«Mudando êle o proposito em cousa que tambem lh'o mudasse a éla, para

lhe escusar alguma imaginação, pelo perigo em que vinha da prenhez, lhe

respondeu, dizendo:

--«Hei-vo-lo, senhora, de confessar, ainda que n'isto force minha

condição,--que nem dizer-vo-lo, nem cuidá-lo quisera. Houve melancolia.

Perdoae-me, que de vós não se póde éla haver. Mas como os sonhos não

venham senão do que a gente traz na fantasia pareceu-me (porque me

dissestes que sonhaveis que me não vieis mais) que era desconfiar do que

vos quero, e de mim,--sendo vós bem segura de ambas as cousas, ou de

cada uma.»

--Éla, com a boca cheia de riso, que bastava para o desagastar (se êle

aquilo cuidava) se chegou mais para êle, dizendo-lhe:

--«Bem longe viera eu buscar essa desconfiança! Eu vos perdôo. Parece

que é este dia aziago, que tantos desastres acontecem n'êle!»

«N'isto, e em outras cousas, passaram aquele dia, emquanto houve sol,--o

qual com mais prazer se havia de pôr, do que amanheceu, pelo que

ouvireis.»

CAPITULO VIII

De como a Belisa vieram em crescimento as dores do parto, e, parindo uma

criança, faleceu

«Vinda a noite, repousando já todos, Belisa se começou de agastar

levemente; mas, crescendo-lhe a dôr cada vez mais, houve de chamar por

sua irman.

«Acordando éla, que perto em uma cama dormia, lhe contou Belisa como a

dôr lhe ia em crescimento. A senhora Aonia (que assim se chamava a

irman) acordou as mulheres de casa, e uma dona honrada, que de parteira

sabia muito, e para isso a trouxera Lamentor; porque, quando partira, já

Belisa era prenhe; e se não fôra porque se não podia já encobrir, não a

trouxera êle assim a terras estranhas: mas, na necessidade, o amor não

achou outro melhor remedio que o desterro.

«Belisa, que a Lamentor queria sobre todas as cousas do mundo, disse,

para as outras, que a ajudassem a tirar do leito em que jazia para a

camilha de sua irman, para o não acordarem, que estava cansado do

caminho. Assim se fez, o mais de manso que puderam.

«Grande parte da noite passaram a fazer remedios para a dôr de Belisa.

Mas a senhora Aonia, que via sua irman cada vez com mais agastamentos:

--«Quereis, senhora irman (lhe disse) que chamemos meu irmão?»

--«Para tomar paixão, (lhe disse éla) não o chameis vós; que prazerá a

Deus que se me irá esta dôr: e isto, ao menos, ganharemos d'éla.»

--«Assim praza a Deus (falou a dona honrada, d'acolá d'onde estava)

porque não vejo nenhum sinal, senhora, de parirdes tam cedo. Deve ser

isto do caminho ou da mudança de terra.»

«Porém, era já manhan quase; e a dôr não amansava, antes se fazia maior,

e começavam-lhe a vir uns agastamentos e desmaios ao coração. A primeira

vez que lhe isto veio, suportou-o éla; e a outra vez tambem; mas quando

veio a terceira, em tamanho crescimento lhe veio, que lhe tolheu a fala,

um pouco.

«Tornando éla a si, olhou para sua irman, dizendo-lhe que já agora lhe

pesava de o não chamarem. E porque n'isto se começou a sentir melhor,

tornou depressa para sua irman, que já ia para o chamar, dizendo:--«Mas

não o chameis, que, parece, me acho melhor.»

«Um pedaço grande, esteve então Belisa desagastada. E porque uma rica

camisa que tinha vestida estava mal-tratada dos remedios que sobre o

coração lhe punham, para as mulheres, disse:--Vistam-me a mim outra

camisa, que, se morrer, não vá pelo menos assim.»

«A senhora Aonia se pôs a chorar, com estas palavras.

«Olhando para éla, Belisa, lhe vieram as lagrimas aos olhos; e,

querendo-lhe dizer alguma cousa, a dôr não a deixou, que então começou

mais apertadamente que d'antes.

«Aquela dona honrada, que a via mais agastada que nunca, disse que seria

bom erguerem-na de todo; e querendo-a sua irman tomar por um lado, se

virou Belisa para éla, dizendo-lhe:--«Não sei que ha-de ser isto!»

«Mas tamanhos foram os agastamentos, e tam apressados, que não houve ahi

acordo para a erguerem de todo, e ficou como assentada. E, emfim, foi

assim a desventura que em breve espaço a pôs no extremo da morte.

«E já, a éla, lhe ia falecendo a fala, levantando os olhos para sua

irman, como forçadamente, disse:--«Chamem-no; chamem-no!»

«Foi a senhora Aonia, chorando desoladamente, chamar Lamentor, que no

mais alto sôno dormia, dizendo-lhe:--«Acordae, senhor; acordae, que vos

levam Belisa!»

«Ergueu-se apressadamente Lamentor, levando a mão a um terçado, que

junto da cabeceira tinha; mas vendo chorar todos derredor da cama de

Aonia, e Belisa, a quem tinham erguida até aos peitos, como passada

d'este mundo,--abraçando-a, se chegou para éla, dizendo:

--«Que cousa foi esta, senhora?»

«E as lagrimas enchiam, com estas palavras, todo o rosto seu e o d'éla.

«Levantou então Belisa, cansadamente, uma mão, com a manga da camisa

tomada, para lhe limpar os olhos; mas, não seguindo éla já a sua

vontade, se lhe deixou a tornar a cair para baixo. E éla, pondo os olhos

fitos n'êle: «Não mais, disse, para sempre!» E, d'ahi, os foi cerrando,

vagarosamente, como que lhe pesava de o deixar assim.

«Lamentor, que isto não pôde ver, caiu para o outro lado, como morto, e

assim esteve um grande pedaço.

«N'este meio tempo, ouvindo a dona honrada chorar uma criança na cama; e

cuidando o que era, atentou, e achou uma menina recem-nascida, que

chorava muito.

«E, tomando-a então nos braços, com os olhos não enxutos, disse assim:

--«Ó coitadinha de vós, menina, que chorando vossa mãe nasceis! Como vos

criarei eu, a vós, filha estranha, em terras estrangeiras? Mal vá ao dia

em que assim saimos do mar, para passar toda a tormenta na terra!»

«Mas, como entendida que era, ordenou de a curar, tomando a tarefa toda

sobre si; que bem via que Lamentor, e a irman, outro maior encargo

tinham. E, assim, mandou o que se havia de fazer, e proveu sobre tudo».

CAPITULO IX

Do pranto que Aonia fez pela morte de sua irman Belisa

«A senhora Aonia (lembrando-lhe o que vira fazer á dona viuva sobre o

corpo de seu morto irmão, que o devido costume ao tempo do luto lhe

parecia então,--posto que em sua terra se não usasse) pondo-se sobre o

corpo de sua irman, rasgando os toucados dos seus formosos cabelos, que

longos eram, á maravilha, a cobriu toda, e tambem a Lamentor, que éla

bem cuidou que era falecido; que pelo grande bem que êle queria a sua

irman, leve lhe foi isto de crer, vendo-o da maneira que via!

«Depois de muito cansada, em alta e dorida voz, começou por estas

palavras:

--«Triste de mim, donzela de pouco tempo, desamparada em terra alheia,

sem parentes, sem ninguem, e sem prazer! Como vós, senhora irman, me

pudestes deixar só, tam longe e em tal lugar?! Para vos tirar a saudade,

me dizieis vós que vinha eu cá: e vós, para m'a dar a mim, vinheis!...

Malaventurada de mim! Para outros fados, cuidava eu que me criava a mim

minha mãe, e éla foi a enganada, e eu a que hei de pagar agora o engano!

Quam sem-razão tamanha, senhor cavaleiro, me é feita diante de vós! De

quantas donzelas por vós foram amparadas, eu só estava para o não ser!

Coitada de mim! Que farei? Onde me irei?...»

«E assim se lançou sobre o corpo de sua irman.

«Mas, ao invocar o cavaleiro, Lamentor a ouviu, como por sonhos; e

tornando em si, viu diante tantas mágoas que ficou sem fala um pouco; e

vendo logo como se matava toda a senhora Aonia, esforçou-se para a ir

ajudar, para que tam cruelmente se não matasse, dizendo:

--«Esforçae-vos, senhora, pois a fortuna quis que um tam desconsolado

vos console!»

«E foi-a a erguer; e, querendo-lhe falar, lhe faleceu a fala.

«Ali, houveram ambos mui triste pranto, e entre si se diziam, um ao

outro, palavras de muita mágoa, começadas pela dôr, rotas pelo pranto.

«E era já manhan clara.

«E acertou assim que, áquela hora, chegava um cavaleiro á ponte, e vinha

de longes terras buscar aquela aventura, por mandado d'uma senhora que

lhe queria bem a êle: mas êle a éla devia-lhe mais do que lhe queria.

«Não achando ninguem na ponte, e ouvindo perto d'ali tam grande pranto,

pareceu-lhe algum misterio, ou alguma cousa de dôr.

«Deu a andar para onde era; e, vendo uma rica tenda, e ouvindo muita

gente, dentro e fóra, chorando, preguntou a um servidor, que topou, que

cousa era aquela. E êle lh'o contou.

«E, apeando-se êle então, (mandando primeiro adiante o escudeiro de

Lamentor) muito mensurado e humildemente, entrou após êle.

«E entrando, e vendo a senhora Aonia, que em grande extremo era formosa,

soltos os seus longos cabelos que toda a cobriam, e parte d'êles

molhados em lagrimas, que o seu rosto por alguma parte descobriam, foi

logo trespassado do amor d'éla, sem haver quem, por parte d'outrem,

fizesse defeza alguma; e como o amor viesse juntamente com a piedade,

parecia que vinha éla só; mas, quando se descobriu, eram já conhecidas

tantas razões por parte da senhora Aonia, que não tam sómente lhe

esqueceu a outra, mas não lhe lembrou mais senão para lhe pesar do tempo

que gastára em seu serviço.

«D'esta maneira, foi êle preso do amor da senhora Aonia; e, depois, veio

a morrer por éla.

«Este foi um dos dous amigos de que é a nossa historia. E, por isto,

costumava meu pae dizer que tornára o amor d'este cavaleiro a morrer na

paixão onde se levantára. Mas, para isto, seu tempo lhe virá.

CAPITULO X

De como Narbindel, vindo a combater com o cavaleiro da ponte, vendo o

pranto que se fazia na tenda de Lamentor, entrou dentro para o consolar

«Dito era já a Lamentor que o cavaleiro entrára: mas êle não no viu

senão quando já o achou junto de si, dizendo-lhe palavras de consolação.

«Lamentor as recebeu d'êle o melhor que pôde, mais por lhe não dar causa

de se deter muito, que por estar para isso. Mas, depois de estarem um

pouco, vendo Lamentor que êle não fazia menção de se ir, forçadamente,

lhe disse:

--«Senhor cavaleiro, a vossa visita vos tenho em mercê. Praza a Deus

que, em outra mais alegre, vo-la pague! Nós vimos de jornada, como

sabereis. As pousadas não são maiores do que vedes; não ha ahi outra

casa senão esta, para a tristeza e para nós. Deveis-vos, senhor, ir para

onde ieis; não tomareis ao menos parte em tanto luto, porque as mágoas

alheias tambem doem a quem as vê. Perdoae-me, que não tenho agora outra

cousa em que vos sirva a vossa boa vontade.»

«O cavaleiro, passando os olhos pela senhora Aonia:

--«Eu não tenho d'onde ir d'aqui», lhe disse.

«E, parece que lembrando-lhe que a havia de deixar, cairam-lhe umas

ralas lagrimas pelo peito.

«Mas, como êle visse que ali não tinham mais do que aquela tenda, e

outra pequena, bem lhe pareceu que não podia caber ali n'aquele tempo

gente estranha, ainda que êle--no seu coração--já o não era. Erguendo-se

então, seguiu sua fala, dizendo:

--«D'este luto, senhor, não me póde a mim já caber pequena parte, para

onde quer que vá. De boamente vo-lo ajudára a passar; mas emfim, vós,

senhor, cavaleiro sois: e mais, pois vindes de longe terra, (como soube

de um servidor vosso) não deve ser este o primeiro que tendes visto;

porque, nas suas mesmas terras, os que nunca se mudam d'éllas, não se

podem escusar de ver luto cada dia, e cada hora do dia!»

«E dizendo-lhe mais que visse o que lhe mandava, se despediu d'êle, com

os olhos postos na senhora Aonia, e assim foi um poucochinho, que a

tenda não lhe deu mais lugar; mas, quando se houve de virar todo, com

muita dôr sua os arrancou d'ali.

«Assim se saiu da tenda; e assim o deixaremos, para seu tempo.»

CAPITULO XI

De como se deu sepultura ao corpo de Belisa, e do pranto que com êle fez

Lamentor

«Lamentor se tornou a seu pranto,--que muita causa tinha êle para isso.

«Mas, estando êle, e a irman, assim por um grande espaço de tempo, que

ia já o Sol para o meio-dia, a dona honrada (que ama se chamou depois,

pela criação da menina) como era já idosa, era de muito saber, e

chegando-se para onde ambos estavam no seu pranto:

--«Senhores, (começou a dizer) para o pranto, muito tempo vos ficará,

que a desventura parece que é n'esta terra como na nossa. Deixai as

lagrimas, que não é agora tempo para vós, senhor, não parecerdes

cavaleiro; nem para vós, senhora, parecerdes tanto mulher. Lembre-vos

que a tristeza é de todos; que tamanho mal foi o nosso que não tam

sómente o hemos de ter, mas ainda nos havemos de consolar uns com os

outros. E, pois temos a dôr para sempre, doâmo-nos, sequer, como de nós

que ficamos vivos. A sepultura é devida aos mortos: hão-se de fazer as

cousas necessarias; olhai que é o derradeiro dom da vida! Termos o corpo

da senhora Belisa mais tempo sobre a terra, parecerá fazermos-lhe força

no mais pouco de sua partida; e porventura se deve éla desgostar de lhe

negarmos o seu descanso quando não nos hade pedir mais cousa alguma.»

«Acabadas estas palavras, que não foram ditas sem muita dôr de todos,

tomou éla á senhora Aonia, como sobraçada, e a levou para a tenda

pequena, que chegada áquela estava; e d'ahi tornou por Lamentor, e

tambem o ajudou a ir para lá. Depois, entendeu em concertar o

necessario.

«Mas Lamentor não quis que levassem o corpo de Belisa para outra parte,

antes mandou que ali, onde falecera, fosse a sua sepultura; porque logo

assentára em sua vontade de nunca mais, emquanto vivesse, se mudar

d'aquele lugar. E assim o fez.

«E porque, nos reinos d'onde êles vinham, se costumava, antes que

mandassem os corpos mortos á terra, virem todos os parentes a

beijarem-nos nas faces, e os familiares nos pés, e o parente mais

chegado por derradeiro de todos (parece que faziam aquilo como saudação,

para que aquela transmigração fosse como em boa hora), quando tudo foi

acabado, a ama veio chamar Lamentor e a senhora Aonia, que foi prestes

lançar-se sobre as faces de sua irman.

«E, beijando-a muitas vezes, levantou a voz, dizendo:

--«N'outra terra, muitas tivereis vós que fizeram isto, mais que

n'esta!»

«E aqui começou a rasgar o seu formoso rosto.

«E todos levantaram um triste pranto.

«Á maravilha, cada um lembrava a sua dôr, e assim a iam beijar nos pés.

«Lamentor, a quem mais doía onde ainda nunca outra cousa lhe doera,

depois de muitos suspiros arrancados d'alma, olhando pelo que devia

fazer, pelo costume, d'esta maneira disse:

--«Senhora Belisa, como vos hei de saudar, eu? Por mim, deixastes vós

vossa mãe, vossa terra, vossos amigos e parentes! Quem vos pôde apartar

de mim, em terras estranhas, para me fazerdes tam triste?! Não me

querieis vós a mim, tamanho bem? Como me deixastes só? Mas alguma

desventura me houve inveja, que o que vós me fazieis para ser o mais

ledo cavaleiro do mundo--para eu ser o mais desgostoso o fazieis vós!...

Malaventurado cavaleiro, que para vós, senhora, estava ordenada uma

sepultura em terra alheia, e, para minha vida, duas! Mas a vossa terá o

corpo; e a minha: vida e alma! Não era mais rijo, senhora, o fio que nos

prendia a ambos? Como o cortastes vós, sem mim? Não vos lembrou que era

eu o que vos não havia de ver mais? Mas pedistes, senhora (me disseram)

que vos levassem de junto de mim, para me não tirarem do repouso; e

outrem tirava-m'o estando longe de vós. Não bastou a minha desventura

haver de ser mais triste do mundo, mas ainda a maneira como me veio o

havia tambem de ser! Não me chamaram senão para vos não ver; e ainda

então vos doestes de mim, que quisereis limpar-me as lagrimas, e a minha

desventura não o queria. Faleceu-vos a mão; como que vos deixava, sendo

já senhora da vossa vontade a morte. E, com os olhos derradeiros postos

em mim, me fostes mostrando que, com a alma, se vos ia tambem a vontade.

Mas devidos eram os meus anos a este vosso caminho; mas mais o era eu ás

tristezas! E, pois fico para élas, o melhor é ficar sem vós!»

«E, com isto, cumpriu o costume.

«Mas a ama, que via não haver ali outrem sobre quem recaisse o cuidado

das honras derradeiras, senão a éla, arredando Lamentor e a senhora

Aonia, tomou uma rica toalha nas mãos, e, lançando-a por cima do rosto

de Belisa:

--«Agora para sempre (disse) vos cumpre olhar para o ceu, onde éla,

bem-aventuradamente, está; que isto é terra! Quem a amar, pois já éla a

deixou, parece que errará ao bem que lhe quiser.»

«Palavras eram estas de muita consolação, se soubera a dôr presente

consolar-se.

«Mas assim a enterraram.

«Deixemos aqui as cousas de Lamentor (que foram muitas e extremadas as

que êle fez, pelo muito que a Belisa queria), porque como este conto

seja dos dous amigos, agravo se lhe fará, ao muito que d'êles ha para

dizer, gastar-se n'outrem alguma parte do tempo.»

CAPITULO XII

Do que sucedeu ao cavaleiro, que saiu da tenda, vencido do parecer e

formosura da senhora Aonia

«Torno-vos ao cavaleiro que saiu da tenda, tam triste que não pôde

alongar-se muito d'ali; e, apeando-se, sentou-se ao pé de um freixo que

cerca d'aquelle ribeiro e da ponte estava. E, para pensar mais á sua

vontade, mandou o seu escudeiro, arredado d'ali, que desse de comer ao

seu cavalo na ribeira d'aquele rio, porque logo se temeu de êle o ver

assim, e cair em alguma suspeita que fosse contar a Cruelcia (que era

aquela por quem viera ali, como ouvistes), porque todos os seus lhe eram

muito afeiçoados; e como éla quisesse a êle muito grande bem, êles não

se podiam ter que lh'o não mostrassem todo em as obras; d'onde nascia

irem-lhe êles a dizer e contar tudo o que êle passava.

«Assim o que êle fazia por bem lhe saía ás vezes em mal; que para

tamanho bem lhe éla queria que não podia deixar de ouvir, pelo tempo,

cousas que a magoassem; nem tambem êle não as podia deixar de fazer,

pelo pouco que lhe queria. Como, de feito, assim, por derradeiro, lhe

foi isto causa, a éla, de triste fim.

«Mas, sentado o cavaleiro ao pé do freixo, esteve por longo espaço

revolvendo muitas cousas na fantasia.

«E, quando se lembrava do que a Cruelcia devia, parecia-lhe sem-razão

deixá-la; por outra parte, lembrando-se de quam bem lhe parecera Aonia,

parecia-lhe desamor não lhe querer bem.

«Tinham-no assim, entre ambas, formosura e obrigação, a ver quem o

levaria; mas, por derradeiro, pôde mais a de mais perto.

«Costumava dizer meu pae que fôra vencida a obrigação, como cousa que

lhe não vinha de direito o pago no amor, e vencera a formosura, como

quem só de amor se pagava.»

CAPITULO XIII

Em que se diz quem fosse Cruelcia e do que o cavaleiro passou com seu

escudeiro

«Era Cruelcia uma de duas filhas a quem sua mãe mais que a si queria, e

de boa formosura; mas obrigou tanto este cavaleiro, com cousas que fez

por êle, que o endividou todo nas obras. Não lhe deixou nada, tam só

para que lhe devesse a formosura. Parece que lhe quis tamanho bem, que

não sofreu a tardança de o ir obrigando pouco a pouco: deu-se-lhe logo

toda. Obrigou-o assim, mas não no namorou.

«Coitadas das mulheres, que, porque vêem que as namoram os homens com

obras, cuidam que assim se devem élas tambem namorar; e é muito pelo

contrario,--que aos homens namoram-nos desdens e presunções. Após uma

brandura de olhos, aspereza muita de obras.

«Isto de seu natural lhes deve vir; porque são tam rijos que parece não

terem em muito senão o que trabalham muito.

«Nós outras, brandas de nosso nascimento, fazemos outra cousa; porém, se

êles comnosco entrassem a juizo, que razão mostrariam por si? O amor,

que é, senão vontade? Não se dá, nem se toma por força. Mas, como quer

que seja, ou pela desventura das mulheres, ou pela ventura dos homens,

sentença é dada em contrario; que a êles os vençam esquivanças; e boas

obras--a élas!

«Esta só maneira puderam ter para os namorarem, se não foram namoradas

d'êles.

«Mas, ao amor, quem lhe porá lei?

«Porém, este desagradecimento dos homens--que é o seu nome

verdadeiro--trouxe muitos desventurados fins, como vereis n'este

cavaleiro em que falâmos.

«E não foram vãos os rogos que Cruelcia fez, com as mãos erguidas ao

Ceu, pedindo d'êle vingança.

«Comtudo, assentou êle, por derradeiro, de a deixar; porque, além de lhe

parecer a senhora Aonia a mais formosa cousa que vira, pareceu-lhe

tambem (por vir de longes terras, e ser n'aquela estrangeira) que mais

depressa haveria seu amor. Esta esperança (ainda que bem visse êle que

era de longe) comtudo grande ajuda foi então para acabar de assentar e

confirmar, ou de fazer muito grande, o bem que lhe queria; porque isto

vae assim, como quando algum amparo tolhe o sol:--se o toma em cheio, é

muito maior a sombra que o amparo que a faz.

«Assim, os que bem querem; porque as esperanças, por pequenas que sejam,

tomam sempre em cheio, ou parece que tomam, os estorvos que tolhem a

cousa bem-quista; fazem o amor muito maior do que élas são; d'onde veem

depois os cuidados que com a morte, ou longa tristeza, se possuem, como

foi n'este cavaleiro, que já não cuidava senão de ver como se apartaria

do seu escudeiro, de maneira que, depois de apartado, lhe não causasse

suspeita alguma d'aquele lugar, para êle mais á sua vontade gosar d'êle.

«Desejava tanto este apartamento, porque bem sabia êle que havia de

sofrer mal o ver-lhe deixar Cruelcia; porque era da criação d'éla, que

lh'o dera para o acompanhar, e nunca outra cousa êle lhe dizia senão que

a havia de tomar em matrimonio,--porque era de alto sangue, e herdava

terras onde êle podia repousar os derradeiros dias da vida, que não

deixam tomar armas com honra.

«Mas, emfim, cuidando o que determinou, o chamou, e fazendo-lhe um

discurso largo, entre outras cousas, lhe disse que lhe não parecia bem

ser êle mesmo que levasse á senhora Cruelcia a nova da aventura que não

achára, vindo por amor d'éla; mas que seria bem levar-lh'a êle, e

dizer-lhe que da sua mofina quisera êle que fosse outrem o portador.

Que, para éla, não podia êle ir em companhia de novas tristes; e que o

esperaria no castelo, que perto d'ali estava, até tornar a trazer-lhe

recado se queria éla pô-lo n'outra aventura, pois aquela, assim, não se

pudera acabar.»

CAPITULO XIV

De como, partido o escudeiro do cavaleiro da tenda, entrou em

pensamentos de como se separaria d'êle, e mudaria o nome

«Partindo o escudeiro com o recado (enganado êle, e para quem o levava)

ficou o cavaleiro só, e começou a entrar em pensamentos de que maneira

mudaria o nome, para que não fosse sabido onde estava, nem se pudesse

saber para onde ia; que tanto se senhoreou, n'aquele pouco tempo, o amor

d'êle, que a si mesmo queria já, em parte, deixar.

«Mas, lembrando-lhe n'isto que n'outro tempo lhe dissera um adivinhador

que, quando êle mudasse a vida e o nome, seria para sempre triste, ficou

um pouco mais pensativo; mas tornando logo a fazer menos conta d'aquelas

cousas, como incertas, e, comtudo, não querendo ir de todo contra élas,

por outras muitas que tinha ouvido pensou em trocar as letras do seu

nome. De maneira que, assim, o não mudaria, nem tentaria os fados.

«Mas êle não viu que isto era engano tambem dos fados.

«Estando êle assim n'este pensamento, acertou, por acaso, que um mateiro

vinha do mato pelo caminho que ia ter á ponte, e vinha em cima de sua

besta, como deitado, e mal coberto com um enxalmo. Parece que andando

êle, despido, cortando a lenha, ateára-se algum fogo perto do seu

vestido, e lh'o queimára; e então o mateiro, por lhe querer acudir,

descuidára-se de si, e o fogo fizera-lhe algum dano, em partes de seu

corpo.

«E, a direito do cavaleiro, topou com outro mateiro, que para o mato ia,

que lhe preguntou, vendo-o vir assim sem lenha, para que fôra ao mato,

respondendo-lhe o mateiro queimado, falando-lhe galego, estas sós

palavras:

--«Bim n'arder.»

«Olhou o cavaleiro para o barbarismo da letra mudada na pronunciação de

_b_ por _v_, e pareceu-lhe misterio; porque ele era aquele que tambem se

fôra a arder,--quis-se chamar assim d'ali ávante.»

CAPITULO XV

De como Bimnarder soube de um servidor de Lamentor que este ordenava

fazer ali uns paços e do mais que lhe aconteceu com a sombra que lhe

apareceu

«Não passou muito que, por aquele lugar, não viesse um dos servidores de

Lamentor, que atravessava para o castelo.

«Quando Bimnarder soube d'êle que Lamentor tinha ordenado fazer ali uns

paços grandes, e morar n'êles toda a sua vida, algum repouso mais deu

isto a Bimnarder; que, d'antes, a pouca certeza que tinha da estada de

Aonia n'aquela terra lhe dava grande fadiga ao pensamento.

«Mas, afrouxado da parte d'este cuidado, entrou n'outro:--do que faria

de si, e para onde se iria; no qual esteve até a noite, sem poder

assentar nada consigo. Porque se o ir-se d'ali para outra parte, lhe era

já grave; ficar, parecia-lhe impossivel cousa poder-se esconder do seu

escudeiro.

«Combatido assim de uma cousa e de outra (ainda, porém, sem determinação

nenhuma) ergueu-se,--como forçado da noite, mais que da vontade.

Saudades: história de menina e moça · 第 2 / 5 段