Bemfica 19 de julho de 1875

_Gomes Pércheiro._

Breves palavras apenas. Queixa-se, ou antes argue-nos o sr. Pércheiro de

sermos contradictorios na apreciação do seu livro, porque n'uma parte o

elogiamos, e n'outra fomos menos benevolos com elle,--por julgarmos

algumas das suas apreciações verdadeiras, e a outras não acceitamos sem

attestação de documento.

Somos então sempre contradictorios, e d'este modo a contradicção é

inseparavel da nossa pobre crítica, porque temos por costume invariavel

elogiar o que nos agrada, e censurar o que nos não parece bom. E o peior

é que não nos arrependemos, nem pretendemos emendar-nos de tão feio

peccado. Quando nos obrigarem a sahir da nossa obscuridade, ha de ser

assim. Tenha-nos embora o sr. Pércheiro por impenitentes. Não nos

queixaremos.

Não o supposemos embusteiro, pareceu-nos exaggerado, pelo menos em

alguns periodos. A paixão desvaira ás vezes os milhores e mais rectos

entendimentos. O sr. Pércheiro, no nosso modo de vêr, estava apaixonado

quando escreveu o seu livro. Nós é o que não podiamos estar quando o

lêmos, a não ser em favor do sr. Pércheiro, que, na unica vez que

tivemos a honra de o receber, nos pareceu um cavalheiro amabilissimo.

Ora o que é escripto com paixão precisa de certo desconto. É o que nós

dissemos e dizemos, a respeito das _Questões do Pará_. E nem por isso

deixa o livro de ser uma interessante exposição de factos, pelos

documentos que contém, pelo que a boa crítica póde d'elle receber sem

escrupulo, pelas noticias que dá com respeito a algumas questões pouco

conhecidas entre nós.

Dizemos isto a medo de sermos novamente arguidos de contradicção, visto

insistirmos na nota de apaixonado, que melindrosamente repelle.

O sr. Pércheiro diz que não rectifica o que a pag. 181 escreveu a

respeito das senhoras brazileiras. Nem nós lh'o pedimos. É uma questão

de consciencia. Ha de permittir-nos porêm que continuemos a suppor

excepção o que apresenta como regra. Como excepção ha d'isso em toda a

parte. Tambem por cá... Como regra, temos o testemunho em contrario de

muitas familias vindas de lá, que logramos a fortuna de conhecer.

Nós partimos em tudo isto d'um principio; que para affirmar nos nossos

compatriotas a convicção de que se não devem aventurar loucamente aos

azares da emigração americana, não é preciso representar-lhe o Brazil

como um paiz de selvagens ou pouco menos; e que d'outra sorte, não

fazemos mais que corresponder á denominação rusticamente injuriosa de

_galegos_, com que alguns brazileiros julgam affrontar-nos,

affrontando-se ao mesmo tempo a si.

Se isso é realmente offensa, preferimos ficar offendidos, a parecer-nos

com elles, offendendo-os pela mesma fórma, e com egual justiça.

Lisongeia-nos mais o papel de victimas. É questão de gosto talvez.

Podiamos assegurar ao sr. Pércheiro que nos foi desagradavel a certeza

de o havermos molestado sem querer. É porém sestro nosso e de muita

gente. Ainda ha pouco o nosso antigo amigo, o sr. Teixeira de

Vasconcellos, n'um caso identico, se queixava de que todos os auctores

lhe pediam que fosse franco a respeito do que escreviam, e todos se

julgavam depois offendidos quando elle tomava o pedido ao pé da letra.

Acontece sempre isto.

Por isso nós costumamos, e cada vez estamos mais firmes n'este

proposito--deixar á redacção d'outros jornaes a noticia das novas

publicações com aquellas palavras sacramentaes de louvor, que afinal

nada significam. Com isso ninguem se offende. Alguns acham pouco o

incenso. Mas d'ordinario todos gostam.

Resta dizer ao sr Pércheiro que o redactor principal do _Districto de

Aveiro_, não costuma assignar os artigos d'esta secção. Esta pratica,

que é de muitos outros jornaes do paiz, equivale a uma assignatura.

E faremos uma rectificação, visto ser necessaria. Nós não escrevemos: «é

nas classes _inferiores_ que a desconsideração mais se revela;»

escrevemos: «é nas classes _superiores_ que a desconsideração mais se

revela.» No entretanto foi como o sr. Pércheiro cita que o periodo sahiu

á luz. Travessuras dos compositores e descuidos da revisão, a que

estamos habituados. Nem d'ordinario já rectificamos. Deixamos esse

cuidado ao bom senso de quem lê.

_Districto de Aveiro_

* * * * *

_Sr. redactor._--Antes de entrar na apreciação da resposta com que v.

exª me honrou em o n.º 366 do seu enteressantissimo jornal, permitta que

lhe agradeça o favor da publicação da minha carta, que motivou esta

resposta. Dito isto, peço egual favor para a inserção d'esta. Perdoe-me

v. ex.ª o abuso. É que eu com a alludida resposta, e outras que se lhe

possam seguir, ficarei _vencido_, mas nunca _convencido_: tal é o meu

obscurantismo a respeito das coisas do Brazil. Para demonstrar a v. ex.ª

que não fico convencido, é que escrevo mais estas desconcertadas linhas.

Creia que, se não fôra esta razão, deporia a minha penna de chumbo, que

jámais poderá vencer a de ouro, tão habilmente dirigida por mão de um

digno contendedor como v. ex.ª

N'essa resposta a que eu alludo, e á qual vou fazer algumas

considerações, suppõe v. ex.ª que me escandalizam as opiniões contrarias

ao meu livro e que me agradam as palavras _sacramentaes_ dos jornalistas

sem consciencia. Permitta que lhe diga, que, ainda mais uma vez tornou a

ser injusto comigo, injustiça que se estendeu a litteratos mui

distinctos, que se serviram apreciar o meu modesto trabalho.

Eu não me escandaliso com a opinião de criticos tão abalisados como v.

ex.ª; poderei escandalisar-me com as injustiças e apontar as

contradicções. E v. ex.ª foi injusto comigo e contradisse-se em alguns

pontos da sua apreciação ao meu livro. Desculpe a teimosia. Eu tambem

sou peccador como v. ex.ª Acredite-me com franqueza, que não dispenso as

palavras _sacramentaes_ de que falla, nem tão pouco as de censura com

que me distingiu, visto que, para umas e outras eu já estava prevenido,

ainda antes do meu trabalho ter saido a lume. Antes do apparecimento do

artigo de v. ex.ª já eu tinha recebido os jornaes do Pará, onde, a par

das injustiças, vi publicados alguns artigos bastante insultuosos. Já vê

v. exª que eu esperava flores e espinhos ao mesmo tempo. Mas eu sou tão

differente dos outros homens (e sinto que v. ex.ª me não tivesse ainda

comprehendido), que julgo importarem em pouco as palmas e as pateadas a

quem tem a consciencia tranquilla. E a minha, mercê do Altissimo, não o

póde estar mais. Comtudo agradeço umas e outras.

Folgo devéras, que não tenha visto em mim um embusteiro e apenas as

parecensas com quem foi exaggerado e apaixonado, isto com referencia a

alguns periodos do meu livro. Esta confissão agrada-me; mas é perciso

desfazer no animo de v. ex.ª essas ideas, que tão injustamante me

arroga. Eis o que ainda vou tentar.

Não ha exaggeração da minha parte, quando digo que a maioria dos

paraenses nos odea; porque, para comprovar esta minha asserção, me sirvo

das proprias palavras da _folha official_:

«Ao passo que o Japão se vae civilisando, o Pará, em vista dos ultimos

acontecimentos, está passando no estrangeiro como terra de selvagens!

«Pena é que as ideas intituladas _patrioticas_ (o exterminio dos

portuguezes), não tenham encontrado apoio sómente em meia duzia de moços

inexperientes.»

E basta. Isto significa um mundo de desgraças, que justificariam os meus

_exaggeros_ e a minha _paixão_.

O governo, representante do povo brazileiro, odeia-nos tambem porque

despresa a nossa causa, que é justa. Tomando o seu exemplo, os tribunaes

são quasi sempre facciosos, quando julgam o portuguez delinquente. Mil

factos o comprovam. E no nosso paiz não ha exemplo que os juizes julguem

nacionalidades. Haja vista ao processo do infeliz Vieira de Castro!...

Não se póde pôr em duvida a minha proposição:--_é ephemera a civilisação

no Brazil_; porque qualquer paiz civilisado levantar-se-hia contra a

propotencia sem egual, se parte d'esse paiz como acontece no norte

d'aquelle imperio, quizesse em pleno seculo XIX, repetir um novo S.

Berthelemy. E o povo brazileiro, permitta-me a repetição, é responsavel

pelos desmandos dos paraenses, porque até hoje ainda não vimos que os

seus representantes tomassem medidas energicas contra o estado de

effervescencia revolucionaria, que existe no Pará, ha mais de tres

annos. Nenhuma voz soou ainda no parlamento brazileiro, interpelando o

governo a respeito dos acontecimentos dos dias 6 e 7 de setembro do anno

findo; voz que ao mesmo tempo fulminasse um dos seus membros, accusado

com bastante fundamento, de estar á testa dos disculos. Este silencio

anima os desordeiros, que, contando com a impunidade, preparam novos

desacatos para d'aqui a pouco mais de um mez. E se elles se repetirem, o

que é muito provavel, porque as proclamações da _Tribuna_, sempre

attendida, cada vez são mais incendiarias, não terei razão de dizer que

o Brazil é um paiz de selvagens, porque á testa dos communistas vemos a

indifferença das auctoridades, os deputados do imperio, o clero e muitas

outras influencias?

Por muito menos que as barbaridades dos paraenses, não vimos nós, hade

haver 4 annos, um dos actuaes ministros, então deputado, interpelar o

governo por causa da pastoral do actual patriarcha de Lisboa? Não foi ha

dias censurado um prégador que, segundo se diz, insultára, em termos

mais convenientes do que os dos _tribunos_, algumas nações amigas? Não

me poderá v. ex.ª responder que os actos de repressão d'estes homens

foram ditados pelo meio da força, e sim pelo cumprimento do dever, que

todo o homem publico deve ter em vista. E o que fazem os deputados ou os

senadores brazileiros? Alguns, em pleno parlamento, já nos têem

insultado.

As doutrinas do jornal _A Tribuna_, que segundo dizem os defensores do

Brazil, não é acceite pela maioria dos paraenses, echoam livremente em

toda a parte: e desgraça é dizel-o:--semilhante jornal é o mais lido na

provincia, e mais de cem jornaes brazileiros trocam com este pasquim,

insulto permanente a tudo quanto é portuguez!

E desapprova v. ex.ª o epiteto de selvagem com que distingo aquella

gente; epiteto que, a fallar a verdade, será um pouco mais insultoso que

o de _gallego_ com que os brazileiros nos distinguem, porque _gallego_,

a meu simples entender, é synonimo de trabalhador, que mais honra do que

o do indolente. Mas de certo que o epiteto de selvagem não é mais

insultuoso que o de _ladrão_, _assasino_, _falsario_ e muitos outros com

que egualmente nos mimoseiam. Saiba v. ex.ª que, pelo ultimo paquete,

recebi eu muitas d'estas distinções! Pretenderá esta gente, com

semelhantes blasphemias, arredar-nos do banquete da civilisação? Mas eu,

chamando-lhes selvagens, não os prohibo de se civilisarem; com esta

distincção já mais os affastarei dos paizes cultos, onde em todas as

épocas têem apparecido, sem serem repudiados, alguns d'esses entes, no

meio da admiração e do rogosijo publico!

Não chamei ás mulheres brazileiras, adulteras e prostitutas; não digo

que o seu imperador é bebado e devasso; não distingo com os epitetos

mais infamantes o seu exercito e a sua marinha, cujas forças eu apenas

digo serem ephemeras, porque, effectivamente um pequeno exercito

europeu, faria do Brazil independente uma colonia de qualquer nação da

Europa.

Inflama-se v. ex.ª porque chamei selvagem á maioria dos paraenses,

epiteto que se poderá estender á maioria dos brazileiros, se elles de

futuro não protestarem contra o insulto de que temos sido e

continuaremos a ser alvo! O serem selvagens não lhes tira a honra de

serem respeitadores da vida e da propriedade alheia. Dizia Thevet, que

os _Tupinambas_ morreriam de pejo se vissem um seu visinho ou o seu

proximo carecendo d'aquillo que elles possuissem. Os delinquentes eram

castigados. Muitos selvagens se distinguiam pelo seu genio guerreiro.

Outros havia, antropophagos, que apresionavam as victimas, que afinal

eram os roubadores do seu paiz, e as comiam, depois de assadas nos

espetos de _marapinima_!

Já vê o meu illustre contendor, que nem a todos chamo _botocudos_,

titulo que bem podia caber aos assassinos de Jurupary. No Brazil ha

homens civilisados, especialmente no sul, que se horrorisam com os actos

de selvageria praticados pelos paraenses, a quem não distinguem com o

doce nome de compatriotas. Mas o que é quasi geral, especialmente desde

o Rio de Janeiro para o norte, é que os brazileiros, como acontecia ás

raças que antigamente predominavam na America do sul, odeiam os

portuguezes. Isto é que é irrefutavel. É uma verdade bastante amarga, eu

sei; mas... _quem não quer ser lobo_...

Insiste v. ex.ª sem duvida, por causa das boas relações que entertem com

_muitas_ familias brazileiras, em fazer _excepção_ do que, a respeito do

aceio das senhoras d'esse paiz, eu sustento ser _regra_; e para

contrapor a sua á minha opinião, diz que isto é questão de

_consciencia_. E eu, permitta-me que lhe diga, que é tambem questão de

_experiencia_; e no caso sujeito, parece-me que não vale menos uma do

que a outra. Para confirmar o que digo a tal respeito a pag. 181 do meu

livro, não irei, de certo, em procura de algumas familias, que ambos

conhecemos, as quaes exceptuarei sempre, mas que continuarão, por causa

da _experiencia_, que me faz _consciencioso_, a ficar em minoria.

Dizia M. de Tullenere, citado mais de uma vez por Ferdinand Diniz, no

seu livro _Le Brezil_, o seguinte respeito das brazileiras:

«Uma senhora vae á missa acompanhada por numerosos escravos adornados

com riqueza; e muitas vezes, em voltando para casa assenta-se n'uma

esteira, onde come com a mão, peixe salgado e mandioca.»

Ora, eu não creio que fique limpa quem, ataviada assim da festa, come o

peixe por similhante systema.

Aos francezes, inglezes e allemães, quando fallam assim dos outros

povos, respeita-se-lhes a linguagem, talvez porque são poderosos. Ás

mais pequenas exigencias, ás vezes injustas, segue-se-lhes a força dos

canhões! E nós, somos tão miseraveis, tão pequeninos, que nem ao menos

podemos dizer as verdades, como justo desforço contra tanta tyrania! É

assim o mundo. Quanto tens, quanto vales. Sacrifique-se a consciencia,

porque dizem ser forte o Brazil, que nos insulta! sacrifique-se a

consciencia, porque a familia brazileira, mais do que qualquer outra,

está relacionada com a portugueza!

Disse na minha primeira carta, que o meu illustre critico tinha sido

injusto comigo, e essa injustiça eu já a demonstrei. Disse mais que

tinha sido contradictorio, e o que ainda vou transcrever da sua

apreciação ás minhas _Questões do Pará_, corroborará mais o que já

disséra. Transcreverei apenas o primeiro e o ultimo paragraphos do seu

referido artigo, e assim juntos, é mais facil a apreciação.

Diz o 1.º:

«É uma interessante exposição de factos, que ministra muita luz,» etc.

Aqui o meu livro é recommendado aos leitores do _Districto de Aveiro_.

Resa assim o final:

«Afora isto, (as pag. 181 e outros logares?), era util que o livro do

sr. Pércheiro se vulgarisasse» etc.

As pag. 181 e _outros logares_ que o leitor do jornal ignora, porque v.

ex.ª não se dignou apontal-as, não devem ser lidas.

Conclusão logica:

_Afora o livro do sr. Pércheiro, era bom que o livro se vulgarisassse!_

Aponte v. ex.ª os taes logares, que eu e o paiz lhe agradeceremos tão

elevado serviço. Então, o leitor prevenido inutilisará as paginas sobre

que v. ex.ª fulminou o anathema, e poderá ler, sem escrupulo de peccar, o

restante das minhas _Questões do Pará_.

Era esta a obrigação do bom critico, que, como o historiador, tem que

ser muito minucioso para não ser injusto.

Terminarei agradecendo antecipadamente a inserção d'esta, pedindo ao

mesmo tempo mil desculpas pela divergencia da minha humilde opinião, o

que jámais me impedirá de ser.

De v. etc.

Portugal e Brazil: emigração e colonisação · 第 161 / 176 题