumprimento d'uma
pronuncia por crime de tentativa de morte nas pessoas de dous
negros que haviam maltratado na chacara Raul de Baldaque, em occasião
que este se comprazia frechando-os com alfinetes desempolgados do arco,
sob pretexto de ensaiar-se para Guilherme Tell.
Homisiou-se Damião em Vassouras, recommendado pelo padrinho, a quem
cumpria patrocinar o generoso defensor do filho legitimo.
Este caso amolleceu a dura condição da mãe do menino, cujo prazer de
assetear negros lhe seria descontado em torcegoens de orelhas, se o
filho da escrava não sangrasse a ferro as iras dos offendidos.
Quebrou-se, pois, a antipathia da dama, até á condescendencia de
permittir que o marido sahisse a publico em abono do afilhado,
legalisando as navalhadas como justa defesa.
Damião Ravasco regressou absolvido, mas não emendado, ao Rio de Janeiro.
A impunidade alargara-lhe o fôlego das proezas. Cuidar-se-hia que a sua
paixão dos quadrupedes ia desandando n'outra menos estranha á
super-intendencia do codigo criminal. Quando evitasse o ensejo de provar
a mão na cara dos que se lhe arrostavam, vêr-se-hia á sua beira Raul a
quem elle obedecia docilmente; mas, como essas occasioens eram menos que
os lances em que o provocavam, ou elle se considerava provocado, raro
era o dia em que Ravasco não tivesse de explicar á policia a razão
por que certos queixosos haviam perdido alguns dentes, ou, com os olhos
tapados por contusoens, recorriam á justiça pouco menos cega que elles.
N'este meio tempo, falleceu a esposa do capitalista.
O viuvo apressou a liquidação dos seus grandes bens de fortuna, com o
proposito de repatriar-se, e saborear em socego o restante da vida.
Não queria elle trazer para Portugal o mulato, receiando desgostos e
sobresaltos, em tempo e terra onde lhe sorriam esperanças de remançosa
tranquillidade. Tanto poderam, no emtanto, com elle instancias do filho
que não houve recusar-lhe a companhia do amigo.
O conde de Baldaque, em Lisboa, ostentava opulencia ajustada ao titulo.
Damião mordomisava a cocheira, com voto deliberativo na escolha das
parelhas e carroagens. A paixão recrudecera-lhe a termos de não querer
outra posição em casa do padrinho. Pelo que toca ao sestro das
valentias, corrigira-se tanto quanto o conde podia ambicionar. Como não
tinha inimigos em Lisboa, o mulato, absorvido no deleite de palmear e
almofaçar as ancas dos seus cavallos, apenas uma ou outra vez
esbofeteava os criados gallegos da cavallariça para exercitar a
pujança dos tendoens _in anima vili_.
Raul de Baldaque, nas estouvices de rapaz, se precisava de um amigo que
lhe antepozesse a sua vida aos lances arriscados, aventurava-se aos
maiores perigos com Damião ao lado. Confidencias amorosas,
particularidades que elle escondia dos seus commensaes, dialogos intimos
com damas de primeira plana, tudo revelava a Damião Ravasco. O mulato
ria das aventuras do amo, e aconselhava-o a ser rasgado e audacioso com
as fidalgas quando elle se prezava de o ser com as môças dos visinhos.
Não lhe era portanto mysterioso o amor de Raul á luveira.
E o seu modo de pensar a respeito d'esses amores, que tão mudado lhe
traziam o pensativo menino, o saberemos logo.
Dada em resumo a biographia do mulato, personagem de maxima importancia
n'esta historia, temos explicado aquellas lagrimas, que o filho da
escrava chorava, beijando a mão fria do homem a quem nunca ousára chamar
pae, posto que, no silencio da alma, uma voz mysteriosa lhe dissesse que
Raul era seu irmão.
X
FRUCTA DO BRAZIL
_Murro_, s. m. pancada com a mão fechada. _Soco._
ROQUETE, Dicc. da Lingua Port.
Aqui desapparece o romantico nome de Raul.
Vamos ter a vulgaridade d'um conde. Queixem-se do ministro que dera o
titulo em duas vidas ao primeiro. Todavia, entre luveira e conde o
relevo dos amores deve dar margem e contrastes mais palpitantes de
actualidade, como já se não diz. Amores de luveira...
Não é isto exactamente. A luveira não o amava. Era para elle em rigor o
que lhe disse que era.
Distinguia-o do acume d'onde o via em baixo, bem que no seu levantado
orgulho houvesse uns brios de magestoso abatimento. Era
irreconciliavel o divorcio de sua fidalga pobreza com opulencias
provenientes de homem que intentasse offuscal-a com esta cousa
sobremaneira desprezivel chamada dois milhoens, ou--mais execravel
ainda--tres milhoens!
O conde honrou a memoria de seu pae, encerrando-se por espaço de quinze
dias.
Como a saudade filial lhe estivesse pedindo consolaçoens que ninguem
sabia dar-lhe, o moço desafogava em cartas enviadas a D. Maria José, nas
quaes se carpia como se devesse achar allivio na condolencia da mulher
destinada a duplicar-lhe os perdidos affectos de pae em caricias de esposa.
D. Maria José de Portugal respondia compassivamente ás cartas,
adoçando-lhe a dôr com a certeza de que lh'a conhecia, porque tambem
ella havia perdido sua mãe, e gemêra na dupla orphandade de mulher e
mulher pobre. As suas respostas, se alguma vez pareciam dulcificadas por
sensibilidade de amiga, nunca tocavam o sentimentalismo amoroso. E,
tanto era o desartificio com que naturalmente se expressava, que ninguem
veria nas cartas d'ella o esforço da mulher que se disfarça, ou procura
colorir com termos delicados a parcimonia de mais affectivos
sentimentos.
O conde não escondia o seu despeito de Damião Ravasco. Lia-lhe as cartas
que escrevia e as respostas recebidas por intermedio d'elle. E o mulato,
pouco dado a interpretaçoens de phrases que se afiguravam reconditas á
vaidade do conde, sahia-se ás vezes com umas reflexoens alheias do bom
senso que irritavam sobre modo a delicadeza do amo.
Por exemplo, uma vez, andando o conde a passeiar no seu quarto, e a
dizer em vozes interrompidas por suspiros que a luveira o havia de matar
ou endoudecer, Damião, tomando-lhe o passo, fallou do seguinte theor:
--Ora meu amigo, vamos a isto. Estou farto de palavriado. Obras, obras é
que se quer. Seja homem, e attenda lá ao que lhe vou dizer. Se o menino
quer morrer ou perder o siso, não quero eu. A mulher ha de ser sua tanto
me importa a mim que seja filha do rei como do diabo! Luveira é ella,
isso vou eu jural-o, porque ainda hontem lhe comprei umas luvas de
camurça. Mas, se fosse filha de rei e morasse no palacio real, antes de
V. Ex.ª morrer ou endoudecer, havia eu de fazer mais restolho que dez
milhoens de diabos para que ella fosse sua. Se eu pudesse, muito que
bem; se não pudesse, quem havia de morrer primeiro que o snr. conde era
eu.
--Que fazias tu, Damião?--perguntou entre grave e risonho o conde.
--Que fazia?
--Sim...
--Vamos aqui fallar serio. Sente-se o snr. conde, e, se eu disser alguma
parvoice, não se enfade, que perde o tempo. Um homem é um homem, parta
d'este principio, como dizia o frade que me queria ensinar logica. Um
homem não é uma mulher. As mulheres vencem com choradeiras, os homens
vencem com obras: percebe o que eu quero dizer na minha? Um homem sem
desembaraço... é mulher. Lá que a gente morre, quando não se desengana a
puxar por si, não tem duvida nenhuma. Ha muito tempo que eu andaria ás
malvas, se me deixasse estar quieto a conversar com a prudencia. A
prudencia é boa nas terras onde não ha marotos...
--Mas a que vem tudo isso, Damião? Bem se vê que o frade não conseguiu
ensinar-te logica!... Então que queres tu que eu faça?
Damião Ravasco soltou uns froixos de riso sêcco, esfregou as mãos, deu
duas palmadas nas pernas, e respondeu:
--Se o menino me dissesse: «Damião, eu quero aquella mulher, custe o que
custar»--a mulher seria sua, ou eu me dava em corpo e alma ao maioral do
inferno! Diga-me cá, snr. conde: como foi que se arranjou no Rio
aquelle negocio da franceza que estava com o chanceller? O menino
contou-me que ella não o queria, e o maltratára diante de outros...
--Cala-te, que me estás irritando!--atalhou o conde.--Não admitto
comparaçoens entre a franceza e D. Maria!
--Mas o menino dizia da franceza a mesma alicantina que diz
d'esta--observou o mulato, maliciando o sorriso com a velhacaria d'um
pratico do coração humano.--Eu fui dar com V. Ex.ª, na chacara de
Petropolis, triste, pensativo, a fallar só, a dar uns ais que parecia
rebentar de paixão d'alma. Perguntei-lhe que tinha. Disse-me que amava a
franceza do chanceller, e que dava um tiro na cabeça, se a não pudesse
tirar ao francez. Foi assim, ou não foi?
--Não me atormentes!--insistiu o conde, corrido talvez de confrontação
que o mulato equiparava entre as duas situaçoens analogas.
--Mas...--tornou Ravasco.
--Já te disse que me não afflijas... Queres dizer-me que fazes á filha
d'um principe o que fizeste á franceza?...
--Sim... eu... acho que...
--Achas que D. Maria póde ser levada n'uma sege á traição, e calar-se
depois mediante alguns centos de libras como a outra?...
Damião sacudiu os hombros á feição de quem cynicamente presume que a
distancia divisoria entre duas mulheres não é tamanha como os poetas a
medem. O conde todavia assanhado pelo tregeito do mulato, ergueu-se de
impeto, coriscou-lhe um lance de olhos humilhante, e sahiu, murmurando:
--Instinctos de cocheiro... a final!
O insulto confrangeu a alma forte do filho da negra; mas nem leve assomo
de colera se denunciou na mudança d'aquelle aspecto. O amor de Damião ao
filho de seu padrinho era tolerante e impassivel até á covardia.
Beijal-o-ia, depois da injuria, como as mães beijam os filhinhos que as
esbofeteam.
Não obstante, logo que o espanto e a dôr cederam á reacção da dignidade,
o mulato procurou o conde, e disse-lhe dissimulando a commoção:
--O cocheiro vem despedir-se. Vou recolher-me á cavalhariça de V. Ex.ª,
e sahirei de lá para outra, quando souber que o snr. conde encontrou
feitor que me substitua.
O conde deteve-se momentos a contemplar a serenidade do mulato, que o
fitava com os olhos turvos de lagrimas a desmentirem a dureza do semblante.
Qualquer que fosse o agastamento do amador da luveira, a offensa feita á
filha dos Braganças podia menos no amor do moço que a inveterada
gratidão aos extremos do mulato. Demais d'isso, a opinião publica do Rio
de Janeiro, quanto á filiação do filho da escrava, não era estranha ao
conde; e mais que tudo, seu defunto pae, louvando o sisudo proceder do
afilhado, em Lisboa, havia dito ao filho que a sua maior pena era não
ter podido elevar Damião á decente independencia que projectára.
Por tanto, ainda que de si mesmo quizesse esconder as proprias
suspeitas, o conde não podia esquivar-se á conjectura de que o mulato
era seu irmão; e tal desconfiança, penetrante como um sobresalto de
subita evidencia, lhe alvorotou o animo no instante em que as lagrimas
de Damião, rebeldes á vontade, pareciam a um tempo queixar-se do ingrato
e pedir perdão para o desvario d'um doudo enthusiasta que, em serviço
das paixoens frequentes de seu amo, não distinguia entre a concubina
d'um chanceller e a filha de um rei.
Estas e outras louvaveis reflexoens ponderavam no espirito do conde,
quando, approximando-se de Ravasco, lhe abriu os braços, estreitou-o ao
peito, e disse:
--Não finjas que me deixas, Damião, porque tu não deves nem podes
deixar-me...
E o mulato, rindo e chorando, tartamudeava palavras convulsas, em
quanto o conde proseguia:
--Não se deixa um rapaz de quem se é amigo, desde o berço, e a quem se
deu protecção quando elle a precisava menos que hoje. Olha que estou só
no mundo, Damião. Não tenho ninguem que me estime, senão tu. Dos
affectos que me rodearam na infancia e mocidade, vives tu só. Se me
faltares, accuso-te de máo e ingrato, e hei de convencer-me que não ha
para ti amisade duradoura senão... a dos trens--concluiu jovialmente o
conde, já quando o mulato o levantára nos braços como quem afaga no colo
uma creança para desamuál-a com meiguices.
D'ahi a pouco estava outra vez o conde confidenciando a Ravasco o seu
fatal amor á mulher que lhe não dava mais estimação ás qualidades
pessoaes do que á riqueza e ao titulo. O mulato transiu-se de assombrado
quando o millionario lhe affirmou que a luveira pobre o rejeitaria, se
lhe elle offerecesse a mão de esposa.
--O menino já lh'o disse?!--interrogou Damião.
--Não. Disse-m'o ella para me poupar ao dissabor da pergunta.
--Snr. conde--volveu o sceptico--olhe que ha mulheres finorias!... Olho
vivo, menino!
--Damião!--accudiu desabrido o conde em desforço de D. Maria.--Sinto que
o teu espirito não saiba respeitar devidamente a mulher que eu
escolheria para minha esposa!
--Respeito, sim, senhor. Isto é um modo de fallar. Mas não creio que
haja senhora rica ou pobre que rejeite o snr. conde, que é moço, é bem
parecido, sabe o que diz, e tem mais do que pensa. A mulher, que o não
quizer, tem outro homem, ou é douda. Eu, no seu logar, tratava de
averiguar se essa creatura é o que parece, e regula bem da cabeça.
--Damião!... és incorrigivel!--bradou o conde.
--Palavra de honra, que não sei fallar com o menino! Sabe V. Ex.ª que
mais, senhor conde? Ha por ahi duzias de amigos que o intendam e o
enganem; eu cá por mim, sou d'esta laia. Digo as cousas toscamente como
sei. Se a senhora fidalga é boa, não perde nada com a minha opinião; se
não é boa, peor para ella. O que eu quero é que V. Ex.ª não soffra, nem
seja enganado. Das duas uma, como dizia o meu mestre de logica: se ella
o ama, case com ella; se o não ama, de que lhe serve padecer? Eu cá não
queria mulher que me quizesse por compaixão.
Apezar da nimia tolerancia com que o escutava, o conde pretextou
qualquer motivo para cortar a conversação.
N'esse mesmo dia, Damião Ravasco foi á loja da luveira, com o disfarce
de quem passava, e perguntou a D. Maria José se queria alguma cousa para
o snr. conde.
--Elle está bom?--perguntou ella.
--Não, minha senhora.
--Não! que tem? está doente?
--Da alma.
--Saudades do pae?
--Tudo se ajunta. Saudades... e paixão....
--Paixão? sim... paixão pelo pae...
--Paixão por V. Ex.ª
D. Maria córou. Não era bem o pejo de tal revelação feita por pessoa de
esphera infima. Era febre de mais fidalga enfermidade: era o decoro de
princeza, fibra estremecida por nevralgia de orgulho, mas fibra que não
é commum de todas as senhoras fibrinosas. É um filamento adelgaçado pelo
esmeril do tempo atravéz das raças; cousa que vem das castellans do
cyclo feudal; que estremeceu nas mulheres dos baroens da meia edade; que
não tem vibração nenhuma nas baronezas d'esta edade recentissima. E vai
depois o mulato, como eu vinho contando, foi embargado no seu plano de
requerer a mão da luveira para o conde.
É que dous sujeitos, vestidos ao bizarro, e bem talhados de suas
pessoas, entraram á loja, e com ademanes farçolas, pediram collarinhos
de bretanha.
Expoz no balcão a luveira as bocêtas dos colleirinhos.
Os freguezes, a par e passo que os iam examinando mui devagar,
galanteavam a silenciosa senhora com uns dizeres desta casta:
--Mal empregados olhos em almofadas de costura! Quem os tem tão
matadores melhor uso lhes daria, se se dignasse olhar para outros que a
amam...
Eram negros côr da noite
Uns olhos negros que eu vi...
O sujeito que assim fallava, dava ares de deputado do norte, papa-fina,
calaceiro de damas sertanejas, gallo de aldêa vezado a cacarejar
finezas; mas bem creado e de fama na sua comarca, e talvez mais adiante,
como pessoa perigosa para senhoras frageis ao dom da palavra.
O outro, que vislumbrava esperteza e garbo de lisboeta, sorrindo
desdenhoso á linguagem do amigo um tanto rançosa das galanices do
Clarimundo, fallou d'esta arte:
--Esta menina, aqui onde a vês, tem, segundo consta, sangue real
nas veias. Se eu fosse principe, fazia-lhe os meus cumprimentos, e
pedia-lhe um osculo.
--E eu dois--ajuntou o deputado dos Arcos ou de Melgaço--(de Melgaço é
que era, se bem me lembro); mas, prescindindo dos osculos--continuou
mais requebrado--limito as minhas ambiçoens a pedir-lhe que me tome
medida do pescoço afim de saber-se quaes colleirinhos hei de comprar.
Vou sentir o avelludado das suas alabastrinas mãos, mãos de princeza...
D. Maria José, durante as pungentes facecias dos mal-fadados, não
erguêra do balcão os olhos carregados de lagrimas. _Mal-fadados_ lhes
chamei; porque Damião Ravasco, em quanto elles fallavam, trincava e
cuspia a pedaços um charuto, ao mesmo tempo que, fervendo em ira, e
agitando machinalmente os braços, parecia dar-lhes alôr para uma pega
mortal.
E os dois faceiras decerto não attentaram nos olhos assanhados do
mulato, nem dariam significação funesta áquelles tregeitos, se os vissem.
O deputado, entretanto, como a luveira não respondesse ao pedido, aliás
honesto, de lhe medir o pescoço, insistiu abemolando a rogativa com um
sorriso de ironica meiguice:
--Então o meu anjo não se humanisa até á humanidade de me tomar a
medida do pescoço?
--Meço-lh'o eu--disse Ravasco, abarbando-se com o sujeito.
E, proferido o serviçal offerecimento, recurvou-lhe os dedos da mão
direita na garganta, sacudiu-o de encontro á hombreira da porta, e
d'ahi, tangido pelo impulso de uma valente pescoçada com um sonoro
ponta-pé, tombou-o á rua. Consummado o feito, voltou-se para o outro,
que se quedava immovel, fulminado, empedrenido talvez por sua justa
indignação, e disse-lhe:
--Vossê tambem ha de ter o beijo que pediu.
E o mesmo foi convidal-o com trez tapa-olhos á mão tente, cascados de
tal guisa que, ao terceiro, o sujeito mordia o macadam dos fortes
colhidos de sobresalto, resvalando os dous degraus que o separavam do
seu infausto amigo.
Cobriu-se de profunda amargura o aspeito de Damião Ravasco, ao ver que
os dous freguezes de colleirinhos, depois de se escovarem reciprocamente
com os lenços, e de trocarem entre si palavras mysteriosas,
calcurriaram-se embora com apparencias de sãos e escorreitos.
Na sua fome de musculo e sede de sangue, o mulato, dando redia á furia,
idealisára o deleite de esfaquear e mastigar aquelles homens,
porque pensava que elles, repostos na posição vertical, o atacariam
façanhosamente.
N'este emtanto, D. Maria não dava signaes de susto, nem d'aquelle
nervoso palpitar que vai tão senhorilmente ás compleiçoens feminis,
quando um homem esmurraça dois na sua presença. Longe d'isso. A
desaffronta dilatara-lhe o coração que o pejo retrahira. Reluzia-lhe o
prazer nos olhos. O odio aos insultadores da sua honesta pobreza
accendera-lhe no peito, por momentos, a ruim, mas natural paixão da
vingança. O sangue de princeza, orgulhosa de raça, refluira ao coração
da luveira, humilde por estudo. Sentia-se bem. Não podia nem queria
fingir-se descontente do arrojo do mulato. Com a fronte alta e a
commoção do prazer dos deuses olympicos na voz, disse a Damião:
--Praticou um acto de generoso valor! Se houver de soffrer por minha
causa, não se arrependa de defender a mulher que só tem tido a sua
dignidade e paciencia a resguardal-a de peores insultos...
Avisinhou-se então o estrupido de uma carruagem. Damião conhecia o
trotar cadenciado dos seus normandos.
--É o patrão...--disse elle, correndo á rua.
E abriu a portinhola da carruagem.
--Estavas cá?--perguntou o conde.--Que faz aqui este povo?
Referia-se ao ajuntamento do rapazio e mulherigo que escutavam das
primeiras testemunhas do conflicto o caso dos dois homens afocinhados na
rua.
--Que faz aqui esta gente?--instou o conde ao mulato que se occupava
distrahidamente em alargar umas fivélas dos arreios.