Corrêram os dias sem que Horacio apparecesse em casa do Salles Pereira.
Amelia, apezar de seu esforço, não podia conter a impaciencia. Ella
adivinhava que o leão estava despeitado com a resposta, e queria
obriga-la á conceder-lhe immediatamente o que pedira; a sua mão, e com
a mão o pesinho que elle adorava.
Por vezes a moça foi até á porta do gabinete do pai, na intenção de
diser-lhe que escrevesse á Horacio enviando-lhe o consentimento. Mas
voltava envergonhada de sua fraqueza: enxugava algumas lagrimas que lhe
saltavam dos olhos; e fazia novos protestos de não ceder.
Nestas occaziões ella contemplava a imagem de Horacio com alguma
severidade. Lembrava-se da volubilidade com que elle fallava-lhe de seu
amor; do sorriso sempre faceiro que tinha nos labios e servia para
vestir a palavra alegre ou triste, zombeteira ou commovida; e finalmente
da insistencia que mostrava em vêr-lhe o pé.
Então acodia a Amelia uma circumstancia que á principio lhe escapára;
fôra sua recusa á impertinencia do leão, que o obrigára á pedi-la
em casamento no dia seguinte.
--Será apenas um capricho? Não me terá elle verdadeiro amor?... Si
não me engano, o que elle ama em mim, não sou eu, mas uma mulher que
imaginou; sirvo-lhe apenas de pretexto, como tantas outras antes de mim.
O resultado destas observações era protestar a moça que daria um não
ao pedido de Horacio. Mas quando seu pai lhe perguntava sorrindo:
--Ainda não?
Ella corava, abanava a cabeça, e fugia, disendo comsigo que ainda
faltavam alguns dias para o prazo marcado.
Para occupar as noites e distrahir o espirito dessa constante
preoccupação amiudou as visitas á casa de D. Clementina. Ali com a
influição do olhar profundo e da palavra eloquente de Leopoldo,
esquecia as contrariedades e inquietações. Na volta trazia algumas
dôces reminiscencias, e sobretudo um certo arroubo do coração, que
durava algum tempo, e a preservava de suas anteriores preoccupações.
Ja haviam passado doze dias depois da carta, e Amelia estava mais que
nunca resolvida á romper com Horacio, quando se deu entre ambos um
encontro.
Foi no theatro.
Amelia que á principio evitou as occasiões de encontrar-se com
Horacio, lembrou-se que sua presença podia provocal-o; e obteve do pai
que a levasse ao espectaculo. Subindo a escada do Theatro Lyrico,
avistou Horacio que vinha do lado opposto.
Apezar de estar prevenida a moça teve um sobresalto; mas pôde
recobrar-se antes que o leão se apercebesse de sua presença. Foi com
fria altivez e indifferença que ella correspondeu ao comprimento de
Horacio, sem demorar o passo em quanto elle trocava um aperto de mão
com o Salles Pereira.
Esta indifferença porém, e sobre tudo o gesto que Amelia fez para
arregaçar o vestido, quando subia o segundo lanço de escadas, ataram
de novo o leão ao jugo.
--Desta vez, pensou elle, si eu estivesse adiante via ao menos a ponta
do meu pésinho!
Teria Amelia simulado aquelle gesto de proposito? É natural; ella
queria subjugar outra vez o captivo que lhe escapara; usava de todos os
seus recursos.
Vencido, o moço acompanhou a familia até á porta do camarote, e
demorou-se ahi á conversar com o negociante. Entretanto Amelia, sem
dar-lhe a minima attenção, percorria com o binoculo os camarotes
trocando com a mãi observações a respeito das moças e seus lindos
adereços.
Durante o resto da noite, a moça mostrou a mesma calculada
indifferença, á ponto de irritar o mancebo. Apezar de se ter rendido,
sentiu elle um impeto de revolta, e deixou sua cadeira junto á
orchestra com intenção de visitar um camarote fronteiro ao do Salles
Pereira. Lá estava uma linda moça de seu conhecimento; uma das
estrellas de sua coroa de rei da moda.
Sentar-se-hia junto della, e estabeleceria um dialogo entretecido de
sorrisos, de olhares e meias confidencias como por ahi se dão tantos
nos bailes e espectaculos: verdadeira scena mimica de amor representada
perante o publico. Com esse entretenimento, Horacio comprometteria
seriamente a reputação de uma senhora; mas vingar-se-hia de Amelia,
excitando-lhe ciumes.
Chegava já o leão á porta do camarote quando occorreu-lhe este
pensamento.
Faltava apenas um acto para terminar o espectaculo; si elle mostrasse
afastamento, Amelia irritada persistiria em seu desdem durante o resto
da noite; e quem sabe que resolução tomaria sob a influencia desse
despeito?
Horacio teve medo e recuou. Já se tinha submettido no começo da noite,
o melhor expediente era perseverar. Naturalmente Amelia, no fim do
espectaculo, abrandaria o seu rigor.
Começára o acto. Horacio deixou passar algum tempo, e dirigiu-se ao
camarote de Amelia. A moça que já tinha reparado na ausencia do leão,
cuja cadeira estava desoccupada, adivinhou-lhe a presença, ouvindo
abrir-se a porta. Seu primeiro movimento foi voltar o rosto; mas
reprimiu-se a tempo, e disfarçou dirigindo o binoculo para o fundo da
sala.
Apegar do imperio que tinha sobre si, Amelia estava ao cabo das forças.
Si naquelle momento Horacio fingisse uma retirada, ella não resistiria.
Felizmente o leão não se lembrava disso; tinha resolvido esperar a
sahida para trocar algumas palavras com a moça.
Terminou o espectaculo afinal. Horacio offereceu o braço a Amelia:
--Muito lhe offendi com meu pedido, D. Amelia?
A moça calou-se.
--Não lhe mereço nem uma palavra!
--Parece que o senhor lhe dá bem pouco apreço.
--Que injustiça!
--Quem passou tantos dias sem ella, póde bem esperar ainda os dous que
faltam.
--Então sou eu o culpado dessa demora! Quem me condemnou a ella?
--E o senhor nem ao menos procurou abrevial-a: achou mais commodo
esperar tranquillamente? Pois continue á esperar.
--Mas, D. Amelia! Depois da resposta de seu pai, si eu me apresentasse
em sua casa, tornar-me-hia importuno. Cuida que não soffri, passando
tantos dias sem vêl-a? Ingrata! Quantas vezes não podendo resistir fui
até á porta de sua casa, e passei, impellido pelo receio de indispol-a
contra mim? Si ella me amasse, pensava eu, teria acceitado logo: não o
fez; quer refflectir; devo deixal-a tranquilla, e respeitar a sua
resolução. Que vou eu lá fazer? Obrigal-a á me aborrecer.
Horacio mentia; elle se ausentara da casa do Salles Pereira, sómente
para vencer a resistencia da moça por uma simulada indifferença.
O carro do negociante aproximou-se:
--Vai sem me deixar uma esperança?
--Não é aqui o logar de pedil-a.
--Então amanhã?
--Si quizer!
No dia seguinte á noite o leão estava em casa do negociante. Amelia o
recebera com um resto de resentimento, que se desfez com os primeiros
galanteios. Succedeu o que era natural; depois de uma abstinencia de
tantos dias, esses corações tinham sede de ternura, e beberam um no
outro á largos sorvos.
Quando o leão se retirou, elle sabia que dois dias depois receberia
officialmente, por uma carta do negociante, o sim que ouvira naquella
noite entre um sorriso e um rubor.
Quanto á Amelia, depois que a auzencia do moço rompeu o encanto, e
deixou-lhe unicamente a consciencia do compromisso tomado, lembrou-se
involuntariamente de Leopoldo, cuja imagem pallida e triste, desenhou-se
em sua imaginação.
--Elle ha de soffrer muito! pensou a moça suspirando.
No dia seguinte havia reunião em casa de D. Clementina. Amelia
recordou-se disso, e fez tenção de ir. Naquelle momento julgou-se
obrigada á communicar sua ultima resolução á Leopoldo. Pareceu-lhe
que seria uma deslealdade deixal-o na ignorancia de seu casamento, até
que viesse á sabel-o por algum estranho.
Mais tarde surgiram os escrupulos. Tendo acceitado a mão de Horacio,
não era bonito animar uma affeição, que deixava de ser innocente.
Embora nunca retribuisse a paixão de Leopoldo, podiam suppôr que não
a repellia. Demais sendo natural que Horacio fosse passar a noite em sua
casa, ella procederia muito mal, trocando sua companhia pela de um
rival.
Emquanto as horas do dia se escoavam, estas e outras razões disputavam
no espirito da moça a decisão que ella devia tomar. Afinal interveiu o
coração!
--Tenho pena delle!
E ás oito horas estava em casa de D. Clementina. Nessa noite a moça,
cujo espirito jovial sympathisava com as côres frescas e risonhas,
escolheu um vestuario sombrio. Era uma faceirice melancolica. Aquella
menina de 18 annos, que na vespera, muito espontaneamente se promettera
á um homem elegante de seu gosto e escolha, afigurava-se agora uma
victimado dever, sacrificando-se heroicamente ao compromisso contrahido.
Essa convicção dominava Amelia ao entrar na sala, e ressumbrava não
só nas fitas pretas de seu trajo, como na languida flexão da fronte,
e no olhar cheio de magoas. Ella se julgava sinceramente coagida por uma
força irresistivel, que a arrancava á um amor profundo e santo, como a
flôr que o vento arrebata ao tronco onde se enlaçara.
Leopoldo comprehendeu a melancolia de Amelia, e adivinhou que essa
mulher estava perdida para elle no mundo; mas que sua essencia divina
lhe pertencia, para todo o sempre. Sentiu pois a magoa da saudade, que
precede a longa ausencia. Quando se tornariam a encontrar as duas
metades dessa alma, separadas por uma contingencia da materia?
Pela noite adiante Leopoldo aproximou-se de Amelia, porem só lhe fallou
de cousas indifferentes, ao contrario do que ella esperava. Si o moço a
interrogasse á respeito do casamento, aproveitaria o momento para
confessar-lhe; mas elle nem de leve tocou nesse ponto.
Na occasião de se despedirem a moça fez um esforço.
--Já sabe? perguntou com voz tremula e quasi imperceptivel.
--Adivinhei! disse o mancebo fitando nella os olhos tristes.
Amelia ficou um instante indecisa, em face delle, como si esperasse mais
alguma palavra; Leopoldo dissera tudo naquelle olhar, em que diffundira
sua alma.
--Adeus! murmurou a moça afinal.