«Buscando o seu cavalo, onde o deixára o escudeiro, não o achou.

Tornando-se então para o freixo onde antes estivera, para d'ali olhar se

fôra beber a este rio, mas não o vendo nem sentindo em nenhuma parte,

encostou-se então assim ao freixo, pensando, á primeira no cavalo. Mas

não tardou que logo não tornasse ao seu verdadeiro cuidado, imaginando,

parece, a senhora Aonia na fantasia, afigurando-se-lhe vê-la da maneira

que a vira. E, de piedade amorosa, lhe estavam vindo as lagrimas aos

olhos.

«Estando êle assim, todo ocupado d'aquela doce tristeza, sentiu como que

alguem junto de si.

«Olhando, com o luar que então fazia, viu uma sombra de homem de

estatura desproporcionada (de nosso costume) estar perto d'êle.

«A subita novidade o moveu á alteração, mas, como esforçado que era,

lançando mão á sua espada cobrou ousadia de lhe preguntar quem era; e

vendo que, comtudo, se calava, se pôs a mover para êle, já com a espada

arrancada, dizendo:

--«Ou me dirás quem és, ou o saberei eu.»

--«Está quedo, Bimnarder (chamando-o assim por seu nome)--lhe disse a

sombra--que inda agora foste vencido de uma donzela chorando!»

«Deteve Bimnarder o passo, espantado de aquilo que ainda então cuidava

êle que o não sabia ninguem; mas tornando logo a querer-lhe preguntar de

onde o sabia, a meia palavra, olhou... e viu aquela sombra que,

virando-se para umas moitas grandes, que 'hi cerca estavam, se ia

metendo por entre élas, pouco a pouco. E assim se encobriu e

desapareceu.»

CAPITULO XVI

De como, estando Bimnarder muito pensativo no que faria, viu de subito

vir o seu cavalo fugindo d'uns lobos que o queriam matar

«Ficando Bimnarder com o pensamento cheio do que aquilo seria, começou

de ouvir um estrondo grande que vinha pelo mato para onde ele estava. E,

inda bem o não ouvia, quando, correndo por ante si, viu passar o seu

cavalo, e uns lobos após êle, e após êles, de longe, vinham correndo uns

cães com grande grasnada.

«E, ao saltar d'este ribeiro, caiu n'êle o cavalo. E, chegando os lobos,

começaram a mordê-lo por todas as partes, de maneira que, comquanto

prestemente Bimnarder acudiu, já êle era morto.

«E não tardou nada que uns pastores, que perto d'ali tinham a malhada do

seu gado, ao filar dos cães, vieram ali ter, afigurando-se-lhe ser morta

alguma rês; e, achando Bimnarder assim agastado, começaram-no a querer

consolar com palavras e modos rusticos, oferecendo-lhe pousada por

aquela noite.

«Aceitou êle, ainda que não desejava então companhia; mas pelas horas o

fez, e tambem porque logo cuidou que, quando os pastores fossem no seu

rebanho, não lhe haviam mais de tolher o tempo ao pensar,--que para êles

não se fizera a noite senão para dormir.

«Foram assim ao fato de uma grande manada de vacas (que todas estavam

alevantadas, com o alvoroço dos cães e medo dos lobos) metendo-se os

pastores e Bimnarder por entre élas, que lhe iam fazendo lugar, e

escornando umas ás outras.

«E, assim, saindo d'entre élas, estava uma fogueira grande junto de uma

choupana de sebes, cortiçada por cima. E junto d'esta, ao fogo, jazia

deitado, sobre rama verde espalhada, um pastor já de todo branco, que

maioral era do fato; e tinha sua cabeça encostada sobre um tronco de

madeira; e uns rafeiros ainda pequenos lançados em parte por cima do

velho pastor, e outros, grandes, com as cabeças estendidas sobre êle.

«E, em pastores chegando, ergueu êle a cabeça um pouco, e, como homem

que era avisado em semelhantes casos, descansadamente começou a

preguntar pelo que se passava. Contando-lhe êles que não era nenhuma rês

morta, tambem lhe contaram do cavaleiro que traziam.

«Ergueu-se êle então assentado, e fazendo-lhe lugar na rama de sua cama,

lhe rogou que se fosse assentar. E assentado Bimnarder, e assentados

todos derredor d'aquella fogueira, pediu o velho maioral a Bimnarder que

lhe contasse como aquele desastre lhe acontecêra.

«Contou-lh'o êle, brevemente, por lhe satisfazer: como andando o seu

cavalo pastando vieram aqueles lobos, e mataram-lh'o, primeiro que lhe

pudesse valer.

«Ao que, começou com uma fala retumbada a falar o pastor, como que o

queria consolar n'aquela mofina, dizendo:

«Os desastres que acontecem com os animaes ferozes n'este vale, é cousa

espantosa, e, para quem o souber, mais leves de sofrer, se a companhia

em isto dá consolação! N'uma noite de inverno escura, sendo eu mais novo

que agora, diante dos meus olhos, me tomaram a minha vaca bragada (mãe

d'est'outras bragadas, que tenho'inda agora) e mataram-na. Pois tinha eu

então ao pé de mim o rafeiro malhado, e a rafeira branca sua mãe,

armados os pescoços ambos, que nunca me achei com êles, em lugar tam

ermo nem em noite tam trabalhosa, que não estivesse seguro como na

metade do dia; mas então pouco aproveitavam êles a mim, que bradava a

coitada da vaca, e bramia tam doridamente que, em breve espaço, ajuntou

quanto gado tinha, que estava, á la fé, a um bom pedaço d'ali. E já

aqui, onde agora estou, me vieram no claro dia matar quantos bezerrinhos

tinha, que inda não eram para andarem com as mães.»

--«E porque estás então aqui, pastor honrado?»--lhe disse Bimnarder.

--«Nunca vistes outra cousa, lhe disse o pastor, não ha o haver senão

onde ha o perder. A terra é abastada de pastos; e, assim como cria o

bom, cria o mau. Já ouvi dizer a um grande homem, que era dado ás cousas

do outro-mundo, falando na povoação d'esta terra (que, ainda que a vêdes

assim, por partes, metida a mato, é de pastores, em muita maneira,

povoada) que isto era uma das maravilhas da natureza: de uma mesma terra

nascerem duas, tam contrarias uma á outra. E isto não era só nas

alimarias, mas nos homens:--que não ha maus senão onde ha os bons, e não

ha ladrões senão onde ha que furtar. Mas, quanto a mim, não sei qual é

pior para nós outros, pastores:--na terra de pouca ervagem perece-nos o

gado á fome, e cá n'est'outra, matam-no-lo. Assim, em toda a parte nos

vae mal. Mas nós outros somos, emfim, como dizem que são todos os outros

homens (e vós, senhor cavaleiro, o sabereis): podemos melhor sofrer o

mal que nos faz outrem que o que nós fazemos a nós outros mesmos. Os

danos da terra fraca, porque está em nosso poder sairmo-nos d'éla, não

os podemos sofrer; os da outra, que não está em nós vedarmo-los,

sofrêmo-los como podemos. Assim, tambem digo eu, senhor cavaleiro: no

vosso caso, não estejaes agastado; descansae, e tornae tudo á culpa da

terra.»

«Estas palavras, a Bimnarder, pareceram bem; e, se não fôra porque era

contar o pastor a verdade de sua vida, cuidára êle que não eram estas

palavras de pastor; mas o que cada um passa, facilmente o sabe bem

contar; e, por isso, não lhe tornou resposta mais que umas palavras em

sinal de agradecimento d'aquele bom conforto, fazendo menção de querer

repousar; o que vendo, o velho pastor mandou a todos que se calassem, e

que dormissem. E foi feito assim.

«E começaram em breve espaço os pastores a roncar, estirando seus

rusticos membros, uns para cá, outros para lá, como ao sôno aprazia.

«Só Bimnarder não podia repousar, tendo no coração a quem êle não doía.

E quando a todos a escura claridade das estrelas aconselhava o sôno,

d'êle o tinham desterrado os seus cuidados.

«Antes, com os olhos postos para aquela parte d'onde viera (segundo

parecia, com o corpo só) á senhora Aonia, ausente, êle a ouvia chorar.

«E em a longa noite esteve assim, 'té que aquele cansado corpo adormeceu

aquela parte dos sentidos sobre que tinha algum poder. Sonhos e

fantasias ocuparam a outra.

«Mas, depois de um pouco de sôno, acordou êle, todo banhado em lagrimas,

porque sonhára, chorando, que o levava d'ali, por força, a sombra que

vira d'antes. E correndo-lhe, por isto, muitas cousas pelo pensamento,

assentou consigo de se não ir d'aquela terra, 'té vêr o que podia ser

d'êle n'aquele cuidado, que o assim tomára, e assim o seguia.

«D'esta maneira, cuidava êle que não iria contra aquilo que, porventura,

lhe adivinhava o sôno, se o fizesse.

«Tamanho desejo tinha de se não ir nunca d'ali, que tudo lhe parecia que

lh'o aconselhava; e, de muitas maneiras que cuidou, n'esta assentou por

derradeiro: despedir-se cedo d'aquele velho maioral, e ir-se a algum

lugar perto d'ali, onde mudasse os trajos, e tornasse a assentar vivenda

com êle, que grande rebanho lhe parecia que trazia.

«E, ainda que muitos mancebos lhe visse, a pouquidade da soldada faria

com que lhe não fosse sobejo qualquer pastor.

«E assim o fez.»

CAPITULO XVII

De como Bimnarder assentou vivenda com o maioral do gado, e do que a

donzela passou com a dona em sua historia

«Eis Bimnarder pastor de vacas,--que não houve ahi nada impossivel no

amor grande.

«Muito tempo passou êle n'aquela vida, com maus dias e piores noites;

porque Lamentor, no começo logo do seu assentamento, mandou fazer

primeiro umas casas para recolhimento, não mais; e a muita gente que era

vinda para as obras, pela labutação grande que tinha, por causa da

grande pressa que Lamentor dava a élas, tolhia a saida das mulheres,

pelo que Aonia não apareceu um grande tempo, para Bimnarder, ao menos,

ter aquele contentamento que a vista dos olhos dá áqueles que do mais

carecem.

«Conheciam-no, porém, já todos os de casa, e chamavam-lhe o _pastor da

flauta_, porque êle costumava trazê-la sempre, pois para remedio da sua

dôr a escolhêra, depois de se desconhecer.

«Tambem assim, muitas vezes, ora pela ribeira d'este rio, e outras horas

por estas altas assomadas (que fazem, como vêdes, mais gracioso este

vale) andava tangendo, e cantando em palavras pastoris. Este só

contentamento lhe era algum conforto para o seu mal, e para desabafar o

seu coração, que tam ocupado de profundos e muito penosos pensamentos

trazia.

«Muitas cousas sabia meu pae, suas, que arremedavam de pastor, e tinham

as cousas de alto engenho, ou, mais verdadeiramente, de alta dôr, postas

e semeadas tam docemente por outras palavras rusticas, que quem bem

olhasse facilmente entenderia como foram feitas.

«E, assim, tinha mais outra cousa, a meu fraco juizo e parecer: é que o

bom pastor, n'aquela baixeza de estilo, pela impressão da presunção que

punha, e de si mostrava, como que via mais depressa haverem d'êle

compaixão todas as pessoas que o ouviam, tanto póde a imaginação em

todas as cousas.

«Mas, de todas, uma só me vem á memoria, e lembra-me que dizia meu pae

que êle a cantára, e ouvira-lh'a a ama da menina.

«Por certo, parece que assim o ordenou a ventura para que Aonia fosse

sabedora de seu cuidado, já quando êle de todo andava desesperado; e,

não se podendo d'ali apartar, ordenava, andando desvairadas cousas de

si, que desvairadamente o atormentavam.

«Tambem, para que tudo fosse como cumpria á desventura que estava

ordenada, aconteceu que a velha ama era natural d'esta terra, e, n'outro

tempo, quando era moça, parece que um mercador muito rico e

gentil-homem, (que viera d'aquelas partes d'onde Lamentor) por asos e

visinhanças, houvera o seu amor; e com dadivas grandes, e promessas

maiores, a levára de sua terra, de casa de seu pae, que a tinha muito

estimada e guardada, mais ainda do que a seu estado convinha; mas tudo,

pela sua formosura d'éla, era bem empregado.

«Era ensinada a livros de historias, pelo que era já então sabida, e

depois, quando velha, o foi muito mais.

«E, dizem que, chegando ambos á terra do mercador, por grandes

desventuras, o veio éla a perder, ainda quando moça e formosa. Mas

ficando assim em terras estranhas, movida de compaixão, a mãe de Belisa

a recolhera para sua casa, d'onde ainda lhe estava ordenado este outro

desterro para a sua terra.

«De como a levou êle, e o éla perdeu, se conta um grande conto.

Deixá-lo-ei agora, porque tenho outro caminho tomado, ainda que, entre

os homens, todos os caminhos vão ter a fim de mulheres; mas, pois moraes

n'esta terra, outra hora nos veremos, e contarvo-lo-ei então, se por

ventura vos ficar desejo de ouvi-lo.»

--«Ainda, senhora (me não pude eu ter que lhe não dissesse) que eu tinha

já posto em minha vontade nunca ter desejo nenhum, este quero eu

ter,--que tanto podem as cousas vossas comigo; e mais, pois é conto de

mulher, não póde deixar de ser triste. E, d'esta maneira, tambem em

parte não irei contra meu proposito; porque desejando ouvir tristezas,

não se póde isto verdadeiramente chamar desejo, que só o desejo deve vir

d'aquilo com que se haja de folgar. E, se tambem acontece o contrario,

será porque tambem o desejo engana muitas vezes, como todos os outros

sentidos.»

--«Nós outras, tristes, (me tornou éla então) chamaremos logo a este

desejo desgosto; porque não se deve espantar ninguem de ver mudadas as

palavras ou o entendimento d'élas, nas pessoas em que se mudaram tambem

muitas outras cousas, que não dissera nem cuidára ninguem que se podiam

mudar.

«E tambem, filha e senhora, ainda que me vós vejaes assim, já em idade

em que as tristezas passadas não deviam ser-me causa de mais que de

haver tudo por nada, e julgar o presente pelo passado, e, emfim,

estimá-lo assim; comtudo, tamanhas foram as causas que me fizeram

triste, que o sofrimento d'élas, e o longo tempo, não me faz sentil-as

menos. Pensando n'isto, muitas vezes digo eu que não póde ser senão que

quando a fortuna ordenou desgostar-me, para que a vida não sobejasse á

dôr, as compassou, parece, ambas assim, que não fosse uma maior que a

outra; e venho a entender n'isto que não se acrescenta mais a minha dôr

que a vida. E perdoae-me ir-vos assim saltar a falar de mim, tendo ainda

por cumprir o que vos prometi. Que a sua dôr traz a cada um assim.

Tambem os meus feitos: indo para fazer uma cousa, faço outra. E a mim,

muitas vezes, d'esta maneira, me sou eu mesma em vergonha.»

--«Não podeis vós já, senhora, fazer cousa ante mim que haja mister

perdão de mim; antes, quanto mais vossas cousas ólho, me vae parecendo

que não viestes aqui senão para vos eu ouvir; que, até agora, costumava

eu andar espantada, de mim para comigo, como podia durar tanto uma dôr

depois d'acabada a causa d'éla, e como a não gastava o tempo, como as

outras cousas todas que n'êle ha! E, porque eu não via isto na minha

mágoa, tornava dando a culpa d'isto a outrem, porque, pela ventura, me

era forçado tornar a dar a mim maior pena... Ou... que digo eu, pela

ventura?... E aqui, indo eu para dizer outra cousa mais, se me pôs

diante o pouco conhecimento d'entre nós ambas, e calei-me,--assim como

que me não quisera calar. Éla, docemente, dissimulando porventura,

(segundo no fim de sua fala me pareceu) seguiu dizendo:

--«Das culpas que alguem dá a quem bem-quer, sempre lhe ficam as penas

d'élas, e com razão; que vos não quereria eu a vós bem se vos eu o pior

desse: mas antes me espanto ainda de, quem quer bem, como póde culpar a

quem o quer; senão que, torno a dizer eu, que pódem fazer isto, pela

pena que lhes fica; que a éla tomam êles, como por vingança da força que

se fazem n'isto a si mesmos. Tambem, senhora, fui moça como vós; culpei

já alguem contra minha vontade. Causa de grandes desgostos me foi,

muitas vezes, não me poder eu escusar a mim mesma só de culpar outrem.

Foram desvarios de amor. Ha isto n'êle, como ha outras sem-razões

infindas, sofridas como êle quis, que'té n'este nosso sofrimento pôs

tambem cousas que se não sofrem senão pela ventura!»

«E, a esta palavra, tirou os olhos de mim, como que queria dizer que não

me entendia, pois lh'o eu queria encobrir. E a mim, que me pareceu mau

ensino, a uma senhora, dona e triste, que me tanto dava de si, negar-lhe

parte de minhas tristezas, pois lh'as já d'antes quisera significar,

disse eu então:

--«Cuidae de mim, senhora, o que quiserdes; que, assim, me parece que

sois desgostosa; que esta maneira é melhor que todas para saberdes a

verdade da minha vida, que toda é uma longa queixa.

--«Fazeis bem (me tornou éla) que essa maneira é tambem a melhor para

vo-lo eu não ousar perguntar, que tambem afeiçoada vos sou já. E, pois

ha de ser tam triste, não na quero antes ouvir. Por isso, tornaremos ao

conto. Ele acabado, farão de nós as nossas tristezas á sua vontade, que

tambem se desejam contadas, como os prazeres. Mas, o conto, foi assim

como agora direi:»

CAPITULO XVIII

Em que a ama dá razão á donzela da cantiga de Bimnarder

«Disse (se vos lembra) que uma só cantiga me lembrava, que dizia meu pae

que lhe ouvira a ama,--e foi d'esta maneira.

«Começava a cair a calma, e havia pedaço que o pastor da flauta estava

assentado á beira d'este ribeiro, sobre um torrão, olhando para a parte

contraria, d'onde a ama acertou por acaso de vir. Estava tangendo de

mansinho a flauta, para consigo.

«Estando êle n'isto, deixára-se vir um rebanho de vacas, correndo,

apressadas da mosca. Passando por êle, se foram meter na ágoa até aos

peitos; e, deixando êle então de tanger, ficou como pensativo um pouco,

porém, sem tirar a flauta d'onde a d'antes tinha, como transportado.

«Olhou para isto a ama, e quisera-lhe dizer que tangesse, que bem lhe

parecera d'antes. Mas, estando para lh'o dizer, começou êle então a

tocar a flauta, docemente, de maneira que fez detença a ama.

«Parecendo-lhe cousa triste, e mais que de pastor, deu-se toda a

ouvi-lo, senão quando êle, depois de um pedaço grande, soltou a flauta,

e começou assim:

«P'ra todos houve 'hi remedio

P'ra mim só não no houve ahi:

Inda mal que o soube assi.

«Fogem as vacas p'ra a ágoa,

Quando a mosca as vae seguir;

Eu só, triste em minha mágoa,

Não tenho a d'onde fugir:

D'aqui não me posso eu ir,

Estar não me cumpre aqui,

Que o que eu quero não o ha 'hi.

«Entretanto a calma dura,

Tem esta fadiga o gado,

A manhan pasce em verdura,

A tarde em o seco prado;

Dorme a noite sem cuidado,

Pois tudo achou para si.

Descanso, eu só o perdi.

«A mim, nem quando o Sol sae,

Nem depois que se vae pôr,

Nem quando a calma mór cae,

Não me deixa a minha dôr.

Dôr, e outra cousa maior,

Convosco hoje amanheci,

Convosco honte' anouteci.

«Crendo que assim findaria,

Dei-me todo ao que padeço:

Um dia leva outro dia,

Por um mal, outro conheço.

Se o fim responde ao começo,

Ai! quam mal que me provi,

Que no começo o fim vi!

«Se nasci p'ra meu mal vêr,

E não p'ra vê-lo acabado,

Melhor fôra não nascer,

Que vêr-me desesperado.

E, pois que n'este cuidado

Me traz tam cego após si,

Inda mal que o soube assi!

Fim

«Entre lagrimas e prantos,

Nasceu o meu pensamento.

Cresceu, em tam pouco, tanto,

Que é mais alto que o tormento!

Passa o que passo ao que sento.

Mal faz quem me esquece assim

Que após mim não ha outro mim.»

CAPITULO XIX

De como conta a ama á senhora Aonia o que vira fazer ao pastor acabada a

cantiga

«Em dizendo este derradeiro verso, parece que não podendo êle já suster

as suas lagrimas, calou-se, como estorvado d'élas; e, entendendo-o a

ama, pelo soltar da flauta, e tomar da aba do gabão para limpar-se,

tamanha paixão a comoveu que não pôde ter as suas, lá onde estava, e

sempre lhe falara, se não fôra que vinham chamá-la já de casa.

«Foi forçada a levantar-se éla, e foi-se, ocupada toda a fantasia

d'aquele pastor, pois algum grande misterio lhe pareceu.

«E como o que está ordenado de ser, logo traga asos consigo, entrando a

ama em casa, e topando Aonia só, á boa-fé, sem mau engano, se pôs a

contar-lhe tudo, e a jurar-lhe e tresjurar-lhe que não podia ser pastor.

«E, porque já Aonia entendia a lingoagem d'esta terra muito bem, lhe

disse a ama a cantiga. E quando lhe veio a contar como o pastor, com

aquelas derradeiras palavras, deixara cair a flauta no chão, e com a aba

do gabão (que de burel era) se limpara das lagrimas que com élas lhe

vieram; e, acabando de limpar-se, olhara para a aba, que com ambas as

mãos tinha, e como (parece) lembrando-lhe do que éla era, ou não sabia

porque, encostara o rosto a éla, assim entre as mãos, como estava; e,

após um grande suspiro, se deixara estar assim, e assim ficara quando

éla viera, que, pela chamarem n'este meio tempo se tornara tam triste

como havia muito tempo que o não fôra por causa alheia... E

encheram-se-lhe á velha ama os olhos d'ágoa, em dizendo «cousa alheia».

E assim se virou para outro lado, e foi-se fazer cousas de casa.

«A senhora Aonia, (que ainda então era donzela d'entre treze a quatorze

anos) sem saber que cousa era bem-querer, de umas lagrimas piedosas

regou as suas formosas faces, e, sobre élas, os sentidos primeiros lhe

inclinou, tanto podem, algumas horas, as cousas ouvidas!

«E, se não fôra que era éla moça, facilmente o entendêra logo; mas, não

o entendendo, mil vezes n'aquele dia tornou a pedir á ama lhe dissesse,

ora a cantiga, e ora como estava o pastor.

«E, por acerto, perguntando-lhe uma vez de que feições era, lhe disse a

ama:

--«Eu já outras vezes o vi, de bom corpo, e de boa disposição; a barba

um pouco espessa e um pouco crescida que a êle traz, parece que é aquela

a primeira ainda. Os olhos brancos, de um branco um pouco nublado; na

presença, logo se enxerga que alguma alta tristeza lhe sujeita o

coração.»

«Lembrou a Aonia só tornar-lhe a perguntar quando foram as outras vezes

que o vira.

«Disse-lhe então a ama que o pastor se vinha pôr derredor d'aquelas

casas sempre, e ás vezes se punha a falar com os oficiaes, e outras

andava defronte (na ribeira d'aquele rio) pastorando o seu gado. E este

era o pastor a que todos chamavam «o da flauta», que conhecido era de

todos.

«Não o conhecia Aonia, porque nunca saira fóra. Mas como então logo pôs

na sua vontade de olhar para êle, e de buscar maneira para isso,

(tamanho dó lhe fez ouvir d'êle o seu canto) enganada assim d'aquela

falsa sombra de piedade, toda aquela noite seguinte não pôde dormir. Mas

não que já fosse declarada consigo, nem debaixo d'aquele desejo

determinasse nada; porém, ardia em fogos de dentro de si.

«E porque de todo o ponto se acabasse isto de confirmar de todo, ainda

bem não era manhan, saindo a ama da menina a uma varanda á maneira

d'eirado (que sobre uma parte das casas estava, e fôra feita, logo no

começo, para despejo) viu o pastor estar só, sobre a borda d'este rio,

não muito longe do lugar onde o éla vira o dia antecedente,--que ali

estava o freixo onde se ele pôs a primeira vez que saira da tenda, onde

tambem viu a sombra, como vos disse, e ali foi onde depois veio a

morrer.»

CAPITULO XX

Da peleja que o touro do pastor teve com outro alheio e de como o matou;

a qual Aonia estava vendo do eirado

«E como assim o viu, foi logo dizê-lo a Aonia, correndo, tamanha pressa

dava já a fortuna ao desastre, ou era vinda a hora que se não podia

alongar. E, como lh'o houve dito, ocupou-se em negocios de casa.

«Levantou-se Aonia, e deitando só uma roupa grande sobre si (que, em

camisa, estava ainda na cama) se foi ao eirado, e viu-o estar virado

para aquela mesma parte. Mas, vendo-se Aonia no eirado, e vendo-o,

lembrou-se logo de que ia toucada de um arrodilhado só, como se erguera;

e ou por não parecer que se erguera então, ou já para não parecer mal,

lançou uma manga da camisa sobre a cabeça, e se deixou estar assim.

«E, n'isto, começaram as vacas, pascendo, a rodeá-lo n'aquele lugar onde

êle estava, que era uma maneira d'outeiro pequeno.

«Andando pascendo élas, umas para cá, e outras para lá, deixou-se de

outra manada vir um touro grande e medonho, urrando, e lançando de

quando em quando a terra sobre as ancas; e, d'outras vezes, parecia que

a queria comer, meneando a cabeça para uma e outra parte.

«E, chegando ás vacas, começou tam feramente a pelejar com outro seu

egual, que espanto fazia a éla, lá onde segura estava d'êles, não mais.

«E, andando assim, começaram de se ir chegando, com grande peleja, para

o lugar onde êle estava. Mas vendo éla que não se mudava êle, nem tirava

os olhos d'aquela parte onde olhava, antes parecia (segundo estava

segura) que os não via, senão que isto não era para crêr; quando éla, de

todo em todo, viu que os touros se iam chegando a êle, ficou esmorecida;

e, tornando a si olhou. E, com o espaço que se metia em meio,

tolhendo-lhe os touros a vista d'ele, parecendo-lhe que o tomavam

debaixo, caiu para o outro lado, como morta.

«Vendo Bimnarder aquilo (que para outro lado não olhava) deu-lhe logo no

coração o que era; e ainda que êle tivesse muitas razões para o duvidar,

ou não o haver por certo, (pois de sua vontade, Aonia, não era sabedora,

que êle soubesse) comtudo creu; porque assim o quis o bem-querer grande;

que todas as cousas duvidosas fossem mais certas, ou por mais certas se

crêssem.

Saudades: história de menina e moça · 第 3 / 5 段