IX

Depois d'aquella noite Leopoldo viu Amelia duas ou tres vezes: e de

todas sentiu a mesma impressão que lhe causara a presença da moça em

casa de D. Clementina.

Era o mesmo desencanto; a mesma insistencia de seu espirito para

enxergar a formosura da donzella através de um prisma deforme e

caricato. N'essas occasiões elle soffria diante da moça a fascinação

do horrivel, como o poeta soffre muitas vezes a fascinação do bello em

face de um objecto desgracioso. Era então um poeta pelo avesso; um vate

do monstruoso. Tinha na imaginação um gnomo de Victor Hugo: creava

Quasimodos e Gwynplaines do sexo feminino com uma fecundidade espantosa.

Quando porém a moça desapparecia de seus olhos, operava-se em seu

espirito completa mutação. Esquecia completamente o aleijão, para só

lembrar a linda e graciosa figura, que poucos momentos antes sua vista

repellia. Amelia ausente vingava Amelia presente. O coração do mancebo

detestava tanto esta, quanto adorava ainda a outra.

--Este amor é um inferno; pensava elle; tem um vicio organico. Ha de

viver de dôres e lagrimas; ha de alimentar-se de minhas tristezas. E

assim irá definhando até morrer de consumpção, depois que me tiver

devorado todo o coração. Que importa? Servirei de pasto á este

abutre. O que somos nós afinal de contas? Uma presa; emquanto vivos, a

presa das molestias e das paixões proprias ou alheias; depois de

mortos, a presa dos vermes ou das chammas.

Com tal disposição de espirito voltou elle dias depois á casa de D.

Clementina. Nesta noite havia uma pequena partida; Leopoldo contava,

pois, encontrar Amelia.

Ali estava com effeito, vestida de escarlate e branco; e adornada com a

sua graça arrebatadora. Quando o moço entrou, ella dansava com as

costas voltadas para a porta e não o viu; porém, momentos depois virou

o rosto como si obedecesse a um impulso extranho, e encontrou o olhar

ardente de Leopoldo.

A moça fez insensivelmente um movimento para afastar-se, que entretanto

a aproximou da porta. Aquelle olhar que a attrahia ao mesmo tempo que a

repellia, causou-lhe um desvanecimento misturado de terror. Felizmente

a terceira figura da marca da contradansa começava, e a distrahiu de

sua emoção.

Estava ella outra vez parada conversando com o par, quando sentiu um

calafrio; sem vêr, conheceu que o mancebo se aproximava, que seus

labios se abriam para dirigir-lhe a palavra:

--Minha senhora, terei a honra de dansar com V. Ex. a seguinte

quadrilha...

Continham uma pergunta ou uma asseveração estas palavras? Fôra

impossivel dizel-o. O tom parecia mais affirmativo do que interrogativo,

porem o olhar do mancebo esperava, sinão exigia resposta.

A confusão da dansa permittiu á Amelia esquivar-se, sem responder.

Quando, terminada a quadrilha, voltou a seu logar, ficou perplexa. Tinha

ella se compromettido ou não a dansar a seguinte quadrilha com

Leopoldo? Não respondera, é certo; mas recordava-se vagamente de ter

feito uma leve inclinação com a cabeça. Sem duvida o moço vira esse

movimento e o tomára por um signal de assentimento.

Quando um de seus innumeros admiradores vinha pedir-lhe a proxima

quadrilha, ella respondia hesitando que já tinha par; apenas o

cavalheiro se afastava arrependia-se de não o ter acceitado, rompendo

assim o compromisso tacito; e ficava anciosa por outro convite.

Entretanto novo par se apresentava, que recebia a mesma recusa.

N'esse jôgo, muitas vezes repetido, passou o intervallo. O piano deu o

signal da quadrilha; Leopoldo aproximou-se de Amelia, e se inclinando

sentiu no seu estremecer o braço tepido de Amelia. A moça não teve

consciencia do que se passou até o momento em que o moço a conduziu a

seu logar. Recordava-se apenas de que seu par lhe fallara por muito

tempo, com a voz baixa, porem palpitante de emoção.

Assim fôra. Passada a primeira confusão da quadrilha, Leopoldo,

fitando o olhar no semblante da moça, deu expansão aos sentimentos que

lhe tumultuavam dentro d'alma. Com a fronte baixa e as faces cheias de

rubôres, Amelia parecia absorvida e reconcentrada emquanto o moço

fallava. Dir-se-hia que ella não o ouvia.

--A senhora acredita, D. Amelia, na attracção irresistivel, que

impelle duas almas entre si, e as chama fatalmente á se unirem e

absorverem uma na outra?... Eu acreditava nessa força mysteriosa, mas

ainda não tinha chegado o momento de experimental-a em mim; de sentir

em meu ser este elo divino que prende as almas, através do tempo e da

materia. Senti-o ha vinte dias, quando a vi pela primeira vez, quando a

senhora se revelou ao meu coração.

Leopoldo referiu as emoções que sentira, na occasião de seu primeiro

encontro com Amelia; a impressão que ella deixára em seu espirito; e

os sonhos em que se embalára sua imaginação nos dias seguintes.

--Tive então, continuou o mancebo com accento profundo e commovido,

tive então, e depois, a prova de que esse enlevo de meu ser, essa

abstracção de minha existencia para absorver-se n'outra, era a

attracção moral e nada mais. Via, admirava, adorava na senhora uma

cousa sómente; sua alma. Não sabia, ainda hoje não sei, si a mulher

que eu amo é bonita para os outros; sei que para mim é de uma belleza

divina. Perdesse ella a graça e a formosura que aos outros seduz; para

mim seria a mesma; eu havia de adoral-a com o mesmo ardor. Sua alma é

filha de Deus, e como elle de uma magnificencia immortal. É uma

estrella que não tem eclipse.

Leopoldo inclinou a fronte para fallar quasi ao ouvido da moça:

--Outr'ora julgava impossivel que se amasse o horrivel. Agora reconheço

que tudo é possivel ao amor verdadeiro, ao amor puro e immaterial. Não

só reconheço, mas sinto-me capaz de nutrir uma dessas paixões

martyres! Oh! sinto-me capaz de amar o anjo ainda mesmo encarnado em um

aleijão!...

Leopoldo fallou ainda por muito tempo de seu amor a Amelia, sem que ella

se animasse a interrompel-o. Aquella palavra ardente, impetuosa, embora

vendada por certo pudor d'alma, a subjugava: ella não tinha coragem,

nem mesmo vontade de subtrahir-se á sua influencia.

Quando Amelia, conduzida por Leopoldo, se dirigia á uma cadeira, D.

Clementina aproximou-se:

--Ah! Eu queria apresental-o, disse a Leopoldo; mas não teve paciencia

para esperar.

Depois reclinando ao ouvido de Amelia, perguntou-lhe:

--Então? Não lhe disse que a achava muito bonita?

--Ao contrario, D. Clementina; deu-me a entender que me acha horrivel.

--Ande lá.

--Deveras!

--É impossivel.

Amelia, sentando-se, evocou a lembrança de Horacio, para fazer no seu

espirito o parallelo entre o elegante leão e o estranho mancebo com

quem acabava de dansar. Um tinha todas as prendas que seduzem a

imaginação; era formoso, trajava com esmero, conversava com muita

graça. O outro não possuia nenhum desses attractivos; seu exterior

alheiava as sympathias; quando fallava diffundia a tristesa no espirito

dos que o escutavam.

A moça não concebia que se preferisse Leopoldo á Horacio; e comtudo

não podia esquivar-se completamente á influencia daquella imagem

pallida, que lhe apparecia no meio dos sonhos mais brilhantes.

Muitas vezes, depois de algumas horas agradaveis passadas junto do

leão, quando a moça, recolhida á sua alcova, repassava na memoria os

doces protestos de amor que ainda lhe resoavam ao ouvido, de repente

surgia a lembrança de Leopoldo. Parecia-lhe então que da fronte do

mancebo se desprendia uma sombra para annuviar seus pensamentos

risonhos.

Horacio, sabendo onde Amelia passava as noites em que elle não a via,

mostrara desejos de frequentar a casa de D. Clementina; a moça porém

oppôz-se. Duas razões actuaram era seu espirito.

Aquella casa servia-lhe de abrigo contra a seducção que exercia em seu

espirito a elegancia de Horacio. Quando sentia-se vencida, fugia para

ali, onde recobrava forças para resistir, e domar completamente o

leão, soberbo de suas conquistas passadas.

Era essa uma das razões; a outra era o receio de achar-se em face dos

dois moços, repartida entre a seducção de um e a fascinação do

outro. Presentia que desse conflicto, resultaria alguma cousa, que ella

não podia definir, mas que a enchia de sustos e inquietações.

Por isso exigiu de Horacio que não fosse á casa de D. Clementina:

--Costumam lá ir algumas dessas pessoas que se occupam em inventar

novidades. Sua apresentação, Sr. Horacio, daria pretexto á algum

romance.

--Mas, por que ainda frequenta semelhante casa?

--Pedidos... bem sabe; nem sempre uma pessoa se póde recusar. Mas si o

senhor apparecer lá, eu deixarei de ir.

--Esteja tranquilla.

Amelia continuou a passar de vez em quando uma noite em casa de D.

Clementina. A principio não tinha dia certo, e succedeu por isso que

Leopoldo desencontrou-se della duas vezes. Uma noite porém o moço

perguntou-lhe:

--Vem sabbado?

--Talvez.

Desde então o dia escolhido era o sabbado, a menos que não precedesse

aviso especial da dona da casa, para alguma partida. Nunca mais houve

desencontro; Amelia achava sempre o mancebo no seu posto, defronte da

porta para vêl-a entrar.

Em uma dessas noites deu-se um incidente, que é preciso referir.

Fallava-se á respeito de uma senhora casada, a quem o marido causava

serios desgostos. Pessoa que sabia das particularidades dessa familia,

explicava o facto á sua maneira.

--Ella era muito linda, o marido a adorava; casou-se por paixão. Poucos

dias depois de casada, teve ella uma grave molestia que a reduziu

aquelle estado. Não ha paixão que resista.

--Com effeito sabe ser feia!

--Ninguem acreditará que foi bonita.

--Pois foi uma belleza.

Leopoldo, que ouvia calado, interveio:

--O marido nunca a amou!

--Asseguro-lhe que teve uma paixão louca.

--E eu affirmo-lhe que não; que elle nunca teve paixão pela mulher. O

que elle adorava era unicamente a sua belleza, a fórma; isto é, um

accidente. O homem que ama a mulher destinada a ser a companheira de sua

existencia, o complemento de seu ser imperfeito, não despreza essa

mulher, porque a desgraça a feriu no envolucro material de sua alma.

Elle póde soffrer com aquella desgraça; mas deve redobrar de amor e

adoração, para que nem seus olhos vejam o defeito, nem ella, a mulher

amada, se lembre nunca de que o tem para elle, embora o tenha bem claro

para os indifferentes.

--É bonito de dizer! acodiu um apreciador das mulheres formosas.

--Todos dizem o mesmo, mas fogem das feias, observou uma senhora idosa,

talvez por experiencia propria.

--O que eu digo, minha senhora, já o experimentei em mim mesmo;

replicou Leopoldo.

--Ah!

O mancebo cravou em Amelia um olhar eloquente, e disse com a palavra

lenta e calma:

--É verdade; já o experimentei em mim. Por que hei de occultal-o?

Minha alma já passou por esta dura prova, e sahiu triumphante. Hoje sei

que tenho forças para amar até os defeitos da mulher que Deus me

destinou.

Amelia perturbou-se com aquellas palavras, e o olhar ardente que parecia

graval-as em sua alma. Nessa noite retirou-se pensativa; e por muito

tempo a figura pallida de Leopoldo, esvoaçou na penumbra de seu leito

de virgem.

X

Pela manhã se dissiparam essas nevoas que no espirito de Amelia deixara

a noite antecedente.

Era domingo. A moça, envolta em seu roupão alvo, com os cabellos

soltos pelas espaduas, encostou o rosto á vidraça da janella.

Afastando a cortina de cassa branca, podia enxergar perfeitamente a rua,

sem que de fóra vissem o seu gracioso desalinho.

Não tardou que se ouvisse um tropel de cavallo. Era o leão que ia dar

seu passeio matutino. Vendo agitar-se a cortina, e desenhar-se no vidro

a ponta de uns dedos côr de rosa, Horacio cortejou, enviando um sorriso

á janella.

Á noite o moço dirigiu-se á casa do Salles. Amelia o esperava. A sala

estava cheia de visitas. Entrando, o olhar de Horacio encontrou um olhar

terno que o saudava de longe.

Mas o sorriso se desfez com a perturbação que de repente sentiu a

moça. A vista do leão tinha descido até o tapete, e se fixara com uma

insistencia visivel na fimbria do vestido, ligeiramente arregaçada.

Horacio julgou que pudesse lobrigar a ponta do pesinho que idolatrava.

A moça concertou as dobras da saia de modo a interceptar o olhar

curioso; e disfarçou conversando com uma amiga.

Desde principio notara Amelia aquelle sestro de Horacio. Quando ella o

suppunha mais embebido em seus encantos, mais rendido á sua belleza,

sorprendia o olhar do moço a rastejar pelo chão, procurando

insinuar-se por baixo da orla de seu vestido.

Muitas vezes ella perdia os seus mais ternos sorrisos, porque o moço,

em vez de procurar lhe no rosto a esperança de ser amado, esquecia-se,

a catar sobre o tapete alguma idéa que não se animava a revelar. Já

tinha succedido, durante que ella tocava, distrahir-se o leão, e com a

attenção presa no pedal, nem ouvir a peça de musica.

Horacio a amava sem duvida; já lhe tinha dado provas de que sentia por

ella uma paixão vehemente. Elle, o rei da moda, o festejado

conquistador, para quem todas as portas e todos os corações abriam-se

como a gruta encantada de Aladino, a uma só palavra; elle ali estava

captivo da vontade della, e atado a seu carro triumphal. Que prova mais

eloquente de profundo amor, do que essa submissão espontanea do altivo

leão?

A força nunca se revela tanto como na posse de si mesma, no vigor com

que se domina. Hercules, fiando aos pés de Omphale, é o ultimo canto,

o epilogo sublime da epopéa da força humana. Exterminando a féra, a

natureza e até os deuses, Hercules foi grande; abatendo a si mesmo, foi

maior, porque venceu o vencedor.

Amelia comprehendia que homenagem eloquente á sua belleza havia

naquella adoração do elegante cavalheiro; sentia-se orgulhosa com esse

amor, que tantas mulheres lhe invejavam; considerava-se rainha, desde

que via a seus pés subjugado e humilde o rei da moda.

Mas lá no intimo alguma cousa lhe remordia, quando notava a pertinacia

com que o olhar de Horacio, procurava a fimbria de seu vestido. Nesses

momentos sentia n'alma um alvoroço; chegava a suspeitar que Horacio

não lhe tinha amor, e estava escarnecendo della com uma paixão

fingida.

A verdade, porém, é a que sabemos. Horacio tinha paixão louca pelo

pésinho de que só conhecia a botina e o rasto; fazendo a côrte a

Amelia, elle prestava culto ao deus ignoto, que adorava sob aquella

fórma encantadora. Pelo cuidado que tinha a moça em não desconcertar

os babados de seu vestido comprido de mais, conheceu elle o zelo com que

a dona recatava o thesouro. Comtudo não desesperou; o cuidado da moça

havia de adormecer um momento; podia mesmo sobrevir um accidente

inesperado que realizasse a sua mais cara esperança.

Até aquella noite todos os esforços se tinham frustrado: á sua

insistencia a moça tinha opposto a pertinacia do capricho feminino.

Quanto mais attento elle estava para aproveitar qualquer descuido, mais

alerta ella ficava para não commetter a minima falta.

Horacio porem resolveu dar o golpe; e com essa intenção, fora á casa

de Salles, no domingo em que estamos.

Quando se offereceu occasião, travou com Amelia, recostada á janella,

o seguinte dialogo:

--Como é bonita! disse elle contemplando a moça com enlevo.

--Ainda não tinha percebido? perguntou ella com ironica faceirice.

--Não, D. Amelia, não; porque de cada vez a acho mais bonita: todos os

dias a senhora muda a meus olhos; torna-se outra, mais linda, mais

formosa, do que era aquella que eu conhecia anteriormente. Como hoje,

acredite, nunca a vi.

--Que tenho eu de mais?

--Não sei; tem uma aureola da belleza! Seus olhos desferem raios de luz

tão pura; sua boca sorri como a flôr em botão, que abriu com a

frescura da noite. Os anneis de seus cabellos castanhos parecem

impregnados de um fluido mysterioso, que se derrama em torno. Mas, de

toda a sua formosura ha uma cousa sobretudo que eu admiro, que eu adoro.

Não é, nem seus olhos brilhantes, nem seus labios mimosos, nem seu

talhe elegante, nem suas tranças tão opulentas; não é nada disto!

--O que é então?

--Para que dizel-o? Para que revelar a minha paixão, a quem della

escarnece? Si eu o confessasse, cessariam o supplicio que tenho

soffrido, as ancias que estou curtindo? Não; haviam de augmentar si

isso fosse possivel. A senhora teria prazer em torturar-me ainda mais.

--Explique-se: confesso que não o entendo. Que supplicio tem o senhor

soffrido?

--A mulher é caprichosa, muitas vezes faz padecer aquelle que a ama

sinceramente, e só por espirito de contradicção. Uma cousa innocente,

um favor pequenino... permitte aos estranhos e indifferentes, e

entretanto recusa ao homem que morre de paixão por ella. Não é uma

crueldade? A senhora pergunta, D. Amelia, que supplicio tenho eu

soffrido. Este, de ser consumido á fogo lento por um desejo, que um

gesto seu podia tornar em gozo infinito!

A moça com as faces incendidas em rubôr, luctava no alvoroço e

confusão, que iam-se apoderando de toda sua pessoa.

--Entende agora, D. Amelia?

--Não! murmurou tremula.

--Pois não percebeu ainda, que ha uma cousa que eu sobretudo amo na

senhora? Tanto percebeu, que fez o proposito de escondel-a a meus olhos,

cançados de a procurarem a cada instante. Não está contente ainda de

vêr-me arrastando assim a alma pelo pó, no vão intento de entrevêr

de longe o objecto de minhas adorações?

O leão fitou um olhar fascinador no semblante da moça.

--Para que negar, D. Amelia? A senhora o sabe, e finge ignorar para mais

torturar-me.

--Eu não!

--A senhora sabe por quem deliro de paixão, por quem darei a minha vida

sem hesitar. Si não soubesse, já eu teria visto e admirado esse

pésinho mimoso, que me mata com seu rigor.

Uma visita que entrava na sala, deu a Amelia um pretesto para fugir,

disfarçando seu rubôr e perturbação, no afan da recepção das

senhoras que chegavam.

Ao retirar-se, Horacio achou ensejo de trocar uma palavra coma moça,

emquanto lhe apertava a mão.

--Não seja cruel!

--Oh, cruel não sou eu; replicou a moça com expressão de

ressentimento.

Mais tarde em sua alcova, emquanto desfazia o penteado, soltando os

lindos anneis do cabello castanho, Amelia recordou-se das palavras

apaixonadas que ouvira de Leopoldo na vespera, e comparou-as com as

queixas de Horacio. A linguagem do primeiro tinha a eloquencia da

paixão; parecia vir do intimo, do mais profundo do coração. A

linguagem do segundo, tinha a graça da seducção; era a vibração

passageira das cordas d'alma.

Mas a palavra do leão, vinha envolta em um sorriso gracioso, sombreado

por um bigode fino e elegante!

Durante uma semana, Amelia não viu Horacio; por uma razão muito

simples. O moço de arrufado, não appareceu durante dois dias; quando

se resolveu a apparecer, a moça despeitada inventou um incommodo, e

não desceu á sala de visita, pelo dobro do tempo. Si Horacio

sustentasse a lucta, podia haver serio rompimento.

O leão, porém, estava domado; tinha achado a sua Diana. No quinto dia

foi humildemente render preito e homenagem á suzerana de seu coração.

Amelia o recebeu, como rainha magnanima; e tratou-o nesse dia com

amabilidade extrema. Pela primeira vez, Horacio pôde beijar-lhe a ponta

dos dedos.

Animado com esse acolhimento, o leão arriscou de novo a grande

questão. Fitando o olhar no rosto da moça, e abaixando-o á orla do

vestido, disse em tom supplicante:

--Me deixa vêr?

--Não; respondeu a moça com vivacidade, e demudando-se.

--Quando cessará este capricho?

--Nunca.

Horacio teve um assomo de impaciencia.

--Bem. Não me quer mostrar a mim, Horacio de Almeida, pois ha de

mostral-o a uma pessoa.

--A quem? perguntou a moça irritada.

--A seu marido.

Amelia tornou-se pallida, e sentiu passar-lhe nos olhos uma vertigem;

mas recobrou-se logo á idéa, de que as palavras de Horacio não

passavam de um galanteio.

--Si algum dia me casar, replicou ella sorrindo, ha de ser com a

condição de não mostrar.

--Havemos de discutir essa condição.

--Vamos mudar de conversa?

--Como quizer; temos muito tempo para continual-a.

Emquanto Amelia o olhava sorpresa, Horacio voltando-se para o grupo das

senhoras, tomou parte na conversação geral.

--Já sabem a novidade, minhas senhoras?

--Qual dellas? Ha tantas.

--A novidade nova, a ultimamente inventada, que eu acabo de receber em

primeira mão, de caminho para aqui.

--Algum casamento, aposto.

--E eu sei de quem.

--Não adivinhou. Talvez que a novidade de amanhã seja algum casamento;

quem sabe? respondeu Horacio, relanceando um olhar para Amelia. Mas a

novidade de hoje, é apenas um baile, um baile de estrondo.

--Aonde?

--No Cassino?

--No Club?

--Em casa do Azevedo.

--É verdade! Eu já tinha ouvido dizer!

--Quer a senhora fazer de velha a minha novidade. O que se dizia era que

o Azevedo tinha tenção de dar um baile, mas disso á realisação vai

uma grande distancia. Eu desejo muita cousa que não alcanço, e nem ao

menos posso vêr. Foi hoje e ao jantar que resolveu-se a grande

questão, por occasião de uma saude. Um amigo que vinha de lá,

encontrando-me a dois passos daqui, me deu a noticia do grande

acontecimento. Portanto, minhas senhoras, preparem-se!

--Quando é o dia?

--No primeiro do mez proximo. Ponham desde já em contribuição as

lojas e modistas; eu o que posso é offerecer-me com muito gosto para

admiral-as a todas, e achar a cada uma de per si, mais elegante do que

as outras juntas. Si Páris me tivesse ouvido, não haveria guerra de

Troia.

--Nem Homero por conseguinte: replicou um litterato.

--Homeros sempre os ha. Quando não encontram os heroes já feitos,

inventam-n'os, e com tal habilidade, que esses grandes homens postiços,

parecem verdadeiros, como os dentes de osana, e os coques das moças. O

mesmo succede com os Anacreontes, cuja raça é muito maior; quando não

acham nymphas para cantar, qualquer bruxa lhes serve de pretexto ou de

cabide para pendurarem a lyra.

Amelia ficara triste e preocupada; escutava a palavra voluvel do moço,

com um sentimento indefinivel de angustia; parecia-lhe que era seu amor

por ella, que Horacio rasgava aos pedacinhos, como uma pagina querida,

abandonando-os ao sopro do vento, ao capricho daquella conversa.

Uma amiga reparando na tristeza da filha de Salles, e no olhar que em

certa occasião lhe deitara Horacio; disse ao ouvido da moça sentada á

seu lado:

--Amelia ficou lograda!

--Como?

--Creio que Horacio está justo com outra.

--Quem lhe disse?

--A tristeza de Amelia, e o olhar que o sujeito lhe deitou, quando

fallava de um casamento que se ha de saber-amanhã.

--É verdade. Com quem será?

--Naturalmente com alguma fazendeira de mil contos. Depois que sahirem

da igreja, o marido leva-a para o collegio do Hitchings; e deixa-a lá

como pensionista, emquanto elle vai a Pariz aperfeiçoar-se na _escola

dos maridos_.

Esta senhora é uma satira viva; sua conversa parece um fogo de

artificio; dir-se-hia que o seu gracioso trajo é todo composto de

alfinetes, que ella vai deixando em sua passagem envoltos em sorrisos

assucarados, como confeitos do carnaval.

Occulto seu nome porque é muito conhecida na boa sociedade do Rio de

Janeiro, e não quero compromettel-a com os noivos presentes e futuros

das fazendeiras ricas.

Depois de ter durante alguns instantes ainda polvilhado a conversa com

sua palavra elegante e chistosa, Horacio tomou o chapéo e retirou-se.

Não eram nove horas; esta circumstancia mais entristeceu Amelia, e mais

excitou a attenção da moça maliciosa.

Á porta da casa de Salles, encontrou Horacio seu tilbure. Mandou o

cocheiro esperal-o no largo do Machado, e elle, tendo acendido o charuto

e vestido o sobretudo, seguiu a pé. Queria pensar.

Horacio pertencia á escola daquelles que entendem, que nunca é tarde

para arrepender-se o homem de um compromisso. Elle comprehendia o _jacta

est alea_ por esta fórma prudente e rasoavel. Cezar, tendo lançado a

ponte sobre a Rubicon, via de longe em Roma a dictadura, e mais tarde a

purpura imperial; portanto fez elle muito bem em passar, sobretudo desde

que o rio já não oppunha obstaculo. Mas se em vez do poder, Cesar

encontrasse no caminho a derrota; a ponte lançada lhe serviria para

voltar ás Gallias, e elle teria o cuidado de queimal-a depois que

tornasse a passar.

Como Cesar, elle tinha lançado a ponte com aquella palavra dita a

Amelia, em um momento de despeito. Devia porém passar o Rubicon do

casamento?

Era sobre tão importante questão que o leão queria reflectir, fazendo

a pé o trajecto entre Larangeiras e largo do Machado.

--O casamento é o supplicio de Prometheu, pensava elle; um homem atado

ao rochedo da familia, com o coração devorado pelo tedio; uma creatura

dividida em duas metades, que se contrariam á cada instante, porque

estão ligadas. Em vez do romance, do idilio, do drama, a prosa monotona

de uma historia que se lê todos os dias. Esse prazer incomparavel de

sentir-se todo dentro de si, de resumir-se no seu unico eu, de dispôr

livremente de sua pessoa e vida, não o tem o marido a menos que seja um

biltre. O casamento dilata a superficie da alma; em vez de soffrer-se no

seu coração apenas, soffre-se na mulher, no filho, e em cada um dos

fios dessa grande teia humana que se chama familia.

Horacio recordou-se de alguns de seus amigos que haviam casado, e achou

nessas reminiscencias a prova de sua opinião.

--O casamento é tudo isso, mas que importa, desde que não ha outro

meio de realisar o meu desejo e satisfazer esta paixão ardente e

impetuosa? Daria a vida inteira, e sem hesitar pela felicidade que eu

sonho. Pois si eu a daria de uma vez, por que não a emprestarei sob

hypotheca?

Tendo chegado ao largo do Machado, o moço, entrou no tilbure, que o

conduziu á casa.

Ahi, contemplando a mimosa botina, guardada como uma reliquia, encheu-se

cada vez mais da resolução que havia tomado.

A Pata da Gazella: romance brasileiro. · 第 13 / 23 题