_Gomes Pércheiro._
Breves palavras apenas. Queixa-se, ou antes argue-nos o sr. Pércheiro de
sermos contradictorios na apreciação do seu livro, porque n'uma parte o
elogiamos, e n'outra fomos menos benevolos com elle,--por julgarmos
algumas das suas apreciações verdadeiras, e a outras não acceitamos sem
attestação de documento.
Somos então sempre contradictorios, e d'este modo a contradicção é
inseparavel da nossa pobre crítica, porque temos por costume invariavel
elogiar o que nos agrada, e censurar o que nos não parece bom. E o peior
é que não nos arrependemos, nem pretendemos emendar-nos de tão feio
peccado. Quando nos obrigarem a sahir da nossa obscuridade, ha de ser
assim. Tenha-nos embora o sr. Pércheiro por impenitentes. Não nos
queixaremos.
Não o supposemos embusteiro, pareceu-nos exaggerado, pelo menos em
alguns periodos. A paixão desvaira ás vezes os milhores e mais rectos
entendimentos. O sr. Pércheiro, no nosso modo de vêr, estava apaixonado
quando escreveu o seu livro. Nós é o que não podiamos estar quando o
lêmos, a não ser em favor do sr. Pércheiro, que, na unica vez que
tivemos a honra de o receber, nos pareceu um cavalheiro amabilissimo.
Ora o que é escripto com paixão precisa de certo desconto. É o que nós
dissemos e dizemos, a respeito das _Questões do Pará_. E nem por isso
deixa o livro de ser uma interessante exposição de factos, pelos
documentos que contém, pelo que a boa crítica póde d'elle receber sem
escrupulo, pelas noticias que dá com respeito a algumas questões pouco
conhecidas entre nós.
Dizemos isto a medo de sermos novamente arguidos de contradicção, visto
insistirmos na nota de apaixonado, que melindrosamente repelle.
O sr. Pércheiro diz que não rectifica o que a pag. 181 escreveu a
respeito das senhoras brazileiras. Nem nós lh'o pedimos. É uma questão
de consciencia. Ha de permittir-nos porêm que continuemos a suppor
excepção o que apresenta como regra. Como excepção ha d'isso em toda a
parte. Tambem por cá... Como regra, temos o testemunho em contrario de
muitas familias vindas de lá, que logramos a fortuna de conhecer.
Nós partimos em tudo isto d'um principio; que para affirmar nos nossos
compatriotas a convicção de que se não devem aventurar loucamente aos
azares da emigração americana, não é preciso representar-lhe o Brazil
como um paiz de selvagens ou pouco menos; e que d'outra sorte, não
fazemos mais que corresponder á denominação rusticamente injuriosa de
_galegos_, com que alguns brazileiros julgam affrontar-nos,
affrontando-se ao mesmo tempo a si.
Se isso é realmente offensa, preferimos ficar offendidos, a parecer-nos
com elles, offendendo-os pela mesma fórma, e com egual justiça.
Lisongeia-nos mais o papel de victimas. É questão de gosto talvez.
Podiamos assegurar ao sr. Pércheiro que nos foi desagradavel a certeza
de o havermos molestado sem querer. É porém sestro nosso e de muita
gente. Ainda ha pouco o nosso antigo amigo, o sr. Teixeira de
Vasconcellos, n'um caso identico, se queixava de que todos os auctores
lhe pediam que fosse franco a respeito do que escreviam, e todos se
julgavam depois offendidos quando elle tomava o pedido ao pé da letra.
Acontece sempre isto.
Por isso nós costumamos, e cada vez estamos mais firmes n'este
proposito--deixar á redacção d'outros jornaes a noticia das novas
publicações com aquellas palavras sacramentaes de louvor, que afinal
nada significam. Com isso ninguem se offende. Alguns acham pouco o
incenso. Mas d'ordinario todos gostam.
Resta dizer ao sr Pércheiro que o redactor principal do _Districto de
Aveiro_, não costuma assignar os artigos d'esta secção. Esta pratica,
que é de muitos outros jornaes do paiz, equivale a uma assignatura.
E faremos uma rectificação, visto ser necessaria. Nós não escrevemos: «é
nas classes _inferiores_ que a desconsideração mais se revela;»
escrevemos: «é nas classes _superiores_ que a desconsideração mais se
revela.» No entretanto foi como o sr. Pércheiro cita que o periodo sahiu
á luz. Travessuras dos compositores e descuidos da revisão, a que
estamos habituados. Nem d'ordinario já rectificamos. Deixamos esse
cuidado ao bom senso de quem lê.
_Districto de Aveiro_
* * * * *
_Sr. redactor._--Antes de entrar na apreciação da resposta com que v.
exª me honrou em o n.º 366 do seu enteressantissimo jornal, permitta que
lhe agradeça o favor da publicação da minha carta, que motivou esta
resposta. Dito isto, peço egual favor para a inserção d'esta. Perdoe-me
v. ex.ª o abuso. É que eu com a alludida resposta, e outras que se lhe
possam seguir, ficarei _vencido_, mas nunca _convencido_: tal é o meu
obscurantismo a respeito das coisas do Brazil. Para demonstrar a v. ex.ª
que não fico convencido, é que escrevo mais estas desconcertadas linhas.
Creia que, se não fôra esta razão, deporia a minha penna de chumbo, que
jámais poderá vencer a de ouro, tão habilmente dirigida por mão de um
digno contendedor como v. ex.ª
N'essa resposta a que eu alludo, e á qual vou fazer algumas
considerações, suppõe v. ex.ª que me escandalizam as opiniões contrarias
ao meu livro e que me agradam as palavras _sacramentaes_ dos jornalistas
sem consciencia. Permitta que lhe diga, que, ainda mais uma vez tornou a
ser injusto comigo, injustiça que se estendeu a litteratos mui
distinctos, que se serviram apreciar o meu modesto trabalho.
Eu não me escandaliso com a opinião de criticos tão abalisados como v.
ex.ª; poderei escandalisar-me com as injustiças e apontar as
contradicções. E v. ex.ª foi injusto comigo e contradisse-se em alguns
pontos da sua apreciação ao meu livro. Desculpe a teimosia. Eu tambem
sou peccador como v. ex.ª Acredite-me com franqueza, que não dispenso as
palavras _sacramentaes_ de que falla, nem tão pouco as de censura com
que me distingiu, visto que, para umas e outras eu já estava prevenido,
ainda antes do meu trabalho ter saido a lume. Antes do apparecimento do
artigo de v. ex.ª já eu tinha recebido os jornaes do Pará, onde, a par
das injustiças, vi publicados alguns artigos bastante insultuosos. Já vê
v. exª que eu esperava flores e espinhos ao mesmo tempo. Mas eu sou tão
differente dos outros homens (e sinto que v. ex.ª me não tivesse ainda
comprehendido), que julgo importarem em pouco as palmas e as pateadas a
quem tem a consciencia tranquilla. E a minha, mercê do Altissimo, não o
póde estar mais. Comtudo agradeço umas e outras.
Folgo devéras, que não tenha visto em mim um embusteiro e apenas as
parecensas com quem foi exaggerado e apaixonado, isto com referencia a
alguns periodos do meu livro. Esta confissão agrada-me; mas é perciso
desfazer no animo de v. ex.ª essas ideas, que tão injustamante me
arroga. Eis o que ainda vou tentar.
Não ha exaggeração da minha parte, quando digo que a maioria dos
paraenses nos odea; porque, para comprovar esta minha asserção, me sirvo
das proprias palavras da _folha official_:
«Ao passo que o Japão se vae civilisando, o Pará, em vista dos ultimos
acontecimentos, está passando no estrangeiro como terra de selvagens!
«Pena é que as ideas intituladas _patrioticas_ (o exterminio dos
portuguezes), não tenham encontrado apoio sómente em meia duzia de moços
inexperientes.»
E basta. Isto significa um mundo de desgraças, que justificariam os meus
_exaggeros_ e a minha _paixão_.
O governo, representante do povo brazileiro, odeia-nos tambem porque
despresa a nossa causa, que é justa. Tomando o seu exemplo, os tribunaes
são quasi sempre facciosos, quando julgam o portuguez delinquente. Mil
factos o comprovam. E no nosso paiz não ha exemplo que os juizes julguem
nacionalidades. Haja vista ao processo do infeliz Vieira de Castro!...
Não se póde pôr em duvida a minha proposição:--_é ephemera a civilisação
no Brazil_; porque qualquer paiz civilisado levantar-se-hia contra a
propotencia sem egual, se parte d'esse paiz como acontece no norte
d'aquelle imperio, quizesse em pleno seculo XIX, repetir um novo S.
Berthelemy. E o povo brazileiro, permitta-me a repetição, é responsavel
pelos desmandos dos paraenses, porque até hoje ainda não vimos que os
seus representantes tomassem medidas energicas contra o estado de
effervescencia revolucionaria, que existe no Pará, ha mais de tres
annos. Nenhuma voz soou ainda no parlamento brazileiro, interpelando o
governo a respeito dos acontecimentos dos dias 6 e 7 de setembro do anno
findo; voz que ao mesmo tempo fulminasse um dos seus membros, accusado
com bastante fundamento, de estar á testa dos disculos. Este silencio
anima os desordeiros, que, contando com a impunidade, preparam novos
desacatos para d'aqui a pouco mais de um mez. E se elles se repetirem, o
que é muito provavel, porque as proclamações da _Tribuna_, sempre
attendida, cada vez são mais incendiarias, não terei razão de dizer que
o Brazil é um paiz de selvagens, porque á testa dos communistas vemos a
indifferença das auctoridades, os deputados do imperio, o clero e muitas
outras influencias?
Por muito menos que as barbaridades dos paraenses, não vimos nós, hade
haver 4 annos, um dos actuaes ministros, então deputado, interpelar o
governo por causa da pastoral do actual patriarcha de Lisboa? Não foi ha
dias censurado um prégador que, segundo se diz, insultára, em termos
mais convenientes do que os dos _tribunos_, algumas nações amigas? Não
me poderá v. ex.ª responder que os actos de repressão d'estes homens
foram ditados pelo meio da força, e sim pelo cumprimento do dever, que
todo o homem publico deve ter em vista. E o que fazem os deputados ou os
senadores brazileiros? Alguns, em pleno parlamento, já nos têem
insultado.
As doutrinas do jornal _A Tribuna_, que segundo dizem os defensores do
Brazil, não é acceite pela maioria dos paraenses, echoam livremente em
toda a parte: e desgraça é dizel-o:--semilhante jornal é o mais lido na
provincia, e mais de cem jornaes brazileiros trocam com este pasquim,
insulto permanente a tudo quanto é portuguez!
E desapprova v. ex.ª o epiteto de selvagem com que distingo aquella
gente; epiteto que, a fallar a verdade, será um pouco mais insultoso que
o de _gallego_ com que os brazileiros nos distinguem, porque _gallego_,
a meu simples entender, é synonimo de trabalhador, que mais honra do que
o do indolente. Mas de certo que o epiteto de selvagem não é mais
insultuoso que o de _ladrão_, _assasino_, _falsario_ e muitos outros com
que egualmente nos mimoseiam. Saiba v. ex.ª que, pelo ultimo paquete,
recebi eu muitas d'estas distinções! Pretenderá esta gente, com
semelhantes blasphemias, arredar-nos do banquete da civilisação? Mas eu,
chamando-lhes selvagens, não os prohibo de se civilisarem; com esta
distincção já mais os affastarei dos paizes cultos, onde em todas as
épocas têem apparecido, sem serem repudiados, alguns d'esses entes, no
meio da admiração e do rogosijo publico!
Não chamei ás mulheres brazileiras, adulteras e prostitutas; não digo
que o seu imperador é bebado e devasso; não distingo com os epitetos
mais infamantes o seu exercito e a sua marinha, cujas forças eu apenas
digo serem ephemeras, porque, effectivamente um pequeno exercito
europeu, faria do Brazil independente uma colonia de qualquer nação da
Europa.
Inflama-se v. ex.ª porque chamei selvagem á maioria dos paraenses,
epiteto que se poderá estender á maioria dos brazileiros, se elles de
futuro não protestarem contra o insulto de que temos sido e
continuaremos a ser alvo! O serem selvagens não lhes tira a honra de
serem respeitadores da vida e da propriedade alheia. Dizia Thevet, que
os _Tupinambas_ morreriam de pejo se vissem um seu visinho ou o seu
proximo carecendo d'aquillo que elles possuissem. Os delinquentes eram
castigados. Muitos selvagens se distinguiam pelo seu genio guerreiro.
Outros havia, antropophagos, que apresionavam as victimas, que afinal
eram os roubadores do seu paiz, e as comiam, depois de assadas nos
espetos de _marapinima_!
Já vê o meu illustre contendor, que nem a todos chamo _botocudos_,
titulo que bem podia caber aos assassinos de Jurupary. No Brazil ha
homens civilisados, especialmente no sul, que se horrorisam com os actos
de selvageria praticados pelos paraenses, a quem não distinguem com o
doce nome de compatriotas. Mas o que é quasi geral, especialmente desde
o Rio de Janeiro para o norte, é que os brazileiros, como acontecia ás
raças que antigamente predominavam na America do sul, odeiam os
portuguezes. Isto é que é irrefutavel. É uma verdade bastante amarga, eu
sei; mas... _quem não quer ser lobo_...
Insiste v. ex.ª sem duvida, por causa das boas relações que entertem com
_muitas_ familias brazileiras, em fazer _excepção_ do que, a respeito do
aceio das senhoras d'esse paiz, eu sustento ser _regra_; e para
contrapor a sua á minha opinião, diz que isto é questão de
_consciencia_. E eu, permitta-me que lhe diga, que é tambem questão de
_experiencia_; e no caso sujeito, parece-me que não vale menos uma do
que a outra. Para confirmar o que digo a tal respeito a pag. 181 do meu
livro, não irei, de certo, em procura de algumas familias, que ambos
conhecemos, as quaes exceptuarei sempre, mas que continuarão, por causa
da _experiencia_, que me faz _consciencioso_, a ficar em minoria.
Dizia M. de Tullenere, citado mais de uma vez por Ferdinand Diniz, no
seu livro _Le Brezil_, o seguinte respeito das brazileiras:
«Uma senhora vae á missa acompanhada por numerosos escravos adornados
com riqueza; e muitas vezes, em voltando para casa assenta-se n'uma
esteira, onde come com a mão, peixe salgado e mandioca.»
Ora, eu não creio que fique limpa quem, ataviada assim da festa, come o
peixe por similhante systema.
Aos francezes, inglezes e allemães, quando fallam assim dos outros
povos, respeita-se-lhes a linguagem, talvez porque são poderosos. Ás
mais pequenas exigencias, ás vezes injustas, segue-se-lhes a força dos
canhões! E nós, somos tão miseraveis, tão pequeninos, que nem ao menos
podemos dizer as verdades, como justo desforço contra tanta tyrania! É
assim o mundo. Quanto tens, quanto vales. Sacrifique-se a consciencia,
porque dizem ser forte o Brazil, que nos insulta! sacrifique-se a
consciencia, porque a familia brazileira, mais do que qualquer outra,
está relacionada com a portugueza!
Disse na minha primeira carta, que o meu illustre critico tinha sido
injusto comigo, e essa injustiça eu já a demonstrei. Disse mais que
tinha sido contradictorio, e o que ainda vou transcrever da sua
apreciação ás minhas _Questões do Pará_, corroborará mais o que já
disséra. Transcreverei apenas o primeiro e o ultimo paragraphos do seu
referido artigo, e assim juntos, é mais facil a apreciação.
Diz o 1.º:
«É uma interessante exposição de factos, que ministra muita luz,» etc.
Aqui o meu livro é recommendado aos leitores do _Districto de Aveiro_.
Resa assim o final:
«Afora isto, (as pag. 181 e outros logares?), era util que o livro do
sr. Pércheiro se vulgarisasse» etc.
As pag. 181 e _outros logares_ que o leitor do jornal ignora, porque v.
ex.ª não se dignou apontal-as, não devem ser lidas.
Conclusão logica:
_Afora o livro do sr. Pércheiro, era bom que o livro se vulgarisassse!_
Aponte v. ex.ª os taes logares, que eu e o paiz lhe agradeceremos tão
elevado serviço. Então, o leitor prevenido inutilisará as paginas sobre
que v. ex.ª fulminou o anathema, e poderá ler, sem escrupulo de peccar, o
restante das minhas _Questões do Pará_.
Era esta a obrigação do bom critico, que, como o historiador, tem que
ser muito minucioso para não ser injusto.
Terminarei agradecendo antecipadamente a inserção d'esta, pedindo ao
mesmo tempo mil desculpas pela divergencia da minha humilde opinião, o
que jámais me impedirá de ser.
De v. etc.