Antonio Ferreira Baldaque deu aso a suspeitarem-no pae do mulato quando

o mandou á escóla, trajando-o com decencia incompetente a um servo.

Aggravaram-se, porém, as desconfianças, quando, prompto em primeiras

lettras, o rapaz seguiu estudos superiores.

Poucos annos antes, havia casado o negociante com a mãe de Raul, a qual,

ciosa da consideração que o esposo liberalisava ao filho da escrava,

disparou em impertinencias que poderiam resultar a felicidade do mulato,

se elle pendesse a engrandecer-se por lettras.

Quiz o prudente esposo restabelecer a paz domestica, enviando Damião a

seguir em Portugal a carreira da jurisprudencia ou da medicina na

universidade de Coimbra. O rapaz ouviu as ordens do padrinho, e

respondeu humilde, mas com firmeza, que não queria ser doutor, nem tinha

queda para estudos.

Esta confissão não era vaidade mal rebuçada em modestia. Em Damião

Ravasco, ao passo que a esforçada musculatura se alargava com

proporçoens agigantadas, parecia que as potencias da alma lhe eram

deprimidas pelo pezo da materia. Os condiscipulos não ousavam

motejar-lhe a rudêza, desde que elle, em polemicas grammaticaes,

abusando dos preceitos mais vulgares da camaradagem litteraria,

respondia com sôccos ou marradas aos argumentos dos adversarios:

indignidade que ainda não vimos praticada em outra parte, senão no

parlamento portuguez.

Os professores haviam já prevenido o protector do mulato, quanto á

incapacidade rebelde do estudante; apesar disso, Baldaque desejou

illustral-o, até ao momento em que Damião por claros termos se recusou.

Interrogado sobre o modo de vida que melhor quadrava ao seu genio, o

rapaz, que então contava dezoito annos, respondeu que o seu gosto era

ser boleeiro; e acrescentou que tarde ou cedo o havia de ser, porque

ninguem fugia á sua estrella.

Ou porque respeitasse a estrella de cada sujeito, ou receiasse denunciar

o que era, ou dar mais fortes suspeitas do que não era, o negociante

offerecera alguns contos de reis a Damião Ravasco a fim de que se

estabelecesse, consoante sua vontade e vocação.

O mulato rejeitara o dinheiro dizendo entre soluços que não queria

deixar o padrinho; e, abraçado ao pequeno Raul, rogava-lhe, debulhado em

lagrimas, pedisse ao pae e á mãe que o não mandassem embora.

A esposa do submisso negociante não condescendera. Os rasteiros

instinctos de Damião, preferindo a cocheira á universidade, e a sella ás

cartas de bacharel, acerbaram o desamor da dama que afiava cortantes

chacotas contra a defunta escrava, assacando-lhe que ella arteiramente

capacitara da tal paternidade o seu senhor, usurpando direitos de

progenitura a algum obscuro lacaio. Antonio Baldaque, posto que não

se desse como pae do mulato claramente, devorava em silencio o insulto,

deixando-se invilecer e maneatar pelas centenas de contos que a esposa

augmentara aos seus haveres.

Não era elle todavia insensivel ao espinho occulto que lhe pungia na

vaidade de pae, quando diligenciava demover o afilhado da vil profissão

de boleeiro, incitando-o a sair para Portugal, onde lhe segurava

recursos para negociar, se não quizesse outra carreira.

Damião Ravasco, soffreando esforçadamente a sua mania, cuidou que

poderia conformar-se, e já parecia vencido das indirectas instancias do

padrinho. Mas, um dia, como visse annunciada a venda de carroagem e

parelha do ministro francez, concorreu ao leilão, licitou por não poder

conter-se, e arrematou o trem, obedecendo á espora do instincto que o

não deixou reflectir na desobediencia.

Dado tal passo, Damião foi despedir-se do padrinho que o recebeu de máo

rosto, improperando-lhe a baixeza das inclinaçoens. O moço, porém,

possuido dos fidalgos espiritos de muitos portuguezes coevos, netos de

Gamas, Albuquerques, Castros e outros, respondeu que a sua inclinação,

não o deshonrando a elle não podia deshonrar ninguem.

A pessoa de quem Damião Ravasco se despediu com muitas lagrimas era

o menino Raul. A creança pagava amorosamente os afagos do mulato,

defendendo-o como podia, quando a mãe o tratava com desaffecto, e

fugindo d'ella para os carinhos do filho da preta, quando a retrincada

senhora o appellidava affrontosamente o _negro_.

Começou o mulato sua vida de alquilador prosperamente, comprando

carroagens, e boleando-as elle mesmo. A paixão da almofada e do pingalim

não lhe consentia aristocratisar-se na sua esphera de proprietario de

nove parelhas normandas e seis aceados trens. Era artista em extremo

grau. Entrajava com menos alinho que os seus criados. Todo o seu

deliciar-se em luzimento e galhardia de composturas eram os arreios dos

cavallos e o brilhante verniz das equipagens.

A propensão do mulato não era das que menos se prestam a irritar as

sanhas das indoles brigosas. A parçaria com homens de Cavalhariça, de

natural bulhentos, muitas vezes o poz no gume do perigo, e outras tantas

lhe deu admiraveis triumphos de pugilato, quando não era a navalha que

empurrava os adversarios para o hospital. A policia, inquietada e nem

sempre respeitada pelo valentão, quiz prendêl-o em cumprimento d'uma

pronuncia por crime de tentativa de morte nas pessoas de dous

negros que haviam maltratado na chacara Raul de Baldaque, em occasião

que este se comprazia frechando-os com alfinetes desempolgados do arco,

sob pretexto de ensaiar-se para Guilherme Tell.

Homisiou-se Damião em Vassouras, recommendado pelo padrinho, a quem

cumpria patrocinar o generoso defensor do filho legitimo.

Este caso amolleceu a dura condição da mãe do menino, cujo prazer de

assetear negros lhe seria descontado em torcegoens de orelhas, se o

filho da escrava não sangrasse a ferro as iras dos offendidos.

Quebrou-se, pois, a antipathia da dama, até á condescendencia de

permittir que o marido sahisse a publico em abono do afilhado,

legalisando as navalhadas como justa defesa.

Damião Ravasco regressou absolvido, mas não emendado, ao Rio de Janeiro.

A impunidade alargara-lhe o fôlego das proezas. Cuidar-se-hia que a sua

paixão dos quadrupedes ia desandando n'outra menos estranha á

super-intendencia do codigo criminal. Quando evitasse o ensejo de provar

a mão na cara dos que se lhe arrostavam, vêr-se-hia á sua beira Raul a

quem elle obedecia docilmente; mas, como essas occasioens eram menos que

os lances em que o provocavam, ou elle se considerava provocado, raro

era o dia em que Ravasco não tivesse de explicar á policia a razão

por que certos queixosos haviam perdido alguns dentes, ou, com os olhos

tapados por contusoens, recorriam á justiça pouco menos cega que elles.

N'este meio tempo, falleceu a esposa do capitalista.

O viuvo apressou a liquidação dos seus grandes bens de fortuna, com o

proposito de repatriar-se, e saborear em socego o restante da vida.

Não queria elle trazer para Portugal o mulato, receiando desgostos e

sobresaltos, em tempo e terra onde lhe sorriam esperanças de remançosa

tranquillidade. Tanto poderam, no emtanto, com elle instancias do filho

que não houve recusar-lhe a companhia do amigo.

O conde de Baldaque, em Lisboa, ostentava opulencia ajustada ao titulo.

Damião mordomisava a cocheira, com voto deliberativo na escolha das

parelhas e carroagens. A paixão recrudecera-lhe a termos de não querer

outra posição em casa do padrinho. Pelo que toca ao sestro das

valentias, corrigira-se tanto quanto o conde podia ambicionar. Como não

tinha inimigos em Lisboa, o mulato, absorvido no deleite de palmear e

almofaçar as ancas dos seus cavallos, apenas uma ou outra vez

esbofeteava os criados gallegos da cavallariça para exercitar a

pujança dos tendoens _in anima vili_.

Raul de Baldaque, nas estouvices de rapaz, se precisava de um amigo que

lhe antepozesse a sua vida aos lances arriscados, aventurava-se aos

maiores perigos com Damião ao lado. Confidencias amorosas,

particularidades que elle escondia dos seus commensaes, dialogos intimos

com damas de primeira plana, tudo revelava a Damião Ravasco. O mulato

ria das aventuras do amo, e aconselhava-o a ser rasgado e audacioso com

as fidalgas quando elle se prezava de o ser com as môças dos visinhos.

Não lhe era portanto mysterioso o amor de Raul á luveira.

E o seu modo de pensar a respeito d'esses amores, que tão mudado lhe

traziam o pensativo menino, o saberemos logo.

Dada em resumo a biographia do mulato, personagem de maxima importancia

n'esta historia, temos explicado aquellas lagrimas, que o filho da

escrava chorava, beijando a mão fria do homem a quem nunca ousára chamar

pae, posto que, no silencio da alma, uma voz mysteriosa lhe dissesse que

Raul era seu irmão.

X

FRUCTA DO BRAZIL

_Murro_, s. m. pancada com a mão fechada. _Soco._

ROQUETE, Dicc. da Lingua Port.

Aqui desapparece o romantico nome de Raul.

Vamos ter a vulgaridade d'um conde. Queixem-se do ministro que dera o

titulo em duas vidas ao primeiro. Todavia, entre luveira e conde o

relevo dos amores deve dar margem e contrastes mais palpitantes de

actualidade, como já se não diz. Amores de luveira...

Não é isto exactamente. A luveira não o amava. Era para elle em rigor o

que lhe disse que era.

Distinguia-o do acume d'onde o via em baixo, bem que no seu levantado

orgulho houvesse uns brios de magestoso abatimento. Era

irreconciliavel o divorcio de sua fidalga pobreza com opulencias

provenientes de homem que intentasse offuscal-a com esta cousa

sobremaneira desprezivel chamada dois milhoens, ou--mais execravel

ainda--tres milhoens!

O conde honrou a memoria de seu pae, encerrando-se por espaço de quinze

dias.

Como a saudade filial lhe estivesse pedindo consolaçoens que ninguem

sabia dar-lhe, o moço desafogava em cartas enviadas a D. Maria José, nas

quaes se carpia como se devesse achar allivio na condolencia da mulher

destinada a duplicar-lhe os perdidos affectos de pae em caricias de esposa.

D. Maria José de Portugal respondia compassivamente ás cartas,

adoçando-lhe a dôr com a certeza de que lh'a conhecia, porque tambem

ella havia perdido sua mãe, e gemêra na dupla orphandade de mulher e

mulher pobre. As suas respostas, se alguma vez pareciam dulcificadas por

sensibilidade de amiga, nunca tocavam o sentimentalismo amoroso. E,

tanto era o desartificio com que naturalmente se expressava, que ninguem

veria nas cartas d'ella o esforço da mulher que se disfarça, ou procura

colorir com termos delicados a parcimonia de mais affectivos

sentimentos.

O conde não escondia o seu despeito de Damião Ravasco. Lia-lhe as cartas

que escrevia e as respostas recebidas por intermedio d'elle. E o mulato,

pouco dado a interpretaçoens de phrases que se afiguravam reconditas á

vaidade do conde, sahia-se ás vezes com umas reflexoens alheias do bom

senso que irritavam sobre modo a delicadeza do amo.

Por exemplo, uma vez, andando o conde a passeiar no seu quarto, e a

dizer em vozes interrompidas por suspiros que a luveira o havia de matar

ou endoudecer, Damião, tomando-lhe o passo, fallou do seguinte theor:

--Ora meu amigo, vamos a isto. Estou farto de palavriado. Obras, obras é

que se quer. Seja homem, e attenda lá ao que lhe vou dizer. Se o menino

quer morrer ou perder o siso, não quero eu. A mulher ha de ser sua tanto

me importa a mim que seja filha do rei como do diabo! Luveira é ella,

isso vou eu jural-o, porque ainda hontem lhe comprei umas luvas de

camurça. Mas, se fosse filha de rei e morasse no palacio real, antes de

V. Ex.ª morrer ou endoudecer, havia eu de fazer mais restolho que dez

milhoens de diabos para que ella fosse sua. Se eu pudesse, muito que

bem; se não pudesse, quem havia de morrer primeiro que o snr. conde era

eu.

--Que fazias tu, Damião?--perguntou entre grave e risonho o conde.

--Que fazia?

--Sim...

--Vamos aqui fallar serio. Sente-se o snr. conde, e, se eu disser alguma

parvoice, não se enfade, que perde o tempo. Um homem é um homem, parta

d'este principio, como dizia o frade que me queria ensinar logica. Um

homem não é uma mulher. As mulheres vencem com choradeiras, os homens

vencem com obras: percebe o que eu quero dizer na minha? Um homem sem

desembaraço... é mulher. Lá que a gente morre, quando não se desengana a

puxar por si, não tem duvida nenhuma. Ha muito tempo que eu andaria ás

malvas, se me deixasse estar quieto a conversar com a prudencia. A

prudencia é boa nas terras onde não ha marotos...

--Mas a que vem tudo isso, Damião? Bem se vê que o frade não conseguiu

ensinar-te logica!... Então que queres tu que eu faça?

Damião Ravasco soltou uns froixos de riso sêcco, esfregou as mãos, deu

duas palmadas nas pernas, e respondeu:

--Se o menino me dissesse: «Damião, eu quero aquella mulher, custe o que

custar»--a mulher seria sua, ou eu me dava em corpo e alma ao maioral do

inferno! Diga-me cá, snr. conde: como foi que se arranjou no Rio

aquelle negocio da franceza que estava com o chanceller? O menino

contou-me que ella não o queria, e o maltratára diante de outros...

--Cala-te, que me estás irritando!--atalhou o conde.--Não admitto

comparaçoens entre a franceza e D. Maria!

--Mas o menino dizia da franceza a mesma alicantina que diz

d'esta--observou o mulato, maliciando o sorriso com a velhacaria d'um

pratico do coração humano.--Eu fui dar com V. Ex.ª, na chacara de

Petropolis, triste, pensativo, a fallar só, a dar uns ais que parecia

rebentar de paixão d'alma. Perguntei-lhe que tinha. Disse-me que amava a

franceza do chanceller, e que dava um tiro na cabeça, se a não pudesse

tirar ao francez. Foi assim, ou não foi?

--Não me atormentes!--insistiu o conde, corrido talvez de confrontação

que o mulato equiparava entre as duas situaçoens analogas.

--Mas...--tornou Ravasco.

--Já te disse que me não afflijas... Queres dizer-me que fazes á filha

d'um principe o que fizeste á franceza?...

--Sim... eu... acho que...

--Achas que D. Maria póde ser levada n'uma sege á traição, e calar-se

depois mediante alguns centos de libras como a outra?...

Damião sacudiu os hombros á feição de quem cynicamente presume que a

distancia divisoria entre duas mulheres não é tamanha como os poetas a

medem. O conde todavia assanhado pelo tregeito do mulato, ergueu-se de

impeto, coriscou-lhe um lance de olhos humilhante, e sahiu, murmurando:

--Instinctos de cocheiro... a final!

O insulto confrangeu a alma forte do filho da negra; mas nem leve assomo

de colera se denunciou na mudança d'aquelle aspecto. O amor de Damião ao

filho de seu padrinho era tolerante e impassivel até á covardia.

Beijal-o-ia, depois da injuria, como as mães beijam os filhinhos que as

esbofeteam.

Não obstante, logo que o espanto e a dôr cederam á reacção da dignidade,

o mulato procurou o conde, e disse-lhe dissimulando a commoção:

--O cocheiro vem despedir-se. Vou recolher-me á cavalhariça de V. Ex.ª,

e sahirei de lá para outra, quando souber que o snr. conde encontrou

feitor que me substitua.

O conde deteve-se momentos a contemplar a serenidade do mulato, que o

fitava com os olhos turvos de lagrimas a desmentirem a dureza do semblante.

Qualquer que fosse o agastamento do amador da luveira, a offensa feita á

filha dos Braganças podia menos no amor do moço que a inveterada

gratidão aos extremos do mulato. Demais d'isso, a opinião publica do Rio

de Janeiro, quanto á filiação do filho da escrava, não era estranha ao

conde; e mais que tudo, seu defunto pae, louvando o sisudo proceder do

afilhado, em Lisboa, havia dito ao filho que a sua maior pena era não

ter podido elevar Damião á decente independencia que projectára.

Por tanto, ainda que de si mesmo quizesse esconder as proprias

suspeitas, o conde não podia esquivar-se á conjectura de que o mulato

era seu irmão; e tal desconfiança, penetrante como um sobresalto de

subita evidencia, lhe alvorotou o animo no instante em que as lagrimas

de Damião, rebeldes á vontade, pareciam a um tempo queixar-se do ingrato

e pedir perdão para o desvario d'um doudo enthusiasta que, em serviço

das paixoens frequentes de seu amo, não distinguia entre a concubina

d'um chanceller e a filha de um rei.

Estas e outras louvaveis reflexoens ponderavam no espirito do conde,

quando, approximando-se de Ravasco, lhe abriu os braços, estreitou-o ao

peito, e disse:

--Não finjas que me deixas, Damião, porque tu não deves nem podes

deixar-me...

E o mulato, rindo e chorando, tartamudeava palavras convulsas, em

quanto o conde proseguia:

--Não se deixa um rapaz de quem se é amigo, desde o berço, e a quem se

deu protecção quando elle a precisava menos que hoje. Olha que estou só

no mundo, Damião. Não tenho ninguem que me estime, senão tu. Dos

affectos que me rodearam na infancia e mocidade, vives tu só. Se me

faltares, accuso-te de máo e ingrato, e hei de convencer-me que não ha

para ti amisade duradoura senão... a dos trens--concluiu jovialmente o

conde, já quando o mulato o levantára nos braços como quem afaga no colo

uma creança para desamuál-a com meiguices.

D'ahi a pouco estava outra vez o conde confidenciando a Ravasco o seu

fatal amor á mulher que lhe não dava mais estimação ás qualidades

pessoaes do que á riqueza e ao titulo. O mulato transiu-se de assombrado

quando o millionario lhe affirmou que a luveira pobre o rejeitaria, se

lhe elle offerecesse a mão de esposa.

--O menino já lh'o disse?!--interrogou Damião.

--Não. Disse-m'o ella para me poupar ao dissabor da pergunta.

--Snr. conde--volveu o sceptico--olhe que ha mulheres finorias!... Olho

vivo, menino!

--Damião!--accudiu desabrido o conde em desforço de D. Maria.--Sinto que

o teu espirito não saiba respeitar devidamente a mulher que eu

escolheria para minha esposa!

--Respeito, sim, senhor. Isto é um modo de fallar. Mas não creio que

haja senhora rica ou pobre que rejeite o snr. conde, que é moço, é bem

parecido, sabe o que diz, e tem mais do que pensa. A mulher, que o não

quizer, tem outro homem, ou é douda. Eu, no seu logar, tratava de

averiguar se essa creatura é o que parece, e regula bem da cabeça.

--Damião!... és incorrigivel!--bradou o conde.

--Palavra de honra, que não sei fallar com o menino! Sabe V. Ex.ª que

mais, senhor conde? Ha por ahi duzias de amigos que o intendam e o

enganem; eu cá por mim, sou d'esta laia. Digo as cousas toscamente como

sei. Se a senhora fidalga é boa, não perde nada com a minha opinião; se

não é boa, peor para ella. O que eu quero é que V. Ex.ª não soffra, nem

seja enganado. Das duas uma, como dizia o meu mestre de logica: se ella

o ama, case com ella; se o não ama, de que lhe serve padecer? Eu cá não

queria mulher que me quizesse por compaixão.

Apezar da nimia tolerancia com que o escutava, o conde pretextou

qualquer motivo para cortar a conversação.

N'esse mesmo dia, Damião Ravasco foi á loja da luveira, com o disfarce

de quem passava, e perguntou a D. Maria José se queria alguma cousa para

o snr. conde.

--Elle está bom?--perguntou ella.

--Não, minha senhora.

--Não! que tem? está doente?

--Da alma.

--Saudades do pae?

--Tudo se ajunta. Saudades... e paixão....

--Paixão? sim... paixão pelo pae...

--Paixão por V. Ex.ª

D. Maria córou. Não era bem o pejo de tal revelação feita por pessoa de

esphera infima. Era febre de mais fidalga enfermidade: era o decoro de

princeza, fibra estremecida por nevralgia de orgulho, mas fibra que não

é commum de todas as senhoras fibrinosas. É um filamento adelgaçado pelo

esmeril do tempo atravéz das raças; cousa que vem das castellans do

cyclo feudal; que estremeceu nas mulheres dos baroens da meia edade; que

não tem vibração nenhuma nas baronezas d'esta edade recentissima. E vai

depois o mulato, como eu vinho contando, foi embargado no seu plano de

requerer a mão da luveira para o conde.

É que dous sujeitos, vestidos ao bizarro, e bem talhados de suas

pessoas, entraram á loja, e com ademanes farçolas, pediram collarinhos

de bretanha.

Expoz no balcão a luveira as bocêtas dos colleirinhos.

Os freguezes, a par e passo que os iam examinando mui devagar,

galanteavam a silenciosa senhora com uns dizeres desta casta:

--Mal empregados olhos em almofadas de costura! Quem os tem tão

matadores melhor uso lhes daria, se se dignasse olhar para outros que a

amam...

Eram negros côr da noite

Uns olhos negros que eu vi...

O sujeito que assim fallava, dava ares de deputado do norte, papa-fina,

calaceiro de damas sertanejas, gallo de aldêa vezado a cacarejar

finezas; mas bem creado e de fama na sua comarca, e talvez mais adiante,

como pessoa perigosa para senhoras frageis ao dom da palavra.

O outro, que vislumbrava esperteza e garbo de lisboeta, sorrindo

desdenhoso á linguagem do amigo um tanto rançosa das galanices do

Clarimundo, fallou d'esta arte:

--Esta menina, aqui onde a vês, tem, segundo consta, sangue real

nas veias. Se eu fosse principe, fazia-lhe os meus cumprimentos, e

pedia-lhe um osculo.

--E eu dois--ajuntou o deputado dos Arcos ou de Melgaço--(de Melgaço é

que era, se bem me lembro); mas, prescindindo dos osculos--continuou

mais requebrado--limito as minhas ambiçoens a pedir-lhe que me tome

medida do pescoço afim de saber-se quaes colleirinhos hei de comprar.

Vou sentir o avelludado das suas alabastrinas mãos, mãos de princeza...

D. Maria José, durante as pungentes facecias dos mal-fadados, não

erguêra do balcão os olhos carregados de lagrimas. _Mal-fadados_ lhes

chamei; porque Damião Ravasco, em quanto elles fallavam, trincava e

cuspia a pedaços um charuto, ao mesmo tempo que, fervendo em ira, e

agitando machinalmente os braços, parecia dar-lhes alôr para uma pega

mortal.

E os dois faceiras decerto não attentaram nos olhos assanhados do

mulato, nem dariam significação funesta áquelles tregeitos, se os vissem.

O deputado, entretanto, como a luveira não respondesse ao pedido, aliás

honesto, de lhe medir o pescoço, insistiu abemolando a rogativa com um

sorriso de ironica meiguice:

--Então o meu anjo não se humanisa até á humanidade de me tomar a

medida do pescoço?

--Meço-lh'o eu--disse Ravasco, abarbando-se com o sujeito.

E, proferido o serviçal offerecimento, recurvou-lhe os dedos da mão

direita na garganta, sacudiu-o de encontro á hombreira da porta, e

d'ahi, tangido pelo impulso de uma valente pescoçada com um sonoro

ponta-pé, tombou-o á rua. Consummado o feito, voltou-se para o outro,

que se quedava immovel, fulminado, empedrenido talvez por sua justa

indignação, e disse-lhe:

--Vossê tambem ha de ter o beijo que pediu.

E o mesmo foi convidal-o com trez tapa-olhos á mão tente, cascados de

tal guisa que, ao terceiro, o sujeito mordia o macadam dos fortes

colhidos de sobresalto, resvalando os dous degraus que o separavam do

seu infausto amigo.

Cobriu-se de profunda amargura o aspeito de Damião Ravasco, ao ver que

os dous freguezes de colleirinhos, depois de se escovarem reciprocamente

com os lenços, e de trocarem entre si palavras mysteriosas,

calcurriaram-se embora com apparencias de sãos e escorreitos.

Na sua fome de musculo e sede de sangue, o mulato, dando redia á furia,

idealisára o deleite de esfaquear e mastigar aquelles homens,

porque pensava que elles, repostos na posição vertical, o atacariam

façanhosamente.

N'este emtanto, D. Maria não dava signaes de susto, nem d'aquelle

nervoso palpitar que vai tão senhorilmente ás compleiçoens feminis,

quando um homem esmurraça dois na sua presença. Longe d'isso. A

desaffronta dilatara-lhe o coração que o pejo retrahira. Reluzia-lhe o

prazer nos olhos. O odio aos insultadores da sua honesta pobreza

accendera-lhe no peito, por momentos, a ruim, mas natural paixão da

vingança. O sangue de princeza, orgulhosa de raça, refluira ao coração

da luveira, humilde por estudo. Sentia-se bem. Não podia nem queria

fingir-se descontente do arrojo do mulato. Com a fronte alta e a

commoção do prazer dos deuses olympicos na voz, disse a Damião:

--Praticou um acto de generoso valor! Se houver de soffrer por minha

causa, não se arrependa de defender a mulher que só tem tido a sua

dignidade e paciencia a resguardal-a de peores insultos...

Avisinhou-se então o estrupido de uma carruagem. Damião conhecia o

trotar cadenciado dos seus normandos.

--É o patrão...--disse elle, correndo á rua.

E abriu a portinhola da carruagem.

--Estavas cá?--perguntou o conde.--Que faz aqui este povo?

Referia-se ao ajuntamento do rapazio e mulherigo que escutavam das

primeiras testemunhas do conflicto o caso dos dois homens afocinhados na

rua.

--Que faz aqui esta gente?--instou o conde ao mulato que se occupava

distrahidamente em alargar umas fivélas dos arreios.

O Carrasco de Victor Hugo José Alves · 第 5 / 10 段