discorrendo, por inferir da interrupção assomado orgulho.--Sei isso...;
e, porque o sabia, contive-me, aconselhado pelo desengano dos outros.
Mas, apezar de tudo, talvez me illudisse a vaidade de me suppor mais
digno do que elles, porque eu sentia por V. Ex.ª a veneração, que não
impediu que os outros se declarassem. É isto a unica distincção que me
deve singularisar; pois, sendo natural que todos amem uma senhora bella
no semblante, no coração e no espirito, nem sempre succede que a paixão
se deixe abafar pelo acatamento. Agora, porém, minha senhora, já não
haverá nada que me empeça de lhe revelar em poucas palavras todas as
minhas meditaçoens de seis mezes; mas, se V. Ex.ª me está ouvindo
constrangida... se me confunde com os homens que a importunaram com
phrases mais ou menos similhantes ás minhas, então diga-me que me escuta
por mera delicadeza...
--Por mera delicadeza o estou ouvindo--disse serenamente D. Maria José.
--Pois bem...--tartamudeou o moço empallidecendo--calar-me-hei...
Mas...--volveu elle, passados instantes em que o rubor succedeu á
pallidez.--Mas... V. Ex.ª perguntou-me ha pouco:--que importava que eu
fosse rico?--E eu disse-lhe que tinha medo de responder. A snr.ª D.
Maria José animou-me a explicar-me; e antes que eu chegasse á
justificação, emmudece-me, declarando que me está ouvindo, porque é
delicada! Se fosse tão boa de coração quanto é melindrosa, não m'o dizia
tão seccamente... antes havia de permittir que eu me desculpasse d'umas
palavras innocentes que lhe deram de mim conceito injusto e máo.
--Máo conceito, não, senhor--emendou D. Maria--pareceram-me apenas uma
impertinente phrase que só violentada podia entrar na nossa conversação.
Eu dizia-lhe que o snr. D. Miguel é infeliz; e V. Ex.ª respondeu-me que
era rico. Figurou-se-me que me considerou medianeira nas esmolas que se
pedem para elle...
--Errou, minha senhora--retorquiu Raul, fortalecido pela pureza
nobilissima das suas tençoens.
--Então, seja generoso em me desculpar, e creia que por interesse, e não
por civilidade desejo ouvil-o.
Baldaque, após uma longa pausa, em que denotou no rosto penosa
inquietação do animo, disse verdadeiramente conturbado:
--Já não posso...
--Não póde!?--sobreveio a luveira com ares de incrédula.--Então não
póde? porquê? Isso faz-me desconfiar que...
--Desconfiar?...
--Sim, desconfiar que V. Ex.ª, em sua hesitação, me dá a perceber a
difficuldade de combinar o respeito, que me tem, com a explicação que me
ia dar da sua riqueza. Se assim é, agradeço-lhe mais o silencio que a
explicação... Deixemos no escuro o seu segredo e esqueçamos o que houve
de mais nas suas revelaçoens. Entretanto, snr. Baldaque, não lhe direi
que vou ser com V. Ex.ª mais sincera do que fui com outras pessoas de
quem me não aggravo nem me orgulho. Com essas pessoas a minha evasiva
foi o silencio, sem desdem nem menos preço. Com V. Ex.ª não será assim.
Serei verdadeira, porque vou responder ao que me disse e talvez até ao
que formou tenção de me dizer. No dia em que abri esta loja de luvas,
estabeleci com a sociedade as unicas relaçoens compativeis com este
modo de vida. Não escolhi esta posição, calculando outra melhor. Não
pensei puerilmente em prender admiraçoens de espiritos extraordinarios
que folgam de matizar os actos vulgares da vida com o ouropel da poesia.
Esta loja, com uma pobre mulher que tira d'aqui o seu parco sustento,
não é romance, é occupação ajustada ás minhas faculdades e aos meus
recursos. Eu poderia optar por encargo mais senhoril e lucrativo;
poderia ensinar nos collegios as linguas que estudei, e algumas prendas
que vou deixando esquecer como inuteis; poderia; mas o contacto com a
sociedade assustava-me; a convivencia de mestra com as discipulas
privar-me-hia dos confortos da alma que esperava achar e achei neste
viver obscuro: é a soledade, o estar sósinha o maior numero das minhas
horas, o desprendimento de cuidados que me forçariam a sahir de mim
mesma, se eu quizesse dar boa conta do meu prestimo salariado á educação
de meninas. Sei que me desempenharia mal por não poder, com este
espirito que tenho egoista de sua tristeza, prestar attenção aos
sagrados deveres de quem educa...
--Mas V. Ex.ª...--interrompeu Baldaque.--Perdão!... receio ser
indiscreto, fazendo-lhe uma pergunta...
--Queira dizer.
--Se ouso perguntar, é porque muita gente diz que V. Ex.ª herdou...
--Esta casa e nove contos de reis em inscripçoens.
--Nove contos de reis em inscripçoens...--volveu receioso o filho do
millionario--não bastam para quem tiver aspiraçoens menos modestas que
V. Ex.ª; mas... o rendimento d'elles, creio eu, dispensariam a snr.ª D.
Maria José de dirigir este negocio tão pouco lucrativo; e, se me concede
dizer mais, bem podéra V. Ex.ª, afastando-se inteiramente da sociedade,
gosar as suas horas todas de solidão, poupando-se ás lagrimas que ha
pouco vi explicarem o seu sorriso... Peço outra vez perdão, se me excedi
nestas observaçoens á sua vida intima.
--As observaçoens são justas--respondeu tranquillamente D. Maria--mas eu
não tenho hoje de meu senão esta casa e o valor dos objectos desta loja.
A indagação de V. Ex.ª deve satisfazer-se com saber isto, e nada mais.
Se mais alguem o sabe, não ha razão para que eu esconda a minha pobreza
d'uma pessoa já convencida de que eu desejo ser pobre.
--Ó minha senhora!... nem mais palavra hei de proferir a tal respeito...
--A minha pobreza é voluntaria, reflectida e aprazivel--continuou a
filha de D. Miguel. Quem tiver pena de mim, usurpa a sua
commiseração a quem a merece e necessita... Ha pouco me disse V. Ex.ª
que eu não dei valor ás generosas propostas de cavalheiros abastados que
me pretendiam com honrosos intentos. Não dei valor á opulencia que me
offereciam; mas ao sentimento que os moveu a favorecer-me sou muito
grata. Eu desejava que para cada mulher mal-afortunada sorrisse a
ventura dos casamentos ricos. Deve ser muito cubiçada similhante
felicidade, porque tenho visto o espanto, e talvez o despeito, no rosto
das pessoas cuja riqueza eu me dispensei de apreciar. E a mim, ao mesmo
tempo, parecia-me indiscrição e mediania de polidez vir aqui alguem
obrigar-me a ser indelicada para evitar exposiçoens de affectos, que só
então me faziam pensar na inconveniencia de ser luveira.
Dona Maria sorriu, passou a mão alvissima pela fronte, deteve n'ella a
cabeça como quem revoca idéas fugitivas, e proseguiu:
--Snr. Baldaque, cheguei ao fim do que deve saber de mim propria.
Escolhi esta posição. Se sahisse d'ella, attrahida por bens de fortuna,
a minha alma teria pejo de sua baixa indole. Ha sacrificios que tem
glorificaçoens intimas e ineffaveis. São dôres que os pacientes não
querem consoladas; são as rozetas dos cilicios que as creaturas
delirantes de amor divino apertam mais, quando é maior a angustia. Ha
penitencias moraes muito parecidas com as voluntarias macerações das
santas. Nem a penitente acceitaria os supremos regalos deste mundo a
trôco das suas disciplinas, nem eu trocaria a minha independencia, nesta
solitaria e obscura distancia de theatros e bailes, pelo brilho que meus
olhos cançados de chorar não supportariam.
--Comprehendi, minha senhora... disse Raul, revelando a magua no tremor
da voz.--A palavra coração nem uma só vez appareceu entre as phrases
glaciaes com que me repelle. Ha poesia sublime e santa no mysterio que
lhe nortêa a existencia; mas, nas suas estrellas, no céo das suas
visoens, estrella de amor não brilha nenhuma... Como havia de V. Ex.ª
comprehender-me, se eu, articulando em soluços as minhas confissoens,
seria como o infeliz que exhora uma divindade de marmore, e não a alma
apaixonada que pretende communicar o seu ardor a outra alma?... As
minhas confidencias não poderiam ser ouvidas no alto ponto d'um
sentimento incomprehensivel em que V. Ex.ª me esconde as suas
phantasias. Eu sabia que tinha posto os olhos da face e os da alma na
mulher virtuosa; mas tambem cuidava que as excellencias do espirito
não matam de esterilidade as flores, do coração. Na sua edade, snr.ª D.
Maria José, ha almas devastadas, que, desde o baixo positivismo do
descrer, vingaram, por effeito da fé ou da graça divina, desferir nas
azas da piedade altos vôos até pousarem no seio de Deus; essas, porém,
sei eu que lá mesmo do céo devem chorar sobre as illusoens perdidas da
terra. Sei que ha almas assim cahidas e resgatadas; mas sobre as cinzas
de minha mãe irei jurar que na pureza do rosto, na serenidade do olhar,
na virtuosa altivez de suas palavras, minha senhora, lhe transluz a vida
inteira, sem nodoa, sem laivo escuro que ahi deixasse o anjo maldito do
desengano. Nenhuma esperança lhe foi mentida, nenhum desejo lhe foi
malogrado. V. Ex.ª não desejou nem esperou as felicidades que espera e
deseja a mulher na flor dos annos. Se alguma hora sentiu estremecimentos
de amor, soffreou-os com a violencia da sua justa vaidade...
--Vaidade!--interrompeu D. Maria--Vaidade!
--A palavra não é esta;--insistiu Raul com firmeza--ha outra mais bem
cabida, mais senhoril; mas tambem menos desculpavel em nossos dias de
luz, de expansão e de guerra victoriosa aos preconceitos...
--Diga a palavra... Não se constranja...
--Orgulho do seu nascimento--obedeceu elle receioso.
--Louvo-lhe o coragem, snr. Baldaque. Se disfarçasse a idéa, não
conseguiria enganar-me. Agradeço-lhe a franqueza. Tenho orgulho, é
verdade, tenho muito orgulho de ser filha do principe pobre, do principe
desterrado; e, cortejada á beira do throno de meu pae, talvez o não
tivesse. Tenho orgulho de me ver abatida, e tenho pezar de não haver
compartido das amarguras do grande infeliz. Quando elle soffreu extremas
necessidades nos primeiros annos do seu desterro, ainda eu via nas salas
e guarda-roupa de minha mãe valiosas reliquias de uma opulencia que não
havia sido d'elle, nem do estado, nem da casa do infantado, nem das
extorsoens feitas a uma nação arruinada. Se essa opulencia subsistisse
áquella hora em que fiquei orfan, eu venderia até o leito de minha mãe
para o soccorrer, e ajoelharia á divina Providencia, exhorando-lhe que
me deixasse ganhar o pão de cada dia, e permittisse que a miseria se
abraçasse com a dignidade, e as lagrimas, se era precizo choral-as, me
não sahissem impuras do coração. O meu orgulho já vê, snr. Raul, que
principiou assim: principiou como começa a humildade de muita gente
desafortunada. Filhas de reis haverá muitas que se julgariam
aviltadas pelo trabalho; e eu soccorri-me do trabalho humilde para
sustentar o meu orgulho de filha d'um rei. A mulher que se dá a fidalga
distincção de igualar-se á plebe, reservando para si a superioridade de
agradecer com um sorriso as offensas inevitaveis nas posiçoens humildes,
não se lembra que é neta de reis para ter orgulho. Mas esta palavra é
aspera, é negativa da virtude, sôa rispidamente aos ouvidos da moral
christan. Tambem aos meus. Se a consciencia me não dissesse que ella
exprime innocentemente o conceito que de mim fórmo, pediria a V. Ex.ª
que antes lhe chamasse energica hombridade, vigor de caracter, condição
excentrica e singular, se quizer, mas defeito de coração seria injustiça
attribuir-m'o. Orgulho de pobreza, sim; mas sem as irritaçoens do
orgulho plebeu; sem a cupidez infernada na alma. Tenho uma ambição,
mortificante mas inoffensiva, uma ancia, que, se é peccaminosa, as
lagrimas, que ella me faz chorar, de certo me tem lavado a alma das suas
impurezas. Esta ambição é um desvario de enfermo que se estorce no ardor
da febre; mas é peor ainda;... que as minhas agonias não devem
revelar-se, são profundas, abafo-as, escondo-as de todos; porque estou
sósinha n'este mundo; e tão desgraçada que não acharia allivio
algum em confidencial-as... Expliquei-lhe o meu orgulho--concluiu D.
Maria José, sorrindo e bebendo as lagrimas ao mesmo tempo.
E, volvidos alguns segundos, como Raul, embebecido na contemplação
d'aquella mulher, em que duas formosuras pareciam deslumbrar-se, não
proferisse um monosyllabo, disse ella, amaciando a aspereza da pergunta,
com a brandura do tom:
--Chamou-me orgulhosa do meu nascimento, snr. Baldaque. Eu confessei que
sou; e, olhe, tenho uma qualidade mais reprehensivel ainda... quer que
lh'a diga?
--Outra virtude?
--Outro defeito... Sou soberba.
--Soberba!...
--Sim, disto que vê: d'aquellas luvas, d'aquellas camisas, d'estas
farraparias que me rendem as preciosas galas que eu preciso para
sustentar a minha soberba.
E terminou por um frouxo de riso indescriptivel, talvez um gemido
convulso, um regolfo de lagrimas que se retrahiu ao coração.
N'este lance, entrava uma criadinha com duas latas, de feição de
marmitas, nas quaes ia o jantar da luveira, comprado em uma taverna das
portas de Santo Antão.
Raul, com olhos turvos e voz tremente, apertou a mão de D. Maria
José de Portugal, murmurando estas palavras de modo que a criada as não
ouvisse:
--Eu não a mereço... mas hei de amal-a como um escravo, que eu tive, me
quer e ama ainda hoje. E assim como o amor do escravo me faz bem á alma,
póde ser que o meu amor seja na vida de V. Ex.ª um sentimento suave.
E sahiu.
José Parada, e os convivas de Raul de Baldaque e eu não duvidamos
assacar ao amador da luveira os estimaveis defeitos que dão quilate
superior a quem faz praça d'elles com a invulneravel petulancia da
riqueza. Julguei-o mal á primeira vez que o vi galhardear-se com
tregeitos e garridices incompetentes de rapaz sisudo. Além de que, na
altania do seu olhar, no sobrecenho arrogante com que mediu as minhas
modestas dimensoens, emfim n'aquelle hirto aprumo da sua catadura, eu,
illudido pela experiencia de dezenas de exemplares de tolos que me
trazem desconfiado, conjecturei que Raul hão tinha dotes que podessem
inliçar o affecto da filha de D. Miguel, a não ser a sua pessoa
tafulamente vestida, o urco do seu phaeton, e o alardo de uns
presumptivos mil e tantos contos.
Este rapaz escolhêra o peor expediente para se fazer acceitar na estima
dos seus conhecidos em Lisboa. Deu-lhes jantares cuja magnificencia
inculcava proposito de ostentação; e, não contente da vangloria de ser
rico, desvanecia-se em exceder nas graças de espirito os seus
contubernaes. A reputação de nescio crearam-lhe estes. Havia na calumnia
o ignobil intuito de se arranjarem com a consciencia que os arguia de
parasitas; e o accôrdo, que elles faziam com a sua dignidade beliscada,
era imaginarem-se «disfructadores» do parvena.
Póde ser que o filho do conde de Baldaque, alguma vez ou todas as vezes
que presidiu ás suas ceias irritantes e escandecentes no Matta, quer
inflammado pelo ardor natural da sua compleição, quer exagitado pela
perfidia dos licores, se demasiasse em basofias de galan, relatando com
indiscreta jactancia proezas fameaes, mais ou menos phantasmagoricas. Os
seus commensaes, mordidos no orgulho nacional, de mate forçoso deviam
trocar-se aquelle geito de olhar de soslaio com que o despeito
convencionalmente se dá a mascara de disfructe. Não sei até que ponto o
sensato idolatra da luveira havia direito á fatuidade de afortunado em
jerarchias somenos da filha de um Bragança, mas tanto ou quanto
aparentadas com a sua real amada. Como quer que fosse, os seus amigos
apregoavam-no petisco infinitamente brazileiro; e as suas amigas,
com aquelle fino faro de que são prendadas as damas menos candidas, por
tal arte o haviam conceituado que todas as aventuras contadas, em estylo
de _roué_, vinham a ser o mais desgraçadamente exactas que é
possivel;--desgraçadamente, digo, porque eu desejo que no seio das
familias, que respeito, não sejam sómente conhecidas as tres virtudes
theologaes.
Se as entranhas d'aquelle rapaz de vinte e seis annos estavam
canceradas; se as suas victimas lhe resvalavam do seio de gêlo á
sepultura levadas em lagrimas torrenciaes, não sei, nem o diria quando o
soubesse; que este livro não é obituario. Contra quem me levanto, é
contra mim proprio, porque, á primeira intuição, o aquilatei no vulgar
dos rapazes ricos, libertinos, e cansados.
Não fundamento esta retratação e protesto unicamente na sensibilidade,
polidez, e atilado accento de suas palavras á luveira, por tanta maneira
louvaveis que, sendo apaixonadas, não desatremam da prudencia, e podem
ser dadas como exemplar de colloquios do paço dos nossos reis e senhores.
O meu protesto cimenta em bases que não podem dar de si. É o estylo.
Quem falla d'aquelle feitio a linguagem portugueza,--quem ama com
todas as partes da oração em concordancia irreprehensivel, poderá, por
inveja ou injustiça grave, não ser mencionado nos _Logares selectos_;
mas tolo é que não pode ser.
Ora agora, se amar luveiras regiamente phantasticas, com tamanho siso e
tão desusada reverencia, é hoje em dia argumento contra a sanidade
intellectual de um homem que representa mais de dois milhoens, isso é
outra questão que ha de ventilar-se opportunamente.
IX
DAMIÃO RAVASCO
A pelle é feia; mas o sangue que gira dentro é estimavel.
EURIPEDES, O Cyclope, acto IV.
A gravidade fria e desanimadora de D. Maria José de Portugal não vingou
despersuadir o filho do conde. As visitas continuaram com a mesma
quotidiana assiduidade, bem que menos demoradas. Raul Baldaque, ao
reverso do que era natural, em vez de ganhar alento e desembaraço,
depois que tão resolutamente se manifestára, tornou áquella timidez de
collegial, vencida no impeto da paixão.
Ás vezes, o abatido moço sahia confuso e como corrido de sua tibieza,
pedindo aos proprios brios que o salvassem de tão ridicula, senão
indecorosa pusillanimidade. Desconfiado, porém, da inefficacia do
seu pundonor em assumpto de per si rebelde a razoens de orgulho, formava
a só comsigo venerandos juramentos de sacrificar a chimera da luveira á
realidade do seu alegre viver de rapaz. N'estes protestos fazia elle
entrar a sacratissima memoria de sua mãe; imagem que raramente lhe
passava diante dos olhos do espirito sem lhe deixar no coração bons
sentimentos e um suavissimo ideal da felicidade humana estreme de
dissabores, tedios e remorsos.
Mas a querida imagem, invocada a solemnisar o juramento, não lhe
antepunha mulher que offuscasse a filha do infante. A deparar-lh'a,
dar-se-hia o unico milagre possivel n'estas conjuncturas, milagre aliás
frequente, quando as mulheres queridas não tem comsigo a predestinação
da luveira, e o iman tresdobradamente portentoso da formosura, do
talento e do espirito, sem fazer menção do mais feiticeiro filtro que ha
ahi n'isto de magia amorosa, que vem a ser a esquivança da que é
adorada, um não-querer de exempta, uma delicada repellencia que a um
tempo vos alanceia coração e amor-proprio.
As conversaçoens de Raul e D. Maria versavam, ás vezes, sobre
occorrencias politicas d'onde derivou a guerra civil funesta ao rei
absoluto. D. Maria José, sem ousar arguir as imprudencias do pae,
lamentava que os seus conselheiros não fossem mais esclarecidos do que
elle, cuja educação apoucada o obcecara em meio das alvorejantes idéas
do seu seculo. Discorrendo varonilmente ácerca da historia das luctas
entre a democracia e o privilegio, concatenou os successos que
precederam a revolução de 1820, e justificou as resultas de que seu pae
devia ser a victima, em castigo de prestar-se a representante passivo
dos ambiciosos estupidos que lhe aconselharam a transgressão do
juramento feito.
Baldaque saboreava-se não do tom preleccionador da dama, que não o
tinha; mas da feminil suavidade com que ella simplificava, em breves e
claros termos, passagens da historia patria, na maior parte ignoradas do
brazileiro.
O leitor, que esvoaça em regioens diaphanas onde se não condensam
vapores crassos de historia, dispensaria que a inspiradora das suas
lyricas lhe referisse chronologicamente os annaes de D. João VI no
estylo flatulento de mestra regia bem saturada da philosophia do
historiographo snr. Moreira de Sá, ou qualquer Niebuhr da sua estôfa.
Quero até persuadir-me que o leitor anemico, e avêsso a iguarias
condimentosas, rejeitaria mesmamente a senhora de espiritos assás
metricos que lhe leccionasse os fastos lusitanos em estancias do
snr. conselheiro Viale, poeta voluptuoso como gondola veneziana, vista
da Ponte dos Suspiros, a balouçar-se cheia de... repôlhos.
Dou-lhe razão.
O amor seria divindade indigna das lagrimas que se lhe choram nas aras,
se algum peito succubo d'elle podesse acceitar liçoens de historia como
flechas do seu carcaz.
A ignorancia, mais ou menos absoluta, é uma das clausulas que nos impõe
á nossa servidão o filho da deusa viciosa, cuja illustração não poderia
medir-se com a da senhora Dona Canuto, Venus Urania, se é forçoso
mitifical-a--ou outra capacidade menos provada.
No adro dos templos do frécheiro não demandemos philosophos eructando
azias hegelianas, nem jurisperitos polvilhando a ambula dos perfumes com
o vinagrinho que lhes espirita o cerebro resentido da cegueira da
justiça. O que lá se nos depara, em redor dos pagodes do deus cego, é
gentio a rir e a chorar, que ora se postra supplicante, ora se espoja em
desbragada alegria.
Amor spasmodico, amor macabro, amor epileptico. Ha d'estas tres castas
d'amor na zona luminosa da mulher peregrina. O spasmodico é o
comtemplativo; o macabro é o que salta e se estorce nas vascas
voluptuosas do deleite; o epileptico é o que escabuja debaixo da garra
da perfidia. Ha uma quarta especie d'amor, do qual ninguem faz livros
porque é a mais analphabeta: é o amor de mercearia, o amor sebaceo e
rubido como o burril antigo o immortalisou nas cascatas, e no coração de
nossas avós. Encontra-se esta reliquia dos tempos honestos no terceiro
andar das familias cujos chefes labutam nas suas tendas. Está sentado na
travesseirinha do leito nupcial, brincando com os folhos e borlas azues
da almofada. Resfolega, por bochechas de cravelina, frouxos de riso á
esposa, quando ella, depois da ceia, desaperta os nastros da ceroula
conjugal, emquanto elle encarapuça o marido no barrete de dormir. Não
temos que entender com algum d'esses amores n'esta chronica, exceptuado
o primeiro, o spasmodico. Nem Stendhal creou adjectivo tanto ao ponto.
Deixemo-nos de crystallisaçoens. Spasmos, macabrismos e epilepsias--é o
que ha. Mais nada.
Raul de Baldaque estava, pois, escutando as narrativas da luveira em
arroubos que sobreexcedem os de um alumno de boa fé absorto a escutar o
snr. João Felix Pereira, quando arenga ácerca de Herodoto.
Em uma d'essas tardes de innocentissimo prazer, entrou na loja de D.
Maria José um mulato offegante, com os olhos vidrados de lagrimas, e
exclamou em soffocativas intermitentes, dirigindo-se a Raul:
--Menino, venha depressa a casa... venha depressa... que o snr. conde...
--Que é, Damião?!--interrompeu Raul--que tem meu pae?...
--Cahiu por morto, quando ia a entrar na carroagem... levei-o nos braços
para casa... chamou-se o medico; mas já não respirava...
O moço, apertando a mão de D. Maria José, que balbuciava algumas
palavras compassivas, sahiu acceleradamente.
Quando entrou no quarto de seu pae, as pessoas que rodeavam o leito, não
responderam á interrogação de Raul. O medico apertou-lhe convulsamente a
mão e sahiu. Os restantes eram criados, cujos aspeitos exprimiam mais
espanto do que dôr.
O filho ajoelhou á beira do leito e beijou a mão do cadaver; depois,
encostando a face ao hombro do pae, soluçou palavras inintelligiveis. Do
outro lado do leito ajoelhou alguem com os punhos cerrados na fronte e
as lagrimas a borbulharem-lhe dos olhos espavoridos no rosto do morto:
era o mulato Damião.
Digamos d'este homem que se nos revela sympathicamente em frente
d'um filho que chora, e ao lado do velho que lhe expira nos braços.
Damião Ravasco era o seu nome. Gentil corporatura de mestiço. Feiçoens
levemente denunciativas da origem indiana de sua mãe. Olhos fulgurantes.
Epiderme esmaiada, aquelle esfumado de marfim antigo, que nas raças
europêas distingue as bellezas finas, o pallor romantico, a vantagem do
espirito sobre a riqueza do sangue.
Damião Ravasco orçava pelos trinta e dous annos. Já sua mãe havia
nascido em casa de Antonio Ferreira Baldaque, pae do defunto conde.
Ninguem lhe attribuia filiação d'este ou d'aquelle. As escravas eram
muitas e fecundas todas. Entretanto, nos traços physionomicos de Damião,
realçavam parecenças com o pae de Raul; e, no particular affecto com que
o capitalista o estremara desde a primeira infancia, havia o quer que
fosse indicativo de virtude não vulgar nos progenitores dos filhos das
escravas.