Produced by Pedro Saborano and the Online Distributed
Proofreading Team at https://www.pgdp.net
SAUDADES
HISTÓRIA
DE
MENINA E MOÇA
COMPOSTO E IMPRESSO NA
IMPRENSA
DE MANUEL LUCAS TORRES,
RUA DO DIARIO DE NOTICIAS, 87 A 93
*Trovas de Crisfal*, de Bernardim Ribeiro, 1 vol. broch. $30
*Bernardim Ribeiro* (_O Poeta Crisfal_), por Delfim Guimarães, 1 vol.
broch. $80
*Theóphilo Braga e a lenda do Crisfal*, por Delfim Guimarães, 1 vol.
broch. $50
*A máscara d'um poeta* (_Bernardim Ribeiro_), por Sílvio de Almeida, 1
vol. broch. $30
A PUBLICAR:
*Éclogas de Jano*, de Bernardim Ribeiro.
Colecção Horas de Leitura
BERNARDIM RIBEIRO
SAUDADES
HISTÓRIA
DE
MENINA E MOÇA
2.ª edição, revista
POR
DELFIM GUIMARÃES
1916
GUIMARÃES & C.ª--Editores
68, Rua do Mundo, 70
LISBOA
SAUDADES
(Historia de Menina e moça)
de
Bernardim Ribeiro
2.ª edição, revista
por
Delfim Guimarães
ADVERTENCIA
(DA 1.ª EDIÇÃO)
Contribuir para a vulgarização do adoravel volumezinho que torna
imorredoiro o nome de Bernardim Ribeiro, quer-me parecer uma boa acção.
Por isso, me encarreguei gostosamente de dirigir esta edição das
«_Saudades_», tarefa que não é de molde a conquistar louros, mas que não
reputo banal nem despida de algum mérito.
Tratando-se de uma edição popular, entenderam os editores, e a meu ver
judiciosamente, que se não devia fazer uma simples reimpressão de
qualquer das edições conhecidas do livro de Bernardim, o que poderia ser
muito apreciado de eruditos e estudiosos, mas que condenaria,
fatalmente, o volume a uma existencia inglória.
Consultando as edições das «_Saudades_», e seguindo, criteriosamente, os
textos; procurando interpretar o mais fielmente possivel a ideia de
Bernardim Ribeiro, e estudando com atenção as variantes que as diversas
edições salientam; modificando uma ou outra palavra caída em desuso;
aclarando uma ou outra passagem de compreensão embaraçosa, e por vezes
quase enigmatica;--tornava-se mister preparar o original que servisse
para a factura d'esta edição, e que, sem alterar sensivelmente a
lingoagem inconfundivel da obra, e sem desvirtuar o pensamento do seu
autor, colocasse as «_Saudades_» ao alcance do grande publico, tornando
conhecida, lida e estimada uma obra de peregrino brilho, um dos mais
belos florões da nossa literatura.
A esse trabalho meti ombros, e dispensei-lhe a melhor vontade e
carinhoso amor, procurando suprir o que me mingoasse em competencia á
força de cuidado.
Como me saí da empreza, não sei, nem a mim cumpre averiguá-lo.
Diz-me a consciencia que procedi com o zelo e a probidade com que se
haveria o artista que fosse chamado a retocar um quadro de mestre;
porque, embora esse artista fosse, como eu, dos mais modestos, todos os
seus cuidados havia de empregar para _se haver na justa grandemente_,
como diria o nosso Bernardim.
A edição ahi fica.
Julguem-na os que teem competencia para fazê-lo.
Lisboa, 4 de agosto de 1905.
Delfim Guimarães
SAUDADES
(História de Menina e moça)
DE
BERNARDIM RIBEIRO
CAPITULO I
Em que a donzela começa a sua historia
Menina e moça, me levaram de casa de meu pae para longes terras. Qual
fosse então a causa d'aquela minha levada,--era eu pequena,--não na
soube. Agora, não lhe ponho outra, senão que já então, parece, havia de
ser o que depois foi.
Vivi ali tanto tempo, quanto foi necessario para não poder viver em
outra parte.
Muito contente fui eu n'aquela terra; mas, coitada de mim, em breve
espaço se mudou tudo aquilo que em longo tempo se buscou, e para longo
tempo se buscava! Grande desventura foi a que me fez ser triste, ou a
que, porventura, me fez ser leda!
Mas depois que vi tantas cousas trocadas por outras, e o prazer feito
mágoa maior, a tanta tristeza cheguei que mais me pesava do bem que
tive, que do mal que tinha.
Escolhi para meu contentamento (se em tristezas e saudades ha algum) vir
viver para este monte, onde o lugar, e mingoa da conversação da gente,
fosse como para meu cuidado cumpria: porque grande erro fôra, depois de
tantos desgostos, quantos eu com estes meus olhos vi, aventurar-me ainda
a esperar do mundo o descanso que êle nunca deu a ninguem!--Estando eu
aqui só, tam longe de toda a outra gente, e de mim ainda mais longe;
d'onde não vejo senão serras, de um lado, que se não mudam nunca, e do
outro agoas do mar, que nunca estão quedas, cuidava eu já que esquecia á
desventura, porque éla, e depois eu, com todo o poder que ambas pudemos,
não deixámos em mim nada em que pudesse nova mágoa ter lugar,--antes
havia muito tempo que tudo era povoado de tristezas, e com razão. Mas
parece que, em desventuras, ha mudanças para outras desventuras; porque,
no bem, não as havia para outro bem; e foi assim que, por caso estranho,
fui levada a um lugar onde me foram ante os meus olhos apresentadas, em
cousas alheias, todas as minhas angustias; e o meu sentido d'ouvir não
ficou sem sua parte da dôr.
Ali vi então, na piedade que tive d'outrem, quam grande a devêra ter de
mim, se não fôra tam demasiadamente mais amiga de minha dôr do que
parece que foi de mim quem me é a causa d'éla; mas tamanha é a razão
porque sou triste que nunca me veio mal nenhum que eu não andasse em
busca d'êle.
D'aqui me vem a mim a parecer que esta mudança, em que me eu vi, já
então começava a buscar, quando esta terra, onde me éla aconteceu, me
aprouve mais que outra nenhuma, para vir aqui acabar os poucos dias de
vida que eu cuidei que me sobejavam. Mas n'isto, como em outras cousas
muitas, me enganei eu. Agora, ha já dous anos que estou aqui, e não sei
ainda tam sómente determinar para quando me aguarda a derradeira hora!
Não póde já vir longe!
Isto me pôs em duvida de começar a escrever as cousas que vi e ouvi.
Mas, depois, cuidando comigo, disse eu que recear de não acabar de
escrever o que vi, não era causa para o deixar de fazer; pois não havia
de escrever para ninguem, senão para mim só. Quanto mais que, em cousas
não acabadas, não havia de ser esta a primeira: pois quando vi eu prazer
acabado, ou mal que tivesse fim?! Antes me pareceu que este tempo que
hei de estar aqui n'este ermo (como a meu mal aprouve) não o podia
empregar em cousa que mais de minha vontade fosse:--pois Deus quis que
assim minha vontade seja.
Se em algum tempo se achar este livrinho na mão de pessoas alegres, não
o leiam, que, porventura, parecendo-lhe que seus casos serão mudaveis,
como os aqui contados, o seu prazer lhe será menos prazer. Isto, onde eu
estivesse, me doeria, porque assaz bastava eu nascer para minhas mágoas,
quanto mais ainda para as d'outrem. Os tristes o poderão lêr: mas ahi
não os houve mais, homens, depois que nas mulheres houve piedade;
mulheres, sim, porque sempre nos homens houve desamor: mas para élas não
o faço eu, pois que o seu mal é tamanho que se não póde confortar com
outro nenhum. Para as mais entristecer, sem-razão seria querer eu que o
lessem élas; antes lhes peço muito que fujam d'êle e de todas as cousas
de tristeza, que, ainda com isto, poucos serão os dias que hão de poder
ser ledas,--porque assim está ordenado pela desventura com que élas
nascem.
Para uma só pessoa podia êle ser; mas d'esta não soube eu mais parte,
depois que as suas desditas, e as minhas, o levaram para longes terras
estranhas, onde bem sei eu que, vivo ou morto, o possue a terra sem
prazer nenhum. Meu amigo verdadeiro, quem me vos levou tam longe? Vós
comigo, e eu convosco, sós, sabiamos suportar nossos grandes desgostos,
e tam pequenos para os de depois! A vós, contava eu tudo. Como vós vos
fostes, tudo se tornou tristeza; nem parece senão que estava espreitando
já que vos fosseis. E para que tudo mais me magoasse, nem tam sómente me
foi deixado, em vossa partida, o conforto de saber para que parte da
terra ieis, porque descansariam os meus olhos em levarem para lá a
vista!
Tudo me foi tirado no meu mal; remedio nem conforto, nenhum houve ahi.
Para morrer mais depressa, me pudera isto aproveitar; mas, para isso,
não me aproveitou. Ainda convosco usou a vossa desventura algum modo de
piedade (dos que não costuma ter com nenhuma pessoa) em vos alongar da
vista d'esta terra; pois que, se para não sentirdes mágoas não havia
remedio, para as não ouvirdes vo-lo deu. Coitada de mim, que estou
falando, e não vejo eu agora que leva o vento as minhas palavras, e que
me não póde ouvir a quem eu falo! Bem sei eu que não era para isto a que
me agora quero pôr; que o escrever alguma cousa pede muito repouso; e a
mim as minhas mágoas ora me levam para um cabo, ora para outro;
trazem-me assim, que me é forçoso tomar as palavras que me élas dão,
porque não sou tam constrangida a servir o engenho, como a minha dôr.
D'estas culpas me acharão muitas n'este livrinho: mas da minha ventura
foram élas. Ainda que, quem me manda a mim olhar por culpas, nem por
desculpas?
O livro ha de ser do que vae escrito n'êle. Das tristezas não se pode
contar nada ordenadamente, porque desordenadamente acontecem élas.
Tambem, por outra parte, não se me dá nada que o não leia ninguem; que
eu não no faço senão para um só, ou para nenhum; pois d'êle, como disse,
não sei novas, tanto ha.
Mas, se ainda me está guardado, para me ser em algum tempo outorgado,
que este pequeno penhor de meus longos suspiros vá ante os seus olhos,
muitas outras cousas desejo, mas esta me seria assaz.
CAPITULO II
Em que a donzela vae prosseguindo a sua historia
N'este monte, mais alto de todos, (que eu vim buscar pela soledade,
diferente dos outros, que n'êle achei) passava eu a minha vida como
podia, ora em me ir pelos fundos vales que o cingem derredor, ora em me
pôr, do mais alto d'êle, a olhar a terra como ia acabar no mar, e depois
o mar como se estendia logo após éla, para acabar onde ninguem o visse.
Mas, quando vinha a noite, entregue a meus pensamentos, e via as aves
buscarem seus pousos, umas chamarem as outras, parecendo que queria
sossegar a terra mesma; então eu, triste, com os cuidados dobrados com
que amanhecia, me recolhia para a minha pobre casa, onde Deus me é boa
testemunha de como as noites dormia!
Assim passava eu o tempo, quando, uma das passadas noites, pouco ha,
levantando-me, eu vi a manhan como se erguia formosa, e se estendia
graciosamente por entre os vales, e deixar indo os altos.
O sol, já levantado até aos peitos, vinha tomando posse dos outeiros,
como quem se queria assenhorear da terra.
As doces aves, batendo as asas, andavam buscando umas ás outras; os
pastores, tangendo as suas flautas, e rodeados dos seus gados, começavam
a assomar pelas cumiadas.
Para todos, parecia que vinha aquele dia assim ledo. Só os meus
cuidados, vendo, parece, como vinha poderoso seu contrario, se recolhiam
a mim, pondo ante meus olhos para quanto prazer e contentamento pudera
aquele dia vir, se não fôra tudo tam mudado; d'onde o que fazia alegre a
todas as cousas, a mim só teve causa de fazer triste!
E como os meus cuidados, para o que tinha a ventura ordenado, me
começassem de entrar pela lembrança de algum tempo, que foi, e que nunca
fôra, assenhorearam-se assim de mim que não me podia já sofrer a par de
minha casa, e desejava ir-me para lugares sós, onde desabafasse em
suspirar.
E ainda bem não foi alto dia, quando eu (parece que acinte) determinei
ir-me para o pé d'este monte, que d'arvoredos grandes, e verdes ervas, e
deleitosas sombras, é cheio; por onde corre um pequeno ribeiro de agoa
de todo o ano, que, nas noites caladas, o rugido d'êle faz no mais alto
d'este monte um saudoso tom, que muitas vezes me tolhe o sôno; onde,
outras muitas, vou eu lavar minhas lagrimas, e onde, muitas, infinitas,
as torno a beber.
Começava então de querer cair a calma: e no caminho, com a pressa, por
fugir d'éla, ou pela desventura que me levava a mim, três ou quatro
vezes caí ali; mas eu (que, depois de triste, cuidei que não tinha mais
que temer) não olhei nada para aquilo, em que me parece que Deus me
queria avisar da mudança que depois havia de vir. Chegando á borda do
rio, olhei para onde haveria melhores sombras. Pareceram-m'o as que
estavam além do rio. Disse então que n'aquilo se enxergava que era
desejado tudo o que com mais trabalho se podia haver; porque não se
podia ir alem sem se passar a agoa, que corria ali mansa e mais alta que
na outra parte.
Mas eu (que sempre folguei de buscar meu dano) passei alem, e fui-me
assentar sob a espessa sombra de um verde freixo, que, para baixo um
pouco, estava.
Algumas das ramas estendiam-se por cima d'agoa, que ali fazia algum
tanto de corrente, e, impedida por um penedo, que no meio d'éla estava,
se partia para um e outro lado, murmurando.
Eu, que os olhos levava ali postos, comecei a cuidar que tambem nas
cousas que não tinham entendimento havia fazerem-se dano umas ás outras.
Estava d'ali aprendendo a tomar algum conforto no meu mal: porque assim
aquele penedo estava contrariando aquela agoa que queria ir seu caminho,
como as minhas desventuras no outro tempo costumavam fazer a tudo o que
eu mais queria,--que já agora não quero nada. E crescia-me d'aquilo um
pesar!
Ao cabo do penedo, tornava a agoa a juntar-se, e ir seu caminho sem
estrondo algum, antes parecia que corria ali mais depressa que pela
outra parte: e dizia eu que seria aquilo para se apartar mais
rapidamente d'aquele penedo, inimigo do seu curso natural, que, como por
força, ali estava.
Não tardou muito que, estando eu assim cuidando, sobre verde um ramo que
por cima da agoa se estendia, se veio pousar um rouxinol. Começou a
cantar tam docemente que de todo me levou após si o meu sentido d'ouvir.
E êle cada vez crescia mais em seus queixumes, que parecia que, como
cansado, queria acabar, senão quando tornava, como que começava.
Então (triste da avezinha) estando-se assim queixando, não sei como, se
caiu morta sobre aquela agoa! Caindo por entre as ramas, muitas folhas
cairam tambem com éla. Pareceu aquilo sinal de pesar, n'aquele arvoredo,
de caso tam desastrado.
Levava-a após si a agoa, e as folhas após éla. Quisera-a eu ir apanhar,
mas pela corrente que ali fazia, e pelo mato que d'ali para baixo, cerca
do rio, logo estava, prestemente se alongou da vista.
O coração me doeu tanto, então, em vêr tam depressa morto quem d'antes,
tam pouco havia, vira estar cantando, que não pude ter as lagrimas.
Certamente que por causa do mundo, depois que perdi outra cousa, me não
pareceu a mim que assim chorasse de vontade; mas em parte este meu
cuidado não foi em vão; porque, ainda que a desventura d'aquela avezinha
fosse causa de minhas lagrimas, lá, ao sair d'elas, foram juntas outras
muitas lembranças tristes.
Grande pedaço de tempo estive assim embargada dos meus olhos, entre os
cuidados que muito havia que me tinham já então, e ainda terão, até que
venha o tempo em que alguma pessoa estranha, com dó de mim, com as suas
mãos cerre estes meus olhos, que nunca foram fartos de me mostrarem
mágoas de si.
E estando assim, olhando para onde corria a agoa, ouvi bulir o arvoredo.
Cuidando que fosse outra cousa, tomou-me medo; mas, olhando para ali, vi
que vinha uma mulher; e, pondo n'ela bem os olhos, vi que era de corpo
alto, disposição boa, e o rosto de dona, senhora do tempo antigo.
Vestida toda de preto, no seu manso andar, e meneios seguros do corpo,
do rosto e do olhar, parecia d'acatamento. Vinha só, e tam pensativa que
não apartava os ramos de si, senão quando lhe impediam o caminho, ou lhe
feriam o rosto.
Os seus pés trazia por entre as frescas ervas, e parte do vestido
estendido por élas. E, entre uns vagarosos passos que éla dava, de
quando em quando colhia um cansado folego, como que lhe queria falecer a
alma.
Sendo cerca de mim e me viu, ajuntando as mãos, á maneira de medo de
mulher, um pouco, como que vira cousa desacostumada, ficou; e eu tambem
assim estava,--não de medo, que a sua boa sombra logo m'o não consentiu,
mas da novidade d'aquilo que ainda ali não vira, havendo muito que, por
meu mal, tinha frequentado aquele lugar, e toda aquela ribeira.
Mas não esteve éla muito tempo assim, porque, parece, conhecendo tambem
que estava com uma boa sombra, começou a dizer, vindo ao meu encontro:
--«Maravilha é ver donzela em ermo, depois que a minha grande desventura
levou a todo o mundo o meu...»
E d'ahi a grande pedaço, misturado já com lágrimas, disse:
--«... filho!»
Depois, tirando um lenço, começou a limpar o rosto, e a chegar-se para
onde eu estava.
Levantei-me eu então, fazendo-lhe aquela cortesia, que éla, com a sua, e
consigo mesma, me obrigava.
E éla:
--«O descostume grande, (me disse) ha muito tempo que vivo n'este ermo,
de ver pessoa alguma, me faz, senhora, desejar saber quem sois, e que
fazeis aqui, ou que viestes a fazer, formosa e só.»
Como eu um pouco tardava em lhe responder, pela duvida em que estava do
que lhe diria, (parece que entendendo-me éla) me tornou:
--«A mim, podereis dizer tudo, que eu sou mulher como vós, e, segundo
vossa presença, vos devo ainda ser muito semelhante; porque me parece
(agora que vos ólho de mais perto) que deveis ser triste, que vossos
olhos teem vossa formosura desfeita, e, ao longe, não se enxergava.»
--«Pareceis vós logo ao longe (respondi eu) o que sois ao perto; e não
vos saberia negar cousa em que de mim vos servisseis; que os vossos
trajos, e tudo o que vos eu ólho, é cheio de tristeza, cousa a que eu
sou ha muito tempo conforme; e porque posso mal encobrir o senhorio que,
eu mesma, ás longas mágoas sobre mim tenho dado, não me quero rogar,
antes vos devia ainda agradecer quererdes saber de mim o que quereis,
para ser ao menos meu mal escutado alguma hora!»
--«Pois dizei-m'o (me tornou éla) que ficardes-me devendo ouvir-vos eu,
nova maneira é tambem de me obrigardes; mas assim me pareceis vós, que,
de vos ser obrigada, folgo muito ainda.»
Satisfazendo-lhe eu então, disse:
--«Sou uma donzela que n'este monte, da banda d'alem d'este ribeiro,
pouco ha que vivo, e não posso viver muito. N'outra terra nasci,
n'outra, de muita gente, me creei, d'onde vim fugindo para esta,
despovoada de tudo, senão só das mágoas que eu trouxe comigo! Este vale,
por onde correm estas agoas claras, que vêdes, os altos arvoredos de
espessas sombras sobre a verde erva, as flores que por aqui aparecem, e
a seu prazer se estendem, ribeira d'esta agoa fria, doces moradas e
pousos das sós deleitosas aves, são tam conformes a meu cuidado, que o
mais do tempo em que o sol anima a terra passo aqui, e, ainda que me
vejaes só, acompanhada estou.
«Muito ha que tenho andado este caminho: nunca vi senão agora a vós. A
grande solidão d'este vale, e de toda esta terra por aqui derredor, me
faz ousar vir assim, mulher... formosa, bem vêdes já que não! E pois não
tenho armas para ofender, para me defender para que me seriam já
necessarias? A toda parte posso já ir, segura de tudo, senão só do meu
cuidado; que não vou a nenhum cabo que êle não vá após mim. Ainda agora
estava eu aqui, só, olhando para aquele penedo (mostrando-lh'o eu então
d'ali) a ver como ele estava contrariando aquela ágoa que queria ir seu
caminho. Ante os meus olhos, sobre aquele ramo que a cobre, se veio pôr
um rouxinol, docemente cantando. De quando em quando parecia, que lhe
respondia outro, lá de muito longe.
«Estando êle assim, no melhor do canto, caiu morto sobre aquela ágoa,
que o levava tam depressa que o não pude eu ir apanhar.
«Tamanha mágoa me nasceu d'isto, que me recordei de outras minhas, de
que tambem grandes desastres foram causa, e levaram-me onde eu tambem
não podia ir buscar-me... (A estas palavras se me arrasaram os olhos de
ágoa, e fui-me com as mãos a êles.) Isto, senhora, fazia quando vós
aparecestes, e o faço as mais das vezes; porque, sempre, ou chóro, ou
estou para chorar!»
Eu, que lhe tinha já respondido, detive-me um pouco cuidando como lhe
preguntaria outro tanto d'éla: maiormente da causa que foi das suas
lagrimas quando não pôde, senão muito tarde, dizer: «filho».
Éla, cuidando que, porventura, eu não queria dizer mais, disse:
--«Bem se vê n'isso, senhora, que sois d'outra parte, e ha pouco que
estaes n'esta, pois dos desastres que n'este ribeiro acontecem vos
espantaes. Ha uma historia muito falada n'esta terra, por aqui derredor,
que muito ha que aconteceu. Lembra-me que era eu menina, e ouvia-a já
então contar a meu pae, por historia. Agora, ainda folgo de cuidar n'éla
pelos grandes acontecimentos e desventuras que n'éla houve. E ainda que
nenhum mal alheio possa confortar o proprio de cada um, parte de ajuda
me é saber, para o sofrimento, que antigo é fazerem-se as cousas sem
razão, e contra razão. De boa vontade, pois parece que ainda a não
ouvistes, vo-la contarei; que, segundo entendo, devem-vos aprazer as
cousas tristes, como vós a mim me dizeis.»
--«O sol (lhe respondi eu) vae alto, e eu folgaria muito de a ouvir,
pela ouvir a vós, e depois por saber que não busquei embalde esta terra
para minhas tristezas, pois tanto ha que se costumam n'ela. Outra cousa,
senhora, vos quisera eu agora preguntar; mas fique para depois, que para
tudo haverá tempo, ainda que a historia, como dizeis, é de tristezas, e
não poderá durar tam pouco como o dia.»
--«Os dias são agora grandes (me tornou éla) e não poderão êles nunca
ser tam pequenos que eu, com todo o meu poder, vos não fizesse a vontade
n'êles, assim sou, senhora, paga por vós; mas olhae o que quereis
antes.»
--«Porque é cousa em que vós folgaes ainda agora de cuidar (lhe respondi
eu) não póde ser pouco para desejar ouvir. Fique o que eu d'antes
quisera para depois, ou para sempre; que só de o eu querer lhe deve vir
isto. Não tomeis de aqui que eu não folgarei de ouvir a historia, porque
isto pudera ser se não fôra de tristezas, para que eu vou achando, já
agora, o tempo curto, tanto folgo com élas. Por isso, contae-a, senhora;
contae-a, pois é de tristezas... Gastaremos o tempo n'aquilo para que
parece que no-lo deram,--a vós e a mim.»
CAPITULO III
Da conta que a dona dá á donzela de sua vinda áquela terra
«Coitada de mim (começou éla) que, para me magoar, busco ainda
desventuras alheias, como se as minhas não bastassem; que são tantas
que, muitas vezes, n'este despovoado, eu mesma ando espantada de mim,
como as posso sofrer!
«Por isso, vos não parecia sem causa triste; que assim o sou eu que, se
o soubesseis, ainda muito mais vo-lo pareceria do que cuido que
parecerei no aspecto; porque a longa dôr, que ha já muito tempo que eu
passo, tem o cansado d'este meu corpo tam acostumado a sofrê-la, que, já
agora, vive n'éla.
«Este é um dos queixumes grandes que eu tenho do corpo, que não ha cousa
para que êle, por longo costume, não seja.
«Assim ha já muitos anos que eu não vivo para mim, e que vim para estes
ermos, fugindo das gentes para quem só anoiteceu e amanheceu...
«Muito me aprouve achar-vos tambem conforme á minha tristeza; porque nos
consolaremos, ambas desconsoladas:--que isto vae assim como quem é
doente d'alguma peçonha, e se cura com outra.
«Quando vos eu á primeira vista vi, em o apartamento de toda a gente
(que n'esta terra ha muito) e o muito que tambem ha que eu não via n'éla
cousa com que falasse, me moveu á alteração, e não pus em vós os olhos,
tanto, como depois que vos falei; e, quanto mais vos ólho, mais acho que
vos olhar. As passadas palavras vossas me dizem que deveis ter o coração
altamente agravado.
«Nas mágoas que as lagrimas teem feitas no vosso rosto (que para esse
efeito parece que não foi dado) entendo eu quam dada deveis ser aos
cuidados, porque não costumam élas fazer-se sem razão.
«Vejo-vos moça; ainda ereis para viver no mundo. Mal haja a desventura
que tam cedo começou em vós, e tam tarde acaba em mim!
«Muito folgaria de me contardes vossas tristezas, uma a uma, que assim,
como vos eu ouvi, não me bastou mais que para me magoar. Mas, pois vós,
senhora, assim fostes servida, eu sou contente.
«E já que não pudestes escusar desventuras, folgo em que vós folgueis de
encobrir vossos males,--que o pesar ha este bem: Inda que não aproveite
para doer menos, aproveita para se sofrer melhor.
«Isto é assaz para as tristes das mulheres, que não teem remedios para o
mal, que os homens teem; porque, n'esse pouco tempo que ha que eu vivo,
tenho aprendido que não ha tristeza nos homens. Só as mulheres são
tristes; que as tristezas quando viram que os homens andavam de um lugar
para outro, e, como as mais das cousas, com as continuas mudanças, ora
se espalhavam ora se perdiam, e que as muitas ocupações lhe tolhiam o
mais do tempo, tornaram-se ás coitadas das mulheres,--ou porque
aborreceram as mudanças, ou porque não tinham para onde lhe fugir.
«Porque, certamente, segundo as desventuras são desarrazoadas e graves,
aos homens se haviam de fazer; mas, quando com êles não puderam,
tornaram-se a nós, como á parte mais fraca. E assim é que padecemos dous
males, um que sofremos, e outro que se não fez para nós. Os homens
cuidam outra cousa, mas o que das mulheres não cuidam êles?! Logo,
costumaram ter em pouco as suas tristezas. Mas se élas, por isso, teem
razão de serem mais tristes, sabê-lo-á quem souber que mágoa é manter
verdade desconhecida!»
A isto não pude eu suster um cansado suspiro de dentro d'alma; e éla,
sentindo-o (com quanto o eu encobri) estendeu a sua mão direita, e,
tomando a minha, com dissimulação, suspeitosa, tornou a falar para mim,
dizendo:
--«Quando eu era da vossa edade, e estava em casa de meu pae, nos longos
serões das espaçosas noites do inverno, entre as outras mulheres de
casa, umas fiando, e outras dobando, muitas vezes, para enganarmos o
trabalho, ordenavamos que alguma de nós contasse historias, que não
deixassem parecer o serão longo; e uma mulher de casa, já velha, que
vira muito e ouvira muitas cousas, por mais ancian, dizia sempre que a
éla pertencia aquele oficio, e, então, contava historias de cavaleiros
andantes.
«E, verdadeiramente, as afrontas e grandes aventuras (que éla contava) a
que se êles punham, pelas donzelas, me faziam a mim haver dó
d'êles,--porque cuidava eu que um cavaleiro convenientemente armado
sobre seu formoso cavalo, pela ribeira de um rio, de gracioso campo
passeando, podia ir tam triste como uma delicada donzela, em alto
aposento, encostada a seu estrado, entre paredes, só podia estar,
vendo-se de altos muros cercada, com tantas guardas,--feitas para tam
pequena força. Mas, para lhe tolherem as vontades, fizeram grandes
defezas, e, para lhe entrar o desgosto, muito pequenas.
«Mais maneiras teem os cavaleiros para se mostrarem mais tristes do que
são; e muito menos teem as donzelas para se mostrarem mais tristes do
que parecem aos homens.
«Ao menos, se eu, depois que soube muitas cousas, pudera tornar atraz,
menos me houveram de magoar do que me magoaram. Que tambem se deve
esperar da dôr aquilo para que cada um a tem; de outra maneira, não se
devia éla ter.
«Digo isto, senhora, porque pelo lugar onde suspirou vosso coração, (que
vós de mim, quanto podieis, vos quisereis encobrir) suspeito eu que
d'alguma grande sem-razão deveis trazer o cuidado magoado; porque a
vossa edade não era para viverdes nos matos. Se os homens não
costumassem agravar donzelas, muito fôra de sentir; mas, das cousas
costumadas, quem se deve agravar?!
«Muito bem vos posso dizer isto (ainda que o conhecimento entre nós seja
pouco) porque sou mais velha que vós, e porque é verdade, para que se
não deve esperar tempo, como para as outras cousas.
«Quantas donzelas comeu já a terra com a saudade que lhe deixaram
cavaleiros, que come outra terra, com outras saudades?!
«Cheios são os livros de historias de donzelas que ficaram chorando por
cavaleiros que se iam, e se lembravam ainda de dar de esporas a seus
cavalos, porque não eram tam desamorosos como êles.
«N'este conto, não entram só os dous amigos de que é a historia que ha
pouco vos prometi. N'êles, sós, cuido que se encerrou a fé que em todos
os outros se perdeu; e creio que por isso ordenaram outros homens de os
matarem á traição, maldosamente, porque se não pareciam com êles.
«O mal não sómente aborreceu o bem, como quisera ainda que o não houvera
ahi.
«Lembra-me que, quando meu pae contava a vileza da maneira que tiveram
os falsos cavaleiros, para matarem os dous amigos, dizia que muito
folgara de a não ouvir para a não saber, pois não viera em tempo para
deixar de ir á terra magoado, porque já geração d'êles não havia ahi.
«Mas, se muito para sentir foi a morte dos dous, muito mais para sentir
foi a das duas tristes donzelas, que a desventura trouxe a tanta
desdita, que não sómente conveio aos dous amigos tomarem a morte por
élas, mas ainda conveio tomarem-na élas por si mesmas.
«Os dous amigos, no que fizeram, cumpriram para com élas, e para consigo
mesmos, aquilo a que eram obrigados pelas leis da cavalaria que
mantinham; élas só cumpriram para com êles, o que eu creio que é de
maior estima; porque élas, por outros, não fizeram aquilo, e êles, por
outras, deveriam-no fazer.
«Assim, como de pessoas que fizeram mais, se deve tambem a morte sentir
mais, ainda que a mim egualmente me doem umas e outras: élas, porque
eram mulheres, e êles, porque eram homens...
«Isto digo eu, para vós, e para mim, porque meu filho tambem era homem,
como êles.»
CAPITULO IV
Das palavras que a dona com a donzela passou
Com estas palavras começaram as lagrimas a correr pelas suas faces
abaixo, e éla, soltando a fala, seguiu dizendo:
--«Perdoar-me-eis, senhora, que, por minha edade, bem vos posso chamar
filha, se muitas vezes me virdes fazer isto, ainda que a vós vos não
devem as lagrimas ser estranhas, pois tanto folgastes de buscar lugares
sós como estes onde estaes, que já em outro tempo, dizem, foram cheios
de mui nobres cavaleiros e formosas donzelas; e ainda agora, por aqui
algures, as moças que guardam gado acham pedaços d'armas, e joias de
grande valia;--o que parece que faz este vale de mais triste sombra que
outro nenhum.
«Não sei, este desconcerto do mundo, onde hade ir ter. Em tempo, foram
estes vales muito povoados, e agora muito desertos; costumavam gentes
andar n'êles, agora andam animaes ferozes. Uns deixam o que outros
tomam! Para que eram tantas mudanças em uma só terra?
«Mas parece que tambem a terra se muda como as cousas d'éla. A esta,
porque passou o tempo em que foi leda, veio este em que havia de ser
triste.
«De muito povoada, e de edificios reaes enobrecida, tornou-se a povoar
de altos arvoredos, como a natureza os produzia.
«Ainda em alguns sitios d'este vale estão algumas antigas arvores, que,
pelo muito decurso de tempo, e descostume de como foram creadas, parecem
já d'outra plumagem diferente d'aquela de que deviam ser quando,
ajudadas de pomareiras mãos, élas produziam seu perfeito fruto.
«Tudo quanto ha n'este vale é cheio de uma lembrança triste para quem
tiver ouvido o que dizem que aconteceu n'êle, e o que foi já em outro
tempo; que pareceria então que não era para vir a este de agora.
«Mas tudo é assim. Emfim, fazem-se umas cousas para outras, para que se
não faziam.
«Mal cuidariam os dous amigos, quando aceitaram a empreza de guardar as
aventuras d'este vale (para só aprazer ás formosas duas donzelas) que
era para tanto seu desprazer d'élas... E, tambem, mal cuidaram élas,
quando aquele dia (da grande desventura) se vestiram, e enfeitaram
ricamente, para verem os dous cavaleiros amigos, que era para os não
verem mais!
«Trazem-nos os nossos fados não sei quê ante os olhos, que temos as
cousas diante, e não as vemos...
«Tudo anda trocado, que não se entende; e assim nos veem tomar as mágoas
quando estamos mais assegurados d'élas, que nos doem, a um mesmo tempo,
o bem que perdemos, e o mal que depois cobramos!»
Aqui deu éla um grande suspiro, e esteve como se quisera dizer outra
cousa: e tornou dizendo:
--«Mas tempo é de cumprir o que vos prometi, pois bem vejo que muito ha
hoje que me leva a minha dôr após si.»
CAPITULO V
Do que Lamentor passou n'aquela parte onde foi aportar com a sua nau, e
da batalha que teve com o cavaleiro da ponte e do que mais lhe sucedeu
«De reinos estranhos, dizem que veio n'um tempo passado ter a estas
partes um nobre e famoso cavaleiro.
«Aportou, cerca d'aqui, em uma nau grande, carregada de muita riqueza,
e, sobretudo, de duas formosas irmans, a uma das quaes êle mais que a si
queria. Para que éla não sentisse a saudade de sua terra, trouxeram a
outra irman, donzela, mais pequena que aquela por quem êle vinha buscar
terras estranhas.
«Contam que élas eram filhas de um poderoso senhor, como depois, com o
tempo, se suspeitou, pelos muitos cavaleiros andantes que pelo mundo
foram espalhados n'aquela epoca. Mas esta historia será longa.
«Aportando Lamentor (que assim se chamava) n'estas partes, como digo;
havida inteira informação da terra, e da gente d'éla, porque, como êle
viesse da maneira que vinha, não queria fazer seu assento em nenhum
lugar muito povoado; e, saindo um dia pela manhan da nau, com todas as
suas riquezas, começou a caminhar por este vale acima,--que para tudo
tinham já seus criados feito o concerto necessario.
«Em umas ricas andas, que Lamentor na nau trouxera, iam as duas irmans;
porque a maior vinha quase no fim do tempo da prenhez.
«A manhan era graciosa. Parecia que assim se acertou, para a terra mais
lhes contentar. Ia o ano no mês d'abril, quando florescem as arvores, e
as aves, que até então estiveram caladas, começavam a andar fazendo os
gorgeios do outro ano, pelo que, por entre o arvoredo d'este vale (bem
podeis cuidar quejando seria então, pois agora é tanto) estavam élas
tomando recreio, ora n'uma cousa ora em outra.
«Tudo buscava Lamentor para que sua senhora e a donzela sua irman, de
alguma maneira, perdessem a saudade de sua terra, e o enjôo do mar.
«Sendo êles cerca de uma ponte, que ahi perto ainda está, e querendo-a
passar, lhe disse um escudeiro que no começo d'éla estava:
--«Senhor cavaleiro, se quereis passar, convem que façaes, uma, de
duas:--ou que confesseis que o cavaleiro que mantem esta passagem quer
bem com mais razão que ninguem, ou o determinará a justa.»
--«Muitas cousas havia mister de saber (lhe respondeu Lamentor) quem
houvesse de responder a essa pregunta: e como se póde saber se quer êle
bem com mais razão sem ouvir primeiro onde, ou como o quer? Mas, por
agora, d'isso eu não curo: porque a mim basta-me saber que, por mais
razão com que êle queira bem, eu o quero mais que êle, e que todos os do
mundo. Isto que sei, certo de mim, me escusa saber mais d'êle que a
condição com que êle guarda esta ponte. A razão que tem para isso,
guarde-a para si; que, para êle, poderá ser que pareça a maior do mundo.
Deveis, bom escudeiro, dizer-lhe que faria bem em deixar-nos passar,
antes que o julgue a justa.»
«O escudeiro, que já olhára para as andas, e nunca cousa tam bem lhe
parecera, lhe tornou:
«--É escusada, para êle, essa embaixada, porque está tam ufano, que não
póde agora ninguem com êle (e na verdade tem causa); porque fará d'aqui
a oito dias três anos que êle mantem este passo, sem achar cavaleiro que
o vencesse, sendo o mais esforçado d'êles que por toda esta terra ha. E
então se acaba o praso que lhe foi dado por uma donzela, a mais formosa
que n'estas partes se sabe, filha do senhor d'aquele castelo que ali
vêdes, em que éla lhe prometeu seu amor, sendo esta ponte por êle
guardada com a dita condição. Mas se êle fosse sabedor da companhia que
vós trazeis, com razão deveria temer agora, mais que nunca; mas eu não
lh'o posso ir dizer, que já outras vezes lhe levei assim embaixadas, e
êle tornava-me má resposta: e sucedendo depois á sua vontade m'o deitava
em rosto, como que a minha tenção ficasse, pelo seu acontecimento,
culpada.»
--«Ora, pois, determine-o a justa», disse Lamentor, olhando já para as
andas.
«Tirando então, de um tiracolo, o escudeiro uma corneta, tocou-a.
«Dahi a um pouco, deixou-se sair d'um espesso arvoredo, que alem da
ponte estava, um cavaleiro bem armado, a cavalo, e vindo direito para a
ponte, ali houveram ambos justa, de que meu pae contava muitas cousas de
grande esforço e valentia, que vos eu não contarei; porque, ainda que as
mulheres folguem muito de ouvir cavalarias, não lhes está bem
contarem-nas, nem élas parecem, nas suas bôcas, como nas dos homens que
as fazem.
«Mas, comtudo, dissera-vo-las eu, se me lembrassem inteiramente; porém,
não me lembra senão que contava meu pae que romperam três lanças, e á
quarta caiu o cavaleiro da ponte; e com a queda grande do encontro (que
tambem foi grande) ficára sem se poder levantar por um pouco.
«Lamentor se apeou rapidamente. Quando chegou junto d'êle, o achou sem
fala, e, descobrindo-o, lhe pareceu como morto. Mas, d'ahi a um pouco,
acordou, todo mudado na côr, e levantando os olhos para Lamentor, que
sobre êle estava, com um suspiro:
--«Ai! ai! cavaleiro,--lhe disse. Que vos nunca vira, prouvera a Deus,
ou que ao menos vos não tornára a ver!»
«Lamentor houve d'êle dó, maiormente de suas lagrimas, que lhe viu; e,
tomando-o pelo braço, o ajudou a erguer, dizendo:
--«Do amor, senhor cavaleiro, nos podemos queixar com razão; que, assim
como vos êle a vós fez aqui guardar esta passagem, me fez a mim
fazer-vos dano. De vo-lo ter feito, me pesa como homem; que,
fazer-vo-lo, foi como namorado. N'outra alguma cousa de vosso
contentamento vo-lo emendarei, quando mandardes.»
«O cavaleiro da ponte, que assim o viu comedido, bem lhe pareceu razão
de lhe agradecer aquela vontade; mas tamanha era a dôr que tinha no
coração que não pôde acabar de forçar a sua. Comtudo, porque era de alta
criação, lhe disse, como desculpando-se:
--«O amor demasiado não vive em terra de razão, mas eu irei tomar
vingança d'êle n'outras, alongadas d'esta, onde não veja cousa com que
os meus olhos descansem; ainda que esta vingança bem me pésa,--pois que
ha de ser de mim e de meu cuidado?!»
«E assim se virou para outro lado, e deu a andar pelo vale abaixo. E
como êle da queda grande que dera ficasse mal-tratado, e (segundo depois
pareceu) quebrasse alguma cousa de dentro, não foi muito pelo vale
abaixo, porque, acabando o seu escudeiro de tomar o cavalo, começando
d'ir após êle, o alcançou perto d'ali: e achando-o já lançado no chão,
de bruços, foi para o erguer, e viu que êle era em estado de morte.
«Começou a chorá-lo amargamente, e Lamentor, que o ouviu, deu a correr
para lá. E vendo que estava o escudeiro com seu senhor, como morto, nos
braços, desceu-se prestesmente, e foi-se para êle; e vendo-o no
derradeiro termo de sua vida, e como desmaiado, lhe começou a dizer:
--«Que é isto, senhor cavaleiro?... Esforçae! que é este o passo
verdadeiro para que tomastes a ordem de cavalaria.»
«E êle, acordando, pôs os olhos em Lamentor, e estendeu-lhe,
vagarosamente, a mão direita, como em signal que parecia de paz. E, com
uma voz cansada, disse:
--«Ao esforço, se me êle pudera valer, perdoára eu tudo; pois me falece
agora, quando a mim tanto cumpre viver...»
«E com a força que fez para dizer isto (como homem que tinha alguma dôr
grande de dentro) foi-se-lhe o folego, e, cerrando os seus olhos, ficou
como passado d'este mundo. Mas, d'ahi a um pouco, os tornou a abrir, e
fazendo menção com o rosto para aquela parte onde estava o castelo da
donzela por quem guardava a passagem, e que todo aquele vale descobria,
e levando para lá os olhos,--parece que lembrando-lhe que não tinha já
mais de oito dias para acabar o praso que lhe fôra assinado, e como
cousa que lhe mais magoava--ainda disse estas derradeiras palavras:
--«Ó castelo, quam perto ainda agora estava de vós!»
«E, com isto, deixaram-se-lhe os seus olhos ir, cansadamente, cerrando
para sempre.»
CAPITULO VI
Em que se diz a razão por que o cavaleiro da ponte sustinha aquele
passo, e de como sua irman ali veio ter
«Chegadas eram já ali as andas com as duas irmans, e toda a outra gente,
e vendo como o cavaleiro da ponte (que desarmado já o rosto tinha) era
de formosura, e presença extremada, e ainda mancebo, todos ficaram muito
tristes de tamanho desastre.
«Lamentor, que via como o escudeiro estava lançado aos pés de seu
senhor, tristemente chorando, havendo d'êle compaixão (porque, assim na
pratica que com êle tivera havia pouco, na ponte, como n'aquilo, lhe
parecera de boa maneira e de criação) foi-se para o consolar; e
tirando-o para fóra d'ali, d'onde estava chorando, lhe disse:
--«Até nas cousas proveitosas, a temperança é muito louvada; os choros
não aproveitam para nada; por isso, é muito mais necessaria n'êles; nem
os choros se devem ter senão como cousa que se não póde escusar. Vosso
senhor faleceu como cavaleiro; e ainda vos digo que as pessoas que lhe
bem-queriam não devem estar tristes; antes se devem alegrar muito,
porque foi de tam alto coração que não pôde suportar ser vencido,--que,
sê-lo ou não, está na ventura.»
--«D'esta desventura minha, pois fico só (disse o escudeiro, chorando)
não me pésa tanto por mim, senhor, como por ser tomada por quem é.»
--«Os cavaleiros por amores, tornou Lamentor (desejando saber o que este
era), tudo lhes está bem fazer.»
--«Em lugar, lhe respondeu o escudeiro, que lhe seja agradecido; mas o
meu senhor, sobre todas as cousas do mundo, queria bem a uma donzela,
que não tinha para êle mais armas que a formosura; porque a vontade
(segundo éla mostrou) nunca foi d'êle, antes disseram algumas pessoas de
sua casa que no dia em que éla concedeu o praso chorou muitas lagrimas,
e que nunca o concedera se não fôra por seu pae, que era tam afeiçoado a
meu senhor (e com razão) que, ao cabo de longo tempo, alcançou isto de
sua filha, e ainda á hora de sua morte.»
«Todos ficaram espantados d'ouvir isto, porque o cavaleiro da ponte era
formoso e se houvera na justa grandemente.
«Lamentor, a quem isto pesou muito, pelo esforço que êle na justa lhe
vira, com grande melancolia, disse:
--«Consolae-vos, que amor nunca perdoou desamor; tarde ou cedo, vereis
vingança.»
«O escudeiro, chorando, e tornando-se a lançar aos pés do seu senhor:
--«Ai! senhor cavaleiro, disse, para a morte não ha ahi vingança!»
«Lamentor o tornou a erguer, dizendo-lhe: que, para o chorar, haveria
tempo; que por então curasse de entender no que havia de fazer.
«O escudeiro lhe disse que iria, d'ali a uma jornada, onde estava uma
fortaleza de seu senhor, em que vivia uma sua irman viuva, a quem a êle
dera para lhe comer as rendas enquanto que êle seguia as aventuras: e
d'ahi viria o concerto para o levarem ao jazigo de seus antecessores; e
que, por então, deixasse Lamentor ali um seu escudeiro, que o guardasse.
«O sol ia já declinando, e era tempo de repousar: mórmente quem do mar
saíra.
«E porque, não muito longe d'aquele lugar, e da ponte, estava um assento
gracioso d'arvoredo, e corria por entre êle agua, ordenou Lamentor de
ali jantar, e assim o fez depois, dizendo ao escudeiro que queria ir
repousar n'aquele lugar; que lhe daria as andas em que o levassem, e
que, se mais lhe cumprisse, de boamente o faria.
«O escudeiro, tendo-lh'o em mercê, disse que assim fosse.
«E, começando-se de ordenar tudo, sucedeu por acaso que a irman do
cavaleiro da ponte, que sabia que não havia mais que oito dias para se
acabar o praso em que seu irmão (que éla muito queria) todo o seu
contentamento tinha posto, determinára vir ali com grandes pompas e
atavios, como aquela que devia, por amor e obrigação, acompanhá-lo até
ao fim,--porque tinha éla por certo que o acabaria êle com grande honra,
pois tanto tempo mantivera sua aventura que não havia já cavaleiro em
toda essa parte que por ali não tivesse passado.
«E acertou então de vir: e, vendo aquele ajuntamento e as andas, não
soube que dizer; mas logo lhe deu o coração uma volta, e, chegando-se
com presteza, viu o escudeiro, que éla bem conhecia, andar chorando.
Preguntou-lhe que cousa era aquela. Olhou, e viu o irmão jazer já sobre
uns panos ricos, que Lamentor lhe mandara pôr, e, apeando-se
apressadamente, foi correndo para êle. Lançando os seus toucados por
terra, começou a ir, arrancando cruelmente os seus cabelos (que longos
eram), para onde o corpo de seu irmão morto jazia, dizendo:--«Para a dôr
grande, não se fizeram leis!»
«Isto dizia éla, porque era costume muito guardado n'aquela terra, que
ficara d'outro tempo, sob grandes penas proíbido, não se pôr mulher
nenhuma em cabelo, senão por seu marido.
«Chegando a êle, o abraçou muitas vezes, e o beijou, dizendo:
--«Irmão meu, que morte foi esta, que assim vos levou tam depressa, que
vos não pude falar? Quam enganada me trouxe, do vosso castelo até aqui,
a desventura?! Que desconcertos da fortuna são estes? Para verdes
outrem, tomaveis vós esta empreza; e eu para vêr a vós parti de casa: e
tudo era para não vêrmos o que desejavamos!... Triste de mim, que,
quando vós, com outro rosto, fostes correndo a abraçar-me, dizendo:
«D'aqui a três anos, senhora irman, haverei a causa do mundo mais
desejada, e, com vossa licença, que mais quero» logo me deu n'alma. E
disse-vos: «Que largo praso, esse, para quem o recebe; parece até que
quem o põe o não põe para outra cousa!» Mas vós, que para isto quisestes
este bem, como que não folgaveis de me ouvir aquilo, me tornastes: «O
grande amor assegura esta demanda.» Inda mal, muitas vezes, porque foi
tam grande! Mas não me comerá a mim a terra com esta dôr, sem fazer, com
todo o meu poder, que custe o largo praso alguma cousa áquela que tanto
custou a vós e a mim!»
«As duas irmans, que já tinham descido para darem as andas, se foram
para éla, e, tomando-a entre si, começaram a agasalhá-la, á maneira de a
quererem consolar,--que a lingoagem d'aquela terra não a sabiam.
«Éla, com alta voz, chorando, disse: «Deixai-me, senhoras, chorar meu
irmão, pois não tem outrem que o chore.»
«Chegou-se Lamentor, que sabia a língoa, e andára todas as partidas do
mundo, e disse:
--«Os cavaleiros, senhora, que em feitos d'armas acabam, como vosso
irmão, não devem ser chorados como os outros homens; porque êles acham o
que buscam. Vós, senhora, posto que muita causa tenhaes para ser triste,
pela perda que perdestes n'ele, que era o melhor cavaleiro d'esta terra
toda, tendes tambem muita razão para louvar a Deus por ele ser tal.
Deixae o pranto, e vêde o que mandaes que se faça; que parece, senhora,
escandalo curardes mais de vossa dor que de vosso irmão, emquanto o
tendes diante de vós.»
«N'isto, chamou o escudeiro, para que lhe dissesse o que estava d'antes
ordenado. E éla o houve por bem, e fez-se assim.
«E puseram o cavaleiro da ponte sobre as andas, em ricos panos; e a
irman, chorando, pediu que a metessem com ele. Lamentor a tomou por um
braço, e a donzela (porque a irman não podia) pelo outro, e puseram-na
dentro. E querendo Lamentor soltar os paramentos das andas, como causa
de tanto dó, se chegou mais para éla, e disse estas palavras:
--«Ainda que o tempo, senhora, seja para outra cousa, como não sei
quando vos tornarei a ver, de mim sabei, como certo, que podeis fazer a
vosso serviço; o mais, sabereis do escudeiro.»
«E éla não tornou resposta, que ia toda coberta, lançada já sobre o
rosto de seu irmão, chorando.
«Ele soltou os paramentos, e assim se foram.»
CAPITULO VII
Como, depois de partida a irman do cavaleiro da ponte, por aprazer
aquele lugar a Lamentor, ordenára fazer ali seu assento
«Tristes ficaram todos por aquela desventura; mas Lamentor, que não
esquecia quem trazia consigo, limpando os olhos das lagrimas que aquela
partida assim lhe fazia, veio para onde sua senhora estava com a irman,
com estas palavras:
--«Agora nos podemos, senhora, ir; que na mortalha alheia não temos mais
que fazer.»
«E, tomando-as, cada uma por sua mão, mandou os seus para aquele lugar
que d'antes lhe parecera bem, dizendo-lhes o que haviam de fazer
entrementes.
«Foram-se então todos pôr sobre a ribeira d'este rio, olhando para êle.
Falando em outras cousas, estiveram ali um pouco, porque o mais depressa
que ser podia foi armada uma rica tenda, e preparado de comer, que tudo
vinha em grande abastança.
«Repousaram até bem tarde, que as andas tornaram. E por não serem já
horas para caminhar, se deixaram ficar ali aquela noite,--que a fortuna
tinha já ordenado que fosse para sempre.
«Belisa (que assim se chamava aquela senhora que vinha prenhe), emquanto
ali estiveram, antes que as andas viessem, adormeceu; e, acordando um
pouco agastada, viu junto de si Lamentor, e lançando-lhe, amorosamente,
os braços sobre o pescoço, esteve assim pensativa por um pouco.
«E êle, vendo que éla sonhára, pelo desacordo com que acordára, lhe
preguntou:
--«Que cousa, senhora, foi essa?»
--«Sonhava, senhor (lhe respondeu éla) que estávamos, vós e eu, ambos
presos de um fio; e que eu cortava-o, e que vos não via mais.»
«Lamentor, não lhe pareceu senão que lhe atravessavam aquelas palavras o
coração (como na verdade assim foi) e assim êle, com isto que em si
sentiu, se entristeceu grandemente.
«Adivinhava-lhe, parece, a alma o seu mal. E não pôde tanto dissimular
que o não conhecesse éla, e disse-lhe:
--«Que é isto, senhor, que assim vos mudastes com o que vos disse?»