Chegou-nos ha dias um livro que acabamos de percorrer e que trata de um
assumpto que realmente precisava de ser tratado seriamente e por penna
imparcial e sabedora dos factos.
Não vae decorrido muito tempo que o telegrapho communicava aos diversos
jornaes do paiz os insultos de que estavam sendo alvo os portuguezes
residentes no Pará, objecto de que então toda a imprensa do paiz se
occupou, pedindo ao governo para providenciar e fazer respeitar
n'aquellas paragens o pavilhão das quinas que, segundo se affiançava, os
paraenses intentavam enxovalhar em pleno dia.
Suscitaram-se todavia algumas duvidas sobre a veracidade dos factos
relatados e portanto foi muito bem vinda uma publicação devida a um
cavalheiro que residiu no Pará durante tres annos e que por conseguinte
teve occasião de estudar e prescutar todos os factos escandalosos que
diariamente ali se repetiam.
O livro a que alludimos é subordinado ao titulo _Questões do Pará_ e é
seu auctor o sr. D. A. Gomes Pércheiro.
O sr. Pércheiro tomando o seu escapello, anatomisa minuciosamente os
_prós_ e os _contras_ que alli vão encontrar aquelles que vêem no Brazil
um novo _El dorado_ e se ligarmos credito, como devemos, ás suas
palavras é certo que não se lhes antolha um futuro muito risonho.
Uma grande parte dos trabalhadores succumbem logo ao abordar aquelles
portos insalubres em que predominam quasi constantemente as febres, o
cholera e outras molestias que desapiedadamente desvastam a humanidade,
e os que por ventura logram a felicidade de escapar ás garras da morte,
depois de muitos annos de privações que nunca soffreriam na sua terra,
conseguem reunir no cantinho do bahú uns 400 ou 500 mil réis, que o
tratamento das molestias adquiridas no Brazil lhes absorve, quando
exhaustos de forças e na decrepitude da vida, regressam á sua terra
natal.
Oh! como é miseravel a vida do artista e do trabalhador portuguez no
Brazil! exclama o sr. Gomes Pércheiro e accrescenta; «Os portuguezes que
de futuro emigrarem para o Brazil, com o fim de se dedicarem ao
commercio, perderão infallivelmente o seu precioso tempo...», o que o
auctor demonstra com razões bastante acceitaveis sendo uma das
principaes o definhamento que de dia para dia vae tendo ali a
agricultura em consequencia da falta do braço escravo que as leis
libertaram.
O livro do sr. Gomes Pércheiro precisa de ser estudado; uma simples
leitura não é o bastante e o nosso governo prestaria bom serviço
mandando pela sua parte tambem estudar o assumpto no campo da pratica.
As estatisticas da mortalidade e a descripção minuciosa das privações
que sofrrem os nossos irmãos que vão em busca da fortuna, seriam talvez
o verdadeiro dique a oppôr-se á emigração.
O clero tambem podia cooperar para isso, porque a sua missão não é só a
de rezar padre-nossos e ave-marias.
Nós julgamos necessario que se evite quanto possivel a emigração, mas
por meios licitos e sem menosprezar a liberdade do paiz. Não queremos
que se apregoe a mentira; queremos que se diga a verdade e que se colham
algarismos exactos que fallem com toda a sua eloquencia.
Dito isto cumpre-nos agradecer ao sr. Gomes Pércheiro o delicado
offerecimento que nos fez da sua obra, a que toda a imprensa tem
dispensado o mais lisongeiro acolhimento e congratulamol-o porque é a
mais valiosa recompensa a que um escriptor póde aspirar.
(_Agosto_)
_Duarte de Oliveira Junior._
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