XI

Eram onze horas da manhã.

Amelia estudava ao piano os exercicios de Hertz. As janellas cerradas

deixavam entrar frouxa claridade, coada pela cassa transparente das

cortinas.

Nesse crepusculo artificial, a belleza da moça tomava uns tons suaves e

meigos, que mais seduziam.

Os lindos cabellos ainda humidos do banho, cobriam-lhe as espaduas de

uma tunica de veludo castanho. O bajó de cassa que trazia no seu

desalinho matutino, conchegado á cutis, coloria-se com os reflexos

rosados do collo mimoso.

Tanta graça e formosura, realçadas pela singelleza do trajo e pela

naturalidade da posição, ficavam ali occultas na doce penumbra da

sala, recatadas á admiração. As duas horas Amelia costumava subir á

sua alcova para se pentear; e o gracioso desalinho despparecia,

substituido por um trajo mais apurado e elegante. Era a flôr singella

que o vento desfolha na mata, e passa ephemera e desconhecida.

Tantas moças despendem um avultado cabedal de sorrisos, de olhares e

gestos, e põem em contribuição a sêda, a renda e a moda para

realçarem sua formosura! Mal sabem, entretanto, que nunca são ellas

tão bonitas e feiticeiras como em certo momento de seductora

negligencia, quando parece que a belleza desabrocha de seu gracioso

botão.

A porta da sala abriu-se, e deu entrada ao Sr. Salles Pereira.

O aspecto do negociante era grave; mas da gravidade serena que annuncia

uma preocupação agradavel. Trazia na mão uma carta aberta.

Amelia assustou-se vendo entrar na sala o pai, que ella suppunha na

cidade. Como todos os negociantes, o Sr. Salles Pereira passava a manhã

em seu escriptorio; partia logo depois do almoço e só voltava á hora

do jantar. A sorpreza da moça era pois natural.

--Ah! papai! exclamara ella, voltando-se ao rumor da porta. Já veiu do

escriptorio?

--Ainda não fui; respondeu Salles Pereira sorrindo. Recebi uma carta,

que me obrigou a demorar-me até agora para conversar com tua mãi e...

comtigo, a quem o objecto mais interessa.

--A mim? O que será, papai? Algum convite de baile?

--Lê; disse o negociante apresentando-lhe a carta.

Amelia correu os olhos pelo papel, e seu rosto cobriu-se de vivos

rubôres. O coração palpitava-lhe com tanta força que debuchava no

linho o contorno dos lindos seios.

A carta era de Horacio, que pedia ao negociante a mão da filha.

Acabando de a lêr, a moça de olhos baixos e corpo tremulo, parecia

vendar-se com sua innocencia para subtrahir-se ao olhar terno e curioso

de seu pai. Nesse momento ella desejava, si possivel fosse, esconder-se

dentro de si mesma.

--Que devo eu responder, Amelia? perguntou o negociante.

--O que papai quizer! balbuciou a menina.

--Estás bem certa de que meu desejo é o teu? Si eu não acceitar a

honra que nos quer fazer o Sr. Horacio de Almeida?

As palpebras da moça ergueram-se, desvendando seus olhos limpidos.

--Papai não acha bom?

--Si elle te for indifferente, eu por mim não tenho grande empenho. É

um excellente moço; tem alguma cousa de seu; mas anda em certa roda que

não me agrada.

--Que roda papai?

--De moços da moda.

--Porque é solteiro.

--Então o que decides?

--Desde que papai e mamãi desejam, eu....

--Nós não desejamos cousa alguma; queremos saber tua vontade.

Amelia emmudeceu.

--Bem, já vejo que não é de teu gôsto. Vou responder ao homem com um

_não_.

Salles Pereira encaminhou-se para a porta:

--Mas, papai!.... murmurou a moça.

--Que temos?... Falla, que já me demorei muito. Quasi meio dia!

--Vai responder já?

--Já.

--Deixe para amanhã.

--Nada; são cousas que se decidem logo.

--O que vai responder então?

--Que não.

--Mas eu não disse isto!

--Tu nada disseste.

--Pois si eu não gostasse diria logo.

--Ah! neste caso gostou?

Amelia sorrindo acenou com a cabeça.

--Não entendo esta linguagem. Vamos a saber. Amas á Horacio?

A moça fez um supremo esforço:

--Amo! disse ella escondendo o rosto no seio do pai.

O negociante beijou-a na fronte com ternura e carinho.

--Ah! minha sonsa, não queria confessar o que tinha aqui dentro deste

coraçãozinho! E eu que pensava que elle só queria bem a mim?

--Oh! papai!

--Bem, bem, não tenho ciumes! Vai consolar tua mãi, que eu vou

responder ao homem mais feliz deste Rio de Janeiro.

O negociante voltou ao gabinete; e Amelia dirigiu-se ao interior. Sua

mãi estava no quarto, com os olhos ainda humidos de lagrimas. Quem não

conhece essas lagrimas abençoadas, que a mãi derrama pelos filhos; e

que são balsamos para as afflicções, e orvalhos para as flôres da

ventura?

D. Leonor beijou a filha e estreitou-a ao seio como receiosa de que lh'a

arrancassem dos braços. Seu coração ora alegrava-se com a felicidade

proxima da moça, ora se entristecia com a lembrança da separação.

De repente Amelia sobresaltou-se com uma idéa que lhe acudiu; e

deixando a mãi, correu ao gabinete do negociante. Achou-o sentado á

escrevaninha, passando por cima da carta que terminara um rolete de

mata-borrão.

O pai sorriu vendo entrar a filha.

--Curiosa!

--Já acabou? disse a moça recostando-se com gentileza á poltrona.

--Vê si está de teu gosto; disse o Salles cingindo-lhe a cintura com o

braço.

Amelia leu a carta rapidamente; ella já sabia de antemão que faltava

alguma cousa.

--Então, que tal? perguntou o negociante com certo desvanecimento.

--Está muito boa papai. Só acho uma cousa?

--O que?

O negociante soffreu uma decepção. Pensava ter feito uma obra prima

com aquella carta, escripta em seu mais bello estylo commercial, mas

recheada de alguns rasgos sentimentaes.

--Não acha, papai, que elle ficará todo cheio de si, obtendo logo,

assim com tanta facilidade, o que deseja? A carta é de hoje; responder

no mesmo dia.... mostra muita vontade de mais.

--Que mal ha nisso? Para que deixal-o na duvida, quando pódes tornal-o

feliz desde já.

--Papai pensa que elle duvida?

--Ah! Já sabe então! Muito bem!

--Eu não lhe disse nada, papai.

--Então como sabe elle? Adivinhou?

--Não adivinhou nada. Papai bem sabe como são esses senhores da moda;

cuidam que todas as moças andam morrendo por elles, e que a dificuldade

está sómente em escolher. Como eu não quero que o Sr. Horacio me

julgue uma de suas conquistas, estou resolvida, papai, á pensar bem

durante quinze dias, antes de dar a resposta.

--Portanto esta carta não serve; disse o Salles com um suspiro.

--Ha de servir, mas daqui a quinze dias. Agora papai deve dizer

unicamente, que, tendo me consultado, eu pedi algum tempo para dar a

resposta.

O negociante escreveu, e Amelia esperou até que partiu a carta,

confiada a um creado.

Momentos depois, Salles sahia para a cidade; e Amelia entrava em sua

alcova, descantando trechos de arias e romances. Não se podia dizer que

estivesse alegre, apezar do tom garrido com que modulava, e do fresco

riso que trinava em seus labios.

O que ella sentia era um alvoroço intimo, uma soffrega agitação,

estado indefinivel d'alma prurida por mil desejos, e contida por mil

receios.

Vejamos si é possivel descobrir o que passava ali, dentro daquelle seio

mimoso.

Desvanecida a primeira commoção, produzida pela carta de Horacio,

Amelia recordara-se do que tinha occorrido na vespera, e sobretudo das

palavras proferidas pelo moço. Sua vaidade revoltou-se como era

natural.

--Hei de mostrar-lhe que não basta querer, para ser meu marido; e que

não basta ser meu marido para vêr...

Foi então que se dirigiu ao gabinete do pai, e adiou a resposta

definitiva. Voltando, sentiu lá n'um cantinho do coração uns receios

que estavam nascendo. Não fosse Horacio zangar-se com a demora, e

retirar o pedido? Quinze dias talvez fossem de mais.

Eis qual era o estado do animo de Amelia. Orgulho de vêr subjugado á

seus pés o rei da moda; prazer de o ter captivo de uma palavra sua

durante muitos dias; arrependimento do que fizera; susto do que podia

acontecer; goso da ventura que sorria; taes foram os sentimentos

desencontrados que vibraram na alma da moça.

Nessa tarde Amelia preparou-se com maior esmero do que si fosse a um

baile. Seu adorno simples, um modesto vestido branco com fitas azues,

tomou-lhe mais tempo, do que não levaria a compôr um trajo sumptuoso.

Ella esperava Horacio.

Toda a noite passou indo do sofá á janella, e da janella ao consólo,

onde estava a pendula de alabastro.

As horas se escoaram, sem que o tilbure do moço parasse á porta do

negociante.

No dia seguinte, Amelia perguntou ao criado, si a carta fôra entregue a

Horacio:

--Entreguei em mão, quando entrava no tilbure.

--E que disse elle?

--Nada; leu e riu-se.

--Ah! elle riu-se; murmurou Amelia comsigo. Pois eu lhe mostrarei.

Desde então, empenhada sua vaidade, os sustos se desvanecêram. Estava

decidida a não ceder. Horacio depois de vencido tentava ainda

resistir-lhe? Pois havia de subjugal-o completamente.

Á noite foi á casa de D. Clementina, onde estava reunida a roda do

costume. Leopoldo ali se achava tambem, e comprimentou-a com um modo

triste e resignado.

Deve existir uma corrente magnetica entre os homens, um fluido que serve

de vehiculo ao pensamento recondito e ainda não divulgado. Não se

explicam de outro modo certas revelações de um facto sómente

conhecido de poucas pessoas e por estas recatado. A emoção, que

desperta esse facto n'alma de alguns, repercute n'alma de outros, e

produz uma especie de intuição.

Na casa de D. Clementina, sabia-se já que Amelia fôra pedida em

casamento; embora se ignorasse o nome do pretendente, talvez por não

ser conhecido das pessoas presentes. Salles Pereira, a mulher e a filha

não tinham dito a menor palavra sobre o objecto da carta de Horacio;

mas a impressão produzida por essa carta, a precocupação que deixára

nas pessoas da familia, as conversas intimas e recatadas, não

escapáram aos escravos.

D'ahi gerou-se o boato, que já tinha passado á casa de D. Clementina.

--Ah! chegou a Amelia Salles. Sabia que vai casar-se? Já foi pedida;

disse uma senhora a Leopoldo.

--Não, senhora, não sabia; respondeu o moço com magoa, mas sem

perturbar-se.

--Com quem? perguntou outra moça.

--Com um moço bonito e rico. Disseram-me o nome, mas já não me

lembro.

Nisso Amelia entrou na sala, onde foi muito festejada pelas amigas e

conhecidas.

As allusões e gracejos a respeito do segredo incommodaram a moça,

embora por outro lado lhe causassem certo desvanecimento.

Pelo meio da noite, Leopoldo aproximou-se de Amelia para lhe pedir uma

contradança. Tinham dansado a primeira marca sem trocar palavra: afinal

o mancebo rompeu o silencio:

--É verdade que foi pedida em casamento?

Amelia empallideceu; quiz disfarçar illudindo a pergunta, mas encontrou

o olhar de Leopoldo, olhar tão doce e sincero, que não se animou a

enganal-o.

--É verdade; murmurou em voz quasi imperceptivel. Mas ainda não

respondi.

--Estimo que seja muito feliz.

--Obrigada.

Amelia ficou sorpresa; ella suppunha que Leopoldo tinha-lhe ardente

paixão; e que portanto sentiria profundo pezar, sinão desespero, com a

noticia de seu casamento. Em vez disso, o mancebo mostrava uma

resignação serena.

--Quando comecei a amal-a, D. Amelia, disse Leopoldo depois de alguns

instantes, acreditei na felicidade, e esperei alcançal-a neste mundo.

Minha alma pressentiu a aproximação da irmã que Deus lhe destinara, e

cuidou attrahil-a e embebel-a em seu seio. Mas essa illusão se

desvaneceu logo. Soube qual era sua posição, e comprehendi que a

senhora não me podia pertencer. Resignei-me, pois, a amar unicamente

sua alma; essa ninguem me póde roubar, nem mesmo a senhora, porque Deus

a fez para mim. Eu estava desde muito preparado para a noticia de seu

casamento; ella não me sorprendeu, embora me entristecesse. Até agora

adorei sua alma, como se adora a imagem da Virgem no templo; de agora em

diante terei de adorar essa alma querida, como se adora uma santa no

sepulchro.

Leopoldo fallou por algum tempo ainda, e a moça, que a principio se

acanhara com a expansão viva desse amor tão puro, bebia as palavras

ardentes do mancebo, como fluido que derramava em sua alma suave calor.

Nessa noite, ao recolher-se, ia absorvida neste pensamento:

--Por que julgou elle impossivel que eu o amasse? sem duvida não o amo;

mas talvez... Si eu não conhecesse Horacio... Quem sabe?

Nisto lembrou-se que já se tinham passado dois dias depois do pedido, e

portanto faltavam treze para a decisão.

--Si elle não vier antes disso?... Si não vier... respondo que não.

Está decidido.

A Pata da Gazella: romance brasileiro. · 第 14 / 23 题