O PROGRESSISTA

Quando uma fila de carruagens pesadissimas atravessou pela primeira vez

os campos ao empuchão violento do fogo e da agua, a poesia assustou-se e

chorou como perdido o encanto das viagens. Soberbas de serras e montes,

amenidades e melancholias de longas e incultas planiceis tudo isto se

perdia para os olhos e para o coração de quem viaja; perdiam-se além

d'isso os sobresaltos, que dá uma floresta com fama de ser um abrigo de

salteadores, perdiam-se os mesmos salteadores, os seus roubos e

assassinatos.

A poesia não tinha razão; filha do genio e do enthusiasmo, o seu pranto

era um delirio.

Gostaes de contemplar as serras, de subir aos montes? Tomae o cavallo ou

o bordão; ide lá. Quereis ter sensações, julgaes que um susto ou mesmo

um roubo, em meio do desmaiar das damas e do brigar dos homens, é uma

cousa bella para soffrer e recordar? Pois escrevei aos salteadores de

que tiverdes noticia, dizei-lhes quando passaes que dinheiro levaes, e

será satisfeita a vossa vontade. Os wagons não teem mãos que vos prendam

e vos puchem para dentro; sois vós que pondes o pé no estribo e subis.

O viajar pelos caminho de ferro não será poetico, mas é commodo, e ás

vezes instructivo, o caminho de ferro é ás vezes a torre de Babel a

andar; são as cinco partes do mundo a conversarem sentadas n'um banco.

Senão vêde:

Uma noite de maio ia eu no caminho de ferro para Coimbra, tinha a um

lado um brazileiro ainda novo, e do outro um homem alto e grosso, com o

cabello e a barba já a branquearem-lhe; o brazileiro esperguiçava-se de

quando em quando, tirava as botas, e para que o viesse acalentar,

promettia dinheiro ao somno.

O meu outro companheiro encostava a cabeça, que abafara n'um bonet de

pelle de lontra, ao estofo da carruagem, e erguia e descahia

compassadamente as mãos sobre um dos joelhos.

«Está visto, disse-me o brazileiro, não posso dormir.

--Folgo muito, respondi eu, porque poderemos conversar. O sr. vae para

Coimbra?

«Para o Porto. O sr. é de Coimbra?

--Sou estudante.

«Oh! estudante; dizem que os estudantes é muito má gente.

--Muito obrigado pelo elogio; mas olhe, são mais as vozes que as nozes.

«Que fazem muita troça. Até fizeram troça ao imperador do Brazil, é

verdade? Pode dizer o que quizer, a mim não me importa o imperador, eu

não gosto do imperador, ainda que é o primeiro sabio do mundo. Não sei

se é, que eu não entendo d'estas cousas, sou negociante e ando a viajar

para me divertir, tenho gasto muito dinheiro: agora é gastar. Mas viu o

imperador gostou d'elle?

--Pouco. No Porto parece-me que não andou bem; era uma terra...

«Fez isso de proposito--interrompeu o meu companheiro de viagem. Se o

imperador tratasse cá bem os portuguezes, os brazileiros deitavam-n'o a

voar. Foi para agradar. O imperador anda a tremer de medo.»

A resposta indignou-me.--Não posso acreditar, repliquei eu: e o que

affirma seria, se assim fosse, uma acre censura para os brazileiros;

mas, repito, o que diz não póde ser.

«Pois póde, exclamou de repente o meu outro visinho. Póde e assim mesmo

é que é; o sr. é um idealista, que julga que os reis têem parentes,

idéas e sentimentos; está enganado, os reis têem um throno e nada mais;

percebe? Foi para agradar aos brazileiros, pois que duvida?

--O sr. é brazileiro? perguntei eu.

«Não sr. sou portuguez, mas tenho estado muitas vezes no Pará e vim de

lá ha seis mezes. Ora ouça...

Fiquei curioso e attento.

«Ha no Brazil dois partidos, começou o meu visinho, liberal e

conservador; as coisas prosperavam sob o governo do partido liberal, mas

algumas provincias começaram a pensar em se constituirem em republica; o

imperador chamou ao poder o visconde de Rio Branco, chefe do partido

conservador, e este para onerar as provincias que sonhavam com a

republica, mandou-lhes presidentes com instrucções para destruirem por

todos os modos o thesouro da provincia; tinham uma grande recompensa por

isso, e em breve tempo se desempenharam do encargo.

--Honrosissimo encargo!

«No Pará manifestou-se com grande força, sob o dominio do partido

conservador, um odio violento e tenaz contra os portuguezes, e este

odio, que está em todos os naturaes, achou um orgão n'um jornal de que

deve ter ouvido fallar _A Tribuna_.

«Esta _Tribuna_ é uma tribuna d'onde se prega o morticinio contra os

portuguezes. E quer saber quem é o redactor d'este jornal, e o chefe da

perseguição? é o conego Manuel José de Sequeira Mendes.

--Bello padre! exclamei eu.

«Por lá quasi todos são assim, crueis e devassos; o Brazil é uma nação

nova, mas corrompida até á medulla dos ossos. No parlamento todos os

deputados se vendem, e vendem-se a dinheiro de contado. Um francez que

tem no Pará uma fortuna collossal, (disse-me o nome) escreveu um dia que

dentro d'um certo numero de annos todos os deputados do Pará se lhe

tinham vendido. A asserção ficou sem resposta.

--Não imaginava tanto, mas fallemos do conego, chefe da perseguição.

«E deputado ministerial. O visconde de Rio Branco não combate a

_Tribuna_, não contradiz o grito--Mata gallegos--para não levantarem

outro--Republica.

--Mas porque é que no Rio de Janeiro não succede o mesmo?

«No Rio de Janeiro dominam os capitaes portuguezes.

--Porque não auxiliam os portuguezes do Rio os do Pará?

«Pela distancia. Umas provincias não podem ali influir sobre as outras.

Mas o estado dos portuguezes no Pará é terrivel. Ha tempo um escravo

matou um caixeiro portuguez; as leis do Brazil consignam para isto pena

de morte sem possibilidade de intervenção do poder moderador; pois o

jury absolveu o reu dizendo que o assassino tinha feito um acto

meritorio; que matar um portuguez, um gallego, era ser benemerito da

humanidade, etc. Esta inpunidade convida ao assassinato, e os

portuguezes são roubados e garrotados na rua e em casa sem que a justiça

proceda; ou se procede, termina pela absolvição, ou por penalidades, que

são um novo insulto. O governo...

--E a causa d'este odio?

«Olhe, nós não comprehendemos o que tinhamos a fazer no Brazil, como o

comprehendem os inglezes, os allemães e os francezes. Todos estes

trabalham, accumulam e retiram-se; não fazem no Brazil uma casa, não

fazem uma festa, não dão um jantar, não casam com uma brazileira; em

ajuntando, retiram-se, edificam palacios na sua nação, dão banquetes e

festas na sua nação, casam com as mulheres da sua nação, por isso não

dão na vista aos brazileiros; nós edificamos ali palacios, damos ali

banquetes e festas, ali casamos, etc...

Mas isso é conveniente ao Brazil; nós, dirigindo-nos assim,

enriquecemol-o; fazer o que me diz que fazem os inglezes, francezes,

allemães, é devastal-o.

É verdade. Mas aquella gente não tem razão, tem só olhos. De quem é este

palacio? E d'um marinheiro, ainda outro dia para ahi veio descalço. Ah!

estes gallegos não se matam d'uma vez! etc.

«E se os não matam d'uma vez, vão-os matando pouco a pouco.

«A imprensa toca todos os dias a rebate....................

--Que estado de coisas!

«Olhe foi denunciado á Europa por um portuguez de valor, ainda rapaz,

director da Agencia americana no Pará. A imprensa do Brazil accusou-o de

faltar á verdade; e dinheiro, mulheres, tudo foi tentado para o fazer

calar; elle deixou o Brazil, e veio para Portugal para responder d'aqui

á imprensa brazileira; verá dentro em breve um livro repleto de factos,

e Portugal poderá ver o que é o Brazil.

--A terra da promissão com que sonham os nossos desherdados da fortuna.

«Convertido em inferno pela mais baixa de todas as paixões--a inveja.»

* * * * *

Passaram poucos dias, e, entrando no seminario de Coimbra, vi sobre uma

meza de estudo um livro intitulado--_Questões do Pará_, por D. A. Gomes

Pércheiro.

--Que livro é este? perguntei.

Leve e leia.

É d'este livro que vou dizer duas palavras ao leitor.

O livro d'hoje e o livro d'hontem não se parecem em nada, como tambem se

não parecem o homem d'hoje e o homem d'hontem. O livro d'hontem era

pesado, mas solida espada para o ataque, ou escudo para a defesa; o

livro d'hoje é liviano, innutil, a figura d'um _petit-maitre_, que tem

palavras sem ter idéas, que, como a velha de Nicolau Tolentino, aprende

a brir as risadas diante de um espelho; o livro d'hontem escrevia-se

depois do estudo e no impulso d'uma crença; o d'hoje escreve-se antes do

estudo e sob o dominio d'uma vaidade, que se quer vêr em letra redonda:

o livro d'hontem era um facto, o d'hoje um fato.

O livro do sr. D. A. Gomes Pércheiro não é o livro d'hoje, é um livro

excepcional, e, nos tempos do egoismo que correm, um milagre de

patriotismo.

A historia da litteratura não tem que inscrever nas suas paginas o nome

do auctor porque, escrevendo no decurso de uma viagem, e todo occupado

com o assumpto, o livro sahiu sem estylo, e mesmo menos ordenado do que

devia ser e do que convinha que fosse; mas fazer a historia do livro, e

resumir o que elle é, é traçar um elogio seguro e grandioso do auctor,

declaral-o benemerito da nação, digno do respeito e da gratidão de todos

os que forem portuguezes.

A historia do livro é esta.

Desenvolveram-se no Brazil violencias de odio contra os portuguezes; o

governo, a administração, o poder judicial, sempre o ultimo a

corromper-se, pozeram-se em affinidade com a bruteza d'estes rancores,

que se têem resolvido em roubos e assassinatos n'umas vesperas

sicilianas, lentas, mas de todos os dias e em que um padre prega do alto

da imprensa, como evangelho d'uma nação, o morticinio dos alliados

naturaes d'essa mesma nação, os unicos que podem enriquecel-a,

fecundal-a e fazel-a grande.

O sr. Gomes Pércheiro era empregado na Agencia americana do Pará; como

portuguez, e como homem, indignou-o a perseguição que se movia aos seus

patricios, e denunciou-a a Portugal e á Europa.

Foi de coragem, e foi heroico o acto, porque os interesses, coisa a que

tudo se sacrifica, foram sacrificados pelo sr. Pércheiro ao sentimento

da humanidade e do amor da patria, que pedia a expressão da verdade a

brados e repetida.

Como Rousseau, o sr. Pércheiro tomou a divisa--_vitam impendere vero_--e

a Agencia americana contou á Europa o que estava sendo o Pará.

A imprensa brazileira levantou-se e desmentiu as asserções do sr.

Pércheiro; sabemos mesmo, e permitta-nos o auctor das _Questões do Pará_

que o digamos, que estando para casar com uma rica herdeira do Brazil,

se empregou o credito da noiva para o dissuadir de dizer a verdade do

que se passava no Pará com os portuguezes.

Para poder dizer a verdade sem rebuço e sem melindre, o sr. Pércheiro

quebrou o ajuste de consorcio: para responder á imprensa que o

desmentia, o sr. Pércheiro fez-se á vela para Portugal, e no caminho

veiu escrevendo o seu livro.

Quantas são as obras que têem uma historia como esta? quantos os

escriptores que, quebrando por affeições e por interesses, atravessam o

occeano para virem dizer uma verdade?

Ha no sr. Pércheiro uma individualidade nobre e digna de respeito; o seu

livro não é, como já dissemos, um livro d'estylo, é um livro de factos;

conta-nos o triste estado dos portuguezes no Pará, documenta e prova o

que diz; o seu livro é uma lição para Portugal, devia ser um desengano

para os illudidos que vêem no Brazil uma nova terra da promissão. É

tambem a estes que o auctor o dedica.

Investigando as causas da emigração portugueza encontram-se talvez duas,

a idéa que o povo ignorante e pobre faz do Brazil, e o facto de ser

Portugal uma nação em que as industrias manufactoras não estão em

proporção sufficiente com a industria agricola. Ora a miragem, que é

construida de ignorancia, póde contribuir para destruir e esvaecer o

livro do sr. Pércheiro. A França teve um ministro de coração e de genio

que approveitava o clero para o fazer ensinar ao povo tudo o que podia

concorrer para a felicidade d'elle. O ministro chamava-se Turgot. O

governo portuguez podia, á similhança de Turgot, mandar distribuir o

livro do sr. Pércheiro pelas parochias e escolas ruraes em que a

emigração recruta mais gente, pedindo que o lessem e o dessem a ler, e

que fizessem sobre o assumpto predicas e conferencias, que dissuadissem

da emigração.

Mas o que fazia Turgot, que era um genio, seria uma utopia ridicula para

quem o não é: não sabendo já o que ha de fazer, para viver, o governo

portuguez manda vir do estrangeiro o Espirito Santo, disfarçado em

pombos, e bebe a inspiração nos arrulhos que elles soltam.

Seja como fôr, o livro do sr. Pércheiro não será perdido; irá dar a luz

a muitos espiritos, e mesmo quando assim não fosse, ficava de lição o

desprendimento generoso e nobre com que o seu auctor atravessou o

occeano e sacrificou interesses para proclamar a verdade.

_J. F. L._

(_19 e 20 de agosto._)

Portugal e Brazil: emigração e colonisação · 第 164 / 176 题